31/10/2011

Manuel Cardoso: opinião sobre Comissão das Lágrimas


Uma mulher de quarenta e tal anos. A fronteira entre a juventude e a memória que escapa, porém uma outra memória, a que resiste, persiste, como uma moinha, uma dor latente que aperta a alma e domina a mente; recordações negras, avassaladoras, povoam a mente de Cristina, internada numa clínica psiquiátrica. Memórias de África, Angola, Luanda, anos setenta. Nascida no tempo da Guerra Colonial, crescida entre o sangue e o horror, Cristina recorda a mãe, Alice ou Simone consoante se trate da mãe propriamente dita ou da mulher de alterne em que sobrevivera, do pai ou não pai, não se sabe bem, ele preto, o pai verdadeiro talvez branco, talvez o senhor Figueiredo da boîte, Cristina não sabe, sabe sim que o pai, preto, foi homem da Comissão das Lágrimas, homem que faz justiça com muitas mortes e sofreu de outras justiças não menos ensanguentadas pela guerra ou guerrilha ou seja lá o que for, porque em Angola não era preciso guerra para matar, bastava viver ou sobreviver.

É assim o escrever e o sentir de António Lobo Antunes, frases que crescem como o pensamento que se encadeia noutro pensamento, porque o pensamento não tem pontos parágrafo nem sofre de acordos ortográficos. Assim uma escrita corrediça como a vida, assim às vezes partida ao meio como as almas.

O escrever de António é como o escrever do pensamento na memória. O que pensamos é por vezes apenas o que persistiu, deitamos fora os sorrisos, ficam as dores, as moinhas que persistem como o joelho de Simone ou Alice, o joelho que não pára de doer, que incha como as dores da alma.

É assim o escrever de António, um escrever que nos faz sentir as dores de todas as Cristinas e chorar a alma de todas as Simones. É assim um livro inteiro sem um sorriso, a não ser talvez o sorriso interesseiro do avô de Simone, “anda cá rapariga”, o avô de Alice (então Alice, está claro) que não vê, não enxerga e então vê Alice tacteando, as pontas dos dedos no corpo de Alice, como os aguilhões de todas as guerras cravados nas almas.

Um livro sofrido, escrito a sangue que se lê sem lágrimas mas também sem conforto a não ser o do prazer imenso de passear na tristeza e na arte infinita de António Lobo Antunes.

A meu ver um dos melhores livros de ALA, este, o último até ao próximo. Um livro onde, mais uma vez, não se pode procurar uma estória porque os livros de ALA são viagens, não são contos nem narrativas. Viagens interiores, passeios pelas dores da vida e, muitas vezes, murros brutais na alma de quem lê. Murros que se encaixam talvez com prazer masoquista mas sem dúvida com prazer de saborear esta poesia da dor como ninguém mais é capaz de a escrever.


Manuel Cardoso
31.10.2011

30/10/2011

José Alexandre Ramos: opinião sobre Comissão das Lágrimas

«A única solução é apagar o passado»

Será ingénuo o leitor que, tomando Comissão das Lágrimas para ler, pensar que vai encontrar o mesmo António Lobo Antunes (ALA) de livros, pelo menos, anteriores a Eu Hei-de Amar Uma Pedra. Muito mais ingénuo será o leitor se for apenas conhecedor das crónicas encantadoras do escritor e julgar vir a sair da mesma forma encantado com a leitura deste livro de difícil catalogação (chamar-lhe simplesmente romance não é justo, seja no bom ou no mau sentido). Isto quer dizer que ler os livros mais actuais de Lobo Antunes, ou este em concreto, tornou-se quase impossível? Depende do leitor: sim, se for um dos ingénuos que atrás referi, porque é preciso estar preparado; e não, se já conhecer bem a arte do escritor e tiver capacidade para se conduzir nas curvas e contracurvas do discurso sem se despistar em qualquer capítulo. Mas é o mais difícil de todos, do meu ponto de vista. A não ser que eu não tenha estado tão preparado como julguei. A eficácia de um livro também depende da preparação do leitor para o receber.

Pessoalmente, como leitor de todos os livros de ALA e grande apreciador da sua escrita, desta vez, com este Comissão das Lágrimas, não saí convencido de ter lido uma obra-prima. Não creio que seja livro de que vá recordar-me, ou acompanhar-me durante semanas, como aconteceu com outros (Fado Alexandrino, a título de exemplo e indo buscar um dos mais antigos, já lido há anos). O doseamento das palavras, o encaixe das vozes sobrepostas, continua sendo de mestre (que eu ainda não encontrei em qualquer outro autor até à data), mas, dando razão a algumas críticas que já li, este livro, com um título tão sugestivo (ao qual só os mais distraídos se mostrarão indiferentes) necessitava que desta vez António Lobo Antunes se desmarcasse da sua obstinada pretensão de não contar uma história (na realidade ele conta imensas em cada livro, ou no mínimo sugere a maior parte delas) e engrossasse este Comissão das Lágrimas com um fio narrativo mais consistente, para que nada fugisse ao leitor. Pegando nas palavras de Clara Ferreira Alves, em crítica ao livro publicada no Expresso, ALA “sabe do que está a falar e quem está a falar, os leitores não. O escritor deixa os leitores à porta”. Nem todos os leitores, mas a maioria acredito que sim. Se não sabemos o que veio a ser esta Comissão das Lágrimas – um episódio político na história de Angola após a independência, que não vou explicar, os interessados podem pesquisar na web – teremos mais dificuldade em entrar nas várias narrativas. Assim, nada se perdia se o autor desta vez tivesse introduzido nas suas vozes alguém que explicasse, mesmo que muito sumariamente, o porquê deste título ou desta “comissão” que surge várias vezes ao longo do texto. Dir-me-ão porventura que pode ler-se nas entrelinhas. Também, mas o que se espera de um livro com título tão sugestivo? E só aprendemos as entrelinhas se soubermos o que foi a Comissão das Lágrimas como facto histórico, de outra maneira ficaremos com uma ligeira impressão de que será alguma coisa política e aterradora, com a ajuda de alguns fragmentos apanhados do discurso, mas nunca com uma noção clara do que se trata: ao longo de todo o livro, é a razão para o discurso das vozes que habitam a narração.

E que vozes são estas? Podemos dizer que é apenas uma voz interpretando tantas quantas Cristina, a personagem narradora, se quisermos assim, terá no interior da sua mente esquizofrénica. Nascida e vivendo em Angola até aos seis anos, é filha de uma portuguesa bailarina (prostituta?) de cabaret de gosto duvidoso e de um ex-padre, angolano preto, que acaba por ser um dos comissários dessa inquisição que torturava e matava. Mas será esta criatura, branca como a mãe, verdadeiramente filha do comissário angolano a quem chama pai? A subtileza das palavras que ALA deixou neste livro pode levar-nos a outra interpretação (leiam para saber), bem como da veracidade do que ali é relatado, tanto a nível do que o leitor poderá imaginar o que terá sido a Comissão das Lágrimas, bem como de toda a informação das personagens (vozes) sobrepostas: o que dizem, o que fazem, o que sentem, o seu passado. A duvidosa veracidade destes factos é sugerida ao longo do texto, em afirmações que são negadas pela voz interveniente, ou mesmo quando nos damos conta que, estando Cristina narrando, o discurso resvala para outros tempos, outros espaços, outras circunstâncias, a diegese altera, e linhas ou páginas adiante é Cristina que retoma, e isto sem haver, estruturalmente, qualquer pausa, qualquer parágrafo ou mesmo ponto final (a pontuação gráfica é basicamente feita com pontos de interrogação e vírgulas, os pontos finais só figuram quando termina cada capítulo). É como se a voz de Cristina se engasgasse, como se o seu pensamento fosse tomado, ou ela entrando em transe, repentina e repetidamente, para dar vez a outras vozes que se impõem. Tudo a uma velocidade tal que é compreensível que o leitor, se não desistiu nos primeiros capítulos, tenha de voltar atrás, e mais atrás, e reler, para não perder-se neste emaranhado. É o que de mais negativo encontro no livro, estruturalmente: é muito emaranhado, nenhum capítulo dá descanso ao leitor; e, de resto, o que dizem as vozes, acaba por ser redundante com o que já lemos de outros livros do autor.

Resumindo o livro em duas palavras, para nos centrarmos no que, na minha opinião, é o tema da narrativa e o que incomoda as suas personagens: culpa e arrependimento. Está absolutamente carregado de culpa, por acções e decisões tomadas, pelo que poderia ser feito, pela inércia, pelo medo de. Arrependimento é o que resta a estas três pessoas tão sós (pai, mãe e filha, que acabam por trocar Angola por Portugal e não têm parentes ou amigos), a olhar uma réstia do Tejo através das janelas de um apartamento tacanho, recuando no passado como peçonha entranhada nas suas almas. Ou afinal que é Cristina apenas que delira e então acabamos por não saber nada do que foi, se o foi, se o é. Só ela, só ela – a voz – e o escritor que desta vez deixou os seus leitores à porta. A única solução, como diz nas suas últimas linhas o livro, é apagar o passado. Apagar o passado, ultrapassar a culpa e deixar-nos entrar, António.

(Nota: escrever sobre este livro foi muito mais difícil do que lê-lo. Não quis falar mais a fundo das personagens e do seu papel na narrativa por achar que ia acabar por abordar apenas uma história – ou um lado dessa história – e o livro contém muitas, todas inacabadas, fragmentadas. Quem não entendeu o que escrevi não leu o livro. Leia, então, mesmo ficando à porta, e depois regresse contando a sua experiência como leitor.)



José Alexandre Ramos
30.10.2011

29/10/2011

Alexandre Kovacs: opinião sobre Conhecimento do Inferno

António Lobo Antunes - Conhecimento do Inferno - 248 páginas - Editora Objetiva, Selo Alfaguara - Lançamento 2006 (lançamento em Portugal 1980 - ler aqui trecho em pdf disponibilizado pela editora).

