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24 de janeiro de 2017

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós

Não precisávamos de falar. Como ele dizia

– Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar

mas muito pouco tempo antes de morrer veio ter comigo e passámos a tarde juntos, sentados lado a lado no sofá. Foi ele quem falou quase sempre, eu pouco abri a boca.

Mostrou-me os braços, o corpo

– Estou miserável

sabia que ia morrer dali a nada e comportou-se com a extraordinária coragem do costume. Coragem, dignidade e pudor. A certa altura

– Para onde queres ir quando morreres?

respondi

– Para os Jerónimos, naturalmente.

Ficou uns minutos calado e depois

– Tu acreditas na eternidade.

Disse-lhe

– Tu também.

Novo silêncio.

– Eu quero ser cremado e que ponham as cinzas na serra, voltado para a Praia das Maçãs.

Novo silêncio. A seguir

– Vou morrer primeiro que tu. Vou morrer agora.

Mais silêncio. Eu

– Ganhei-te outra vez.

ele

– É.

Ele

Ganhamos sempre os dois.

Eu

– Porque é que a gente gosta tanto um do outro?

Ele silêncio antes de

– Se me voltas a falar de amor vou-me embora.

eu

– Sabes onde é a porta.

Mas não voltámos a falar de amor. Para quê? Estava ali todo. Depois quis ver os livros

– Para aí vinte mil, não?

eu

– Mais ou menos, incluindo os muitos que encontrei numa livraria de segunda mão, assinados por ti.

Silêncio. Eu

– Não podia suportar a ideia de que outras pessoas tivessem em casa os livros do meu irmão.

Gesto vago. Depois ele

– António

e silêncio, depois eu

– João

e silêncio. Ou seja um diálogo de amor compridíssimo. Depois

– Se os pais cá estivessem

e esta frase fez-me compreender melhor a sua imensa dor. A mãe para quem a inteligência, num homem, era a forma suprema de sensualidade. E um rabo grande a coisa mais feia deste mundo. Um homem inteligente, na sua opinião, era atraentíssimo.

– Um homem bonito e estúpido ao fim de um quarto de hora não existe

e ainda bem porque, assim, talvez tenhamos algumas chances com ela. A mãe, ainda

– Desafio qualquer mulher no mundo a ter filhos tão inteligentes como os meus.

E ele continuou a falar:

– Depois eu fui para Nova Iorque e tu para África.

Numa altura, depois de África, em que ele estava a sofrer muito meti-me num avião e fui para casa dele. Durante o dia ele trabalhava no hospital e eu ficava às voltas com o Fado Alexandrino. Depois jantávamos juntos e comíamos uns gelados enormes que ele trazia a vermos os play-offs do basquete.

Um de nós

– E jogam com humor

o que é tão raro no desporto. Aos sábados um bocado numa discoteca. Camisas cheias de baton. A certa altura olhou, do sofá, para a estante mais próxima: Um livro de Marcel Pagnol. Ele

– A nossa infância toda.

E eu com vontade de tocar-lhe. Claro que não toquei. As suas mãos, que conhecia tão bem, poisadas nos joelhos. Embora impassíveis estávamos demasiado emocionados.

Ele

– De qualquer modo não nos perdemos um ao outro

eu, depois de um silêncio compridíssimo

– Nunca nos perdemos, não é agora que isso vai acontecer.

Ele

– Vou chamar um taxi.

Silêncio.

Ele

– Acompanhas-me lá abaixo?

Entre a casa e a rua uma distância grande. Era o fim do dia, já não estava muito sol. O taxi à espera no passeio. O chofer, a quem ele operara a mãe, veio abrir-lhe a porta do carro. Ele voltou-se para mim e disse o meu nome. Eu aproximei-me dele e disse o seu. Abraçámo-nos com muita força e, de repente, começou a chorar. Só sentia ossos nas minhas mãos. Mas nada de mariquices, claro, sobretudo nada de mariquices.

Ele

– Não digas a ninguém que chorei.

E sentou-se no banco ao lado do chofer, sem olhar para mim. Não olhámos um para o outro, aliás, mas nunca nos vimos tão bem. O carro foi-se embora. Fiquei na borda do passeio até que desapareceu. E então, de mãos nos bolsos, voltei para casa. Nunca houve um abraço assim no mundo.


António Lobo Antunes
Visão, 15.12.2016


***

Eis que li a crónica de ALA,  que há muito esperava e que adivinhava que ele iria escrever, quando o tempo fosse o devido, quando a dor, finalmente, se tivesse acomodado um pouco melhor no seu coração, até porque já antes o fizera com a partida do Pedro. Aparentemente, o discurso desta crónica não é tão violento, a linguagem não assume foros de tanta agressividade, tanto inconformismo, tanta revolta como a que escreveu, aquando da partida de Pedro; mas não nos iludamos! Só aparentemente o dá a entender... Na verdade, entre o dito e o não dito entre os dois irmãos, entre o que inferimos ou subentendemos, damo-nos conta de um amor fraterno tão belo, mas tão belo, que é impossível ler a crónica até ao fim, sem deixar que as lágrimas nos tomem de assalto;  primeiro duas a duas, depois de quatro em quatro, até que virem uma torrente que nos embacia a leitura do texto.
              
Estupidamente, não compreendo por que razão, e de súbito, o meu cérebro evoca uma peça do teatro do absurdo, ao jeito de Eugène Ionesco, Tardieu ou mesmo de Samuel Beckett. A existir um motivo, ele só pode ser um e com o qual eu própria me dou tão mal. Trata-se do absurdo da morte, e do sofrimento de ambos: daquele que sabe que vai partir e do outro que fica à espera da sua vez.
              
O título é de uma singeleza tal, que o leitor adivinha, desde logo, o assunto de que vai tratar.  
               
A troca de palavras entre os irmãos é de um cuidado, de uma sobriedade, de uma dignidade tais, que nos deixa completamente desarmados para verbalizar o que quer que seja, a não ser deixar que as lágrimas cumpram com a sua função. 
               
O João impede-o «de falar de amor», talvez porque achasse que essa palavra sobejaria, estaria a mais entre eles e, portanto, seria inútil, não seria necessário pronunciá-la. Todos sabemos, que há silêncios que conseguem ser absurdamente ruidosos; eles apenas deixam o grito preso na garganta. 
              
Que ternura, os dois irmãos evocarem a mãe num momento como aquele, procurando, talvez, aliviar o peso da dor que os vergava. O leitor quase que visualiza a cena e esta é demasiado insuportável não só para os sujeitos que a vivem, mas também para o leitor que a experimenta já num outro tempo e num outro nível de percepção, como diria Pessoa; num tempo que António Lobo Antunes quis relegar para futuro; o futuro contendo já a ausência do irmão; em suma, o tempo que ele entendeu ser o apropriado para fazer a sua catarse. 
               
Agora é a nossa vez; é o nosso tempo de fazermos essa mesma catarse; sobretudo eu, que lido tão mal com o sofrimento, o envelhecimento e, finalmente, a nossa finitude. 
               
Tanto amor que pairava sobre ambos, os silêncios pressupunham um entendimento tácito entre eles... tão parcas e simples as palavras que trocavam entre si, evitando pronunciar aquelas que tornariam o sofrimento de ambos ainda mais insuportável. As cruéis! E quanta dignidade na despedida... Ao António,  bastava dirigir-se ao irmão pelo nome - «João»; ao João, bastava responder com o nome do irmão, «António». 
              
Na hora da despedida, e antes que chegue a cruel, a derradeira, parece que só nos é concedido o direito a verbalizar o nome que nos legaram ao nascer, o que nos faz existir e o que levamos connosco quando a hora for chegada.

