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29 de novembro de 2014

Karlo Mongaya - opinião sobre O Esplendor de Portugal

O esplendor de Portugal (e a colonização de Angola)

"O Esplendor de Portugal" de António Lobo Antunes é um magnífico romance que lida com o desencanto do colonialismo português em Angola. É a história de uma família de colonos, donos de uma exploração de carácter esclavagista. Família essa que caiu do pedestal da sua antiga glória aos gritos dos guerrilheiros movimentos independentistas angolanos.

A matriarca da família é deixada em Angola, vivendo na miséria com a esperança que os filhos voltarão para o seu lado. Estes, porém, agora adultos, vivem em Portugal as suas vidas desgastadas, todos derramando a parca aparência de humanidade que lhes resta, atormentados pelos fantasmas das suas antigas vivências em Angola.

Sendo um lancinante e angustiado olhar sobre esse "coração nas trevas" real (em oposição à imagísitca orientalista de Joseph Conrad sobre África), "O Esplendor de Portugal" é uma denúncia ao imperialismo, e da forma como tal regime explora esses povos periféricos por forma a sustentar a prosperidade da metrópole.

Graficamente retrata a forma como o poder político e económico, e as relações sociais dominantes que o próprio cria, desumaniza o povo governado, tornado monstros os governantes. É um imponente e temeroso retrato da opressão e da exploração a todos os níveis, através do ponto de vista desses antigos senhores agora despojados do seu poder.

Contado através de um fluxo de pensamentos e de memórias fragmentadas, que poeticamente alternam entre presente e passado, a construção deste romance reflecte o desmoronamento das vidas dos membros da família outrora próspera, embutida na sociedade colonial onde aqueles tinham as suas raízes.

De uma vez obscuro, irónico e poético, o romance imputa clara e significativamente uma extrema consciência de classe e psicologia racista das brutais e hedonistas elites coloniais. "O Esplendor de Portugal" é de leitura obrigatória.


por Karlo Mongaya
18.11.2014
[traduzido do inglês por José Alexandre Ramos]

Karlo Mongaya about The Splendor of Portugal

Dalkey Archive Press edition, 2011
The Splendor of Portugal (and the Colonization of Angola)

António Lobo Antunes’ Splendor of Portugal is a splendid novel dealing with the ugliness of the Portuguese colonial enterprise in Angola. This is the story of a family of settler colonialists that used to own a slave plantation in Angola but has fallen from their former glory in the wake of the Angolan War of Independence.

The matriarch, left in Angola, lives in destitution with the one hope that her children will come back for her. Her children, now adults living wasted lives in Portugal, have all but shed any semblance of humanity, tormented by nightmarish details of their former life in Angola.

A searing and anguished look into this real ‘heart of darkness’ (as opposed to Joseph Conrad’s Orientalist imagining of Africa), Splendor of Portugal is an indictment of imperialism and how it super-exploits the people of the peripheries to sustain prosperity of the mother country.

It graphically portrays the way a political and economic order and the dominant social relations it creates dehumanizes the ruled as it makes monsters of the rulers. It is an awe-inspiring portrait of oppression and exploitation at all levels through the eyes of the now disgraced former masters.

Told through streams of consciousness and fragments of memories that poetically jumps back and forth through time, the novel’s form mirrors the falling apart of their personal lives, their once wealthy family, along with the colonial society they were accustomed to.

At once dark, ironic, and poetic, the novel gives much-needed insights into the extremely class conscious and racialized psychology of the brutal and hedonistic colonial elites. Splendor of Portugal is a must-read.


by Karlo Mongaya
18.11.2014

21 de julho de 2012

Simão Fonseca: opinião sobre O Esplendor de Portugal


«Heróis do mar, nobre povo,
Nação valente, imortal
Levantai hoje de novo
O esplendor de Portugal!
Entre as brumas da memória
Ó Pátria, sente-se a voz
Dos teus egrégios avós
Que há-de guiar-te à vitória.
Às armas, às armas,
Sobre a terra, sobre o mar!
Às armas, às armas.
Pela Pátria lutar!
Contra os canhões, marchar, marchar.»

O excerto do nosso hino nacional que antecede este romance do António Lobo Antunes poderia facilmente sugerir uma glorificação a Portugal. Desde os tempos em que o nosso povo se embrulhou com os britânicos (onde se lê “canhões” lia-se “bretões” na versão original de A Portuguesa), das conquistas asiáticas, africanas e parte do continente americano, temos uma certa tendência a viver do passado e não é à toa que temos uma palavra única sem tradução directa no mundo: a saudade. É isso mesmo, foi pela saudade que Salazar enviou milhares de inocentes para combater pela extensão territorial da Metrópole, como se sabe, mas as coisas ainda se complicaram mais quando Portugal decidiu entregar os territórios africanos e não soube domar essa transição.

Uma família que viveu em Angola e que se viu obrigada a retornar a Portugal sugere a dificuldade a má gestão humana e geográfica dos governos portugueses que não protegeram aqueles que se encontravam a viver em Angola de forma honesta, aqueles que se sentiam angolanos, aqueles que reconheciam a igualdade a todos os níveis entre o povo português e o angolano. Mas neste esplendor altamente satírico à pobreza material e espiritual de um povo que conquistou metade do mundo, há quatro personagens que vão narrando os acontecimentos desde os primeiros tempos do domínio salazarista sobre Angola, passando pelo 25 de Abril, guerra civil angolana e total independência do país, sensivelmente até 1995, data da última narração neste romance. As personagens são três filhos e uma mãe que oriundos de uma família que enriqueceu com a exploração dos escravos negros e que construiu laços e negócios de exportação sólidos com outros grandes países europeus e norte-americanos. 

Dois desses filhos são bastardos fruto de relações extra-conjugais entre um pai, que aparece a falar ao longo de alguns capítulos, e uma mãe de uma zona pobre, que decide entregar-lhe a criança a troco de dinheiro. Numa casa de várias traições amorosas onde o luxo não suprime a falta de carinho que algumas personagens desabafam, quase todos se dão mal, especialmente a mãe e Carlos, um mulato desprezado pela própria avó. Os três filhos são enviados para Portugal sensivelmente quando a guerra civil rebenta e as milícias angolanas andam a pilhar e destruir o império português, de onde, como sabemos, os portugueses eram perseguidos. Muito sangue, muita tragédia e muito saudosismo de personagens que experienciam o auge e o declínio do salazarismo em Angola.

O Esplendor de Portugal é obviamente um retrato satírico não só do declínio geográfico e económico, mas também de um povo que vive ainda no passado e que se lamenta por isso. Apesar de ser um bom livro, as cerca de 412 páginas do livro revelam-se pesadas a determinada altura, caindo facilmente na repetição de ideias – ainda que esta técnica de “tortura” seja habitual em António Lobo Antunes.


por Simão Fonseca
21.07.2012

20 de novembro de 2011

Santiago Pérez Isasi: opinião sobre O Esplendor de Portugal

António Lobo Antunes, para quem não o conhece, é o outro grande romancista Português da segunda metade do século XX (o "outro", sendo o "tal" supostamente, é José Saramago). Na verdade, isso já é uma opinião muito pessoal, Lobo Antunes é mais romancista que Saramago. Saramago será sempre, na minha opinião, um intelectual comprometido que escreveu romances, enquanto que a Lobo Antunes se reconhece como o romancista "de raça" (expressão tão feia), que por vezes faz o seu papel de intelectual.

Comenta-se muito que Lobo Antunes é um eterno candidato ao prémio Nobel, e quem sabe não venha acabando por recebê-lo. Na verdade, eu acho que ele o merece. No entanto, acho que não conseguirá ter esse favoritismo do público em geral, porque não é de todo um autor fácil. O que Lobo Antunes oferece em seus romances (e em O Esplendor de Portugal em particular) é a consciência nua das suas personagens: o discurso da memória, saltando entre diferentes tempos e entre os diferentes níveis (o consciente, o inconsciente, o recalcado) e que vai reconstruindo histórias, mas não uma história no sentido tradicional.

Lobo Antunes exige um leitor não apenas activo, mas também atento, sensível e paciente, porque o que cria são mundos psicológicos e simbólicos através dos quais é possível reconstruir os factos que os provocaram. Neste caso, são quatro as personagens em cujas mentes mergulhamos: uma família constituída por Isilda, a mãe, que resiste isolada na Angola pós-descolonização, e os três irmãos, Rui, Clarisse e Carlos, que regressam a uma Lisboa que já não lhes pertence e que alimentam os seus ódios e ressentimentos mútuos.

O Esplendor de Portugal, como dizia, não é um romance para todos os públicos, não porque descreva cenas horríveis (tem alguma coisa) ou cenas de sexo impudicas (também), mas pela sua estrutura e o seu estilo desarticulado, poético, combinatório, fragmentado, desorganizado, disperso. Entrar no ritmo e no universo que propõe o romance não é fácil; uma vez reconstruído com as peças essenciais (quem é quem, quais as relações entre si, quais são as suas falhas ou segredos escondidos...) a sua leitura torna-se mais suportável, e muito mais profunda. É uma experiência emocionante; muito mais, francamente, do que da maioria dos romances de Saramago que li.

