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30 de abril de 2015

Andreia Moreira - opinião sobre Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar? em Goodreads

A quem diz que não gosta de ALA

Proponho-vos um desafio: ler António Lobo Antunes. Não se riam. É caso sério. Desistem assim sem uma tentativa, pelo menos? Vão estranhar se nunca o leram, é certo. Estou segura, porém, que uma vez enredados jamais o quererão abandonar. É um dos geniais autores portugueses cuja obra completa tenho, a par de outros tantos, a aspiração de conhecer inteiramente. Se tiverem em conta que uma existência não chegará para ler tudo quanto almejamos, conceberão quão grande é a atenção que lhe pretendo devotar durante esta vida (de livros).

Chegassem estas linhas aos seus olhos e discordaria de cada uma. Divino, remoto, do fundo dos seus olhos azuis implacáveis, condenando-me o atrevimento. Tenho sorte. Não o ofenderei, decerto, com a percepção que guardo desta sua Obra (Edição em 2009). Quanto a vocês, já que aqui estão, percam mais uns minutos comigo e depois apressem-se a lê-lo se vos consegui cativar.

Que somos senão abismos? Derrocadas pessoais. Desmoronamentos às prestações. Frustrações e perdas. Uns mais afortunados que outros, ainda assim, que é a vida se não o caminho que trilhamos inexoravelmente para a morte, quais condenados? “Que negrume...”, dirão. Não é optimismo o que encontrarão na narrativa que proponho. Tentava tão só preparar-vos. É possível tanta desgraça numa só família (de origens Ribatejanas)? Neste livro é. E, apesar de toda a dor e de toda a miséria humana retratadas, há beleza imensa a perpassá-lo. Como se fora possível sentirmo-nos bem - Em êxtase, até. - mergulhados numa tristeza profunda, definhando.

Ler este autor é como nadar contra a corrente. Esbracejamos, ofegamos, perdemos o pé. De que nos serve defrontarmos o mar? (A sua desmesurada força.) Na iminência do afogamento, há que permitir que as ondas nos devolvam à costa. É então, quando nos deixamos guiar, flutuando nas palavras deste Mestre da escrita, que nos salvamos e simultaneamente nos perdemos. Já o li sem nomes para as vozes que habitavam o romance. Tarefa hercúlea manter-me à tona. Admito. Neste, porém, (re)conhecerão as personagens, sentir-lhes-ão o pulso, alcançarão porque acabaram, ou imaginarão como hão-de recomeçar.

Ana, João, Francisco, Beatriz, Rita, Mercília, Pai, Mãe...

Cancro, toxicodependência, desamor, prostituição juvenil, sida, subserviência, escolha, desistência, mágoa, loucura, ausência, violência, desgosto, abusos, traição, medo, abandono, ingratidão, confissões, lamento(s)…

...«Como esta casa deve ser triste às três horas da tarde.»...
...«(…) vai morrer às seis horas»...

NOTA: Não quero deixar de referir que, apesar de tudo quanto o livro encerra e que venero, abomino as alusões às lides tauromáquicas. Mas isso são já outras convicções que me habitam e que nada têm que ver com literatura. 


por Andreia Moreira
13.05.2013

24 de maio de 2014

Béatrice Putégnat sobre Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?

Leitura em apneia

Ao orquestrar o seu romance como uma tourada, António Lobo Antunes disseca o ritual da tradição portuguesa para contar a decadência e ruína de uma família de criadores de touros de lide. Os filhos aguardam a morte da mãe; vão abordando memórias. O desafio do presente? Saber do passado, talvez...

A princípio, abrir [este] romance de António Lobo Antunes é um pouco como mergulhar em apneia tendo como reserva de oxigénio apenas palavras, a escrita. Uma verdadeira experiência de leitura que nos leva ao profundo da mente humana, além da temporalidade, por lugares quase assombrados, povoados por objectos quotidianos aflorados como restos de vidas. Dito assim, o leitor suspirá dizendo para si mesmo: mais um romance ilegível ... Nada disso! A partir do momento em que mergulha de cabeça no livro, não mais o deixará. As vozes assombrosas das personagens levá-lo-ão por toda a parte. A construção é rigorosa. Assenta-se sobre a estrutura de uma tourada com sete capítulos: Antes da Corrida, Tércio de Capote, Tércio de Varas, Tércio de Bandarilhas, A Faena, A Sorte Suprema... Depois da Corrida. E, como nas touradas, tudo se resume a ferimentos, agonia e morte. Como a da mãe que se prevê na narrativa: num domingo de Páscoa, chuvoso, brevemente serão as seis horas, brevemente teremos a estocada final. Os seus filhos zelam, vigiam e dissecam interiormente os seus passados. As falhas, os segredos, vão sendo revelados manchando este fim da vida, o fim do reinado de uma família próspera feito por suas ganadarias. Até que tudo acaba e, em redundância, "como é triste esta casa às três horas da tarde". Ascensão e queda ... Por sua vez, durante cada fase da tourada, as personagens vão dedicando-se, por cada uma, de forma pratiamente ritualizada, aos seus motivos obsessivos. Como o ‘refrão infantil’ que dá título ao romance: "que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?". Ele assombra o discurso de Beatriz, a infeliz nos casamentos, a da incerteza e do pânico. Francisco, o filho rabugento, atormentado pela frustração e pelo ressentimento. Amaldiçoou o pai por desperdiçar a fortuna da família no casino. 17, número fetiche desse pai obcecado. Ana, a mais feia, vagueia pelos baldios em busca de sua dose de pó. João é consumido pela doença do amor por jovens rapazes. Finalmente, pouco a pouco, é revelado o segredo de Mercilia. Fruto do abuso sofrido pela sua mãe com o bisavô Marques. Tratada como criada, é ela quem conhece a intimidade das pessoas e dos lugares. Arrasta-se pela casa como uma sombra incómoda e indesejável. As narrativas sucedem-se dentro de um mesmo capítulo. Cada um dá livre curso ao seu delírio interior, aos meandros da sua memória. Como um marionetista, António Lobo Antunes agita os fios sob os olhos do leitor. Introduz-se no mesmo processo de escrita. Malicioso, conhece as personagens assim como estas o conhecem... Então deixo a Mercilia a palavra final desta história e deste artigo. Como um tributo ao seu criador ou provacação do autor para consigo mesmo: "o António Lobo Antunes esperando que as cheias do Tejo nos cobrissem a todos, sem ânimo de ler estas frases".


por Béatrice Putégnat
30.03.2014
Librairie Pages après Pages
Page
[traduzido do francês por Joana de Paulo Diniz]

3 de maio de 2014

Três artigos de opinião sobre Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?

A tradução em francês, por Dominique Nedellec, de Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?, foi publicada há pouco mais de um mês pela editora Christian Bourgois. Em Março, para assinalar a saída do novo livro naquela língua, António Lobo Antunes esteve em Paris onde falou sobre a sua escrita e pouco mais, uma vez que se recusa a falar dos livros que publica.Foi renitente em dar entrevistas, pelo menos uma entrevista no modo formal.

