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21 de julho de 2016

Nathaniel, from Senegal, wrote about «Act of the Damned» in Goodreads.com

Grove Press edition, 1996
Act of the Damned” is an absolute lunatic novel. The disturbingly besotted and predatory air of Antunes’s work is reminiscent of dark and frenetic passages from Hunter S. Thompson, Ignacio de Loyola Brandao, Boris Vian and perhaps the creepiest bits of Roald Dahl. This is to say that the prose is unusually visceral, coarse, disorganized, playful and interested in avoiding pretention in favor of a swaggering strangeness.

A few scattered sentences like, “After endless nights of talk and drink and syringes, of God knows how many grams of pills and heroin, I return to the world at two or three in the afternoon, surrounded by your collection of old hats, the overflowing ashtrays and the smell of urine from the Siamese that struts over the covers while we sleep, I return with the weariness of a septuagenarian frog, my kidneys splitting with pain as I flounder in a swamp of algae” made me feel like I could imagine what sort of influences went into the scattershot construction of this multi-generational festival of avarice, decay and retardation. 

The novel is challenging, not least of all because there are at least nine different narrators (members of the family, the family’s doctor, a hapless notary), many of them unannounced and few of them in absolute control of their chapters. A reader suddenly realizes, based on rare instances of direct address in imbedded dialogue, that someone new inhabits the first person perspective, around whose discomfort and frustration Antunes layers his ubiquitous, over-the-top prose. (He could be faulted for failing to differentiate these narrative voices more clearly.).

For long stretches, Antunes will also narrate several things at once, overlaying them in alternating sentences. Sometimes it is clear that he is doing this to show how the surroundings (usually noise, heat and squalor) are so oppressive and irritating that they literally intrude upon the happenings and at other times, it seems to a bit more haphazard and “cut up.” For instance, “ ‘Wackawackawacka,’ said my cousin in Turkish to the Saint Bernard, who immediately withdrew his submissive finger. The mongoloid finished her oatmeal in a typhoon of soggy morsels, and the maid used the torn shirt to wipe her clean before unstrapping her. The procession trampled over the already twisted, tortured lanes to the accompaniment of clarinets, trombones, and tambourines in a heart-rending display of miserable splendour. The fireworks burst into luminous flakes in the air and we only heard them once they were fading in powdery threads. ‘What are you nosing around her for?’ asked my aunt, her eyelids heavy with rage. ‘We got you that cabin and bought you the looms on the condition that you never again set foot in this house.’”

Antunes is also quite comfortable, cobbling together virtuosic sentences that, with the addition of the retards, had me thinking of a more substance-addled, more embittered and less fussy William Faulkner, “My shotgun was tucked under my armpit and my cartridge belt held four or five dangling birds that had interrupted their flight (the hounds fetched their riddled corpses) to fan my haunches, and I arrived at the bedroom door trailing dust from my boots on the carpet and smelling of gunpowder, the earth, the woods and the blood of rabbits and turtle-doves, and my wife, who didn’t look at me, was pulling dresses from the closets and laying them on the bedspread, folding blouses, gathering up her underwear and shoes, and tugging on the leather straps of the open suitcases, knowing I was watching her—my gun in hand and my navel crowned with partridges, looking like a holy card of Our Lady surrounded by murdered angels—watching her move forward and backwards and sideways in the mirrors, as if it were twelve instead of one that I’d married, until I asked, ‘What the hell’s going on?’” 

I’m letting Antunes’ prose speak for itself. While it fits into the cluster of authors I mentioned at first, it is unique and will either repel a reader within five pages or make him tolerate heaps of cruelty, mockery of retards, incest, random violence, scheming and confusions. As I read the novel, I was, at times, unsure what I thought of it and unsure of whether or not I would read Antunes again. In retrospect, I may just have been too overwhelmed and off-track to enjoy it properly. Skimming it again and reviewing the passages that I marked, made me certain that I will tackle another of this man’s books.


by Nathaniel
in Goodreads.com
23.05.2008

3 de maio de 2015

Silvie Špánková - dissertação sobre Auto dos Danados

Edição comemorativa 30 anos
1985-2015
PEREGRINATIO AD LOCA INFECTA: CONFIGURAÇÃO DO ESPAÇO EM AUTO DOS DANADOS DE ANTÓNIO LOBO ANTUNES

da Introdução:

O romance Auto dos Danados de António Lobo Antunes foi publicado em 1985 e[,] como a primeira obra deste autor[,] foi aplaudido em unanimidade pela crítica, sendo galardoado com o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores. O júri da APE, ao defender a escolha do livro de Lobo Antunes, afirmou que se tratava de um romance que abria novas perspectivas e inaugurava, no contexto da obra do autor, os processos de escrita inovadores.

