Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

A mostrar mensagens de Setembro, 2007

Agripina Vieira: sobre O Meu Nome É Legião

Uma voz que diz... o mal
Numa já longa e espantosa carreira literária, que tem o seu início, como todos sabemos, em 1979 com a publicação de Memória de Elefante, António Lobo Antunes tem vindo a convidar os seus leitores a entrar em mundos ficcionais cada vez mais densos e complexos. Se por um lado, cada novo romance seu se inscreve indubitavelmente num contínuo narrativo, por outro lado constitui-se igualmente como uma novidade em relação a tudo o que já tínhamos dele lido. Quero com isto dizer que estamos perante uma obra de tal forma rica e complexa, que se torna difícil  definir ou periodizar. Em vez de balizas temporais, ocorre-me, para a caracterizar, uma metáfora musical, muito a jeito, aliás, do universo romanesco antuniano (para além de inúmeras letras de cantigas pontuarem os textos, dos títulos com conotações musicais, o autor em várias entrevistas tem-se referido à estrutura sinfónica dos seus romances): diria que a obra de Lobo Antunes é uma longa composição onde o tema, o…

Ricardo Turnes: opinião sobre Os Cus de Judas

Felizmente que a tropa há-de torná-lo um homem.
Esta profecia vigorosa, transmitida ao longo da infância e da adolescência por dentaduras postiças de indiscutível autoridade, prolongava-se em ecos estridentes nas mesas de canasta, onde as fêmeas do clã forneciam à missa dos domingos um contrapeso pagão a dois centavos o ponto, quantia nominal que lhes servia de pretexto para expelirem, a propósito de um beste, ódios antigos pacientemente segredados.

Um bombardeamento ideológico, quase como uma lavagem ao cérebro. Pega-se no livro (neste, no anterior), algumas páginas volvidas e estamos mentalmente esgotados, enjoados e enojadas pelo realismo cru da abordagem. O bombardeamento é implacável, constante, não nos deixa - não há espaços para - descansar, e pousar o livro não chega. Serve-se de palavras duras, agressivas, de frases excessivamente longas, sórdidas, carregadas de adjectivos e referências culturais dispersas, construídas de forma a nos empurrarem a atenção para o fundo de um labi…

Leandro Oliveira: opinião sobre Eu Hei-de Amar Uma Pedra

O Amor no Livro de António Lobo Antunes
O amor idealizado é um tema que marca a tradição literária portuguesa desde a lírica trovadoresca, com as antigas cantigas de amor entoadas a musas inalcançáveis, até os principais autores portugueses contemporâneos como António Lobo Antunes. São os ecos dessa tradição que dão título ao lançamento do escritor, o romance Eu Hei-de Amar uma Pedra, um verso de um antigo cancioneiro português. A ligação da tradição portuguesa feita no título realça o trabalho ousado de Lobo Antunes ao renovar a literatura portuguesa e mundial, mesmo ao falar mais uma vez da impossibilidade de certas relações amorosas, um tema recorrente, mas que pelas mãos do escritor conseguimos perceber novos detalhes. Apoiado no passado, a obra é poeticamente construída e marca o leitor com um texto montado a partir de estilhaços da memória.
António Lobo Antunes é um exímio escritor que cada vez mais se tem destacado não somente pelos prêmios literários acumulados, mas principalmen…