A nota idiota em conclusão: cada vez que eu lia no livro o nome de Clarisse, não conseguia evitar de lembrar-me do filme O Silêncio dos Inocentes: "Quid pro quo, Clarice"... O mal que Hollywood faz às nossas mentes...


por Santiago Pérez Isasi
18.10.2011
[traduzido do castelhano por José Alexandre Ramos]

9 de fevereiro de 2010

Matilde Ferreira Neves: Comentário a O Esplendor de Portugal


«(...) porque não entendemos Angola mesmo tendo nascido em Angola, não a terra, a variedade de cheiros, a alternância de cacimbo e de chuva, de submissão e fúria, de preguiça e violência, Angola, este presente sem passado e sem futuro em que o passado e o futuro se incluem desprovidos de qualquer relação com as horas, os dias, os anos, a medida aleatória dos calendários, quando o único calendário é a chegada e a partida dos gansos selvagens e a permanência das águias crucificadas nas nuvens». -E é nesta incompreensão martirizante e permanente que se encontra mergulhado O Esplendor de Portugal, última obra de António Lobo Antunes, cujo conteúdo nos lembra a inglória dos nossos «egrégios avós» no que toca ao colonialismo português, nódoa que de alguma forma denigre a história da nação e contrasta com a abertura do livro que é a transcrição do hino nacional.

A acção desenrola-se entre a Ajuda, a Damaia e o Estoril, tendo como cenário de fundo, Angola, terra africana que é comum aos protagonistas da história: Isilda, o seu marido e os seus três filhos, Carlos o mais velho, bastardo e mestiço; Rui, epiléptico; e por fim, Clarisse, sedutora e prostituída. Todos marcados por uma estranha solidão que os isola uns dos outros, os deixa carentes e revoltados, todos com uma cicatriz que ainda não sarou: Angola.

A 24 de Dezembro de 1994, começa e termina esta história, cujos saltos temporais são feitos em jeito de recordações daquilo que foi o Império português em África, descrito com palavras de violência, sangue, que nos abrem caminho para uma realidade já em si violenta, sangrenta e chocante. -«O meu pai costumava explicar que aquilo que tínhamos vindo procurar em África não era dinheiro nem poder mas pretos sem dinheiro e sem poder algum que nos dessem a ilusão do dinheiro e do poder que de facto ainda que o tivéssemos não tínhamos por não sermos mais que tolerados, aceites com desprezo em Portugal, olhados como olhávamos os bailundos que trabalhavam para nós e portanto de certo modo éramos os pretos dos outros da mesma forma que os pretos possuíam os seus pretos e estes os seus pretos ainda em degraus sucessivos descendo ao fundo da miséria, aleijados, leprosos, escravos de escravos, cães, o meu pai costumava explicar que aquilo que tínhamos vindo procurar em África era transformar a vingança de mandar no que fingíamos ser a dignidade de mandar».

O que nos surge no horizonte deste livro é uma África desfeita por uma guerra sem sentido, uma África abandonada a si mesma, em que tal como é sugerido na obra, já nem Deus pode valer.

No último capítulo o fim inevitável chega numa calmaria assassina, quando Isilda é executada pelas tropas do Governo, em Luanda, denominada no livro como «terra dos defuntos». Execução que finca a irracionalidade e a impossibilidade de viver ou sobreviver (?) em terras da morte. É o fim mais que bem vindo («Finis Laus Deo») de um caminho, que não se extingue realmente porque a memória existe e dói nas páginas deste romance. No fundo, trata-se de exorcizar através da escrita e talvez mesmo através da leitura.


por Matilde Ferreira Neves
citado daqui
[não datado]

23 de janeiro de 2010

Mary Ellen Farias dos Santos: sobre O Esplendor de Portugal


O real, o imaginário e as lembranças

edição brasileira Rocco

A estética da capa de O Esplendor de Portugal é bastante simples, apesar da cor bastante chamativa. No entanto, o diferencial deste não está fora, mas sim em seu interior, isto é, o texto do escritor português António Lobo Antunes.

Neste, o 13º romance de Antunes, o belo e o cruel de Angola, África, são retratados de maneira inteligente. Outro ponto interessante é o jogo com o leitor, seja na questão do narrador ou nas disposições de certos trechos da obra.

Com um "Q" de Roberto Drummond, Lobo Antunes inclui em sua história personagens com bastante veracidade e outros pouco ficcionais. A história é de uma família de portugueses, brancos, abastados, que vivem do plantio do algodão em Angola.

O pai, por azar dos filhos, é um pobre coitado, alcoólatra e completamente fraco. Sua mulher tenta sobreviver, pois seus três filhos são criados em meio a violência do preconceito. Em meio a flashbacks o leitor conhece estes filhos: o primogênito Carlos, bastardo e mestiço, Clarisse, uma mulher completamente mundana e Rui, epiléptico que sempre está internado em um hospício.

Tudo (aparentemente) começa em 24 de dezembro de 1995, da seguinte maneira: "Quando disse que tinha convidado os meus irmãos para passarem a noite de Natal conosco / (estávamos a almoçar na cozinha e viam-se os guindastes e os barcos a seguir aos últimos telhados da Ajuda) / a Lena encheu-me o prato de fumaça, desapareceu na fumaça e enquanto desaparecia a voz embaciou os vidros antes de se sumir também / - Já não vês os teus irmãos há quinze anos".

Um leitura bastante diferente das que muito (para não se dizer, sempre) se vê por aí. Não há como negar o quanto é difícil ler este livro de uma "tacada" só, mas é ainda mais fácil dizer que apesar da dificuldade, o texto e seu contexto são fatores primordiais que seguram e chamam o leitor para dentro da obra, criando rapidamente um vínculo entre leitor e obra. É simplesmente fantástico mergulhar neste universo de lembranças e versões de uma mesma história. Por tanto seja rápido, aproveite e arrisque-se nesta boa leitura!


por Mary Ellen Farias dos Santos
[não datado]

17 de janeiro de 2010

Milu: opinião sobre O Esplendor de Portugal


O Esplendor de Portugal é um romance da autoria de António Lobo Antunes que desenrola com admirável mestria o cenário, qual quadro impressionista, da colónia de Angola, no apogeu da colonização e no degradante período pós-colonial. Através das suas personagens, nomeadamente aquando do seu papel de narradores, somos levados a viajar no tempo e no espaço do que foram as suas vidas.

António Lobo Antunes usa de um estilo próprio que faz dele um género único, que se caracteriza por um tipo de escrita densa e enfática, muito propícia a adensar os dramas humanos que projecta nas personagens por si criadas, tornando-as deste modo e inequivocamente, em perfeitos candidatos a utentes de um consultório psiquiátrico. Sem dúvida que António Lobo Antunes alia as suas duas facetas profissionais. O profissional de medicina psiquiátrica caminha de mãos dadas com o profissional da escrita.

Este livro centra-se na história de uma família que se desmembra quando os filhos de Isilda, o Carlos, o Rui e a Clarisse fugidos à violência e aos horrores da guerra civil em Angola, demandam para Portugal e se refugiam no pequeno apartamento da Ajuda, em Lisboa, até que chegou um dia em que, Carlos, o irmão mestiço, dominado pela intolerância e pelo ressentimento dos traumas antigos, expulsa os irmãos de casa. Porém, no dia 24 de Dezembro de 1995, Carlos sente-se invadido por uma profunda nostalgia, que lhe traz à memória os seus dois irmãos, e sem mais nem para quê, dá por si a ansiar que estes o acompanhem na noite da consoada. Na demora e na incerteza da presença dos irmãos, embrenha-se num mundo de recordações do que foi sua existência em Angola.

Através dos sentimentos e traumas desta família, avó, pais e filhos, personagens que vão emergindo no decorrer da acção, que ora avança, ora recua no espaço temporal, vamos tomando conhecimento de quão horrível foi a guerra civil de Angola, que a deixou transformada numa colossal poça de sangue, tão devastada que “já nem Deus lhe podia valer”.

A carcomida avó, mãe de Isilda, é-nos retratada como alguém que nutre um profundo ódio aos pretos, que se estende ao Carlos, o seu neto, que não era neto, mas mestiço. Contudo, no seu leito de morte foi à preta Josélia a quem dedicou aquele que seria o seu derradeiro sopro de vida. Despeitada e amargurada pelos desgostos da vida, sofreu na pele a humilhação de ter sido rejeitada pelo marido, que fugia dela como o diabo foge da cruz, privando-a dos ansiados consolos conjugais, refugia-se dos frequentes embaraços no seu tão peculiar gesto de contar as gotas para a tensão, e fá-lo com tal meticulosidade, que todos os que este acto presenciam, dão por si a contá-las também.

A mãe, Isilda, que comprou o Carlos, fruto da traição do marido que se havia envolvido com uma preta e de cuja insídia se vingará entregando-se ao chefe da polícia, ali mesmo no escritório da sua casa, ao alcance da curiosidade dos filhos e perante as barbas do desditoso marido, que transformado num bandalho, se auto-destrói numa profunda dedicação aos gargalos e ao gorjeio do tilintar de copos. A filha, Clarisse, toda ela vaidade e só com olhos para os homens. Tão absorvida nos ensejos da sedução, que foi incapaz de perceber que o farrapo humano que era o seu pai, a amava imensamente, para quem Clarisse sempre foi a sua doce menina, ela que só tinha ouvidos não para os apelos paternos, mas para as buzinadelas que da rua a chamavam. O Rui, que para sua desgraça nasceu epiléptico, em contrapartida, o único da família que era feliz, talvez por ser doido. Ele e a sua espingarda de chumbinhos eram a dupla mais temida das redondezas, já que teimava em apontar a tudo quanto mexia.

