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Mensagens

A mostrar mensagens de Janeiro, 2010

José Alexandre Ramos: Os Cus de Judas - a primeira angústia, 2º capítulo

É generalizada a ideia de que Os Cus de Judas (de 1979, publicado uns meses depois deMemória de Elefante) é um livro sobre a guerra colonial em Angola. Está correcto se considerarmos que é o principal assunto trazido à catarse feita na trilogia dos três primeiros livros publicados (que eu designo pessoalmente como os três capítulos da primeira angústia de António Lobo Antunes), mas não é apenas e tão só sobre a guerra. Trata-se do capítulo seguinte de Memória de Elefante em jeito de prequela, uma vez o leitor vai aprofundar o conhecimento sobre factos da vida da personagem (que podemos considerar a mesma) que no livro anterior são ainda ligeiramente abordados: a sua experiência e terrores da guerra, o deslocamento de ter saído de um país (Angola em conflito) que não era o seu e regressado a uma pátria (concretamente a Lisboa e aos seus habitantes) que já não reconhece e, consequentemente, a sua solidão. Aliás, ambos os livros, por abordarem temas tão intrínsecos à personagem que têm e…

Filipa Melo: sobre Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?

Arena de fantasmas
Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar?, vigésimo primeiro título de ficção para 30 anos de produção literária publicada de António Lobo Antunes. Prepare-se: são 375 páginas, sete partes e 22 capítulos para uma lide de morte entre o escritor e um curro de nove personagens, uma longa polifonia de monólogos. A estrutura perfeita para uma corrida que inclui tércio de capote, de varas e bandarilhas, faena e sorte suprema (títulos do que chamamos partes). No final, encerrada a corrida, as vísceras do touro (afinal, o autor ou as personagens?) no centro da arena, o seu fim anunciado. E uma pergunta: como envelhece um escritor que deu a hipótese da vida à escrita como quem vende a alma ao Diabo? Um autor que não aceita calar as vozes que o acompanham desde sempre, vozes, afinal, só (d)ele. Insiste em que as continuemos a escutar, nós, os leitores fiéis (os outros muito dificilmente resistirão ao atrito do caminho), extenuados por suspensões, elipses e ataxias sintá…

Alfredo Monte: Miasmas familiares em Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?

“começo a pensar se é que se pode chamar-se pensar a um ressentimento antigo…” (António Lobo Antunes, Eu hei-de amar uma pedra)

Além de ser uma obra-prima, Eu hei-de amar uma pedra (o trecho acima pode ser encontrado na pág. 316 da edição brasileira, pela Alfaguara) tem um título que é emblemático da visão de mundo que sustenta a obra de Lobo Antunes. Só não gosto, nesse romance, de um detalhe, que não chega a atrapalhar, mas que me parece “sobrar” na tessitura geral. Na pág. 127, lemos: “ou sou eu que imagino ou o António Lobo Antunes julgando que devo imaginar a fim de que o romance melhore”.

Creio que ele usa esse recurso a uma “janela” metalinguística de forma mais feliz e consequente no seu mais recente romance, QUE CAVALOS SÃO AQUELES QUE FAZEM SOMBRA NO MAR? (ninguém pode ser pego de supetão para dizer esse título, vai se embaralhar todo). Os narradores debatem com “o que faz este livro”, com a chamada instância autoral com o próprio Lobo Antunes, cuja participação também é probl…

António Bettencourt: sobre Que Cavalos São Estes Que Fazem Sombra No Mar?

«Como esta casa deve ser triste às três horas da tarde.»
A frase, convocada, logo no início, pela memória da personagem Beatriz foi um dos pontos de partida para este livro e uma memória do autor, citação do seu primeiro romance e recordação da sua infância. Assim se define uma das temáticas centrais do livro, a passagem do tempo, onde tudo se orienta e tudo se constrói a partir da morte da mãe, que origina o labirinto de memórias individuais de uma vida familiar desagregada e disfuncional, onde as relações e manifestações de ternura e afecto são sempre difíceis ou inexistentes e onde as personagens procuram na alienação ou no delírio mitigar o deserto da sua dificuldade emocional, e da carência que dela decorre.

Um discurso que se exerce na técnica polifónica, onde múltiplas vozes se entretecem à volta de uma dominante, vozes que configuram, muitas vezes, apenas ecos distantes da recordação de situações ou objectos.