Para aqueles que buscam uma leitura leve e agradável, sem maiores desafios literários, não recomendo absolutamente nenhum dos romances do português António Lobo Antunes, tanto em relação à escolha dos temas quanto à técnica narrativa, já que é um autor que exige atenção redobrada do leitor. Este Conhecimento do Inferno, terceiro de uma trilogia iniciada com Memória de Elefante e Os Cus de Judas é especialmente difícil por tratar de dois temas espinhosos: a experiência do próprio Lobo Antunes durante a guerra colonial em Angola e o período em que trabalhou como psiquiatra no hospital Miguel Bombarda em Lisboa nos anos setenta.

Toda a acção do romance ocorre durante uma viagem de carro com duração de um dia, do sul de Portugal, região do Algarve, até Lisboa, mas o truque de António Lobo Antunes é justamente multiplicar este tempo passando por várias fases da vida do narrador. Os eventos são lembrados pelo solitário protagonista (o próprio Lobo Antunes) misturando épocas e alternando entre a primeira e terceira pessoa. Nesta passagem, ao final do primeiro capítulo, ele deixa claro, em tom de autobiografia, o que podemos esperar do romance: "Em 1973, eu regressara da guerra e sabia de feridos, do latir de gemidos na picada, de explosões, de tiros, de minas, de ventres esquartejados pela explosão das armadilhas, sabia de prisioneiros e de bebés assassinados, sabia do sangue derramado e da saudade, mas fora-me poupado o conhecimento do inferno".

Em outro trecho, desta vez utilizando a terceira pessoa, fica clara a posição contrária aos métodos de psiquiatria utilizados: "O inferno, pensou, são os tratados de Psiquiatria, o inferno é a invenção da loucura pelos médicos, o inferno é esta estupidez de comprimidos, esta incapacidade de amar, esta ausência de esperança (...)" ou nesta outra passagem: "Nas reuniões do hospital, de dia, assaltava-o a impressão esquisita de que eram os doentes quem tratavam os psiquiatras com a delicadeza que a aprendizagem da dor lhes traz, que os doentes fingiam ser doentes para ajudar os psiquiatras (...)".

Lendo algumas partes do romance de Lobo Antunes, só encontro paralelos na literatura sobre a descrição e ambientação da loucura em autores como Lima Barreto ou Dostoiévski. Uma experiência perturbadora que não consegue ser facilmente explicada ou resenhada: "Eis-me no reino das flores de plástico, verificou acariciando com o polegar as orgulhosas pétalas postiças, no meio dos sentimentos de plástico, das emoções de plástico, da piedade de plástico, do afecto de plástico dos médicos, porque nos médicos quase só o horror é genuíno, o horror e o pânico do sofrimento, da amargura, da morte. Quase só o horror sangra nos que se debruçam para a angústia alheia com os seus instrumentos complicados, os seus livros, os seus diagnósticos cabalísticos, como em pequeno eu me inclinava para os moluscos na praia, virando-os com um pauzinho para espiar, curioso, o outro lado".


Alexandre Kovacs
08.07.2011

28/10/2011

Alexandre Kovacs: opinião sobre Explicação dos Pássaros


António Lobo Antunes - Explicação dos Pássaros - 256 páginas - Editora Objetiva, Selo Alfaguara - Lançamento 2009 (lançamento em Portugal 1981) - ler aqui trecho em pdf disponibilizado pela editora.

Sempre achei que os piores pesadelos não são aqueles povoados de monstros e situações de terror, pois estes identificamos logo de início como pesadelos; aqueles verdadeiramente terríveis são os que reconhecemos como parte do nosso próprio quotidiano, começando de mansinho e, pouco a pouco, nos envolvendo em uma malha sufocante de espirais infinitas, uma sensação de afogamento em que não percebemos se chegamos ao fundo ou à superfície.

Esta sensação de pesadelo foi a que me deixou o romance "Explicação dos Pássaros" do mestre António Lobo Antunes que, com a sua tradicional prosa polifónica, misturando passado, presente e futuro, vai nos desvendando os últimos dias da vida de Rui S., um professor universitário que se vê aprisionado em uma série de situações que ele próprio, por conta de decisões erradas ou mesmo falta de decisões, se deixou envolver ao longo da vida.

Lobo Antunes parece não ter pena de seu protagonista que vai sendo lentamente despedaçado ao longo da narrativa. Depois de uma desconfortável visita à mãe que morre de câncer em um leito de hospital, parte em uma viagem de carro de final de semana com a segunda mulher decidido a pedir-lhe a separação. Ao longo desta viagem, todo o passado de Rui S. é descortinado, incluindo os detalhes da separação pedida pela primeira mulher (do ponto de vista do protagonista e da mulher), a inadaptação à sua família, sociedade, filhos e amigos, tudo parece levar Rui S. a um final trágico.

Por que devemos ler livros assim? Não sei responder a esta pergunta, mas posso assegurar que é um belo exemplo de literatura.


Alexandre Kovacs
14.10.2011

Capa da edição comemorativa dos 30 anos da 1ª edição de Explicação dos Pássaros

Estará nas livrarias em Novembro a edição comemorativa dos 30 anos de Explicação dos Pássaros:


O mesmo design das capas das anteriores edições comemorativas de Memória de Elefante, Os Cus de Judas e Conhecimento do Inferno:

  

22/10/2011

Simão Fonseca: opinião sobre Comissão das Lágrimas


António Lobo Antunes, enquanto escritor, não pára de me surpreender, e como leitor, fico surpreendido a cada obra que tenho o prazer de ler e de, por vezes, escrever o que sinto, o que ouço e o que vejo em cada linha das páginas constituintes de belos romances, baseados geralmente em acontecimentos da vida de Lobo Antunes. Cada livro que compro é garantia de satisfação, interrompida por breves dores de cabeça saudáveis que me deixam na dúvida e obrigam a raciocinar a um ritmo de decifração acelerado.

Comissão das Lágrimas remete de imediato para Angola e para a carnificina do movimento de independência que ocorreu naquele país africano. [...]

Embora a obra seja baseada nestes factos históricos, ela é-nos contada por Cristina, filha de uma imigrante portuguesa branca e de um pai negro, ex-padre, agora ao serviço do governo, que também eles se intrometem na narração da história. Cristina esteve apenas cinco anos em Angola antes de regressar a Lisboa e, no entanto, recorda-se – aparentemente – da vida dos pais em Luanda: a mãe uma dançarina que se prostituía numa casa de alterne, que nos é descrita como uma «fábrica/modista/escritório»; o pai abandonou em jovem os caminhos de Deus para interrogar e torturar agora os desertores e opositores do regime, vendo-se ele próprio mais tarde perseguido e obrigado a fugir com a família para Lisboa. Linearmente, pode ser esta a sinopse do último da extensa lista de romances do autor. Mas, e como é habitual na escrita e temática de Lobo Antunes, as personagens vivem num mundo caótico de realidade vs fantasia, afirmando algo que parece verdade aqui, ora algo que já contradiz essa mesma verdade acolá. Cristina está internada numa clínica, ouve vozes e comunica com os objectos que a rodeiam, num estado de verdadeira esquizofrenia, contribuindo para uma narração alucinada dos acontecimentos que ela, a mãe e o pai (com avós e tios à mistura) vão descrevendo.

Ao longo de mais de trezentas páginas são-nos oferecidos retratos de mortes e mais mortes na cadeia, em valas, na rua, em tudo quanto é terra em Angola, acompanhado por uma musicalidade rápida que Lobo Antunes imprime na sua escrita, deixando o leitor confuso e desgastado com tanta imagem e som que lhe desperta – analepses, elipses e prolepses juntam-se para um pezinho de dança com bastante frequência. Como referido anteriormente, linearmente a obra pode ser interpretada como mais um retorno a Angola e às angústias de Lobo Antunes; convém, no entanto, ressalvar, que a questão dos retornados portugueses é outra das ideias de fundo que é explorada no livro. Cabe ao leitor interpretar e digerir da melhor forma o prato que lhe é servido, distinguindo os delírios e a realidade da escrita de uma das maiores figuras da Literatura mundial.
 

Simão Fonseca
22.10.2011

Helena Vasconcelos: crítica a Comissão das Lágrimas


O canto dos carrascos

Um sinistro episódio da violência pós-independência em Angola, recriado num livro polifónico, se não ensurdecedor

[...] (*)

António Lobo Antunes, um escritor que conhece bem a violência e não perde a oportunidade de a retratar de uma forma única e, para muitos, peculiar, recria este episódio sangrento e compõe uma obra que funciona como um lamento alucinado, onde se fazem ouvir várias vozes sobrepostas - a corista decadente, o padre sem sotaina, “respeitoso, com uma açucena na mão”, a louca, o pedófilo, (típicas personagens do autor), a mãe, o pai, a filha, o avô, a neta - e, também, os gritos e sussurros de gerações e gerações sujeitas ao ciclo infindável da catástrofe e da culpa. Mas, neste livro, as personagens estão todas mortas, condenadas a deambularem como fantasmas, expressando o seu horror em litanias pungentes que se elevam numa cacofonia de frases soltas e de apelos dilacerantes.

A escrita do autor, repetitiva, sincopada, oriunda das profundezas da “corrente da (in)consciência” - não é sua intenção “contar histórias” mas sim invadir-nos, “penetrar-nos” - serve bem o propósito desta narrativa sombria que se desenrola em espiral, partindo de um ponto fixo que surge da recriação das múltiplas vozes no início de cada capítulo e que articula sem parar o impacto da violência física e psicológica entre gerações, concidadãos, raças, homens e mulheres, representantes de ideologias rivais, irmãos, espécies.

Para o leitor, trata-se de acompanhar o ritmo e de seguir os compassos dissonantes desta “sinfonia” onde cabem “leitmotivs” e expressões simbólicas fechadas num círculo tenaz que quase nunca se afasta - a não ser, estranhamente, nos capítulos 16 e 17 - de um “núcleo duro” formado por imagens díspares de grande impacto evocativo. O resultado é um atropelo ensurdecedor de palavras enclausuradas num ambiente claustrofóbico de medo e loucura, em que até os objectos, o ar e a terra são ameaçadores. O autor não se limita a mencionar os acontecimentos em Angola, alargando o âmbito da sua narrativa à guerra colonial, ao êxodo dos retornados e aos pesadelos dos sobreviventes, fechados em apartamentos impessoais numa Lisboa indiferente e provinciana, onde acabam por desaguar as memórias tanto dos carrascos como das vítimas.