Sugeridos pela sua editora na Dom Quixote - LeYa, Maria da Piedade Ferreira, os três artigos que se seguem são desta ocasião e opinam sobre o mais recente livro do escritor em francês, Quels Sont Ces Chevaux Qui Jettent Leur Ombre Sur La Mer?. Os dois primeiros foram já aqui anteriormente publicados em posts separados, mas juntamos agora com o último, sendo essas anteriores publicações eliminadas.



1. Artigo publicado em Les Temps


Os gritos silenciosos das personagens de António Lobo Antunes

António Lobo Antunes tem o génio dos títulos. O romance mais recente já escrito mas ainda não publicado, o qual ele declara ser o último, tem como título em português "Caminho como uma casa em chamas". O anterior, publicado em 2012, vem de um enigmático verso de René Char: "Não é meia noite quem quer." Em Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar? não é meia-noite, mas seis da tarde, a hora em que a mãe irá morrer. São também as três horas da tarde, essa terrível hora em que as casas são tristes. Estes dois momentos marcam como leitmotiv esse muito chuvoso domingo de Páscoa, 23 de Março, numa quinta do Alentejo. 

Era uma vez uma propriedade próspera nessa grande planície ao sul do Tejo: uma ganadaria com cavalos, gado, servos fiéis, um poder feudal seguro de si. Hoje, o filho mais velho tenta salvar a carne que resta dos ossos de uma fortuna arruinada. O pai desperdiçou tudo nos casinos da costa, a apostar teimosamente no número dezessete; agora ele está morto. Restam Francisco, cheio de rancor, "nascido sem alma", ansioso por saquear seus irmãos e irmãs e expulsá-los da propriedade em ruínas; Beatriz cujos maridos a abandonaram, sozinha com uma criança não muito talentosa; Ana vagabundeando como uma assombração por Lisboa em busca de drogas que a matam; João, o consolo de sua mãe, implorando por um pouco de amor dos rapazes no Parque Eduardo VII, onde contacta com "a doença" ("Quanto levas menino?" ). E era uma vez Rita, a quem um cancro levou ainda muito jovem. Finalmente, aqui está a mãe, cuja morte é esperada. E Mercília, a criada sem idade, fruto de amores auxiliares e ancestrais, que Francisco se prepara para enxotar colocando-a num autocarro rumo a um lugar qualquer a partir das seis da tarde. Bem como a um bastardo que surge mais tarde neste concerto de vozes.

Essas vozes que são, talvez, uma única, pois, como em todos os romances de Lobo Antunes, elas aparecem como variações de um mesmo canto que se vão cruzando, respondendo, contradizendo e, às vezes, emaranhando-se , e que se rebelam contra "aquele que faz o livro" quem as obriga a agir, falar e sentir contra a sua vontade: "[...] serei uma criatura a sério ou uma invenção de quem escreve, uma marioneta, se calhar pensou 
– Preciso de uma mulher aqui 
e construi-me capítulo a capítulo aborrecendo-se comigo, talvez esperasse outra pessoa, palavras que o contentassem mais [... ]".

Se o autor "construiu" as suas criaturas por sua vontade, também edificou a estrutura de acordo com as regras da tourada, em cinco partes – “Tércio de Capote”, “Tércio de Varas”, “Tércio de Bandarilhas”, “A Faena” e “A Sorte Suprema” – emolduradas pela voz de Beatriz, “Antes da corrida" e "Depois da corrida”. Quatro vozes compartilham cada uma dessas partes, e outras se vão misturando, num queixume desafinado, o canto eterno do desamor e da solidão. 

Crianças perdidas
Lobo Antunes foi médico psiquiatra e conhece o ponto em que os homens são todos iguais, filhos perdidos no medo. Faz a interpretação dessa experiência num pico estreito entre o sublime e o cliché. No auge da sua obra abole a fronteira entre as coisas, os animais, as plantas e as pessoas, tudo se afogando na mesma angústia, soltando "gritos silenciosos" antes de desaparecer. Os corpos desfazem-se, as mãos já não agarram coisa alguma, perdem os dedos, aparecidos sob o olhar entediado de um "Deus mesquinho".

Os cavalos misteriosos do título provêem de um antigo cantar alentejano. É a sua sombra que Beatriz vê sobre o mar enquanto é deflorada sem ternura num carro à beira-mar. Este refrão magnífico, selvagem, de galope sobre os juncos, ritma a melopeia de que os leitores de Lobo Antunes reconhecem a cadência (actualmente muito bem traduzida por Dominique Nedellec): frases quebradas por linhas curtas, sem verbos, deslizando de uma voz a outra, perguntas sem resposta, regressos posteriores, recorrência a palavras padrão. É necessário deixar-se ir nesse enrolar das ondas sem o qual a exasperação espia diante tanto da tristeza acumulada, tanto das febres, das fotos dos antepassados, da água e das lágrimas (“e eu ao ponto de chover igualmente”). Mas se experimentada, ela traga-nos até ao mais profundo.

por Isabelle Rüf
em Les Temps

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2. Artigo publicado em Le Figaro

As sombras furtivas de António Lobo Antunes

Romance polifónico hipnotizante sobre a morte de uma mãe em Lisboa no dia de Páscoa.

Como há três anos, quando do nosso último encontro, tomou lugar no mesmo sofá verde do hotel na rua Vaneau, onde já é habitual e onde os seus livros entronizam uma vitrina no salão. Aos 71 anos de idade, António Lobo Antunes continua a não querer entrar nas regras de uma entrevista normal. "Por que me fazem perguntas? Eu não li os meus livros, apenas os escrevi. "

António Lobo Antunes: «Por que me fazem perguntas? Eu não li os meus livros, apenas os escrevi» - foto de François Bouchon / Le Figaro
Durante a conversa informal entre um cigarro na calçada e a chegada de um velho amigo que veio para almoçar com ele, deixa aqui e ali um pouco de si. Sobre este romance com um título tão antuniano, Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?, afirma: “Certo dia assisti a uma tourada em Barcelona, tinha eu sete anos. Fiquei com uma impressão ... vomitei, e uma marca foi permanecendo em mim”. Mais de seis décadas se passaram, mas para falar de quatro irmãos que prestam contas perante a morte da mãe, num Domingo de Páscoa em Lisboa, foi na dramaturgia tauromáquica que se baseou. Sete partes principais de quatro capítulos, em que os principais actores tomam a palavra, compõem este romance. E dentro deste quadro se desenrola a magia de um estilo como nenhum outro.

Após uma dezena de títulos, Lobo Antunes utiliza a forma de um puzzle feito de vozes que entre si se alternam, gritam, perdendo-se no limbo das memórias e que se apegam a motivos recorrentes. Francisco, João, Ana, Beatriz, quatro filhos, cada um vivendo à sua maneira a agonia da mãe. Até à sua morte (estocada final), cada um deixa falar as suas emoções, confessando a sua dor e gritando a sua raiva. Ou balbuciam, incapazes de dizer as coisas. A família está em destroços, arruinada por causa do pai. A doença e as neuroses corroem-na. Chove sem cessar, mas o escritor, que se faz convidado dentro da história, demiurgo provocador, adverte: "Não é a chuva que cai (...) São pessoas, os seus episódios, memórias, o sótão empoeirado que representa uma existência ".

