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4 de abril de 2015

Passatempo António Lobo Antunes na Web & Dom Quixote / LeYa - os premiados

No final de mês de Março, e com o apoio das Publicações D. Quixote, promovemos um passatempo junto dos leitores de António Lobo Antunes e seguidores da nossa página de facebook. Consistia em responder a três perguntas básicas sobre os livros escolhidos como prémio: Sôbolos Rios Que Vão, Não É Meia Noite Quem Quer e Caminho Como Uma Casa Em Chamas; e os três participantes que respondessem mais rapida e correctamente seriam apurados como vencedores, o primeiro premiado com os três livros, o segundo com os últimos dois títulos, e o terceiro recebendo o livro mais recente. Os participantes tinham ainda, como condição, serem seguidores da nossa página de facebook.

Encerrado o tempo de participação às 24H do passado dia 2, cabe-nos agora anunciar os 3 vencedores apurados de entre 33 participantes:

Tiago Pereira, de Braga
Beatriz Sousa, de Alverca do Ribatejo
Helena Bracieira, de Beja


Os premiados receberão os exemplares dos livros que lhes couberam, todos assinados por António Lobo Antunes, durante o mês de Abril, uma oferta da editora D. Quixote - LeYa. Para eles, os nossos parabéns e desejo de boa leitura. 

Resta-nos ainda divulgar as respostas correctas ao enunciado que propômos:

Questão 1: Qual (ou quais) dos títulos foi, primeiro, publicado como título de uma crónica?
a) Não É Meia Noite Quem Quer
b) Caminho Como Uma Casa Em Chamas
c) Sôbolos Rios Que Vão

A resposta correcta é a) Não É Meia Noite Quem Quer e b) Caminho Como Uma Casa Em Chamas. As crónicas foram publicadas na Visão mas também as temos reproduzidas na nossa página, a primeira e a segunda.

Questão 2: Qual (ou quais) dos títulos vem de um poema?
a) Sôbolos Rios Que Vão
b) Caminho Como Uma Casa Em Chamas
c) Não É Meia Noite Quem Quer

A resposta correcta é a) Sôbolos Rios Que Vão e c) Não É Meia Noite Quem Quer. O primeiro, verso de uma redondilha de Camões e o segundo, de um poema de René Char. Estas indicações aparecem referidas nos vários artigos neste blog sobre ambos os livros, bem como em entrevistas, etc.

Questão 3: Qual (ou quais) dos títulos pode ser considerado como autobiográfico?
a) Caminho Como Uma Casa em Chamas
b) Sôbolos Rios Que Vão
c) Não É Meia Noite Quem Quer

A resposta correcta é b) Sôbolos Rios Que Vão e c) Não É Meia Noite Quem Quer. O primeiro, porque trata do Senhor Antunes que recebe tratamento de um cancro e enquanto está no hospital revive a infância em Nelas (como o Antoninho); o segundo, porque foi o próprio escritor que o indicou (neste vídeo, por exemplo), embora as pistas autobiográficas no texto não sejam tão evidentes como no primeiro.

Todas as questões pediam respostas múltiplas, e o tema de cada uma podia ser facilmente pesquisado nos conteúdos do nosso acervo de opiniões, crítica, entrevistas, etc.

Agradecemos a todos os que participaram e também os que ajudaram a divulgar. Esperamos que continuem, pois com certeza teremos mais iniciativas deste género. Estejam por isso atentos!

Boa Páscoa!

José Alexandre Ramos

28 de março de 2015

PASSATEMPO ANTÓNIO LOBO ANTUNES NA WEB & DOM QUIXOTE / LEYA


Anunciamos que o projecto António Lobo Antunes na Web está a promover um passatempo para os leitores de António Lobo Antunes em parceria com a editora Publicações Dom Quixote / LeYa cujo objectivo é premiar os participantes com livros autografados pelo nosso escritor. Convidamos-vos a participar nesta iniciativa tendo em conta o seguinte regulamento:

1. Para participar, os interessados apenas têm que responder a 3 questões (ponto 2.), com a condição de serem seguidores da nossa página de facebook em www.facebook.com/alanaweb.

2. As três questões envolvem os livros do escritor Sôbolos Rios Que Vão, Não É Meia Noite Quem Quer e Caminho Como Uma Casa Em Chamas, cujo enunciado é o seguinte:

Questão 1: Qual (ou quais) dos títulos foi, primeiro, publicado como título de uma crónica?
a) Não É Meia Noite Quem Quer
b) Caminho Como Uma Casa Em Chamas
c) Sôbolos Rios Que Vão

Questão 2: Qual (ou quais) dos títulos vem de um poema?
a) Sôbolos Rios Que Vão
b) Caminho Como Uma Casa Em Chamas
c) Não É Meia Noite Quem Quer

Questão 3: Qual (ou quais) dos títulos pode ser considerado como autobiográfico?
a) Caminho Como Uma Casa em Chamas
b) Sôbolos Rios Que Vão
c) Não É Meia Noite Quem Quer

3. Os participantes vencedores serão os três primeiros (seguidores da nossa página de facebook) a responder correctamente às três questões, por esta ordem:

1º prémio para o 1º participante que mais rapidamente responda correctamente às três questões, recebendo:
- 1 exemplar de Caminho Como Uma Casa Em Chamas
- 1 exemplar de Não É Meia Noite Quem Quer
- 1 exemplar de Sôbolos Rios Que Vão

2º prémio para o participante que em 2º lugar responda correctamente às três questões, recebendo:
- 1 exemplar de Caminho Como Uma Casa Em Chamas
- 1 exemplar de Não É Meia Noite Quem Quer

3º prémio para o participante que em 3º lugar responda correctamente às três questões, recebendo:
- 1 exemplar de Caminho Como Uma Casa Em Chamas

Todos os livros serão autografados por António Lobo Antunes. Os títulos são da sua última edição por Publicações Dom Quixote, Lisboa, em português.

4. As respostas devem ser enviadas para o e-mail passatemposalanaweb@gmail.com, entre as 00H00 do dia 29 de Março (domingo) e as 24H00 do dia 2 de Abril (quinta-feira). Os participantes devem, além da resposta objectiva às 3 questões do enunciado, informar os seus dados de contacto:
- primeiro e último nome
- endereço do seu perfil de facebook
- telefone de contacto
- endereço postal onde pretendem receber os livros, caso sejam premiados

(nenhum destes dados será utilizado para qualquer outro fim senão para o apuramento dos resultados, anúncio dos vencedores e expedição dos prémios)

5. As primeiras três participações com as respostas correctas e cujos participantes sejam seguidores da nossa página de facebook serão os vencedores, pela ordem referida no ponto 3.

6. Os 3 vencedores do passatempo serão notificados via e-email durante o dia 4 de Abril (sábado), sendo essa informação de igual modo passada à editora que é quem se encarregará de enviar os livros autografados aos três premiados.

7. A editora Publicações Dom Quixote / LeYa fica encarregue de enviar os livros autografados para os participantes premiados durante o mês de Abril, via CTT ou outro serviço que lhe seja conveniente.

8. Os prémios expedidos que sejam devolvidos por endereço incorrecto ou insuficiente serão anulados e não podem ser reclamados, nem os vencedeores serão substituídos.

9. O projecto António Lobo Antunes na Web e a editora Dom Quixote / LeYa não se responsabilizam pelo extravio dos livros durante a sua expedição.

10. Qualquer participação que não reúna as condições explícitas nos pontos 1., 4. e 5. deste regulamento não será considerada.

Aguardamos as vossas participações! Boa sorte!

Com os nossos cumprimentos,

José Alexandre Ramos – António Lobo Antunes na Web
Maria da Piedade Ferreira – LeYa / Publicações Dom Quixote

[texto editado em 28.03.2015 com as condições finais; outra versão anterior deste regulamento é nula]

24 de agosto de 2014

Passatempo no facebook: José Alexandre Ramos oferece um livro de A.L.A. pelos dez anos do projecto!


Olá!

Para comemorar a efeméride de estar há dez anos com o trabalho voluntário de afirmação de António Lobo Antunes na web, eu próprio e sem qualquer apoio externo, decidi promover um mini-passatempo no intuito de oferecer um livro do nosso escritor a quem, simplesmente, me escrever umas linhas sobre a importância deste projecto na web. O concorrente que melhor me convencer com os seus argumentos será premiado com um dos livros de António Lobo Antunes, à sua escolha!

Os interessados apenas têm que reunir, como disse, os seus melhores argumentos sobre a importância da existência deste projecto na web e enviar-me o seu texto, via mensagem privada da página do facebook. Não serão aceites participações via e-mail e os participantes devem ser seguidores da nossa página desta rede social. É, portanto, um passatempo exclusivo para utlizadores de facebook e seguidores da nossa página.

O passatempo decorre a partir de agora até às 23H59 do dia 14 de Setembro. Após cuidada análise dos textos propostos, decidirei, por exclusiva responsabilidade minha, quem premiar. O vencedor será anunciado primeiro em privado, que é quando me dirá qual o livro que quer receber e combinar contactos para a melhor forma de entrega, sendo posteriormente anunciado no nosso espaço com o texto que lhe valeu o prémio.

Este prémio será, como referi, um livro de António Lobo Antunes, que o participante escolherá, de entre os 29 títulos da sua actual bibliografia oficial (em edição ne varietur, publicado pela Dom Quixote, em português). Não estão incluídos como prémio livros sobre o escritor ou que não pertençam à obra completa editada pela Dom Quixote, nem edições especiais (ver na imagem as capas possíveis dos títulos que podem constituir o prémio, ou consultem aqui - http://alanaweb.esy.es/Bibliografia/).

Os textos não premiados poderão ser usados, identificando o seu autor, em artigos para o blog e/ou facebook, pelo que é imprescindível que cada participante deixe claro que autoriza a sua utilização, no final do texto, seja vencedor ou não.