A linguagem, tal como acontece na obra de autores como William Faulkner e Toni Morrison, é a ferramenta primordial de Lobo Antunes e ele trabalha-a, manipula-a e verga-a com uma espécie de prazer “bárbaro”, quase sádico. É essa mesma linguagem que serve o propósito de construir um ambiente de caos exterior, de desordem íntima, de demência e de pavor, em que a subversão da dinâmica dos movimentos e das sensações serve o antiquíssimo ciclo da violência desmedida dos homens sobre os homens, as mulheres, os animais e a própria terra que, aqui, desconhece a doçura do apaziguamento. O extermínio do sexo feroz vem sempre a par deste ritual de catanas e kalashnikovs, de cadáveres apodrecidos e sem nome, restos aos quais o autor não permite qualquer réstia de amor ou compaixão, qualquer manifestação de alegria ou de tristeza, sentimentos totalmente ausentes deste livro onde - apesar, ou por causa, do título - quase não existem lágrimas.

Numa entrevista ao Jornal “O Estado de S. Paulo”, Lobo Antunes afirmou, em 2010, que este livro, como todos os outros, parte do desafio de não se deixar “vencer pelas palavras”. Em “A Comissão das Lágrimas” o desafio cumpre-se, mas o processo autofágico da escrita acaba por derrotar, em certa medida, o seu autor.
 
(*) a autora do artigo, no primeiro parágrafo que decidimos não citar, explica o que é A Comissão das Lágrimas dentro do contexto político de Angola em 1977. Como o assunto já está retratado em algumas das opiniões desta página, optamos por omitir esse parágrafo. Se o quiser ler, basta aceder ao link abaixo da Ípsilon.

Helena Vasconcelos
Outubro 2011

Ana Cristina Leonardo: crítica a Comissão das Lágrimas


Jogo de Espelhos

Disse em tempos Eduardo Lourenço, a propósito da escrita de António Lobo Antunes, que "a África foi o espelho no qual ele pôde ver melhor o delírio da experiência portuguesa", mostrando-nos "não apenas a morte em África mas a nossa própria miséria, os nossos terrores sepultos" ("António Lobo Antunes. A Crítica na Imprensa 1980-2010 Cada Um Voa Como Quer", Edição Ana Paula Arnaut, Almedina, 2011, pág. 257). O escritor, depois de recentemente ter andado por lá perto no belíssimo "O Meu Nome É Legião", volta a render-se ao tema, agora num mergulho em apneia que tem como ponto de partida um episódio histórico. "Comissão das Lágrimas", cujo título retoma, com exactidão, o nome pelo qual ficou conhecido o tribunal que, em Angola, julgou - e condenou sumariamente à morte - os presumíveis envolvidos no golpe fratricida de 27 de Maio de 1977, ter-lhe-á surgido a partir da história trágica de Elvira, conhecida por Virinha, uma militante do MPLA que, torturada e assassinada na sequência dos acontecimentos, se tornaria num símbolo de resistência: "A rapariga sem língua continua a cantar, erguíamo-la do chão e continuava a cantar, não se cala (...)." Se o livro se funda no real, este, porém, apenas lhe serve de pretexto e, como sempre em Lobo Antunes (uma das razões por que é grande), o particular depressa cavalga o universal. Aqui, África é, de facto, um "espelho" no qual ele pode ver melhor o "delírio da experiência portuguesa", mas também o sofrimento que nos calha a todos. O romance retoma o registo polifónico habitual ("o meu ofício é traduzir vozes", pág. 128), organizando-se em torno de três personagens principais. Cristina, internada numa clínica, assombrada por vozes que não lhe dão descanso; a sua mãe branca, Alice/Simone, ex-dançarina de pluma de lantejoulas que "coxeia a sua desgraça"; e António, o preto a quem os brancos não deixaram ser padre, o pai (?) torcionário que, em Lisboa, continuará "à espera que o matem". A polifonia é contrariada pelo cruzamento intricado dos registos e pela dúvida que se instala ao longo do texto. Quem fala? E quem fala diz a verdade ou delira? O tema da verdade - que é, afinal, o tema que importa a todos os inquisidores - confunde-se, assim, nas memórias (reais?, inventadas?) de Cristina na clínica e as confissões arrancadas pela Comissão das Lágrimas, mais a confissão a que António é obrigado no seminário: "(...) perguntavam-me - Desonraste a Divindade?, e não era que não quisesse contar, era que não achava o que devia ser contado, pensava - Ensinem-me o que deve ser contado, ou - Ensinem-me o que querem que eu conte". A capacidade de a ficção ir mais longe explicara o desejo do literário. Por isso, talvez, o realismo estará tão distante do registo de António Lobo Antunes, mesmo se, paradoxalmente, as palavras com que se exprime optem sempre por uma materialidade crua, na fronteira do prosaico: "uma traineira com problemas nos ossos, por vezes um rebocador aflito da hérnia" (pág. 313). Finalmente, se Angola é o cenário principal de "Comissão das Lágrimas", só se dá a ver em contraponto com a marquise de Lisboa, "o mundo dos naperons" que ficou para trás no tempo, os camponeses "de olhos cheios de vacas" e o passado que se mistura com o presente, ambos dolorosos. E mais uma vez em Lobo Antunes seria preciso regressar à inocência da infância, no pressuposto de que tal coisa possa existir.
 

Ana Cristina Leonardo
Expresso, suplemento Actual nº 2033
15.10.2011

António Guerreiro: crítica a Comissão das Lágrimas


Quem falou em polifonia?

Um boato sobre alguns romances de Lobo Antunes, e muito especificamente sobre este último (agora, com o beneplácito do autor, que contribuiu para ampliá-lo), obteve ampla circulação e incitou a cerimoniosas leituras. Trata-se do boato da "polifonia", do "romance polifónico". A ideia de romance polifónico ou dialógico foi desenvolvida por Mikhail Bakhtine - um grande linguista russo, perseguido pelo estalinismo, cujos estudos só foram conhecidos na Europa ocidental já nos anos 70 - num livro chamado "A Poética de Dostoievski". O que é o romance polifónico, segundo Bakhtine? É um tipo de romance em que as vozes das várias personagens não são projecções da consciência do autor-narrador. Feito de uma multiplicidade de consciências independentes, de ideologias diversas, de linguagens diferentes, de discursos heterogéneos, o romance polifónico ou dialógico caracteriza-se por uma diversidade de vozes contraditórias que inclinam o romance para uma permanente crítica de si mesmo ou até para a paródia e a ironia. No pólo oposto do romance polifónico está o monologismo da epopeia, que, em certa medida, se prolonga no romance realista do século XIX. Ora, quando lemos "Comissão das Lágrimas", defrontamo-nos, até à exasperação, com uma espécie de recitativo ou de litania caracterizada pela homogeneidade. As vozes podem ser muitas, mas são indiferenciadas (por isso é que, para o leitor, são difíceis de identificar: quem diz o quê neste romance?), têm todas a mesma música. O efeito, como é óbvio, demasiado óbvio, é a equivalência e a monotonia, exactamente o contrário do efeito que produz um romance polifónico, que é movido pelo princípio da contestação e da contradição. O leitor avança por um terreno liso, sem paragens nem curvas nem encruzilhadas, e o perigo a que está exposto é o de sentir um enorme tédio, porque a paisagem é sempre igual: os efeitos narrativos e a informação diegética (a matéria que constitui o plano da história narrada) alcançados no primeiro capítulo não aumentam de teor nem de quantidade nem de densidade, embora se prolonguem por mais de 300 páginas. O que aumenta, isso sim, é a impaciência do leitor perante a redundância. Aquilo que é prometido como polifonia não passa de uma algazarra de vozes indistintas. Mas este romance falha essa presumida polifonia porque, embora não pareça (já que ao leitor não lhe são dadas as informações para reconstituir a história nem sequer em fragmentos), está ainda submetido a modelos de representação realista. Ao impedir o leitor de compreender e seguir uma intriga, retira-lhe algo que é uma necessidade imanente do romance e do qual ele não pode prescindir, entrando em falha. Dito de outro modo: o livro de António Lobo Antunes pressupõe uma história enquanto objecto de uma narração, exige do leitor que este saiba do que é que falam e de onde vêm as personagens, mas omite tudo isso, sem se importar com o facto de não assumir a responsabilidade da sua forma. Parece comprometido com o fragmentário e a dissolução das categorias narrativas, mas continua a exigir uma totalidade. É como se um Faulkner fosse buscar um enxerto ao Hermann Broch de "A Morte de Virgílio". Inevitavelmente, o leitor sentir-se-á derrotado por tamanho desajuste. Mas, atenção: "Comissão das Lágrimas" não recusa a intriga por se situar num outro plano. Não, ele situa-se no plano onde a intriga é ainda exigida, mas está em falta, inacessível ao leitor. Alguém que sinta falta de uma história num romance de Rui Nunes é porque não consegue, ou não quer, responder às solicitações da sua escrita; quem acha que não é necessário saber, neste romance, a quem pertencem as vozes, com quem dialogam e que história trazem consigo, é porque tem uma fé inabalável na imaginária polifonia. E ainda que seja justo reconhecer que conseguimos isolar frases, excertos, páginas que têm uma grande força e densidade, logo somos obrigados a verificar que eles são submetidos a um dispositivo que os esvazia e tudo devolve, transformado no artifício gratuito de uma hiperliteratura deslumbrada consigo mesma.
 