Assim, para o António segue daqui, deste lugar em que me encontro, um abraço sentido; para o João, aonde quer que ele esteja, o desejo profundo de que repouse em paz.


por Olga Fonseca
e-mail de 23.01.2017
Covilhã

15 de setembro de 2016

«Até que as pedras se tornem mais leves que a água»

Os 26 livros até 2015, sem os volumes das crónicas (capas das 1ªs edições)

O meu trabalho é escrever até que as pedras se tornem mais leves que a água. Não são romances o que faço, não conto histórias, não pretendo entreter, nem ser divertido, nem ser interessante: só quero que as pedras se tornem mais leves que a água. Em pequeno, à noite, no verão, de luz apagada, ouvia o mar na cama: a mesma onda sempre, ainda hoje a mesma onda a trazer a praia e a levar a praia e, ao levar a praia, eu suspenso do nada sem tocar nos lençóis. A cómoda do quarto estalava de vez em quando, perto do vidro da janela um pinheiro sem fim. Durante o dia tornava-se outra árvore mas conhecia melhor a do escuro, que me interrogava, interrogava

– Tu

até a primeira nuvem cor de laranja do nascimento do dia lhe selar os lábios. Nenhum melro ainda, nem um passo lá fora, o mundo desabitado de gente, o primeiro cão daqui a nada, rente ao muro, a tossir, com um fio de saliva pendurado do queixo. Um desses pobres cães que comem restos de bichos mortos, coçam uma orelha com a pata, vão-se embora a pensar. Do lado da serra um canavial, um sapo grande debruçado no parapeito de si mesmo, severo, a pensar também. Até que as pedras se tornem mais leves que a água. E, a partir desse momento, não escrevo mais. Deixo de existir, claro que deixo de existir: já não sou mais necessário.

Que vida foi a minha, fiz o quê? A casa cresce, o número de degraus da escada do jardim para o primeiro andar aumentam. No lava-loiças um pingo de torneira, de longe em longe, nos pratos. Treme, alonga-se, cai, desaparece. Uma vassoura encostada à parede. O fogão negro, negro. Moscas no fio da lâmpada, as da infância que nunca se foram embora, uma porta a bater lá em baixo. Quem? Antes do sol o horizonte lilás.

Que vida foi a minha para além deste trabalho com as pedras? O sapo deve ter-se movido porque continua parado. Um gato, no muro, lambe a sombra de uma folha da pata, intriga-o não poder engoli-la. Que vida foi a minha? Andei em aulas, andei em hospitais. De vez em quando ia para longe, voltava. Senti-me feliz na Transilvânia, nas montanhas. As pedras tinham menos peso já, por essa altura, mas ainda necessitava de muito tempo porque as palavras demoram a impregnar as coisas, entram devagarinho; a ideia da minha morte começa a parecer-se com a minha morte. Às vezes o meu corpo gela, às vezes uma pedra levanta-se. Faltam muitas, ainda. Quando todas forem mais leves do que a água então sim, podem ler-me, escrevi o que era preciso escrever. Há um livro, pronto há um ano, que sai em outubro, chamado “A última porta antes da noite”, outro a publicar no fim do ano que vem, quase pronto, “Para aquela que está sentada no escuro à minha espera”, ficam a faltar três, que desejo que Deus me dê vida e saúde para fazer e depois calo-me para sempre. As pedras estarão mais leves que a água, o círculo fechado e será possível compreender a unidade do trabalho começado com a Memória de Elefante. O resto são estas cronicazinhas, de que se imprimiram algumas coleções, que não pretendem mais do que distrair as pessoas e que sejam agradáveis de ler. Não gostaria que as coleções fossem republicadas como não gostaria que aquelas que se seguiram aparecessem em volume. Tudo o que quero que permaneça são apenas os livros, nos quais joguei a minha vida, a minha saúde e a minha esperança, e onde julgo haver conseguido o que me propus. No seu conjunto constituem uma única obra. Como disse ao princípio não são histórias, não são romances. São um trabalho de desmedida ambição que levará tempo a ser entendido e acerca do qual me referi sempre de uma forma voluntariamente desajeitada e incompleta. Cada título é uma parte de um todo que deveria idealmente ser lido pela ordem em que os diversos segmentos foram publicados, de modo a compreender-se a sua unidade e a forma como cada um deles se encaixa no todo. Claro que exigem muito do leitor mas exigiram muito mais de mim. Não é uma comédia Humana à Balzac, com todo o respeito que por ele tenho, nem uma Recheche como a de Proust, nem um Decameron. Longe disso. É, na minha cabeça, o Livro Total, e não voltarei mais a este assunto. A partir de agora, mesmo com os tais cinco volumes que faltam, os dois acabados e os três últimos a seguir, apenas eles existirão. Eu pouco importo a não ser para a meia dúzia de pessoas que espero que gostem de mim. Quereria que no futuro a obra fosse publicada sem nenhum prefácio, sem nenhum comentário. Está completa. Qualquer palavra mais, quer minha quer de outra pessoa seria supérflua. E, por estar completa, não faz sentido nenhuma dedicatória em nenhum tomo. O último, em princípio, será publicado em 2020. Depois, se continuar vivo, irei extinguir-me como quando, em criança, comecei: a escrever poemas que desaparecerão no cesto dos papéis conforme aqueles que compunha, menino, em segredo, em silêncio, já sem o meu irmão João, que partilhava o espaço comigo porque há muito tempo que, infelizmente, deixámos de viver no mesmo quarto. Não imaginas mano, as saudades que tenho desse tempo. Se por acaso viesses tudo voltava a ser como dantes: tu a estudares e eu estendido na cama a olhar o tecto, levantando-me para encher páginas de versos que tinha pudor em te mostrar. Sempre achei que isso acabaria por nos acontecer. Anos depois passámos uma noite na casa da praia, no mesmo quarto, nas mesmas camas. Não calculas o que me comoveu estarmos de novo juntos. Acordei antes de ti e fiz-te uma festa na cabeça. Como desde sempre soubemos o que o outro sentia tenho a certeza que te lembras disso. Agora, a esta distância, acho que fomos felizes durante aqueles anos. Não me digas que não para eu não ficar triste.