O Esplendor de Portugal, que a mim me pareceu o esplendor da vergonha é, enfim, uma obra que alberga no seu coração, as cruas e nuas imagens do horror, do sofrimento, da solidão, do desencanto e da desesperança. Do pior que a vida tem.


por Milu
09.01.2010

3 de dezembro de 2009

Márcia Valadares disserta sobre O Esplendor de Portugal


Antunes, António Lobo. O Esplendor de Portugal. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

A obra do escritor português António Lobo Antunes (também psiquiatra e ex-combatente na Guerra de Angola) não é, ainda, muito conhecida no Brasil, onde somente sete de seus dezenove romances foram publicados até o momento.


Pouco a pouco, entretanto, vemos surgir ações que contribuem para a difusão de sua obra em nosso país, como é o caso, por exemplo, da presença de seu segundo romance,Os cus de Judas (lançado em Portugal, em 1979), entre os livros indicados para o vestibular 2006 da UNICAMP.

Romance após romance, percebemos que a perplexidade e horror frente a guerra e a sociedade contemporânea ganham corpo não só nas situações narradas – que envolvem ex-combatentes ou pessoas comuns que seguem sua vida sem estímulo, abandonadas pelas instituições nas quais confiavam; como também na linguagem e na estrutura dos textos, principalmente com o uso do disfemismo como procedimento de escrita predominante.

No contato com o conjunto da obra desse autor, observamos que o romance O esplendor de Portugal ocupa lugar central por trazer, de forma explícita, esses procedimentos de escrita desenvolvidos de forma bastante complexa e com notável habilidade.

Em O esplendor de Portugal, o ponto de vista principal é o dos portugueses nascidos em Angola, gerações que cresceram e viveram toda sua vida dentro do (ou sob o) pensamento colonialista, e que subitamente se viram frente ao violento processo de independência da colônia, desprezados e rejeitados por suas duas “pátrias”. E esse sentimento de rejeição atravessa toda a história, explicitado de maneiras diversas no discurso de quase todos os principais narradores – Isilda, Rui, Clarisse e, principalmente, no de Carlos (o filho mais velho de Isilda, adotivo e mestiço), em cujo relato verificamos sentir-se rejeitado tanto pela mãe verdadeira – Carolina – que o vende à esposa do pai; como pela mãe adotiva – Isilda – como se esta o houvesse obrigado a partir para Portugal por sentir vergonha de sua origem mestiça; e até mesmo por sua própria esposa, Lena, que, segundo ele, se recusa a engravidar de um mestiço.

Como já nos referimos anteriormente, em O esplendor de Portugal um procedimento de escrita é muito utilizado para explicitar e ressaltar as emoções, memórias e medos dos narradores: o disfemismo, o ataque verbal direto, sem meias-palavras, utilizado de forma tão forte, singular, expressiva e poética na escrita de Lobo Antunes e que pode ser relacionado tanto ao objetivo do autor de revelar toda a crueldade da guerra e do sistema colonizador português, quanto ao fato de sua condição de médico, que vê o avesso de tudo o que vive.

Daí a predominância do feio, do asqueroso, da doença, do ridículo, da ferida, do sangue, da rejeição, que caracterizam o vocabulário de O esplendor de Portugal, esse “romance que não conhece a expressão lateral, ou, se a utiliza, a volve de negatividade.”

O trecho que reproduziremos a seguir é um dos melhores exemplos existentes no romance da utilização cruel e poética do disfemismo:

Devia ter desconfiado que Angola acabou para mim quando mataram as pessoas duas fazendas a norte da nossa, o homem de pescoço para baixo nos degraus, isto é, pregado aos degraus por um varão de reposteiro que lhe atravessava a barriga, a mulher nua de bruços na desordem da cozinha, muito mais nua do que se estivesse viva, sem mãos, sem língua, sem peito, sem cabelo, retalhada pela faca de trinchar com um gargalo de cerveja a espreitar-lhe das pernas, a cabeça do filho mais velho fitando-nos de um ramo, o corpo que a serra mecânica decepara em fatias espalmado no canteiro, o filho mais novo nos fundos(...) misturando as tripas com as tripas do cão, dedadas de sangue nas paredes, os tarecos tombados, as molduras em pedaços, as cortinas das janelas abertas varrendo o silêncio e o cheiro das vísceras...


Para concluir, gostaríamos de ressaltar que em O esplendor de Portugal seus diversos narradores apresentam versões diversas de uma mesma história, sem, entretanto, contradizerem-se uns aos outros. Cada nova versão retoma a anterior, acrescentando a ela (e por conseqüência, ao romance) uma riqueza de detalhes e nuances que nos aproximam dos sentimentos dos personagens de forma raramente encontrada na literatura ocidental.



Márcia Valadares
(Mestre em teoria da Literatura pela Faculdade de Letras da UFMG. Directora executiva do Centro de Estudos Cinematográficos de Minas Gerais - Brasil)
em  TXT
[não datado]

24 de novembro de 2009

Marcela Teixeira Barbosa disserta sobre O Esplendor de Portugal

A sobreposição dos espaços em O Esplendor de Portugal



Espaço é sinônimo de simultaneidade, e é por meio desta que se atinge a totalidade da obra.
(Luis Alberto Brandão, Espaços literários e suas expansões, 2007, p.210)

Acompanhados pela ironia de António Lobo Antunes, deparamo-nos, a cada releitura de O Esplendor de Portugal, com a possibilidade de olhar novamente para o período de decadência colonial português e em especial para A Guerra Civil angolana de 1975 a 2002. O romance, de estrutura psicológica e composto por quatro focos narrativos, conta a história da família de Isilda (uma das personagens e dos narradores) que, em meio a tantos problemas, como o alcoolismo, o adultério, a doença e o falecimento de entes queridos, se vê, devido à guerra, obrigada a se separar, tendo os três irmãos, filhos de Isilda, que fugir para Ajuda, em Portugal, e a mãe que permanecer na fazenda de Malanje junto aos seus empregados.
 
Bastante caracterizada pela sua fragmentação, a obra contemporânea nos permite também discutir a nova concepção do homem moderno sobre a realidade, que não é mais concebida na forma romance somente a partir do tempo cronológico, em que passado, presente e futuro se dão linearmente sem se misturarem. Ao contrário disso, O Esplendor de Portugal denota a apreensão da realidade como aquela que é criada e recriada pelo homem, a partir de sua consciência; e com ele, concomitantemente às suas acções no meio: “espaço e tempo, formas relativas da nossa consciência, mas sempre manipuladas como se fossem absolutas, são, por assim dizer, denunciadas como relativas e subjetivas” (ROSENFELD, 1976, p. 81).
 
Dessa forma, quando se fala em sobreposição de espaços neste trabalho, procura-se apontar para o deslocamento repentino dos narradores-personagens entre um espaço e outro, independentemente se esse deslocamento é realizado entre o chamado espaço abstrato, recuperado no passado pelas lembranças daqueles e, de certa maneira, recriado pela memória de cada um, e o espaço concreto, no qual o personagem se encontra no tempo presente.

É de nosso interesse reconhecer, portanto, algumas das características estruturais desse romance de cunho memorialístico e psicológico que possibilitam a mudança ou o permeio dos narradores-personagens por esses diferentes espaços encontrados na obra. Uma dessas características é a forma como se dá o deslocamento do espaço, que não depende de uma aparente ordem exterior e macroscópica, em que tudo se sucede linearmente; ao contrário disso, está diretamente relacionado à ordem interior, ou seja, à memória dos personagens, mostrando, através de recursos da linguagem - como a interrupção de orações e a repetição de frases ou de alguns trechos do enredo - que “Em cada instante, a nossa consciência é uma totalidade que engloba, como atualidade presente, o passado e, além disso, o futuro, como um horizonte de expectativas” (ROSENFELD, 1976, p. 82):
 
a Lena gorda e de cabelo pintado acabou de secar os pratos, empilhou-os no armário, tirou as luvas e saiu para a sala onde estava o pinheiro de Natal (...)
-Já não vês os teus irmãos há 15 anos
fiquei sozinho na cozinha a ouvir o zumbido do frigorífico e a olhar os morros da Almada, a olhar a fazenda do postigo do jipe a medida que nos afastávamos
(O.E.P, p. 12)


Notamos, no trecho acima, que o narrador-personagem descreve a cena de seu tempo presente – Lena arrumando a cozinha após o almoço – ao mesmo tempo em que ressoa na sua mente a fala da esposa, dita anteriormente durante o almoço, “- Já não vês seus irmãos há quinze anos”. No momento seguinte, o movimento de sobrepor o espaço passado sobre o espaço presente é bastante explícito, pois sem nenhum aviso do narrador, o personagem Carlos, que se encontrava na cozinha de sua casa, está nas orações seguintes dentro de um jipe em Angola. Tal movimento é um traço importante para mostrar que os personagens, assim como nós, seres humanos, não pertencem apenas a um único espaço, o concreto do presente, mas a todos os outros nos quais estiveram no passado, principalmente aqueles onde passaram a infância e a juventude.
 
