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27 de maio de 2016

Emma Rodriguez opina sobre Sôbolos Rios Que vão

edição em castelhano
 por Random House
Quando António Lobo Antunes participou [n]a Guerra de Angola se dedicava a escrever cartas; cartas nas quais falava de muitas coisas e que nasciam de sua necessidade de comunicar que estava vivo. Para o escritor português os romances que escreve também partem desse desejo. O que faz é colocar-se junto do leitor e dizer-lhe: “estou aqui, contigo, diante deste mistério que não compreendemos, um mistério que nos ultrapassa" e que, como dizia Lorca, nos faz viver”. Assim me contava numa conversa que mantivemos na época da publicação de O arquipélago da insónia. Agora, o meu retorno à sua obra se dá com Sôbolos rios que vão, um romance que seduz com aquela perseverança da memória, com os rumores de um passado que nunca desaparece, que se torna presente enquanto exista alguém que siga mantendo suas recordações.

Já ao iniciar a nova viagem estive consciente das atmosferas do velho casarão desse “arquipélago”, um casarão cheio de quadros fotográficos, mas vazio de vozes, gestos, das palavras que o habitaram; atmosferas que seguiam em mim com a força dessa literatura que se passa no fundo, com uma suave e imperceptível palpitação, até acabar convertendo-se numa espécie de fértil raiz. António Lobo Antunes volta às estâncias familiares de sua infância, sua infância de interior, mas desta vez a partir de uma circunstância excepcional, seu internamento num hospital, onde foi operado de um câncer há algum tempo, e onde percebeu a proximidade com a morte.

Da impressão de afrontar literariamente esse momento, de buscar a linguagem capaz de expressar suas emoções extremas, era algo essencial para este homem que exerceu a psiquiatria antes de dedicar-se inteiramente às letras e de se converter num explorador dessas pulsões e afectos que nos definem e irmanam na ampla viagem da humanidade; esses sentimentos permaneceram imutáveis e nos fazem sentir que não mudamos nada enquanto ao nosso redor, fora da essência, os planetas têm seguido girando e se hão forjado sociedades cada vez mais complexas, evoluídas, altamente tecnológicas. “Mas seguimos perguntando-nos pelo sentido da vida e sentindo-nos desconcertados ante a morte”, recorro a outra frase do escritor, noutro encontro, dessa vez quando da publicação de Meu nome é legião, um livro de cariz diferente, menos biográfico, mais colectivo, em que dá voz aos humilhados, aos marginalizados, aos despossuidos. Um livro em que indaga sobre a violência, uma de suas obsessões, e chega a constatar de novo o quão só estamos, o quão pequenos somos ante a imensidão do mundo.

Mas voltemos a Sôbolos rios que vão; deixemo-nos arrastar por suas correntes, sabedores de que o território de António Lobo Antunes não é um território de fácil e cómodo acesso. Nadar em suas águas é como adentrar-se no oceano e sentir a estranheza do primeiro momento, esse frio que nos faz tremer e que nos impulsa a voltar à areia quente. Mas há que seguir avançando, avançando sem parar até o instante em que se chega a perceber a plenitude do contacto com o mais profundo, o som da respiração, o azul do céu envolvente, o ritmo do movimento, o afastamento do ouvido e de tudo que não seja a sua própria voz. Vale a pena estar aí e ficar um tempo, como vale chamar à porta do escritor e sentir o privilégio de ser convidado a entrar.

É certo. Desloca um pouco a quem se aproxima dela pela primeira vez, porque é uma obra diferente, inclassificável às vezes, construída pela ruptura. É necessário acostumar-se à maneira de olhar do escritor, a esse tomar sair pela parte irracional, pelo que não pode ser domidador nem dominado. Neste romance, António Lobo Antunes viaja ao seu centro e se mostra nu, sincero, humilde, só e perdido ante a dor, o medo, a busca dessas palavras que, ainda não nascidas, ainda não ditas, da mesma maneira nem nunca na mesma ordem de antes, ajudem a entender o que está passando. Como acontece em outros livros do escritor, como O arquipélago da insónia, tudo parece um delírio, um sonho, uma alucinação, um desvario. O homem no hospital é consciente da gravidade de sua situação, olha a chuva cair por detrás da janela e viaja ao passado, à infância, aos diferentes lugares da vida vivida. Quantos destinos, quantas identidades, quantos trajectos até à desembocadura, até chegar a perceber com lucidez o que foi, o que deixou de ser, aquele que se tornou.

A enfermidade, o câncer, é como “um ouriço de castanheiro” que se meteu dentro do corpo, como o ouriço que de pequeno torna-se em árvore. O mecanismo das recordações se coloca em marcha, igual ao relógio que se dá corda, é tudo associações, imagens sobrepostas. A vida em forma de camadas, de substractos de emoções, de sensações, de fragmentos. O homem que jaz na cama, às expensas dos profissionais que cuidam dele, não pode frear a dor, do mesmo modo que o menino não pode frear a bicicleta na primeira vez que seu tio ensinou a conduzi-la. E o cheiro do piso da enfermaria é igual ao da farmácia do povoado onde escutava contar histórias de lobos no inverno. E a enfermeira que se aproxima para apagar a luz do cômodo lhe faz lembrar sua mãe aproximando-se da porta de seu quarto para fazer o mesmo.

A escuridão aparece e o homem está só, igual [como] quando pequeno ficava sozinho com seus medos. E aparecem os avós, o pai, toda essa gente que foi e que segue sendo no fundo de seu coração, como parte dele enquanto sua existência se prolonga. Todas as sensações voltam, se repetem, porque somos aquilo do que nos nutrimos, porque as primeiras experiências, as primeiras descobertas, os primeiros desejos, estão aí, no poço profundo, e emergem sempre, em situações similares.

“que misteriosa a vida, davam-lhe banho na selha da cozinha e o desconforto de estar nu à vista da empregada, pequeno, magro, submisso tal como na enfermaria pequeno, magro e submisso de novo”, sublinho este trecho comovedor.  “se a mãe encostasse a bochecha à dele, mesmo idosa, mesmo cega, a palavra filho a fazer sentido, não a palavra morte, enquanto ia caminhando com os rios sem nada que o estorvasse, acompanhado pelo pasodoble de um saxofone remoto, na direção do mar”, elejo esta outra passagem porque diz muito da maneira de narrar, de contar, de construir, do escritor. Um estilo de enorme plasticidade, não-linear, em desacordo com as sinalizações convencionais do texto, feito de interrogações em busca de respostas, de repetições que são como flashes de lucidez, à maneira de um poema. Um poema longuíssimo que cheio da potência das metáforas, de imagens, e ante o qual chegamos a perceber que tudo cobra sentido, que de alguma maneira se deu um pequeno milagre que nos conduz a um foco de luz capaz de iluminar traços de verdade que antes éramos incapazes de perceber.

Nesta ocasião a linguagem da poesia, do mais íntimo, se mistura com o frio vocabulário do hospital: das salas de cirurgias, de radiografias, sondas, soro, botijas de oxigênio, as receitas, análises, agulhas, diagnósticos, terapias. Uma mistura explosiva que funciona, enfrentados todos esses termos aos de outros dicionários, dicionários de sentimento, da natureza: veredas, árvores, perfume de eucaliptos, líquens e rochas do rio da infância... E o escritor impõe seus contrastes, seus ritmos, como quem dirige uma orquestra, um todo que nos faz girar, nos envolve e nos fascina.

O fluxo da memória de António Lobo Antunes é caudaloso e selvagem. E a melhor maneira de segui-lo é deixar-se levar pelo ritmo das ondas que se elevam e acabam sempre por cair, por essa prodigiosa melodia que se ascende e descende por sendas diversas, por pensamentos díspares, por uma sábia combinação de pausas e de silêncios. “Escrever é estrutura, por carne a um delírio”, volto a recuperar uma dessas falas em que me dizia que nunca partia de respostas, só de perguntas; que muitas vezes lhe parecia que estava caminhando por um sonho; que em ocasiões só tinha a impressão de que os livros estavam no ar, independentemente do autor que lhes desse forma; que a maior parte das vezes a escrita era uma ofício de paciência, mas que quando encontrava a palavra exata para expressar uma emoção, um sentimento, ele, que não era homem de lágrimas, não podia evitá-las.

Tampouco quem se aproxime de suas narrativas pode evitar as lágrimas. Lágrimas em certo sentido satisfatórias, refrescantes. No caso de Sôbolos rios que vão, ainda que partindo da dor, da enfermidade, não é a dureza do que se conta o que mais emociona. São os momentos de beleza que se alcançam, essa evocação do acontecido, nada sensível apesar de tingido com as cores da doçura e da melancolia, são forças de compreensão que se abrem em meio de uma memória ziguezagueante que em determinados momentos ganha espessura e bifurcações capazes de se tornar difíceis de decifrar. Não queiramos entender tudo, não busquemos argumentos. Acaso a vida tem um roteiro fixo? Acaso a memória responde como um guia?