António Lobo Antunes
crónica na Visão
Agosto 2016

30 de abril de 2016

«Uma Via Láctea de Galos», crónica com ilustrações de Nicoleta Sandulescu


          E, de manhã, tínhamos os galos. Uma Via Láctea de galos, neste quintal, no outro, junto à vinha do presidente da Câmara, mais adiante, no sítio dos ciganos, com rulotes e mulas e trapos
pendurados e discussões à noite, de forma que o único sem cantar era aquele que a minha avó segurava pelas asas para lhe cortar o gasganete, e o bicho, sem cabeça, a remexer-se activísssimo.
Depois desistia, depois a minha avó despia-o e o galo afinal esquelético, duas, três penas castanhas e azuis permaneciam a bailar no pátio, às vezes sumiam-se a tremer por cimas das nespereiras, cheguei a recuperá-las, séculos depois, na lama do inverno, sujas, sem cor alguma, reduzidas a meia dúzia de filamentos tristes. Portanto, de manhã os galos, o gato a escorrer a sua seda furtiva no intervalo dos móveis: se me chegava a ele tornava-se dúzias de unhas que assobiavam uma chaleira de ódio antes de se transformar num pulo, deixando de existir a meio do salto. Os galos, o gato, eu a avançar com a muleta porque o joelho murchou. Encheu-se de água, o enfermeiro deu-me uma injecção e os ossos secaram: recusam a dobrar-se mas não sofro muito com isso e a muleta, além do mais, dá-se ao respeito. Conheço vários que me invejam, fico importante e trágico como um soldado que sobreviveu à guerra, as mulheres gostam de acompanhar comigo, sobretudo a viúva do despachante: de quinze em quinze dias encosto-lhe a muleta à cabeceira, resolvo o assunto, fumo um cigarrinho e andor. A minha avó
          – Cheiras a drogaria que tresandas
          dado que não é grande espingarda em perfumes franceses,
dos caros, dos finos, que a viúva comprava em garrafões na drogaria, com o rótulo  made in Paris e a torre Eiffel por cima dos Jerónimos. Com os trocos do perfume abastecia-se de pó-de-arroz em caixinhas de folha com Napoleão na tampa, isto é uma palma na barriga e um bvaque atravessado. A minha avó indignava-se porque as nódoas do pó-de-arroz Napoleão eram dificílimas de tirar do colarinho, quer-se dizer saíam com facilidade das bochechas da viúva para a camisa, a viúva tornava-se pálida e com rugas, quase mãe dela mesma, mas largarem a popeline está quieto. Sem o pó-de-arroz a viúva parecia um drácula na aurora, toda olheiras e pêlos, e, graças às olheiras e aos pêlos, dei conta que apesar da muleta eu não faria má figura numa corrida de velocidade: há certos estímulos a que as muletas respondem, de modo que chegava a casa a tempo da Via Láctea dos galos e da minha avó a censurar-me
          – Vens do espantalho, não é?
         com a faca esquecida a meio de um gasganete na agonia. O gato, que em geral não me ligava nenhuma, aproximava-se a farejar-me, interessado: sacudia-o com a muleta antes da chaleira e das unhas.
          Quando penso nessa época acho que podia ter sido feliz. A
viúva tratava-me por
          – Meu pombinho
         dava-me chá de macela, volta não volta enfiava-me uma nota no bolso, juntamente com um bilhetinho simpático assinado com o nome completo, trazia a campa do despachante num asseio que dava gosto e quando eu chegava voltava-lhe, por delicadeza, o retrato para a parede:
          – Nunca se sabe
          explicava ela e nesse ponto dou-lhe razão: nunca se sabe de facto e há mortos que não brincam em serviço. Pelo sim pelo não continuo a evitar o cemitério. Podia ter sido feliz. A minha avó e a viúva foram-se embora uma atrás da outra, no espaço de um mês, aminha avó de um problema no sangue, disse o médico, que a envenenou e a tornou negra num instante, a mostrar-me os carvõezinhos das mãos e a gritar
          – Olha isto
          a viúva porque o garrafão de perfume francês caiu, em má hora, de uma prateleira alta. O cabo da Guarda desconfiou de mim
          – Foste tu com a muleta?
          por a ter encontrado na cama com uma camisinha azul transparente e aboca, coitada, tentando um
          – Meu pombinho
          derradeiro. De garrafão espalmado na cara não se lhe notavam as rugas nem os pêlos: colocaram-na ao lado do despachante que parece não a ter recebido mal. Eu fiquei por aqui
mais o galos. Uma Via Láctea de galos neste quintal, no outro, junto à vinha do presidente da Câmara, mais adiante, no sítio dos ciganos, com rulotes e mulas e trapos pendurados e discussões à noite. A rua foi deixando de cheirar a perfume francês, nunca tive as camisas tão limpas. De tempos a tempos o cabo da Guarda para mim
          – Empurraste o garrafão com a muleta, diz lá
          e, embora já não faça diferença, eu moita. Podia contar-lhe que não aprecio que me tratem por
          – Meu pombinho
          mas moita. Sento-me no jardim a assistir às abelhas, o cabo da Guarda cala-se. Dúzias de abelhas. Quais dúzias: centenas. Só tenho medo que a minha avó me apareça, toda negra
          – Olha isto
          a mostrar-me os carvõezinhos das mãos, e me corte o gasganete de um golpe. Não acredito: tirando as manchas do pó-de-arroz Napoleão não nos dávamos assim tão mal.


António Lobo Antunes
em Terceiro Livro de Crónicas, 2005, 1ª edição. pp 213-215

Ilustrações de Nicoleta Sandulescu, do trabalho realizado como aluna da disciplina de ilustração na Faculdade de Belas Artes de Lisboa, sob orientação do Professor Pedro António dos Santos Saraiva. Estas ilustrações foram gentilmente cedidas pela sua autora, e faz parte das 18 ilustrações interpretativas do texto de António Lobo Antunes.

30 de maio de 2014

Crónica de quando começou a escrever Caminho Como Uma Casa Em Chamas, em 2012

Crónica sobre a angústia de não conseguir avançar depois de Não É Meia Noite Quem Quer, e o resultado da espera que vem a ser o novo livro já pronto a publicar em Outubro próximo:


