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A mostrar mensagens de Dezembro, 2010

Ana Paula Arnaut disserta sobre Sôbolos Rios Que Vão

Sôbolos Rios Que Vão de António Lobo Antunes:
quando as semelhanças não podem ser coincidências *

Há trinta anos atrás, num artigo intitulado “Sôbolos rios que vão: uma estética arquitectónica”, Maria Vitalina Leal de Matos confessa ter sido “levada a constatar e a admitir que o poema, a muitos títulos assombroso, pode facilmente decepcionar o leitor, desprovido como é das qualidades estéticas com que o lirismo camoniano mais frequentemente deslumbra” .
Não sendo embora nossa intenção fazer um pormenorizado estudo comparativo entre as redondilhas de Camões1 e o novo romance de António Lobo Antunes, não podemos deixar de verificar as inúmeras semelhanças entre os dois textos. Desde logo, a apropriação integral, para título do livro, do primeiro verso do célebre poema camoniano. É verdade, diga-se a propósito, que a identificação titular poderia não constituir um facto significativo, pois já nos habituámos a que o pórtico da obra nem sempre revele o que vai dentro das suas páginas, esconde…

Filipa Melo: crítica a Sôbolos Rios Que Vão

O senhor da cama onze
O protagonista do novo romance procura o aconchego nas imagens míticas da infância, o Lobo Antunes aproxima-se do lirismo autoconfessional.

«Deixaram-no atrás duma janela sem paisagem, num tempo velado, oco.» O sujeito é José Cardoso Pires, vítima de acidente vascular cerebral e descrevendo-o em De profundis, Valsa Lenta (1997). Mas o sujeito podia ser António Lobo Antunes, vítima de cancro («um ouriço», com os espinhos emboscados nas vísceras na tensão das raposas»), experimentando a queda e o renascimento e, agora, descrevendo-o em Sôbolos Rios Que Vão. «Antoninho» ou «o senhor Antunes da cama onze» está preso na enfermaria de um hospital lisboeta, também ele suportando o peso do tempo, «velado, oco». Então, «cada gesto que não fazia gritava, cada movimento da cabeça na almofada gritava, cada centímetro de pele gritava, que difícil esconder este medo». O refúgio são as memórias da infância (Sião ou o Paraíso Perdido), quando «quase tudo tranquilo» e o pai lhe mos…