Sabemos que o ato de leitura se dá de maneira linear e sequencial, ou seja, “os signos dispõem-se uns depois dos outros numa sucessão temporal ou espacial” (FIORIN, 2006, p. 65), por isso para alcançar o efeito de simultaneidade, o de que há diversas coisas acontecendo ao mesmo tempo, claramente demonstrado no trecho selecionado e alcançado durante todo o romance, é preciso causar uma aparente desorganização estrutural, “uma continuidade que aparece no seio da descontinuidade" , visto que se segue a ordem da consciência, do fluxo psíquico, alterando, portanto, a ordem comum em enredos tradicionais, que se baseavam na lei de causa e efeito: “com seu encadeamento lógico de motivos e situações com seu início, meio e fim” (ROSENFELD, 1976, p. 84). Sendo assim, podemos fazer uma analogia entre o que afirmou Joseph Frank a respeito da poesia moderna e a estrutura de fluxo de pensamento e a fusão dos tempos e espaços desenvolvidas em O Esplendor de Portugal: “A relação do sentido é completada somente pela percepção simultânea, no espaço, de grupos de palavras que não possuem nenhuma relação compreensível entre si quando lidos consecutivamente no tempo” .
 
Assim, como pudemos perceber no exemplo, em O Esplendor de Portugal, as orações e o enredo, que é extremamente recortado, não obedecem a uma ordem lógica pré-estabelecida, e, por isso, exige a leitura atenta, visto que nem os narradores se mantêm os mesmos, revezando-se dois, um a cada capítulo (Carlos e Isilda na Primeira Parte; Rui e Isilda na Segunda e Clarisse e Isilda na Terceira), o que oferece ao leitor diferentes visões sobre um mesmo espaço compartilhado por todos eles no passado. Logo, podemos afirmar que a sobreposição dos espaços é realizada pelo menos de duas maneiras: através do deslocamento psíquico dos personagens entre o espaço de Portugal, no presente, para o de Angola, no passado; e através das narrações desenvolvidas por cada um, que ao mesmo tempo em que se sobrepõem, pois cada um irá expor seu ponto de vista, se complementam, visto que abordam situações subjetivamente, dando ao romance o caráter de mosaico, “de uma série de elementos descontínuos” (BRANDÃO, 2007, p. 210) que se encontram na totalidade do romance e formam o todo compreensível.
 
Encontramos no texto a fusão entre o espaço concreto (do presente) e o espaço abstrato (do passado ou do futuro), que segundo Luis Alberto Brandão, em seu artigo Espaços literários e suas expansões, podem ser “partes autônomas, concretamente delimitadas, mas que podem estabelecer relações entre si”, ao mesmo tempo em que são também “a interação entre todas as partes, aquilo que lhes concede unidade, a qual só pode se dar em um espaço total, absoluto e abstrato, que é o espaço da obra” (BRANDÃO, 2007, p.210). Exemplo disso está em um dos fragmentos finais do romance, em que, por se encontrar em um angustiante espaço concreto, devastado pela guerra, Isilda imagina-se em uma reunião familiar na noite de Natal: ela cria um espaço abstrato onde realiza o seu grande desejo de estar junto à família. Vemos, então, o espaço da guerra e o outro da ceia de Natal se formarem como partes autônomas, a concreta e a abstrata, e mesmo assim manterem relações entre si, ao mesmo tempo em que se unem formando o espaço absoluto:

as paredes da sala, os bibelôs, os quadros a ecoarem segundo o ritmo das árvores e a cadência das ondas como o algodão durante o jantar quando o Fernando trouxer a canja, o peru, o bolo-rei, os sonhos, as fatias douradas, o espumante, o meu marido acender as velas do pinheiro, O Damião a amontoar os presentes contra a jarra (...) os tractores à porta do armazém, os pavios da senzala confundidos com as escamas do rio e as arestas da pedra onde as mulheres lavavam roupa de manhã, dizer ao Fernando que sirva a canja e o peru enquanto não me mandam subir ara a camioneta com os restantes dos condenados (O.E.P, p. 373).

Outra importante característica estrutural da obra é a polifonia, que funciona como recurso para mostrar que nem o espaço, ao qual o homem está ligado, nem o próprio homem, possuem traços tão nítidos e acabados que possibilitem somente uma única visão ou um único entendimento a respeito deles, bastando somente um novo olhar para que formas consideradas prontas e imutáveis sejam desmontadas para depois serem remontadas diferentemente, sob outro foco. Enquanto Isilda faz digressões ao passado, ora porque não reconhece mais a sua casa depois da partida dos filhos para Portugal, ora porque não reconhece a cidade de Luanda, devido à Guerra que a transformou em “cidade dos defuntos”, os seus filhos se vêem presos ao espaço de Angola não somente pelo sentimento de nostalgia do que era e do que poderia ter sido, como se pode pensar, mas porque além de terem deixado inúmeras situações familiares mal resolvidas, percebem-se no presente em um espaço no qual não se sentem aceitos. Resta-lhes fugir para um espaço seguro no passado, ou idealizar o futuro. Carlos, por exemplo, para se livrar da solidão, idealiza a chegada de seus irmãos à ceia de Natal que preparou em sua casa, chegando ficar horas numa contagem obsessiva enquanto os espera:

eu a contar até cem, até quinhentos, até mil certo que viriam porque mandei um telegrama (...) o Rui daqui a nada no apartamento comigo a oferecer-me um porta-retratos ou um cinzeiro ou um livro, normalíssimo, de sapatos engraxados(...) a Clarisse que daqui a nada me vai saltar ao pescoço agradecida do perfume,(...) a Lena, a Clarisse e o Rui e eu quinze anos depois como se estivéssemos em África (O.E.P, pgs. 20, 38, 43 e 47).

Notamos, então, mais uma relevante função do elemento espaço e de suas sobreposições: a de apontar personagens incompletas e ambíguas, que buscam recordações e reflexões sobre outros tempos e espaços para, se não preencher, pelo menos tentar entender o vazio interior que lhes incomoda, oriundo talvez da falta de afetividade familiar e da ausência de um lugar próprio no mundo, muito bem expresso pelo pai de Isilda, que já previa a expulsão dos portugueses das terras africanas:

expulsos através dos angolanos pelos americanos, os russos, os franceses, os ingleses que não nos aceitam aqui para chegarmos a Lisboa onde não nos aceitam também, carambolando-nos de secretaria em secretaria e ministério em ministério por uma pensão do Estado, despachando-nos como fardos de quarto de aluguer em quarto de aluguer nos subúrbios da cidade (O.E.P, p. 244 e 245).

Seria, entretanto, um grande equívoco considerar que a função do espaço consiste principalmente em melhor caracterizar os personagens, ou seja, ressaltar e enfatizar as suas personalidades. Primeiro, porque, como já discutimos aqui, as personagens desse romance não são delimitadas, maniqueístas e imutáveis. Percebemos, por exemplo, mudanças comportamentais e psicológicas que se dão de forma gradativa em Isilda conforme ela avança no seu percurso pelo território angolano, de Malanje à Luanda. Os “caminhos” percorridos pelos três irmãos, que os levaram a se encontrarem na maneira como os conhecemos, isolados uns dos outros e ao mesmo tempo tão próximos, também são aos poucos revelados, visto que a narrativa é fragmentada e a narração dos mesmos se passa cronologicamente em apenas um dia, no Natal de 1995. Tal esclarecimento, segundo George Lukács, é indispensável, principalmente quando está diretamente relacionado ao enredo, como acontece em O Esplendor de Portugal:

Muitos escritores sentem a necessidade de tornar conhecida a vida íntima dos seus personagens: e isso, sem dúvida, já constitui um avanço. (...) esta vida íntima só pode, também, se tornar significativa, quando ligada ao entrecho de um romance, como premissa, etapa ou consequência de uma ação individual. Em si mesma, a descrição estática da vida íntima é tão natureza morta como a descrição das coisas. (LUKÁCS, 1968, p. 96).

Segundo, porque o espaço é, obviamente, essencial para o bom desenvolvimento do enredo historiográfico. Assim, há momentos na narrativa em que o espaço surge como denúncia da destruição acarretada pela guerra, e da crueldade humana, sendo descrito de forma bem nítida, para que fique bastante demarcada a diferença entre os dois espaços referentes ao mesmo lugar, como por exemplo, a cidade de Luanda:

Luanda era a cidade dos defuntos, ocupada da marginal aos musseques pelo cheiro e os vapores dos defuntos que afugentavam os vivos, mesmo os catangueses de colares de orelhas que se alimentavam de texugos, mesmo os cubanos que juravam alimentar-se de placentas de grávidas, mesmo os mendigos da baía que se alimentavam de si próprios com uma boca virada para dentro a mastigar a mastigar, como Luanda era a cidade dos defuntos (O.E.P, pgs. 316 e 317). Não pode ser Luanda porque não encontro a Samba Pequena, a Samba Grande, a Corimba, o barco do Mussulo. (p. 344)

A denúncia é igualmente bem realizada através da ironia presente na descrição da fazenda, por exemplo, ocupada pelos trabalhadores africanos, que se encontram em estado deplorável de saúde, higiene e, enfim, de direitos humanos básicos:

não se cansavam de morrer de ambiana mal chegavam em camionetas de gado, fingindo-se moídos da viagem para não trabalhar, desatavam logo com vómitos e febre, o administrador teimava que agonizavam de propósito, introduzia um cubo de gelo no ânus do soba para servir de exemplo mas na quarta-feira já o soba estava morto e enterrado e os súbditos, fidelíssimos, apressavam-se a copiá-lo(O.E.P, p. 17).