Aguardo então pelas vossas participações. 

Um abraço,
José Alexandre Ramos

2 de outubro de 2012

Os três textos vencedores do passatempo Não É Meia Noite Quem Quer

Temos o prazer de anunciar os três textos vencedores do passatempo que decorreu em Setembro a propósito da publicação do novo livro de António Lobo Antunes, Não É Meia Noite Quem Quer

Os autores dos textos já nos confirmaram a sua participação por e-mail, dentro das 24 horas previstas. Cada uma receberá - oferta da LeYa - D. Quixote - um exemplar do novo livro a publicar dia 8 de Outubro.

Aos três os nossos parabéns.

O Meia-Noite
texto da autoria de Paulo Leote e Brito
Albufeira


As calças presas por um baraço que lhe rodeava a cintura, umas sandálias de couro a proteger os pés nus. Na cabeça um chapéu de palha com uma fita preta a dizer Algarve, ao pescoço um babete com uma bolsa que nos dias bons abarrotava de beatas, por cima de uma t’shirt amarela onde nas costas se lia "Meia Maratona da Esperança 2004". Na frente, o símbolo da junta de freguesia do Cardoçal. 

- “Meia-Noite” anda tomar os comprimidos! 

- À meia-noite! 

respondia invariavelmente àquela ou a qualquer outra pergunta que lhe fizessem. 

- À meia-noite não pode ser, já estás a dormir! 

às vezes estava a dormir, quando tinha um isqueiro não estava, escrevia até o gás se acabar, enchia páginas e páginas de frases muito alinhadas numa caligrafia infantil 

- Quem é meia-noite não quer ser visto noutra hora. 

respondia escapando-se para somente se deixar ver nas horas das refeições. 

Um senhor tão calado quanto ele, vinha todas as terças-feiras falar com o Meia-Noite, envergava uma bata branca, no bolso um estetoscópio inútil, 

Inútil, porque aquelas cabeças nunca obedeciam a ordens de estetoscópios. 

duas canetas e alguns lápis dos quais o Meia Noite raramente desviava o olhar. Ficavam ali os dois silenciosos durante cinquenta minutos, um dia o senhor da bata branca deu-lhe um caderno, uma borracha e uma dúzia de viarcos nº 2. 

- Podes escrever o que te apetecer entre as meias-noites. 

Continuou a apanhar beatas do chão e a guardá-las no bolso do babete, depois sentava-se a escrever onde ninguém o visse. 

O sujeito da bata já sabia quando faltavam folhas ou lápis ao Meia-Noite, ele sentava-se na cadeira em frente da secretária e fixava o olhar no bolso onde se acomodavam as canetas os lápis e o estetoscópio inútil. Nos outros dias olhava para o chão, às vezes olhava para a porta, noutras tentava contar os cinquenta minutos no relógio do senhor da bata branca. 

Numa terça-feira, o senhor da bata branca interrompeu o silêncio e perguntou-lhe 

- Porque é que lhe batias, “Meia-Noite”? 

pela primeira vez não respondeu de pronto, 

(- À meia-noite!) 

deixou passar uns segundos e devolveu outra pergunta 

- Há quanto tempo ela não deixava cair uma lágrima?! 

e acrescentou de imediato 

-Quem é meia-noite não quer ser visto noutra hora!



A vingança das naus
texto da autoria de Anabela Pereira
Vila Nova de Gaia

As naus grivam desfraldadas sôbolos rios que vão
e o vento burila gelhas nos nervos da meia-noite.

Para onde quer que olhe, ainda é cedo. Muito cedo
para dizer boa tarde às coisas aqui em baixo e montar
que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar. Que
besta do paraíso viveu a morte de Carlos Gardel
em troca da vida de quem nos mata. Quem desceu na história
do hidroavião para o conhecimento do inferno em que se tornou
o esplendor de Portugal: triste arquipélago da insónia transportando
sob um braço amputado de glória
o eterno manual dos inquisidores.

Desci à sua memória de elefante e nos seus cus de judas
esquadrinhei, entre a ordem natural das coisas, o fado alexandrino
que fala da saudade. Não tenho comigo o tempo do homem tratado
das paixões da alma, da explicação dos pássaros,
da exortação aos crocodilos. Não tenho quem chegue,
não tenho quem parta. O seu nome é Legião e perdêmo-la
quando desenfreamos até ao alto dos danados. E procurámo-la,
perdidos. Ontem não a vimos em Babilónia, e hoje
mitigamos, com os dedos no rosto, a comichão das lágrimas.

Que farei amanhã quando tudo arde e eu não entrar tão depressa
nessa noite escura? Nessa lama cega,
nesse odor de grito,
onde eu hei-de amar uma pedra
em que me sentei a escrever d'este viver
aqui, neste papel descripto.



António
texto da autoria de Alexandra Malheiro
Porto

Meia-noite e eu a escrever sobre o António. Como se eu conhecesse o António, não conheço, ou como se escrever sobre o António – quem? – servisse de alguma coisa, não serve. 

O António, o dos livros, o da mão que escreve sozinha, não o que escreve mas o que deixa a mão escrever, o que deixa que a mão escreva. 

Não serve de nada tentar escrever sobre quem escreve, é como pensar sobre o pensamento ou tentar ser objectivo sobre coisas abstractas. 

Ainda assim, teimosa, eis-me aqui a escrever sobre o António. 

- É doida você? 

Uma pessoa não escreve só porque quer – que o diga o António – a gente pega na caneta e ela vai, ganha vida e vai. 

- É doida você? 

Eu podia muito bem estar a escrever sobre sombras ou aluviões e não o António e o que ele escreve. Que me interessa lá o António, a mim que nunca estive em África, não lhe conheci o pai a fumar cachimbo nos corredores do hospital, nem o vi a ele pelos corredores do hospital, a perder o olho torto no pé pendente do menino morto – diz que é para ele que escreve. 

- É doida você? 

Pode lá alguém escrever para um pé e de um menino já morto, disparate. Não me interesso por nada disso, não me diz respeito. Mas se nada disso me interessa porque me incomoda e me revolve por dentro o António, não o António mas o que ele escreve, ou talvez nem o António mas a mão que escreve ou a mão que o António deixa que escreva por ele. 

Um dia destes deixo de escrever sobre o António e escrevo ao António. Escrevo-lhe “Doutor, deixe-me ser sua doente!” 

- É doida você?

*****

28 de setembro de 2012

Passatempo Não é meia-noite quem quer: os textos dos participantes

Conforme anunciado, e após o encerramento das participações, publicamos os textos cujos autores estão habilitados a um exemplar de Não É Meia Noite Quem Quer. Serão escolhidos três vencedores do prémio, que oportunamente divulgaremos. Seguem-se os textos, onde era solicitado que de forma criativa se dissertasse sobre um aspecto de António Lobo Antunes e a utilização aleatória das palavras não, é, meia-noite, quem e quer. Foram considerados válidos 16 textos num total de 20 participações.


As sombras de mim
Joana Martins, Póvoa de Varzim

Não, não é meia-noite, as tuas mãos dançam melhor sob a luz amarelada e ténue das velas antigas. 

Conheci o Inferno, vi o cu ao Judas e os pássaros loucos a esvoaçar no terreiro em bando, qual cenário do apocalipse, vi tudo fora do seu lugar. Quem e quer  de mim se foi, me levou inerte ao óbolo.

Não foi Caronte que duvidou, não foi o rio que não me levou, foste tu que permitiste que eu fosse ao fundo de mim, saltei para dentro de mim e engoli-me em gigante numa só golfada. Revisitei-me nos lugares em que habitámos, nas esquinas em que fumei um cigarro lânguido e sereno, nos mergulhos em mar revolto, nas ondas que me esbofetearam, nos momentos em que a brisa me cumprimentava o rosto e o cheiro a Verão se despedia melancolicamente.


Passeando pelos cantos da casa
Pedro Ribeiro Soares, Praia da Vitória

A despensa claustrofóbica trancou-se sozinha. Deambularam berros embriagados com aguardentes do passado. Enroscou-se em seus próprios braços e sentou o cu no chão frio que a empregada lavara de tarde. Balas e bombas rebentaram dos azulejos e no escritório amarrou-se um laço em volta do pescoço. Era doutor e os campos viviam cinzentos, com brancos e pretos, e as granadas substituíram os corações dos miúdos que ficaram esventrados ao Sol. Eram músculos que saltavam bem alto. Explodiam num tempo de valsa intermitente. Pum! E as luzes apagaram-se sozinhas. As paredes encolheram lentamente e o demónio por pouco não lhe fulminou os intestinos. Já se tinham absorvido tantas merdas e o relógio ainda não tinha batido na meia-noite. Quem é? Gritou ao eco da porta. Quem é? Não é ninguém, disse-lhe a mãe, baixinho. Somos só nós.

A despensa claustrofóbica trancou-se sozinha e a chave estava no sítio da granada. Quer queiramos, quer não, é sempre tempo de abrir a porta.


ainda o café
Larissa Marques, Brasília


acusa-me, amor! sim, admito, sou leviana, pueril e me prendo ao que seja leve e despretensioso. continuo cativando meus vícios por livros de António Lobo Antunes, por dormir depois da meia-noite e perambular pela casa enquanto todos dormem. posso me dar ao luxo de não ser convencional e me fazer de imbecil a maior parte do tempo. se uma xícara de chá esfria tão rápido e alguns depois de frios não conservam o sabor e a fragrância, posso ser assim. não pedirei desculpas por meus erros, ou pelo que me marca única, somos assim vãos. nada me vale mais que viver, o que me move é lembrar depois. serei uma velha chata e enquanto isso não acontece, tomo o café quente e amargo que me serviu a pouco. sua essência ainda permanecerá, pelo menos por algum tempo. e ser essência não é para quem quer.