Caminho como uma casa em chamas
Passei meses muito difíceis entre agosto e metade de dezembro: não era capaz de escrever uma linha que fosse e o desespero e a falta de sentido da minha vida aumentavam quase hora a hora. Tinha acabado um livro muito bom, composto em meia dúzia de meses com uma facilidade pasmosa, coisa que desde a Explicação dos Pássaros não me acontecia, um milagre e um mistério cujo mecanismo desconheço, pensava
- Agora sei como se faz um livro
e, ao tentar recomeçar, nem uma palavra. Conseguia compor as crónicas da Visão, a tropeçar em cada linha, mas, assim que puxava o bloco do livro, tudo me desaparecia da cabeça e da mão. Pensava
- Sequei
em certo sentido alegrava-me que tivesse acabado bem, pensava
- Se calhar pus tudo neste último texto e acabou-se
mas o facto de não me sair nem uma letra começava a dar cabo de mim. Para quem, desde que se conhece, joga a sua vida neste tabuleiro e sempre cortou todos os pescoços que se interpunham entre si e o seu trabalho, sem culpabilidade nem hesitações, era uma situação muito complicada. Todas as manhãs me sentava disciplinadamente à mesa, todas as noites me levantava dela com a página em branco. Não há aqui o menor exagero: com a página literalmente em branco. De longe em longe conseguia umas frases, animava-me
- Se calhar encontrei
e não encontrava fosse o que fosse: as minhas pobres tentativas acabavam no lixo. Nunca me ralei com aquilo que os outros pensam do que ponho no papel, a certeza da importância do que produzo é inabalável, disse exactamente o que queria dizer e como queria dizer, chegando ao que pretendo após múltiplas versões. Não redijo com facilidade, é-me muito penoso alcançar o que tenho de alcançar para me sentir em paz, mas jamais me sucedera não lograr uma linha que fosse, um esboço de texto sem possibilidades internas, um oco de banalidades, uma ausência de alma. Imaginava
- Vou escrever crónicas só, não dou para mais nada
embora a minha atitude, em relação às crónicas, se haja alterado. Parece-me poder utilizá-las como laboratório ou itinerário paralelo, colocar nelas o que os livros rejeitam, exercitar a mão. Estou muito grato à Visão pelo espaço que me dá e pela delicadeza e elegância com que sempre me tratou e sinto-me, também, a pagar uma dívida de reconhecimento. Enquanto me quiserem ter-me-ão com eles. A não ser, claro, que a capacidade de construir crónicas desapareça, conforme desapareceu, durante meses, a capacidade de construir livros, o que é menos provável dado que as crónicas se movem à superfície das coisas e os livros são peixes de águas profundas, às quais não possuo um acesso consciente: numa crónica eu sei o que vou escrever. Num livro escrevo, cada vez mais, o que o próprio livro me dita ou, expresso de outra maneira, nas crónicas falo e nos livros escuto. Por isso cada vez mais se me afigura que um livro é precário, depende de factores não relacionados com a minha vontade consciente, regidos por princípios e leis a que não tenho acesso. Para criar torna-se necessário que estejamos, ao mesmo tempo, por fora e por dentro do texto, como acontece com os bons leitores, infelizmente tão raros. Eu pasmo com as senhoras e os senhores que alinham resenhas críticas nos jornais, pasmo com a sua petulância e a sua patetice e, sobretudo, com o profundo desconhecimento da coisa literária, expresso em afirmações absurdas. Mas nada disso me parece significativo diante do mistério da arte, que requer humildade, atenção e amor. O que é importante para mim é que eu escreva, porque, se for capaz de escrever, tenho sempre razão.
Portanto, voltando ao princípio, aguentei cerca de seis meses horríveis, na certeza de haver perdido a capacidade de escutar vozes secretas e não me sobrar fosse o que fosse. Os meus amigos continuavam a viver e eu parado. Um dia, a meio de dezembro, comecei a desenhar uma casa e percebi que era o início do livro. Uma casa com telhado, chaminé, uma antena de televisão. Era o início do livro mas ainda não era o livro. Desenhei mais quatro ou cinco casas, com inquilinos de um lado e do outro, até ao quarto andar. A seguir entendi que lhe faltava o sótão e desenhei o sótão. Depois, a pouco e pouco, os diversos apartamentos foram sendo habitados. Depois, a pouco e pouco, os habitantes principiaram a mudar. Depois apareceu uma frase, Caminho como uma casa em chamas, e dei-me conta de ser o título, mas continuava a não acreditar muito naquilo. Depois ensaiei o primeiro borrão do primeiro capítulo, cheio de medo e dúvidas: lixo. Um segundo borrão: lixo. Um terceiro: lixo. Depois recuperei o terceiro borrão do lixo e comecei a refazê-lo, uma, duas, três vezes, a perguntar-me
- Será isto?
a responder-me
- Não deve ser isto mas vou continuar
sem que a qualidade do texto me interessasse: a única coisa que me interessava era se haveria ali a espessura que queria. O capítulo número dois passou pelos mesmos tratos de polé e, a meio de uma correção pareceu-me que a obra tinha, finalmente, chegado. Fiz o primeiro borrão do capítulo número três e acabei, há horas, o primeiro borrão do capítulo número quatro. E vou continuar até ao fim com um borrão apenas, para refundir tudo a seguir, caminhando como uma casa em chamas num nevoeiro ardente de palavras. É capaz de ser o livro, meu Deus, daqui a sei lá quantos meses saberei se é o livro, saberei se sequei ou ainda tenho vida em mim. Até essa altura a incerteza, o cagaço. Esta crónica não deve ser muito interessante para o leitor, trata-se do mero relato de um homem às aranhas com o seu trabalho. Achei que tinha obrigação de o partilhar com vocês: afinal de contas são os meus cúmplices e têm o direito de saber o que se passa na oficina, como dizia o Zé Cardoso.
- É preciso que a gente sofra para o leitor ter prazer
insistia ele
- É preciso que a gente sofra para o leitor ter prazer
e, como em muitas outras coisas, é capaz de estar certo, o sacana. Aqui entre nós faz-me uma falta do caneco. Tenho saudades tuas que me farto, meu malandro.

Visão
23.02.2012

8 de setembro de 2012

«Não é meia-noite quem quer» (crónica)


Há anos que este verso de René Char me persegue. Pensei usá-lo como título para um livro, como coda para um capítulo, fazer variações em torno dele num texto qualquer. Não fiz nada, até agora, porque me anda na cabeça mas não me aparece na mão, e só consigo escrever com os dedos, os miolos não pegam na esferográfica. Por qualquer motivo obscuro o bico da caneta não o aprova. E, no entanto, volta não volta lembro-me dele. Por exemplo quando me cruzo com a mendiga estrangeira, alemã ou holandesa, não sei, a pedir esmola no semáforo aqui perto. Dorme, com os seus sacos de plástico, na paragem do autocarro quase por baixo da minha janela, puxando trapos para si. Nunca lhe entendi a língua, mais sopros que palavras. Espera que o sinal fique vermelho e percorre os automóveis, de mão estendida, a murmurar. As pessoas dos carros fingem que não vêem, olhando, fixas, para diante: uma desgraçada, mais uma, o que não falta por aí é gente assim. O sinal torna-se verde e ela corre para o passeio, com os sacos. Um grande amigo meu, José Cardoso Pires, que não tinha muito dinheiro, que tinha muito pouco dinheiro, dava-o a todos aos infelizes que encontrava na rua. Isto era uma das coisas que eu mais admirava nele. E sentia-o, por dentro, comovido, o Zé que tentava sempre esconder as emoções. Fazia livros, como eu. Era irascível, temperamental, muitíssimo corajoso. Infelizmente a estrangeira nunca o encontrou. É em seu nome que entrego moedas à mulher

- Da parte do Zé

embora duvide que ela me entenda, ou oiça sequer. Não faz mal: oiço e entendo eu.

Não é meia-noite quem quer, que deslumbramento para mim: olha o meu pai no hospital, de bata, olha eu no hospital, a sofrer. Já não sofro: cansei-me de dar prazer à desgraça. Se acontecer alguma chatice leva-me mas não me aborreças. Na recruta, a certa altura, tinha um pé inchadíssimo, de uma queda naqueles exercícios que por lá se faziam, custava-me a andar como o caneco, mas continuava, a repetir para mim mesmo

- É só dor, é só dor

e foi aí que comecei a não ter vergonha de mim. Ainda hoje

- É só dor

e a gente aguenta. Apesar de tudo não é meia-noite quem quer, não é verdade? Há uns tempos que não encontro a estrangeira: terá mudado de poiso, terá morrido? Ninguém morre, que ideia mais idiota, morrer. A prova é que o meu pai, por exemplo, continua a andar, de bata e cachimbo, no hospital, não me tiram isto da ideia:

- Os meus rapazes

dizia ele dos filhos

- Os meus rapazes

e os seus rapazes cá estão, mais ou menos mas cá estão, olha este sol agora, a entrar casa dentro, o chão iluminado, os móveis, as paredes, as folhas das árvores com tantas cores diferentes, porque não convidá-las

- Não lhes apetece entrar?

começo a fazer esta crónica com pausas dado que a mão vazia, parece que tropeça na página, lá se recompõe, a pobre, ameaça desmaiar de novo, um livro na estante, não sei ao certo onde, à minha esquerda, acho eu, principia a conversar comigo, pergunta uma coisa que não entendo bem, não lhe respondo, faço um gesto sem destino na esperança de contentá-lo, o livro cala-se, que esquisitos os livros, tanta barulheira às vezes. Acabei o meu trabalho ontem, seguem-se os habituais meses de pousio, quando não ando às voltas com um romance o mundo torna-se estranho, devia ir para os semáforos com sacos de plástico

- Uma ajudinha, amigo

e fico aqui a ler, na mesma mesa em que rabisco as páginas, que silêncio nas coisas, que vazio, não é meia-noite quem quer, rodeio-me de pessoas que não existem, rodeio-me de vozes, sinto-me cheio de palavras que não amadureceram ainda, não palavras, larvas de palavras, imagens que surgem e se desvanecem, desfocadas, fugidias, peço a mim mesmo

- Uma ajudinha, amigo

vejo o Zé à cata de dinheiro nos bolsos, ainda me toca passar na rua dele, há-de tocar-me sempre