“tentava dar nome às formas e não achava os nomes, estava e não estava acordado como quando parece compreendermos o sentido do mundo que no instante de o compreendermos se esfuma”, divaga o protagonista. “devolvam-me os pinheiros, a serra, a infância que trouxe para o hospital e me pertence”, emite seu grito mudo. Tudo sucede em seu interior, um longo monólogo que só escutam os mortos, os que se foram. Eles são mais reais que as visitas. Eles enviam mensagens reveladoras, acompanham-no por paisagens onde aprendeu a intuir o sublime, a descrever o desejo, a paulatina transformação do seu corpo, o despertar do sexo. O sorriso do jovem de dezesseis anos que foi e aí retorna.

Parece que não acontece nada no romance, mas na verdade se revelam muitas coisas nesse transcorrer da memória em que o protagonista manuseia em busca de si próprio. “Entenderás quando cresceres”, lhe diziam na infância. Parece que não acontece nada, mas dessa imersão sai a frota dos afetos que não ficaram esquecidos; as primeiras decepções, por exemplo, a do pai que engana sua mãe com a criada e a quem nunca voltará a gostar da mesma maneira de antes, os primeiros abandonos, o do tio querido que vai para a Espanha para trabalhar e nunca mais regressa. E as mortes dos mais queridos que não voltam do outro lado, do invisível. E as recordações desse primeiro amor que o abandonou e que segue como importante no traçado de sua biografia, de sua existência. 

São os acontecimentos-chave na vida, mas além das circunstâncias de trabalho, dinheiro ou êxitos, aqueles que têm realmente um valor verdadeiro. Esses momentos capazes de iluminar tudo. “Tantos segredos e tanto assunto suspenso”, pensa o narrador enquanto recolhe os fragmentos de toda uma vida. “que coisa impossível de entender o tempo”, o escutamos dizer. “O quarto não mudou, as luzes permaneciam iguais, os enfermeiros ocupavam-se dele no ritmo do costume com as palavras do costume e no entanto a impressão de se achar no centro do que não sabia o que era e de que a vida dependia, sem nada que ver com a doença e tão apagado pelos anos que não lograva encontrá-lo, a chave capaz de girar na porta que conduzia a ele mesmo...”, seguimos.

edição brasileira Alfaguara
Alheio a modismos, às listas de mais vendidos, António Lobo Antunes ergueu um particularíssimo território, seu oceano, título a título, encontro após encontro. É por isso que pode descer até esses fundos no que ainda é temor, vingança, o sentimento de indignação, de humilhação. Frente a uma sociedade que dá às costas ao que dói, que segue adiante sem deter-se ante os que sofrem, ele se atreve olhar de frente aos rostos da solidão e a atravessar com palavras a ponte até a morte. Pode fazer porque foi tocado com o dom da escrita e, sobretudo, porque aposta pela vida, pela vida consciente.

“O que de verdade me inquieta é a resignação. Esse momento em que alguém decide parar. Meu pai morreu no em que parou e se sentou numa cadeira olhando o mar. Algo dentro dele mudou. Penso nos esquimós que sentam no gelo e penso na maior parte da gente que está sentada no gelo. Essa gente morta sem saber. Que vidas tão mal empregadas! Somos casas com muitos quartos, mas só somos capazes de viver em dois ou três. Temos muito medo do que está dentro de nós”, recupero agora parte do que me disse o escritor numa conversa distante.

O que ele tinha medo, que medo pode ter um homem que não se senta no gelo?, lembro que lhe perguntei. E me respondeu que tinha medo da sua violência interior, uma violência que não soube que existia até ir para a guerra, quando se encontrou com tanta gente jovem e boa, mas com uma enorme capacidade de causar dano se fosse o caso. “Então aprendi que a maldade convive com a bondade. Aprendi a ser muito prudente na hora de emitir juízo sobre os outros”, disse. Foram palavras, apreciações que se prenderam em mim num momento em que percebia que estava rodeada de gente no gelo, ainda não era capaz de lhe dizer as palavras justas. 

A literatura de António Lobo Antunes tem a capacidade de colocar essas palavras justas, iluminadoras, como recém-nascidas em suas mãos que juntas transformam sentidos. Seus livros são uma aposta pela vida, sim, uma intenção de percorrer todas esses quartos sobre os quais fala. “sua vida cheia de passados e não sabia qual deles o verdadeiro, memórias que se sobrepunham, recordações contraditórias, imagens que desconhecia e não sonhava pertencerem-lhe”,  lemos em Sôbolos rios que vão. Um romance em que novamente o escritor avança por estas instâncias sem medo de ir abrindo portas. Detrás dessas portas pode haver monstros ou demônios, mas também o sorriso franco do jovem de dezesseis anos com tudo por descobrir, capaz de transmitir o valor necessário para prosseguir o caminho, andando, avançando até o momento em que o rio abre os braços ao mar.


texto original de Emma Rodriguez
em Lecturas Sumergidas, 2014
texto citado da tradução livre de Pedro Fernandes em Letras In.verso e Re.verso
10.05.2016

[revisão da tradução do texto para PT-BR por José Alexandre Ramos]

2 de maio de 2015

Cannibale Claro sur Au bord des fleuves qui vont

Christian Bourgois (2015)
Une exaltation inédite

Dans Au bord des fleuves qui vont, le dernier roman d'António Lobo Antunes paru récemment en traduction, le lecteur est confronté à une défragmentation du récit d'une impressionnante subtilité. Le dispositif est le suivant: un homme, qui porte le nom de l'auteur, est traité à l'hôpital suite à la découverte d'une grosseur possiblement maligne – une "bogue". Abruti par les médicaments, éprouvé par l'opération, hanté par la peur de mourir, l'esprit du narrateur va alors se changer en kaléidoscope, et toutes les couleurs et nuances du passé – le sien, celui des siens, de ses ancêtres – seront projetés à même la page selon une alternance surprenante: à un paragraphe où les souvenirs s'enchâssent et se bousculent succède une phrase prononcée, dans le présent ou le passé, instaurant un rythme de contraction et de dilatation. Bien sûr, dit comme ça, on pourrait avoir l'impression d'une immense confusion. Mais précisément, c'est la confusion qui est ici au cœur du livre. Et c'est, pour un écrivain, un sacré défi: comment écrire la confusion sans qu'elle contamine jusqu'à la lecture elle-même? 

Plutôt qu'un flux de conscience, António Lobo Antunes travaille la pensée erratique de son double comme un mécanisme récepteur, qui capte des bribes, et dans le même temps s'interroge sur leur pertinence, la raison de leur surgissement, etc. Au fil des pages, des motifs se dessinent, qui reviennent, de plus en en plus net ou entêtant. Travail de précision qui permet au lecteur de discerner, dans la trame en apparence floue des souvenirs, les différents fils de la mémoire et de l'expérience. Ainsi de ce paragraphe qui contient en germe nombre des motifs récurrents:

"et on ne s'est pas soucié de sa souffrance ni de ses joues mouillées, il se souvenait du bruit de la terre sur le tambour de l'échine, d'un lombric devenu deux d'un coup de sarcloir et les deux se dévorant goulûment et du lézard apprenant à être pierre dans une brèche du mur et sur ce son père jouant au tennis à l'hôtel où logeaient les Anglais du wolfram et lui courant pour attraper les balles qui rebondissaient par-dessus le grillage, il a ramassé la dernière à côté de la piscine où se séchait une étrangère blonde et il est resté la balle contre la poitrine à apprendre à être pierre lui aussi dans une exaltation inédite"

Au bord des fleuves qui vont travaille le délitement de la conscience pour mieux explorer la magie des souvenirs, qui passent d'une génération à l'autre et tissent des toiles que le temps n'a de cesse de déchirer. On songe souvent à l'œuvre de Claude Simon, à cette façon de tâter la fragile couture entre les choses vécues et le souvenir des choses vécues, cette obsession pour la persistance des formes au cœur du chaos. La confusion comme forme d'exaltation: cela n'était possible, bien sûr, qu'au prix d'un travail patient et discret d'agencements, où fluidité et rupture sont les véritables protagonistes de ce voyage dans les limbes – voyage que la traduction  – magnifique – intense – précise – empathique – de Dominique Nédellec rend non seulement possible mais précieux, indispensable.


par Cannibale Claro
12.03.2015

14 de março de 2015

Le Temps (Suiça), crítica a Sôbolos Rios Que Vão - António Lobo Antunes no país da infância

António Lobo Antunes no país da infância


Au bord des fleuves qui vont, tradução
em francês de Sôbolos Rios Que Vão
(Christian Bourgois, 2015)
Após ter sido internado num hospital, o escritor português fez de Sôbolos Rios Que Vão um dos seus melhores romances

