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23 de agosto de 2014

Paulo Polzonoff Jr: «O elogio do silêncio alheio»

Uma das opiniões com quase (ainda mais um) anos que o nosso projecto, que comemora agora em Setembro o seu 10º aniversário, é este artigo do brasileiro Paulo Polzonoff Jr., que repescamos do seu site renovado:

O elogio do silêncio alheio

foto: Diário de Notícias
Julgam-me feliz: sou mouco.
(António Lobo Antunes)

Gosto quando livros me dão um tapa na cara. E não existe esbofeteador melhor, hoje, em terras portuguesas, do que António Lobo Antunes. Resolvi, não sei por quê, reler seu Livro de Crônicas (D. Quixote, 1998), que comprei na terra do escritor, em Lisboa. Talvez tenha me batido um banzo do Castelo de S. Jorge. Naqueles dias quentes de setembro, entrei na Fnac e me abasteci com uns cinco livros do escritor que ainda era desconhecido por aqui. Entre eles este volume de crônicas, muito diferente dos romances do autor. Em Lobo Antunes, sempre ranzinza, para minha surpresa sobre lirismo. 

A primeira vez que li o livro foi numa destas banheiras brancas, em mármore, num pequeno hotel em Lisboa. O dono do hotel se apresentara na estação de trem. Eu e uma amiga acabávamos de rodar por toda a Europa, falando somente inglês. Na verdade, a viagem para Portugal foi meio casual. Sobrou um tempinho e pegamos um trem (torturantes horas) para Lisboa. Porque estávamos há um mês falando somente inglês, não tivemos dúvida: em Portugal perguntamos sobre hotéis no idioma de Shakespeare. 

O homem cobrava razoavelmente barato por um quarto. Na verdade, em seu hotel havia somente um quarto com banheiro próprio. Viajamos na noite anterior com duas alemãs bonitinhas (fiquei apaixonado por uma durante as cerca de dez horas que separam Madri de Lisboa. Nunca imaginei que me fixaria em olhos azuis). Claro que eu esperava que elas fossem para o mesmo hotel que a gente. Preferiram um albergue, por uma diferença mínima de escudos. 

Isso, porém, nada tem a ver com o texto que pretendo escrever sob a epígrafe acima. O fato é que Lobo Antunes me abriu os olhos. Ou melhor, os ouvidos. Há muito tempo eu venho dizendo que preferia ficar em silêncio. Escrevi dois ou três textos sobre o assunto. Textos que, obviamente, vão direto para o lixo. 

A literatura tem destas coisas: nos grita na cara o óbvio. E nele nos embebedamos, se sabemos que é justamente o óbvio que precisamos ouvir. No caso, eu sempre fui uma pessoa atormentada com o fato de falar. E de escrever, claro. Sempre achei que isso fosse assim como uma danação. Eu falava (escrevia) e sofria. Porque, bem, escrevo com alguma fúria e humor que não agrada muito às minhas “vítimas”. 

Lobo Antunes foi médico durante a guerra entre Portugal e Angola, na década de 70. Sabe do que fala. Viu o sofrimento de perto. Gente miserável brigando uma briga que não lhes dizia respeito de fato. Depois, quando voltou para Lisboa, exerceu ainda a psiquiatria, ou seja, lidou com gente que por algum motivo perdeu o controle. O próprio António Lobo Antunes esteve em vias de perder o controle. E não dá para negar que sua literatura é um tanto quanto esquizofrênica, marcada por uma polifonia intensa. 

Ele sabe que a redenção para os tormentos da alma é a nostalgia e o silêncio. Ora, mas como expor a nostalgia, se o silêncio é um pressuposto? 

O erro, meu até agora, era considerar o silêncio como a não-expressão. Coisa simples: calar a boca. Quando o silêncio que me é necessário não é o meu próprio, e sim o dos outros. Por isso, ensurdeço à burrice, à ignorância, à demasiada seriedade. Sou feliz porque sou, doravante, mouco. 

Que sejam moucos também a mim os meus inimigos, desafetos ou simples opositores. Até porque um surdo geralmente fala mais alto que os seus ao redor.


por Paulo Polzonoff Jr.
02.07.2003

10 de agosto de 2014

Caroline V. Becker: «A personagem na crónica»



As crónicas de António Lobo Antunes são híbridas: por vezes, aproximam-se da construção de um espaço biográfico, por meio do qual autor-cronista anuncia pensamentos, discorre sobre diferentes assuntos e, até mesmo, narra sua vida do passado e do presente; em outros casos (…), a crónica aproxima-se (e apropria-se) da narratividade e da ficcionalidade, por meio dos mundos possíveis ficcionais e, principalmente, por meio da figuração de personagens.

