30/09/2008

crónica da digressão norte-americana para apresentação do livro Que Farei Quando Tudo Arde?


Jornal Publico - Rui Cardoso Martins
crónica da digressão norte-americana para apresentação do livro Que Farei Quando Tudo Arde?
29.09.2008


Que farás, América, quando arder tudo? (excertos)


António Lobo Antunes fez uma digressão de oito dias pelos EUA. Lançou um livro, deu conferências, viu velhos e novos amigos. Editores, escritores, críticos, agentes, um êxito. Da NYPL à New York Review of Books. O escritor Rui Cardoso Martins conta como foi.

«No comboio de Washington para Nova Iorque» Foto Público


Washington D.C. Sétimo Dia

Há momentos em que acho que sim, posso pensar o que quiser e o que penso é verdade, por exemplo que tudo continua na mesma, não aconteceu nada, estamos bem

O americano médio. Estou a tentar pensar como o americano médio. O americano médio.
- Prefiro o pais simpático que sabe agir com dureza ao filho espertalhão, diz António Lobo Antunes. O McCain é o pai, o Obama o filho espertalhão.

Na residência do embaixador português João de Vallera pode-se fumar, é território livre na cortina de antifumo que se abateu sobre os EUA. O escritor faz as duas coisas ao mesmo tempo, não o deixaram até agora, sete dias depois. Fuma e pensa, em Washington, num sofá. A digressão literária calhou na semana do precipício da economia de Wall Street e termina na desilusão política de um debate-seca na TV. Pelo meio, correu muito bem. Mas está preocupado e triste. Não é o americano médio, só tenta pensar como ele:

- O Obama... pensei que fosse melhor. O Truman Capote já disse tudo há muito tempo; não interessa nada o que se diz, só interessa o como se diz. O filho espertalhão.

Habituamo-nos: é a sua capacidade de lembrar milhares de palavras extraordinárias, de pessoas que ficaram na história, e misturá-las com as de  Lobo Antunes, que outros vão lembrar no futuro. Palavras dele que passam a ser nossas, na sua única voz múltipla, como as vozes dos seus romances. Se tivermos a chave da coisa. Se calhar é como defende, "o nome do leitor é que devia vir na capa", e fomos nós que acabámos de dizer, as palavras mais simples e leves, as mais pesadas, e também as que se anulam a si próprias. Num dia, ouço-o explicar em público que escrever é muito difícil e exige três coisas: paciência, orgulho e solidão. No outro dia, afinal, escrever não é nada difícil: é impossível. Nos seus livros - depois dos seus livros -, espalhados pelo mundo em vinte línguas, como uma doença portuguesas, custa muito procurarmos a mentira e encontrarmos a verdade.

Eu, que o acompanho por Nova Iorque, Boston, Washington e Nova Iorque outra vez, arrastando várias malas de livros de chumbo (de outros, para ler em casa), e duas ou três  mudas de roupa, por avião, táxi, limusina, comboio (faz redacções no comboio, a letra "fica toda torta"), pés e sapatos, assisti várias vezes ao fenómeno. O editor de Lobo Antunes, o imparável Bob Weil, da Norton, talvez a mais prestigiada editora independente americana, gritava na sala cheia da New York Public Library (NYPL) que, no dia em que leu a segunda cópia da tradução, ele que já publicou dos melhores,
- Fiquei literalmente, mas literalmente, blown away [siderado, estraçalhado...], como não aconteceu com nenhuma outra obra de ficção com a qual tivesse trabalhado antes, senhoras e senhores!

Se falarmos com Bob Weil vemos logo que ele não tem exactamente uma vida sua por detrás dos óculos, dos passinhos rápidos, da saqueta de livros a tiracolo para distribuir como um ardina.
- Bob, sabe de alguma coisa interessante a acontecer, um espectáculo em Nova Iroque?
- Eu só faço livros.

Para o ano publicará mais um livro de crónicas de Lobo Antunes, é o que ele faz. Na New York Public Library, ouvi Bob entusiasmar-se e apontar para What Can I do When Everything's on Fire?, a tradução de Que Farei Quando Tudo Arde? (ed. Dom Quixote, Portugal). Quatro ou cinco anos nas mãos de Gregory Rabassa, que universalizou em inglês García Márquez, Cortázar, Vargas Llosa, Lexama Lima, etc. O velho professor tem 86 anos e um laço de seda ao pescoço, adora Nova Iorque mas ainda vai a todo o lado, e supira
- Mestre António...
Quando se abraçam. Traduziu Fado Alexandrino e As Naus, antes deste.