Torna-se redundante dizer, que, de acordo com algumas das características e das funções espaciais aqui denotadas, António Lobo Antunes alcançou profundidade em sua obra, pois, além de muitos outros fatores, não se prendeu a elementos superficiais no romance, como descrições exaustivas sobre o espaço exterior, da mesma maneira como não menosprezou esse espaço concreto, dando-lhe destaque, quando necessário para o bom desenvolvimento do enredo; assim como não se perdeu em digressões sem sentido ou que seriam dispensáveis a leitura da obra:

o grande escritor deve observar a vida com uma compreensão que não se limite à descrição da superfície exterior dela e nem se limite à colocação em relevo, feita abstratamente, dos fenômenos sociais: cumpre-lhe captar a relação íntima entre necessidade social e os acontecimentos da superfície, construindo um entrecho que seja a síntese poética dessa relação, a sua expressão concentrada (LUKÁCS, 1968, p. 95).

Podemos então dizer que o conhecimento do espaço do romance O Esplendor de Portugalocorre ora através das lembranças do espaço pertencente à memória dos narradores-personagens de tempos passados em Angola, mostrando o quanto eles se encontram enraizados à terra africana, ora através da “volta” dos mesmos ao contexto atual, em Ajuda, seja por um ruído de carro que passa pela rua e alerta Carlos, que aguarda os irmãos ansiosamente, seja pelo desenho animado que passa na televisão e atrai a atenção de Rui ou pelo despertar de Clarisse, que dorme à janela. Aos poucos, o leitor conhece a sala da fazenda de Malanje, a sala do apartamento de Carlos, a clínica em que Rui se encontra internado e a sala da casa de Clarisse, por exemplo. O espaço não é descrito linearmente, pois não estaria de acordo com a estrutura fragmentada do romance; ele surge junto às ações dos personagens que nele atuam, mais narrado do que descrito. Não devemos esquecer de apontar para o caráter essencial de todos os objetos que preenchem o espaço e, por isso, não aparecem gratuitamente na narrativa. Sabemos que há estante com gavetas na sala, porque é nelas que Amadeu esconde as suas garrafas de bebidas alcoólicas, e é na bebida que ele se esconde da vida; tomamos conhecimento do grande relógio da fazenda de Malanje, porque é ele que mantém, como acreditava Carlos na sua infância, viva e segura a sua família, assim como vemos as máscaras decorativas na sala de Lena, porque essas falam a Clarisse. Logo, torna-se relevante dizer que os elementos espaciais representam sempre algo que diz respeito à história dos personagens. É na segurança da casa que os filhos de Isilda buscam se encontrar, voltando-se para a sua história, porque “a casa abriga o devaneio, a casa protege o sonhador (...) a casa é um dos maiores poderes de integração para os pensamentos, as lembranças e os sonhos do homem” (BACHELARD, p.23). É por isso que Isilda cria em sua mente, como uma fuga da realidade dura da guerra, uma “casa” em harmonia, pois essa é a maneira por ela encontrada para se proteger da realidade concreta. Enfatizamos, para concluir, a importância da sobreposição desses objetos, espaços, e por que não, narradores-personagens, na estrutura narrativa da obra, que contribuem para o chamado efeito de simultaneidade, permitindo uma apreensão mais complexa e ambígua sobre a realidade e sobre o ser que a ela pertence, tornando o romance um todo fragmentado, que possibilita diversas janelas de interpretação relacionadas à montagem desses fragmentos pelo leitor.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANTUNES, António Lobo. O Esplendor de Portugal. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.
BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. Rio de Janeiro: Eldorado, 19??.
BRANDÃO, Luis Alberto. Espaço literário e suas expansões. Separata de: Aletria: v. 15, p., 207-220, jan./jun, 2007.
DIMAS, Antônio. Espaço e romance.São Paulo: Ática, 1985
HUTCHEON, Linda. Poética do Pós-Modernismo. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1991
LINS, Osman. Lima Barreto e o espaço romanesco. São Paulo: Ática, 1976.
LUKÁCS, George. Narrar e descrever_ in: Ensaios sobre literatura. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.
LUKÁCS, George. A teoria do romance: Um ensaio histórico-filosófico sobre as formas da grande épica. Trad. de José Marcos Mariani de Macedo___ São Paulo: Editora 34, 2000.
ROSENFELD, Anatol. Texto e contexto. Rio de Janeiro: Perspectiva, 1976.


por Marcela Teixeira Barbosa
em  MartigoS
13.12.2008

6 de maio de 2008

Daniel Osiecki: opinião sobre O Esplendor de Portugal


A marca do Lobo: estilhaços da pós-modernidade

Uma das marcas da modernidade é a quebra com o tradicional, e se tratando de literatura, muitas vezes essa quebra se evidencia de forma nada sutil. Atualmente se convencionou chamar as novas tendências artísticas de pós-modernas, que tratam exatamente de temáticas diversas, porém, a forma adquire um significado especial. É um ranço do movimento antropofágico que permeou as correntes estéticas do início do século XX, mas que na chamada pós-modernidade adquiriu proporções maiores.

Na literatura nomes como James Joyce, Virginia Woolf, T.S. Elliot e Marcel Proust produziram narrativas e textos poéticos que de certa forma apresentavam um formato novo de narrativa ou de poesia, causando dessa forma uma revolução nas artes em geral. A quebra com um narrador único e distante dá lugar a um movimento polifônico e experimental, mas é uma experimentação consciente e trabalhada que em momento algum cai no senso comum.

Muitos autores portugueses produziram também a chamada narrativa hiperbólica pós-moderna, criando assim, muitas vezes, diversos narradores em um único romance, por exemplo, autores como Augusto Abelaira em seu romance Bolor, Vergílio Ferreira, José Cardoso Pires e António Lobo Antunes, este último com uma marcada característica pós-moderna que se caracteriza pela desconstrução da forma clássica de romance e a imersão quase total num universo fragmentado e polifônico.

Lobo Antunes publica desde 1979, mesmo ano em que seu rival literário e ideológico, José Saramago, publica seu primeiro romance relevante, Levantado do Chão, e o psiquiatra que esteve em Angola como oficial do exército português encontrou em suas experiências de guerra temas constantes para sua literatura. Os Cus de Judas é seu primeiro romance e trata dos conflitos internos de um médico psiquiatra que retorna de Angola completamente mudado e enfrentando fortes embates existenciais. O universo sombrio e constantemente marcado por uma embriaguez física e intelectual de seus protagonistas tornam suas narrativas densas, pesadas e profundamente poéticas.

O romance O Esplendor de Portugal (1997) apresenta quatro narradores diferentes ao longo da narrativa. Trata-se da trajetória conflituosa e permeada de percalços de uma família de descendentes de portugueses que vai para Angola por motivos misteriosos e lá constituem família e prosperam como donos de terras. Mas a vida que levam é repleta por faltas morais graves e por carências de relações humanas e familiares, que dão à narrativa um tom amargo e irônico. Desde o pai, Amadeu, um alcoólatra que ignora as relações extra-matrimoniais da esposa Isilda, uma das narradoras, com um oficial da polícia de Luanda, até o filho epiléptico, Rui.

Os outros três narradores são seus filhos, Carlos, Rui e Clarisse, todos de certa forma apresentam características pessoais que fazem com que não se integrem na sociedade e vivam, desta maneira, numa espécie de labirinto no qual são impossibilitados de sair por conseqüência de suas próprias atitudes. Todos estão condenados a uma solidão irredutível que nenhum deles havia desejado, mas não fazem força alguma para mudar o quadro atual de suas vidas. A miséria que é vista por todos durante o tempo em que viveram em Luanda reflete também a miséria da condição humana, representada aqui pelo horror da guerra.

A narrativa fragmentada é construída de forma que cada narrador se integre ao outro, formando assim um exemplo clássico da mais bela prosa poética. A dureza dos acontecimentos é quebrada, às vezes, ao percebermos a linguagem que conduz os fatos, de forma que a dramaticidade da narrativa é tão forte que o leitor se sente tenso durante toda a leitura, mas essa dureza também é sublime e destaca-se pela forte supressão de imagens.

A falta de pontos, parágrafos e a ausência da norma padrão da linguagem são elementos típicos de Lobo Antunes, e o leitor assim é forçado a descobrir os significados das sentenças e dos períodos, quase sempre deixados à deriva para serem rigorosamente degustados pelo leitor. Prática essa típica da pós-modernidade. Num romance como esse, talvez a marca mais forte seja a presença arrebatadora de uma narrativa polifônica, que ao mesmo tempo em que exige do leitor um rigor maior, também dá mais espaços a sua prática como leitor-empírico. A fragmentação, a prosa poética e a experimentação formal são as marcas principais de António Lobo Antunes, e desse romance em especial. Lobo Antunes se propõe a uma construção narrativa rigorosa e metódica ao mesmo tempo em que a desconstrução de uma voz única de um protagonista se evidencia através da alteridade e do discurso híbrido.