Em 2007, António Lobo Antunes, então com 67 anos, foi operado a um cancro no intestino num hospital de Lisboa. Como jovem médico, cumpriu a sua obrigação militar em Angola, durante a guerra colonial. Há pouco tempo teve de ser novamente operado, desta vez aos pulmões. Contudo, foi entre esses meses de Março a Abril de 2007 que tomou consciência da sua finitude, do pouco tempo que ainda tem. Em 2010 publicou o seu 22º romance, Sôbolos Rios Que Vão. O livro parece assumir a forma de um diário – desde 21 de Março a 4 de Abril de 2007. No hospital, o corpo é o palco de um coro de vozes que misturam o presente com um passado longínquo, através de uma polifonia que Lobo Antunes tem vindo a desenvolver ao longo de uma vintena de títulos, uma sinfonia que é sua marca indelével. Durante aquele tempo, entre o sono da anestesia e choque de uma doença grave, esta pauta de reminiscências produz um acorde mais ajustado, mais restrito e despojado das grandes arquitecturas de livros anteriores – Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar? ou O Arquipélago da Insónia

Trata-se de um romance autobiográfico? Não parece que existam muitas duvidas, porém os elementos estão recompostos, são e não são o que parecem,  transfigurados pela memória, pela dor e pelo trabalho da escrita: «[…] era o pássaro do seu medo sem galho onde poisar a tremer os lábios das asas, o ouriço de um castanheiro dantes à entrada do quintal e hoje no interior de si a que o médico chamava cancro aumentando em silêncio, assim que o médico lhe chamou cancro os sinos da igreja começaram o dobre […]». A igreja, as árvores, a casa da família em Nelas, no centro de Portugal, toda uma paisagem da infância vem em auxílio do homem velho, o Senhor Antunes, e o Antoninho de então que lhe faz companhia: «O passado nunca morreu. Nem nunca passou», disse Faulkner, com quem Lobo Antunes é muitas vezes comparado.

O título do romance vem dos versos de uma redondilha do poeta Luís de Camões: “Sôbolos rios que vão / em Babilónia me achei». Um exílio, portanto: de si mesmo, do corpo que o traiu em silêncio, da infância que não fora um verde paraíso, antes um território cercado de ameaças e medos, embora num tempo longe da finitude. Como dizia Fernando Pessoa, por quem Lobo Antunes não nutre grande afinidade, seria como “No tempo em que festejavam o dia dos meus anos / Eu era feliz e ninguém estava morto».

Sôbolos Rios Que Vão é um livro repleto de silêncios, desenhando uma “cartografia das emoções”, que reúne todos os sentidos: o ruído do vento sobre as árvores, o cheiro das compotas na despensa, a picada de um alfinete, o sabor do rato de chocolate, a lembrança de uma bochecha encostada à sua.  As imagens são recorrentes: a tia que tocava harpa, o pingo num sapato, os mineiros doentes, estes também, com os cheiros do volfrâmio, uma estrangeira loira, o ténis no hotel dos ingleses, o suicídio fracassado do tio. Tudo se torna profecia, oráculo:  «não se lembrar do nome da governanta do senhor vigário preocupou-o, lembrava-se do avental, dos chinelos, do riso, não se lembrava do nome e por não se lembrar do nome não iria curar-se […]».

Os corpos da mesma forma se definham: «De quem são estas mãos?», questiona o doente. Quando o avô guarda os óculos nos bolsos também deixa cair alguns dos seus dedos. E o pai, surpreendido em adúlteros actos amorosos – como quando com a criada: «Nunca mais acaba senhor?» - embaraçado a recompor-se, ridicularizado até mais não. O corpo do doente, ao cuidado dos seus médicos, alia-se ao da criança que o avô alimentava, dando de comer com uma colher, arredondando a boca ao mesmo tempo, como se faz com as crianças ainda hoje. O tempo é abolido: ora estamos em Março, com a chuva batendo nas vidraças, ora estamos em Agosto, sob um eterno verão.

A questão recorrente - «isto existe?» significando «o “eu” existe?» - não terá resposta. No último dia, «Agora sim finalmente», as dúzias de andorinhas  na janela do hospital, a dor desaparece, desligam-se os ecrãs dos aparelhos de suporte à vida, as personagens encontram-se ao redor da cama, para uma reconciliação ou um velório, não o sabemos: «à esquina de um freixo e a própria serra ausente, um pássaro no sentido da barragem quer-se dizer não um pássaro, a ideia de um pássaro, teria estado no hospital ou o hospital uma invenção como as outras […]».  No final, como num palco, «Exeunt omnes». Todos os actores saem de cena, a representação terminou. E assim termina um dos melhores livros de Lobo Antunes. Não é, porém, uma despedida: três outros romances foram publicados entretanto, depois de 2010.


por Isabelle Rüf
em Le Temps
28.02.2015
[traduzido do francês por Joana de Paulo Diniz]

[citações do romance no texto original em português: Sôbolos Rios Que Vão, Publicações Dom Quixote, 2010, 1ª edição ne varietur]

7 de março de 2015

Imagens distorcidas de um espelho: Uma leitura autobiográfica de Sôbolos Rios Que Vão, de António Lobo Antunes

edição brasileira Alfaguara (2012)
RESUMO: O trabalho faz uma leitura autobiográfica da obra Sôbolos rios que vão, do escritor português Lobo Antunes, a partir de textos teóricos a respeito das escritas de si. É necessário especular a possível vinculação do romance a essas narrativas devido às semelhanças e fatos encontrados no texto que remetem à vida do autor.

Sôbolos rios que vão, título que retoma os primeiros versos de “Babel e Sião”, de Luís de Camões, é o vigésimo segundo romance de António Lobo Antunes. Assim como no poema, o descontentamento com a situação do presente faz com que sejam trazidas à tona as lembranças de um passado saudoso porém inalcançável. Ao contrário do eu-lírico de “Babel e Sião”, que se sente desolado ao relembrar esse passado perdido, o narrador de Lobo Antunes consola-se em suas memórias e acolhe-se nelas para suportar as dores que lhe cercam, provenientes de uma luta fervorosa contra um câncer.

Como poema e romance compartilham a mesma temática geral, a efemeridade da vida que passa despercebida assim como os rios que se vão, a partir da primeira estrofe de Camões  entende-se o que o romance compreenderá: uma saudade nostálgica do que já foi vivido, saudade de “Sião do tempo passado”, da infância tranquila na vila dos avós, confrontando a agonia da “Babilônia ao mal presente”, dos sofrimentos de um paciente no hospital. O curso do rio também simboliza os caminhos da vida e, ao longo da distância que é percorrida, todos os elementos que se agregam a ele, outros rios que fortalecem seu tamanho, afluentes, memórias, marcas e pessoas, até que, finalmente, alcança um espaço final onde desemboca, e o caminho percorrido é reconstruído através de reflexões a respeito da própria existência.

[...]

Certamente a mais autobiográfica de suas obras, Sôbolos rios que vão é uma coletânea de registros confessionais que fazem uma reconstrução via memória da infância do personagem que, no ano de 2007, vive momentos de angústia, solidão e medo perante a morte quando levado a um hospital de Lisboa para a retirada de um cancro no intestino. Na forma de um diário ficcional, que relata os acontecimentos desde a internação até a retirada do tumor e a recuperação do protagonista, em um período que abrange nove dias entre 27 de março e 04 de abril daquele ano, um narrador descreve, na terceira pessoa, as fraquezas do corpo doente enquanto relembra uma infância tranquila em uma con(fusão) de duas realidades temporais [...]



por Maria Inácio Peixoto Quaresma
em Darandina, revista da Universidade Federal de Juiz de Fora (Brasil)
[não datado]

[texto não revisto segundo a norma ortográfica amtes do AO90 para português europeu, mantendo a grafia português brasil]

[referências a António Lobo Antunes na Web alteradas; por favor consultar notas após download do ficheiro; em caso de dúvida enviar e-mail para jalexramos@gmail.com]

21 de fevereiro de 2015

Alice Ferney em Le Figaro - «Ser e ter sido» crítica a tradução francesa de Sôbolos Rios Que Vão

Ser e ter sido

António Lobo Antunes - O escritor conta a sua estadia no hospital durante o tratamento de um cancro. Desconcertante e sublime.

capa da tradução francesa (por Dominique
Nédellec), publicada pela editora
Christian Bourgois em 19.02.2015
As obras-primas, disse Proust, são escritas numa língua estrangeira. Falam a língua de uma forma como nunca se havia entendido. Constroem no centro da sintaxe contradições, combinações, silêncios, que despertam os nossos olhos para um nunca visto. Como Céline, a quem escrevera na sua juventude, o escritor português António Lobo Antunes pertence a essa espécie de criadores da escrita. Ninguém escreve como ele, e ele não escreve como ninguém.