Como identificar qual dessas realizações está diante de nossos olhos? Simplesmente por meio da leitura. O primeiro pacto estabelecido refere-se à voz – que voz é essa presente na crónica? Trata-se da voz de António Lobo Antunes (ainda que como uma persona) ou trata-se da voz de uma personagem, um signo – para lembramos as palavras de Cristina da Costa Vieira –, inserido em um contexto específico, em uma diegese? Nesse pacto, desvendado apenas após a leitura da crónica na íntegra, verificamos se na materialidade textual há uma personagem ou há uma figuração do autor empírico António Lobo Antunes.
Quero ressaltar a deriva ficcional de tais personagens, construídas em um mundo possível; um recurso distinto daquele utilizado, por exemplo, por João do Rio, um dos cronistas brasileiros mais consagrados. Segundo Jorge de Sá, o cronista criou personagens que eram ficcionalizações de pessoas do mundo cultural carioca: “Com isso ele [João do Rio] também prenunciou que a crónica e o conto acabariam em fronteiras muito próximas. Sua linha divisória – às vezes muito ténue – é a densidade. Enquanto o contista mergulha de ponta-cabeça na construção do personagem, do tempo, do espaço e da atmosfera que darão força ao fato “exemplar”, o cronista age de maneira mais solta, dando a impressão de que pretende apenas ficar na superfície de seus próprios comentários, sem ter sequer a preocupação de colocar-se na pele de um narrador, que é, principalmente, personagem ficcional (como acontece nos contos, novelas e romances). Assim, quem narra uma crónica é o seu autor mesmo, e tudo o que ele diz parece ter acontecido de fato, como se nós, leitores, estivéssemos diante de uma reportagem” (A crónica. São Paulo: Ática, 2008, p. 9, grifo meu).

As crónicas antunianas não seguem o perfil descrito acima. António Lobo Antunes cria narradores, quase sempre personagens, o que exige uma análise mais densa das vozes enunciativas. No corpus em análise, a impressão “tudo parece ter acontecido” existe, mas refere-se às crónicas analisadas no capítulo anterior. Quando há figuração de personagem, há, também, construção de narrador e de ficcionalidade.

Caroline V. Becker, António Lobo Antunes. Entre escritas de si e figurações de personagem. Porto Alegre: PUCRS, 2012, pp. 85-86 [Dissertação de mestrado]

citado do blog 

12 de outubro de 2008

Paulo Afonso Ramos: opinião sobre Livro de Crónicas


Mais um domingo com todos os que já perdi. Um sol abrasador que me impede de sair de casa. A idade teima em restringir-me os desejos e, nas limitações do meu corpo, rendo-me, sem que antes tenha lutado para modificar o que quer que seja.
 
Pego no livro – Livro de Crónicas – de António Lobo Antunes, e começo uma nova etapa, talvez para esquecer a minha realidade ou para deliciar-me nos prazeres de uma escrita atenta e tão real que me adormece o desejo.
 
Desfolho cada página com uma ansiedade crescente para que depressa possa chegar ao fim de cada crónica que escreve. Quero receber cada mensagem ali deixada e satisfazer a minha curiosidade em cada final. Deixo-me ir nas palavras do autor e até consigo ver as imagens que desenha com as palavras. Sinto as suas metáforas como se tivessem vida.
 
Não paro. Nem a surpresa cabe em mim, quando leio os passos dados pelo autor pelos mesmos sítios pisados por mim. Sinto-o omnipresente. Sinto que pertence à vida que vivi e que percorreu os mesmos lugares públicos que percorri e, na semelhança, até descubro que gostamos do mesmo filme que, na época, era cabeça de cartaz.
 
O meu domingo é mais sorridente assim. O sol já não importa se queima ou sorri e o meu corpo já não me impede de viajar aos lugares mais desejados pelo meu pensamento abstracto ou lúdico.
 
De tudo, sobra-me a vontade de escrever, de escrever como o senhor António, de ter a coragem de escrever muitas frases entre outros, algumas com a fragrância da verdade rejeitada e outras com a dureza dos tempos que já esquecemos. Mas não! A minha consciência pede-me calma, ilumina-me a realidade e diz-me que não será, de todo, possível escrever como o senhor António. Ele é, de facto, alguém que domina as palavras e que brinca com as personagens do seu eu. É, portanto, alguém de outra esfera superior. Resigno-me à minha realidade, mesmo antes de o tentar. Que importa afinal, se o prazer da sua escrita me seduz em cada leitura que faço? Que interessa, se cada crónica sua é um alimento que preciso? Não importa. Nada mesmo, porque basta-me que cada leitura tenha sido acompanhada por um soberbo prazer. Sobra-me ainda a vontade de escrever, a minha maneira, com as minhas palavras e os meus sentimentos retirados de mais um domingo igual a tantos outros que já perdi.
 