Na realidade, o romance Auto dos Danados mantém muitas características da escrita prévia do autor, sobretudo no que diz respeito, tematicamente, à observação minuciosa da sociedade portuguesa, focada nos seus aspectos mais desagradáveis e vulneráveis. Quanto ao tratamento formal, o presente romance revela inovações a nível da estrutura narrativa, em que assistimos a uma maior objectivação do mundo ficcional, conseguida pela técnica da multiplicação de perspectivas.

Para captar devidamente a mensagem deste romance de uma mundividência catastrófica que apresenta um mundo ficcional deformado e hiperbolizado, torna-se necessário decifrar os indícios que apontam para uma crítica mordaz, um ataque violento aos males e excessos da sociedade portuguesa pré-25 de Abril. Tais indícios formam uma rede de signos distribuídos pelos planos da história e do discurso da narrativa. Uma possibilidade da sua detecção poderia passar, segundo a nossa percepção, pela análise da categoria do espaço e das suas relações com a acção e personagens do romance.

Carlos Reis, no Dicionário da Narratologia, divide o espaço em físico, social e psicológico, em que o primeiro é definido pelas coordenadas espaciais estáticas, o segundo é configurado em função de tipos e figurantes, descrevendo ambientes que ilustram “vícios e deformações da sociedade” e o terceiro é constituído em função de “evidenciar atmosferas densas e perturbantes, projectadas sobre o comportamento das personagens”. A nossa análise leva em consideração esta divisão, embora não seja possível restringir toda a matéria a estudar a uma classificação tão limitada. Certo desequilíbrio existe na concepção do espaço psicológico que diz respeito, simultaneamente, a dois planos completamente diferentes: ao plano do discurso, em que o espaço psicológico é manifestado pelo monólogo (interior), e ao plano da história em que se movimentam as personagens nos ambientes que desta vez se projectam sobre os seus comportamentos e sensações.

Uma classificação satisfatória em relação à problemática da categoria do espaço na literatura foi oferecida por Janusz Sławiński que usa o termo de espaciologia literária, decomposta em vários tipos de reflexão (estudo da morfologia da obra literária, das relações semióticas entre literatura e cultura, do estudo dos arquétipos colocados na subconsciência colectiva humana etc.). Dentro desta problemática, Sławiński delimita uma área da reflexão sobre o espaço como um fenómeno que poderia ser explicado pela morfologia da obra literária e que compreende um dos princípios do plano de composição e da temática da obra literária. Consequentemente, Sławiński demarca uma subdivisão em descrição, cenário e valores adicionais. Para o nosso estudo será fundamental a categoria do cenário que adopta, na concepção de Sławiński, três funções: 1. Demarca e classifica a área de extensão da rede de personagens, 2. É um conjunto de localizações – de acontecimentos, situações, em que participam as personagens, 3. Representa um indicador de certa estratégia de comunicação no âmbito da obra. Nesta classificação, a primeira e segunda função pertencem, então, à problemática do espaço representado na obra (plano da história), enquanto a terceira aponta para as relações entre o espaço representado e a sua representação (plano do discurso). Tal distinção servirá de apoio metodológico para as nossas reflexões sobre o romance de Lobo Antunes, a fim de podermos verificar, em linhas gerais, como a configuração do espaço determina a interpretação da obra.


por Silvie Špánková
Universidade de Brno 
Studia Minora Facultatis Philosophicae Universitatis Brunensis
2006