Resumir este grande livro é quase um ultrage: Sôbolos Rios Que Vão [Au bord des fleuves qui vont] (os rios míticos, os rios de Portugal, as torrentes de emoções que em nós fluem, os rios da memória e do tempo) relata os quinze dias do Senhor Antunes num hospital de Lisboa, onde é operado a um cancro, «o ouriço». Sendo nada mais que isso, é contudo dentro de um oceano, de um abismo, de uma floresta densa ou, na realidade, dentro da mente de um homem onde o leitor se entranha.

Desde o início, a ubiquidade do doente, da qual permite o seu livre espírito de estar em todos os lugares ao mesmo tempo, é-nos anunciada: o Senhor Antunes não está na sua cama de doente, ele está na serra, onde em criança pode ver sua avó. O corredor do hospital é como na aldeia, o enfermeiro deita o olho ao quarto como outrora o fazia a mãe... Os momentos, os lugares, os rostos que se cruzaram na sua vida misturam-se num mesmo instante. A memória toma conta do tempo, anula-o, deixa de existir passado, presente e futuro, tudo está concentrado na alma do Senhor Antunes. E este romance da sua agonia acaba por ser o romance da própria vida. A aventura cirúrgica, a dor, a angústia, as palavras do médico, cortam o fio condutor destas recordações às portas da consciência. O diagnóstico sibilado por frases no meio de uma profusão de sons, de cheiros, de gestos, de fantasmas em torno do doente, somente observando. Ele delira, afirma o enfermeiro, e o leitor sorve esse delírio.

É preciso dar conta da nossa perturbação. Para além das suas deslumbrantes elegâncias, a escrita de Lobo Antunes torna real essa ideia de que somos a cada instante todos aqueles que já fomos. O Senhor Antunes é, ao mesmo tempo, o adulto doente, o filho e o neto, Antoninho. A vida que tivemos não se perde, permanece em nós até ao final. E nós somos espíritos eternos, dizem os últimos capítulos, em que a morte do doente, incerta, não suspende o fluxo das imagens. Seja claro que se trata de uma prosa desconcertante, literalmente: não existe fio narrativo, que se dispersa num labirinto de memórias. A oração, a lógica, a habitual lineariedade resultam fracassadas. Como nos sonhos, o espaço e o tempo já não se impõem. O discernimento impacienta-se: de que estamos a falar? O que o inquieta? Onde estamos agora?

Tudo se move. Da mesma forma excitante e desgastante como o Guignol's Band de Céline, Lobo Antunes se afirma. Ele é um artista, não um contador de histórias. A sua matéria de escrita não é uma ideia da vida, antes das suas sensações, percepções, terrores e apetites. Se a concentração do leitor se mantiver, libertando o raciocínio, e se deixar levar-se pelas palavras, então a emoção atingirá o seu auge.


por Alice Ferney
19.02.2015
[traduzido do francês por Joana de Paulo Diniz]

17 de janeiro de 2015

Daniel Osiecki - Sôbolos Rios Que Vão: emparedamento metafísico

edição brasileira Alfaguara
A polifonia não é novidade nos romances de António Lobo Antunes que, através de painéis narrativos intrincados, se desenvolve nos segmentos da prosa poética  e de fluxos de consciência extremamente precisos. O estilo não linear de Lobo Antunes passou a se evidenciar a partir de romances como As Naus (1988), Tratado das paixões da alma (1990), A ordem natural das coisas (1992), O manual dos inquisidores (1996), O esplendor de Portugal (1997) e tantos outros.

Com o passar do tempo a desconstrução da forma romanesca tradicional e a ruptura de elementos sintáticos em suas narrativas se tornaram mais evidentes, como a ausência de diálogos estanques em um plano temporal objetivo que dá lugar a devaneios, delírios e lembranças. As narrativas mais recentes de Lobo Antunes são compostas por solilóquios e monólogos irredutíveis sob perspectivas variáveis de personagens repletos por neuroses e obsessões.

As experiências na guerra colonial em Angola serviram como pano de fundo para vários romances de Lobo Antunes evidenciando um tom autobiográfico, mas em toda sua trajetória ele nunca foi tão direto e desprovido de amarras como no livro Sôbolos rios que vão (2010). Lobo Antunes teve câncer há sete anos atrás e depois de lidar (mais uma vez) com a experiência da morte iminente, fez uma espécie de balanço de sua vida. No romance, lembranças se misturam com delírios  e acontecimentos nebulosos envoltos numa atmosfera onírica e soturna.

A ação de Sôbolos rios que vão é bastante fragmentada, como é recorrente em livros anteriores de Lobo Antunes, mas nessa breve, mas densa, narrativa, os estilhaços polifônicos assumem proporções maiores que em outras obras; há, assim, vozes distintas de um mesmo narrador, como a voz do protagonista ainda na infância em sua aldeia natal e a voz do protagonista delirando em um leito num hospital em Lisboa. A doença submete o indivíduo à mais humilhante derrota, que é tornar-se vítima ou prisioneiro do próprio corpo. Os embates metafísicos são intensos durante toda narrativa. 

Vale ressaltar que o brainstorm que de certa forma aprisiona e liberta o narrador, que é o próprio António Lobo Antunes, se mistura frequentemente ao plano do delírio. A voz do avô é recorrente durante todo o romance, como um eco do fundo das eras que se repete durante várias passagens da vida de António. A voz do avô une-se à sua e vários labirintos estilísticos e narrativos começam e acabam no mesmo parágrafo. E em momento algum o narrador se assume como ele próprio, ou seja, não assume ser ele mesmo porque não há referência ao fazer literário ou a qualquer indício de que um texto de fato esteja sendo escrito. Mas há a autocitação, ou seja, António Lobo Antunes além de autor modelo é personagem, mas não vem a ser autor empírico.

António Lobo Antunes deixa bastante claro durante todo o romance uma das máximas do existencialismo, que é tentar explicar a inverossimilhança da vida diante do absurdo da morte. A morte não pode ter mais sentido do que a vida. Isso acontece quando a memória, que é o único e último recurso do protagonista, começa a falhar. Essa falha simbólica é o primeiro indício claro da finitude e da fragilidade humana. 

...e a ausência de memória a apequená-la de angústia, a sua voz de súbito numa energia que a espantou... (p. 184)

Ao passo em que a narrativa (ou as narrativas) vai chegando ao fim, Lobo Antunes evidencia ainda mais uma espécie de tragédia iminente, como um momento nevrálgico inevitável. Nota-se que há a preparação de um acerto de contas com a vida. Há um tom de prenúncio de tragédia que permeia seus últimos dias no hospital.

- Ninguém quer saber de nós
dias a fio sozinho tal como eu nesta cama com a mesma fúria de partir e incapaz de partir, partem as visitas pela gente, se tivesse um filho podia ser que, não, se tivesse um filho ia-se embora com os outros, o que vale este pai e talvez fosse o que meu pai queria dizer fitando o balanceio dos líquenes ou o avô a atravessar o jornal na varanda não se importando com as notícias, a minha avó
- Foi sempre distraído
e não era distracção, era a falta de coerência da vida...

(p. 168)

António Lobo Antunes leva muito a sério o fato de não contar uma história. Ele tenta reproduzir na escrita a angústia de seres, em sua maioria, decadentes. Decadentes se não moralmente, fisicamente. O que é relatado acaba por ficar em um segundo plano, evidenciando-se mais como relatar, como contar, como inventar. Esses artifícios experimentados por Lobo Antunes são compostos em uma prosa poética labiríntica, ou seja, as angústias e devaneios dos personagens sofrem uma espécie de emparedamento metafísico. No caso do protagonista, além do emparedamento metafísico, há também um emparedamento físico, pois está preso à cama de um hospital. A forma romanesca de Lobo Antunes é um labirinto que deve ser penetrado pelo leitor com argúcia, com cuidado mas com audácia. Sôbolos rios que vão é um belo exemplo da densidade e do experimentalismo praticados por Lobo Antunes como se fosse uma síntese de toda sua obra.


por Daniel Osiecki
01.06.2014

16 de março de 2014

Luis M. Alonso: opinião sobre Sôbolos Rios Que Vão

Palavras que fluem como a água

O curso do rio serve ao eterno aspirante do Nobel da Literatura António Lobo Antunes para contar a viagem fictícia da vida sujeita ao tempo e à organização da memória. Para tal utiliza desde o título do seu romance as resondilhas mais conhecidas de Camões: “Sôbolos rios que vão / Por Babilônia m’achei, / Onde sentado chorei / As lembranças de Sião, / E quanto nela passei”. A literatura flui como a água numa das suas obras mais belas, talvez a melhor de todas que escreveu na última década.

Sôbolos Rios Que Vão [...] explora as possibilidades da lírica sem deixar de lado uma trama discernível, algo que não é fácil encontrar no melhor escritor português vivo desde Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura, marca de um ponto de inflexão na leitura dos seus romances. Em qualquer caso, livre a escrita do atavismo que impõe a nudez da história, ao leitor calha converter-se em cúmplice das emoções das personagens e das palavras. O resultado é comovente e, como só pode acontecer com Lobo Antunes, o esforço que requer a leitura vê-se altamente recompensado pela desoladora beleza que transmitem as suas páginas.