As frases reiteradas, como que figurações de temas com inúmeras variaçõ…

Mary Ellen Farias dos Santos: sobre O Esplendor de Portugal

O real, o imaginário e as lembranças
edição brasileira Rocco
A estética da capa de O Esplendor de Portugal é bastante simples, apesar da cor bastante chamativa. No entanto, o diferencial deste não está fora, mas sim em seu interior, isto é, o texto do escritor português António Lobo Antunes.
Neste, o 13º romance de Antunes, o belo e o cruel de Angola, África, são retratados de maneira inteligente. Outro ponto interessante é o jogo com o leitor, seja na questão do narrador ou nas disposições de certos trechos da obra.
Com um "Q" de Roberto Drummond, Lobo Antunes inclui em sua história personagens com bastante veracidade e outros pouco ficcionais. A história é de uma família de portugueses, brancos, abastados, que vivem do plantio do algodão em Angola.
O pai, por azar dos filhos, é um pobre coitado, alcoólatra e completamente fraco. Sua mulher tenta sobreviver, pois seus três filhos são criados em meio a violência do preconceito. Em meio a flashbacks o leitor conhece estes filhos: …

Milu: opinião sobre O Esplendor de Portugal

O Esplendor de Portugal é um romance da autoria de António Lobo Antunes que desenrola com admirável mestria o cenário, qual quadro impressionista, da colónia de Angola, no apogeu da colonização e no degradante período pós-colonial. Através das suas personagens, nomeadamente aquando do seu papel de narradores, somos levados a viajar no tempo e no espaço do que foram as suas vidas.

António Lobo Antunes usa de um estilo próprio que faz dele um género único, que se caracteriza por um tipo de escrita densa e enfática, muito propícia a adensar os dramas humanos que projecta nas personagens por si criadas, tornando-as deste modo e inequivocamente, em perfeitos candidatos a utentes de um consultório psiquiátrico. Sem dúvida que António Lobo Antunes alia as suas duas facetas profissionais. O profissional de medicina psiquiátrica caminha de mãos dadas com o profissional da escrita.

Este livro centra-se na história de uma família que se desmembra quando os filhos de Isilda, o Carlos, o Rui e a Cla…

Ismahêlson Luiz Andrade: A memória entre a guerra e o sublime

António Lobo Antunes é uma presença marcante no campo memorialístico da Literatura Portuguesa e Internacional, com a sua impactante obra literária, a saber, os seus romances e as suas crônicas. Por meio de uma narrativa com cenários compostos por narradores vinculados a recordações contundentes, lembranças aguçadas, densas e sublimes, o leitor é seduzido a acompanhar os seus narradores com as suas lembranças impregnadas de fantasmas, fragmentos discursivos, imagens traumáticas. Enfim, (re)construções, na memória, de um tempo passado e entrelaçadas num tempo presente.
A partir das características narrativas proporcionadas por Antunes, a proposta do nosso artigo é, considerando o percurso dos seus narradores, pela memória, realizar uma breve leitura de abordagem memorialística da sua obra, tendo em consideração seus romances e crônicas, designadamente “D`este viver aqui neste papel descripto – Cartas da guerra”. Trata-se de uma compilação das cartas escritas para a sua esposa, compiladas…

Maria Celeste Pereira: Uma leitura íntima de Ontem Não Te Vi Em Babilónia

Terminei, finalmente, a leitura do livro de António Lobo Antunes “Ontem não te vi em Babilónia”.

Foi, seguramente, um dos livros que mais tempo me levou a ler, mas também um daqueles que mais profundamente me marcou.

Quando, logo no primeiro parágrafo desta resenha, utilizo a palavra “finalmente”, não quero com isto significar um “até que enfim”.

Não, não foi nada de penoso nem tampouco me custou lê-lo.

É exactamente o oposto. É o finalmente de quem lhe custa deixar o livro mas tem de o fazer; de quem lê e relê diversas vezes muitas das partes do romance (?), as mais das vezes por puro deleite. Outras, porém, porque precisei mesmo de o fazer. Precisei de entender bem as palavras das personagens que, numa noite de insónia (é todo o tempo que dura este livro, da meia noite às cinco da manhã e com um fim previamente anunciado), se vão desnudando dizendo muito do que querem ocultar e ocultando outro tanto do que querem dizer.

O registo destas palavras é sempre pesado, sofrido, frágil, visceral…