Meia-noite (ser)
Carlos Sena, Parede

Só não quer ser meia-noite
Quem dia inteiro é.
Eu só quero, dia e noite,
Que o ALA não desista
De ser o escritor que é.

Quem quer meia-noite ser?
Eu não quero nada a meio
Quero a noite por inteiro
Com o dia todo de permeio
Para o ALA poder ler.

Não é meia-noite quem quer
Nem é meio-dia quem pode
Só o  tempo quer e pode
Mas fatiga-se 24 horas
Para dia inteiro ser.


O Meia-Noite
Paulo Leote e Brito, Albufeira

As calças presas por um baraço que lhe rodeava a cintura, umas sandálias de couro a proteger os pés nus. Na cabeça um chapéu de palha com uma fita preta a dizer Algarve, ao pescoço um babete com uma bolsa que nos dias bons abarrotava de beatas, por cima de uma t’shirt amarela onde nas costas se lia "Meia Maratona da Esperança 2004". Na frente, o símbolo da junta de freguesia do Cardoçal.

-“Meia-Noite” anda tomar os comprimidos!

-À meia-noite!
respondia invariavelmente àquela ou a qualquer outra pergunta que lhe fizessem.

À meia-noite não pode ser, já estás a dormir!
às vezes estava a dormir, quando tinha um isqueiro não estava, escrevia até o gás se acabar, enchia páginas e páginas de frases muito alinhadas numa caligrafia infantil  

-Quem é meia-noite não quer ser visto noutra hora.
respondia escapando-se para somente se deixar ver nas horas das refeições.

Um senhor tão calado quanto ele, vinha todas as terças-feiras falar com o Meia-Noite, envergava uma bata branca, no bolso um estetoscópio inútil,

Inútil, porque aquelas cabeças nunca obedeciam a ordens de estetoscópios.

duas canetas e alguns lápis dos quais o Meia Noite raramente desviava o olhar. Ficavam ali os dois silenciosos durante cinquenta minutos, um dia o senhor da bata branca deu-lhe um caderno, uma borracha e uma dúzia de viarcos nº2.

-Podes escrever o que te apetecer entre as meias-noites.

Continuou a apanhar beatas do chão e a guardá-las no bolso do babete, depois sentava-se a escrever onde ninguém o visse.

O sujeito da bata já sabia quando faltavam folhas ou lápis ao Meia-Noite, ele sentava-se na cadeira em frente da secretária e fixava o olhar no bolso onde se acomodavam as canetas os lápis e o estetoscópio inútil. Nos outros dias olhava para o chão, às vezes olhava para a porta, noutras tentava contar os cinquenta minutos no relógio do senhor da bata branca.

Numa terça-feira, o senhor da bata branca interrompeu o silêncio e perguntou-lhe

-Porque é que lhe batias, “Meia-Noite”?

pela primeira vez não respondeu de pronto,

(-À meia-noite!)

deixou passar uns segundos e devolveu outra pergunta

-Há quanto tempo ela não deixava cair uma lágrima?!

e acrescentou de imediato

-Quem é meia-noite não quer ser visto noutra hora!


O maior escritor do meu bairro
Miguel Marques, Lisboa

É meia-noite neste bairro triste, plantando de candeeiros, onde a luzes são tristes, as lâmpadas são tristes, os candeeiros são tristes. Onde o próprio escuro se põe triste. Até a água, caída das varandas e das caixas dos ares-condicionados cá para baixo, para a rua, dá a impressão de lágrimas vertidas pelas pálpebras dos algerozes, copiosos de tristeza. Abeiro-me da varanda, a minha varanda triste e chorosa, no fito de alumiar a noite de isqueiros e cigarros, e detenho-me nas esquinas dos travestis e das prostitutas que enfeitam a noite de uma tristeza diferente, feita de rímel e bofetadas. Aqui há dias, melhor, há noites atrás, ouvi uma, melhor, ouvi um, gritar alhos e bugalhos na direcção de um carro, um carro enorme, com umas colunas de som maiores do que ele, estacionado defronte da esplanada no café dos brasileiros. A mulher, creio que a mulher, no meio da estrada, mandava vir com alguém dentro do carro, alguém que não se via, enquanto gritava e chorava igual a uma marquise cujas goteiras inundassem em charco as pedras do passeio.

- Veadão, pô - disse ela. Julgo que ela. – Cê vai se ferrá, vai vê só. Vou contá pra todo o mundo. Esse negócio vai virá gerau, podicrê – continuou, e a panela de escape chispou uma ira de alta cilindrada.

O condutor, creio que o condutor, do carro limitou-se a aumentar o volume no auto-rádio, e uma música semelhante a um raide aéreo entristeceu de decibéis o pouco que restava do bairro. O bairro. O nosso bairro. O teu bairro. Moras no mesmo bairro que eu. Enquanto aqui morar, por tua causa, nunca poderei almejar sequer tornar-me no maior escritor do meu bairro. Enquanto aqui morar, serás sempre tu o maior escritor do meu bairro. Do nosso bairro. Quem quer que aqui venha, ignora que haja tamanha tristeza e solidão para lá dos estores que sobem e descem como olhos ensonados, antes de irem dormir. Eu não vou dormir. Não tenho sono. Nunca tenho sono. O relógio da sala manda-me ir deitar. Já passa da uma, diz ele, e depois vem um cuco cá fora, saído de uma porta secreta, uma porta que abre para a barriga do relógio e me faz sempre pensar em barrigas que dão horas. Nunca tenho sono. Não posso ter sono. Não me apetece ter sono só para poder escrever. Escrever melhor do que tu. É uma tristeza pensar nestes termos, bem sei, mas, mais uma menos uma, neste bairro, ninguém nota. A esta hora não estás a escrever, penso para mim. Aproveitas o dia e eu a noite, talvez por isso a tua escrita ilumine as ruas que existem em nós e os meus gatafunhos se limitem a busca-pólos procurando uma faísca de nada no escuro. E é tão difícil, iluminar o escuro. Pela janela, os berros dos polícias, das prostitutas, dos travestis, o relógio de cuco, o dono do café dos brasileiros.

- Vai embora logo, cara, deixa esse troço pra lá – diz alguém. Ia jurar que alguém.

- Ó pá, é preciso ir aí abaixo partir-te a tromba? – um vizinho. Talvez um vizinho.

- Vai dormi, pô. Larga esse treco, cê não vai ganhá nada, memo. Uma e meia daqui nada, mermão – o cuco. Sim, o cuco.

São duas horas. O cuco espreita, como que nascido das entranhas dos ponteiros das horas e dos minutos. Deixo-o passarinhar à vontade. Faz-me companhia, no fundo. A seguir, sem ele ver, escancaro a porta do relógio, de caneta na mão, e entro à pergunta de uma tomada eléctrica que me faça um bocadinho de luz.


António
Alexandra Malheiro, Porto

Meia-noite e eu a escrever sobre o António. Como se eu conhecesse o António, não conheço, ou como se escrever sobre o António – quem? – servisse de alguma coisa, não serve.
O António, o dos livros, o da mão que escreve sozinha, não o que escreve mas o que deixa a mão escrever, o que deixa que a mão escreva.
Não serve de nada tentar escrever sobre quem escreve, é como pensar sobre o pensamento ou tentar ser objectivo sobre coisas abstractas. 
Ainda assim, teimosa, eis-me aqui a escrever sobre o António.
- É doida você?
Uma pessoa não escreve só porque quer – que o diga o António – a gente pega na caneta e ela vai, ganha vida e vai.
- É doida você?
Eu podia muito bem estar a escrever sobre sombras ou aluviões e não o António e o que ele escreve. Que me interessa lá o António, a mim que nunca estive em África, não lhe conheci o pai a fumar cachimbo nos corredores do hospital, nem o vi a ele pelos corredores do hospital, a perder o olho torto no pé pendente do menino morto – diz que é para ele que escreve.
- É doida você?
Pode lá alguém escrever para um pé e de um menino já morto, disparate. Não me interesso por nada disso, não me diz respeito. Mas se nada disso me interessa porque me incomoda e me revolve por dentro o António, não o António mas o que ele escreve, ou talvez nem o António mas a mão que escreve ou a mão que o António deixa que escreva por ele.
Um dia destes deixo de escrever sobre o António e escrevo ao António. Escrevo-lhe “Doutor, deixe-me ser sua doente!”
- É doida você?


Da importância das toalhas brancas
Rui Sousa, Lisboa


Acordo. Tenho saudades dos dias em que te encontrava de manhã ao meu lado, antes de encarar o dia que me aguardava na rigidez das horas. Quem me roubou estes dias?

É desta forma que acordo após ter adormecido muito depois da meia-noite. 

Acordo. Não estás ao meu lado. Sinto o odor dos sonhos transpirados durante a noite, das ânsias sentidas antes de adormecer, enquanto me esforçava por “entrar” no último livro do António Lobo Antunes, publicitado como a “melhor obra do escritor até à data” (pergunto-me se algum autor quer ler isto sobre algum livro seu…). Sinto o cheiro dos lençóis de algodão aquecidos pela minha solidão. Sinto o hálito dos livros que também dormiram cansados de esperar por uma segunda leitura. 

Soergo-me à custa dos braços e não da vontade. Penso que podes surgir a qualquer momento após o banho matinal, com a habitual toalha branca enrolada. Sempre branca. Sempre confortável. E agora tão improvável.
Tão perto e tão longe
Maria Graça Gomes, Almada

O Verão entrou pelo Outono dentro sem pedir licença. As esplanadas em Lisboa eram lugares apetecíveis. Parei na primeira que encontrei, ali para os lados do Conde Redondo, no caminho que me iria levar ao encontro com a minha amiga. 