António Guerreiro
Expresso, suplemento Actual nº 2033
15.10.2011

Pedro Mexia: crítica a Comissão das Lágrimas


Com os carimbos todos

Lobo Antunes tem insistido na ideia de que não escreve "romances", de que é um ficcionista de "vozes", vozes de personagens, vozes na cabeça, vozes que ditam o texto. "Comissão das Lágrimas", o seu vigésimo terceiro romance, torna esse conceito bastante literal, uma vez que a narradora está internada numa clínica com um distúrbio mental que fez da sua consciência uma câmara de ecos. Cristina comunica connosco através de um incessante delírio associativo, de confissões, segredos, queixumes. Tem Angola na cabeça, mas voltou de Angola ainda criança, e por isso as lembranças que a perseguem não são realmente suas mas de conhecidos e desconhecidos, que através dela convocam estilhaços de uma memória colectiva. O acontecimento histórico no centro dessas evocações é o 27 de Maio de 1977, o brutal esmagamento da revolta "nitista". Reagindo às movimentações de um grupo de ultras, Agostinho Neto ordena uma purga contra os "fraccionistas", acusados por um tribunal revolucionário, torturados, assassinados em massa, dezenas de milhares de mortos em pouco tempo. Além de eliminar  "conspiradores" e "traidores", a repressão organiza inúmeros actos de vingança individual e ajustes de contas, numa espiral demente onde se misturam as cinzas do Império e do fratricídio. Qualquer violência se justificava, nenhuma era engano, "não havia engano, que engano, traziam a ordem com a assinatura do Presidente e os carimbos todos" (pág. 103), O "tribunal" de depuração ficou conhecido como Comissão das Lágrimas, e o romance está cheio de homens algemados com arames nos pulsos e tornozelos, empilhados na cadeia de Luanda, vítimas de humilhações, sevícias, interrogatórios soezes, julgamentos sumários, confissões falsas, pedidos de clemência, súplicas. E de castigos, catanadas, fuzilamentos, gente esventrada e despejada em valas comuns. Lobo Antunes não nos diz nada sobre a circunstância política, apenas usa esses acontecimentos para desfiar imagens de barbaridade: "Informavam-me, na Comissão das Lágrimas, este morre, este não morre, e quase todos morriam, aqueles que não morriam na Cadeia de São Paulo iam morrer nas valas, esse é português, batam-lhe, lembro-me da fazenda Tentativa, lembro-me do Grafanil, de entrarmos no hospital, a seguir à independência, a disparar sobre os doentes" (págs. 156-157). A Comissão das Lágrimas é, a dado passo, "uma criação de canalhas", e em torno dela o escritor convoca episódios das guerras colonial e civil, incidentes de uma violência que só teoricamente é "política", pois a política serve de cobertura a toda a espécie de retaliações e bestialidades. Os acontecimentos de 1977 são tão trágicos e fortes que se fica com vontade de que "Comissão das Lágrimas" fosse um romance "sobre" a Comissão das Lágrimas; porém, Lobo Antunes afasta-se desse caminho, o que lhe interessa são as vozes que vivem na cabeça da narradora, cujo pai foi um dos torcionários, e que expia agora pecados alheios dando voz a mortos e vivos. O texto, torrencial mas elíptico, cruza tempos e testemunhos, repete frases e estribilhos, comentários racistas, memórias de família, conversas de seminaristas e coristas, associações livres, confusas e poderosamente poéticas. O desfazer do tecido narrativo torna fascinantes certas cenas e figuras passageiras, como aquele funcionário negro no ocaso da administração colonial que termina um inventário e o arquiva antes de se ir embora de vez ("ficou tudo em ordem"). Ou os retornados que se sentem perdidos e acanhados em Lisboa, uma rima com as personagens de "As Naus" (1988), pessoas que entram num táxi e pedem: "Moçâmedes, se faz favor". A voragem das vozes e a disseminação da culpa dá uma inesperada consistência narrativa à fragmentação deste romance, mas o "tema" Angola 77 é um pouco desperdiçado. Funciona como ocasião para o autor revisitar os traumas africanos, mas não é ainda a investigação romanesca que o passado pós-colonial merece.
 

Pedro Mexia
Expresso, suplemento Actual nº 2033
15.10.2011

Manuel Cardoso: opinião sobre Sôbolos Rios Que Vão


Sobolos rios que vão
Por Babilônia m’achei,
Onde sentado chorei
As lembranças de Sião,
E quanto nela passei.
Ali o rio corrente
De meus olhos foi manado;
E tudo bem comparado,,
Babilônia ao mal presente
Sião ao tempo passado
.” (...)
Luís de Camões

Na cama do hospital, solitário entre dores e lembranças, António Antunes, ou Antoninho, alimenta com o corpo um “ouriço”. Cancro, dores, memórias, um mundo que se desmorona mas, ao mesmo tempo, um mundo inteiro de recordações que vagueiam na sua mente como a mosca que poisa no lavatório, como um pingo no sapato ou o avô que colocava a mão em concha na orelha para ouvir.

Grandes dores, ainda bem que as tem, pensa Antoninho, ou o Senhor Antunes, a quem os médicos e enfermeiros adiam a morte, talvez para lhe alimentar aqueles sonhos do passado, lembranças que são a sua vida, a solidão em forma de vida, o mundo em forma de cama de hospital, e felicidade em forma de memória, a morte em forma de ouriço, que corrói, o sangue na fralda, “é só mais um remediozinho e fica fino”, conversa de médico, que nunca mais são cinco horas e o hospital cheio de dores para enganar...

Por entre as dores e a morte que se adia, o avô surdo, a avó chamando Antoninho, o pai com a criada na despensa, “olha o teu filho a ver-nos”, o pai jogando ténis com as inglesas do hotel.

Mundos inteiros dentro de um mundo só chamado memória, ou solidão, mundo inteiros resumidos num ouriço que lhe corrói as tripas como o pai corroendo a mãe, “não digas nada à tua mãe”.
Memória sofrimento e morte, é tudo a mesma coisa excepto o sorriso dos pequenos prazeres, resumidos, sintetizados no voar de uma mosca, num momentâneo “agora não dói” mas se não dói ouriço dói a alma, essa, sempre dizendo Estou cá, a vida embrulhada num mundo outro chamado passado, um mundo que afinal vai dar ao mesmo, é igual a este, se calhar o tempo é que é o embrulho, se calhar é tudo o mesmo, é o ouriço que comanda, é a dor que dita as regras, é o mundo inteiro naquela cama de hospital ou no pingo que caiu no sapato. Tudo talvez não seja mais que um imenso nada, a gente é que constrói mundos na cabeça, a gente faz os ouriços da memória e depois não sabe sair deles.

E o tempo é um engano. Não lhe poderemos nunca fugir nem nunca encontraremos o tempo de ser feliz. Porque o tempo é tudo, é o alguidar da vida onde tudo se mistura.

A tristeza é a vida; a escrita de ALA é esta dor de existir, este arrastar as letras até ao mais profundo do ser, este mergulhar de cabeça na escuridão de que são feitos os mundos.
 
Impossível escapar, impossível dizer isto não é nada comigo, é sim, é sempre comigo e com todos porque o mundo está nas memórias e resumir-se-á um dia ao nosso próprio ouriço. Inexoravelmente!

A beleza sintetizada numa lágrima que não sai.
 
Avaliação: 9.5/10

Manuel Cardoso
21.10.2011

21/10/2011

José Mário Silva: crítica a Comissão das Lágrimas


Vozes sobre vozes

Não há nada mais violento do que reduzir a complexidade de um livro com mais de 300 páginas à formulação lapidar, mas necessariamente superficial, de uma sinopse com três ou quatro linhas. No caso dos romances de António Lobo Antunes, sobretudo os mais recentes, não se trata sequer de violência mas de impossibilidade. Dizer-se que Comissão das Lágrimas é sobre o horror vivido em Angola no período pós-independência, quando Agostinho Neto aproveitou o esmagamento da revolta «fraccionista» de Nito Alves, a 27 de Maio de 1977, para eliminar opositores (tanto fora como dentro do MPLA), equivale a resumir o romance anterior – Sôbolos Rios que Vão – à lenta agonia de um homem operado a um cancro, que enfrenta as suas desordenadas memórias e o espectro da morte numa cama de hospital. Os romances também são isto, claro, mas são sempre muito mais, infinitamente mais do que isto, porque Lobo Antunes abandonou há muito os modelos narrativos clássicos, trocando-os por uma praxis poética da ficção, em que a força torrencial da linguagem se sobrepõe a tudo, até à clareza e legibilidade das muitas histórias que convoca para as suas obras.

Num breve ensaio sobre um livro anterior, de 2008, publicado no volume António Lobo Antunes: A Arte do Romance, organizado por Felipe Cammaert (Texto, 2011), o filósofo José Gil escreve: «O que é O Arquipélago da Insónia? Não uma narrativa, nem linear nem descontínua. Mas uma imensa colagem de imagens, de cenas, (…) recordações não de um só mas de múltiplos tempos cronológicos. E em cada um destes pode surgir um outro tempo, alguém que se lembra subitamente de um gesto ou de coisas num outro tempo do passado; então a recordação salta para um plano diferente da memória, como uma lembrança de uma lembrança, muitas vezes sem nenhuma ligação com a narrativa que interrompeu. São ilhas de tempo que se conectam pelo poder hipnótico da bruma que a escrita segrega.» A descrição aplica-se, palavra por palavra, a Comissão das Lágrimas. Está tudo lá: a «imensa colagem» de imagens e cenas, os mecanismos da memória, as «ilhas de tempo», o «poder hipnótico» da linguagem, até a «bruma» que torna difusos os meandros dos percursos individuais.

O espaço narrativo coincide com a mente caótica de Cristina, uma mulher que ouve vozes e está internada numa clínica: «as coisas passam-se dentro de mim, não fora». A matéria do livro é por isso, em sentido estrito, uma alucinação. Cristina torna-se o veículo das vozes alheias que «se acotovelam, vociferando ou lamuriando-se», um círculo de «pessoas na minha cabeça a mandarem em mim», figuras que a manipulam e confundem: «aproximam-se-me do ouvido, pegam-me no braço, empurram-me, surge uma cara e logo outra se sobrepõe discursando por seu turno, às vezes não discursos, segredos, confidências». No corpo do texto, sincopado e tenso, os narradores interrompem-se, coalescem, tal como os tempos e lugares se misturam e prolongam uns nos outros. Há no que se conta um alto grau de incerteza (por exemplo, a mãe, cujo nome oscila entre Alice e Simone, trabalhou numa fábrica/modista/escritório). O estado natural das coisas é a derrocada, das «lembranças que se emaranhavam trocando de sítio» aos episódios «que ao julgar apanhá-los se escapam». No limite, a única certeza é a dúvida (e a suspeita de que pode ser «tudo mentira»).