Na cama de um hospital, só e com as recordações da dor, António invoca Antoninho e com ele o seu passado, enquanto que no seu corpo se vai alimentando um ouriço de castanheiro que come as suas entranhas, o mesmo com que o pai desgastava a saúde da mãe nos episódios de amor furtivo com a criada na despensa. “Não o contes a ela”.

Assim impedido, enquanto os médicos tentam adiar-lhe a morte, vê a vida passar através dos sonhos de então. A viagem à Serra da Estrela para contemplar a nascente do Mondego e os pequenos detalhes num mundo que se desmorona: a mancha na pia, a persistente gota de chuva no sapato, o cheiro da marmelada, os amores esquivos ou a lembrança do avô com a mão côncava sobre a orelha para escutar as conversas.

Trata-se de uma obra autobiográfica. Há alguns anos António Lobo Antunes foi internado devido a um cancro e nessa luta entre a vida e a morte, guiando-se pelo rio da sua infância, traçou o leito que vem desde o nascimento até afluir na actualidade. O sentimento de finitude está sempre presente no escritor, desde o momento em que deixou a sua existência cómoda e se viu dentro da guerra colonial. Angola, de quando o rebenta minas, que seguia à frente abrindo o caminho e detectando a morte, se apresentava a ele e lhe dizia: “Venho despedir-me de si, meu tentente. Amanhã vou embora...”. Esse sentimento de finitude levou-o em muitas ocasiões a obcecar-se com a ideia de que não iria ter tempo para escrever o que realmente queria escrever. Nas entrevistas, insiste em afirmar que sem a escrita nada faz sentido, ou tudo fica, no mínimo, mais reduzido.


por Luis M. Alonso
04.02.2014
[traduzido do castelhano por Joana de Paulo Diniz]

22 de outubro de 2011

Manuel Cardoso: opinião sobre Sôbolos Rios Que Vão


Sobolos rios que vão
Por Babilônia m’achei,
Onde sentado chorei
As lembranças de Sião,
E quanto nela passei.
Ali o rio corrente
De meus olhos foi manado;
E tudo bem comparado,,
Babilônia ao mal presente
Sião ao tempo passado
.” (...)
Luís de Camões

Na cama do hospital, solitário entre dores e lembranças, António Antunes, ou Antoninho, alimenta com o corpo um “ouriço”. Cancro, dores, memórias, um mundo que se desmorona mas, ao mesmo tempo, um mundo inteiro de recordações que vagueiam na sua mente como a mosca que poisa no lavatório, como um pingo no sapato ou o avô que colocava a mão em concha na orelha para ouvir.

Grandes dores, ainda bem que as tem, pensa Antoninho, ou o Senhor Antunes, a quem os médicos e enfermeiros adiam a morte, talvez para lhe alimentar aqueles sonhos do passado, lembranças que são a sua vida, a solidão em forma de vida, o mundo em forma de cama de hospital, e felicidade em forma de memória, a morte em forma de ouriço, que corrói, o sangue na fralda, “é só mais um remediozinho e fica fino”, conversa de médico, que nunca mais são cinco horas e o hospital cheio de dores para enganar...

Por entre as dores e a morte que se adia, o avô surdo, a avó chamando Antoninho, o pai com a criada na despensa, “olha o teu filho a ver-nos”, o pai jogando ténis com as inglesas do hotel.

Mundos inteiros dentro de um mundo só chamado memória, ou solidão, mundo inteiros resumidos num ouriço que lhe corrói as tripas como o pai corroendo a mãe, “não digas nada à tua mãe”.
Memória sofrimento e morte, é tudo a mesma coisa excepto o sorriso dos pequenos prazeres, resumidos, sintetizados no voar de uma mosca, num momentâneo “agora não dói” mas se não dói ouriço dói a alma, essa, sempre dizendo Estou cá, a vida embrulhada num mundo outro chamado passado, um mundo que afinal vai dar ao mesmo, é igual a este, se calhar o tempo é que é o embrulho, se calhar é tudo o mesmo, é o ouriço que comanda, é a dor que dita as regras, é o mundo inteiro naquela cama de hospital ou no pingo que caiu no sapato. Tudo talvez não seja mais que um imenso nada, a gente é que constrói mundos na cabeça, a gente faz os ouriços da memória e depois não sabe sair deles.

E o tempo é um engano. Não lhe poderemos nunca fugir nem nunca encontraremos o tempo de ser feliz. Porque o tempo é tudo, é o alguidar da vida onde tudo se mistura.

A tristeza é a vida; a escrita de ALA é esta dor de existir, este arrastar as letras até ao mais profundo do ser, este mergulhar de cabeça na escuridão de que são feitos os mundos.
 
Impossível escapar, impossível dizer isto não é nada comigo, é sim, é sempre comigo e com todos porque o mundo está nas memórias e resumir-se-á um dia ao nosso próprio ouriço. Inexoravelmente!

A beleza sintetizada numa lágrima que não sai.
 
Avaliação: 9.5/10

Manuel Cardoso
21.10.2011

1 de outubro de 2011

Tiago M. Franco: opinião sobre Sôbolos Rios Que Vão


António Lobo Antunes é apontado há vários anos como possível vencedor do Prémio Nobel da Literatura. São já muitos os prémios literários por ele conquistados, em 2005 foi-lhe atribuído o Prémio Jerusalém, em 2007 o Prémio Camões, em 2008 o governo francês atribuiu-lhe o título de Comendador da Ordem das Artes e das Letras francesas. Sôbolos Rios que Vão é o seu mais recente trabalho.

A história começa a 21 de Março e termina a 4 de Abril de 2007, a data corresponde ao tempo em que Antunes esteve internado num hospital com um problema nos intestinos, e é no hospital que “Antonino” nos dá a conhecer o inevitável da vida: que todos nós um dia temos que chegar à foz de um rio (“e não é preciso contar-lhe, sabia, bastava a certeza de chegar à foz”) e tal como as águas do rio, até chegarmos à foz temos muito caminho a percorrer. Nessa caminhada a personagem recua até à infância, outras vezes até à idade de adulto e também relata o que está a acontecer no hospital, (“e que curioso haver sido outro e depois outro até ao homem de hoje (…), aos cinco um senhor a tocar piano e a rodar no banco (…) aos dezassete a empregada para ele – Você não é o seu pai (...) aos quarenta um enjoo de para quê, uma mulher ao seu lado e ele – Não me abandones”). No texto, a personagem avança e recua no tempo conforme o seu pensamento.

Com este trabalho, António Lobo Antunes, tem o poder de nos conseguir fazer reflectir sobre a vida, somos obrigados a relembrar o nosso passado, assim como pensar sobre o nosso futuro. Como os livros dos grandes escritores este é um livro difícil de esquecer.

Boa leitura…


por Tiago M. Franco
18.02.2011

10 de agosto de 2011

Marco Caetano: opinião sobre Sôbolos Rios Que Vão


Tinha vontade de voltar a ler Lobo Antunes. Tinha vontade de ler frases do tipo "... gente de que notava apenas o ruído das botas e portanto não gente...". Tinha vontade de me tornar a perder nos vários cenários que as suas obras proporcionam.

António Lobo Antunes não é um autor consensual. Mas afinal, é mesmo assim com todos os artistas, não é? Eu sou seu admirador de forma incondicional. Conseguiria ouvi-lo falar horas sem parar.

Poder-se-á dizer que os seus livros não são de leitura fácil, mas na minha opinião isso deve-se unicamente à riqueza do conteúdo da sua escrita. Arriscaria dizer que a par de Agustina Bessa-Luís, estamos no topo da pirâmide dos escritores portugueses da actualidade.

Sôbolos rios que vão é a sua última obra cujo o lançamento ocorreu a 29 de Outubro de 2010 na Estação Elevatória dos Barbadinhos, pertença do Museu da Água da EPAL. Tive o prazer de assistir ao vivo a este lançamento e devo dizer que a vontade de ler este livro surgiu logo aí. O título, proveniente de um poema de Camões, é soberbo, o que aliás parece estar a tornar-se um hábito nos livros do autor. Sem dúvida uma forma superior de baptizar esta obra.

Estamos perante um texto muito autobiográfico. Há alguns anos atrás, Lobo Antunes esteve hospitalizado devido ao aparecimento de um cancro. É essa experiência que, do seu ponto de vista privilegiado de doente, se propõe a apresentar ao longo dos dias em que esteve hospitalizado.

O recurso a memórias antigas para passar o tempo, para esquecer o presente, para justificar as dores ou os sentimentos, está presente do início ao fim. Tudo acontece para se abstrair do que está em seu redor como se fossem espasmos que findam quando a dor regressa. A facilidade com que muda de interlocutores, de cenários ou de espaços temporais, permite ao leitor divagar no percurso da obra (dos rios?).