Sentei-me e pedi um café. Na mesa ao lado estavam três pessoas a almoçar:

– Dois homens e uma mulher. Um dos homens comia, ao mesmo tempo que ia alimentando a conversa do outro, que só falava e fumava, falava e fumava. A mulher acompanhava-o no fumo e dava-lhe toda a atenção do mundo. Lembro-me que havia uma sobremesa em cima da mesa, intacta, esquecida, à espera que a ilustre figura se dignasse saboreá-la.

Sim, ilustre figura! António Lobo Antunes em carne e osso, ali, tão perto de mim e ao mesmo tempo tão longe… Não sei se consegui camuflar a emoção que senti. A vontade de lhe falar era imensa… Era capaz de ficar ali com ele a ouvi-lo até à meia-noite … Mas a timidez… ganhou.

Lá diz o povo:

– “Quem quer vai, quem não quer manda”. Eu nem uma coisa nem outra. Fiquei paralisada. Consegui apenas, e não directamente, pedir lume – dava-me lume por favor?

Não fumei o cigarro até ao fim, faltou-me a descontracção necessária que o acto exige. Saí dali. Pelo caminho fui pensando em todas as palavras que lhe poderia ter dito e não tive coragem. 

– Como está, Sr. António Lobo Antunes! Sou apaixonada por si, pelo seu imenso talento, pela sua grandeza. O Senhor é maior do que o país que o viu nascer! É a luz que nos faz acreditar, que ainda é possível! Obrigado por ser Português, sinto um grande orgulho. 

Cuide de si.


Desistidos
Bruno Assunção, Recife

Estávamos a esperar o carro atravessados no interstício da meia-noite. Tiros e gritos. Guerra. Longe, mas como nos comoviam aqueles indícios de morte através da medula rumo aonde começa, talvez, a alma. “Faz frio” disse um de nós quando todos queríamos dizer “que porra estarmos metidos aqui, sem socorro como um bando de vira-latas a esperar afago de uma mão que não se delineou”. Adivinhávamos a solidão que a madrugada injecta nas veias quando o silêncio tem pulso na pele com a esperança de que a espera fosse um simples exercício de tensão. Podíamos estar em um livro, personagens de uma narrativa para a qual não nos tinham convidado. Talvez Lobo Antunes nos experimentasse com sua mão literária a criar vozes para concretizar o indiscernível. “Aonde é que nos levarão?” “Qualquer lugar. Quer ficar aqui?” O uivo de calafrios do vento a vazar por frestas de muros como uma sentença. Alguém devia ter desistido de nós, deixando-nos no cerne da noite em Lisboa, talvez Luanda. A guerra, uma criatura que nos farejava. “Onde estamos?”. A pergunta não podia ser essa. Ela não resumia o pavor de entranhas que nos corroía  Vozes abandonadas em suas existências nocturnas.

“Quem nos abandona neste deserto de desassossegos?”


Não me ignores madrugada
José Luís Atilano, Braga

Já não encontro o cheiro à chuva no relógio de gerações que o ontem de manhã arrastou numa guitazinha presa aos olhos, juntamente consigo. Desde que o senhor ou o doutor
(ou outra coisa desconhecida…
- Quem?)
abandonou o Miguel Bombarda, que me é difícil
(ou é-me impossível e isto não são palavras)
escrever sobre a cor da chuva que escoa em Agosto as correntes do estábulo
(às vezes lembro-me, num escurecer de lustre que a meia-noite banha…ora que estupidez, não me lembro coisa nenhuma, tenho antes a clara impressão de ver o consultório com um António lá dentro, preso nos ontens de um Antunes na parede branca ou do abrir da porta que dá mundos ao corredor dos passos, e o corredor ou os passos vazios de tudo, com um lobo a carpir
- Ele quer exortar fantasmas!)
- Tocaram à campainha
(nós que nem campainha…sem electricidade há meses)
A porta aberta ao limiar da charneira de si mesma e uma surdez de nada num cheiro a vinagre, saudade e água, com a minha avó lá fora a imolar galinhas num escambro de fim de tarde.


F(ALA)RIO
Georgina Noronha, Paço de Arcos

- Não entres tão depressa nessa noite escura, só encontrarás o Arquipélago da Insónia, onde navegam as naus que vão para os cus de Judas.
- O meu nome é Legião, e com o conhecimento do Inferno que adquiri, quem é para me dar conselhos?
- Foi porque ontem não te vi em Babilónia e porque, hoje e sempre, eu hei-de amar uma pedra, quer sejas tu, ou outra qualquer, que aqui estou.
- Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?
- Segundo a ordem natural das coisas, serão cavalos marinhos, mas  à meia-noite, de uma noite escura é certo e sabido, que não fazem sombra no mar.
- Que farei quando tudo arde?
- Já vi que engoliste o Manual dos Inquisidores, mas eu vou dar-te a explicação dos pássaros: voa, qual Fénix renascida, e depois diz bom dia ou boa tarde às coisas aqui em baixo, nunca boa noite.
- Isso até parece o Fado Alexandrino “disseste bom dia e era noite lá fora”, conheces? Do meu amigo Vitorino?
- Claro que sim, sei a letra toda, tenho uma memória de elefante, sabes? Do esplendor de Portugal, à morte de Carlos Gardel, passando pelo que comi hoje, tudo está em memória.
- Se fosse a si, escrevia livros … sermões. Sei de um que escreveu um sermão aos peixes, chamava-se António, parece que era Santo.
- E eu escrevo livros, também me chamo António, não sou santo, por enquanto, e escrevi  uma exortação aos crocodilos, voilà.
- Eu também escrevi, fui escriba … escrivão … de Autos, escrevi o Auto dos Danados, e fui acusado de perdas e danos e demitido. Houve  choro e ranger de dentes. 
À boa maneira lusa, tratei de criar logo uma comissão, a comissão das lágrimas. De nada serviu e, agora, aqui estou, quer dizer, sou, um verdadeiro tratado, um Tratado das paixões da alma.


A vingança da naus
Anabela Pereira, Vila Nova de Gaia

As naus grivam desfraldadas sôbolos rios que vão 
e o vento burila gelhas nos nervos da meia-noite. 

Para onde quer que olhe, ainda é cedo. Muito cedo 
para dizer boa tarde às coisas aqui em baixo e montar
que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar. Que 
besta do paraíso viveu a morte de Carlos Gardel
em troca da vida  de quem nos mata. Quem desceu na história 
do hidroavião para o conhecimento do inferno em que se tornou 
o esplendor de Portugal: triste arquipélago da insónia transportando 
sob um braço amputado de glória
o eterno manual dos inquisidores.

Desci à sua memória de elefante e nos seus cus de judas 
esquadrinhei, entre a ordem natural das coisas, o fado alexandrino 
que fala da saudade. Não tenho comigo o tempo do homem tratado 
das paixões da alma, da explicação dos pássaros, 
da exortação aos crocodilos. Não tenho quem chegue, 
não tenho quem parta. O seu nome é Legião e perdêmo-la
quando desenfreamos até ao alto dos danados. E procurámo-la, 
perdidos. Ontem não a vimos em Babilónia, e hoje 
mitigamos, com os dedos no rosto, a comichão das lágrimas. 

Que farei amanhã quando tudo arde e eu não entrar tão depressa 
nessa noite escura? Nessa lama cega, 
nesse odor de grito,
onde eu hei-de amar uma pedra 
em que me sentei a escrever d`este viver 
aqui,
neste papel descripto.



O António do Benfica
Simão Fonseca, Vila Nova de Famalicão


É um mimo ver o António a patinar pelas folhas de dezenas de romances, puxando do stick, não sem primeiro medir bem a intensidade e o efeito para atacar o próximo parágrafo e aí, sim, humedece a língua, coloca-la de fora, e a Bic desata a deslizar pelo ringue de páginas. Quer se queira, quer não, o outrora miúdo de olhos azuis e cabelo louro é o grande capitão das letras e o mais que digno escriba dos camões. Finta um, finta outro, segura a bola, pára, arranca rumo aos escaparates e golo pela certa: meia-noite e fazem fila para abraçarem o novo tomo.

Redigiu já quase trinta equipas, recebeu inúmeros galardões pelas suas vitórias e é candidato à Bola de Ouro Médicis. Enfim, o crónico candidato para vencer o Campeonato de Estocolmo. Quem é, quem? É o António do Benfica, pois claro.


Malmequer
Gracinda Menezes, Algés

António Lobo Antunes, além de ser fisicamente parecido com o meu primeiro e último (nem sempre sabemos o que é “o último“) amor, também me faz reviver, através de alguns dos seus livros, sentimentos, emoções, alegrias e tristezas, personagens de quem tenho saudades. Seria o meu amante perfeito, não fosse eu uma senhora de meia-idade e ele um senhor da minha ficção. “Eu hei-de amar uma pedra” foi um desses livros que devorei numa noite, em que  recordei uma história  em que a última pétala era a Bem me Quer.


