21/08/2011

Maria Celeste Pereira: opinião sobre A Morte de Carlos Gardel


Decidi ler agora (Fevereiro deste ano) este livro de Lobo Antunes, um dos muitos que ainda não li, pelo facto de ter sabido, há já uns tempos atrás, estava o argumento ainda em fase de preparação, que a realizadora sueca Solveig Nordlund iria realizar um filme não só homónimo do livro como tendo por base a sua história.


Ora, sem dúvida, tal conhecimento espicaçou-me a curiosidade em relação ao livro. E agora, confesso, tenho a curiosidade ainda mais encarniçada para ver o resultado final. Neste caso, do filme.

E então o livro:

É mais um livro com a marca inconfundível de António Lobo Antunes. Um livro em que a narrativa se encontra fraccionada, surgindo sem sequência temporal ou espacial, intercalando tempos, espaços, acontecimentos (reais ou do mundo imaginário), e personagens.

Encontra-se dividido em cinco partes sendo que cada uma delas tem por título um tango de Carlos Gardel. Começa com “por una cabeza”, vai seguindo com a “milonga sentimental”, passa para a “lejana terra mia”, até “el dia que me quieras” para terminar com a belíssima “melodia de arrabal”.

Devo dizer que fui ouvir estes tangos (um prazer, gosto de tango, confesso) procurando ver se havia alguma ligação entre as suas letras e o que ocorria naquelas, também cinco, falas. E, realmente, penso que posso com facilidade estabelecer algumas ligações entre os sentidos dos textos. Ou então será mera vontade minha de o fazer. Deixo ao critério, ou à imaginação de cada leitor encontrar, ou não, essa intertextualidade, essa coincidência de sentidos.

Cada uma dessas partes está dividida em, chamemos-lhe capítulos, em que é dada voz a uma personagem. Uma estrutura também já habitual em alguns dos livros de ALA.

E é ao seguirmos essas vozes de cada um que se vai desenrolando perante nós uma história que é, no fundo, o somatório de muitas e, todas elas, gestas tristes onde a desesperança, o isolamento, a insegurança, o desamor, um passado de desilusões são denominadores comuns a todas as personagens.

Nuno, o filho toxicodependente de Álvaro e de Cláudia, encontra-se internado em estado terminal (acabando por morrer). À sua volta vamos encontrando os familiares e relativos que vão soltando as suas existências, os seus pensamentos, as suas fantasias traçando-nos, com elas, um quadro tremendamente deprimente em que a iminente morte do Nuno acaba por se ir diluindo no dramatismo acabrunhante de todas aquelas vidas.

Temos a Cláudia, mãe do Nuno, abandonada por Álvaro que lhe diz que não gosta dela, que nunca gostou, e que, depois de outras, acaba por manter uma relação com um indivíduo da idade do filho.

Graça, tia de Nuno, irmã de Álvaro, com uma relação homossexual assumida com Cristiana, que apenas suporta, pois, na verdade, por quem sempre esteve apaixonada foi pelo irmão.

Cristiana, insegura e exigente. Tremendamente infeliz.

Raquel, a actual esposa de Álvaro, socialmente muito diferente deste, a qual ele não aguenta e não se coíbe de o demonstrar…

E Nuno que, de facto, nunca esteve verdadeiramente ligado a ninguém.

Álvaro é apaixonado pela música de Carlos Gardel que ouve repetidamente. Esta obsessão vai piorar e entrar num caminho sem retorno no dia em que encontra o Sr. Seixas, um velho que, com a sua mulher (agora imobilizada por uma trombose), se apresentava em bares de categoria cada vez mais duvidosa, imitando a imagem e o cantar de Carlos Gardel e dançando os seus tangos. E seguindo-o, lidando com ele como se do verdadeiro Gardel se tratasse, negando a morte deste, Álvaro procura prolongar o mito. Quiçá o único ao qual se sente ainda ligado, o único fio de ilusão que ainda lhe resta.

Mas, na verdade, nem isso ele consegue…

Como sempre a escrita de ALA encanta-me pela perfeição que nela se acha. Todas as palavras estão ali mesmo, onde deviam estar.

E a poesia que dela emana!!!!