João, o filho favorito, o filho maldito, paga com a carne a procura de rapazes do parque. Ana, por sua vez, não deixou o terreno baldio onde a esperam os traficantes e a sua próxima dose. Francisco amaldiçoa todos, pais, irmãos, culpados segundo ele por ter sido lesado, menosprezado. E Beatriz, pobre Beatriz em pânico, ela que continua a ver a sombra que os cavalos fazem no mar.

Como ex-psiquiatra, Lobo Antunes conhece as neuroses, as cismas infinitas, a impossibilidade de dizer e fazer. Ele conhece "o que nos mói, sem ninguém saber, o que nos custa sem que ninguém perceba e não me refiro aos nossos segredos encobertos, nem à nossa miséria consciente, todas esses bonecos mortos, todos esses olhos que nos esmagam de censura."

Ler a prosa do maior escritor português - que é também um dos melhores escritores do seu tempo - trazida pela tradução magnífica de Dominique Nedellec, é uma rara experiência, perturbadora e fascinante ao mesmo tempo. Como um sonho revelador. Como entrar nas sombras de Faulkner ou Virginia Woolf.

por Bruno Corty
16.04.2014

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3. Artigo publicado em Télérama


Lisboa, num dia chuvoso. Uma família analisa o auge do seu esplendor passado, e se desmorona de neurose. Uma obra electrizante.


foto Télérama
Ler António Lobo Antunes é como fazer um desporto radical, uma experiência ao limite cada vez mais emocionante. Apegamos-nos a cada palavra, como às grades instáveis de uma ponte improvisada, esticada entre dois picos. Avançamos passo a passo, sobre o vazio, sem um arnês narrativo, sem personagens de segurança. Tudo o que temos é apenas um relógio para nos aguentarmos. Em breve serão seis horas da tarde, e essa perspectiva parece tranquilizar as personagens, se é que podemos chamá-las assim, porque são mortos-vivos, entre duas águas, entre duas memórias, entre dois medos, e a sua noção de tempo é divergente da nossa.

A hora das três da tarde, a pior das horas, insuportável de tão triste, desde sempre lida no ângulo recto dos ponteiros, eis que se deixa discorrer numa verticalidade do tempo, num domingo de Páscoa, pelas agulhas da chuva. "(Se fosse livre para escrever sobre a chuva, vocês entenderiam tudo)", solta o autor entre parênteses, dando assim uma pista para avançar no seu romance: é preciso ver todas as gotas para se passar entre elas, colher todas as palavras para reconstruir os discursos. António Lobo Antunes gosta de conjugar o verbo chover com vivas pessoas: os seres chovem em cada virar de página, chovem de suor, de febre, de lágrimas. Quem são os habitantes deste livro feito de teias? Membros de uma mesma família, em diferentes regiões de uma nodosa árvore genealógica, alguns sob a terra, comendo raízes, outros sobre ramos frágeis quase separados do tronco.

Não têm nomes, não conseguem impôr a sua identidade, esmagados sob o peso das neuroses familiares. Todos têm um pensamento fragmentado, sofrendo entre a renúncia e a súplica, balbuciando como recém-nascidos ou moribundos. Apegam-se a imagens obsessivas, um travessão de cabelo ornado de pequenas rosas, um carrinho de criança no lixo, uma fruteira cheia de maçãs, a asa quebrada de um pássaro, e essas ideias fixas são centelhas na escrita eléctrica de António Lobo Antunes, pontos de luz brilhante dentro de uma verborreia inquieta. Muitos se refugiam no silêncio, cismarentos, para se tornarem estranhos a si próprios, desligados dos seus corpos, ao ponto de darem a mão a si mesmos, e ver os seus próprios dedos em segredo: "Parecem os meus, mas são os meus ? Eu sou um, eu sou dois, encontro-me a mim mesmo por caridade ... " Alguns, por fim, resistem contra o seu destino, e apanham António Lobo Antunes ao virar das páginas. Uma praga contra esse escritor que "salta frases sem me deixar chegar à seguinte e afoga num tanque gatinhos que eu sei que é para se livrar de mim", e um outro alerta: "Isto é um livro ? Se for um livro, eu não falo. " Em cólera contra o demiurgo, que os empurra para fora de si mesmos, quando tanto querem se refugiar, ocultar, desaparecer para sempre. Com raiva a esse mistificador que lhes corta o pio quando querem gritar. Vá embora, volte. Ajude-me, deixe-me em paz ...

O autor baseia-se nas suas memórias de ex-psiquiatra para alimentar o seu trabalho centrado no socorro. Como proteger os outros? Como se proteger dos outros? Entre estas duas perguntas, ele dança, recolhe-se, eleva-se e faz cantar o silêncio, porque "quase tudo acontece em silêncio, na vida, até mesmo os gritos."

por Marine Landrot
12.04.2014
Télérama n° 3352

[os três artigos foram traduzidos do francês por Joana de Paulo Diniz]

18 de fevereiro de 2012

¿Qué caballos son esos que hacen sombra en el mar?, de António Lobo Antunes, por Juan Mal-Herido

Nunca he podido acabar una novela de António Lobo Antunes: se pasa de genial. Es todo tan jodidamente genial que da pudor pasar páginas, quedarse alelado, sufrir con algo que, al cabo, no es otra cosa que tinta sobre un papel. Que Carlos Boyero lea a Lobo Antunes no se lo cree ni él.

No me cabe duda de que ¿Qué caballos…? es una obra menor de António con tilde en la O. A fin de cuentas, me la he leído entera; es más (y esto es toda la crítica literaria que hace falta): me ha maravillado.
El resto es tap-dancing, amores. Voy.
Nada me cuesta más de pillar en una novela que el argumento, las madres, los hijos, los nietos, el pasado y la herencia, ese perro, ese sobresalto o ese tren al que se tiran las infieles: no lo pillo. Por eso estoy siempre a favor de las novelas cuyo argumento no va a pillar nadie. Eso es democracia, todos idiotas.
¿…son esos que…? hay que leerlo sin enterarse: luego un tesinando o un profe de universidad nos dirá algún día de qué coño va el libro y quién habla a cada rato. A mí me importa un huevo. Esto se lee como cuando se cae en un país exótico, donde las cosas no se entienden y por ello se disfrutan. Leer con cuidadito los libros, los libro raros, es como ir aTailandia con una guía, que te lo vas sabiendo todo y cuando salen las putas de las esquinas no las identificas.
Lo de ¿…hacen sombra…? es lirismo, lirismos, lírica, poesía; punto. Hay quien lee lírico y lo flipa en putos colores; y hay quien es gilipollas. El gilipollas a lo lírico siempre lo tacha de cursi. Simplemente, no tiene ni puta idea en el paladar.
Lo lírico apoya las palabras en las cosas por conveniencia, porque las cosas no son más que el lastre sausseriano del idioma, un detritus. Lo lírico conjura la materia y la deforma en lo imposible: habla de cosas que no existen. Esto parece una paja mental que me hago, pero vean cómo las gotas de lluvia sobre el cristal, vistas en tantas vidas de otoño y en tantas películas de mierda, no son gotas sobre un cristal, sino esa cosa llamada literatura, reinventadas en esta novela por este señor: “se notaban las gotas que añadían cristal al cristal deformando los rosales a medida que caían, las ramas primero finas, después gruesas, después finas de nuevo”. Esto es escribir y esto es crear. Añadir cristal al cristal  es absolutamente poesía. Sólo esas cuatro palabras dejan en retraso mental cientos de poemarios. Y ¿…en el mar? viene atiborrado de hallazgos como ese, de visiones del mundo, de las cosas, que dejan atrás las cosas para hacer un mundo propio, el literario.
Esto no lo puede entender la gente porque somos unos pocos los que sabemos leer. Es unapena, pero es lo que hay.
Luego - aparte de la compleja relación de narradores que encontramos en el libro- hay que considerar por qué Lobo Antunes no va a ser un autor en la historia. Su narrativa no deja de ser un efervescente epílogo del siglo XX, con Faulkner, Bernhard y Beckett como dioses tutelares. Como dice mi maestro, estamos en el siglo de la síntesis, y ahí su compatriota Tavares le lleva una ventaja estructural. Tavares es siglo XXI; Antunes es coletazo.
Pero con frases como la que voy a dejar para cierre del post, Antunes es mi dios instantáneo:
iba a escribir ternura y me he retenido, qué peligroso despertar palabras cuyo temperamento ignoramos
en Lector Mal-herido Inc
09.02.2012