Insónia
Nuno Camisa, Lisboa

É meia-noite e continuo acordado. Mais uma vez, a insónia ataca no domingo à noite. Não é a primeira vez, nem será a última. Na verdade, nenhum mal vem ao mundo por não conseguir dormir, se resolver ignorar que às seis da manhã tenho de estar a pé.
Na casa, reina o silêncio, levando a que cada acção seja praticada na mais profunda discrição. Faço mais um zapping à procura de algo, que não sei ao certo o quê. Publicidade, publicidade, novela, publicidade, telemarketing e mais publicidade. Por esta altura, sou já o menos exigente dos espectadores. Dêem-me uma série ou um filme, que para mim chega. Mais uma busca, o mesmo resultado.
Por fim, vislumbro uma cara conhecida, Anthony Bourdain e as suas aventuras gastronómicas. Problema resolvido, agora é só esperar que as imagens me levem para um qualquer local paradisíaco, enquanto o sono não me leva de vez. Mas, eu reconheço aquela ponte; e aquela rua também não me é estranha; não pode ser, eu já estive a beber copos naquele bar. Finalmente, as minhas dúvidas são respondidas, este episódio é sobre Lisboa.
Provavelmente, esta dissertação televisiva não me adiantará em nada. Devo conhecer quase todos os locais. Contudo, com o saudosismo próprio dos portugueses, sinto-me atraído por aquele retrato da minha cidade.
Já não apanhei o programa de início, mas àquela hora, até os cinco minutos finais seriam bem-vindos. Num sotaque nitidamente americano, o apresentador anuncia que vai a uma casa de fados no Bairro Alto, acompanhado por um autor português. É com algum espanto que recebo a notícia que o autor em causa se trata de António Lobo Antunes. Nunca li nada dele, e, de facto, nunca ouvi alguém falar positivamente da sua escrita. Outro episódio que me ficou marcado foi uma vez que o encontrei na feira do livro. Sentado a fumar, constantemente a revirar os olhos e com uma arrogância tal, que me deixou com náuseas. Pelo que, a minha opinião acerca dele, não era a melhor.
A princípio, fui ouvindo cada comentário seu, com a mesma impaciência de quem espera pelo metro. Contudo, houve algo que me chamou a atenção. A sua postura, naquele momento numa casa de fados, num programa reconhecido internacionalmente, era exactamente a mesma da feira do livro. A falar, pausadamente, ia dialogando com o americano ao ritmo que bem entendia. Fumando um cigarro e bebendo um copo de tinto. A realização fez questão de mostrar um sinal que dizia Proibido Fumar, mas as regras só têm o valor que lhes quisermos conferir.
Não sei bem em que momento foi, porém à medida que a cena foi decorrendo, a minha impressão acerca do autor foi mudando drasticamente. Talvez tenha sido a atitude Tou-me a lixar, ou as críticas, factuais, à ditadura do Estado Novo; contudo no fim daquele excerto fiquei boquiaberto. Pai, o que é a democracia? Cala-te e como a sopa.
No dia seguinte, peguei no livro Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar. Já tinha lido muitos autores diferentes, muitos estilos literários diferentes, contudo nenhum assim. A escrita densa e envolvente, a narrativa avançando aos solavancos, quase como o decorrer de pensamentos de cada uma das personagens, o ambiente negro e deprimente, a gramática simples e minimalista.
Não sei o que esperar do próximo livro, contudo é certo que manterá os padrões elevados do anterior. Far-me-á ficar agarrado da primeira à última página, quer queira quer não.



31 de agosto de 2012

Passatempo «Não É Meia Noite Quem Quer»

PASSATEMPO ENCERRADO!


Com o lançamento do novo livro de António Lobo Antunes, Não É Meia Noite Quem Quer, previsto para Outubro, vamos oferecer, em parceria com a D. Quixote, três exemplares deste título, num novo passatempo a decorrer em Setembro.

Para se habilitarem ao prémio, os interessados têm de nos enviar por e-mail um texto criativo sobre António Lobo Antunes (qualquer aspecto que entenderem), onde se utilize, aleatoriamente, as palavras não, é, meia-noite, quem e quer.

Os termos são os seguintes:
  1. Passatempo a decorrer entre hoje e as 24 horas do dia 27.09.2012;
  2. O participante deve escrever um pequeno texto, de forma criativa, em língua portuguesa, sobre qualquer assunto que diga respeito ao escritor António Lobo Antunes e utilizando, de forma aleatória, as palavras não, é, meia-noite, quem e quer (não será aceite a ordem da formação do título do livro);
  3. O texto deve ter um título e não deve vir assinado nem conter o nome do participante;
  4. O tamanho do texto deverá ser entre 300 a 800 caracteres (com alguma tolerância), e a enviar num ficheiro de Word ou outro processador de texto similar;
  5. Este ficheiro deve ser incluído numa mensagem de e-mail com os seguintes dados do participante: nome, apelido e localidade, sendo enviado para o nosso endereço alaptla@gmail.com, dentro do prazo estabelecido no ponto 1;
  6. Os textos serão avaliados por um júri constituído por duas pessoas: António Bettencourt e Norberto do Vale Cardoso;
  7. Nos dias seguintes ao término do passatempo, e logo que possível, os textos serão publicados no espaço do blogue num só artigo, e na página do facebook um por um;
  8. Os três textos considerados mais criativos serão os vencedores do passatempo, e os seus autores contactados via e-mail para nos fornecerem as moradas para onde endereçar cada exemplar premiado, tendo para isso 24 horas após a recepção do nosso e-mail;
  9. Confirmados os vencedores, anunciaremos os autores dos três textos mais criativos;
  10. Os textos são da inteira responsabilidade dos seus autores;
  11. Cada participante poderá apenas concorrer com um só texto, não sendo permitida a sua substituição;
  12. As participações que não reunirem as condições anunciadas nos cinco primeiros pontos não serão consideradas.

editado a 15.09.2012:
quanto ao ponto 4, o máximo de 800 caracteres pode ser ultrapassado, desde que não exceda uma página de Word.

Ficamos agora a aguardar pela vossa criatividade!

Bom trabalho!


18 de junho de 2012

Passatempo ALA e os leitores: vencedor anunciado


O vencedor do passatempo António Lobo Antunes e os leitores é Simão Fonseca:


Na minha opinião, a figura de António Lobo Antunes é uma das mais importantes da Literatura a qualquer nível, desde a riqueza da escrita, a simbologia e à forma como faz uma ligação entre a sua vida pessoal e os acontecimentos que marcaram e ainda marcam a actualidade de Portugal. Como admirador da escrita do autor, e tendo também já lido mais de metade da sua extensa obra, fico por vezes um pouco decepcionado em relação à proximidade de Lobo Antunes e o leitor; tenho a perfeita noção de que o escritor não utiliza a internet e que escreve ainda os romances à mão – nada contra isso, bem pelo contrário -, no entanto fico por vezes um bocadinho frustrado por ter contacto com Lobo Antunes apenas nas crónicas da revista Visão, o que sabe manifestamente a pouco. Tive a oportunidade de estar com este autor (o eterno candidato ao Nobel) em duas ocasiões, a primeira em 2008 e a segunda em 2010, e foram inesquecíveis. Podem dizer que ele tem mau feitio e que não se importa com o que dizem dele, porém, no fundo, eu creio que ele tem respeito e amor por quem lê os seus romances e livros de crónicas. Eu sei que sim. Creio que é importante uma relação entre o leitor e o escritor, pois todos somos apreciadores de cinema e quem melhor que um romancista para fazer um filme? É condição sine quai none de um livro transmitir a quem o recebe a sensação de construção filme/história através das sensações que a obra transmite. Creio que é mais gratificante ler um guião ou um romance que dá origem a um filme do que propriamente o filme. Enquanto leitor assíduo de António Lobo Antunes e profundo admirador das suas qualidades e características humanas e criativas, mantenho sempre uma relação próxima com o mesmo, pois sei que não só me faz bem, como também me enriquece enquanto pessoa e leitor. Um bem-haja para este senhor!
Simão Fonseca
14.06.2012 
***

O passatempo, decorrido entre 1 de Maio e 17 de Junho de 2012, teve como pressuposto a elaboração de um texto referindo a proximidade entre António Lobo Antunes e os seus leitores, acompanhado de uma foto do participante como leitor do escritor. O vencedor foi premiado com um exemplar de O Meu Nome É Legião, oferta nossa. Tivemos apenas cinco participantes, cujo ranking, segundo nossa avaliação, foi o seguinte:

1. Simão Fonseca
2. Patrícia Ferraz
3. Bruno Assunção
4. Ana Margarida Soares
5. Gabriela Tasso


Obrigado, e os parabéns a Simão Fonseca.

15 de junho de 2012

Passatempo ALA e os leitores: participação de Simão Fonseca



Na minha opinião, a figura de António Lobo Antunes é uma das mais importantes da Literatura a qualquer nível, desde a riqueza da escrita, a simbologia e à forma como faz uma ligação entre a sua vida pessoal e os acontecimentos que marcaram e ainda marcam a actualidade de Portugal. Como admirador da escrita do autor, e tendo também já lido mais de metade da sua extensa obra, fico por vezes um pouco decepcionado em relação à proximidade de Lobo Antunes e o leitor; tenho a perfeita noção de que o escritor não utiliza a internet e que escreve ainda os romances à mão – nada contra isso, bem pelo contrário -, no entanto fico por vezes um bocadinho frustrado por ter contacto com Lobo Antunes apenas nas crónicas da revista Visão, o que sabe manifestamente a pouco. Tive a oportunidade de estar com este autor (o eterno candidato ao Nobel) em duas ocasiões, a primeira em 2008 e a segunda em 2010, e foram inesquecíveis. Podem dizer que ele tem mau feitio e que não se importa com o que dizem dele, porém, no fundo, eu creio que ele tem respeito e amor por quem lê os seus romances e livros de crónicas. Eu sei que sim. Creio que é importante uma relação entre o leitor e o escritor, pois todos somos apreciadores de cinema e quem melhor que um romancista para fazer um filme? É condição sine quai none de um livro transmitir a quem o recebe a sensação de construção filme/história através das sensações que a obra transmite. Creio que é mais gratificante ler um guião ou um romance que dá origem a um filme do que propriamente o filme. Enquanto leitor assíduo de António Lobo Antunes e profundo admirador das suas qualidades e características humanas e criativas, mantenho sempre uma relação próxima com o mesmo, pois sei que não só me faz bem, como também me enriquece enquanto pessoa e leitor. Um bem-haja para este senhor!