18 de abril de 2014

Anna: opinião sobre Auto dos Danados

[...] acho que fiz uma boa descoberta com Auto dos Danados. Cada capítulo do livro é narrado por um personagem diferente, quase todos sem nome (ele fala de “o dentista”, “a mongoloide”, “a casada com o dos bondes”, “o engenheiro” etc) e sem qualquer introdução — você tem que pescar depois de iniciado o capítulo quem é mesmo que está falando. Conta de uma família portuguesa falida, que se reúne durante as festas do povoado porque o avô está moribundo. A partir desse reencontro, vai se desenrolando as misérias da família: um casamento falido, onde ambos os cônjuges sabem dos amantes um do outro; um tio que já dormiu com todas as mulheres da família — e do povoado —, incluindo sua cunhada débil mental (de quem tem uma filha, e com quem acaba também tendo uma filha); casamentos por interesse; o patriarca que forjou a morte da própria esposa porque esta o abandonara; a mãe que abandona os filhos e o marido e vai morar no Rio de Janeiro com um surfista e por aí vai.

O realismo e o exagero com que as misérias da família são narradas de forma crua e seca mostra como gerações e gerações podem se manter sem amor, sem cuidados e sem nada a se apegar, a não ser o dinheiro que eles esperam depois da morte do velho. Mas o que resta da fortuna que o velho mesmo dilapidou em anos de jogos, bebidas e mulheres acaba sendo gasto em tratamentos para os dois filhos com problemas mentais e no tratamento do próprio pai. Com a aproximação da Revolução dos Cravos, a família, afogada em dívidas e com medo dos comunistas, foge na mesma noite da morte do velho para a Espanha.

A cena da morte do patriarca é narrada em conjunto com a cena da morte do touro (está havendo uma tourada, que fecha os festejos que estão ocorrendo na vila) e, pra mim, é o ponto alto do romance, onde todos os personagens vão se mostrando profundamente aliviados com isso. Não há máscaras para cair, todos estão ali com suas misérias e usuras expostas, sem esconder nada de ninguém. O período narrado é de grande catarse pra todos, onde não têm nada a esconder nem jogos a jogar. É tudo exposto, de forma feita, na sua miséria psicológica e mesmo material, de gente vivendo em subúrbios fedorentos e no meio de relações de traição e descontentamento.

“Está morto, disse eu à família a compor a gola do pijama do velho, a arrecadar os instrumentos, a preparar-me para abandonar o quarto, descer as escadas, enfrentar os perdigueiros, tornar a Reguengos na ambulância do hospital. Está morto, disse eu, arrastem-no da arena pelos cabos que lhe seguram os cornos, amarrem-lhe as patas e levem-no e dividam-lhe a carne e vendam-na no talho, podem embebedar-se dois ou três dias com o dinheiro do finado, esse bicho enteiriçado e grosso, sem majestade alguma, que sangrava e que sangrava ainda.”

por Anna
em Ana, leu isso?
21.10.2013

7 de fevereiro de 2014

Pedro Fernandes: opinião sobre Auto dos Danados

Este é o sexto romance de António Lobo Antunes. E chegou-nos ao Brasil pela Editora Best Seller possivelmente em 1985 (a referência à data de publicação por aqui é coisa dura de achar pelos dados no livro e rodando a web o máximo que encontrei foi esta, 1985, portanto, que é mesmo, isso sabe-se verdadeiramente, a data de publicação em Portugal). A própria editora nem mais existe como figura independente; pelo que sondei está integrada como um selo do grande grupo editorial Record. Facto é que o livro anda esgotado nas prateleiras das livrarias brasileiras, sendo possível encontrá-lo nos santos sebos que salva (e crucifica quando o preço é salgado o que não é este o caso). Foi com este romance que o escritor português ganhou por essa época o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores. Apesar de não [ser] este um dos livros que poderia considerar [como] o ponto alto da sua carreira, esse reconhecimento vem provar não a escrita individual de um determinado trabalho, mas o conjunto do que já este autor havia até então publicado: basta que se repita o caso de ser este o sexto romance.

Digo não ser Auto dos danados um grande romance, porque talvez esteja ainda impregnado do magma narrativo que é Fado alexandrino, livro que depois de Os cus de Judas é, sem dúvidas um experimento linguístico de primeira grandeza: o primeiro mais ainda, se levarmos em consideração que no segundo o romancista ainda se experimentava na arte de narrar. Talvez o que separa este daquele seja mesmo, para o primeiro a catedral narrativa e para o segundo o espólio temático. Como se sabe Os cus de Judas é um dos primeiros - senão o primeiro - a introduzir na cena literária de língua portuguesa os horrores da Guerra Colonial na África.

