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A mostrar mensagens de Janeiro, 2007

almaro: opinião sobre Ontem Não Te Vi Em Babilónia

Curiosamente (e ironicamente, uma vez que são autores que nutrem antipatias mutuas) a empatia para com António Lobo Antunes foi idêntica com a que tive com Saramago. O primeiro livro que me ofereceram de Saramago foi o “Ano da Morte de Ricardo Reis”, […]. Não o consegui ler, julgo que na altura não passei da primeira página, e quando assim é, quando me arrasto nas letras, perdido nas frases, esqueço o livro […]. Lembro-me que na altura o coloquei na prateleira, algures junto aos livros não prioritários, que para se ler um livro é preciso afinidade, e na altura não estava afim. Não me recordo como o livro saiu da prateleira e viajou para a mala de trabalho, que nessa altura viajava muito. Fiquei de tal maneira preso às páginas de Saramago que dei comigo a ter pena de as virar e ficava a saboreá-las como quem degusta um vinho do Porto velho de xistos e de sol. Com António Lobo Antunes o processo foi idêntico, mas levou mais tempo a entrar no seu universo literário, culpa minha que tente…

Fernando Mendonça: Recensão crítica na Colóquio Letras nº 125/126 de Julho de 1992 – pp. 296 e 297

O veio da paródia e a sua mais utilizada vertente, a carnavalização, têm ocupado páginas episódicas na literatura portuguesa, geralmente para sublinhar tipos ou lugares de um universo social em que a burguesia, decadente ou ascendente, confessa até onde pode ir a vacuidade das relações humanas. No século passado, Eça parodiou as instituições românticas, e as críticas de Camilo foram o paraíso do sarcasmo. Em tempos mais recentes, podemos seleccionar uma meia dúzia de bem sucedidas realizações, voltadas para obras e figuras que, por razões justas ou injustas, se tornaram alvos favoritos da sátira. Tudo isso, porém, nunca se apresentou como um projecto global de produção.
Mas agora estamos diante de um livro que utiliza, como procedimento incansável de produção, a paródia: trata-se do romance de António Lobo Antunes Tratado das Paixões da Alma.
É conveniente esclarecer que, quando se fala aqui de paródia, é no remoto significado grego da palavra – canto ou discurso paralelo a outro. No ca…

Portnoy: opinião de leitura

António Lobo Antunes: Tratado de las pasiones del alma e Qué haré cuando todo arde?
Não se pode resistir à tentação de ler um romance com um título tão maravilhoso:Tratado das Paixões da Alma.
É o meu segundo romance de Lobo Antunes, depois de Que Farei Quando Tudo Arde?. São dez anos de diferença que existem entre a escrita dos dois romances, e a comparação entre si supostamente daria uma clara visão sobre o estilo literário de Lobo Antunes. Porém, dois romances  tão separadas no tempo, e algumas das crónicas do escritor publicadas no Babelia - El País, não implicam demasiado conhecimento da obra de um escritor para se empreender uma crítica séria e tirar conclusões a respeito.
Penso que se tivesse que escolher um autor português para o laurear com o Prémio Nobel, não teria dúvida alguma que, antes da tresnoitada filosofia new-age de Saramago, uma narrativa infestada de conformismo e lugares comuns, viesse a apostar em Lobo Antunes, mais arriscado literariamente e menos comprometido soc…

Le Monde Diplomatique (Brasil): sobre Exortação Aos Crocodilos

Um romance sobre a revolução portuguesa
Quando o Prêmio Nobel de Literatura foi atribuído a José Saramago, algumas vozes levantaram-se para lamentar que o júri não tivesse preferido Antonio Lobo Antunes. Sem querer entrar numa polêmica inútil, dada a dificuldade de comparar os méritos dos dois autores, diríamos que seu Exortação aos crocodilos prova mais uma vez que ele é um grande escritor, um daqueles que os séculos contam nos dedos das mãos. O romance é composto de um coro a quatro vozes que intervêm sucessivamente oito vezes, um pouco sob a forma de um padrão: trinta e dois capítulos de uma extraordinária profusão de imagens poéticas, sustentadas por uma escrita de extrema tensão — falou-se a seu respeito de um estilo modelado pelo de Céline  — e por uma construção de impecável rigor, que evoca para o leitor lembranças da música barroca e da pintura cubista.
Emília (que todos chamam de "Mimi" e que é surda), Fátima (afilhada de um bispo lascivo), Celina (preocupada com os …