12 de fevereiro de 2012

Juan Soto Ivars: opinão sobre Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?


Fazer uma resenha de um romance de António Lobo Antunes é de uma estupidez suprema, uma resenha pretende demonstrar que se compreendeu o livro, e por isso alguns escritores incipientes como manchas cancerosas na pele da literatura tentam com que os críticos e os leitores não entendam nada, pois assim poderão salvaguardar-se das más críticas afirmando "não entenderam", o que vem a ser mentira: seguramente o crítico não terá entendido outra coisa, se o romance, se o desejo de fazer um romance, mais do que o romance em si; não terá entendido que um romance mau não merece nem crítica nem resenha, merece perder-se no silêncio com todos os outros romances que têm entrado nesse forno onde as chamas não crepitam,
«eu que não suporto pássaros, pega-se-lhes e o coração, de tão frágil, dá medo»

talvez fazer um resenha de Lobo Antunes sirva para matar esse silêncio ou para demonstrar o entusiasmo que produz cada novo livro, para enviar um postal de agradecimento a António Lobo Antunes, que se permite ao luxo de escrever aos seus leitores, de escrever-lhes, havia de fazer-se cursos onde se explicasse como ler Lobo Antunes, cursos onde se dissesse: é preciso abrir o livro e começar a ler, passar as páginas com o olhar atento às palavras que nem sempre compõem frases, às imagens que nem sempre chegam no momento esperado,

«não escancaramos armários nem tombamos copos, não perguntamos- Fico aqui a eternidade inteira?»

e também há que estar louco para fazer-se uma resenha de Lobo Antunes que não escreve romances, ainda que tenha escrito a palavra romance antes, mas não escreve romances, os romances são livros que começam na primeira página e acabam na última, porém se os livros de história são livros feitos em pedaços porque a história não cabe num só livro, se os livros de poemas são livros que se podem abrir numa qualquer página, se os ensaios são livros suportados pelo andaime dos índices, então agora decido: Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar? é um livro de poemas, Lobo Antunes um livro de história, uma crítica sobre os livros de Lobo Antunes não pode

«percebia Deus no compartimento à esquerda dando corda aos planetas»

ser um ensaio, há que escrever como Lobo Antunes como se fosse Lobo Antunes a escrevê-lo, há que deixá-lo tomar as rédeas, é preciso embriagar-se de Lobo Antunes para escrever sobre os seus livros qualquer que seja, e dirigir-se aos demais com uma máscara ridícula de Lobo Antunes mas sem a pose a empurrar-nos para um entusiasmo bem longe de Lobo Antunes, a primeira vez que li os seus apelidos pensei mas que má sorte chamar-se António e ainda por cima apelidar-se Lobo Antunes, e desde então li todos os livros de Lobo Antunes publicados pela Mondadori e outros e disse à mulher que faz os comunicados da editora: envia-me o novo livro que quero fazer uma crítica, porque já era hora, e tinha lido o suficiente amar uma pedra morte de Carlos Gardel em Babilónia boa tarde

«previa o passado pois prever o futuro qualquer idiota consegue»

pois devo estar louco para fazer uma crítica, para dar ares de académico ou jornalista, e não acertar no livro nem num milímetro com o leitor, dizer que este é o pior romance de Lobo Antunes porque consegue-se entendê-lo, é preciso estar louco, que é um livro cuja estrutura é a de uma corrida de touros, louco varrido, que a família rural que fala com voz de Lobo Antunes no livro desabou há muito tempo e não tem personagem principal, tolo da cabeça, que a filha toxicodependente da família se chama Ana, insensato, que o irmão mais avarento se chama Francisco e acelera a falência, desvairado, que ao desfolhar as páginas da primeira à última presencia-se o colapso completo de uma família com todos os seus membros e ninguém sabe que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar, não ponhas, põe

«e sou eu, tudo protesta na gente, se levanta, recusa, no caso de me buscarem no parque não tornarão a achar-me, acham sujeitos que se escapam e os rapazes sem mim, evaporei-me conforme as notas dos defuntos se evaporaram das páginas, o livro de cozinha a que alguém colou a lombada com um sujeito de barrete alto e colher de pau a dilatar-se na capa, o caderno de receitas com notas a lápis e as últimas folhas vazias aguardando uma salada, uma sopa, uma complicação francesa, os pesos da balança a decrescerem na caixa de pau como as unhas dos pés, se tivesse de falar no pior que em aconteceu na vida não mencionava a doença nem os problemas com os rapazes nem o desprezo dos outros que em evitam, se tivesse mesmo de falar(espero não ter mesmo de falar)do pior que me aconteceu na vida lembrava a minha mãe de tesoura em riste- Chega aquideterminada, feroz- Queres que te aleije é isso?eu a pedir em lágrimas- A pequenina não a pequenina nãoenquanto me puxava no sentido do candeeiro e me torcia o ombro
- Não me dá jeito assimeu com a certeza de pingar sangue no tapete, sem dedos, a minha mãe juntando(Varela, Pereira, Rebelo, Taborda)aparas no cinzeiro, um perfume diferente daquele que usa agora, mais forte(a minha mãe não Julinha, Maria José)e sob o perfume não um cheiro de velhice e doença(não sou doente)cheiro de carne que hoje sei que nova(você nova senhora, você nova)e a nuca tão branca, que estranho as idades, se tivesse tocava-lhe mas não tenho, cortou-mos de modo que eu onze ou doze apenas que de pouco me servem, poiso-os na beira do lençol perto da almofada(é fantasia minha ou a chuva abrandou?)e não vejo ninguém a salvo(as minhas mãos com menos osso que as do padre)a minha irmã Beatriz no automóvel diante das luzes dos barcos a escrever o próprio nome no vidro embaciado».


por Juan Soto Ivars
11.02.2012
[traduzido do castelhano por José Alexandre Ramos]

21 de janeiro de 2012

Francisco Solano: opinião sobre Qué caballos son aquellos que hacen sombra en el mar?