por Simão Fonseca
14.06.2012

14 de junho de 2012

Passatempo ALA e os leitores: participação de Patrícia Ferraz



Todos tivemos uma Benfica na infância.
Um sapateiro de esquina a martelar compassadamente; um senhor da farmácia de bigode enrolado; mercearias com embrulhos de papel pardo; tias velhas, enlutadas e de carrapito, com molduras dos seus mortos perfiladas nas mobílias de pau-santo; avós que nos levavam pela mão e nos falavam de sonhos; colos que nos contavam histórias; ruídos de cidade grande, que chegavam baixinho à periferia. Uma Nelas no coração.
Somos, muitas vezes, o nosso passado e é isso que nos aproxima da sua escrita.
ALA é um escritor de memórias.
Das dele, de outros e das nossas; mesmo sem o sabermos.

por Patrícia Ferraz
14.06.2012

13 de junho de 2012

Passatempo ALA e os leitores: participação de Bruno Assunção


A primeira vez que li Lobo Antunes duvidei de que ele conseguisse levar pelo livro inteiro aquela linguagem de quem desistiu de falar com o que não seja uma espécie de alma que entranhasse as vísceras das linhas. No entanto, quanto mais lia, mais achava que, de facto, havia ali alguém que tinha subtraído de sua escrita o que não fosse necessário. De repente, o mais patético personagem se fazia comovente, o cenário mais banal, um sistema de realidades que não poderia mais restar senão pregado à retina tal era a força que evocava através de imagens e figuras que não viriam a aparecer mais no livro, mas que marcavam a brasa os olhos. Lobo Antunes narra como a vida: mas se esta usa imagens, que de tanto ver desaprendemos a apreciar, o escritor inventa a narrativa nas palavras, re-ensinando-nos a nos espantar com o pouco. Ele dá a ver a existência assim: de dentro da gente, através de calabouços de vozes e calafrios de silêncio e esquizofrenia. Todo o mundo é um pouco assim, incompreensível. Até porque explicar, às vezes, é diminuir a coisa ao que já não espante. Ao que já não seja hermético. Ao que não se permita ao escuro (certas coisas só se revelam no escuro, natureza esconsa).

por Bruno Assunção
13.06.2012

7 de junho de 2012

Passatempo ALA e os leitores: participação de Gabriela Tasso



O que leio funde-se com a pessoa, na personagem, no António, que nos faz visualizar as palavras escritas. Todos os livros desejam o próximo e como nós esperam que o seu “ Deus “, Ele, se oiça, e quando enfim dá por terminado mais um livro, logo volta o menino insatisfeito que continua à procura de mais...! O leitor junta-se-lhe no mesmo desejo e um sentimento de vazio instala-se na espera que só ALA preenche com o seu humor ou quando transmite o que lhe vai na alma e nos pertence... 
Por tudo o que ALA é e como é, gostava de conceber uma exposição/homenagem (área em que tenho experiência profissional), a começar em Lisboa na Culturgest ou noutro espaço considerado mais apropriado, mas destinada a ser itinerante pelo país e pelo mundo, pelo que deverá incluir cópias em várias línguas. A sua concepção inclui todos os livros e as várias traduções, os prémios, os filmes, fotografias e o som de todos os que o cantam e o MC3, Georges Lavaudant… e os outros que fizeram saltar para o meio dos espectadores as personagens, ou foi mesmo ALA que estava ali diante de nós... que emoção!


por Gabriela Tasso
07.06.2012

1 de junho de 2012

Passatempo ALA e os leitores: participação de Ana Soares


O lugar onde vivo é o das palavras e do afecto. Nesse lugar encontrei o António e abracei-o para a vida. Nesse lugar, vivemos da única forma que sabemos viver: com medo que nos falte tempo para crescer, com medo que nos falte tempo para ser, com medo que nos falte tempo para amar e para dizer ao outro que o amamos. E assim podermos partir em paz. Caminhando, mas sempre nesse lugar. Quando li o Quarto Livro de Crónicas, senti que o mundo estava todo ali naquelas linhas e via com terror o momento em que o livro chegasse ao fim. O que farei depois de o ler todo? Então, pensei que não é preciso ter medo – o livro não acaba; a leitura pode recomeçar, voltamos à primeira página e recomeçamos a viagem… A sua mundiescrevência faz-me também a mim acreditar que posso escrever algo belo, ou pelo menos tentá-lo. Sentimos as palavras a dançar dentro de nós, à procura de uma forma para nascerem para o mundo. E quando nascem no papel, cortam o cordão umbilical que as unia ao progenitor. Passam a ser de todos, como o sol, o mar, a terra… Com as palavras do António cresci, com as palavras do António sou, com as palavras do António tenho menos medo de morrer.

por Ana Soares
01.06.2012

1 de maio de 2012

Passatempo António Lobo Antunes e os leitores

[PASSATEMPO ENCERRADO]


Partindo da ideia inicial da partilha de fotografias dos leitores de e com António Lobo Antunes, vai decorrer durante o mês de Maio e a primeira quinzena de Junho mais um passatempo para a oferta de um exemplar da obra do escritor. O título desta vez escolhido é O Meu Nome É Legião.


Tema: António Lobo Antunes e os leitores
Início: 1 de Maio
Fim: 17 de Junho
Prémio: 1 exemplar de O Meu Nome É Legião
Como participar: enviar para o nosso e-mail alaptla@gmail.com uma foto como leitor de António Lobo Antunes e um texto que aborde a importância da proximidade entre este escritor em particular e os seus leitores.

Termos e condições do passatempo:

  1. O participante tem de enviar uma foto em que se identifique como leitor de António Lobo Antunes, num dos seguintes contextos: a ler um dos livros, a receber um autógrafo do escritor (poderá neste caso ser a foto de um familiar ou amigo) ou uma fotografia da sua autoria sobre o escritor em qualquer evento, ou mesmo particular (desde que não viole a privacidade de ALA). Não serão válidas fotos alheias recolhidas na Internet.
  2. A foto (ou fotos, caso entender) deve vir acompanhada por um texto da autoria do participante onde aborde a importância, do seu ponto de vista, da proximidade entre o escritor António Lobo Antunes e os seus leitores.
  3. A foto não tem limite de tamanho, mas o texto não deverá ultrapassar os 1000 caracteres. Devem ser dois ficheiros separados  - foto em formato JPG e o texto em DOC Word ou similar.
  4. Só os textos serão avaliados para o apuramento do vencedor do prémio, pelo que a qualidade ou quantidade de fotos não irá influenciar na escolha.
  5. O participante terá desta vez apenas que referir os seus primeiro e último nomes e localidade, não sendo necessário, na fase de apuramento, quaisquer outros dados pessoais.
  6. O participante deverá deixar claramente expressa no e-mail a sua autorização para a publicação da(s) foto(s) e do texto em todos os espaços de António Lobo Antunes na web.
  7. À medida que formos recebendo as participações, os textos e as fotos serão publicados, logo que possível, neste espaço (apenas com uma foto).
  8. O texto escolhido será o mais original e melhor fundamentado quanto ao tema.
  9. O vencedor do passatempo será contactado pelo e-mail por onde remeteu a participação e terá 24 horas para nos fornecer o endereço postal para a entrega do livro e telefone de contacto. Passadas essas 24 horas perderá direito ao prémio que será passado ao autor do texto seguinte escolhido.
  10. Após a confirmação do vencedor, o seu texto e foto(s) serão reeditados neste espaço



P A R T I C I P E   !

8 de março de 2012

Passatempo Fevereiro: oferta de Explicação dos Pássaros a ALEXANDRA MALHEIRO

Após o encerramento do passatempo, e apurado que está o vencedor, esta publicação substituirá todas as que foram dedicadas ao tema, destacando o texto escolhido como o mais criativo, de tema livre, em que apenas era exigido a colocação das palavras explicação e pássaros.

A participante vencedora recebe este exemplar de Explicação dos Pássaros, edição comemorativa dos 30 anos, autografado por António Lobo Antunes:



Foi atribuído a Alexandra Malheiro, do Porto, cujo texto foi considerado o mais criativo, por esta simples razão: o tema e a sua estrutura que tão bem fazem lembrar qualquer texto de António Lobo Antunes (seja na crónica ou no contexto de um dos seus livros):

Adeus, Pai.
Não há explicação. Os passos pela escada, o cheiro à calda de açúcar, o vento na persiana avariada, de monco caído para a esquerda, sem abrir, inútil, incapaz de nos proteger do vento e do seu som agudo, assobiando uma música sem jeito.
– Sr. Justino.
Não me chames pai, rapaz – como se eu me esquecesse ou sequer fosse capaz
Não me chames pai, rapaz – como se eu alguma vez o tivesse feito.
– Sr. Justino. – a aprumar-me junto ao balcão, a esticar-me nos bicos dos pés, a crescer para ele, com os óculos presos na ponta do nariz.
Não me chames pai, rapaz – a estender-lhe a lista que a Mãe mandava.
Um kuilo de açucar

Um esfragão pailha daço
Uma caixa de fósfres
Amanhã ao mei-dia.
– Hum… hum… – enquanto arrumava num cartucho as encomendas – diz à tua Mãe que está tudo em ordem.
Não me chames pai, rapaz – a bulir-me por dentro.
– Sim, Sr. Justino.
Ou “sim, pai” – não se inquiete que não lhe chamo pai, senhor, porque havia de lhe chamar pai?
E amanhã ao meio dia os seus passos pesados na escada, o cheiro à calda de açúcar, o vento na persiana avariada, de monco caído para a esquerda, inútil, incapaz de me proteger do vento que havia de gemer. A minha Mãe
– Entre Sr. Justino, faça o favor – a torcer as mãos no avental
– Vai jogar à bola Afonso – a pregar-me um beijo frouxo na testa.
Os passos pesados a entrarem na sala, a minha Mãe a fechar a porta – vai jogar à bola, Afonso, o Sr. Justino vem trazer as contas da mercearia.
O gemido do vento na persiana avariada, o gemido abafado da minha Mãe, o arfar do Justino da mercearia e o vento que teimava em bulir na persiana avariada, de monco caído para a esquerda, inútil, incapaz.
O Justino da mercearia a pegar no chapéu, a ajeitar a gravata ao espelho, a abrir a porta.
Não me chames pai, rapaz – descanse senhor que eu não lhe chamo pai, porque havia de lhe chamar pai?
A enfermeira a bater-me no ombro – pode entrar agora.
O hospital todo muito branco, você também branco, num cadeirão a pender para o lado, a olhar o infinito, de monco caído para a esquerda, inútil como a persiana, só que o vento zunia lá fora e não na persiana, nem na sua boca torta, de monco caído para a esquerda, incapaz, inútil, sem os óculos empoleirados na ponta do nariz.
Descanse senhor que não lhe chamo pai, nunca lhe chamei pai, não vou chamar-lhe pai!
Os pássaros em revoada a baterem as asas rumo ao longe, os seus olhos a fecharem-se, pesados, sem um ai, sem um gemido, sem arfar, sem ajeitar a gravata, sem óculos, sem chapéu.
– Adeus, pai.