Daniel Osiecki
04.04.2008

29 de agosto de 2006

José Romero P. Seguín: Impressões sobre o romance «El Resplandor de Portugal»


Ler o romance de António Lobo Antunes, "O Esplendor de Portugal", é como ler espelhos inquietos. Mas não num lugar asséptico, cómodo e decente para tão plácida tarefa, mas sim lê-los de pé ou de cócoras lá onde eles apodrecem já esquecidos e também lá onde mal vivem não menos esquecidos.

Luanda e Lisboa, Lisboa e Luanda, África e Europa definitivamente, malditas ambas na sombria e decadente imagem da memória ao menor fulgor de esperança. Assim são as personagens. Sente-se que as imagens entram e saem em si confundidas como na forja do espelho corrompido as silhuetas que não sabem onde começa a sombra que são e a sombra que foram. Para ir dotando de sentido o que não tem sentido, das vidas derrotadas para lá da culpa. Vidas atadas a um esplendor urdido sobre a miséria dos outros e como tal miserável.

África ofereceu-lhes para além da ambiciosa oportunidade de medrar economicamente, a possibilidade de serem um grotesco arremedo desse estatuto de dignidade que na orgulhosa e decrépita Europa lhes era negado. Procuravam, e assim o exprimem, em África, algo mais que riqueza, a estima social, a necessária reafirmação pessoal da sua singular condição, e um dia descobrem nos fracos e humilhados olhos dos negros que os servem e que não são senão os negros dos brancos filhos da metrópole. E o que é mais terrível, é que em tão pobre viagem tenham dilapidado não só as suas vidas como também a de milhares de homens. Mas como compreendê-lo, simplesmente não podem permitir-se a tal, devem-se à legítima vontade de sobreviver, e que melhor para eles que viver através da memória para recordar sem outra culpa que a de não permitir nunca que a imagem os mostre terríveis e completos no espelho de sua alma.

Os povos derrotam-se homem a homem, e uma vez derrotados, tudo quanto nasce das suas mãos é feito sob este terrível desígnio, até que homem a homem se levantam como povo, para um esplendor fugaz mas capaz de dotá-los da dignidade que como povo merecem. A colonização junto com a ditadura sufocou e derrotou Portugal, a revolução dos cravos elevou-o à mais digna das vitórias. Essa é uma flor oculta que Antunes não define, mas sobre a qual cimenta a magnífica catedral dos seus sonhos.


por José Romero P. Seguín, escritor
enviado por e-mail em 29.08.2006
[traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos]

28 de fevereiro de 2005

Cristina Robalo Cordeiro: Recensão crítica na Colóquio Letras nº 149/150 de Julho de 1998 – pp. 431 e 432


«Escrever é sempre estruturar um delírio», diz Lobo Antunes, em entrevista ao jornal francês Le Monde de Novembro de 1997. Estruturar significa dispor as diversas partes em composição lógica dotada de sentido, construir um todo rigoroso, necessário e suficiente. E delírio, um estado de agitação emocional causado pela persistência de ideias em oposição manifesta com a realidade (ou com o bom senso), que conduz a uma construção simbólica em que entramos e nos instalamos em atitude de «suspensão de incredulidade».O Esplendor de Portugal é a estruturação perfeita de um delírio sem defeitos.

Angola. Imagens de uma terra por onde escorre toda a nostalgia do paraíso perdido. Angola e os caminhos de Angola, e as cores e os cheiros e o céu de Angola. Memória - ainda e cada vez mais - de elefante guardada como um bem, e que a fractura do tempo restitui agora em anéis que progressivamente se vão apertando.

Lisboa também, terra onde desaguam as mágoas dos que a ela regressam sem lhe pertencerem, estranhos ao palpitar da cidade onde tudo parece acanhado, tacanho, insípido, incolor.

Angola, Lisboa e uma família: Isilda, a mãe, Amadeu, o pai alcoólico, e os filhos: Clarisse, a leviana, Rui, o louco, Carlos, o mestiço, que casa com Lena, a repudiada, e algumas outras figuras a gravitar em torno deste núcleo central - família quebrada, desmembrada que equaciona a vida num misto paradoxal de paixão e de ressentimento.

Angola, Lisboa, uma família, em teia de palavras que constroem um universo imaginário através de uma composição exemplar: três partes, todas com dez capítulos, nos quais alternam sempre duas vozes: a da mãe, e as de cada um dos filhos, respectivamente Carlos, Rui e Clarisse. A voz da mãe, presente, pois, em cinco capítulos de cada parte, atravessa o tempo, varrendo anos por onde perpassa não apenas o presente do mundo que se desmoronou - de 24 de Julho de 1978 a 24 de Dezembro de 1995 - mas também uma época passada onde se entrevê certo brilho do mundo antigo, e que no seu discurso se confundem e misturam labirinticamente. Esta voz - como eco distante - entrelaça-se metodicamente com a dos cantos solitários dos filhos para lhes servir de referência e ir dando sentido aos farrapos dispersos das representações que configuraram o seu mundo mental e afectivo. Imagem de fidelidade - alegoria também do mundo que resiste: batida por todos os ventos, bons e maus, Isilda ampara, compõe, cola os estilhaços das coisas, para se deixar por fim confundir com a própria terra que a acolheu, rendida à sua força, aspirada pelo seu magnetismo.

A voz dos filhos ouve-se em monólogos interiores de temporalidade simultânea - voz de três consciências em noite de consoada «desunida», ligada pelo fio do pensamento que vai de uns para os outros. Carlos espera os irmãos, que não vê há quinze anos, para a ceia de Natal do ano de 1995, no seu pequeno, triste e degradado apartamento da Ajuda. Rui e Clarisse furtam-se ao encontro cheio de um sentido que já não faz sentido. As escassas horas de reunião familiar - que não chega a ter lugar - preenchem-nas os três irmãos, cada um no seu canto - e capítulo -, a embater na disforia dos seus quotidianos e a percorrer a lembrança de sítios e de gentes, lembrança que ora os aproxima ora os afasta, num movimento em tudo igual ao da vida. E são então as imagens de uma infância de alegrias e de invejas, de cumplicidades e de denúncias, de descobertas e de misteriosos segredos mal guardados pelos adultos e que não escapam ao olhar ao mesmo tempo ingénuo e lúcido das crianças que foram - as saídas da mãe, as visitas do chefe da polícia, a doença do Rui, a origem do Carlos, a causa do alcoolismo do pai. E também a presença de figuras tutelares, guardiãs de mundos ancestrais e opostos, pressagiadoras de um mal indizível e antigo: a avó, a Maria da Boa Morte. E dos objectos familiares - a boneca sem braço, o relógio da casa, «a esfera de vidro com renas a puxarem um trenó», as máscaras de madeira - onde bate o coração da vida de cada um.

E assim todos os momentos, todos os passos da história deste pequeno mundo são difractados por ângulos e olhares diversos - se não mesmo opostos - e todas as fotos deste álbum de família trazem rostos, gestos, posturas ao mesmo tempo reais e aparentes, de seres e de fantasmas, imagens! E a linha da vida das personagens, traçada aqui na fronteira do desencanto e da loucura, mais não faz do que reflectir a imensa, inevitável e atraente desordem do mundo!

Tudo isto no cenário de uma terra saqueada, esventrada, manchada por sangue fratricida, de uma História (de um mundo colonial) que não é costume contar-se assim, pois obriga a pensar as coisas de outro modo: os seres (iguais e diversos), a complexidade ambígua das suas relações, os valores que os regem - expressos pelos mesmos conceitos que nem sempre têm o mesmo valor -, os olhares que os guiam - de olhos que não olham da mesma maneira e que, olhando as mesmas coisas, vêem coisas diferentes.

E os quadros desta polifonia de vozes inquietas são eles próprios invadidos por outras vozes - as de fora: dos mortos que se recusam a morrer, dos ausentes que se recusam à ausência, dos outros (todos) que atormentam a vida (os sonhos ou as ilusões) de quem vive, e sobretudo ainda vozes de dentro: as que se escondem por detrás da consciência, as vozes dos desejos, dos medos e das angústias, que se recusam ao silêncio e gritam a loucura que espreita em cada dobra do ser. De todas estas vozes é feita a voz de cada personagem e por todas elas é habitada (decerto) a do Autor. O que se traduz por uma escrita que sistematicamente se suspende, se interrompe e se retoma mais adiante,cruzada de falas distintas - corporizadas em parágrafos, itálicos, parênteses que se entrelaçam (em mnemotecnia de apelos, alusões, variações, repetições), como se todas falassem ao mesmo tempo sem perderem o rumo do que dizem, dialogando sem dialogarem, entendendo-se sem se ouvirem. Em definitivo, um tecido textual que parece caótico mas não é, feito de fronteiras que o não são - estanques, as parcelas desta grande construção (de mundos, de seres, de emoções) são no entanto porosas e transmutáveis, e entre elas circula um fluido a que se chama vida (que o mesmo é dizer aventura insensata, delírio!) -, balizado por contrários que não encerram contradição: sob o modo dual da dissonância/consonância (discursiva), da transparência/opacidade (psicológica), do contínuo/descontínuo (temporal), em cenário atravessado pela morte (real, fantasmada, imaginada) e por formas várias de desamor, irrompe (em tudo e em todos), como um clamor trazido das profundezas, a força pulsional da vida e dos afectos.