A substância do trivial

Este romance de Lobo Antunes é divulgado pela editora com esta afirmação do autor: "Um livro ideal para dar trabalho aos críticos. Queria escrever um romance à maneira clássica, que destruísse todos os romances feitos desta forma". Também Joyce, com Finnegans Wake, se propôs a manter ocupados os críticos por trezentos anos. Estes excessos revelam uma patologia de ambição literária. Faulkner, outro gigante, disse que havia de julgar um escritor pelo esplendor do seu fracasso. Para os três a literatura é uma arte de exploração que inclui o receio da descoberta, não dar nada por concluído. Esta qualidade predomina na escrita de Lobo Antunes. O leitor que tenha conhecimento da sua extensa obra não estranhará estes monólogos obsessivos, vozes que se cruzam urdindo uma teia cujos contornos dificilmente aparecem claros. Nada é de todo preciso, e não obstante poder-se-ia dizer que contemplamos o magma de uma memória que ferve revelando-se com a máxima transparência que as palavras permitem, que na obra de Lobo Antunes tratam de mostrar o que não elas não podem dizer. Algures nestas páginas uma voz reconhece: "Quais são as memórias de um cérebro que se decompõe".

Ao contrário de outros livros, impregnados de um substrato dramático que coloca a obra em movimento, não existe em Que Cavalos São Aqueles Que fazem Sombra No Mar? nenhum motivo central que manche a intriga que tecem as vozes distintas. E se tivéssemos que encontrá-lo talvez fosse na própria família, como instituição dividida, composta por numerosas tensões, incompreensão, humilhações e dor. E como essa família, a prosa adquire um desmembramento semelhante. Não existe aqui, de facto, nada que agarre o leitor. Cada voz, quando é reconhecida (ainda que ela nunca se reconheça a si mesma), tende a ser sobreposta pelo irromper de outra voz que se mistura mudando a perspectiva, de forma que as personagens se evaporam na sua pretensão de se constituírem ao contrastarem-se com as demais, e os múltiplos saltos que desmoronam a sintaxe obrigam à recorrência no estilo de estribilhos e chavões que significam pouco mais do que uma alusão para identificá-las. É preciso deixar, portanto, esse empenho - legítimo, mesmo assim - de compreender o que se lê, pelo menos da forma imposta por uma leitura tradicional. Lobo Antunes propõe uma leitura desprovida do interessante; dissipa a ilusão de vermos, agradando-nos à distância, a personagem numa montra, apenas o efervescer que a concretiza, em que o não dito e desconhecido ("somos sempre outra coisa e por baixo disso outras coisas escondidas") emerge com a mesma relevância que o substancialmente narrado: a discórdia entre os irmãos, o envelhecimento do pai, a criada que guarda os segredos (que todos conhecem) dos membros da família, os desastres amorosos que fomentam a lenda familiar, a mãe resignada ao esquecimento.

Não é possível isolar um aspecto deste romance sem violentar o seu dinamismo. Certa vez Lobo Antunes afirmou que "O livro é um organismo vivo, que nada tem que ver comigo, com o seu próprio temperamento e sua própria fisionomia". Mais do que um romance, parece a descrição de uma personagem. Também tem reafirmado que os seus romances não são polifónicos, mas uma só voz com diferentes tons. A combinação das duas afirmações suscita a configuração de que o romance, antes que uma estrutura, se constitui afinal em personagem. Talvez, se não estivermos demasiado errados, que isso possa servir para caminhar por estas intrincadas páginas cujos capítulos seguem a ordem de uma corrida de touros, com os seus precedentes, os deferentes tércios, a faena, a sorte suprema, e o sabor amargo que nos deixa a conclusão da cerimónia.

O romance chama o leitor a manter uma agitação que esteja à altura das exigências de Lobo Antunes, um autor que, por tê-lo dito de alguma forma, há muito tempo que rompeu os vínculos entre enunciado e significado. Criou um estilo em metade de índole psicológica, auto-referencial, e outra metade imprevisível. Aqui o imprevisto domina todas as incidências dessas vozes que se desvanecem para não se destruírem. Esta, aquela, essas vozes rompendo-se, nunca antes, até à escrita de Lobo Antunes, haviam sido criadas em literatura. Para aceder a essa sonoridade é preciso ler de um modo diferente. Ou talvez escutar.

por Francisco Solano
fonte: El País
14.01.2012
[traduzido do castelhano por José Alexandre Ramos]

10 de dezembro de 2011

Dilma Barrozo: opinião sobre Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?

Que livro é esse que nos faz ...?

Confesso que não conhecia o António Lobo Antunes e o nosso primeiro contacto foi simplesmente mágico, do tipo amor à primeira vista. Na verdade fui fisgada pelo fascinante título do livro "Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?". Estava na livraria , escolhendo o que comprar e quando me deparei com ele, não hesitei, já sabia que tinha achado algo especial. Com um título tão poético e sugestivo, que nos leva a interagir de imediato, porque faz uma pergunta, não há como resistir: todos vamos querer saber qual a resposta para essa pergunta ou, pelo menos, que caminhos nos levam a ela.

É um livro apaixonante em que a trajectória de uma família é narrada pelas diferentes vozes de seus integrantes (vivos ou falecidos). Essas vozes se alternam, se misturam, se enroscam na narrativa, disputando espaço e combatendo durante todo o texto como o fizeram ao longo de suas vidas. A mãe em seu leito de morte, uma filha drogada, outra, a infeliz sobrevivente de dois casamentos desfeitos, um filho homossexual discriminado, o outro egocêntrico e ganancioso, o pai, (já falecido) frequentador assíduo de mesas de jogos e mulheres e a filha falecida na juventude. Além deles, membros oficiais da família, também narram a história a empregada (que também pertence à família) e um filho bastardo.

Não é um livro fácil. É preciso calma pois se trata de um texto para ser saboreado, até porque é dessa forma que avançamos na leitura: lenta e prazerosamente. A ausência de marcadores que definam de imediato de quem é aquela voz, nos obriga a constantes retornos a páginas anteriores.

Ressalto ainda outro aspecto super interessante da narrativa, a sua metalinguagem, as constantes referências ao ato de escrever, às palavras a serem utilizadas pelo personagem e principalmente ao autor, que várias vezes é citado nominalmente.

É um livro imperdível, daqueles que retomaremos várias vezes ao longo de nossas vidas.

por Dilma Barrozo
fonte: skoob
27.01.2010

4 de abril de 2010

Daniel Osiecki: opinião sobre Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?

O tempo e a dissolução do ser

Desde o surgimento de Ulisses (1922), de James Joyce, vários escritores pelo mundo deixaram de se preocupar com a história que está sendo contada e passaram a se preocupar com a forma que a narrativa se desenvolve. Alguns desses nomes são Virginia Woolf, Hemingway, Raul Brandão, Vergílio Ferreira, etc. Em muitas obras destes autores há a preocupação clara em como contar os fatos, e não simplesmente contar esses fatos de forma linear, estanque, com início, meio e fim.

Na moderna literatura portuguesa o principal nome talvez seja António Lobo Antunes, que não goza da mesma fama de seu conterrâneo José Saramago, mas não deve absolutamente nada em termos de qualidade. Lobo Antunes aprimorou muito sua escrita desde seu primeiro romance, Memória de Elefante (1979) até seu mais recente trabalho publicado, Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar? (2009).