Mas, Auto dos danados é também um experimento narrativo. Se Fado Alexandrino recupera a estrutura de um fado com os versos alexandrinos (três partes com doze capítulos cada), este recupera a instância de auto. Passa na segunda semana de setembro de 1975, um ano depois da Revolução dos Cravos, elemento histórico que apesar de citado não será pano de fundo como é no livro anterior. Em Monsaraz, vilarejo medieval do Alentejo, está-se nos preparativos para os tradicionais festejos de ano que tem por tradição as touradas. A peça principal do romance, entretanto, não é festa, apesar de servir de mote temporal; é sim a morte de Diogo, um patriarca símbolo da tradicional família portuguesa, família que parece está no seu fim, como bem sonda por esse livro o narrador. Basta que se diga, como exemplo, que o dentista Nuno, o narrador da primeira parte do Auto e único que tem papel externo ao drama aí desenvolvido, é filho de um casal incomum, o pai travesti e mãe a que sustém a aparência, os luxos e a casa com dividendos conseguidos à base do envolvimento com figurões do dinheiro.

O romance, então se divide cinco sessões: "Antevéspera da festa - Nuno todo dia", "Véspera da festa - Ana à noite", "Primeiro dia de festa - À Lídia onde quer que se encontre", "Segundo dia de festa - À véspera de minha morte" e "Terceiro dia de festa - A importância da máquina de influenciar na génese da esquizofrenia". Adopta-se para cada uma dessas sessões divisões muito particulares que seguem o movimento de cada um dos seus narradores: os vários membros da família assumem o veio da narração, sendo que entre as duas últimas partes é a voz do patriarca misturada às dos filhos o que compõe a narrativa. Desse modo, Lobo Antunes não narra apenas o fim da tradicional família burguesa portuguesa, mas também instrui caleidoscopicamente pelo menos três diferentes gerações.

E o que se revela nesse magma de lembranças não é nada de enaltecedor aos nossos olhos. O escritor assume - como sempre tem vindo fazendo desde o seu romance de estreia - um lugar de crítico mordaz da realidade e um "carrasco" revelador da hipocrisia que vela os mais variados recantos da sociedade. Instalar-se agora na família, depois de já ter percorrido instituições como as forças armadas, o aparelho médico, parece uma decisão acertada. Revela-se em Auto dos danados um via de interesses escusos - enquanto morre o velho banhado nas lembranças da infância criada à base de chicote e da vida adulta criada na traição da mulher com seu irmão, amantes antes e depois de seu casamento, a filha e ex-mulher de Nuno e o genro cascavilham o testamento para manobrar a herança em seu benefício próprio e fugirem para Espanha. O genro também não é lá flor que se cheire - embora não se apresente ao longo da narrativa sua defesa, é acusado de ser amante de todas as mulheres da família, inclusive da própria filha já produto da relação sua com uma cunhada mongoloide. Evidente que entrará em cena um terceiro elemento que desmanchará todos os planos até então arquitectados: o regresso da filha do caseiro que cuidou da propriedade de Diogo assegurará à mãe a posse da herança.

Apesar do carácter dramático, Auto dos danados tem na teatralização dos acontecimentos o seu ponto culminante. Se em Fado alexandrino Lobo Antunes se apropria da estrutura usual do alexandrino para pensar uma reinvenção da narrativa e isso pouco é percebido aos olhos mais desavisados, neste livro de 1985, a reacção será outra. O trânsito entre o auto e o romance é visível, desde quando seguimos pela mão de Nuno, espécie de observador sarcástico do que se passa perto de si. O resultado é um romance primoroso que aposta novamente na reinvenção estética proposta pelo escritor já desde sua estreia literária. Sei que esses procedimentos narrativos pouco hão-de interessar os leitores comuns, mas são eles o ponto alto da proposta antuniana. A intriga, muito bem desenhada, também é um efeito à parte que não haverá de abalar os ânimos dos que não têm o tempo necessário para especulações estruturais do texto.