Maria Celeste Pereira
21.08.2011

L Monline: opinião sobre As Naus


As naus é considerado uns dos livros mais originais do premiado autor português. Mais uma obra que subverte as formas narrativas tradicionais, sobrepõe tempos e figuras históricas para narrar o retorno dos heróis e navegadores portugueses a Lisboa (na obra, denominada Lixboa), nos anos 1970, todos homens desiludidos com o fim da malfadada colonização africana.

Pedro Álvares Cabral, Luís de Camões, Diogo Cão, Vasco da Gama - esses e outros nomes, inclusive estrangeiros, como Miguel de Cervantes - retornam a Portugal como pessoas comuns, com seus vícios e fraquezas, numa espécie de epopeia às avessas. Lobo Antunes reconta suas vidas na África, diferentes em todos os sentidos das versões consagradas, e os coloca, ao longo da narrativa, como jogadores de cartas, beberrões, aproveitadores.

O autor explica que depois de escrever Fado Alexandrino - onde um grupo de ex-militares relembra sua vida e a Portugal de antes, durante e após a Revolução dos Cravos - a temática de sua literatura ficou um pouco menos autobiográfica, como é o caso de As naus: "Talvez os primeiros livros que as pessoas escrevem sejam sempre autobiográficos, ajustes de contas com o que a gente tem para trás, para depois poder começar realmente a escrever. A partir do Fado Alexandrino a agulha mudou, comecei a tentar falar de outras coisas".

As desventuras trágicas, por vezes burlescas, que ilustram a narrativa de As naus, tem para o autor "qualquer coisa de oníricas - mas não tem nada a ver com o realismo mágico, do qual eu não gosto. Este foi o livro que me levou mais tempo para escrever; três anos. Nas primeiras versões era só uma história sobre os retornados, com nomes normais; só na terceira ou quarta versão é que me apareceu a ideia de aproveitar os navegadores e pô-los nos dias de hoje, para tentar dar uma multiplicidade de sentidos. Andei muito tempo à procura desta história".

 
L Monline
citado daqui
26.01.2011

André Curi: opinião sobre Explicação dos Pássaros


Impossível, não há categoria para isso. Por mais que remoamos as gavetas, as transformemos em triângulos, quadrados e em (para quê servem?) losangos, não há categorias para António Lobo Antunes – o mais amorfo escritor que já li.

Primeiramente [...], não há história em Explicação dos Pássaros, ou pelo menos não há relevância alguma nela. Vamos lá: Quando perguntam as histórias de um livro, se referem a uma linha cronológica com uma sequência lógica dos fatos. Mas eu respondo com outra pergunta Que linha? Que fatos? Por acaso a avalanche constante em nossas cabeças segue a tal linha? O que você está pensando agora, e agora? E agora? O que temos em mãos não são páginas com milhares de palavras arranjadas, mas um espelho refletindo a nós mesmos, seres em constante ebulição racional. Um homem que se mata no final. E daí mesmo. A maestria em conduzir o pensamento humano é a profundidade alcançada pelo escritor português, dane-se a história.

Isso traz consequências. Sem dúvida é um livro contra a disciplina: não force a leitura. No segundo parágrafo, logo previ que o ritmo de 50 páginas ao dia se tornaria impraticável. Em alguma partes, 3 páginas ao dia pode ser considerado sucesso. Quando nos damos conta, tamanho esforço, estamos até transpirando (não é brincadeira). Somos impelidos a parar, mais do que isso: queremos jogar o livro pela janela ou comê-lo a mordidas caninas, mas não conseguimos. Percebe a angústia? Queremos ler mas não conseguimos, queremos parar mas também não conseguimos. E é assim que, aos trancos e barrancos, vamos passeando entre os pensamentos aos trancos e barrancos de Rui. Louco, né?

Agora, se esperam estar na hora do veredicto Gostou ou não?, continuarão chupando o dedo, eu ainda não sei que notar dar. Mas, adianto, não é um dos meus favoritos. E, encerro, talvez seja. Afinal, o que em nós é lógico?