Na contracapa do livro, George Steiner, um dos cérebros lúcidos do mundo, chama génio ao português. E Harold Bloom, o mais famoso crítico literário: "Este é um extraordinário romance de um dos escritores vivos que mais importância terão no futuro. Lobo Antunes escolhe manifestar a sua dívida a Freud, Joyce, e  Faulkner, à superfície, mas nas profundezas é um grande original." E acrescenta que o livro é uma visão negra da realidade, e cruel, que vai deixar a sua marca nos leitores por todo o lado... palavras para quê?

Vi Paul Holdengraber, director de programas da Biblioteca Pública de Nova Iorque (NYPL), numa semana em que outros convidados de honra seriam Paul Auster e Spike Lee, tentar tirar de Lobo Antunes mais coisas do que ele queria dar nessa noite, mas cada vez mais divertido com os exemplos e paradoxos que ouvia do escritor:
- Descobri o que é a democracia com La Fontaine. Um cão pode olhar um bispo. Eu nasci num país em que só o bispo podia olhar o cão.
ou
- Portugal não é Europa, é um lugar estranho. Gosto de mulheres portuguesas, pequeninas, de bigode.
e
- Não sou um homem modesto, mas sou humilde. Sou uma galinha que guarda os seus ovos.
e
- O que é a história num bom livro? Anna Karenina: uma mulher tem um marido aborrecido, começa a dormir com outros homens e... olhe!
- Nunca tinha ouvido o resumo de Anna Karenina de forma tão concisa, vou recomendá-lo aos estudantes de liceu, concordou Paul Holdengraber.
- Então e a história de Ulisses, da Odisseia? "Chego tarde a casa".
E todos riam, porque além disso
- Comecei a escrever por causa do Mickey Mouse, do Flash Gordon, do Sandokan, aos cinco.

Até que , por falar em cinco anos, e quase de repente, contou do hospital de crianças cancerosas onde trabalhou depois de voltar da guerra de Angola e de como nesse hospital se zangou com Deus, apesar de não ser um homem religioso. Estava lá um miúdo de cinco anos com leucemia, muito bonito, de olhos grandes e, na sua opinião, Deus não tem o direito de pôr uma criança a gritar por morfina. O rapaz morreu e vieram dois homens com uma maca, mas como o morto era muito pequeno, bastou um homem enrolá-lo num lençol e levá-lo ao colo pelo corredor, mas um pé da criança saiu do lençol e ele viu o pé afastar-se, balançando no ar.
- Nesse dia decidi: vou escrever para aquele pé.

Talvez já tenham visto uma plateia de nova-iorquinos, professores, académicos, leitores, intelectuais, as pessoas mais cosmopolitas do mundo, a engasgarem-se nas suas próprias salivas silenciosas. E Paul Holdengraber é um orador nato, um conversador de resposta pronta. Uma hora antes tínhamos visitado a sala de leitura. Por baixo de nós, sete andares subterrâneos com 52 milhões de livros.

Quarenta funcionários invisíveis nas caves, a carregar vagõezinhos como no tempo do carvão. Mas há um sistema hidráulico e de ar comprimido para os livros chegarem à superfície rapidamente. E computadores pessoais abertos em cima das mesas não fazem mal aos livros.

António lia uma inscrição dourada por cima da porta, na madeira, onde se dizia que um bom livro é o precioso sangue da vida do espírito, que nos poderá levar para uma vida para além da vida. Nunca ali tinha estado e disse ao director:
- Para mim isto é o paraíso.
- Sim.
E discutiram Borges.

Eu disse ao director que também nunca tinha ali estado, na sala de O Dia Depois de Amanhã, quando uma onda gigante e o zero absoluto atacam Nova Iorque, com uma súbita e catastrófica alteração climática (George W. Bush no pano de fundo) e os sobreviventes, para não morrerem congelados, começam a queimar os livros de direito e finanças, que pouco serviram o mundo e alimentaram ganâncias e injustiças.
- Conheço esta sala pelo filme...
- Ainda estamos de pé, riu-se ele, o que era verdade.

E uma hora depois era Paul Holdengraber quem se engasgava, em silêncio comovido, ele e mais duzentas pessoas que lêem romances, gostam disso e fazem-no muito, porque António Lobo Antunes disse que a vida é uma honra, um privilégio, e que tinha decidido escrever para o pé do menino morto que balançava no corredor, zangado com Deus.

Alguém explica, em Que Farei Quando Tudo Arde?:

pedi ao sujeito da pensão que me levasse ao sotão onde morava Deus

Nova Iorque, vários dias

Já fui bonita um dia sabia?