Pedro Fernandes
Letras.in.verso e re.verso
15.03.2013

16 de agosto de 2011

Liberto Cruz: Recensão crítica na Colóquio Letras nº 97 de Maio de 1987 – pp. 118 e 119


Memória de Elefante, a primeira obra de António Lobo Antunes, data de 1979, e a última, Auto dos Danados, de 1985. Temos assim que, em sete anos, este escritor publicou seis livros, o que equivale a umas centenas largas de páginas densas, quase não deixando margem para possíveis anotações ou simples descanso estético.



Sem indicação do género literário (precaução ou modernidade?) mas informados pelo editor de que se trata de romances, estas ficções de António Lobo Antunes parecem ser do agrado geral, dadas as edições já postas em circulação e as traduções já feitas ou previstas em vários países. Tanto melhor: ganha o Autor, ganha o editor, ganha a literatura portuguesa em geral e ganha, evidentemente, o respectivo ou potencial leitor.

Este processo de composição dramática, a roçar muitas vezes pelo melodramático, feito a perversos e espertalhotes indivíduos, mais não é (o que revela grandes ambições literárias), mais não é, repito, do que a comédia humana de pequeno-burgueses endinheirados onde o machismo, a cultura de sovaco, a ganância e o desprezo pelos considerados inferiores na escala social conseguem dar largas à sua intolerância, pacovismo e presunção. Tudo isto servido por um estilo que se pretende vigoroso, onde às vezes a linguagem antilírica consiste só em substituir a tradicional flor por um palavrão - o que não passa, no fim de contas, duma outra forma de lirismo muito perto da etiqueta literária de caserna.

Posto isto, considero Auto dos Danados como a melhor obra, que conheço, de António Lobo Antunes. Menos espalhafatoso, mais sóbrio no estilo, menos fanfarrão na análise de coisas e de gentes, mais moderado na narração, evitando, quase, o episódio pelo episódio, e a caminho de se livrar de imagens rebuscadas ou insólitas, que nem já os curas conseguem entusiasmar, este texto é uma lufada susceptível de incomodar os contemporâneos de António Lobo Antunes que sejam oficiais do mesmo ofício.

É preciso dizê-lo sem rodeios: Lobo Antunes é um escritor e não um escrevente. E creio, sinceramente, que, quando ele conseguir dominar a impetuosidade com que escreve e a embriaguez com que se lança na construção de situações, e quando puder ser menos moralista e mais profundo na elaboração das taras de pai em filho ou de sogro em genro, com que se delicia e nos surpreende neste Auto recentemente publicado, a sua escrita alcançará uma outra dimensão. [...]

Caso António Lobo Antunes continue a aplicar os mesmos moldes e a seguir airosamente o mesmo modelo, teremos, com frequência, tipos em vez de personagens, caricatura em vez de pessoas e jeitos de actuar em vez de tomadas de posição. A anedota e a história são duas máscaras diferentes, e a primeira não se adapta facilmente ao rosto do escritor se este não souber incluí-la, a seu tempo, na história. Ora o narrador António Lobo Antunes usa e abusa da anedota, preferindo ao real a divagação e ao concreto do quotidiano a fuga onírica. Alinhando tudo e todos pela mesma bitola e dando a cada personagem do Auto a mesma forma de falar e de pensar, o narrador domina orgulhosamente a acção como se fosse o dono e o empregado. Não se contentando em ser o administrador da fazenda alheia, o Autor apodera-se da voz das personagens e avalia-as da mesma maneira.

Com uma capacidade extraordinária de alinhavar textos por nada e de fabricar pequenos enredos aptos a voos de grande fôlego, [...] António Lobo Antunes merecia ter menos êxito. E creio que o conseguirá um dia.


Liberto Cruz
Colóquio Letras 97
Fundação Calouste Gulbenkian
Maio de 1987

30 de julho de 2011

Celeste Pereira: opinião sobre Auto dos Danados

Mais um livro de ALA que ainda não havia lido. E mais uma leitura interessante e estimulante como já me habituaram as leituras dos muitos outros livros que li do autor.

Este passa-se no ano de 1975. Ano conturbado em termos sociais e políticos, ainda no rescaldo do 25 de Abril.