Das muitas vozes que irrompem no delírio de Cristina, há duas que se destacam. A da mãe, branca, corista decadente, sofrendo em África com as saudades da província portuguesa de onde veio (mesmo se parte das suas memórias são traumáticas: violações, abusos, miséria). E a do pai, negro, que andou no seminário, foi padre, mas depois abandonou Deus. É ele o eixo central da narrativa. Para vingar a humilhação da mãe, em tempos posta de joelhos, submissa, no chão da cozinha de um chefe de posto, aceita fazer parte da Comissão das Lágrimas, que interrogou, torturou e condenou sumariamente à morte milhares de pessoas, tanto na Cadeia de São Paulo, onde se lançavam granadas para dentro de cubículos cheios de prisioneiros, como em Quibala, onde as vítimas cavavam as fossas em que depois eram sepultadas. A culpa, essa, continua intacta trinta anos depois, no apartamento lisboeta com marquise virada para o Tejo e vidros opacos, um refúgio tão precário como o eterno jogo de xadrez atrás do qual se esconde, porque ele sabe que um dia os fantasmas da História lhe hão-de bater à porta para o fazer pagar pelos seus crimes.

À semelhança dos outros romances da última década, há em Comissão das Lágrimas uma estrutura musical (temas, variações, estribilhos, ritornelos) que permite abordá-lo como uma «partitura literária», para usar a expressão de Catarina Vaz Warrot (num ensaio sobre o «texto como tecido sonoro», incluído no volume citado mais acima). Volta igualmente a verificar-se uma espécie de auto-consciência da ficção: «se as vozes não voltam não se escreve este livro»; «não faço o livro como pretendia porque as vozes não consentem, escapam, regressam, contradizem-se e eu a perguntar-me quais as que devo dar a vocês, não tenho tempo para decidir, escolham».

Em última análise, o trabalho de construção do romance cabe sempre ao leitor. É nele que as vozes têm de ecoar. E é também aqui que o problema de Lobo Antunes se coloca. Porque as suas obras fecham-se cada vez mais sobre si mesmas, tendem cada vez mais para um autismo que deixa os leitores de fora (mesmo se maravilhados). Nas palavras de José Gil, o «poder entrópico» desta «grande máquina formal de escrita» é tão grande que corre o risco de «devorar toda a substância, toda a vida das personagens e dos acontecimentos». Mas enquanto Lobo Antunes não perder as suas qualidades de prosador magnífico – capaz de descrever Luanda como «uma gaveta de facas sempre aberta», uma cidade «que incha e se contrai numa cadência de punho, as avenidas elásticas, os edifícios moles, a Muxima para diante e a arredar-se depois, exprimindo, só para ela, o que eu não entendia» –, enquanto continuar a escrever com um fôlego e um fulgor sem paralelo na literatura portuguesa contemporânea, esse é um risco que vale a pena assumir.

Avaliação: 8.5/10

José Mário Silva
Expresso, suplemento Actual nº 2033
15.10.2011

15/10/2011

RTP: António Lobo Antunes por dentro

RTP 1 - Especial Informação
emissão do dia 14 Outubro 2011


António Lobo Antunes por dentro




Entrevista conduzida por Fátima Campos Ferreira

tempo aproximado: 42 minutos


fonte: RTP
14.10.2011

ALA tema de capa no "Atual", suplemento do Expresso desta semana

O tema de capa do "Atual" (a minha vontade é escrever Actual, mas como se trata do nome do suplemento, escrevo sem o 'c', muito embora, antes da aplicação do AO90, denominava-se Actual e não Atual... mas, prossigamos!), refere que é sobre António Lobo Antunes, porém trata-se tão só de cinco críticos que se debruçam sobre Comissão das Lágrimas, o livro recentemente publicado: Ana Cristina Leonardo, António Guerreiro, Clara Ferreira Alves, José Mário Silva e Pedro Mexia (os links em dois destes nomes remete para críticas a livros anteriores, disponíveis no nosso site, sob autorização dos autores). Abre assim na página 8:

«Vozes Sobre Vozes

Em "Comissão das Lágrimas", António Lobo Antunes volta a oferecer aos seus leitores um romance fragmentário, denso e exigente. Replicando a natureza polifónica do livro, convocámos cinco críticos, que não afinam todos pelo mesmo diapasão».

Comentários destacados do interior:

«Embora parta da trágica purga no MPLA, em 1977, Lobo Antunes interessa-se mais pelo sofrimento das suas personagens

«Lobo Antunes sabe do que está a falar e quem está a falar, os leitores não. O escritor deixa os leitores à porta

«A voragem das vozes e a disseminação da culpa dá uma inesperada consistência narrativa à fragmentação deste romance, mas o "tema" Angola 77 é um pouco desperdiçado

«À semelhança de outros romances recentes de Lobo Antunes, "Comissão das Lágrimas" exige a decifração de uma "partitura literária"».

O tema de capa abre com a crítica de José Mário Silva, sem título (embora as "gordas" possam servir - "Não há nada"), seguindo-se a de Ana Cristina Leonardo, "Jogo de Espelhos"; a de Clara Ferreira Alves, "E o livro presta?"; a de António Guerreiro, "Quem falou em polifonia?" e, por fim, a de Pedro Mexia, "Com os carimbos todos". A ler, na edição desta semana do Expresso, suplemento A(c)tual.


13/10/2011

Marcelo Lyra: opinião sobre As Coisas da Vida

Lobo Antunes num dois em um


Misturar crónicas com ficção no mesmo livro soaria inusitado para muitos escritores, mas não para o português António Lobo Antunes. Ex-combatente de guerra na Angola dos anos 1970 e psiquiatra com larga experiência, ele tem a base de sua ficção calcada justamente na diversificada vida que levou. Conhecido mundialmente por romances como "Memória de Elefante" e "Arquipélago da Insónia", ele prova que escreve com igual desenvoltura nos dois gêneros, misturando sem a menor cerimónia o humor, a melancolia e a nostalgia. Esta edição brasileira condensa o conteúdo de dois livros portugueses.

Assim, as lembranças da infância convivem com atrocidades da guerra, soldados torturados e mulheres violentadas. Ao mesmo tempo, o leitor se depara com narrativas de humor muito divertidas. Mesmo em meio aos horrores da guerra, Lobo Antunes é capaz de momentos poéticos, como quando afirma que a coisa mais linda que viu não foi um quadro num museu, mas um campo de girassóis em Angola. Numa viagem em meio à guerra, a visão das cabeças de girassóis erguendo-se uma a uma em direcção aos primeiros raios de sol o acompanha pela vida.

Em meio a uma visita à antiga casa da sua infância, entrega-se à lembrança das brincadeiras e, diante de um espelho, o que vê é sua imagem de menino. Em outro relato aborda os pouco conhecidos episódios de suicídio de soldados na guerra. Essa nostalgia permeia boa parte dos textos.

Entre os contos divertidos, destacam-se o chapliniano lutador de boxe que se acovarda momentos antes da sua luta mais importante, assustado diante do tamanho do oponente. Ou o ingénuo marido de uma mulher vesga, assediada pelo colega de repartição, um velhinho à beira da morte, mas que, contra toda expectativa, insiste em persegui-la pelos cantos do local de trabalho. Mais adiante, uma crónica narra a origem de sua aversão a computadores, cujas travas e falhas engoliram um romance inteiro no passado, fazendo-o preferir escrever seus romances à mão.

Se na melancolia nostálgica Antunes parece herdeiro dos fados de Amália Rodrigues, nos textos de humor, bem divertidos e aparentemente ingénuos, ele carrega mordacidade e crítica de costumes que o tornam parente distante de Voltaire. A facilidade em sair da melancolia ao riso em poucas páginas só confirma seu talento.

A única ressalva a este livro é a mesma que se faz a todas as publicações portuguesas lançadas no Brasil. Faltam notas de rodapé. Já se disse, parafraseando Mark Twain, que Brasil e Portugal são dois países separados pela mesma língua. Algumas expressões idiomáticas são simples de compreender, como a moça que fazia balões com a pastilha elástica, nada mais que uma garota a fazer bolas de chiclete. Mas algumas chegam a ser quase incompreensíveis, como o homem que achava tanga a mulher dizer que o senhor Castro estava a fazer-se ao piso. Essas diferenças só confirmam a inutilidade da recente mudança ortográfica imposta para aproximar os países lusófonos.


por Marcelo Lyra
07.10.2011

12/10/2011

Entrevista à RTP: ALA por dentro

Fátima Campos Ferreira quer mostrar-nos António Lobo Antunes «por dentro», pelo que o entrevista em sua própria casa, para um especial informação, na RTP 1. O programa irá para o ar na próxima sexta-feira, dia 14 de Outubro, pelas 21H00.

fonte: RTP

11/10/2011

sessões de autógrafos

Segundo o blog LEYA BIS, António Lobo Antunes (ao contrário do que afirmou na entrevista ao DN), vai percorrer parte do país em sessões de autógrafos. Para os interessados, abaixo transcreve-se a parte sobre o calendário para o escritor:

«António Lobo Antunes, cujo novo romance, Comissão das Lágrimas (Dom Quixote), chega agora às livrarias, visitará, no dia 22 de Outubro, a LeYa na Pretexto, em Viseu, espaço que recentemente apadrinhou, e no dia 28 estará na LeYa em Aveiro. Lobo Antunes realizará também sessões na livraria Arquivo, em Leiria (dia 4 de Novembro), na LeYa no Pátio, em Faro (12 de Novembro), na LeYa na Caminho, em Santarém (17 de Novembro), seguindo-se uma sessão no El Corte Inglés de Lisboa, a 26 de Novembro. Em Dezembro, António Lobo Antunes realizará sessões nas lojas FNAC do Chiado (dia 3), FNAC Colombo (dia 8), terminando na LeYa na Barata, a 17 de Dezembro.»