- Credo
repara como este pulso treme, o que sucedeu ao meu pulso, a gente põe o indicador e percebe o coração a falhar

Armei as coisas com um esqueleto de palavras de Que Fazer Quando Tudo Arde? Ver a grande América, nestes dias, é observar um corpo estendido na maca (mais uma vez, um sítio de doença). Uma mulher bela de ossos partidos, muito, muito assustada, o vestido de luxo rasgado, o salto direito quebrado, onde é que gastei o meu dinheiro todo, onde é que eu caí, quem me ajuda a sair daqui, ainda tenho casa para morar? Não sabe, nem os médicos, se via levantar-se nas muletas e coxear para fora do sítio escuro, ou, pelo contrário, fechar os olhos para sempre e entregar-se às bactérias que comem carne, arder nos crematórios de Wall Street, Setembro de 2008. Um pequeno mas firme esqueleto de palavras, porque ninguém sabe para onde caminha o mundo, estes dias.

Na primeira noite em Nova Iorque, António Lobo Antunes conheceu o editor, Robert (Bob) Weil. Julgava-o, pela voz do telefone que cruzara o Atlântico, um homem alto, loiro, elegante, o que não é verdade, agora que ele é culto e "esperto que nem um alho" conclui-se num minuto.

Fomos jantar ao restaurante mais perto, o Rossini's, esquina de Park Avenue com a Rua 36. Na parede de entrada, fotografias de actores da série Os Sopranos, que vão lá comergnochi risotti de espargos com frequência (um deles, tio ficcional de Tony Soprano, tem fatos diferentes nas fotos). Também a imagem de Rudolph Giuliani, o mayor republicano da cidade no dia 11 de Setembro de 2001, num fundo de veludo carmim. Os homens, a começar pelos empregados, estão bem penteados para trás, há fatos de seda, camisas salmão e relógios.

- Que engraçado. Parece um filme do Scorcese.
- Sim.
- Os italo-americanos são muito diferentes dos italianos de Itália.
- Ah sim?

Sem querer, Lobo Antunes derruba um cálice de tinto e a toalha branca fica como se imagina, mas o chefe de mesa, delicado, irrebatível, muda todos de mesa e emplastra a toalha vermelha, sanguinolenta, um sudário que é levado para a copa por dois homens rápidos. Se as autoridades entrarem de repente já não encontram vestígios do crime do escritor, dois minutos depois. O local está limpo, boss.

Ouvimos Bob Weil falar da família judia, da saída da Europa, do avô que em São Paulo escolhia uma galinha para o jantar, no meio da rua, e o vendedor ambulante torcia o pescoço da galinha e entregava-lhe, era como se ia às compras frescas no Brasil de há cem anos, agora está tudo muito mudado.

Dois dias mais tarde, noutro jantar, Bob admitirá que poderia escrever melhor do que muitos dos seus autores, se o quisesse,
- Não é o seu caso, António, nem pensar!
mas do que ele gosta é de editar a sério: de ler, cortar, sugerir, escolher, socializar, isto é, de trabalhar 100 horas por semana.

Na primeira noite, temos que sair antes da sobremesa. É impossível falar de política, e de ilustrações de capa, e das maneiras de cortar o papel e imprimir livros, e que escritores velhos e novos vale a pena ler hoje em dia, e agora a crise económica, isto nunca esteve tão mal desde a Grande Depressão dos anos 30, e da terrível guerra cultural entre os que votam no Obama e os de McCain, quando uma cantora lírica, oxigenada, do cimo da escada interior do Rossini's, com a ajuda do pianista, atira para cima da nossa mesa Star Spangled Banner e, como se não bastasse, La Traviata. Canta em guincheto com um tenor italiano, um fantasma pálido, de flûte de espumante nos dedos. A mulher soprano está tão grávida que assusta. Nas notas mais agudas, é possível que o bebé saia para fora dela a cantar ópera.

[...]

Upper East Side

espreitar o interior de uma bota porque às vezes há coisas

António Lobo Antunes vai entrar no apartamento do seu editor, num cocktail privado com as melhores publicações literárias e jornais norte-americanos. O embaixador português virá de Washington (também ao encontro do Presidente Cavaco Silva, que fala na assembleia da ONU, assim como o Presidente do Irão, que veio conformar que Império americano morreu, mais uma graça de Alá, o Benevolente).

Com o interesse habitual dos espanhóis pelos melhores escritores ibéricos, isto é, portugueses, a direcção do Instituto Cervantes também não falta. [Lobo Antunes terá, nos dias seguintes, uma entrevista-conversa com os espanhóis, no edifício Cervantes, onde dirá que em Espanha se sente em casa. Mas não aparece no jantar e espectáculo com o primeiro-ministro Zapatero, no Waldorf Astoria].