Segundo o próprio autor em entrevista a Mário Crespo [...], Lobo Antunes afirma não ser mais o mesmo escritor do início de sua carreira. Basta ler seus livros publicados a partir da metade dos anos 90, como O Manual dos Inquisidores (1996), O Esplendor de Portugal(1997), Exortação aos Crocodilos (1999) para notar a grande diferença entre essas obras mais recentes e as primeiras, publicadas a partir do início dos anos 80.

Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar? segue as mesmas características das suas obras mais recentes, como a ausência de vírgulas, pontos de interrogação, como se a narrativa simulasse o próprio pensamento, o fluxo de consciência. O romance polifônico de Lobo Antunes narra a trajetória da família Marques, família abastada que conforme o tempo vai passando vai perdendo seus bens materiais e seus laços íntimos.

O romance é narrado por cada um dos irmãos, Francisco, homem amargurado que deseja tirar todos os bens que restam da família quando a matriarca morrer; Beatriz, mulher também amargurada, com um filho e dois casamentos fracassados; João, homossexual que se encontra à noite com garotos de programa; Ana, jovem que se envolveu com drogas e Rita, morta muito cedo por decorrência de um câncer. A mãe, em seu leito de morte também narra seus devaneios, delírios, lembranças e também o que acontece no presente. O pai também narra suas peripécias com o jogo, que foi um dos motivos principais da falência financeira da família, e também há o relato de Mercília, a empregada que descobre-se no final que também fazia parte da família, é uma bastarda que a vida inteira foi criada como empregada para manter as aparências.

Este longo e complexo relato de múltiplas vozes trata basicamente da dissolução financeira e moral de uma família portuguesa, mas poderia ser ambientada em qualquer lugar do mundo. É uma situação universal que por meio de lembranças e devaneios a quinta da família ou sua casa em Lisboa formam um microcosmo da sociedade moderna.

Durante todas as narrativas do romance há uma pergunta que faz uma espécie de costura entre as vozes da família, que é o próprio título, que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar? Essa pergunta é um eco de um tempo distante que aparentemente parece um delírio, um sonho, e é esse tom onírico que é mantido até [a]o final do romance.

O significado do título, a uma primeira leitura, remete à infância de Beatriz, ao tempo perdido, mas conforme as narrativas vão se sucedendo os outros membros vão repetindo essa pergunta também com esse significado, de encontrar algo que não existe mais, pois os cavalos do título são os cavalos que a família tinha na quinta (fazenda), que agora é um lugar sem vida e decadente, com alguns empregados que ainda sobrevivem ao tempo, e o mar significa a imensidão, o ir e vir sem fim que é refletido na própria narrativa fragmentada, simbolizando a vida. Portanto, a chave para a compreensão do título em momento algum é entregue ao leitor, ele tem que buscar seu significado em cada voz, em cada capítulo, em cada lembrança desses personagens obscuros.

Como já dito anteriormente, as vozes que aparecem nas narrativas são dos membros da família e também da velha empregada da família, Mercília. Mas no penúltimo capítulo aparece mais um narrador, que não é nomeado, mas desde muito cedo aparece na narrativa dos outros, trata-se do irmão bastardo de Francisco, Beatriz, Ana, João e Rita, que o pai teve com uma criada da quinta, chamada Benedita. Esse último narrador aparece com a intenção de dar a palavra final, de entregar toda a hipocrisia e imoralidade da família escondida durante tantos anos, e é o que ele faz. Mesmo sem querer, sem se interessar por algum bem material, ele vem como se fosse um messias e dá o tiro de misericórdia e assim, desta maneira, direta e arrebatadora, entrega mais um segredo sujo, mais um tabu da família.

Com esse final, a família deixa de existir, tomada por sombras. E o capítulo derradeiro, o que encerra o romance, que é narrado por Beatriz, fecha de uma vez por todas um ciclo de exploração, corrupção, carência moral e diversas mazelas sociais representadas pela família Marques. É com esse tom de amargura, dissolução e solidão que Lobo Antunes compõe uma de suas obras mais relevantes de sua carreira.


Daniel Osiecki
Távola Redonda
03.04.2010

31 de março de 2010

R.B. NorTør: opinião sobre Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?


Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?...

...Ou uma viagem às memórias de uma família. Ou uma viagem às memórias dos elementos de uma família. Ou uma viagem às memórias de cada um nós, no dia em que o nosso mundo se desfaz, uma viagem às profundezas da memória individual, não só de cada um, como de cada família, realizada através dos desabafos e das recordações de uma família de proprietários do Ribatejo.

É uma família atormentada pelas suas memórias, aquela que António Lobo Antunes nos traz nesta obra. Um pai morto e uma mãe a morrer, a empregada/ama bastarda e os filhos desavindos e desviados, quais alegorias dos males modernos que fervilham dentro de nós e nos fecham ao mundo dos outros. Somos levados por Lobo Antunes aos seus pensamentos enquanto esperam pela morte da mãe (não que a mãe não partilhe também as suas angústias do leito da morte) todos deambulando pelo solar dos Marques, percorrendo os seus locais e as suas janelas que engrossam, locais onde as suas memórias se ligam com o presente e nos desfilam as suas virtudes defeituosas e os seus traumas.

Em tempos sombrios, nos quais se vive sob o signo da (o)pressão e a palavra liberdade serve de máscara para limitação, a obra de Lobo Antunes não é um farol, mas não é mais uma pesada âncora para nos deprimir. Fazendo uso da sua experiência médica, somos conduzidos a uma consulta, o relato é isso mesmo, um relato, não um texto de reflexão, mas donde se pode retirar muita matéria para tal. Assume-se o texto como um elaborado apelo a que lidemos com os nosso fantasmas, um encorajamento a que deixemos para trás o peso morto de memórias dolorosas, que encaremos os defeitos de frente em vez de os ignorar e esconder em nome de uma qualquer aparência deturpada e de um status obscuro.

A escrita é a do estilo elaborado e muito próprio do autor, revelando-se de alguma dificuldade para quem espera uma narração toda ela linear e monótona. A necessidade constante de passar para o papel uma linha de raciocínio, com todas as que se cruzam nele, qual neurónio com as suas ramificações, faz com que a escrita se enriqueça, com frases de vinte páginas, como o individuo que sozinho no quarto, reflecte sobre si. O complexar dos raciocínios não aumenta no entanto a complexidade da escrita e após alguma habituação o leitor entrará facilmente no ritmo de leitura, apesar de eu recomendar que os primeiros capítulos sejam lidos de uma assentada.


por R.B. NorTør
em O Bug Cultural
31.03.2010

30 de janeiro de 2010

Filipa Melo: sobre Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?