09/10/2011

Diário de Notícias: «Gostava de morrer com uma caneta na mão»


Diário de Notícias
entrevista de João Céu e Silva
02.10.2011


«Gostava de morrer com uma caneta na mão»


A mão que escreve
À data do lançamento do seu mais recente romance, Comissão das Lágrimas, e a poucos dias do anúncio do Prémio Nobel, a que é sério candidato, o escritor dá uma rara entrevista, em que fala sobre a sua vida literária. Não evita pronunciar-se sobre a crise, os aumentos de impostos, nem sobre as figuras políticas que governam o país.


Estamos a poucos dias do anúncio do Prémio Nobel, e António Lobo Antunes é o único escritor de toda a língua portuguesa que aparece nas apostas como candidato. Como é que sente essa pressão?
Nada, já nada. Os prémios que ganhei foram todos inesperados. Por exemplo, quando cheguei uma vez à Alemanha, disseram-me que tinha ganho o Prémio Europeu; depois, noutros sítios, o Juan Rulfo, o Ibero-americano, o Jerusalém... Não estava à espera de nada, alguns nem sabia que existiam - todos aqueles prémios na França, em Espanha, etc.. Telefonaram-me a dizer "ganhaste o Prémio Extramadura, tens de ir a Espanha recebê-lo"; ganhaste o Prémio Rosalía de Castro... Foi tudo inesperado, sobretudo quando vêm com muito dinheiro dá prazer. O problema é que agora já não tenho onde gastá-lo, vivo com muito pouco e não preciso de mais.

Mas não o incomodaria que lhe telefonassem, inesperadamente, a anunciar o Prémio Nobel?
Não penso nisso, estou a falar do coração. Estamos em on, se estivéssemos em off diria a mesma coisa. É como qualquer prémio, como o Camões, que agora foi ganho pelo Manuel António Pina, que é um poeta que descobri há pouco tempo e de quem gosto muito. Estava convencido que iam dar o prémio ao Vasco Graça Moura, que é outro poeta de quem gosto muito. Eu não conheço o Manuel António Pina, e, pedindo-lhe perdão, tenho pena que o Vasco Graça Moura não tenha ganho. Entretanto, li melhor o Manuel António Pina e descobri que é muito bom poeta. Tenho inveja dos dois. Quando eu recebi o Camões, estava doente e queria lá saber dele para alguma coisa! Em 2006, já estava cheio de sintomas e a negá-los constantemente. Já vai fazer cinco anos, é extraordinário! Em princípio, este cancro não voltará, virá outro qualquer, ou outra doença qualquer, no pulmão ou em outro lado qualquer.

Porque é que não há outro candidato ao Nobel na língua portuguesa, de África ou Brasil, na short-list?
short-list tem cinco nomes. Ninguém sabe quem são esses nomes, ninguém sabe quem lá está.

Nas últimas apostas, aparece ao lado de Cormac McCarthy, de Philip Roth, de Don DeLillo...
Don DeLillo também aparece? Parece-me um bocado aleatório. Nem sei se as pessoas que o têm ganho aparecem nessas listas.

Aparecem, sim.
Não sei. Sei que os escritores de que mais gosto nunca ganharam.

Não é estranho que haja 250 milhões de pessoas a falar português e só exista o seu nome nessas listas?
Não sei. O [Prémio] Jerusalém começou há tantos anos, e também não havia nenhum português; no Europeu não havia nenhum português, no Rulfo também não. Eu não sei se há escritores portugueses traduzidos, lidos e apreciados no estrangeiro. Não sei, e a lógica dos prémios escapa-me, mas se me disserem em Portugal quem são os membros do júri, sei mais ou menos quem poderá ganhar. Não sei como é nos prémios internacionais... O Nobel é dado apenas por suecos?

Sim.
Então, não sei.

Os norte-americanos apostam muito no seu nome...
Porque devem querer um equilíbrio. Esse prémio é muito dinheiro, tal como o Rulfo era imenso dinheiro, mais ou menos o mesmo que o Camões. Este é muito mais, é dez vezes mais.

Não acredita naquela desculpa de que por já ter havido um português que recebeu o Nobel agora não possa haver outro anos depois?
Não sei quais são os critérios, não faço a menor ideia. A Academia mandou-me um livro há uns dois ou três anos - que está para aí - com as razões porque deram o prémio a cada autor. Houve algumas pessoas que gostei que tivessem ganho, porque gosto delas - tanto como pessoas como escritores. É o caso de Günter Grass, que foi um autor importante para mim quando estava a começar, e gosto dele como pessoa. O Mario Vargas Llosa, deu-me prazer que tivesse ganho. Quanto à maior parte dos outros, nem sequer os conheço. Nunca li um turco que ganhou, o Pamuk, a Herta Müller, não conhecia; li depois um livro e não me entusiasmou. Do Le Clézio, gostei dos dois ou três primeiros livros, porque o li em adolescente, mas o resto da obra não me interessa. Acho que o prémio teria feito imenso jeito ao [Joseph] Conrad. Quanto ao Tolstói, não precisava dele para nada. Eu só estive uma vez num júri, há muitos anos, onde também estava um homem de quem gostava e achava um bom poeta: Fernando Assis Pacheco. Disse-lhe: "Não tenho paciência para ler, escolhe o que quiseres e põe lá o meu voto ao lado do teu". Porque, sendo os livros diferentes uns dos outros, a qualidade não era grande. Quem é que merece ganhar? Quem é que é mais importante, uma vez que falou nesses nomes: Cormac McCarthy ou Roth? Eu prefiro o Cormac McCarthy, que escreve por dentro enquanto o outro é por fora. Também as pessoas que têm ganho o prémio não são de molde a entusiasmar-me. Por exemplo, o Saramago é um escritor que escreve por fora, e, com todo o respeito, então agora que o senhor está morto, a obra vai morrer. Porque é inevitável que vá morrer. O problema é que há muito poucas obras que sobrevivem à vida do autor. Quem é que lê agora o Zé [Cardoso Pires]? Quem é que lê o[Fernando] Namora? Quem é que lê o Carlos Oliveira? Estou a dizer nomes ao acaso, que gosto ou não.

Mas Conrad, que não ganhou, continua a ser muito lido!
Porque tinha uma coisa muito mais importante do que ter ganho qualquer prémio - a admiração de um grupo de escritores muito bons. Tal como o Malcolm Lowry, que morre e ninguém comprava um livro seu. Simplesmente houve quatro ou cinco fieis que mantiveram as chamas acesas para se tornarem um clássico. Não é coisa para acontecer com nenhum português.

Considera, então, que o livro Memorial do Convento, por exemplo, é um livro que vai morrer?
Tudo morre.

Destes novos escritores, acha que um dia poderão receber o Nobel?
Mas porque é que havemos de pôr as coisas em termos de Nobel!? Talvez fosse preferível pensar-se "Poderão ser grandes escritores ou não?" Daqueles que eu li, e não li todos - por isso peço perdão se estou a ofender alguém -, o mais cotado parece-me, sem dúvida, o Gonçalo [M. Tavares]. Sem dúvida. Quanto aos outros, tenho reservas.

Quantos livros é que ainda quer escrever?
Os que a vida me deixar. Na última vez que fui fazer a revisão médica, o oncologista disse "teve muita sorte porque este cancro mata dez pessoas por dia". Portanto, os que a vida me deixar! O meu receio é começar a perder faculdades sem ter crítica em relação a isso. Mas ainda sinto força e, se Deus quiser, gostava de morrer com uma caneta na mão. E, é evidente, gostava de viver muito tempo, porque a obra não está acabada. Se conseguir continuar a trabalhar neste ritmo - doze, treze, catorze horas por dia -, talvez. Isto cansa fisicamente, mas não me imagino a fazer outra coisa. Agora estou no intervalo de livros, e não me sinto bem.

O vazio entre os livros é sempre um período muito complicado?
Acabei há cerca de uma semana o último livro... Agora não sou capaz de escrever, estou muito cansado ainda, farto de palavras e de papel e do esforço enorme. Mas daqui a um mês, vai começar a ser complicado. Até lá, vou ler uns artigos e uns livros que para ali tenho, mesmo que com o tempo tenha ficado cada vez mais selectivo. Leio 20 ou 30 páginas e ponho de lado.

Como ocupa o tempo sem escrita?
Não é bem não ter com que ocupar o tempo... Tenho pensado muito na minha surdez e notei que quando as vozes de fora começaram a desaparecer, as vozes de dentro tornaram-se muito mais nítidas e claras. Estou sempre a ouvi-las. Eu não sei se é um livro o que está dentro de mim, mas é qualquer coisa parecida com isso. Mas o problema passa todo pela mão, que é um prolongamento de não sei o quê. Então com este último livro foi um milagre, porque comecei no dia 16 de Fevereiro e escrevi-o em sete meses. Isto nunca me tinha acontecido, a não ser com Explicação dos Pássaros. Parecia até que a mão queria andar e eu nem era capaz de a acompanhar. As palavras saíam, saíam, e a primeira versão foi rápida. O problema foi estruturar aquilo tudo.

Explicação dos Pássaros está a fazer 30 anos. Como foi?
dos Pássaros foi um milagre que nunca me aconteceu. Vinha de carro de Aveiro para Lisboa, e quando cheguei tinha o livro todo. Agora é diferente, porque não tenho plano e não conto histórias. Quando as pessoas dizem "as personagens dele"... não há personagens! Há umas vozes, provavelmente sempre a mesma. Agora, o que faço é marcar uma data para começar e, chegando essa data, começo. De cada vez tenho medo, porque as minhas expectativas são muito altas, tais como as das pessoas que respeito. Estou a lembrar-me desse homem com quem vou agora estar em Cambridge, o[George] Steiner, e de outras pessoas, sobretudo críticos alemães ou austríacos que prezo muito, a exemplo da americana ou francesa. Tenho sempre medo de desiludir as pessoas e, sobretudo, de me desiludir a mim mesmo. Isto é um ofício muito estranho, mas cada vez mais o meu tempo é ocupado com ele.