Tudo enredado em prosa narrativa próxima do expressionismo literário, no excesso e navertigem obsessiva das palavras que infinitamente repetem o que é único e, no gosto e da distorção e da hipérbole, transformam o facto em acontecimento, entrançam o físico e o metafísico, a essência e a substância das coisas que aqui parecem brotar de uma mesma acidentalidade (fatal?, mítica?) visionária, arrastam o mundo e os objectos a metamorfoses que os ampliam e transfiguram.

Também o título deste romance de António Lobo Antunes é perfeito: não é com sarcasmo que se evoca «o esplendor de Portugal» em imagens de um submundo degradado e sórdido.  A magia (a ironia?) está na forma como neste mundo brilha O Esplendor de Portugal.


Cristina Robalo Cordeiro
Colóquio Letras 149/150
Fundação Calouste Gulbenkian
Julho de 1998

17 de dezembro de 2004

Ängela Beatriz Faria disserta sobre O Esplendor de Portugal


O ESPLENDOR DE PORTUGAL, de António Lobo Antunes: "o desencantamento do mundo e a desrazão"
Um povo que não reflecte sobre a própria
história arrisca-se a perder a identidade.
("A guerra distante" - Joaquim Vieira)

O conhecimento do mundo exterior, sem o conhecimento
de si mesmo, desertifica o mundo e não nos traz felicidade.
( Vestígios: escritos de filosofia e crítica social - Olgária Matos)
O esplendor de Portugal, décimo segundo romance de António Lobo Antunes, publicado em Lisboa, em 1997, referencia o entrecruzamento da perspectiva história e da configuração de subjetividades presentes nas epígrafes selecionadas por nós.
O título, sarcástico e instigante (bem ao gosto do autor), veio a ser retirado de um dos versos da letra do Hino Nacional, da autoria de Henrique Lopes de Mendonça, erigido como epígrafe do novo romance e apresenta um diálogo intertextual com o Hino adotado pela República ("Contra os bretões, marchar, marchar!") e seu sentido antibritânico incutido por causa do Ultimatum, como tão bem assinalou Carlos reis, no ensaio crítico publicado no JL e intitulado "Um romance repetitivo":
Heróis do mar, nobre povo,
Nação valente e imortal,
levantai hoje de novo
o esplendor de Portugal!
Dentre as brumas da memória
ó Pátria sente-se a voz
dos teus egrégios avós
que te há de levar à vitória.
Às armas, às armas,
sobre a terra e sobre o mar!
Às armas, às armas,
pela Pátria lutar!
Contra os canhões marchar, marchar!
Este texto fundador de uma nacionalidade, uma vez recontextualizado em um período pós-colonial, leva o leitor a refletir sobre uma das questões formuladas pelos romances portugueses contemporâneos e que diz respeito ao vazio existencial, decorrente do colapso das grandes narrativas de transformação social como o comunismo e o socialismo, que eram, de algum modo, sistemas éticos transformados em projetos políticos. Finda a utopia revolucionária político-social, instaurou-se uma antiutopia, marcada pelo "desencantamento do mundo e pela desrazão".
É exatamente isto que surge na plenitude criativa da escrita de Lobo Antunes: "brumas" recentes da memória e da História serão desveladas neste romance, que se configura como um diário (não canônico) de membros de uma família, seu poder e decadência em África, em períodos que antecedem a guerra colonial e após a independência das colônias. Neste tempo assinalado historicamente e cuja aventura é partir ou ficar, o leitor atento observará, segundo o ensaísta citado há pouco, a "refutação das mitologias públicas e privadas, como a pátria e seu esplendor, a família e seus rituais". O fulgor ou resplendor1, a grandeza ou a suntuosidade característicos de um momento solar e eufórico do Império português cederão lugar a um tempo pós-colonial e a espaços degradados: Angola destroçada, referenciada em ruínas e ocupada pelo FNLA, pela UNITA, tropas "fandangas" do Governo, sul-africanos, mercenários russos, americanos, cubanos, belgas, franceses e ingleses; os musseques e Luanda, a cidade inacabada e dos "defuntos"; Lisboa a desprezar e rejeitar os colonos recém-chegados, "despaisados" e desterritorializados na geografia do exílio (OEP, 256-7).
Esta discursiva da pós-colonialidade, epopéia às avessas, inscreve uma "simultaneidade de sentires, filamentos de memórias refletindo-se no espelho quebrado da perda das identidades"2 ou da sua busca. Assim, as vozes múltiplas que preenchem as páginas dos diários se auto-definem e ao processo histórico, assinalando a sua condição de marginalizadas pela sociedade: Carlos, filho bastardo e mestiço, à espera inútil dos irmãos que expulsara de casa, em uma noite de Natal; Rui, epiléptico e isolado da família em uma casa de saúde, por transgredir regras de bom comportamento; Clarisse, fixada à imagem do pai e considerada prostituta, cujo meio de sobrevivência consiste em relacionar-se com vários homens, para manter o luxo a que se tinha acostumado; Isilda, mãe dos três, colonizadora expulsa da própria fazenda em África, ao ser inaugurada uma nova "ordem" social, sempre acompanhada de uma empregada africana – Maria da Boa Morte –, errante pelas picadas de Marimbanguengo, com "um pano do Congo amarrado à cintura e matacanhas nos dedos" (OEP, 177), na sua "sina de inventar um presente que deixou há anos de existir" (OEP, 87).
Nesta epopéia às avessas, prenhe de armadilhas, Isilda insiste em recusar a realidade (julga que Maria da Boa Morte representa a própria morte e ordena que levante do chão, em que jaz ensangüentada – OEP, 367) e, em sua fuga, empreende uma viagem em busca de salvação (e não mais de riqueza, como no tempo da expansão ultramarina). Ela e sua tripulação jamais alcançarão a Ilha dos Amores, ficarão no meio do caminho, pois irão deparar-se com os soldados – adamastores bem sucedidos que concretizam a ameaça. Encontram, em sua navegação existencial e à deriva, o Cabo das Tormentas e não o da Boa Esperança. Ao pressentirem a trágica morte que se aproximava, compreendem que "estavam inchadas como os cadáveres da guerra à espera que o capim se fechasse sobre elas depois da partida dos pássaros" (OEP, 329).
Ao referir-se ao seu ofício de escrever, durante uma entrevista, Lobo Antunes pronunciou-se:
[...] o que os estrangeiros dizem que trago para a literatura não é mais do que a adaptação à literatura de técnicas de psicoterapia: as pessoas iluminarem-se uma às outras e a concomitância do passado, do presente e do futuro. "A escrita é um delírio controlado" – já lá dizia Antero e antes dele, Horácio: "Uma bela desordem, precedida de furor poético, eis uma ode."3
Esta singular escrita do autor torna-se capaz de revelar a crise da subjetividade coerente, o ensimesmamento e a "escrita de si", característica do período finissecular. Ao se pronunciarem, autobiograficamente, através de monólogos interiores ou solilóquios, na pseudo-escrita de um diário, as personagens iluminam-se umas as outras, através do fluxo da consciência. Desejos, emoções e paixões surgem como categorias políticas e, como afirma Olgária Matos,
É por não ser nunca idêntica a si mesma, que a identidade se apresenta na grande metáfora da viagem – deslocamento mo espaço e no tempo, referida mo território interno do próprio viajante; nela arriscamos nossa própria transformação.4
Na configuração deste diário não ortodoxo (que não obedece a uma sucessão cronológica e nem contém confissões de uma única personagem, mas sim de várias), observa-se a fixação de memórias estilhaçadas e fragmentárias, imagens repetitivas e vozes entrelaçadas, passíveis de superpor tempos e espaços diferenciados. Há uma voz – a da Lena – única capaz de aludir a uma precisa sucessão temporal. Há uma data central e redundante – o 24 de dezembro de 1995 – que concentra solidões individuais e personagens interiorizados sobre si próprios. As evocações de Carlos, Rui e Clarisse ocuparão, respectivamente, cinco capítulos cada, distribuídos seqüencialmente pelas três partes que compõem o romance e ocorrerão do dia do natal, data simbólica do nascimento do Deus-menino, considerado, pela teologia cristã, "infinitamente perfeito, criador e regulador do universo, causa necessária e fim último de tudo o que existe." Portanto, não será gratuita, a inscrição irônica – FINIS LAUS DEO –, no último capítulo do romance, também assinalado por esta data, e que nos relata o assassinato da mãe, Isilda, esquecida pelos filhos, espoliada da fazenda de arroz, girassol, algodão e milho. No entanto, no momento da morte, em que é impossível "marchar contra os canhões" ou metralhadoras "dos tropas do Governo de gravatas coloridas, óculos escuros espelhados de armação metálica como se fosse de prata" (OEP, 395), torna-se capaz de vivenciar o simulacro ou o símile enganador da harmonia desejada. Vejamos:
[...] mas não tinha medo por ser dia, os tropas, mesmo o dos botins de verniz não iam roubar-me nem levar-me com eles nem fazer-me mal, não havia um só quarto às escuras em Malange, erguiam as metralhadoras, fixavam-me com a mira, desapareciam atrás das armas, o modo como os músculos endureceram, o modo como as bocas se cerraram e eu a trotar na areia na direcção dos meus pais, de chapéu de palha a escorregar para a nuca, feliz, sem precisar de perguntar-lhe se gostavam de mim. FINIS LAUS DEO (OEP, 395)
É interessante observar que as outras datas aleatórias que surgem no romance descrevem um percurso fragmentário (de 24 de julho de 1978 a 7 de setembro de 1995) e são preenchidas pela voz desta personagem feminina que descreve o apogeu econômico do início da colonização em África e sua derrocada gradativa, as relações entre as diferentes raças e classes sociais, a violência, o desamor, a traição, a coerção e os genocídios praticados.
Sua enunciação discursiva é reiteradamente marcada por determinadas frases significativas, como, "a casa está morta" (OEP, 92), "por que sou mulher" (OEP, 108) e "Angola acabou para mim" (OEP, 237) ou "A tua casa é do povo camarada" (OEP, 87). Além disso, esta personagem, cujo ego reconstituído para uma satisfação narcísica busca escapar da morte cruel, ao vivenciar o desalento tematiza a questão do espelho e viaja dentro de sua própria interioridade:
Quando à noite me sento ao toucador para tirar a maquilhagem pergunto-me se fui eu que envelheci ou foi o espelho do quarto. Deve ter sido o espelho: estes olhos deixaram de me pertencer, esta cara não é a minha, estas rugas e estas nódoas na pele serão manchas da idade ou ácido do estanho a corroer o vidro? Dantes, no tempo do meu pai...(OEP, 51)
Esta freqüente intersecção de planos temporais, evidenciada no exemplo citado, percorre toda a narrativa e permite aos personagens angustiados e desamparados a ilusão de assumirem-se como demiurgos ou possíveis deuses da criação, ao paralisarem o tempo e fixarem imagens ou sons obsediantes, como por exemplo, a associação feita por Carlos entre o bater do pêndulo do relógio e o do coração:
[...] quando eu não tinha adormecido, não podia adormecer, nunca poderia adormecer, tinha de ficar horas e horas de olhos abertos, quieto no escuro para que ninguém morresse dado que enquanto qualquer coisa no meu peito oscilasse da esquerda para a direita e da direita para a esquerda continuávamos a existir, a casa, os meus pais, a minha avó, a Maria da Boa Morte, eu, continuaríamos todos, para sempre, a existir. (OEP, 77)
Constata-se, no entanto, que no mundo pós-moderno e pós-colonial, o desamparo virou desalento, pois os sujeitos da escrita vivem permanentemente numa condição de risco e de perda dos referenciais que funcionavam como interlocutores. Ao especularem sobre o próprio destino, vêem-se refletidos no espelho do país e suas identidades surgem estilhaçadas e tornam-se simulacros, em meio a fragmentos e ruínas reais ou simbólicas.
Em O Esplendor de Portugal, Lobo Antunes define o labirinto crítico da situação política e econômica da colonização portuguesa em África, através da voz de uma das personagens evocadas pela filha:
O meu pai costumava explicar que aquilo que tínhamos vindo procurar em África não era dinheiro nem poder mas pretos sem dinheiro e sem poder algum que nos dessem a ilusão do dinheiro e do poder que de facto ainda que o tivéssemos não tínhamos por não sermos mais que tolerados, aceites com desprezo em Portugal, olhados como olhávamos os bailundos que trabalhavam para nós e portanto de certo modo éramos os pretos dos outros da mesma forma que os pretos possuíam os seus pretos ainda em degraus sucessivos descendo ao fundo da miséria, aleijados, leprosos, escravos de escravos, cães, o meu pai costumava explicar que aquilo que tínhamos vindo procurar em África era transformar a vingança de mandar no que fingíamos ser a dignidade de mandar, morando em casas que macaqueavam casas européias e qualquer europeu desprezaria considerando-as como considerávamos as cubatas em torno, numa idêntica repulsa e idêntico desdém... (OEP, 255)
No entanto, o fim deste longo processo de desterritorialização colonial suscita, como nos aponta Boaventura de Souza Santo, em Pela mão de Alice: o social e o político na pós-modernidade, diferentes movimentos de reterritorialização (o país retoma, depois de cinco séculos, os limites de seu território). E, em decorrência disto, invertem-se os papéis antes definidos, o que obriga os personagens, expulsos de Angola, a sentirem-se excêntricos e marginalizados em sua própria pátria.
Este mesmo procedimento pode ser observado no romance As naus, publicado em 1988, em que figuras emblemáticas da História-pátria tiveram suas identidades de base redimensionadas e, carnavalizantemente, minimizadas. Se antes eram pessoas autênticas em relação ao seu desejo, de acordo com projetos existenciais definidos, agora apresentam-se combalidas pela dor e pela solidão, brutalmente afetadas em seu cotidiano expectante e vazio, impossibilitadas de viver como desejariam.
Todas essas subjetividades malogradas vivenciam a perda das certezas e da estabilidade adquirida. Ao privilegiar o reflexivo, o desdobramento e a consciência infeliz, os autores contemporâneos configuram a antiutopia, capaz de deflagrar, segundo Baudrillard, a "contra-razão, a desterritorialização, a indeterminação do sujeito e da linguagem, a neutralização de todos os valores, da morte da cultura."5
Em O esplendor de Portugal, isso evidencia-se, inclusive, através da delação e da perda dos valores humanistas. Em uma das cenas mais chocantes, Isilda indica, friamente, aos tropas do Governo, o amante e chefe de polícia escondido dentro de um tronco de árvore, o que o leva a ser sumariamente executado. Observa-se, no espaço romanesco, a impiedade das personagens, que se ferem umas às outras sem o menor escrúpulo.
No entanto, o que nos fascina nos romances de Lobo Antunes é que qualquer registro trágico surge acompanhado de uma atitude carnavalizadora e transgressora, fazendo com que o leitor desate a rir. Mas convém lembrar que, dentro do contexto de O esplendor de Portugal, isto transforma-se no grotesco, como atestam, particularmente, duas cenas: o noivo bêbado estatelado no carpete a proteger-se do futuro sogro "que lhe tocava com o bico do sapato, intrigado, a assegurar-se que o embrulho de linho sujo respirava e vivia" e a dizer: "– Onde diabo desencantaste este palhaço Isilda?" (OE, 57) e o menino Rui a destroçar todos os brinquedos de corda encontrados em uma retrosaria ("ursos de feltro, patos de plástico, pingüins, girafas, sapos"), a julgar que troçavam dele, transtornado com um "panda que pestanejava vagidos mecânicos" e dizia, sem parar, "My name is Jimmy", ao passo que a vendedora, atônita, perguntava-se: "– O que é isto?", enquanto uma "velhota de luxo carregado acompanhada do neto gordo e assustadiço de calções", ordenava: "– Telefone à polícia menina Graciete que é um doido". (OEP, 169)
O humor, portanto, torna-se uma forma de auto-irrisão, método de distanciamento e forma de compensação, o que nos possibilita afirmar o primado do "freudiano princípio do prazer que tenta vingar-se de um adverso princípio da realidade."6
Em As naus, por exemplo, há relatos que configuram o riso libertador e autocomplacente que se sobrepõe a um desgostoso e desgastante real. O casal anônimo, que verbaliza a situação dos retornados de África, após a descolonização, e que se considera "múmias sem préstimo espantadas", torna-se capaz de carnavalizar a situação opressora.
Na ficção de Lobo Antunes, a energia criadora alia-se ao conhecimento técnico das palavras, revelando uma maturidade de escrita absoluta, capaz de comover o leitor, fazê-lo rir e sentir-se cada vez mais perto da vida.
Esta forma cultural portuguesa de estar no mundo revela que o esplendor de Portugal, numa época de "desencantamento do mundo e de desrazão", reside, magistralmente, no espaço da escrita.