- Uma ajudinha, amigo

a eterna queixa do Zé

- Como é que eu consigo gramar um gajo que gosta de comida de avião?

e é verdade, gosto de comida de avião, voltar a brincar aos jantarinhos com todos aqueles plásticos com coisas dentro, folhinhas, raminhos, pedrinhas, porcarias e eu com ar solene de quem almoça a sério, gosto de pedir vinho branco e ter medo que se espantem

- Vinho branco na sua idade?

e se queixem à minha mãe

- O miúdo bebe às escondidas

a minha mãe, severa

- Que história é essa do vinho?

mesmo que experimente amaciá-la com uma lista de bêbados ilustres

- Quero lá saber do Hemingway

confesso que realmente, eu que não tomo álcool, me bato com uma garrafa de vinho branco nos aviões, a indignação dela a aumentar

- E que fazes tu nos aviões, já agora?

quando devia estar no quarto às voltas com raízes quadradas e, aqui para nós, realmente devia, demorei que tempos a perceber porque chamavam quadradas às raízes, quer dizer, percebo vagamente, o professor acha que percebo e deixa-me em paz, no fundo não percebo

- Não sei nada da vida, senhor, desculpe

e não sei nada porque não é meia-noite quem quer, raio de verso, que mal fiz eu a Deus para me perseguires, a minha mãe não desiste

- Como estamos com a mão na massa a léria de ir para os semáforos é verdade?

eu com a estrangeira, alemã ou holandesa, nos sinais vermelhos, murmurando para os carros parados, com as pessoas, surdas, a olharem em frente, agarrando o volante com mais força, lá recolhemos ao passeio quando o verde chega, os dedos dela, com um resto de luva, pesam-me no ombro, hoje não durmo em casa, durmo na paragem do autocarro, e talvez não seja má ideia de todo porque, em frente, num out-door, há uma rapariga em lingerie, lindíssima, que de vez em quando me pisca o olho.


António Lobo Antunes
crónica na Visão
Janeiro de 2011

25 de abril de 2012

«Pensamento positivo, meu amigo, pensamento positivo»

A última crónica publicada na Visão. António Lobo Antunes continua a falar do estado do país, mas desta vez mais nas entrelinhas. E continua a falar-nos de si, que o ouvimos:

Nunca me foi tão difícil escrever uma crónica: três dias a rasgar papel. Normalmente fico uma hora ou isso, de caneta suspensa, e depois as palavras começam a sair sozinhas. Esta não, e já estou farto de deitar frases para o lixo. Julgo que se deve ao facto de ter demasiadas coisas dentro de mim, de viver uma altura difícil, de me achar melancólico e revoltado. Melancólico com a minha situação, revoltado com a situação do meu país. É raro o dia em que não me pedem
- Não me arranja um emprego?
a mim, que não possuo poder nenhum, e lá fico a ouvir histórias desesperadas e tristes. Os portugueses estão a sofrer muito, e o sofrimento dos portugueses é mais importante que o meu: que direito tenho de me queixar seja do que for? Quanto a mim não consigo fazer nada, quanto aos outros a minha importância colectiva é nula. Um amigo médico, por exemplo
- Fale do que se está a passar na Saúde
como se aquilo que eu escrevesse mudasse alguma coisa. Não muda. Sou apenas um homem que faz livros, preso por um contrato que assinei sem ler, como de costume, a uma editora que me não agrada. Não tenho grandes ilusões. Nem pequenas, aliás. A árvore, em frente da minha janela, perdeu as folhas: ramos torcidos, sombras de pássaros nem sonhar. Eu reflectido no vidro, sentado a esta mesa. Esferográficas, páginas, uma lupa, porque as primeiras versões são numa letrinha minúscula que, por vezes, me custa ler. Trago uma espada no peito. Volta e meia torce-se nos pulmões. E lá está a crónica a resistir. Não quer ser feita, tem a consciência de não valer grande coisa. E, mesmo que valesse grande coisa, o que valia? Não há imortalidade: há o silêncio que se vai espessando à volta de um nome, até o nome desaparecer por inteiro. E, até desaparecer, tanta inveja, tanta mesquinhez, tanta patetice. Para quê?
A nossa existência é um pequeno evento pedestre: quem se rala? Os outros, por muito que nos queiram, estão de fora. E, depois, partem, construindo-se uma nova alma. Aqueles de quem gostei tornaram-se ausências que se estreitam. Continuo a lembrar-me deles: vai doendo menos. Vai doendo menos? Vai doendo menos. Quem se lembrará de eu pequeno?
- Fale do que se está a passar na Saúde
e qual saúde, Zé? A nossa, a dos outros? Lembro-me que na primeira urgência interna que fiz no Hospital de Santa Maria, depois do curso, morreram seis doentes. Um médico, no dia seguinte 
- Eh pá você bateu o record
e eu, que era um miúdo, atarantado com a minha proeza.
- Não me arranja um emprego?
porque o subsídio acaba daqui a nada e depois o que faço eu, diga lá? Ao quarenta e cinco anos quem me dá trabalho? Ninguém, claro. É capaz de haver uns contentores do lixo com restos de comida, e também se podem comer os filhos, como propunha Swift para combater a fome na Irlanda. E quando os filhos se acabarem coma-se a si mesmo. Ossinhos nos dedos chupados um a um.
Nunca me foi tão difícil escrever uma crónica. Olhe, já agora experimente comê-la embora deva saber mal como rabo de gato e não alimente nada. Estou a compor isto enjoado de mim, embora tenha batido um record. Seis pessoas é obra. Aguenta mais um mês, António, e logo sabes. Talvez te comam numa urgência interna.
- Como se chamava aquele?
- Não me vem agora o nome mas escrevia livros.
- Desses que a gente gosta?
- Não, dos complicados, dos que dão trabalho.
Livro que não falavam, ouviam. Eu prefiro coisas que distraiam, para maçadas basta a vida. Conselho de um editor
- Publique histórias leves, histórias que distraiam
E tem razão, para maçadas basta a vida, dêem-me episódios que me divirtam, que chumbada pensar.
- Não me arranja um emprego?
um emprego, um empregozinho, dinheiro para pagar as contas, seja o que for preferível a esta angústia, tudo é preferível a esta angústia. E tem razão. Tudo é preferível a esta angústia, tudo é preferível a esta miséria.
- Fale da Saúde
fale da saúde, da electricidade, dos transportes, da prestação da casa, da prestação do carro, da prestação da máquina de lavar, dos preços no supermercado, dos sapatos que o meu marido precisa, da penúria em que ando. Isto não é uma crónica, é um gemido indistinto, a minha mãe
- Não compraste umas hortaliças, filho?
o carro parado há dois meses que não há para a gasolina. Já não haverá mais para a gasolina. Talvez para uma garrafinha de petróleo
(pode ser que exista quem fie)
verter a garrafa em cima de mim e chegar-lhe um fósforo. Depois uns tempos na enfermaria até as queimaduras do terceiro grau resolverem o assunto. E não é preciso emprego. Quer dizer, já não é preciso emprego. Quer dizer, já não é preciso preocuparmo-nos com a saúde. Já não é preciso comer o filho. Já não é preciso comer nada. Nem acabar esta crónica. Nem rasgar papel. Nem deitar períodos para o lixo. Nem estar à espera do exame no mês de abril. Nem ter demasiadas coisas dentro. Nem de não estar satisfeito com a editora que, essa sim, ficará satisfeita dado que quando um escritor pifa vende mais e é maçador falar nisto mas vender é importante. A cultura é muito bonita porém, como deve calcular, como suponho que calcula, como calcula com certeza, é necessário ganhar a vidinha. Nunca lhe foi tão difícil escrever uma crónica? Pois olhe, já a terminou, vê, você lamenta-se, lamenta-se, mas acaba por cumprir o trabalho. Muito gostam os artistas de choramingar.