As metáforas utilizadas e a riqueza dos seus pensamentos são apaixonantes. Penso que nem que leia a obra mais duas ou três vezes, não conseguirei apreender tudo o que o autor tem para mostrar, tal é a densidade da escrita.

Comparar a sensação de se ter um cancro nos intestinos com a sensação de ter um ouriço de castanheiro dentro de nós é bem revelador do poder da sua escrita. O doente que não é doente, é o senhor Antunes, não, é o Antoninho! O avô que é a única pessoa que se preocupa com a dor provocada pelo ouriço. Mas como, se afinal o avô morreu há 40 anos? O pai que apenas procura a bola de ténis que se escondeu atrás dos arbustos como o ouriço que esconde em si. O médico, ou antes o pingo no sapato, quando afinal os rios continuam a caminhar... E nós, sôbolos rios que vão.


Marco Caetano
09.01.2011

22 de junho de 2011

Simão Fonseca: opinião sobre Sôbolos Rios Que Vão


Sôbolos Rios que Vão é um poema de Luís Vaz de Camões e o último romance de António Lobo Antunes. Se na anterior obra, intitulada Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar?, António Lobo Antunes tentou criar uma obra “perfeita” (nas palavras do autor) ou “O livro”, este novo romance não entra por esse caminho e oferece ao leitor uma viagem autobiográfica.

A temática gira à volta da grave doença que atingiu o autor entre o final de Março e o início de Abril de 2007 e de tudo aquilo que ele sentiu, chorou, sonhou e reviveu enquanto esteve hospitalizado. Sem margem para grandes dúvidas, este mergulho no rio que lá foi é a obra mais intimista, íntima e humilde escrita até à data; nos anteriores romances, o recurso a aspectos pessoais e sociais que Lobo Antunes experienciou era bem patente: o amor pelo avô, a casa em Nelas, as tias salazaristas, o pai que o obrigou a ir estudar Medicina, a adolescência vivida em Benfica, Lisboa, o horror da guerra colonial onde ele foi forçosamente enviado como médico, a riqueza da sua família, o anti-fascismo e outros temas abordados são transportados para um patamar mais intimista – como referido atrás – numa espécie de confissão do silêncio, da humilhação, da saudade e do valor dado à vida. Lobo Antunes está consigo da primeira à última página: desabafa a doença nos intestinos (os “ouriços”, como ele se refere à doença) na primeira e na terceira pessoa, insistentes diálogos directos, mistura de narrativas e personagens – a que ele já nos habituou –, sentimento de náusea e tristeza contrastados com os húmidos olhos que “Antoninho” e “Antunes” choram no seu ombro.

Os livros de António Lobo Antunes não são destinados a todos os leitores – ou pelo menos, nem todos vão gostar ou compreendê-los – e este em especial deve ser lido apenas por aqueles que já conhecem as suas obras e que sabem um pouco da sua vida. Partilho com o leitor a felicidade e a desolação do meu fortuito encontro, após a cirurgia, com um lobo solitário e da forma como vê-lo com a audição parcialmente diminuída e o cansaço evidente nos seus movimentos e olhos me deixou com um amargo sorriso. Mas isso não interessa para nada: leia este diário.


por Simão Fonseca
11.01.2011

16 de dezembro de 2010

Ana Paula Arnaut disserta sobre Sôbolos Rios Que Vão


Sôbolos Rios Que Vão de António Lobo Antunes:
quando as semelhanças não podem ser coincidências *

Há trinta anos atrás, num artigo intitulado “Sôbolos rios que vão: uma estética arquitectónica”, Maria Vitalina Leal de Matos confessa ter sido “levada a constatar e a admitir que o poema, a muitos títulos assombroso, pode facilmente decepcionar o leitor, desprovido como é das qualidades estéticas com que o lirismo camoniano mais frequentemente deslumbra” .

Não sendo embora nossa intenção fazer um pormenorizado estudo comparativo entre as redondilhas de Camões1 e o novo romance de António Lobo Antunes, não podemos deixar de verificar as inúmeras semelhanças entre os dois textos. Desde logo, a apropriação integral, para título do livro, do primeiro verso do célebre poema camoniano. É verdade, diga-se a propósito, que a identificação titular poderia não constituir um facto significativo, pois já nos habituámos a que o pórtico da obra nem sempre revele o que vai dentro das suas páginas, escondendo mais do que revelando, confundindo mais do que esclarecendo, frustrando expectativas de leitura mais do confirmando as inicialmente criadas. Não é exactamente este o caso, como veremos de seguida.


* este artigo foi apresentado no Colóquio Pensar a Literatura no século XXI - Faculdade de Filosofia / Universidade Católica Portuguesa, Braga (30 de Setembro e 1 de Outubro de 2010), e agora publicado no nosso espaço por cortesia de Ana Paula Arnaut

por Ana Paula Arnaut
Universidade de Coimbra
Setembro de 2010

15 de dezembro de 2010

Filipa Melo: crítica a Sôbolos Rios Que Vão


O senhor da cama onze

O protagonista do novo romance procura o aconchego nas imagens míticas da infância, o Lobo Antunes aproxima-se do lirismo autoconfessional.

«Deixaram-no atrás duma janela sem paisagem, num tempo velado, oco.» O sujeito é José Cardoso Pires, vítima de acidente vascular cerebral e descrevendo-o em De profundis, Valsa Lenta (1997). Mas o sujeito podia ser António Lobo Antunes, vítima de cancro («um ouriço», com os espinhos emboscados nas vísceras na tensão das raposas»), experimentando a queda e o renascimento e, agora, descrevendo-o em Sôbolos Rios Que Vão. «Antoninho» ou «o senhor Antunes da cama onze» está preso na enfermaria de um hospital lisboeta, também ele suportando o peso do tempo, «velado, oco». Então, «cada gesto que não fazia gritava, cada movimento da cabeça na almofada gritava, cada centímetro de pele gritava, que difícil esconder este medo». O refúgio são as memórias da infância (Sião ou o Paraíso Perdido), quando «quase tudo tranquilo» e o pai lhe mostrou a nascente do Mondego, «um fiozito entre penedos quase no alto da serra». Ao longo de 200 páginas, o protagonista apresenta-se em suspensão entre a nascente e a foz da sua biografia, apelando ao passado para, ao seu lado, lutar contra a presença ameaçadora da Morte.

Sôbolos Rios Que Vão é o melhor título de livro de Lobo Antunes. A evocação extrapola o primeiro verso das Redondilhas de Babel e Sião, de Camões, e suporta a totalidade da narrativa, dividida em 15 capítulos/dias (de «21 de Março de 2007» a «4 de Abril de 2007», o tempo do internamento), narrados pelo protagonista na terceira pessoa. Com este romance, é a própria epopeia ficcional do escritor que desemboca na lírica autoconfessional, encerrando-se em círculo fechado com Memória de Elefante, a estreia em 1979. E pode ser o protagonista/autor a dizer-nos: «Sôbolos rios que vão por / Babilónia, me achei, / Onde sentado chorei / as lembranças de Sião.»

Reconhecemos quem fala enquanto «assist[e] ao tempo», entre o cuidado dos enfermeiros e dos médicos e os espectros que vêm: os comboios do Libério, a carroça do Virgílio, a D. Irene na harpa, o avô a dar-lhe comida à boca, a estrangeira loira, o pai e a empregada na despensa, a avó a acender uma ampola no escuro, Maria Otília e a mãe, as três figuras protectoras. Já em Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar? era manifesta a presença do autor no texto. Em Sôbolos Rios Que Vão, a longa polifonia de monólogos lobo-antunianos (como «os rios do Mondego que sem cessar se dividiam e tornavam a unir» ou «um cortejo de botas») unifica-se numa única voz narrativa, a origem clara de todas as visões prismáticas. É o protagonista quem sobrepõe o tempo e território da infância aos da doença. Procura nas imagens míticas da criança a ordem e o aconchego que fogem dele agora adulto. Expõe camadas desorganizadas de memórias, as suas contradições reveladoras, e pergunta: «És o Antoninho, não és?» No final, «exeunt omnes» (todos saem) e o protagonista/autor regressa finalmente a si (curado), «o senhor Antunes sobre os rios a caminho da foz».


por Filipa Melo
Revista LER nº 96
Novembro 2010

27 de novembro de 2010

Norberto do Vale Cardoso: crítica a Sôbolos Rios Que Vão


O Livro dos Viventes, António Lobo Antunes e Sôbolos Rios Que Vão

No colóquio A Escrita e O Mundo Em António Lobo Antunes, Carlos Reis havia referido que a obra de António Lobo Antunes é uma “casa de onde se vê o rio”, frase que, de certo modo, parece prenunciar o título do mais recente livro do autor: Sôbolos Rios Que Vão. Baseado num poema de Luís de Camões, este romance demonstra que a obra de Lobo Antunes não se cinge a ser uma casa de onde se vê o rio. A verdade é que a obra antuniana, como o rio - e como a vida -, flui e reflui num continuum, eterno projecto do autor fazer da sua uma obra “redonda” (crónica “As Mãos são as folhas dos gestos”), porque para António Lobo Antunes a vida é a obra e a obra será como um rio.

