22/06/2011

Simão Fonseca: opinião sobre Sôbolos Rios Que Vão


Sôbolos Rios que Vão é um poema de Luís Vaz de Camões e o último romance de António Lobo Antunes. Se na anterior obra, intitulada Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar?, António Lobo Antunes tentou criar uma obra “perfeita” (nas palavras do autor) ou “O livro”, este novo romance não entra por esse caminho e oferece ao leitor uma viagem autobiográfica.

A temática gira à volta da grave doença que atingiu o autor entre o final de Março e o início de Abril de 2007 e de tudo aquilo que ele sentiu, chorou, sonhou e reviveu enquanto esteve hospitalizado. Sem margem para grandes dúvidas, este mergulho no rio que lá foi é a obra mais intimista, íntima e humilde escrita até à data; nos anteriores romances, o recurso a aspectos pessoais e sociais que Lobo Antunes experienciou era bem patente: o amor pelo avô, a casa em Nelas, as tias salazaristas, o pai que o obrigou a ir estudar Medicina, a adolescência vivida em Benfica, Lisboa, o horror da guerra colonial onde ele foi forçosamente enviado como médico, a riqueza da sua família, o anti-fascismo e outros temas abordados são transportados para um patamar mais intimista – como referido atrás – numa espécie de confissão do silêncio, da humilhação, da saudade e do valor dado à vida. Lobo Antunes está consigo da primeira à última página: desabafa a doença nos intestinos (os “ouriços”, como ele se refere à doença) na primeira e na terceira pessoa, insistentes diálogos directos, mistura de narrativas e personagens – a que ele já nos habituou –, sentimento de náusea e tristeza contrastados com os húmidos olhos que “Antoninho” e “Antunes” choram no seu ombro.

Os livros de António Lobo Antunes não são destinados a todos os leitores – ou pelo menos, nem todos vão gostar ou compreendê-los – e este em especial deve ser lido apenas por aqueles que já conhecem as suas obras e que sabem um pouco da sua vida. Partilho com o leitor a felicidade e a desolação do meu fortuito encontro, após a cirurgia, com um lobo solitário e da forma como vê-lo com a audição parcialmente diminuída e o cansaço evidente nos seus movimentos e olhos me deixou com um amargo sorriso. Mas isso não interessa para nada: leia este diário.


por Simão Fonseca
11.01.2011

Luiz Guilherme de Beaurepaire: opinião sobre Exortação Aos Crocodilos


Exortação aos Crocodilos é um livro que não chega a ser uma viagem lisérgica, longe disso, mas é contada de tal forma que beira o inconsciente, no qual pequenos sentimentos, emoções, estados de espírito, loucuras humanas, ausência de amor e incertezas estão presentes nessas vozes, vindas da memória mais profunda de um mundo sufocante.

“O corpo era uma sombra do meu corpo movendo-se sem peso nos chinelos porque o corpo verdadeiro permanecia nesta cama ou em Coimbra há muitos anos, perto dos Salgueiros altos, a eu crescida observando a eu pequena ou a eu pequena observando a eu crescida, não sei...”

Nos primeiros capítulos o leitor anda num terreno minado por bombas e estilhaços. É preciso seguir adiante, ir montando um quebra cabeça compostos de imagens de infância, sabores, objetos de estimação, humilhações cotidianas, procurando reconhecer a voz dos personagens, o tempo de suas falas, o espaço a que se referem, o que acontecimentos relatam.

A narrativa é enigmática, são histórias vividas por homens sob o prisma feminino. São quatro mulheres que escrevem na primeira pessoa: Mimi, Fátima, Celina e Simone. Cada uma delas tem um passado e percurso próprio. O livro começa com as rememorações de Mimi que conta fatos vividos por seus homens, sua avó – uma galega que tinha tranças compridas penteada com aguardente – exerce uma forte influência sobre as demais. Essa avó galega, que possuía o segredo da fórmula da coca-cola, uma fórmula caseira em que misturava água gasosa, açúcar e café.

Mimi é uma surda que ouve o som das coisas, mas é incapaz de ouvir as pessoas. Ela encarna a pobreza da experiência enquanto processo de comunicação.

Fátima é afilhada do Bispo conspirador. Eram amantes. O seu destino estava traçada pelo pai. Celina representa a figura atormentada por ter sido casada ainda jovem com um homem mais velho, porém, rico. Vinga-se ao traí-lo com o seu sócio, que era nada mais, nada menos que o esposo da Mimi.

Simone é uma jovem gorda, complexada, acredita ter encontrado a saída existencial de sua vida carregada de humilhações, namorando o motorista de Mimi:
“Se meu namorado se enganar nos fios e a garagem for inteirinha pelo ar, por mim, palavra de honra, é-me indiferente.Estou cansada de dormir em colchão atrás dos automóveis acordar com dores de cabeça derivado aos vapores de gasolina(...) (...) viver rodeada de pneus motores e embreagem, em vez de quadros e móveis, do general e os outros entrarem sem incomodarem comigo, pedirem licença, me darem os bons dias sequer...”
O que essas mulheres têm em comum é que todas são casadas com pessoas desagradáveis, que abusam de serem violentos, torturadores de comunistas, envolvidos em atentados de direita, movidos por uma nostalgia do regime salazarista.