Revista Visão nº 998
19.04.2012

5 de abril de 2012

«Nação valente e imortal»

Crónica na Visão desta semana. Boa demais para deixar passar sem partilhar aqui:

Agora sol na rua a fim de me melhorar a disposição, me reconciliar com a vida. Passa uma senhora de saco de compras: não estamos assim tão mal, ainda compramos coisas, que injusto tanta queixa, tanto lamento. Isto é internacional, meu caro, internacional e nós, estúpidos, culpamos logo os governos. Quem nos dá este solzinho, quem é? E de graça. Eles a trabalharem para nós, a trabalharem, a trabalharem e a gente, mal agradecidos, protestamos.

Deixam de ser ministros e a sua vida um horror, suportado em estóico silêncio. Veja-se, por exemplo, o senhor Mexia, o senhor Dias Loureiro, o senhor Jorge Coelho, coitados. Não há um único que não esteja na franja da miséria. Um único. Mais aqueles rapazes generosos, que, não sendo ministros, deram o litro pelo País e só por orgulho não estendem a mão à caridade. O senhor Rui Pedro Soares, os senhores Penedos pai e filho, que isto da bondade as vezes é hereditário, dúzias deles. Tenham o sentido da realidade, portugueses, sejam gratos, sejam honestos, reconheçam o que eles sofreram, o que sofrem. Uns sacrificados, uns Cristos, que pecado feio, a ingratidão. O senhor Vale e Azevedo, outro santo, bem o exprimiu em Londres. O senhor Carlos Cruz, outro santo, bem o explicou em livros. E nós, por pura maldade, teimamos em não entender. Claro que há povos ainda piores do que o nosso: os islandeses, por exemplo, que se atrevem a meter os beneméritos em tribunal. Pelo menos nesse ponto, vá lá, sobra-nos um resto de humanidade, de respeito. Um pozinho de consideração por almas eleitas, que Deus acolherá decerto, com especial ternura, na amplidão imensa do Seu seio. Já o estou a ver
- Senta-te aqui ao meu lado ó Loureiro
- Senta-te aqui ao meu lado ó Duarte Lima
- Senta-te aqui ao meu lado ó Azevedo que é o mínimo que se pode fazer por esses Padres Américos, pela nossa interminável lista de bem-aventurados, banqueiros, coitadinhos, gestores que o céu lhes dê saúde e boa sorte e demais penitentes de coração puro, espíritos de eleição, seguidores escrupulosos do Evangelho. E com a bandeirinha nacional na lapela, os patriotas, e com a arraia miúda no coração. E melhoram-nos obrigando-nos a sacrifícios purificadores, aproximando-nos dos banquetes de bem-aventuranças da Eternidade.
As empresas fecham, os desempregados aumentam, os impostos crescem, penhoram casas, automóveis, o ar que respiramos e a maltosa incapaz de enxergar a capacidade purificadora destas medidas. Reformas ridículas, ordenados mínimos irrisórios, subsídios de cacaracá? Talvez. Mas passaremos sem dificuldade o buraco da agulha enquanto os Loureiros todos abdicam, por amor ao próximo, de uma Eternidade feliz. A transcendência deste acto dá-me vontade de ajoelhar à sua frente. Dá-me vontade? Ajoelho à sua frente indigno de lhes desapertar as correias dos sapatos.
Vale e Azevedo para os Jerónimos, já!
Loureiro para o Panteão já!
Jorge Coelho para o Mosteiro de Alcobaça, já!
Sócrates para a Torre de Belém, já! A Torre de Belém não, que é tão feia. Para a Batalha.
Fora com o Soldado Desconhecido, o Gama, o Herculano, as criaturas de pacotilha com que os livros de História nos enganaram.
Que o Dia de Camões passe a chamar-se Dia de Armando Vara. Haja sentido das proporções, haja espírito de medida, haja respeito. Estátuas equestres para todos, veneração nacional. Esta mania tacanha de perseguir o senhor Oliveira e Costa: libertem-no. Esta pouca vergonha contra os poucos que estão presos, os quase nenhuns que estão presos como provou o senhor Vale e Azevedo, como provou o senhor Carlos Cruz, hedionda perseguição pessoal com fins inconfessáveis. Admitam-no. E voltem a pôr o senhor Dias Loureiro no Conselho de Estado, de onde o obrigaram, por maldade e inveja, a sair. Quero o senhor Mexia no Terreiro do Paço, no lugar D. José que, aliás, era um pateta. Quero outro mártir qualquer, tanto faz, no lugar do Marquês de Pombal, esse tirano. Acabem com a pouca vergonha dos Sindicatos. Acabem com as manifestações, as greves, os protestos, por favor deixem de pecar. Como pedia o doutor João das Regras, olhai, olhai bem, mas vêde. E tereis mais fominha e, em consequência, mais Paraíso. Agradeçam este solzinho. Agradeçam a Linha Branca. Agradeçam a sopa e a peçazita de fruta do jantar. Abaixo o Bem-Estar.
Vocês falam em crise mas as actrizes das telenovelas continuam a aumentar o peito: onde é que está a crise, então? Não gostam de olhar aquelas generosas abundâncias que uns violadores de sepulturas, com a alcunha de cirurgiões plásticos, vos oferecem ao olhinho guloso? Não comem carne mas podem comer lábios da grossura de bifes do lombo e transformar as caras das mulheres em tenebrosas máscaras de Carnaval.
Para isso já há dinheiro, não é? E vocês a queixarem-se sem vergonha, e vocês cartazes, cortejos, berros. Proíbam-se os lamentos injustos. Não se vendem livros? Mentira. O senhor Rodrigo dos Santos vende e, enquanto vender, o nível da nossa cultura ultrapassa, sem dificuldade, a Academia Francesa. Que queremos? Temos peitos, lábios, literatura e os ministros e os ex-ministros a tomarem conta disto.
Sinceramente, sejamos justos, a que mais se pode aspirar? O resto são coisas insignificantes: desemprego, preços a dispararem, não haver com que pagar ao médico e à farmácia, ninharias. Como é que ainda sobram criaturas com a desfaçatez de protestarem? Da mesma forma que os processos importantes em tribunal a indignação há-de, fatalmente, de prescrever. E, magrinhos, magrinhos mas com peitos de litro e beijando-nos uns aos outros com os bifes das bocas seremos, como é nossa obrigação, felizes.


in Revista Visão
05.04.2012

10 de março de 2012

António Lobo Antunes continua a falar-nos... e nós ouvimos e damos o apoio que merece.