Convive bem só com livros?
Eu não tenho vida social, não vou a jantares. Estou sempre com os livros. Claro que posso viver com uma pessoa, mas não vou ao cinema e não estou com amigos. Tudo foi reduzido drasticamente: aceitação de convites, sessões de autógrafos, só vou dar mais uma entrevista à RTP por causa deste livro. E penso que é tudo. E não há lançamentos, não há nada. Vivo muito só, mas não me sinto sozinho, porque estou a fazer aquilo que quero e porque preciso de tempo. Neste momento, estou à espera [do próximo livro]. Tenho umas coisas vagas, tenho ruas de vilas à noite, terras pequenas, mal iluminadas. Nada mais. Normalmente, quando começo, pouco mais tenho do que isso. O que possuo é já uma apetência para começar o [novo] livro, no qual queria fazer uma coisa - ao nível da linguagem, que é aquilo que mais me interessa - com uma ambição desmedida. Não me interessa contar histórias, porque nenhum grande livro conta histórias!

Neste seu novo livro, Comissão das Lágrimas, porém, existe um tema da história!
A voz que fala é a de alguém que está internada num hospital com uma esquizofrenia e que saiu de Angola aos cinco anos de idade. Como é que ela pode saber o que se passou? Eu não consultei nada, nunca fiz pesquisa como o [Alves] Redol para os seus livros. É uma outra realidade! Tenho-me dado conta de que temos dois universos: o que está à nossa volta e o de dentro de nós, do qual fazemos parte. A maior parte dos livros que se lê são feitos pelo universo à volta, como os de Philip Roth. Mas os grande livros são sobre aquilo que está dentro. As peças do Tchekhov, onde tudo e nada se passa, com frases que são o mais banais que há - "a cerejeira floriu", "tenho frio" ou "amanhã vou não sei onde". E com estes materiais pobres consegue reconstruir o mundo inteiro. Quando se vê os seus manuscritos, não há uma linha que não esteja rasurada, emendada, reemendada, reescrita até.

Continua a escrever e a reescrever tão violentamente como dantes?
Claro! Porque as primeiras versões têm as soluções todas lá dentro, apesar de estarem imperfeitas. Há muita areia e muita lama mo meio dos diamantes que é preciso tirar. Há aqueles que cortam e os que acrescentam, não é? Os que cortam são mais frequentes do que os que acrescentam. O Proust, com aqueles papelinhos todos colados, o Eça a acrescentar sempre mais. Eu pertenço à classe mais comum, a daqueles que cortam. O que é publicado, às vezes, nem metade da primeira versão é.

Ninguém o coloca na classe de escritores mais comuns. Pelo contrário, é cada vez mais difícil catalogar a sua escrita.
Sim, mas o que se passa é que a maior parte das pessoas que escreve cortam; nesse sentido pertenço a essa maioria. O problema é que estamos longe da idade de ouro da literatura e, actualmente, há no mundo inteiro muito poucos escritores importantes. Quem vai ficar? Não sei.

Mas sente-se só tendo em conta o que se publica em Portugal?
Sempre me senti só, mas a pessoa tem de estar assim para escrever. O último livro que me deu prazer ler foi o de um escritor espanhol, de quem eu sou amigo, o Juan Marsé. Chama-se Caligrafia dos Sonhos, não é um autor inovador, mas aquilo é muito bem feito no sentido ético da escrita e com respeito pelas palavras. Não é da minha família literária, mas gosto muito dele e da obra. O século XX teve dois grandes escritores: o Proust e o Céline. Hoje em dia, isso é aceite pacificamente, mas quando comecei ainda me lembro de o Eduardo Prado Coelho pôr o Céline pelas ruas da amargura. Era considerado pela nossa inteligência um escritor de segunda ordem! Mas, recordo-me, as críticas aos meus livros eram péssimas ao princípio e, o que é extraordinário, apontavam como defeitos o que eu achava que era as virtudes. Já a crítica no estrangeiro é completamente diferente, porque a distância toma o lugar do tempo. Em Portugal havia uma ideia, e ainda há, que explica o sucesso de alguns escritores que estão agora a publicar, mas é muito fraco o que se faz. Escrever é um ofício, não se pode fazer mais nada! Se sempre houve muito poucos grandes escritores, em Portugal nunca tivemos isso.

E a crítica nacional?
Não tenho o menor respeito pelas resenhas de jornal sobre livros. Não me interessam nada, nem aquele sistema de estrelinhas, que é completamente imbecil. Se os livros fossem publicados anonimamente, resolvia-se muita coisa. Claro que tenho orgulho no que fiz, e se me perguntarem "acha que alguém escreve como você?", eu seria hipócrita se dissesse que achava que havia. Recentemente li uma entrevista do Mário Cláudio, que é uma pessoa de quem gosto, a dizer que ele era mais fácil de imitar, que tinha muitos epígonos. Não é uma questão de facilidade. O Joyce é fácil de imitar? Não é! O Conrad é fácil de imitar? Não é! Quem é que o Faulkner começou por imitar? Foi o Joyce e o Conrad. É muito mais fácil de imitar escritores mais facilmente digeríveis. Como também não estou de acordo quando ele diz que não há poetas. Acho que a  nossa poesia é muito melhor do que a nossa prosa e não é inferior à poesia americana que me parece sem igual no século XX. Isto é a minha opinião, não sou crítico, embora leia o mais que posso.

Diz que tem inveja dos poetas...
Tenho muita.

... Mas Comissão das Lágrimas não é muito mais poético do que os seus livros anteriores?
Não sei, não o li. Nunca li nenhum livro que tenha escrito. Depois da última revisão, entrego o livro e não vejo provas, não olho mais. Depois, o que quero é esquecê-lo. Nem sei qual é a ordem dos livros que publiquei, o que é que vem a seguir ao Manual dos Inquisidores. E eu que tenho tão boa memória, que sei de cor frases e páginas de livros dos outros, de mim nada sei.

Porque é que faz questão de esquecer a ordem dos seus livro?
Não faço questão. Esqueci. Quero-me lembrar e não sou capaz de reconstituir a ordem. É muito estranho isto em que me tornei, ou em que me tornaram. Nunca imaginei! Se formos à estante onde estão os livros [as traduções da sua obra], cada vez são mais livros, mais países e mais leitores. Por isso, durante muitos anos pensava: "Um dia acordam e isto foi tudo um sonho". Nunca me posso esquecer de que quando estive doente recebi do nosso país mais de sete mil cartas! O que é que as pessoas encontrarão naqueles livros que as faz reagir de uma maneira tão afectuosa? Quando vier o próximo cancro, que inevitavelmente há-de vir porque ninguém o vence... Resolveu ir-se embora sem que se saiba porquê? Com os livros é a mesma coisa; de onde é que vêm, de que parte nossa? Olho para o Comissão das Lágrimas e não sei de onde é que aparece aquela voz na rapariga, porque é que o pai era padre, porque é que a mãe não sei o quê... Aquilo vai aparecendo enquanto escrevo.

Em Comissão das Lágrimas existe a guerra, tema que nunca pegara de uma forma tão directa. Porquê?
Há muito tempo que não falava em guerra, porque pensava que não se falasse muito em guerra e eu não estava muito interessado nisso. Eu nem sei sobre o que é o livro, mas de repente a primeira palavra que me veio à cabeça - o livro não é sobre nada a não ser sobre ele mesmo, não é? - foi a palavra "culpa". Parece que nas vozes existe uma culpabilidade, em todas aquelas pessoas.

Atravessa o livro todo, a culpa.
É o sofrimento da culpa e a dor da culpa. Não é um livro sobre a culpa, é muito mais ambicioso do que isso. Mas não sei o que é! Quando o acabei, estava contente, ou não o dava para publicar. Isso é o costume. Durante um mês ou dois, estou contente. Depois começo a pensar que podia ter ido mais longe. Mas eu sou um escritor que demora tempo a arrancar no livro, e como o material é muito, não o posso dar todo. O que faz que os meus inícios sejam lentos, porque não tenho muita informação e preciso de a dosear. Sabia lá o que é que ia acontecer nesse livro.

Há partes que são factos históricos, como a da Baixa do Cassange?
É uma zona que conheci bem. Vivi um ano na Baixa do Cassange, e o que se passou em 1960 é verídico - houve uma greve. Como é que aquilo foi reprimido, já não sei, não  li nada sobre isso. A morte do guerrilheiro, que nunca é nomeado, também não assisti a ela. Foi o que a mão quis escrever. A morte de um ministro qualquer, aquela mãe que dança num cabaret... Foram surpresas para mim.

O senhor Figueiredo?
Era um homem com uma discoteca, um bar de alterne.

Que quer que as suas queriduchas estejam sempre alegres.
É natural. Um cliente não entra lá para ver as mulheres a chorarem, quer que elas estejam contentes.

Há uma personagem real, a Virinha?
Isso é mencionado no livro sem falar no nome, porque me impressionou a coragem de uma mulher que continua a cantar enquanto é torturada. Sempre respeitei a coragem física... É engraçado, quando estive lá, nem os soldados nem os oficiais usavam a palavra coragem. Quando achavam que um homem era corajoso, diziam "é um tipo duro".

Tem sido dos escritores que mais abordaram a guerra colonial.
Nunca abordei!

Perpassa sempre nos livros.
Sempre não, nalguns! Neste último, nada. Eu vou uma vez por ano ao encontro da companhia e venho de lá abalado para três dias. Imagine-se o que era se eu escrevesse um livro sobre aquilo. Eu nunca li as Cartas da Guerra [troca de correspondência com a mulher], só ouvi ler algumas no Teatro São Luiz, mas como infelizmente sou surdo, percebi pouco.

A surdez dá-lhe jeito de vez em quando?
Fez-me sofrer muito, sobretudo ao princípio, porque as pessoas pertenciam a um mundo diferente do meu. A primeira vez que pus o aparelho pensava que toda a gente reparava e que iam perceber que eu era um aleijado com uma prótese. Agora já vivo com isso e em mais paz... Eu tinha orgulho na minha beleza, e aquilo desfeava-me! Depois, são as infecções periódicas, o eczema que isto cria e que tapa o canal, e lá tenho de ir de charola para o hospital. Mas para o meu trabalho foi importante.