O apartamento de Bob Weil fica diante de um jardim e do rio, no melhor Upper East Side. Tem um porteiro de calças azuis, caixa de correio de cobre e latão. Lobo Antunes fuma à porta, antes de subir, porque só na rua é que o deixam. Diz que já tem saudades de Lisboa. E do Cacém. Mas gosta de Nova Iorque, da altura dos edifícios, da luz, da simpatia das pessoas na rua.

- É uma cidade espantosa.
- Os arranha-céus daqui, digo eu, podem ser tão altos porque estão espetados num granito de 450 milhões de anos, descobri hoje no Ground Zero.
- Os prédios são muito bonitos. Parecem embrulhados em celofane.
[...]
A casa de Bob Weil é pequena, mas com uma vista excelente. [...] Lista rápida de presenças, muito cortada: Fran Lebowitz, escritor; Ruth Franklin, crítica de  The New Republic; Edith Grossman e Gregory Rabassa (os mais conceituados tradutores de espanhol e português); Nathaniel Rich, editor da Paris Review, e filho de Frank Rich, o colunista-estrela de política do The New York Times (que não pôde vir, muito trabalho nesta altura de eleições); Ann Goldstein, da New Yorker; o director da Random House; o da Knopf; Bret Stevens, do Wall Street Journal; um crítico do Los Angeles Times e o director da editora Norton. António Lobo Antunes agradece a todos, eles é que lhe agradecem a honra, com palmas. No fim, chega, quase a correr, o director da New York Review of Books, Robert Silvers, um senhor alto, de cabelo grisalho. Traz na mão dois exemplares acabados de imprimir, a cores, da revista. Dizem-ma a melhor do mundo, eu não conheço melhor, confesso, e também nunca a tinha visto tão fresca, ou voltarei a ver, iamgino. Deram-me um dos exemplares, a cheirar a tinta. Tema caricatura de Sarah Palin com um stick de hóquei. No próximo número, diz-se, devera publicar duas das crónicas e uma crítica sobre o escritor português António Lobo Antunes, candidato ao prémio Nobel depois de ter já ganho tudo o que havia para ganhar, dessa conversa ninguém vai escapar mais uma vez.

a minha mãe a sacudir uma chávena com uma mosca dentro e a mosca
enorme
no tapete anunciando
- Sou uma mosca

Lobo Antunes desconfia dos prémios literários porque um escritor deve andar à frente do seu tempo e, se há muita unanimidade, alguma coisa fez de errado. O cheque, no entanto, é bem-vindo. Lobo Antunes não gosta dos substantivos abstractos. Foi em nome de Pátria, Glória, etc. que o regime mandou a sua geração para África - "numa guerra nunca há vencedores", "na guerra não se fala de guerra" - para morrer e matar. Havia um sistema de pontos pela morte de civis, quantos mais pontos (mulheres e crianças = pontos) mais hipóteses de te mudares para um sítio melhor. Contou-o na Universidade de Nova Iorque, para os estudantes de língua portuguesa. Perguntaram-lhe se houve algum acontecimento que o inspirasse para Que Farei Quando Tudo Arde?, um longo poema de vozes, em que, por exemplo, um rapaz lmbra a sua pobre e humilhante vida, filho de um travesti. Lobo Antunes disse que começou com a reportagem de Tereza Coelho sobre o enterro simultâneo de Ruth Bryden, travesti e artista de Lisboa, por doença, e do seu namorado suicida. Disse também que Tereza Coelho, sua editora na Dom Quixote, ali sentada na plateia, foi também "uma excelente jornalista"

[declaração de interesses: sou casado com Tereza, temos dois filhos]

- Li essa reportagem da Tereza, depois esqueci.

Mais tarde, no hospital psiquiátrico, soube de um rapaz internado que não dizia palavra. Era o filho do travesti. Foi ter com ele, o rapaz disse:
- O meu pai era um palhaço.

O escritor falou com travestis na rua, perto da sua casa, em Lisboa, viu que vidas miseráveis levavam, mas teve "uma grande desilusão".
- Não falavam de si, só queriam contar-me que tinham dormido com este e com aquele político muito importante.

Portanto, foi assim que começou o romance. Só faltava fazer tudo.