foto de José Sena Goulão

A clara luz do dia

Vou ter de viver os próximos tempos em condições muito duras que não dependem de mim. Ser uma testemunha passiva do que se passa comigo, nada poder fazer para alterar seja o que for, desespera-me. Quando as coisas dependem da minha vontade eu luto. Quando não dependem fico reduzido a um espectador inútil, sofrendo o que se passa sem poder intervir, e a minha indignação e a minha angústia crescem. Aguenta-te. Mas é difícil aguentar passivamente. Noites sobressaltadas, despertares cansados, a raiva da injustiça. Vou arranjando forças para continuar a escrever mas esta pequena coisa dentro de mim tenta destruir-me a energia. Sempre aceitei mal o que vem de fora da minha vontade, sempre aceitei mal o que me é imposto autoritariamente, sem discussão nem razões. Aceito, até certo ponto, a incerteza do futuro, não aceito que essa incerteza não me consinta uma margem de liberdade. A minha obra não está completa, a minha vida não está completa, necessito de tempo ainda, dessa espécie de tumultuosa paz de que sou feito. E sinto-me sozinho nisto, com as pessoas que me são próximas a assistirem de fora, impotentes. Navego à deriva, porque me tiraram o leme. A minha existência é comezinha e sem importância: na minha opinião o meu trabalho não o é. Se me devolvessem a paz e a esperança em troca dos livros que escrevi não a aceitava. Orgulho-me deles, custaram-me a alma. Que silêncio nesta casa, em frente da minha dor, cuja presença me espanta. Não me faço perguntas nem encontro respostas. Devo esperar. E quando se acabar, a espera? Palavras, coisas, pessoas rodopiam-me em torno, grandes pássaros negros passam sobre mim, o meu corpo é um conjunto de articulações sem sentido. Os outros, os que me falam, seres quase sem nexo, separados de mim por um muro que não consigo transpor. Porém não oiço o que quero nem digo o que se me arrasta no fundo da alma. Fico num silêncio amargo, cheio de gritos mudos, zanga, insultos. Dentro em pouco os dados estarão lançados: e depois?
A minha principal sensação é de estranheza, de espanto. O mundo, à minha volta, alterou-se, e eu com ele. Hoje, por exemplo, está um dia de sol, e é apenas chuva que vejo. Muitos dos meus amigos morreram já, e dou-me conta, na carne, da falta que me fazem. Ernesto, Zé, Acácio, vários outros. Sinto o coração a bater, compassado, lento. Por enquanto acompanha-me, estamos juntos. Não quero aborrecer ninguém, tomar o tempo de ninguém, ser incómodo. As horas adquiriram, sem me dar conta, uma rapidez vertiginosa. Há pouco o meu primo Zé Maria desapareceu com a mais admirável das coragens. Receio não a ter. A minha cobardia assusta-me. A indiferença dos estranhos assusta-me. A mudez do telefone assusta-me. Ninguém me garante que isto é mentira e sinto-me cercado de vazio, um oco interno onde fervem pavores. Sou eu o que continua, ou o que desconheço o que seja no meu lugar? Tudo o que sei é que, dentro em pouco estarei de novo no bojo de uma máquina sem alma, terrivelmente objectiva. A máquina dirá às pessoas, as pessoas dir-me-ão a mim. E quem é o mim que as vai ouvir?
Para já oiço o monótono zumbido do mundo. Mais nada. E espero. É tremendo esperar sem conhecer a resposta, sem fazer a mínima ideia da resposta. Passei por isso em África, passei por isso há anos. Julgava ter terminado. Voltou.
E o que digo o que interessa às pessoas? O que pode interessar aos outros? A solidão cerca-me por todos os lados, não há uma fraçãozinha que se sinta acompanhada: podem estar por fora, a olhar. Não estão por dentro, a viver. Escrevo este texto como quem tenta não se afogar, sabendo que se afogará seja como for. É uma questão de tempo e o tempo é cruel.
- Cá me vou entretendo com as minhas mazelas
dizia-me um homem outro dia. E que impartilhável sofrimento no interior destas palavras.
Depois apertámos a mão e foi-se embora, levando as mazelas com ele. Poderei ir-me embora também? O Sol cresceu, tudo está cheio de luz. Que absurdo isto que me sucede no meio de tanta luz. Lembro-me de Van Gogh a morrer num quarto de hospital depois dos tiros. Na parede aquele quadro dos corvos num campo de trigo. A enfermeira perguntou-lhe o que significava o quadro.
- É a morte
disse ele. A enfermeira voltou a olhar para a tela. Comentou
- Não parece uma morte triste
e o pintor respondeu
- E não é. Passa-se à clara luz do dia.
Que, ao menos, quando chegar o meu momento, tudo se passe à clara luz do dia. Comigo a ver, pela janela, as nuvens lá fora, deslizando, uma a uma, para leste. E eu, deitado numa cama qualquer, a partir com elas.

Revista Visão
01.03.2012

23 de fevereiro de 2012

«Caminho como uma casa em chamas»

Será o título de um novo livro de António? Para já apenas o título de uma crónica. Que é uma carta aberta ao leitor. E, por isso, partilhamos aqui:



Passei meses muito difíceis entre agosto e metade de dezembro: não era capaz de escrever uma linha que fosse e o desespero e a falta de sentido da minha vida aumentavam quase hora a hora. Tinha acabado um livro muito bom, composto em meia dúzia de meses com uma facilidade pasmosa, coisa que desde a Explicação dos Pássaros não me acontecia, um milagre e um mistério cujo mecanismo desconheço, pensava 
- Agora sei como se faz um livro 
e, ao tentar recomeçar, nem uma palavra. Conseguia compor as crónicas da Visão, a tropeçar em cada linha, mas, assim que puxava o bloco do livro, tudo me desaparecia da cabeça e da mão. Pensava 
- Sequei 
em certo sentido alegrava-me que tivesse acabado bem, pensava
- Se calhar pus tudo neste último texto e acabou-se
mas o facto de não me sair nem uma letra começava a dar cabo de mim. Para quem, desde que se conhece, joga a sua vida neste tabuleiro e sempre cortou todos os pescoços que se interpunham entre si e o seu trabalho, sem culpabilidade nem hesitações, era uma situação muito complicada. Todas as manhãs me sentava disciplinadamente à mesa, todas as noites me levantava dela com a página em branco. Não há aqui o menor exagero: com a página literalmente em branco. De longe em longe conseguia umas frases, animava-me
- Se calhar encontrei
e não encontrava fosse o que fosse: as minhas pobres tentativas acabavam no lixo. Nunca me ralei com aquilo que os outros pensam do que ponho no papel, a certeza da importância do que produzo é inabalável, disse exactamente o que queria dizer e como queria dizer, chegando ao que pretendo após múltiplas versões. Não redijo com facilidade, é-me muito penoso alcançar o que tenho de alcançar para me sentir em paz, mas jamais me sucedera não lograr uma linha que fosse, um esboço de texto sem possibilidades internas, um oco de banalidades, uma ausência de alma. Imaginava
- Vou escrever crónicas só, não dou para mais nada 
embora a minha atitude, em relação às crónicas, se haja alterado. Parece-me poder utilizá-las como laboratório ou itinerário paralelo, colocar nelas o que os livros rejeitam, exercitar a mão. Estou muito grato à Visão pelo espaço que me dá e pela delicadeza e elegância com que sempre me tratou e sinto-me, também, a pagar uma dívida de reconhecimento. Enquanto me quiserem ter-me-ão com eles. A não ser, claro, que a capacidade de construir crónicas desapareça, conforme desapareceu, durante meses, a capacidade de construir livros, o que é menos provável dado que as crónicas se movem à superfície das coisas e os livros são peixes de águas profundas, às quais não possuo um acesso consciente: numa crónica eu sei o que vou escrever. Num livro escrevo, cada vez mais, o que o próprio livro me dita ou, expresso de outra maneira, nas crónicas falo e nos livros escuto. Por isso cada vez mais se me afigura que um livro é precário, depende de factores não relacionados com a minha vontade consciente, regidos por princípios e leis a que não tenho acesso. Para criar torna-se necessário que estejamos, ao mesmo tempo, por fora e por dentro do texto, como acontece com os bons leitores, infelizmente tão raros. Eu pasmo com as senhoras e os senhores que alinham resenhas críticas nos jornais, pasmo com a sua petulância e a sua patetice e, sobretudo, com o profundo desconhecimento da coisa literária, expresso em afirmações absurdas. Mas nada disso me parece significativo diante do mistério da arte, que requer humildade, atenção e amor. O que é importante para mim é que eu escreva, porque, se for capaz de escrever, tenho sempre razão. 
Portanto, voltando ao princípio, aguentei cerca de seis meses horríveis, na certeza de haver perdido a capacidade de escutar vozes secretas e não me sobrar fosse o que fosse. Os meus amigos continuavam a viver e eu parado. Um dia, a meio de dezembro, comecei a desenhar uma casa e percebi que era o início do livro. Uma casa com telhado, chaminé, uma antena de televisão. Era o início do livro mas ainda não era o livro. Desenhei mais quatro ou cinco casas, com inquilinos de um lado e do outro, até ao quarto andar. A seguir entendi que lhe faltava o sótão e desenhei o sótão. Depois, a pouco e pouco, os diversos apartamentos foram sendo habitados. Depois, a pouco e pouco, os habitantes principiaram a mudar. Depois apareceu uma frase, Caminho como uma casa em chamas, e dei-me conta de ser o título, mas continuava a não acreditar muito naquilo. Depois ensaiei o primeiro borrão do primeiro capítulo, cheio de medo e dúvidas: lixo. Um segundo borrão: lixo. Um terceiro: lixo. Depois recuperei o terceiro borrão do lixo e comecei a refazê-lo, uma, duas, três vezes, a perguntar-me 
- Será isto? 
a responder-me 
- Não deve ser isto mas vou continuar 
sem que a qualidade do texto me interessasse: a única coisa que me interessava era se haveria ali a espessura que queria. O capítulo número dois passou pelos mesmos tratos de polé e, a meio de uma correcção pareceu-me que a obra tinha, finalmente, chegado. Fiz o primeiro borrão do capítulo número três e acabei, há horas, o primeiro borrão do capítulo número quatro. E vou continuar até ao fim com um borrão apenas, para refundir tudo a seguir, caminhando como uma casa em chamas num nevoeiro ardente de palavras. É capaz de ser o livro, meu Deus, daqui a sei lá quantos meses saberei se é o livro, saberei se sequei ou ainda tenho vida em mim. Até essa altura a incerteza, o cagaço. Esta crónica não deve ser muito interessante para o leitor, trata-se do mero relato de um homem às aranhas com o seu trabalho. Achei que tinha obrigação de o partilhar com vocês: afinal de contas são os meus cúmplices e têm o direito de saber o que se passa na oficina, como dizia o Zé Cardoso. 
- É preciso que a gente sofra para o leitor ter prazer 
insistia ele 
- É preciso que a gente sofra para o leitor ter prazer 
e, como em muitas outras coisas, é capaz de estar certo, o sacana. Aqui entre nós faz-me uma falta do caneco. Tenho saudades tuas que me farto, meu malandro.