Exortação aos crocodilos não é um livro que nos leva ao maniqueísmo, ninguém é inocente nesta história toda, o general e o bispo mandam matar; militares e diplomatas articulam contrabandos de armas e operacionalizam fábricas de bombas; e as mulheres assistem a tudo com um silêncio cúmplice. No decorrer do romance, as vozes se cruzam, os tempos se misturam, as histórias se confundem. A morte invade as recordações como se misturasse numa espécie de aniquilamento final.

Nos monólogos interiores das quatro personagens é mostrado um instantâneo do inferno de cada consciência individual.

Exortação aos Crocodilos mistura polifonia, fratura, delírio, caos. Exortação aos Crocodilos é um “pit stop” no inferno da lembrança.


por Luiz Guilherme de Beaurepaire
17.01.2011

Simão Fonseca: opinião sobre Conhecimento do Inferno


Conhecimento do Inferno é a terceira obra do extenso catálogo de António Lobo Antunes a ser publicada e é também o livro que encerra uma trilogia iniciada com Memória de Elefante, seguida de Os Cus de Judas, terminada com este romance no curto espaço de um ano: 1979-1980.

A história acaba por se tornar estória e vice-versa, na medida em que – como é marca habitual do escritor – a narrativa se intercala com recordações e experiências vividas em Angola e no Hospital Miguel Bombarda, em Lisboa, com diálogos com a pequena Joana (a segunda filha de António Lobo Antunes, nascida em 1973, ano em que o autor regressa a Portugal) e personagens e acontecimentos fictícios. Aqui o narrador é ao mesmo tempo personagem principal e também o autor da obra: António Lobo Antunes é o nome da personagem principal, apresentando-se tanto na primeira, como na terceira pessoa.

António Lobo Antunes embarca numa viagem solitária de automóvel desde o Algarve até Lisboa, no espaço de um dia, recordando através de bastantes analepses os momentos duros que passou na Guerra Colonial de Angola como tenente médico do exército português e todas as atrocidades típicas de uma guerra sangrenta a que assistiu, desde amputações, partos e outros vários tipos de cirurgias que lhe deixaram claras marcas até hoje. A forma como a psiquiatria em Portugal e particularmente no Hospital Miguel Bombarda funcionava na época em que regressa de África, onde iniciou a carreira de psiquiatra, é o segundo ponto de foco da obra. As pobres condições de trabalho e o tratamento desumano que os pacientes internados e tratados no hospital viviam - para além de situações caricatas como a de um noivo que, para fugir ao casamento, se tenta internar – são alvo de jocosas críticas por parte do narrador/personagem/autor em cenas que, por vezes, atingem o surrealismo.

Este livro causou enorme polémica, na medida em que o autor recebeu ameaças por parte do hospital em questão e de muitos psiquiatras que se sentiram incomodados com a realidade descrita em Conhecimento do Inferno, tornando esta obra ainda mais apelativa e essencial. Quem já leu Memória de Elefante e Os Cus de Judas, vai compreendê-la melhor, embora não constituam requisito obrigatório para descer um pouco ao inferno da alma e solidão que António Lobo Antunes nos propõe.


Simão Fonseca
01.02.2011

18/06/2011

Kel: opinião sobre Quarto Livro de Crónicas


Sinopse

«Este quarto livro de crónicas de António Lobo Antunes é uma selecção de 79 crónicas publicadas na revista Visão. Nestes pequenos textos, António Lobo Antunes evoca lugares, personagens, retratos do quotidiano e memórias de infância.

Não morreste na cama mas morreste entre lençóis de metal horrivelmente amachucados na auto-estrada de Cascais para Lisboa e a gente ali, diante do teu caixão, tão tristes. Começa assim a quarta crónica deste livro e é um bom exemplo da intensidade dramática de alguns textos que sendo muito mais acessíveis ao público do que os seus romances não descuram uma forte componente literária. E com uma narrativa que nos surpreende sempre pela genialidade como junta as palavras para formar cada frase, António Lobo Antunes leva-nos da tristeza à alegria e arranca-nos sorrisos pela forma como se ri de si próprio e das pequenas fraquezas de cada um de nós e que "apanha" e retrata como ninguém».

Opinião

Nunca tinha lido nada deste grande escritor, mas com este livro fiquei rendida à sua escrita. Todo o prestígio que possui não é em vão, ou exagerado.

Eu sabia que este escritor tem uma escrita muito pesada e que é necessário um certo "amadurecimento" literário para conseguir digerir bem a leitura. Além disso, como escreve sobre as suas lembranças da guerra, e outros temas dramáticos, a leitura é por vezes depressiva. Por estes motivos achei melhor entrar no seu mundo primeiro pelas crónicas. E realmente não são como as suas restantes obras. É uma leitura bem descontraída, mas que consegue prender o leitor com todas as frases e palavras. Isso acontece devido à sua natureza ilustrativa – a pessoa lê e consegue "ver" aquilo que está descrito, fazendo com que o leitor fique agarrado ao livro, não conseguindo "desligar" da leitura.

Um livro fantástico, adorei!

É constituído por crónicas de 3 ou 4 páginas, que o leitor devora. Tem um humor muito próprio, e uma linha condutora muito sua. Houve algumas crónicas que me marcaram mais, tais como "Jaime", "O que são as mulheres", "Se eu fosse Deus parava o sol sobre Lisboa" e "Já escrevi isso amanhã".

Uma pequena referência à encadernação – é magnífica! Parece daquele papel de convites de casamento, mais grossa que o normal, e com brilho. As folhas usadas são também diferentes do normal, sendo de um papel mais cuidado. Uma encadernação "de luxo".

Com certeza irei ler outros livros dele.


por Kel
07.06.2011

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...