Como bem o entrevê Maria Alzira Seixo, em Sôbolos Rios, a importância atribuída à visita à nascente do Mondego “adquire aqui a força de um simbolismo vital, porque a personagem está imobilizada numa cama hospitalar, padecente de cancro, sujeita a cirurgias e a tratamentos.” A montante está a infância, naturalmente, em que o doente conhecera a nascente do Mondego com o pai, personagem fulcral, pois é este que o leva a esse lugar genesíaco (não se trata apenas da nascente do rio, mas também da sua formação enquanto um “ser vivente” e enquanto escritor). O caminho de regresso à nascente é, por isso mesmo, um caminho inverso ao que faz o rio (ou mesmo a vida), como se o senhor Antunes principiasse novamente o seu percurso de vida. Este regresso memorial à nascente do rio Mondego e à vila/ serra trata-se, pois, de um processo curativo, em que se imiscuem o hotel e o hospital. E ainda que nenhum deles possa ser uma representação estanque do passado ou do presente, pelo facto de ser operado no hospital, lugar onde o corpo está atido à realidade física e fugaz da matéria de que somos feitos, a memória e a imaginação transportam a personagem para um lugar da infância, o hotel dos ingleses, onde acaba por ser operado, como se, permita-se-nos a redundância, operasse uma fuga ou cura do espírito.



por Norberto do Vale Cardoso
enviado por e-mail
26.11.2010

19 de novembro de 2010

Fernando Martins: crítica a Sôbolos Rios Que Vão


"Sôbolos rios que vão"... (desaguar num atoleiro?)

“Sôbolos rios que vão” é o primeiro verso das célebres redondilhas em que Camões faz o balanço da sua vida passada e projecta o futuro através da superação mística das contingências humanas. Sôbolos rios que vão é também o título do vigésimo segundo e mais recente romance de António Lobo Antunes.

Deste romance, diz a professora Maria Alzira Seixo, entre outros encómios, que “é um dos mais maravilhosos que o autor escreveu até hoje. É um dos casos em que a reflexão sobre a vida pessoal (enfim, a autobiografia!) consegue aliar-se, em ambos os escritores [Camões e Lobo Antunes] à expressão literária de um modo artístico insuperável” (Jornal de Letras n.º 1044, 6-19/10/2010). Já Rui Catalão, aparentemente menos indefectível admirador de ALA do que a professora Alzira Seixo, tempera a sua análise crítica falando-nos de “um livro muito belo e muito desequilibrado”, livro este em que “a maior fragilidade do Sr. Antunes reside em sacrificar a construção das cenas, ou dos episódios, à montagem de frases dispersas e imagens fragmentadas”. E acrescenta: “o livro está repassado de grandes momentos de literatura e os seus efeitos dramáticos chegam a ser comoventes. Mas esses efeitos que resultam de uma técnica de escrita que articula processos mentais de associação, dinamitam qualquer chance de o livro erguer outra coisa que não seja a catástrofe do cenário, da acção e das personagens” (Ípsilon, 15/10/2010).

Nutro grande respeito e admiração pela professora Alzira Seixo, de quem fui aluno, mas não consigo partilhar a sua simpatia por este romance de Lobo Antunes, que me faz lembrar o filme “Branca de Neve” de João César Monteiro, filme que, aliás, não vi, nem – julgo – poderia ter visto, uma vez que, depois de uma curta cena inicial em que se vê o realizador a colocar um pano sobre a objectiva da máquina de filmar, a tela escurece e nada mais se vê até ao fim, apenas se ouvindo vozes. Em Sôbolos Rios ouvem-se vozes, sobretudo a do protagonista, mas, quanto à possibilidade de visualizar, o que se passa é que as imagens são de tal modo fragmentadas e incoerentes que acabam por instituir o caos.

É certo que a narrativa contemporânea nos habituou às mais diversas infracções e desvios: as categorias que a enformam – tempo, espaço, acção, personagem – sofrem tratos de polé que poriam em pé os cabelos dos clássicos, ainda que alguns procedimentos agora banais não sejam novidade (basta lembrarmo-nos de Os Lusíadas, p. ex., com o seu começo in media res). Mas uma coisa são as analepses e prolepses, os encaixes e alternâncias, a sobrevalorização do stream of consciousness em detrimento da acção, a despromoção da personagem; outra é a desconstrução artificial do discurso e a sua redução a uma amálgama de segmentos disformes.

Admite-se um discurso incoerente, se é uma corrente de consciência torturada que se pretende reproduzir (ou criar) literariamente (o que acontece efectivamente com o protagonista de Sôbolos Rios), mas esse discurso há-de constituir um segmento relativamente curto dentro da estrutura do romance. Enformar toda a narrativa com o molde da torrente caótica de uma consciência doente (através da elipse frequentíssima de verbos e da justaposição de acções independentes ocorridas em tempos e espaços diferentes) é destrui-la. E já não falo da pontuação, pouco menos do que arbitrária, que faz da de José Saramago (tão vilipendiada!) algo de quase convencional...

Enfim, dir-se-ia que António Lobo Antunes se empenhou em concretizar o preceito de que quanto pior melhor. Mas o facto é que quanto pior pior.


por Fernando Martins
09.11.2010

14 de novembro de 2010

Catarina Homem Marques: sobre Sôbolos Rios Que Vão

António Lobo Antunes 25 - Morte 0

“Estou a negociar livros com a morte.” Uma e outra vez, em cada novo lançamento, a frase é repetida por António Lobo Antunes. Com mais intensidade desde 2007, por ter sido o ano em que um cancro nos intestinos tornou todos os negócios com a morte mais urgentes. Sôbolos Rios que Vão é mais uma negociação que pendeu para o lado do escritor. Ele com mais um, num total de 25 romances já publicados, a morte a perder com um zero no marcador. Mas nunca como neste livro o “estou a negociar livros com a morte” fez tanto sentido.

Sôbolos Rios que Vão é, em si mesmo, um espaçado e calmo negócio com a morte. Um homem que passa 15 dias no hospital, perdido entre um corpo que morre e uma mente que procura mais a vida passada do que uma perspectiva concreta de vida. “O que se quer escrever é aquilo que se perdeu”, disse o autor no lançamento. Ele que parece dizer-nos a cada página o que de biográfico tem este narrador. É António Lobo Antunes que o vai chamando:

– Antoninho.
– António.
– Senhor Antunes.

Também ele perante um cancro nos intestinos. Também ele deitado numa cama de hospital em 2007. Também ele, sempre, a negociar com a morte como negoceia com as memórias e as fotografias caladas nas molduras.

Os banhos que lhe dão no hospital despertam a mesma vergonha de exposição que sentia numa bacia da cozinha onde a mãe o lavava. Quem lhe tira o sangue, com dificuldade a encontrar a veia, não é um enfermeiro mas sim a Dona Irene, que lhe tocava harpa ao serão. Os lençóis do hospital deviam ter ursinhos com gorro e cachecol. “A minha mãe curava tudo com uma aspirina” e, por isso, para quê aquela operação? Se caiu e se se levantou logo depois, porque não lhe diz o médico que daqui a uma semana já pode voltar a fazer oitos com a bicicleta?

“...e não posso reparar no filme dado que me esfregam as nádegas, não um homem, uma enfermeira a humilhar-me – falta pouco enxugando-me as intimidades numa eficiência rápida, não intimidades aliás, trapos que tombam numa moleza atroz, estou a gostar imenso do filme garanto...”

Os dias no hospital – entre o medo, a inconsciência e a lucidez – misturam-se com a infância, com a mulher de quem já se divorciou, com aqueles que já são os seus mortos. A narração nem chega a ser uma narração: é mais um fio de pensamento, que se perde entre diferentes estados.

E há sempre uma janela, porque as janelas dos hospitais, que existem para aliviar, assustam toda a gente. Dali, o narrador, quem sabe o autor também, vê comboios vazios mas não vê dálias e uma lagartixa escondida no muro, como era suposto ver através de uma janela da infância.

A doença vai espreitando apenas, discreta mas inamovível: “Temos de tratar uma inflamaçãozita no rim” ou “o coração desacertou-se”. É só isso que se ouve no fundo do poço de divagações onde habita o narrador e onde o cancro é um ouriço, o médico o dono do hotel dos ingleses e o coração uma bomba de água.