André Curi
21.01.2011

20/08/2011

fragmentos de uma entrevista em Espanha (?) e uma canção

Não sei que entrevista foi, quando (parece que em finais de 2010 ou inícios de 2011) e para onde. Encontrei três peças. Na primeira, ALA fala sobre literatura:



* falado em espanhol, sem legendas

Na segunda, sobre política:



* falado em espanhol, sem legendas

Na seguinte, o entrevistador mostra um original de canções escritas para o Vitorino (que as compilou no álbum Eu que me comovo por tudo e por nada, de 1992), de que ALA responde serem "brincadeiras":



* falado em espanhol, sem legendas

16/08/2011

Liberto Cruz: Recensão crítica na Colóquio Letras nº 97 de Maio de 1987 – pp. 118 e 119


Memória de Elefante, a primeira obra de António Lobo Antunes, data de 1979, e a última, Auto dos Danados, de 1985. Temos assim que, em sete anos, este escritor publicou seis livros, o que equivale a umas centenas largas de páginas densas, quase não deixando margem para possíveis anotações ou simples descanso estético.



Sem indicação do género literário (precaução ou modernidade?) mas informados pelo editor de que se trata de romances, estas ficções de António Lobo Antunes parecem ser do agrado geral, dadas as edições já postas em circulação e as traduções já feitas ou previstas em vários países. Tanto melhor: ganha o Autor, ganha o editor, ganha a literatura portuguesa em geral e ganha, evidentemente, o respectivo ou potencial leitor.

Este processo de composição dramática, a roçar muitas vezes pelo melodramático, feito a perversos e espertalhotes indivíduos, mais não é (o que revela grandes ambições literárias), mais não é, repito, do que a comédia humana de pequeno-burgueses endinheirados onde o machismo, a cultura de sovaco, a ganância e o desprezo pelos considerados inferiores na escala social conseguem dar largas à sua intolerância, pacovismo e presunção. Tudo isto servido por um estilo que se pretende vigoroso, onde às vezes a linguagem antilírica consiste só em substituir a tradicional flor por um palavrão - o que não passa, no fim de contas, duma outra forma de lirismo muito perto da etiqueta literária de caserna.

Posto isto, considero Auto dos Danados como a melhor obra, que conheço, de António Lobo Antunes. Menos espalhafatoso, mais sóbrio no estilo, menos fanfarrão na análise de coisas e de gentes, mais moderado na narração, evitando, quase, o episódio pelo episódio, e a caminho de se livrar de imagens rebuscadas ou insólitas, que nem já os curas conseguem entusiasmar, este texto é uma lufada susceptível de incomodar os contemporâneos de António Lobo Antunes que sejam oficiais do mesmo ofício.

É preciso dizê-lo sem rodeios: Lobo Antunes é um escritor e não um escrevente. E creio, sinceramente, que, quando ele conseguir dominar a impetuosidade com que escreve e a embriaguez com que se lança na construção de situações, e quando puder ser menos moralista e mais profundo na elaboração das taras de pai em filho ou de sogro em genro, com que se delicia e nos surpreende neste Auto recentemente publicado, a sua escrita alcançará uma outra dimensão. [...]

Caso António Lobo Antunes continue a aplicar os mesmos moldes e a seguir airosamente o mesmo modelo, teremos, com frequência, tipos em vez de personagens, caricatura em vez de pessoas e jeitos de actuar em vez de tomadas de posição. A anedota e a história são duas máscaras diferentes, e a primeira não se adapta facilmente ao rosto do escritor se este não souber incluí-la, a seu tempo, na história. Ora o narrador António Lobo Antunes usa e abusa da anedota, preferindo ao real a divagação e ao concreto do quotidiano a fuga onírica. Alinhando tudo e todos pela mesma bitola e dando a cada personagem do Auto a mesma forma de falar e de pensar, o narrador domina orgulhosamente a acção como se fosse o dono e o empregado. Não se contentando em ser o administrador da fazenda alheia, o Autor apodera-se da voz das personagens e avalia-as da mesma maneira.

Com uma capacidade extraordinária de alinhavar textos por nada e de fabricar pequenos enredos aptos a voos de grande fôlego, [...] António Lobo Antunes merecia ter menos êxito. E creio que o conseguirá um dia.