Referências bibliográficas
ANTUNES, António Lobo. O esplendor de Portugal. Lisboa: Dom Quixote, 1997.
------. As naus. Lisboa: Dom Quixote, 1988.
BAUDRILLARD, Jean. América. Trad. de Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Rocco, 1986.
REIS, Carlos. António Lobo Antunes. Um romance repetitivo. JL: Jornal de letras, artes e ideias. Lisboa: 705. 22 out-4 nov., 1997.
SANTOS, Boaventura de Sousa. Pela mão de Alice: o social e o político na pós-modernidade. Porto: Ed. Afrontamento, 1994.
 Notas
1. REIS, Carlos, António Lobo Antunes – Um romance repetitivo. JL: Jornal de Letras, artes e idéias. Ano XVII, nº 705, 22 de out. a 4 de nov., 1997. P. 24.
2. SILVA, Rodrigues da. Do outro lado do céu... Ensaio publicado no JL, Ano XVI, nº 677, 25 de set. a 8 de out., 1966 sobre O manual dos inquisidores, de António Lobo Antunes.
3. LOBO ANTUNES, António. A constância do esforço criativo. JL, Ano XVI. nº 677, 25 de set. a 8 de out., 1996, p. 14.
4. MATOS, Olgária. Vestígios: escritos de filosofia e crítica social. São Paulo: Palas Athea, 1998. p. 151.
5. BAUDRILLARD, Jean. América. Trad. de Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Rocco,1986. p. 84
6. TEIXEIRA, Rui de Azevedo. A guerra colonial e o romance português. Lisboa: Editora Notícias, 1998. p. 213

por Ängela Beatriz Faria
(UFRJ)
[não datado]

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...