Fotografo o reencontro de Lobo Antunes com Tom Colchie, o agente literário que há cerca de trinta anos lhe escreveu de Brooklyn para Lisboa, oferecendo-se para o representar. Tinham saído em português os romances Memória de Elefante e Os Cus de Judas, mas pensou que era brincadeira. Tom Colchie voltou a escrever a António Lobo Antunes avisou o agente de que ia só gastar dinheiro com ele. Colchie respondeu "vamos conquistar o mundo". Às vezes perguntava se António estava a escrever.
- Sim, mas está uma merda.
- Óptimo, é bom sinal.

Os dois amigos jantaram, irão um dia reencontrar-se na Europa. Lobo Antunes elogiou o amigo na NYPL, à frente de todos.
- O Tom, além do mais, é das pessoas com mais faro que eu conheço.

Wall Street, Boston, Washington D.C.

[...]

as palavras não lhe saíam da boca mas à roda da boca, lesmas que se me pegavam à pele e eu sacudia com força

António Lobo Antunes admira a cultura e "a capacidade de raciocínio" dos motoristas norte-americanos. É ele quem se encarrega, para meu alívio, da clássica rábula jornalística "A Opinião do Taxista". A primeira pergunta que faz, sempre que entra num carro, vindo do aeroporto, a caminho da estação de comboios, para o Ateneu Literário de Boston, para aqui e para ali, é:
- Quem é que acha que vai ganhar? O Obama ou o McCain?
- Well...
- Na Europa somos quase todos a favor do Obama.
- Oh, I know that.

Apanhamos mais gente do Obama, mas a coisa não é simples. Antony, que nasceu na Polónia, vota McCain pela sua experiência e porque Obama é um socialista. Outro vota Obama porque é preciso mudar tudo de alto a baixo, mas não está convencido da vitória, nem pouco mais ou menos. Uma senhora diz que emigra imediatamente se ganhar o McCain. O caso mais bicudo acontece me Boston, simpática cidade universitária Onde António Lobo Antunes foi de comboio, a convite do Departamento de Estudos Literários e Culturais Portugueses.
- É uma cidade muito verde. Parece a Bobadela, conclui o escritor.

O motorista de Boston disse-nos que estava com medo, mas com medo a sério. Muitas pessoas vão perder os seus empregos. tem mulher e três filhos. Os filhos serão claros e ruivos como ele. Toda a vida votou no Partido Democrata, gostava do Bill Clinton, que pôs a economia em ordem, toda a vida votou democrata e é por isso que agora vai votar McCain.
- Um democrata a votar no McCain em vez do Obama?, diz António, de boca aberta.
- Sim. Pela sua experiência.
O outro não tem experiência. Não é racismo.

alguma coisa há-de acontecer até amanhã de manhã

Digo a Lobo Antunes que Paul Newman morreu enquanto nós dormíamos. Sim, foi depois de vermos o Obama e o McCain na televisão do embaixador, em Washington. De madrugada, nem veio nos jornais americanos. Na verdade, soube a notícia porque me telefonaram do PÚBLICO a adiar as páginas. Silêncio.

- Não imagina o desgosto que me dá, Rui. Era um homem admirável e uma óptima pessoa. O Elia Kazan dizia que as pessoas nunca perceberam como era bom actor, por ser tão bonito. O Paul Newman morreu...

O Jardim de Cristal. A Cor do Dinehiro.

Diz-se entretanto por aqui que faliu mais um banco.


escrito por Rui Cardoso Martins para o
Público, 29.09.2008

25/09/2008

Fabrício Vieira: opinião sobre Que Farei Quando Tudo Arde?


O rito da palavra em Que Farei Quando Tudo Arde?

Após 19 romances publicados, com todas as particularidades que os caracterizam, soa ao menos estranho abordar a obra do escritor português António Lobo Antunes sob a perspectiva de gêneros literários. Apesar de ser um romancista, reconhecido e aclamado como tal, Antunes, com seu trabalho literário, opera um deslizamento que abala radicalmente os limites que demarcam prosa e poesia. O próprio autor busca pontuar esse fato ao afirmar repetidamente em entrevistas que não faz mais romances, nem conta histórias: sua pretensão é a de colocar a vida entre as capas de um livro.

Esse deslizamento poético tem se acentuado a cada livro, atingindo talvez seu momento mais representativo em um período que vai de O Esplendor de Portugal, de 1997, a Que Farei Quando Tudo Arde?, lançado em 2001. Nesse curto intervalo, Antunes trouxe a público também Exortação aos Crocodilos e Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escuraque, não por acaso, recebeu como subtítulo a palavra “Poema”. Além da aguda exploração de vozes e tempos, que fazem da obra antuniana um campo de criação plurivocal e policrônica singular, o autor tem buscado uma sintaxe e uma prosódia muito particulares, marcadas por traços como a descontinuidade frásica, as interrupções em itálico e as intromissões parentéticas.