***

Outros dois textos foram destacados, e se houvesse mais exemplares a oferecer, mereceriam o prémio. Talvez para uma próxima vez...

Outros nomes para a noite
Somos dois fantasmas a assombrarem a cama, um dormido, outro acordado, ambos disfarçados de lençol, esquecidos de como era dantes e de como nos tornámos fantasmas sem dar por isso ou haver explicação. Lá fora há um candeeiro aceso, há candeeiros meio acesos, há candeeiros apagados. Há vários candeeiros apagados. Há a noite, há várias noites na noite. É impossível esta noite ser só uma, de tão comprida e inacabada. É impossível a noite acabar sem nos virarmos na cama e encontrarmos um pedaço que seja permanecido corpo e não desfeito em cobertas e lençol. É típico das noites não acabarem nunca quando se é fantasma. É típico dos fantasmas passarem por candeeiros apagados, meio despercebidos, na noite, sem se encontrarem entre eles, atravessando paredes e muros no roçagar lento e cego dos fantasmas. É impossível atravessar este sono sem perguntar onde se meteram as mãos, o rosto, as pernas, os braços, os pés embrulhados nos meus, os lábios babados na almofada. É impossível esta noite durar como uma lâmpada que treme, transida de medo, até o primeiro grasnar dos pássaros devolver o lugar ao dia, extinguir os candeeiros na rua e enlouquecer de luz a manhã.

por Miguel Marques, de Lisboa

Chegado aos trinta anos de uma esquizofrenia inesgotável, dirigi-me ao hospício e rendi-me às camadas cavernosas de medicações que me enfiam pelas goelas na esperança de calarem as vozes. Os comprimidos afogam os habitantes enquanto fico sossegado à espera de notícias de dentro.
Conheci a Joana no terceiro dia. Encontrei-a deitada no pátio, o seu corpo posicionava-se como no meio de uma multidão desconfortável de cadáveres. Ocasionalmente, revirava-se e surpreendia-me um pássaro na sua testa. A minha esquizofrenia inquietou-se; levantei-me e afugentei-o para certificar-me da sua existência. Dirigi-me para o edifício, cogitei procurar uma enfermeira, confrontá-la com o que observei e tentar encontrar uma explicação plausível que não me atirasse novamente para a lixeira de visões e temores. No entanto, aproximou-se uma idosa demente, que falava na segunda guerra como se tivesse sido anteontem, que me explicou que Joana cria pássaros enquanto dorme, que nascem de pequenas gotas de suor que surgem na sua testa branca. – Inicialmente, dormia cá dentro, mas durante a noite era um frenesim de pássaros que tocavam nos corpos, cagavam nas camas, no chão, nos medicamentos; meia dúzias de medricas gritavam assustados com a bicharada. Por isso, agora prefere dormir ao relento, os pássaros sobrevoam-na como a uma mãe e apenas chegando a fome visceral a abandonam.
Dirigi-me então a Joana, toquei-lhe numa gota da testa, e começou o processo nas minhas mãos, um pequeno melro a chilrear nos meus dedos, esfomeado, a confrontar-me como a uma mãe. Empurrei-o para Joana, juntou-se aos cardeais que nasciam das restantes gotas, à procura de alimento, num tagarelar infernal. Deitei-me a seu lado e esperei por um flamingo que me levasse em cores para as terras de África.
por Cátia Oliveira, de Gulpilhares

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Seguem-se os textos dos outros participantes. A escolha não foi muito fácil...


Esqueci-me de como se adormece. Antes era tão fácil: o acto de me deitar, envolver-me em conforto e deixar-me cair no sono era um momento ansiado. Sonhar era um prazer. Havia sempre muitos pássaros nos meus sonhos. Pássaros livres. Mas agora esqueci-me de como se faz. As horas passam lentamente e eu permaneço, contemplativa, num vazio de ideias e de afectos. E de sonhos. Preciso compreender – haverá alguma explicação? Como posso ligar-me de novo, ficar em sintonia com o mundo de novo? Como se volta a dormir, como se volta a sonhar? Tenho saudades dos pássaros dos meus sonhos.

por Dália Antunes, de Algueirão

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A noite cai de mansinho.
A casa, já escurecida pela penumbra, deixa entrar o silêncio que acentua a solidão. Os pássaros no seu cárcere estão envoltos na sonolência nocturna, mas de repente estremecem...
Uma visita de aspecto sinistro, mas com uma tranquilidade que não condiz, e que não fora convidada, invade silenciosamente a casa e dirige-se ao quarto, onde um corpo já enrugado pelo tempo dorme...
Sem qualquer explicação, esta visita envolve docemente o corpo no seu manto negro, anunciando baixinho:
- Vamos, chegou a hora...

por Ana Paula Azevedo, de Alvarelhos

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Faz hoje um ano que o vi pela última vez vivo. Vivo e a olhar para mim, procurou-me a mão e apertou-a. Há algo de dolorosamente consolador lembrar esse momento, como se me protegesse do esquecimento dos dias. Mas é claro que o vazio no coração aumenta nos dias inteiros de ausência. Um ano. Um ano que não bastou para descobrir conforto suficientemente para a eternidade. O meu coração egoísta insiste em dizer que quem queremos bem nunca nos deveria morrer. Mas se lhes sobrevivemos, quem estará ao meu lado quando ficar doente? Quem me fará relembrar que o mundo continua lá fora, mesmo sem mim? Quem me exigirá que seja melhor, mesmo que esse melhor se resuma a sobreviver? Quem nos dá a explicação da vida quando a morte não se quer explicar?
Hoje vesti a camisa escura que comprei na manhã seguinte para o funeral. Uma mortalha escura numa semana de imagens inesperadamente luminosas. Recordo o voo dos pássaros e a música ao longe. Recordo a coragem de não chorar e o branco das flores e o íngreme do fim do dia antes da noite mais comprida.
Apenas a liberdade que temos entre a vida e a morte nos mantém suspensos.

por Maria Margarida Lessa, de S. Mamede de Infesta

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Meu amor, nos últimos tempos aconteceu-me uma coisa sem explicação. Tenho que pedir-te que me ajudes porque já não aguento mais. Todas as noites sonho com pássaros. Todas. E, quando acordo, ou o meu marido se transformou num pássaro ou sou eu própria que estou transformada num pássaro. Durante o duche voltamos à forma humana e o resto do dia decorre sem incidentes de maior, mas há momentos em que me invade um tremor indescritível, como se necessitasse irreprimivelmente de sacudir as asas que entretanto já não tenho… Nessas alturas fico angustiada e sem energia, esgotada com a frustração de nem ser ave nem ser também, completamente, ser humano. Peço-te ajuda a ti porque foi a ti que prometi não morrer, e se consegui fazer essa promessa tão irremediável e tão leviana foi porque pensei que, embora nesta nova vida estivéssemos afastados um do outro, de alguma maneira poderia contar contigo se alguma coisa me acontecesse. E não tenho mais ninguém a quem recorrer, eu e o meu marido não conseguimos falar disto um com o outro e não o culpo, sei como eu própria me sinto. A nossa relação deteriorou-se e já raramente trocamos uma palavra amigável. Se não fosse a promessa que te fiz, há muito que me tinha atirado a voar pela janela… Amor, já viste porque me tens que ajudar? Pelo menos desvinculando-me da promessa que me obrigaste a fazer. Eu, amor, assim, nem posso tentar voar, porque não sei se sei voar e se não sei e morro na tentativa vais dizer que não honrei a minha promessa. Não me quero matar, quero voar. Mas, amor, quem me vai acreditar?