Arena de fantasmas

Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar?, vigésimo primeiro título de ficção para 30 anos de produção literária publicada de António Lobo Antunes. Prepare-se: são 375 páginas, sete partes e 22 capítulos para uma lide de morte entre o escritor e um curro de nove personagens, uma longa polifonia de monólogos. A estrutura perfeita para uma corrida que inclui tércio de capote, de varas e bandarilhas, faena e sorte suprema (títulos do que chamamos partes). No final, encerrada a corrida, as vísceras do touro (afinal, o autor ou as personagens?) no centro da arena, o seu fim anunciado. E uma pergunta: como envelhece um escritor que deu a hipótese da vida à escrita como quem vende a alma ao Diabo? Um autor que não aceita calar as vozes que o acompanham desde sempre, vozes, afinal, só (d)ele. Insiste em que as continuemos a escutar, nós, os leitores fiéis (os outros muito dificilmente resistirão ao atrito do caminho), extenuados por suspensões, elipses e ataxias sintáticas, monólogos entrecortados e discordantes, inserções parentéticas e descontinuidades tipográficas, nós, os leitores fiéis, como um cônjuge num matrimónio assimétrico e desgastado por reminiscências e redundâncias, a desesperar pela surpresa da pontuação numa narrativa linear, de algo que ainda justifique o esforço e a atenção desmedidas. Uma personagem diz: «se me calar acabo». E outra, nas últimas linhas do romance: «e mal as vozes se calarem levanto-me e regresso a casa. Quer dizer não sei se tenho casa mas é a casa que regresso.» O dia do romance é um chuvoso domingo de Páscoa, final do jejum, e não haverá outro, como na Ressurreição.
 
Situe-se: Há uma quinta no Ribatejo, com gado, azinheiras e cavalos e um empregado que é filho bastardo do patrão e de quem ninguém na Família pode dizer o nome («Nasci assim sou sozinho»; podia dizer como o escritor um dia, «sinto uma enorme orfandade porque a minha origem não me interessa e as pessoas de que gosto pertencem a outra classe que me olha com desconfiança»). Há a casa de Lisboa e, nela, prevê-se que às seis da tarde, morrerá a Senhora Maria José Marques (tem 66 anos, quase 67, como o autor enquanto termina o livro), aos cuidados da criada velha, Mercília («um passo de lagosta e avental e bengalas», «o nariz dos Marques», a pobre esperança de ternura para todos). Enquanto se aguarda a morte da Mãe, falam todas as personagens do livro, incluindo as já encerradas nos álbuns de retratos (o Pai, jogou a fortuna na roleta do Casino; a filha Rita, «sorria para a lua», morreu de cancro), mas sobretudo os filhos vivos: Beatriz (a única colocada pelo pai na garupa do cavalo, envergonhou a família, «num estacionamento frente ao mar contando as ondas e as luzes dos barcos»), Francisco (nasceu «para ser cruel», «roeu os ossos da família», quer a carne que resta), Ana («tão feia», «a filha que se droga», «o que sobra de nós quando não existimos») e João («queria ser menina é verdade», resta-lhe «o parque à noite e os rapazes à espera», «escolhendo o mais novo, o mais pequeno, o mais parecido comigo», e «a doença a doença a doença» - a Sida, não o cancro, que corrói tantos no livro).
 
Desta vez, Portugal é uma referência breve: «isto é um país de cachorros, tudo ladra senhores». O tempo é o das memórias de cada personagem (afinal, o do autor?), tempo perdido, o da infância, da «gaveta dos mortos», do relógio (o escritor a revelar, numa crónica de 2003: «Na mesa de escrever o relógio do meu bisavô [doente de cancro, suicidou-se com um tiro na cabeça]. É uma ferradura vertical […] No topo da ferradura uma cabeça de cavalo»). O tema mais explícito serve de epicentro da obra desde o primeiro romance (Memória de Elefante, 1979): a relação entre os pais e os filhos (já se verá, será também a relação entre o autor e as suas personagens, como a entre Deus, o Filho e os homens?). O livro, esclareceu o escritor em crónica de 2008, nasceu do título, «que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar», verso de uma modinha de Natal do século XIX, de camponeses analfabetos que nunca viram o mar. Procure-se nele a explicação dos pássaros para o voo ambiciosíssimo deste romance.
 
A surpresa vem da presença manifesta do autor no texto, referido e interpelado pelas personagens como «António Lobo Antunes» ou «o que escreve». A criação, «o livro» como faena de confissões e memórias, é obra a que o autor força as personagens («se tento parar numa esperança de resposta o que faz o livro esporeia») até à revolta final (continuam a falar as personagens: «sou uma pessoa, não uma invenção nem uma marioneta, vocês que lerem isto respeitem-me», «chegando ao final deste capítulo evaporo-me», «que maçada de relato me impingiram»). E uma delas diz: «Continua vivo que teima». Confunde-se a voz autoral com a de cada personagem («este é um romance de espectros, quem o escreve por mim», «as vozes do meu medo»). E há momentos de striptease do processo de escrita: «como me aborrece o que escrevo», «como me perturba o que escrevo», «se o António Lobo Antunes batesse isto no computador carregava em teclas ao acaso, não importa quais, até ao fim da página (…) com vontade de encostar por seu turno a cara a mim [Mercília], tapar os ouvidos, não continuar o livro», «não me apetece escrever o que falta», «(lá estou com conversas a passear na página)», «se reescrevesse o episódio […] mudava a prosa toda», «(comprovem se já mencionei a quinta, mal acabo uma página roubam-na)».
 
Expliquem-se os cavalos, as sombras e o mar, simbólicos. Os cavalos conotados com Eros, o desejo e a pulsão erótica, reprimida, castrada na existência de todas as personagens. Cavalos a correr com o freio nos dentes e sobre o mar, o símbolo da consciência profunda de si mesmo, a infância de tudo, exposta, escancarada por todos no «livro». E «que livro é este senhores onde perguntas sem fim»? O filho e irmão bastardo, enquanto todos aguardam uma morte, entra por fim na casa paterna. O romance é, como todos os outros do autor, alimentado pela sua memória do eu, um longo monólogo interior transferido para as personagens que ele não cala nunca, maior o medo de um dia não as manipular. Ao contrário de Pessoa, que projecta outros para fora de si, com biografia e existência próprias às quais se submete, os outros de Lobo Antunes são todos introspectivos, introversos, são reflexos-sombras que morrem sem ele. Não é o país que se autopsia na página; é ele, autocomplacente, mas suicida, o escritor-médico que envelhece escrevendo, autopsiando-se em vida, ne varietur, com revisão filológica.
 
A última linha de O Esplendor de Portugal (1997) repete-se, reafirma-se em Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar?: «Finis Laus Deo» (chegamos ao fim, um louvor a Deus). E podia ser, finis coronat opus (o fim coroa a obra), se como o poeta, Lobo Antunes deixasse todos no seu «regresso a mim» (Pessoa). Mas este homem, o escritor, escreve contra as sombras (o silêncio), contra a morte. Assim: «podia terminar neste parágrafo e não termino, prossigo, mesmo que tentem impedir-me prossigo, não morro, quanto mais me desejarem a morte eu mais vivo onde não sabem quem sou nem se importam comigo, um senhor na mercearia em que mal se repara e se perde em seguida sem fazer sombra em parte alguma / — Que senhor é aquele que não faz sombra em parte alguma?»


Filipa Melo
28.01.2010
(crítica publicada na revista Ler de Outubro 2009)

Alfredo Monte: Miasmas familiares em Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?