Este ano passam 50 anos sobre o início da Guerra Colonial. Os soldados que estiveram em África têm sido homenageados o suficiente ou não?
Não faço a menor ideia. Tenho da Guerra Colonial uma visão muito estreita: só sei de mim e daqueles que estavam perto de mim. Não sei mais do que isso. Posso ter ideias quanto à justiça ou à injustiça de uma guerra desse tipo, mas experiência só tenho a daquelas pessoas com quem eu estava. Para mim foi uma experiência radical, que me mudou a vida, mas não tenho ideias gerais sobre isso.

Comissão das Lágrimas traz toda essa guerra às páginas?
Traz, mas julgo que se situa mais depois da independência de Angola.

Mas há sempre memórias daqueles tempos, da experiência dos portugueses...
Se calhar não são acontecimentos reais porque é contado por uma voz esquizofrénica, portanto desligada do mundo real. Não faço a menor ideia, não me lembro já. Mas aquilo é fantasiado por ela, como a morte do pai no fim do livro. Disso lembro-me, porque deu um trabalhão louco. Estou-me a lembrar agora da mãe do pai que trabalhava para um chefe de posto... Nós não conhecíamos bem os civis ou as autoridades coloniais; conhecemos melhor a PIDE que lá estava. Mas também não inteiramente, porque havia um grande secretismo, separação e até uma rivalidade em relação aos militares.

Na página 56 escreve: "Não faço o livro como pretendia porque as vozes não consentem, escapam, regressam, contradizem-se, e eu a perguntar-me quais é que devo dar a vocês". As vozes não o deixavam...
Isso não sou eu, é a rapariga que ouve uma multiplicidade de vozes dentro dela.

Parece existir algumas partes autobiográficas no livro. É verdade?
É o seu entendimento.

Ou como noutra página: "Não faço o livro como pretendia". O que significa?
Não sei! No fim, achei que tinha feito o livro que queria fazer. Como são sempre outras pessoas a escrever - a mão não escreve propriamente o que se quer -, é capaz de ser verdade. Muitas vezes a mão está em completo desacordo com aquilo que se está a escrever - é a sua parte racional. O que é preciso é que o livro se aguente como unidade independente de si.

Há ainda outra parte em que escreve: "ensinem-me o que deve ser contado ou ensinem-me o que querem que eu conte". Não é autobiográfico?
Isso não tem nada que ver comigo tanto quanto tenho consciência. O livro faz-se como ele quer. Nem é o que deve, nem é o que eu quero, é o que ele quer.

Continua a aprender a escrever um livro?
Claro. Acho que posso fazer melhor, tenho de fazer melhor.

«As pessoas vivem com dificuldade»

Diz que a sua surdez o protege do que se passa no mundo. E da crise nacional, também?
Qual crise? O estarmos a viver mal? No outro dia, no quiosque onde costumo comprar cigarros, estavam duas senhoras a discutir muito intensamente sobre dez cêntimos. Isto fez-me muita impressão! As pessoas estão a viver mal e com bastante dificuldade. Também encontrei uma senhora a chorar, era enfermeira no tempo do meu pai, e vivia sozinha da sua reforma. Os filhos ficaram desempregados, deixaram de pagar as casas e voltaram para casa dela, pequena, onde voltou a ter os filhos, as noras e os netos acampados. E a senhora chorava com isto. Custa-me muito ver o meu povo assim! Também me sinto afectado, pois pago de impostos mais de metade do que ganho. A nada posso fugir, nem nas editoras estrangeiras; a agência fica sempre com uma percentagem forte.

Desagrada-o esta carga gigantesca de impostos que estamos a apanhar?
Tem sido muito violento para mim e, até ao fim do ano, vou pagar muito mais de impostos. Pensava que para certas pessoas devia haver alguma atenção, porque são importantes para o País. O que é que se conhece de Portugal lá fora? Quando estive doente, recebi cartas do Illinois, do Oregon, de outros estados da América. O futebol não lhes interessa, nem o Ronaldo ou o Mourinho. Conhecem o Siza um bocado. Apesar de tudo, há uma coisa que não é má: até agora não se lembraram de taxar os prémios literários.

Mas vão aumentar o IVA dos livros.
Não sabia. E os livros vão passar a ser muito mais caros? Não têm vergonha! Eu acho errado, têm tanto sítio onde ir buscar dinheiro. Às vezes pergunto-me como é que os portugueses têm dinheiro para pagar um bilhete para ir ao futebol...

O Governo também acabou com o Ministério da Cultura e transformou-o numa secretaria de Estado. Isso é bom para a cultura nacional?
Desde o 25 de Abril, quem fez alguma coisa pela cultura em Portugal? Não tenho resposta. As autarquias, algumas, sem dúvida. Do Estado, nunca vi. Fosse ministro, fosse secretário de Estado. Essa é a minha sensação.

Não sente, da parte do Estado, nenhum apoio a escritores, como no seu caso?
Em quê? Não quero ficar a dever nada a nenhum governo. Tenho recusado tudo, não faço parte de comissões de honra de nada nem de ninguém. Eu sou livre, nunca pedi. Não queria que me apoiassem, só não queria que me tirassem!

«Se há governo, sou contra. Sempre me fizeram muita confusão os políticos»

Gostaria de ainda ser médico neste tempo de cortes e mais impostos?
Se tivesse dez vidas, gostava de ser médico numa delas. Tenho saudades de hospitais, do seu cheiro e da sensação de ser útil. O contacto com a pessoa que sofre é sempre muito importante para mim! Mas uma vida só, porque precisaria da outras todas para escrever. Gostava de ter também uma para escrever sobre teoria da literatura.

Mas como médico não gostava que lhe cortassem o salário?
Ninguém gosta! Mas custa-me mais ver pessoas em graus importantes da carreira a ganharem o que ganham, que é miserável. Choca-me que um chefe de serviço ou um assistente graduado ganhem tão pouco. É natural que fujam, mesmo sendo uma profissão muito bonita.

Um dos grandes debates políticos tem sido O TGV. Que opinião tem?
Não tenho.

Seria importante que Portugal estivesse ligado às capitais europeias?
Sei lá se é importante. Acho que existem pessoas que podem explicar isso melhor do que eu, que nunca pensei nisso. Quando abro a televisão, que é tão raro, indigna-me a mediocridade dos programas.

E, na televisão, irrita-o ver as notícias sobre o buraco financeiro da Madeira e do Continente?
Abro a televisão sem aparelho [de surdez] e só vejo no teletexto as partes nacional, internacional, de desporto e as primeiras páginas dos jornais. Claro que há coisas que me indignam e que me alegram, mas isso já é outra pessoa que não tem nada a ver com a pessoa que escreve os livros. É enquanto cidadão português que me indigna. O escritor só escreve, depois há um cidadão que de vez em quando se aborrece. De maneira geral, penso como aquela personagem espanhola do Jorge Amado, que era um homem que andava de país em país, e quando chegava a um país novo perguntava "Há governo? Se há, sou contra". Sempre me fizeram muita confusão os políticos, e, no entanto, sou amigo do presidente Mário Soares, como sou do general Eanes ou do presidente Sampaio. Mas neles sempre vi os homens, como em Ernesto Melo Antunes, e não os políticos. Além de me parecer que se tivemos figuras políticas importantes desde a revolução para cá, elas foram o presidente Soares e o dr. Cunhal.

Não se revê nos políticos actuais?
Rever em que sentido?

Em os admirar?
Admirava e respeitava os que referi, mesmo estando em desacordo em muita coisa neles, mas não encontro em qualquer homem que faça política agora aquela grandeza. Não têm, porque um homem superior, seja em que área for, demora muito tempo a fazer. Se compararmos os líderes actuais, a que distância é que ficam? Como aquele homem que morreu novo, Amaro da Costa. Onde é que há no CDS alguém que tenha metade da estatura dele?

Acha que Paulo Portas não tem?
É preciso perguntar!? Além de que a escolha de um partido é tão afectiva como a de um clube de futebol. O meu avô, que se chamava António Lobo Antunes, salazarista, conservador, reaccionário, era também a pessoa mais tolerante e aberta que conheci. Mas quando eu andei nas franjas do Partido Comunista, conheci a intolerância, a falta de democracia e de liberdade interior e exterior. Eu pensava, ainda adolescente, que a escolha de um partido era uma coisa meditada e intelectual. Não é!

Quando os portugueses deixaram de votar em Sócrates e passaram a votar em Passos Coelho, acha que só mudaram de clube de futebol?
Não mudaram de clube de futebol. São um eleitorado flutuante que não pertence a ninguém. Nem um nem outro são suficientemente atraentes. Imaginando que um desses senhores era um clube de futebol, teriam menos sócios a pagarem cotas do que teria Sá Carneiro ou Álvaro Cunhal. É como a diferença que fazem no futebol entre os sócios e os simpatizantes, e as simpatias mudam. E acho muito bem que tenha mudado, porque não fazia sentido aquele governo. E eu não tenho o coração à direita, porque a minha opção pela esquerda é profundamente afectiva! Se eu pensar um bocadinho, não há nenhuma razão para tal, talvez uma certa culpabilidade por ter nascido num certo meio ou uma reacção juvenil que se tenha mantido... Era difícil eu militar num partido, e não tenho a menor curiosidade em conhecer políticos.

Mas conheceu Sócrates?
Uma vez, no Prémio Camões, onde estava o actual Presidente da República, que tem sido sempre - tal como a mulher - de uma grande gentileza para comigo. Como o presidente do Brasil se atrasou, estive a falar com ele um bocado. Fiquei com determinada impressão do homem, que não interessa, mas a distância para com esses nomes de que falei é muito grande. Tenho medo dos políticos, porque gostam de substantivos abstractos em vez das pessoas.

Acha que a classe política portuguesa costuma ler os seus livros?
Não faço a menor ideia.

Mas gostava que lessem?
Para quê? Verdadeiramente, não sei quem são os leitores, porque só os vejo nas sessões de autógrafos, quando se limitam a dizer o nome. Não sei o que fazem. Mas tenho a sensação de que quem me lê não são as classes altas, é a média e média baixa, provavelmente as mais afectadas agora. Não acredito que as pessoas que aparecem nas revistas - actrizes, modelos e apresentadoras - leiam um livro. Posso estar enganado, se calhar lêem imenso, mas não me parece, pelo modo como falam.


in Diário de Notícias
02.10.2011

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...