Um exemplo expressivo dessa fase antuniana é exatamente Que Farei Quando Tudo Arde?. Dividido em 32 capítulos não numerados e não nomeados (todos se chamam apenas “capítulo”), Que Farei Quando Tudo Arde? tem em seu núcleo fabular a história de um homem (Carlos) que abandona mulher (Judite) e filho (Paulo) para se travestir em Soraia. Essa cisão no eixo familiar se opera de forma traumática: Judite, que nunca compreenderá ou aceitará o que ocorreu, se tornará alcoólatra e perderá a guarda do filho. Paulo, viciado em heroína, não cortará os laços com Carlos-Soraia, mas passará a vida tentando responder à questão: quem é o meu pai? Carlos-Soraia se casará com um jovem rapaz (Rui) e fará shows em boates até que a decadência o alcance. Por sua vez, Rui, também um viciado, como Paulo, se suicidará na praia pouco depois da morte de Carlos-Soraia.

Se o livro se restringisse apenas ao desenvolvimento desse núcleo fabular, provavelmente não teríamos muito mais que um melodrama contemporâneo. Talvez por isso Antunes não permita que seus livros, ao menos em sua edição ne varietur que a editora portuguesa Dom Quixote tem publicado, tenham nem orelha, nem introdução, nem resumos de contracapa.   

Se fôssemos nos preocupar apenas com a “história” deste livro, seria importante considerarmos que Antunes leu nos jornais o caso de um travesti português que morreu e deixou um filho de um casamento que teve antes de se transformar. Além disso, havia seu jovem marido que foi encontrado morto na praia. Temos aí a história de Que Farei Quando Tudo Arde?. Mas que importa de fato saber isso? Está aí por acaso a chave para se penetrar nessa obra? A força da obra de Lobo Antunes, aquilo que faz dela algo excepcional e que aponta para sua permanência dentro da literatura, está em outro lugar. A autonomia de seu texto literário em relação ao mundo real, seu não-reflexo da existência como a conhecemos, não pode ser deixada em segundo plano.

O início de Que Farei Quando Tudo Arde? é conduzido pela voz de Paulo, que afirma:

Tinha a certeza que sonhara aquele sonho na véspera ou antevéspera
na véspera
e por isso mesmo, sem acordar, pensava
- Não merece a pena preocupar-me já conheço isto
desinteressado de episódios que sabia falsos
- Estou a dormir (ANTUNES, p.11)

Talvez, como esse próprio começo do livro indica, sua poética pertença muito mais à banda do sonho. Uma poética do devanear, na qual as palavras pulsam e iluminam novos mundos.   

No jogo literário conduzido por Lobo Antunes, certas constantes poéticas podem ser detectadas e destacadas. A estudiosa Maria Alzira Seixo avalia que a “qualidade poética” da obra de Antunes se manifesta de vários modos, como “no encadeamento verbal do discurso, na capacidade imagística demonstrada, em situações de uma particular emoção nas quais a expressão se detém para a sugerir em vez de explicitar”. A esses traços, agregaríamos o cuidadoso tratamento rítmico e a musicalidade daí decorrente.

Na poética antuniana, desossar a palavra para reconfigurá-la, tanto em sua relação com outras palavras e com seus possíveis referentes quanto com o espaço da página, se mostra um ponto essencial. Pensar no rito da palavra, em seu poder de encantamento, pode ser uma via de acesso atrativa para se aproximar da obra desse escritor.

Passemos ao caso da personagem Judite. Essa mulher abandonada, que vive mergulhada em uma atmosfera de permanente embriaguez, nunca encontrará o conforto perdido. Como em uma ópera, na qual certo tema se associa a tal personagem e sempre que tocado faz com que o ouvinte dirija sua atenção a esse ponto, Judite será anunciada e marcada por um leitmotiv: Por quê Carlos?. Essa interrogação é feita por Judite quando Carlos sinaliza o fim do casamento e surgirá repetidamente por toda a obra, de forma muitas vezes aparentemente aleatória, como se a expressão circundasse o livro para às vezes mergulhar nele, sempre dentro (ou em torno) da fala de outras personagens. A expressão vai resgatar esse momento chave em que Carlos anuncia que a família não poderá mais seguir estruturada daquela forma. A primeira vez que Por quê Carlos? surge é no começo de Que Farei Quando Tudo Arde?, na página 31. A última vez, ocorrerá na página 481. Em sua primeira aparição, a expressão virá dentro da fala de Paulo e remontará aos momentos de crise que levariam à ruptura da família, em sua infância. Paulo ressalta o retorno obsessivo da interrogação da mãe, que ecoa por tempos e lugares distantes já de sua emissão original:

“Quando eu era pequeno instalava-me cá fora, perto dos cavalos e do mar de modo que as ondas lhes apagavam as vozes no interior da casa, (...) a minha mãe a perguntar num sopro que os pinheiros levavam (...)
- Por quê Carlos?
e o
- Por quê Carlos?
não na sala, de árvore em árvore de mistura com as nódoas de luz na camura, e a pergunta da minha mãe sem a minha mãe
- Por quê Carlos?
a mesma pergunta ainda hoje
ainda ontem
ainda hoje no hospital ao comprido dos plátanos, olhava-se os troncos e a pergunta em cada ramo, as sílabas claras, (...)
ontem
hoje, disse hoje
- Não se entendem com o tempo
- Por quê Carlos? (ANTUNES, p.31)

O bailar de Por quê Carlos?, conduzido num sopro pelas folhagens das árvores infinitamente, marca uma dúvida que nunca poderá ser respondida, pois, afinal, Carlos morrerá. Judite não só nunca compreendeu, como nunca aceitou a forma como seu casamento (esse rito que deveria representar a entrada em um estágio de equilíbrio e gozo) se dissolveu.

Por quê Carlos? assume nova forma em cada um de seus diversos retornos, reconfigurando-se e ampliando o alcance de sua significação. Mais do que uma indagação a Carlos, a frase se desloca para o questionamento da própria vida, com suas injustiças e limitações de um possível ser feliz. Também pode se estender a uma interrogação aos deuses e suas provações muitas vezes cruéis. Por quê Carlos tinha de entrar na vida de Judite se o que traria a ela era apenas sofrimento? Por quê não a deseja? Por quê Carlos tinha de abandonar a família? Por quê tinha de se tornar travesti? Por quê Carlos não podia dar uma chance para Judite tentar encontrar a felicidade? Por quê a vida era tão injusta? Por quê os deuses a abandonaram em sua miséria? Por quê tudo tem de arder?        

Na fala de Carlos-Soraia, a indagação de Judite também surgirá, tal qual eco de um passado, permeado por angústias e incertezas que o tomavam quando ainda casado, que não se apaga:

“(...) um desejo culpado, vontade de fugir, aquilo que me obrigava a diminuir no colchão e a minha mulher:
- Por quê Carlos?
o desenho das pernas a mudar no lençol, a voz que insistia afligindo-me mais
- Por quê Carlos?
e o eco a tremer dentro de mim tal como eu tremia Judite (...)
enquanto os pinheiros
não os pinheiros, outra coisa, um eco que se desvanecia, vinha, repetia por quê Carlos
- Por quê Carlos? (ANTUNES, p.133)

A pulsação dessas palavras, que costumam ser dispostas sozinhas no parágrafo como forma de serem destacadas, faz com que a dúvida primordial de Judite se revitalize a cada retorno. Nesse trabalho coreográfico com a palavra, o autor cria uma das imagens mais fortes do livro. Por quê Carlos? assume a função de refrão, mas um refrão que se desloca de uma forma imprevista (afinal, não sabemos quando surgirá novamente) e que tem uma certa independência do resto do texto podendo, assim, reaparecer a qualquer momento. 

Curiosamente, na voz da própria Judite, quando a ela é dada a palavra, o Por quê Carlos?praticamente desaparece e quando surge é para ser colocado em xeque. Judite questiona se o Por quê Carlos? não é uma criação dos devaneios de seu filho:

(...) o meu filho julga que com o meu marido eu
- Carlos
eu
-Por quê Carlos?
e com o meu marido eu sozinha também (...)
para quê ouvi-lo? (ANTUNES, p.251)

A repetição de palavras, frases e imagens, como fica explícito nas passagens acima citadas, é um recurso muito utilizado por Antunes, que consegue com isso criar ritmos e cadências que vitalizam a musicalidade do texto. Esse processo poético, tão característico de sua escritura, detectável não apenas nos romances, mas também nas crônicas e mesmo nas poucas poesias a que se pode ter acesso, tem um papel de destaque na estruturação rítmica de seus textos. Entendemos que a acentuação desses dois pontos (repetição-ritmo) está muito ligada ao fazer poético ou, mais propriamente, à poesia. Lembramos que no entendimento do crítico e poeta mexicano Octávio Paz, “a criação poética consiste, em boa parte, na voluntária utilização do ritmo como agente de sedução”. E Antunes tem se mostrado mestre em se utilizar dessa máxima de Paz. De forma mais ampla, temos também a incessante iteração de motivos que perpassam seus livros, como plantas, aves, cães, além de elementos aquáticos (rios, mar, chuva), que criam uma intertextualidade que nos conduz por sua obra. Se Antunes não faz continuações de seus livros, nem resgata personagens, ele utiliza-se da repetição de certos tópicos e imagens para fomentar um diálogo intra-obra (diálogo esse que se estende também por suas crônicas).