Liberto Cruz
Colóquio Letras 97
Fundação Calouste Gulbenkian
Maio de 1987

14/08/2011

José Alexandre Ramos: Milonga niilista (A Morte de Carlos Gardel)


Quando António Lobo Antunes escrevia o seu 10º romance, já havia vincado o seu estilo inconfundível, da desconstrução do discurso (embora ainda faltassem alguns anos e livros para chegar a um discurso mais fragmentado), feito na primeira pessoa do singular, em narrativas paralelas ou sobrepostas das personagens que falam sobre as suas experiências e sentimentos num – por vezes árduo – exercício da memória. A Morte de Carlos Gardel fecha o chamado “ciclo de Lisboa” começado em Tratado das Paixões da Alma, seguido de A Ordem Natural das Coisas.
 
Divide-se em cinco grandes capítulos, correspondendo a cinco temas do cantor de tango argentino Carlos Gardel, cuja escolha não é acidental nem aleatória: “Por una cabeza”, “Milonga sentimental”, “Lejana tierra mía”, “El día que me quieras” e “Melodía de arrabal”. Sendo o tango um estilo de grande intensidade dramática, de base triste, sentimental, mas ao mesmo tempo agressivo e sensual, repercutido na sua dança, de que a submissão da mulher ao seu par masculino é consequência, representa muito bem o que nos diz o livro
 
(diz e não conta, que é marca literária de António Lobo Antunes, embora se possa sempre tirar uma história comum a todos as personagens da qual só nos damos conta ou podemos urdi-la após terminar a leitura do livro).
 
Estes cinco capítulos subdividem-se nos vários relatos das personagens: um núcleo de familiares de Nuno, jovem toxicodependente que está em coma num hospital e acaba por morrer. Embora esta seja a personagem central, cuja situação dá o mote, logo no início do livro, para os relatos do pai (Álvaro), da tia (Graça) e da mãe (Cláudia), personagens do referido núcleo, não podemos afirmar que exista no livro uma personagem principal e as secundárias, da mesma forma que não existe um fio narrativo (pelo menos formal e intencional), mas antes personagem e motivos centrais, tronco comum para as várias intervenções em que o núcleo deixa fluir o seu discurso. Portanto, nenhuma das personagens é dispensável, em qualquer dos seus relatos, ou o livro já não seria o mesmo. E mesmo que quiséssemos achar uma personagem mais evidenciada, nem seria Nuno, pois não é das que mais discursa; a personagem que mais intervém quer a nível narrativo quer na sequência dada à acção é Álvaro, o pai ausente nos afectos, o fã de Gardel, o marido inconstante de Cláudia e mais tarde de Raquel, e irmão de Graça.
 
Ao bom estilo antuniano, cada personagem vem à boca de cena para um monólogo onde evocam memórias da infância, ou outros episódios e factos do passado mais recente das suas vivências, cruzando com a experiência vivida no tempo actual do livro. Os capítulos e subcapítulos sucedem-se a um ritmo que vai aumentando a sua cadência à medida que a tensão entre as personagens se torna mais densa e se precipita para o fim. Assim, vamos conhecendo a inadaptação de Álvaro como pai e marido, que sucessivamente é incapaz de gerir uma relação familiar, primeiro com Cláudia com quem tem o filho Nuno, e depois com Raquel; dos conflitos de interesse em torno da personagem Nuno – desde a desordem emocional da relação com Álvaro a quem não reconhece como figura paternal, até aos conflitos com as relações amorosas da mãe, e a nova companheira do pai, estranhos com quem em criança é obrigado a conviver e que o vai marcar, embora aparente indiferença e desprezo durante a adolescência que é quando se vicia na heroína. Também a cumplicidade passiva de Graça, irmã de Álvaro e tia de Nuno, que no livro sabemos que vive com um mulher (Cristiana), mas nutre um sentimento algo incestuoso pelo irmão, e por consequente o iliba da culpa do desarranjo emocional do filho e sua preponderarão para se alienar da vida social e consumo de drogas, vindo a atribuir essa culpa a Cláudia, mãe de Nuno. Afinal, como no tango, as mulheres são aqui submissas e resignadas ora por compaixão a Álvaro, ora porque a insignificância das suas vidas não lhes permite grandes exigências para com os parceiros que escolhem (ora Álvaro, ora outros homens como os que a mãe de Nuno convive). E toda esta conflitualidade, exasperação, altruísmo e egoísmo misturados, e resignação a vários níveis, são retratados com bastante ironia e sarcasmo, em pequenos episódios roçando o grotesco, e com um pendor niilista como se a vida, por ser assim, não valesse a pena ser vivida. Assistimos ao fim de tudo não com a morte de Nuno, mas com o abandono das personagens que se vão despedindo da narrativa sem que demos conta e com a suposta loucura de Álvaro (nunca assumida quer pelos personagens quer pelo autor – terá que ser o leitor a decidir) que, transtornado com a morte do filho (e ao fim ao cabo com todo o seu percurso emocional arruinado), julga conhecer Carlos Gardel sobrevivente num imitador – Albino Seixas, a personagem final do livro, um velho artista de cabaret que luta para manter a subsistência e a da sua mulher entrevada, após muitos anos como dançarinos de tango. De realçar que as personagens – de uma baixa classe média – vivem todas nos subúrbios de Lisboa, que no livro e através dos relatos são apresentados como lugares feios e desinteressantes – um factor mais a sublinhar a resignação.
 