António Lobo Antunes
fonte: Visão
23.02.2012

12 de abril de 2007

Crónica do Hospital


Não quero aqui ninguém. Quero ficar sozinho a medir isto, a minha doença, a minha mortalidade, o meu espanto. Por mais que repetisse – Um dia destes não acreditava que o dia destes chegasse.
E agora, Março de 2007, veio com a brutalidade de uma explosão no peito. Não imaginava que fosse assim, tão doloroso e, ao mesmo tempo, tão pouco digno como e velhice e a decadência. Tão reles. O olhar de pena dos outros, palavras de esperança em que não têm fé, dúzias de histórias de criaturas que passaram por isso que tu tens agora e estão óptimas. Recuperando aos poucos da anestesia vou dando-me conta de que um bicho horrível em mim, ratando, ratando.
Dois sentimentos opostos
- Vou lutar, não vou lutar
e o primeiro fala antes do outro
– Chamem o Henrique.
Um Grande cirurgião, um colega de curso, um amigo, uma das muito poucas pessoas a quem entregaria sem hesitações o meu corpo. Este texto talvez vá um pouco desconexo, desculpem, ainda estou fraco, a cabeça tem lacunas, falta-me vocabulário, há mais de nove dias que não pegava numa caneta e é dificil reaprender a andar. O meu medo que o Henrique não pudesse. Mas disse a quem lhe fala
- eu vou já lá abaixo
e enquanto me faziam uma TAC vi-o atrás do vidro, sério, a apertar a boca. Depois veio ter comigo
- Opero-te amanhã de manhã
e queria que soubesses, Henrique, a esperança que as tuas palavras me trouxeram. Não só esperança: o que não sei dizer. Ou antes sei mas tenho vergonha. Contento-me em pensar que tu sabes também. Sei que sabes. Basta a maneira de protestares, de mão contrariada
- Não me agradeças, não me agradeças
basta o teu afecto pragmático diante das minhas perguntas
- Uma coisa de cada vez
o modo como me disseste
- Eu trato-te
como diante da minha aflição, aflição sim senhor, deixemo-nos de tretas
- E se houver metástases no fígado?
- Eu tiro-as
e eu tentando pôr-me no teu lugar pensando como deve ser penoso operar um amigo. Um amigo desde os dezoito anos. Em como deve ser penoso, em como deve ter sido penoso para o Henrique trabalhar com uma carga afectiva em cima dele, naquelas circunstâncias.
Mexeu-me todo: tirou a vesícula, tirou o apêndice, até as glândulas seminais andou a ver. Isto há dez dias, onze dias. Escrevo do hospital onde estou, é a primeira vez que uma pessegada destas me sucede.
Magro,magro. Com uma algália ainda: é uma sorte que uma algália ainda, tive mil trezentos e seis tubos a saírem de mim. Espero que na revista entendam a caligrafia tremida da crónica. Suceda o que suceder, uma coisa tenho por certa: isto alterou, de cabo a rabo, a minha vida.
Ignoro em que sentido, ignoro como.
Sei que alterou. Santa Maria. O que farei daqui para a frente, se existir daqui para a frente? Livros, claro, foi para isso que me mandaram para o meio de vós. Quando isto sucedeu lutava com um, tinha outro pronto,já antigo, pronto há um ano e tal, para Outubro. Para dar tempo aos tradutores de o traduzirem e saírem mais ou menos na mesma altura que em Portugal. Esse livro tem a melhor prosa que fiz até hoje, parece recitado por um anjo.
Aquele em que trabalhava é apenas um embrião, cerca de metade do primeiro esboço, falta-lhe quase tudo. A partir de agora, se calhar, falta-lhe tudo.
Voltarei a ele? Uma coisa de cada vez, não é Henrique? Vamos a ver. De uma forma ou outra a gente luta sempre.
Momentos de quase esperança, momentos de desânimo. Não: momentos de muito desânimo, e momentos de desânimo maior, como se me obrigassem a escolher entre o que não vale nada e o que vale ainda menos.
Este mês deram-me um prémio literário. Estão sempre a dar-me prémios e claro que tenho prazer nisso, não sou mentiroso nem hipócrita. Toda a gente foi muito simpática.
e sem que eles sonhassem
(sonhava eu)
o cancro
ratando, ratando, injusto, teimoso, cego. Mói e mata. Mata. Mata. Mata. Mata. Levou-me tantas das pessoas que mais queria. E eu, já agora, quero-me? Sim. Não. Sim. Não – sim. Por enquanto meço o meu espanto, à medida que nas árvores da cerca uns pardais fazem ninho. A primavera mal começou e eles truca, ninho. Obrigado, Senhor, por haver futuro para alguém.

António Lobo Antunes

(texto e imagem recolhidos da revista Visão)

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...