Um dia talvez conheça o senhor António e os meus olhos brilhem pedindo um aperto de mão e umas palmadinhas nas costas. Talvez seja o momento maior de um domingo qualquer por acontecer. Por ora, deixo-me extasiado entre os sonhos desejados e a realidade que aquele Livro de Crónicas me empresta. Resta-me agradecer-lhe e esperar por um domingo qualquer. Obrigado senhor António.


Paulo Afonso Ramos
08.09.2008

2 de janeiro de 2005

Carlos Gaio: opinião sobre Livro de Crónicas


Os heterónimos

Há livros que marcam de forma indelével o percurso de uma pessoa. E há livros que são sobre pessoas, as suas angústias, dúvidas, inquietações, alegrias, manias mas, principalmente sobre o seu quotidiano, o mais banal dia-a-dia é aqui transformado em obra prima.

E há livros que começaram por não o ser. Como é o caso. “ Livro de Crónicas” é o resultado de uma compilação da crónicas publicadas ao longo de uma boa meia dúzia de anos na revista dominical do jornal “O Público”.

Com um tom irónico e nostálgico, com fortes contornos confessionais e melancólicos, Lobo Antunes, consegue contar pedaços da sua vida, num registo de uma visualidade cinematográfica, sem nunca esquecer um bem delineado e inteligente sentido de humor.

São pedaços quotidianos contados na primeira pessoa, como folhas que vão caindo no chão. Mas, se em alguns casos sabemos que é o autor em viagens na sua memória, na maioria são personagens com vida própria que ganham ali voz presente.

O grande trunfo de Lobo Antunes nestas crónicas para além da simplicidade da sua escrita é, sem dúvida a profundidade como consegue descrever na primeira pessoa sentimentos, situações e personalidades de uma forma tão cativante. Com certeza que esta vertente de criar personagens com dilemas tão simples como profundos e complexos vem-lhe dos dias atrás do seu papel de psiquiatra.

Desde o homem que tinha uma aversão visceral a semáforos, até ao episódio do avô autor que era surdo; passando pelos domingos a fato de treino roxo e verde passados num centro comercial; sem nunca esquecer o memorável relato do amante que tem de vestir gabardina e chapéu à detective para se encontrar, num café à beira de um cemitério, com a sua amada, que por acaso é casada e tem duas pestezinhas.

Este livro é, sobretudo, um mapa de vivências, sobre a natureza humana, as relações interpessoais a memória, e os novos tipos sociais. Talvez seja o formato de pequenos testemunhos que confere a esta obra uma fluidez que a torna agradável e de fácil leitura, garanto-vos este é um livro para reincidir vezes sem conta.

carlosLgaio
03.03.2002

30 de outubro de 2004

Anabela Filipe: opinião sobre Livro de Crónicas


Sobre o Lobo Antunes já tudo foi dito. Ele escreve bem, é genial. É bom, tem feitio difícil. Fez isto e aquilo. Curou loucuras. Enlouqueceu. Escreveu isto, aquilo e mais aquilo. Devia, ou nem por isso, ter ganho o Nobel. Tem temas recorrentes. É original. Recentemente lançou “Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura” em que mais uma vez escreve no feminino e me fez acreditar que entre aquelas palavras eu sei que ele sabe aquilo que ele sabe que eu sei! Mas não foi a primeira vez que isto aconteceu, tudo começou há muitos anos com “A Ordem Natural das Coisas”... que alterou a ordem natural dos meus pensamentos e me deixou até hoje com muito mais dúvidas. Tudo isto porque ele é brilhante a observar. Exímio. Neste livro de pequenas crónicas ficamos abismados com o que consegue ver: reconhecemos estereótipos em “ Os meus Domingos”, vemos descritas com um humor refinado pequenas e grandes angústias, criticas subtis que atravessam todos os estratos sociais em Portugal nas últimas décadas. Muitas ficção, outras recordações, como “Retrato do Artista Enquanto Jovem” ou “As Pessoas Crescidas”... a diversidade aliada à brevidade arremessam sempre palavras com emoção e não escapa nem mesmo o leitor mais distraído.


Anabela Filipe
Abril de 2001

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...