A composição deste romance, em que as narrativas têm altos e baixos picos de intensidade, assemelha-se à de uma composição musical
 
(como viria a ser notado dali para a frente na obra de Lobo Antunes),
 
ou não tivesse sido construído sob a base de cinco temas de Carlos Gardel, este ainda uma personagem abstracta do livro mas sempre presente, que silencia todos os relatos quando Álvaro, presumivelmente já recuperado do seu estado delirante, reconhece finalmente o cantor argentino como morto.
 
Escrever sobre qualquer que seja o livro de António Lobo Antunes é, para mim, ingrato e difícil, acabo sempre por não achar as palavras certas. Porém, a terminar, devo dizer que foi um prazer reencontrado reler A Morte de Carlos Gardel, pela mestria com que foi escrito e por, como sempre, estar a falar de nós e para nós próprios – isto já é António Lobo Antunes, reconhecidamente. Particularmente, e por uma questão de gosto pessoal, este livro é um dos que mais aprecio deste mestre da literatura.
 

José Alexandre Ramos
14.08.2011

mupie do filme de Solveig Nordlund a estrear em Setembro


(do blogue do filme)

10/08/2011

Marco Caetano: opinião sobre Sôbolos Rios Que Vão


Tinha vontade de voltar a ler Lobo Antunes. Tinha vontade de ler frases do tipo "... gente de que notava apenas o ruído das botas e portanto não gente...". Tinha vontade de me tornar a perder nos vários cenários que as suas obras proporcionam.

António Lobo Antunes não é um autor consensual. Mas afinal, é mesmo assim com todos os artistas, não é? Eu sou seu admirador de forma incondicional. Conseguiria ouvi-lo falar horas sem parar.

Poder-se-á dizer que os seus livros não são de leitura fácil, mas na minha opinião isso deve-se unicamente à riqueza do conteúdo da sua escrita. Arriscaria dizer que a par de Agustina Bessa-Luís, estamos no topo da pirâmide dos escritores portugueses da actualidade.

Sôbolos rios que vão é a sua última obra cujo o lançamento ocorreu a 29 de Outubro de 2010 na Estação Elevatória dos Barbadinhos, pertença do Museu da Água da EPAL. Tive o prazer de assistir ao vivo a este lançamento e devo dizer que a vontade de ler este livro surgiu logo aí. O título, proveniente de um poema de Camões, é soberbo, o que aliás parece estar a tornar-se um hábito nos livros do autor. Sem dúvida uma forma superior de baptizar esta obra.

Estamos perante um texto muito autobiográfico. Há alguns anos atrás, Lobo Antunes esteve hospitalizado devido ao aparecimento de um cancro. É essa experiência que, do seu ponto de vista privilegiado de doente, se propõe a apresentar ao longo dos dias em que esteve hospitalizado.

O recurso a memórias antigas para passar o tempo, para esquecer o presente, para justificar as dores ou os sentimentos, está presente do início ao fim. Tudo acontece para se abstrair do que está em seu redor como se fossem espasmos que findam quando a dor regressa. A facilidade com que muda de interlocutores, de cenários ou de espaços temporais, permite ao leitor divagar no percurso da obra (dos rios?).