“começo a pensar se é que se pode chamar-se pensar a um ressentimento antigo…” (António Lobo Antunes, Eu hei-de amar uma pedra)

Além de ser uma obra-prima, Eu hei-de amar uma pedra (o trecho acima pode ser encontrado na pág. 316 da edição brasileira, pela Alfaguara) tem um título que é emblemático da visão de mundo que sustenta a obra de Lobo Antunes. Só não gosto, nesse romance, de um detalhe, que não chega a atrapalhar, mas que me parece “sobrar” na tessitura geral. Na pág. 127, lemos: “ou sou eu que imagino ou o António Lobo Antunes julgando que devo imaginar a fim de que o romance melhore”.

Creio que ele usa esse recurso a uma “janela” metalinguística de forma mais feliz e consequente no seu mais recente romance, QUE CAVALOS SÃO AQUELES QUE FAZEM SOMBRA NO MAR? (ninguém pode ser pego de supetão para dizer esse título, vai se embaralhar todo). Os narradores debatem com “o que faz este livro”, com a chamada instância autoral com o próprio Lobo Antunes, cuja participação também é problemática, pois, além de ser interpelado pelas suas criaturas, afigura-se-nos que ele está numa corrida contra o tempo. Ele já afirmou que após os 70 anos (e, nascido em 1942, portanto está quase lá) ninguém produz nada que preste. Então pode-se ler o seguinte nas págs. 108-109 do novo livro:

“o que pensará minha mãe nesta altura, aposto que não há há espaço nela para pensar (…) e no entanto suponho que gorjeios, risinhos, uma palavra feita pedido de esmola ao telefone
Por quê?
porque o mundo não se incomoda com a gente senhora (…)
Por quê?
numa parte da minha mãe que nem estou certa que exista, o que sobeja quando não existimos, em que pensarei eu, este livro é seu testamento António Lobo Antunes, não embelezes, não inventes, o teu último livro, o que amarele por aí quando não existires…”

Como se sabe, nesta última década, talvez premido pelo “prazo” que decretou com suas declarações sempre um tanto dogmáticas, ele se lançou a uma tarefa ciclópica, quase assustadora (parece até que ele é um pactário, um Adrian Leverkühn), de lançar um após o outro uma série de livros “totais”, de uma amplidão que não deixa margem a dúvidas sobre quem é o maior nome da ficção em língua portuguesa dos nossos dias. Assim tivemos depois de Eu hei-de amar uma pedra (2004): Ontem não te vi em Babilónia (2006), Meu nome é Legião (2007) e O arquipélago da insónia (2008).

E agora mais um tour-de-force. A Alfaguara tem optado por manter a grafia de Portugal nas suas edições de Lobo Antunes, como outras editoras que estão fazendo o mesmo com seus lançamentos de autores lusitanos, entretanto não será essa a maior dificuldade do leitor que não está acostumado à sua linguagem peculiar, seus parágrafos que começam com letra minúscula (como se acompanhássemos um fluxo que não começa nem acaba) e se interrompem, os inúmeros parênteses que se abrem, as frases-refrões que surgem e ressurgem na boca dos mais diversos narradores, os fatos que parecem muito concretos e realistas e depois se tornam irreais e fantasmáticos… Na minha opinião, a obra dele é tanto um projeto modernista, no sentido de buscar a totalidade (como fizeram Joyce, Proust, Mann, Faulkner, Guimarães Rosa, Hermann Broch), quanto um projeto pós-modernista, no sentido de sombrear essa totalidade com seus escombros (o projeto modernista de Musil, que ficou inacabado, gigantesco fragmento, os autores pós-Beckett, que não acreditam mais em enredo, em personagens, no próprio real…

Ainda assim, Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?, por incrível que pareça, é mais fácil de ler que os anteriores (em O arquipélago da insónia, o efeito emaranhado era acentuado pela perspectiva de um autista), com uma tessitura de fatos menos intrincada: acompanhamos os últimos momentos de vida da matriarca da decadente família Marques, e os depoimentos dos parentes mais próximos (e uma empregada fiel, ainda que desprezada, Mercília), especialmente dos filhos Francisco, Beatriz, Ana e João (há uma irmã que morreu, Rita, e um outro sobre o qual ninguém fala): Francisco está roubando dos outros herdeiros os restos que conseguiu salvar da bancarrota; Beatriz é que nos dá a imagem de potência e plenitude que justifica o título (e que é retomada e/ou posta em dúvida pelos demais); Ana é viciada; e João é a vergonha da família, devido ao homossexualismo (na verdade, ele seria mais um pedófilo, caçando menininhos num parque) e ao fato de ter AIDS.

Por mais histórias do gênero que já tenham sido escritas, poucas terão a visceralidade e radicalidade dessa investigação dos miasmas familiares que compõem nossa individualidade, essa “estranha idéia” que “viaja pela nossa carne”, como Drummond (autor muito importante para Lobo Antunes) tão bem colocou.

A leitura às vezes é exasperante, sobretudo porque, assim como Faulkner, nos vemos aprisionados numa visão de mundo em que o tempo como sucessão é anulado: o passado e o presente estão ali juntos, num círculo vicioso de impotência e paralisia. Não sou eu que o digo, é o próprio autor, veja-se outro trecho de Eu hei-de amar uma pedra, talvez sua obra maior: “pensando em como estas coisas se pegam a um homem, teimam, ficam tal como o passado continua a acontecer em simultâneo com o presente”. Mas mesmo quem recusar essa visão fatalística não poderá negar: Lobo Antunes é um narrador incomparável.


Alfredo Monte
26.01.2010

29 de janeiro de 2010

António Bettencourt: sobre Que Cavalos São Estes Que Fazem Sombra No Mar?


«Como esta casa deve ser triste às três horas da tarde.»

A frase, convocada, logo no início, pela memória da personagem Beatriz foi um dos pontos de partida para este livro e uma memória do autor, citação do seu primeiro romance e recordação da sua infância. Assim se define uma das temáticas centrais do livro, a passagem do tempo, onde tudo se orienta e tudo se constrói a partir da morte da mãe, que origina o labirinto de memórias individuais de uma vida familiar desagregada e disfuncional, onde as relações e manifestações de ternura e afecto são sempre difíceis ou inexistentes e onde as personagens procuram na alienação ou no delírio mitigar o deserto da sua dificuldade emocional, e da carência que dela decorre.

Um discurso que se exerce na técnica polifónica, onde múltiplas vozes se entretecem à volta de uma dominante, vozes que configuram, muitas vezes, apenas ecos distantes da recordação de situações ou objectos.

As frases reiteradas, como que figurações de temas com inúmeras variações ou modulações de tonalidade, formam uma filigrana narrativa depurada segmento a segmento, palavra a palavra, por vezes mesmo letra a letra, num exercício de composição que confere à escrita de António Lobo Antunes um carácter de palavra essencial.

Estamos perante uma escrita que, na sua ambiguidade, nos interpela e nos fascina a cada momento, mas que obriga a que o leitor reconstrua dentro de si toda a teia lógica do romance, num esforço plenamente recompensado pela genialidade da arte de António Lobo Antunes que, a um tempo, intensamente nos perturba, mas fortemente seduz.

Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar? é um romance de sombra e sol em que os cavalos, sob a luz, vão ludibriando a morte que se anuncia,

“Chegam os cavalos que fazem sombra no mar e assim que o mar emergir do escuro desaparecemos para sempre.”


António Bettencourt
29.01.2010

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...