Como as ondas na praia que Paulo observa quando, ainda criança, sai de casa e se senta na porteira enquanto seus pais discutem, o vaivém da palavra poética de Lobo Antunes – mais intensa aqui, um pouco menos acolá, mas sempre constante – nos convida a vagar mar adentro. Dessa forma, não hesitamos em afirmar: António Lobo Antunes, poeta.

 
Fabrício Vieira
enviado por email em
25.09.2008

10/09/2008

Manuel Cardoso: opinião sobre Ontem Não Te Vi Em Babilónia


Este livro, às vezes, é como que um bailado de pensamentos, ondulando suavemente entre as páginas, percorrendo linhas e dançando perante os nossos olhos; saltitantes, esvoaçando para dentro dos nosso próprio cérebro, pensamentos que se misturam (os nossos e os dos outros, das personagens e do autor) num livro que se faz e refaz a cada instante, num imenso puzzle a construir por quem lê porque o autor, esse, já fez a sua parte. Um livro onde nunca nada está acabado; nem as frases, nem as ideias, nem a descrição, que narração não importa.

Outras vezes, este livro é o turbilhão das dores e angustias, esse somatório desordenado a que alguns chamam sofrimento. Bocados de humanidade. Tempestades de dor, é o que é! Emaranhados confusos de sonhos e pesadelos, cores impetuosas de um quadro surrealista, talvez de Dali, manchadas de sangue e de lágrimas, luzes perdidas no escuro onde se pode ler a vida. Vida entre sonhos, fantasmas, ilusões, fantoches, trapos de bonecas, muros e grilhões de Peniche, onde a maré afoga o sonho.

Dois, quatro, oito, dezasseis (não interessa) personagens evoluem numa única noite de insónia e vão passando, à vez, pelo palco da vida, das letras que deciframos. Muitos narradores, uma única noite de insónia. Insónia de cada um, uma noite/vida que é de todos (personagens, autor, leitor – sim, o leitor a tomar parte no banquete da insónia) emaranhados numa única solidão, num contar de tempo que pouco importa, duas quatro, oito, dezasseis vidas perdidas; duas, quatro, seis, oito, horas tanto faz, vidas rasgadas por sonhos/pesadelos, lutas, derrotas, um tempo que não interessa, um país que quase morreu ou quase viveu (riscar o que não interessa).
 
Memórias sombrias, cinzentas, lentas, tortuosamente lentas de um cárcere chamado alma, ou vida, ou passado, também não interessa, o que interessa sim é a esperança – isso, a esperança, isso de que o livro não fala, isso de que o António se esqueceu… pois…Foi de propósito, não foi, António? Porque isso não existe…
 
Existe a morte.
 
E a pior de todas elas: a morte na vida; uma morte, uma vida, dezasseis vidas, uma noite – o escuro.
Uma frase final: linha 13 parágrafo talvez terceiro, página 479: “porque aquilo que escrevo pode ler-se no escuro”; uma verdade (ou mentira, tanto faz, o leitor é que sabe); talvez verdade na medida em que no escuro se lê o pensamento e é disso que é feito este livro inteiro – 479 páginas de dor, desalento, sofrimento sem redenção, personagens que não heróis, enredo não estória, tramas confusos como pensamentos que se misturam e um leitor que não sabe a quantas anda porque assim é a vida e, muito mais, assim é quem pensa, quem sente as dores de viver.
 
479 páginas apenas mas que continuam. Talvez na página 1, num ciclo de gerações que não acabam na noite, que sobrevivem na insónia e se multiplicam na aurora. Porque a insónia é eterna.

Uma prisão, uma macieira, um quarto de não dormir, pouco importa quem escreve, pouco importa onde (algures a montante da morte), Babilónia, Lisboa, Évora, Peniche, riscar o que não interessa, algures onde tu não estás, onde talvez nunca ninguém tenha estado, nalgum sítio perdido a que alguém possa um dia ter chamado felicidade, que é uma espécie de luz dos planetas extintos.
 
O que fica, afinal?
 
Talvez o génio.
 
A arte de embalar o leitor no pesadelo.
 
António Lobo Antunes e nós à espera da página 480.


por Manuel Cardoso
16.08.2007

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