As metáforas utilizadas e a riqueza dos seus pensamentos são apaixonantes. Penso que nem que leia a obra mais duas ou três vezes, não conseguirei apreender tudo o que o autor tem para mostrar, tal é a densidade da escrita.

Comparar a sensação de se ter um cancro nos intestinos com a sensação de ter um ouriço de castanheiro dentro de nós é bem revelador do poder da sua escrita. O doente que não é doente, é o senhor Antunes, não, é o Antoninho! O avô que é a única pessoa que se preocupa com a dor provocada pelo ouriço. Mas como, se afinal o avô morreu há 40 anos? O pai que apenas procura a bola de ténis que se escondeu atrás dos arbustos como o ouriço que esconde em si. O médico, ou antes o pingo no sapato, quando afinal os rios continuam a caminhar... E nós, sôbolos rios que vão.


Marco Caetano
09.01.2011

Filipe Kepler: opinião sobre Explicação dos Pássaros



Explica-me os pássaros, pai.

Rui encontra-se numa encruzilhada. Despedaçado desde que sua primeira mulher o abandonou e oprimido pelo desprezo silencioso que o pai e a família lhe devotam por conta do modo de vida que escolheu para si, este professor universitário vê-se estagnado, vítima da frustração resignada e de um surdo desespero, reprimidos por anos sem conta e a tornarem-se mais e mais insuportáveis. Assim, após visitar a mãe a morrer no hospital, Rui decide-se por levar sua segunda mulher, Marília, para uma viagem de quatro dias em Aveiro, onde pretende terminar a relação, na esperança de que, liberto de um relacionamento que julga ruim, possa enfim retomar o próprio rumo e dar um novo curso para sua vida. Contudo, haverá ainda forças para tanto? Será possível, depois de tanto tempo, levantar-se do chão e recomeçar?

À semelhança de suas obras anteriores, o autor divide o romance em capítulos cronológicos (os quatro dias passados em Aveiro), que, no entanto, não se limitam ao escopo temporal de seus títulos. Por conseguinte, o leitor se depara a cada página – às vezes a cada parágrafo – com histórias concomitantes: ao relato do presente, em Aveiro, intercalam-se flashbacks de seu passado com a primeira mulher, as antigas querelas familiares, o divórcio, o início de seu relacionamento com Marília, bem como eventos de um passado ainda mais remoto, origem de suas alegrias e futuras dores: a infância e, sobretudo, a tarde idílica passada na quinta, com o pai a explicar-lhe os pássaros. Além de seu passado e presente, a partir de determinado ponto é-nos dado a conhecer também o futuro de Rui, isto é, os eventos ulteriores à viagem a Aveiro. Uma vez que tal emaranhado narrativo é magistralmente arranjado pelo autor, o leitor, após acostumar-se à obra, não encontra dificuldades em acompanhar o decurso de cada história; pelo contrário, sente-se intrigado e mesmo sequioso de navegar por esse imbricamento textual, que desafia constantemente nossa atenção e entendimento.

A força poética da prosa de António Lobo Antunes sempre me fascinou. Em "Explicação dos Pássaros" não é diferente: seu lirismo visceral, altamente metafórico, a diluir passado, presente e futuro num fluxo narrativo vertiginoso, é simplesmente avassalador, imprimindo-nos a fogo o selo trágico da história de um homem à beira do abismo. É decerto um dos grandes escritores de língua portuguesa da actualidade - se não o maior.


Filipe Kepler
em Skoob (leia neste site mais opiniões sobre o livro)
21.06.2011

sobre o filme A Morte de Carlos Gardel

Ciclo dedicado a Lobo Antunes no Teatro S. Luiz (Lisboa) em Setembro - consulte o programa

Literalmente copiei a informação da programação do site do S. Luiz para aqui:


15 A 18 SET
DESTE VIVER
AQUI NESTE PALCO ESCRITO
ANTÓNIO LOBO ANTUNES

Não se lê António Lobo Antunes. Viaja-se por dentro das suas ficções poéticas como quem se deixa transportar por um fio de memória. Vive-se empolgadamente, ou desoladamente, a acção dramática que a cada momento descola do exercício narrativo. Pode parecer mental, mas é visual, teatral, cinematográfico, musical. Por isto e por tudo – porque Lobo Antunes é um dos grandes autores universais e temos o privilégio de o ter connosco na mesma cidade onde vivemos, porque lê-lo é lermo-nos nas nossas vidas das últimas décadas, ou simplesmente porque é um prazer – faz-nos pleno sentido abrir a mãe de todas as temporadas, nesta casa das artes do palco, com um programa dedicado à literatura. Com Maria de Medeiros, que regressa a Lisboa e se desdobra em quatro personagens-sintoma do fim de um certo Portugal; com Solveig Nordlund, que ataca o universo decadente, solitário, desconcertante, de uma família que dificilmente poderia demonstrar que ainda o é; com José Neves, que aqui encontra o lugar ideal para re-exercitar o seu conceito de leituras postas em som, para ouvir e ver de olhos fechados. Depois, conversamos sobre o autor, a obra e os temas que dela emergem, lançamos livros, ouvimos dois ou três temas musicais. Quatro dias de festa António Lobo Antunes, porque a festa é um dos modos de ser da poesia.

Um programa SLTM, em colaboração com Publicações Dom Quixote.


15 E 16 SET
QUE CAVALOS SÃO AQUELES QUE FAZEM SOMBRA NO MAR?
UM ESPECTÁCULO DE MARIA DE MEDEIROS
QUINTA E SEXTA, ÀS 21H00
SALA PRINCIPAL

O talento de Maria de Medeiros e de Gonçalo Távora Correia, cavaleiro de equitação à portuguesa, o fluxo ininterrupto deste texto sem parágrafos nem maiúsculas nem vírgulas, restituem-nos o esplendor e a decadência de uma família do Ribatejo cuja mãe “vai morrer às seis horas”. Cada um dos membros – o cínico, a drogada, o homossexual e até a velha criada, Mercília, sem contar com os mortos e com os que estão a morrer – libertam a sua voz numa tragédia cujo ritual evoca quer a ópera (onde se morre a cantar) quer uma arena (onde se morre entre ‘vivas’). O título, inspirado numa velha canção de Natal, recorda que, sob o domínio outrora próspero da família Marques, os cavalos viviam em liberdade… Enquanto agora se ouve a litania: “Como esta casa deve ser triste às três horas da tarde”.
Brigitte Paulino Neto

Adaptação, Encenação e Vídeo Maria de Medeiros
Desenho de Luz Philippe Welt
Interpretação Maria de Medeiros, Gonçalo Távora Correia e Paxá, o cavalo

Produção MC93 - Maison de la culture de la Seine-Saint-Denis


16 E 17 SET
CARTAS DE GUERRA
UMA LEITURA POSTA EM SOM POR JOSÉ NEVES
SEXTA E SÁBADO ÀS 18H30
JARDIM DE INVERNO

As cartas deste livro foram escritas por um homem de 28 anos na privacidade da sua relação com a mulher, isolado de tudo e todos durante dois anos de guerra colonial em Angola, sem pensar que algum dia viriam a ser lidas por mais alguém. Não vamos aqui descrever o que são essas cartas: cada pessoa irá lê-las de forma diferente, seguramente distinta da nossa. Mas qualquer que seja a abordagem, literária, biográfica, documento de guerra ou história de amor, sabemos que é extraordinária em todos esses aspectos.* Extraordinárias, sim, enquanto matéria viva que transporta pessoas dentro. Pessoas postas perante factos maiores – a separação, a guerra, a solidão extrema e a desumanidade das condições de vida – que reinventam na criação, na leitura e no exercício epistolográfico do amor a possibilidade de permanecerem vivas e se projectarem no futuro. Ideal para o exercício de criação de dramaturgia sonora que José Neves propõe. E para compreendermos como o acto de ler reconstitui e nos devolve, outra, a obra escrita.

*do prefácio de Maria José Lobo Antunes e Joana Lobo Antunes.


17 SET
FACTS AND FICTIONS OF ANTÓNIO LOBO ANTUNES*
LANÇAMENTO E CONVERSA SOBRE AUTOR E OBRA
SÁBADO ÀS 15H
SALA PRINCIPAL

O Centro de Cultura e Estudos Portugueses da Universidade de Massachusetts estuda a literatura e a cultura dos duzentos milhões de falantes de português espalhados pelo mundo, sempre numa perspectiva de diversidade teórica e crítica. Sobre António Lobo Antunes, publica agora mais de vinte artigos capazes, cada um deles, de nos fazer descobrir ângulos insuspeitos e de nos transmitir o desejo de ler e reler o autor. Do lançamento em Portugal deste volume partimos para a discussão, aberta e assumidamente não académica, de uma obra única e de todos os temas, todas as reescritas da língua, todas as viagens poéticas que dela se desdobram.