por Maria de Jesus Venâncio, de Campo Maior

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Era o dia da consulta das trinta e seis semanas de gestação e crescia em mim, a cada passo, a ansiedade profunda de te conhecer.
Depois de passar por aquelas rotinas usuais das últimas semanas de gravidez, a Doutora que "nos" assistia diz de forma natural e espontânea, sem levantar o olhar do papel que escrevinhava á nossa frente:
-Muito bem "mãe", prepare-se, vamos marcar aqui na minha agenda a data e hora do parto para daqui a duas semanas, pois este bebé, está um grande matulão e não pudemos arriscar a que nasça no final do tempo e haja estragos...
Gostaria de ter forma de me ver ao espelho, perante tal conversa! Nunca tinha ouvido nada de tão estranho, eu que toda vida usei agenda, apontar naquela data referenciada, que às 8 horas, ia ser tua mãe...
Há momentos que eternizo para todo sempre, este será desses, data e hora marcada para ter um filho, como se combinássemos uma qualquer saída banal, o ir beber um cafezinho...
E certo foi que aquela hora, numa manhã fria de Dezembro, gélida e soalheira, lá saímos de casa, eu e tu, para ir ao sitio onde fazem acontecer milagres, e onde tu aconteceste.
A vantagem de uma cesariana com epidural, é que a mãe está consciente de tudo o que a rodeia, sem dor, e o bebé não sofre pelo processo penoso de ter de se estruturar a sair por um buraco apertado.
Lá saíste de mim e registei uma vez mais na memória eterna de todo sempre, aquele momento em que te conheci, filho...
Tu, migalha de gente, acabado de nascer sujo, sebento perfeito, inexplicavelmente lindo, bebé meu...
E o que mais me arregalou, desde a primeira vez, que o meu olhar tocou o teu, foi o teu ar gingão, o olhar de Rei, de Senhor de mim...
Sorri-te, deixando cair espessas lágrimas de felicidade desmedida.
Tu, sem qualquer explicação, olhaste-me sem qualquer dúvida no olhar, de que era eu, tua mãe. Um olhar penetrante, fazendo-me lembrar um pássaro curioso, que olha em seu redor, com a sofreguidão de tudo querer entender.

por Lina Pedro, do Carregado

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Máquina de Repressão
Às vezes não é fácil de evocar que, o que se explica a um cão é sinónimo de dar uma explicação.
Parece coisa de fraco mas é preciso engolir essa estafa, trabalhosa máquina de repressão para que o triunfo das coisas de pouco saber, fujam da nulidade de si. 
E a educação estoica, razão forte e superior, normaliza pássaros à dúvida de seguir cão de vício gerador.
Conclusão: Uma explicação é o nosso deslumbramento por um pássaro sem patas de flutuações aditivas.

por Diana Vieira, de Algés

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Nas asas da imaginação
Nas asas da imaginação, valem as ideias mais além!
Assim seria o dia em que Sofia também esperou, para que lhe explicassem, tão subtilmente, o porquê da ausência tão prolongada de alguém que lhe era muito querido.
- Era eu pequena e pouco ainda entendia o que levava as pessoas a ficarem naquele estado tão triste e lastimoso, quando alguém próximo se ausentava, por periodos intermináveis. 
Assim aconteceu com o meu avô.
- Sofia, ele partiu, foi para o céu.
Eu respondia:
- Mas no céu eu só vejo pássaros!
E assim vivia, imaginando, que o meu avô agora tinha asas e voava.
A explicação mais plausível só chegou na minha adolescencia, e hoje reconheço, que se cada pássaro é alguém que se afasta de nós, afinal esse alguém não está tão longe como eu imaginava!!

por Graça Águas, da Lagoa (Açores)

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Há dias assim.
Dias em que os segundos se abraçam lascivos ajeitando minutos. Minutos que deslizam de forma ominosa e disfarçada para gerarem horas tão obnóxias que me sufocam. 
Dias em que o assombro é tanto que me seca todas as palavras estúpidas que se prendem no fundo da garganta e ficam por dizer. 
Há dias em que nem a exortação daquela palavra, a mais esdrúxula de todas quantas tinha para dizer, me arranca do torpor da estultícia.
E é nesses dias assim em que as palavras se acumulam e ficam por dizer, em que os sonhos deixam de ser sonhos e modelam realidades tão inexplicavelmente tristes… em que os pássaros cessam de voar e se transformam em estátuas de sal vibrantes de mágoas, em que as ausências consentidas deixam um rasto de gelo, em que o amor não é mais fogo, em que as lágrimas não são já urgentes… 
É nesses dias que eu não sei se ainda sou, ou sequer se algum dia fui, algo mais do que o estorvo de uma gota de chuva na cortina cerrada de umas pestanas; do que um sussurro do vento, envergonhado, sem segredos; do que um momento resgatado ao sonho de alguém; do que um amontoado de silêncios vazios onde as palavras nada mais podem fazer do que adormecer.
E nesses dias, apesar de as palavras permanecerem não ditas, doem-me. Sapateiam-me a alma. Obrigam-me a olhá-las, a pensá-las, a justificá-las. 
É na obscuridade desses dias que mordo a perplexidade, engulo o estupor, sacudo as cinzas, as brumas e procuro construir significados. 
E então, debruçada na amurada frouxa desses dias, busco-lhes a explicação. 
E devagar, muito devagarinho deixo voar o sonho como apenas as crianças são capazes de deixar. E eis que me afagam borboletas, bailarinas num palco de cores desenhando claves de sol; que sinto o hálito das flores orvalhando grossas gotas de silêncio; que me sopram maresias e maresias de aromas húmidos que arrastam e devoram medos; que experimento nas pálpebras a carícia fugaz de uns dedos de prata, os da lua dos amantes; que relembro o sabor quente dos beijos maduros numa noite de paixão... 
E o amor, esse, nesses dias assim, consigo adivinhá-lo na carícia pungente de um olhar. 
E é então que me percebo… quase… feliz?

por Maria Celeste Pereira, da Maia

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A Ignorância dos Beija-flores 
A explicação é imóvel. Depois da noite, depois da madrugada, depois do silêncio, depois dos desertos. Depois até mesmo das luzes baças que se anunciam no horizonte e nunca se saberá se é o sol abrindo a escuridão ou um fim de esperança presa na goela a insunuar-se no centro dos olhos.
Ouço pássaros. Clamam por descobrir seus voos na obviedade do céu e reduzem nossas dores ao instante primitivo que, não sabíamos até então, ainda nos guia os gestos e as palavras. Nada disso explica, mas para quê explicar o que o sentimento engloba e se expressa em, não sei, suspiros, sorrisos, lágrimas, ou mesmo inércias. É o pássaro, mas é também nossa alma, beija-flor envolto numa capa humana para proteger sua alada existência.
Então esses perfumes: a busca por um sol nascendo, por uma outra alma que nos abrigue em seu sexo, por uma mão que se ponha sobre um ombro caído, alguns dedos que se estendam quando apenas sabemos o chão. Porque o beija-flor precisa destes néctares, destas estéticas que nos tocam onde não entendemos, mas onde somos. Para isso a metáfora, embora sempre incompleta, limitada, serve. Porque ela tenta exactamente isso, explicar o inexplicável: absurdo de pôr em palavras o que é, na verdade, uma natureza intraduzível no que não a seja.
Por isso precisamos da beleza. Para nos suprir destas flores e a metáfora tenta isso. A beleza, mais que o sentido. Porque somos olhos cegos, vozes mudas, verdades mentindo suas mais profundas razões. Mas não desistimos. E nos aventuramos entre nossos semelhantes para colher o fugaz momento em que todas as coisas se tornam eternas. Meus lábios, teus cabelos, meus olhos, tuas orações, nossos enigmas opacos, mas vivos na escuridão dos sistemas universais (ou seriam tão só sistemas de pétalas no caule improvável?).
A explicação está sempre no mesmo lugar. Ubíqua, mas impossível. Atrás do oceano, atrás do horizonte, atrás, sempre, de onde podemos alcançar esticando os braços. Ali, onde as pontas dos pés e os dedos o mais alto possível não roçam. Por isso precisamos dos pássaros, para nos desexplicar as coisas. Para torná-las íntimas, para pô-las onde não precisamos senão por as mãos nos bolsos. Não me revele seu conteúdo, explicação. Não me revele seu vazio. O conteúdo nada tem que dizer. O vazio apenas apura a busca. Mas me dê o que se faça motor em mim. O que se faça motivo para continuar a perscrutar esse labirinto multidimensional em que estamos (que somos?).
Os pássaros haverá para as manhãs que não se traduzem em sóis, mas em cantos. Sim, para fazer-me o pássaro que sou. O mais voa. São flores, madrugada remota onde sentávamos na varanda para estudar as estrelas quietas. Ou um sentido que nos abriga.
A explicação é o que de intraduzível nos habita, beija-flor insapiente de si.

por Bruno Assunção, de Recife - Pernambuco (Brasil)

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Atordoador! Sem explicação esta minha classificação da composição que os pássaros fazem com seus sons e o silêncio combinados; classifico-a de presença inaudível, de produção de notas “descoordeafinadas”.
Ensurdecedor! Sem explicação este abominar do chilrear frenético dos pássaros (que decidiram ser açorianos por estúpida loucura que lhes concedeu a liberdade inconsciente de decisão) atrás do rectângulo de papel negro aveludado com que disfarcei a minha janela. Disfarcei-lhe os olhos da claridade com mantos de piedade e de absolvição. Só não pude calar-lhe os ouvidos com o silêncio dos pássaros, insanos mensageiros desta saudade daquele Portugal longínquo que é o meu Portugal Continental.
Ah! Pássaros ridículos, sem obrigações de permanência, ide-vos que vos não dou explicação para esse meu turvar os sentidos e levai, combinadas, a vossa arte musical e a minha saudade transcendental, até ao Porto dos meus desejos. Expulsai-vos daqui, pássaros da minha saudade e ide a bordo dela, ide e saudai-o com o vosso talento, que eu ficarei aqui, ainda, magicando uma forma de ensurdecer os ouvidos da minha janela. Ainda e ainda, porque hei-de saber fazê-lo, tal como hei-de saber dar-vos uma explicação poética sobre o porquê de querer calar os ouvidos da minha janela com o silêncio absoluto dos vossos chilreares, sobre o porquê de querer adoecê-la com a privação das vossas belezas sonoras. Não sei quando, não sei como, mas sei onde.

por Dirce Moreira, de  Vila Franca do Campo - Açores


A todos o nosso agradecimento. Esperamos que continuem a participar em outros eventos!

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...