António Lobo Antunes tem um amor assumido por um livro que juntou a uma colecção de livros de bolso coordenada por si: A Morte de Ivan Ilitch. Um pormenor, curioso apenas porque Sôbolos Rios que Vão partilha dos ecos de morte desse livro de Tolstoi. Ecos de morte que se colam aos nossos ouvidos, que nos magoam por exporem tanto aquela inevitabilidade que tentamos sempre ignorar mas que, de tão bonitos, nos deixam mais cheios de vida.

“A puta da Bovary vai viver e eu vou morrer.” Quem o disse foi Flaubert, e Lobo Antunes evocou-o no lançamento: Ficam as personagens, morrem os seus autores. A não ser quando ficam todos misturados: o Antoninho, o António, o Senhor Antunes.


Catarina Homem Marques
09.11.2010

10 de novembro de 2010

Rui Catalão: crítica a Sôbolos Rios Que Vão

Fantasia de morte
Ou de como um romance de ossos partidos pode ser composto da melhor poesia

As peças acumulam-se e é uma tentação encaixar a nova peça do puzzle nas já existentes (este é o 22.º romance de António Lobo Antunes). Outras tentações interpretativas provocadas pelo novo livro do escritor (Lisboa, 1942): o título camoniano, que cita o primeiro verso de "Babel e Sião" (esse mesmo em que tudo é "bem comparado, Babilónia ao mal presente, Sião ao tempo passado"); e a autoreferencialidade (a personagem principal é um "Sr. Antunes", que em criança tratavam por "Antoninho" e que no ano de 2007 foi operado a um cancro no intestino).

Deixemos de lado a literatura comparada e as ligações autobiográficas e concentremo-nos nas menos de 200 páginas de "Sôbolos Rios que Vão". No que ao título diz respeito, há alusões suficientes no interior do texto. Como esta: "Dei por mim sobre os rios do Mondego que sem cessar se dividiam e tornavam a unir, dei por mim que faleci há tantos anos ou não eu, tudo aquilo que era e não existe mais, a flutuar sobre a água para longe de vocês." Ou esta: "O cabelo da Maria Lucinda a confundir-se com o seu e ele deslizando sobre os rios a fazer parte das ondas." Ou ainda esta: "Três quilos e duzentas que embrulhavam em linho e ele a ir sobre os rios no sentido da foz".

Neste livro, que arranca no primeiro dia de Primavera, metáfora e enredo são um só: o fio de vida que vai da nascente à foz. É a fantasia de morte de alguém que perde a identidade antes de ter chegado a perceber que identidade era essa; é a visão em arco de um velho com cancro no intestino a estudar as linhas da vida "nos ecrãs" e a fazer "zapping" com a memória. "Sôbolos Rios que Vão" salta do passado para o presente e depois outra vez para o passado, em círculos fechados, com as suas repetições, recapitulações e rememorações (o pai que pergunta "Sabes?", mas que não toca no filho; o ouriço que se desprende de um castanheiro para se instalar nas tripas em forma de cancro; o tio que não se julga homem que chegue para viver nem tem coragem para se matar; a criança que pede "pão, pão" à janela de crianças ricas que sonham com a fome dela; "o pingo no sapato" que vem a revelar-se um médico; o rabo do gato escutado pela avó na escuridão; etc). Dor e memória, doença e recordações negam a possibilidade de inexistência que uma voz no romance parece sugerir. O problema é quando a dor se escapa, e o paciente a busca para se reconhecer, ou é perseguido por ela, para ser identificado: "Dado que nenhuma intimidade entre eles, avaliavam-se, rondavam-se, não se cumprimentavam". Tudo existe, até o que é inútil, como o nome de alguém esquecido: "A tralha que arrastamos Santo Cristo, o que faço com o Amadeu das Neves Pacheco, expulso-o ou permito que se mantenha submerso juntamente com outros nomes e outros sucessos antigos."

Com a sua já familiar técnica de falsas concordâncias, duas orações que aludem a tempos e temas diferentes a criarem uma terceira unidade de sentido, o sr. Antunes maneja a todo o gás a máquina de emaranhar paisagens da sua escrita (cenários principais: uma cama de hospital, no presente; e as imediações do Mondego e das minas de volfrâmio, durante e depois da Segunda Guerra Mundial). Primeiro exemplo: "Uma maca a deslizar perto dele e mais ninguém senão o afinador [de harpas] emendando uma última cavilha no seu peito"; segundo exemplo: "Eu no centro da cama onde os enfermeiros me puseram à espera que me toques e tu na pontinha do colchão esperando que eu não te toque e não toquei a fim de não ser expulso por um cotovelo maçado"; terceiro exemplo: "a minha avó nas bancadas dos ourives e eu satisfeito por o passado continuar a existir salvando-me da ravina à beira do colchão".

O Sr. Antunes prodigaliza neste livro uma arte que domina com maestria: escrever nas entrelinhas. Desporto favorito de muitos leitores que fizeram a transição da ditadura para a democracia, é um jogo que teve cultores por altura das canções de protesto e que ainda sobrevive nas canções brejeiras. Reparem como o Sr. Antunes disfarça uma cena de sexo oral (entre a viúva de um major e o pai de Antoninho) através do acto de comer um salmonete fresco: "Mais perfeita que a avó a dividir o salmonete ao meio e a juntar a pele e a cabeça que o impressionavam num prato mais pequeno - Podes comer agora enquanto o avô perseguia as espinhas com a língua, todo ele à procura entre a gengiva e a bochecha, encontrava a aresta, perdia-a, voltava a encontrá-la, empurrava-a com precaução ao longo de um funil de lábios, apanhava-a com dois dedos, esfregava-os um no outro para se libertar dela, secava-os no guardanapo e recomeçava a pesquisa".

"Sôbolos Rios que Vão" é escrito num português que pesca à linha um vocabulário delicioso (em locuções populares como "mete-se-lhes uma cisma no raciocínio e não a largam mais atazanando os vivos"), assim como frases que fizeram uma época ("bochecha de menino me deu vida", diz o balão que ao encher revela a frase "Armazéns Victória Tudo Para A Mulher Moderna"). Mas a narrativa, a caracterização de personagens, a própria ideia de personagem, e já agora a ideia de narrativa, fazem fraca figura no livro do Sr. Antunes. Dele podemos dizer o que Nabokov dizia de Flaubert, que escreve um romance como devia escrever-se poesia, com a diferença de que o seu "Sôbolos Rios" é um romance de ossos partidos.

A maior fragilidade do Sr. Antunes reside em sacrificar a construção das cenas, ou dos episódios, à montagem de frases dispersas e imagens fragmentadas. O livro está repassado de grandes momentos de literatura e os seus efeitos dramáticos chegam a ser comoventes. Mas esses efeitos, que resultam de uma técnica de escrita que articula processos mentais de associação, dinamitam qualquer chance de o livro erguer outra coisa que não seja a catástrofe do cenário, da acção e das personagens.

Este não é bem um livro "sobre" a velhice nem sobre os prenúncios ou sintomas de morte; encarna antes a velhice e a morte numa sucessão de desmoronamentos, com a memória no papel do paramédico munido de um desfibrilador. As amigas senis da mãe do Sr. Antunes, Júlia, Alda e Clotilde (três nomes lindos, mas que já não se usam) dizem frase como "Vejo um niquinho", ou "Estive casada com quem?", e perdem-se na "angústia de buscar soleiras no cérebro sem as achar". Quanto a Maria Otília (outro nome fora de moda), que "perseguia cabelos brancos no espelho afastando madeixas" enquanto prometia a si mesma "Nunca serei velha", essa paixão do Sr. Antunes que ameaçava deixá-lo sozinho na cama se ele não parasse de tocar-lhe, impedindo-a de dormir, faz agora um tratamento com "as ampolas de beber da úlcera" e "o que cura a úlcera não é engolir aquilo, é cortar as duas pontas no lugar marcado a azul com uma serrinha que se descobre entre os vincos das instruções ou escondida na embalagem, eis a pequena recompensa da idade, abrir ampolas e assistir a uma mancha amarela num dedo de água mexido não com a colher, com o cabo da faca".

Se temos de aceitar que nas imagens está o olhar do autor, também não é menos verdade que na estrutura do texto nos deparamos com a sua visão do mundo. Para além do espaço-tempo polarizado pela infância a brotar de sensações confusas e da velhice repleta de memórias dispersas, pode dizer-se que o Sr. Antunes entrega qualquer outra possibilidade de ordem aos caprichos da visão poética. Quando esta se desorienta, só restam confusão ou afectações de estilo de um escritor mimalho. Felizmente, o Sr. Antunes ainda se lembra dos mimos mais antigos: "Ele ao colo da mãe de bochecha entre as rendas, ora à superfície ora protegido por um casulo no qual se lhe fosse consentido moraria eternamente". O Sr. Antunes oferece-nos neste livro muito belo e muito desequilibrado uma experiência do êxtase em que pavor e descoberta se confundem. Morte e vida e velhice e sofrimento podem ser muitas coisas, não são é desoladas, nem tão pouco vazias.


por Rui Catalão
Outubro de 2010

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