*Edição do Centro de Cultura e Estudos Portugueses da Universidade do Massachussets



17 SET
ANTESTREIA
A MORTE DE CARLOS GARDEL
UM FILME DE SOLVEIG NORDLUND
SÁBADO ÀS 21H00
SALA PRINCIPAL

Solveig Nordlund gosta de fazer filmes que nos surpreendam intelectual e formalmente. Com a adaptação cinematográfica de A Morte de Carlos Gardel, tem uma oportunidade única de empreender “mais uma prodigiosa aventura”. A partir de um emaranhado de discursos cruzados, discorridos por múltiplas primeiras pessoas, somos conduzidos por uma rede de memórias em cujo centro nervoso encontramos um jovem toxicodependente à beira da morte, o seu pai ingénuo, que não acredita que Gardel tenha morrido naquele acidente aéreo, uma tia obstinada… É a vida toda, com a morte dentro. Ou é um filme a partir de uma obra fundamental de Lobo Antunes, com antestreia no São Luiz.

Após a apresentação do filme, conversa com Solveig Nordlund, Luís Galvão Teles e convidados a confirmar.

Argumento e Realização Solveig Nordlund
Baseado na obra de António Lobo Antunes
Fotografia Acácio de Almeida
Som Carlos Alberto Lopes
Montagem Paulo Mil Homens
Produção Fado Filmes / Luís Galvão Teles

Com Rui Morisson, Carlos Malvarez, Teresa Gafeira, Celia Williams,Ruy de Carvalho, Joana de Verona, Elmano Sancho, Miguel Mestre, Ida Holten Worsøe, Carla Maciel, Diogo Dória, Teresa Faria, Cecília Henriques, Maria Arriaga, Albano Jerónimo e Maria João Pinho

06/08/2011

Filme adaptando A Morte de Carlos Gardel

Filme de abertura da 3ª edição do Festival Douro Film Harvest (5 e 11 de Setembro 2011), com pré-apresentação ao público no ciclo sobre António Lobo Antunes, no Teatro S. Luiz, a 17 Setembro 2011

Nos cinemas a 22 de Setembro 2011.

Género: Drama

A Morte de Carlos Gardel, um filme de Solveig Nordlund, adaptado do romance de António Lobo Antunes

Solveig Nordlund ("A Filha", "Aparelho Voador a Baixa Altitude") gosta de fazer filmes que nos surpreendam intelectual e formalmente. Com a primeira adaptação cinematográfica de uma obra de António Lobo Antunes, a realizadora sueca radicada em Portugal teve uma oportunidade única de empreender "mais uma prodigiosa aventura".

Sinopse:

Um jovem (Carlos Malvarez) toxicodependente está a morrer num hospital. Junto a ele, à medida que vão vivendo a evolução da sua agonia, cada um dos seus familiares mais próximos evoca uma teia de recordações, de memórias obsessivas e de vivências actuais. Todos eles são portadores de sonhos e desalentos da vida. O pai do jovem (Rui Morisson), apaixonado pelo tango e pela figura de Carlos Gardel, o mais famoso dos cantores de tango argentino, percorre simbolicamente um rosário de situações dolorosas. Delirante, confunde-o com um cantor parecido (Ruy de Carvalho).




Com Rui Morisson, Carlos Malvarez, Teresa Gafeira, Celia Williams, Ruy de Carvalho, Joana de Verona, Elmano Sancho, Miguel Mestre, Ida Holten Worsoe, Carla Maciel, Diogo Dória, Teresa Faria, Cecília Henriques, Maria Arriaga, Albano Jerónimo e Maria João Pinho

Dirigido por Solveig Nordlund
Escrito por António Lobo Antunes
Produzido por FADO FILMES

Sites:

http://carlosgardelfilme.blogspot.com/
http://www.facebook.com/amortedecarlosgardel

(texto citado do Youtube)

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...