Fala-nos de uma família decadente, de antigos latifundiários, algures no Alentejo. Família onde reinam o desamor, a ganância, o rancor, a raiva, a cobiça entre os seus elementos. Uma família completamente disfuncional (não é novidade nos livros de ALA) em que os elementos que a constituem se encontram ligados por sentimentos sórdidos que os empurram uns contra os outros mas que, ao mesmo tempo, os impelem uns para os outros prendendo-os numa teia dificilmente compreensível. Pelo menos dificilmente explicável.

Embora a história vá sendo narrada em diferentes tempos e por diferentes personagens dando, de cada uma, o seu ponto de vista de uma mesma realidade, esta passa-se, como já disse, no ano de 1975 durante a agonia e morte do chefe do clã, Diogo.

Diogo, o patriarca duro, prepotente, violento, mulherengo, licencioso, distante, está prostrado, agonizante, no leito de morte enquanto os seus sucessores de digladiam surdamente na mesma casa. A filha e o genro procuram afanosa e desrespeitosamente o testamento, numa tentativa de espoliar os outros membros dos respectivos direitos sucessórios. Tudo isto enquanto a festa da localidade prossegue com os foguetes, a música, as vendas de rua e…a morte do touro pela populaça. Este acontecimento, o auge da festa, altura em que todo o povo se encontra inebriado pelo sangue e pela crueldade gratuita, é também o fim do velho morgado.

Com uma escrita intensa sobretudo sob o ponto de vista de riqueza psicológica das personagens, ALA vai-nos conduzindo através dos sentires de todas as personagens, mas também dos seus mais recônditos podres, dando-nos os instrumentos para compormos o retrato desta família que, sem dúvida, será o retrato muito próximo de tantas famílias burguesas dessa época em que as mudanças sociais se davam com extrema rapidez e a burguesia se sentiu acossada e amedrontada pelo proletariado e campesinato em ascensão.

Não é um livro de leitura linear. Não o são os livros de Lobo Antunes. Não tem como característica, todos sabemos, facilitar a vida ao leitor. Contudo, apesar de não haver sequência temporal nem factual nas diegeses feitas pelos diferentes narradores (neste livro o autor demite-se do papel simultâneo de narrador), não é dos livros mais trabalhosos de ler.

Recomendo.


Celeste Pereira
26.06.2011
Ponto de Cruz

19 de março de 2010

Alfredo Monte: opinião sobre Auto dos Danados


Lirismo e realismo ao modo Lobo Antunes

edição brasileira Best Seller, anos noventa
MOTE

Para o grande pensador Georg Lukács, o ponto fundamental da épica narrativa era a questão da possibilidade e da necessidade da ação do herói: para que ela fosse possível e necessária o mundo deveria fazer sentido.

Na época burguesa, dificilmente há a sensação de que o mundo faça sentido. Ou o seu sentido é acumular capital? O herói do romance, a grande arte burguesa, procura, então, o sentido dentro de si, e o gênero narrativo descamba para o lirismo (descrição de estados de alma), uma vez que a realidade íntima do herói entra em confronto com a realidade exterior. Ou seja, a gente se acha demais, e o mundo de menos, árido e pobre.

Observando a trajetória da ficção contemporânea, vemos como diversos narradores, esmagado pelo peso sem sentido do mundo burguês, deixaram-se levar (via experimentação linguística ou via introspecção extrema) para um lirismo radical, deformando o imperativo épico de “representar a realidade”.


O CASO LOBO ANTUNES

O português António Lobo Antunes, em Conhecimento do Inferno (1980), fornece um belo exemplo do dito acima. Seu texto é um magma de lembranças, cenas e imagens incríveis que fragmentam a narrativa e deixam no leitor a sensação de estar acompanhando um vulcão em erupção, um grande talento sem dúvida:

A rapariga, imóvel, muito direita, a apertar contra o peito o seu saco de plástico, consentia que os anjos lhe pousassem nos ombros, nos cabelos, nos braços, tal os pássaros nas estátuas dos parques, empoleirados em heróis de bronze como a roupa nos cabides. Se não agisse depressa o asilo transformar-se-ia num aviário celeste, repleto de roçar de túnicas e de zumbidos siderais, e dezenas de homens alados invadiriam a Urgência, soprando-nos na nuca leves risos idênticos às borbulhas das guelras, que se dissolvem em estalos verdes de musgo.

–Porque não lhe dá uma injecção contra os anjos? –insistia a enfermeira. -Tem de haver uma injecção contra os anjos como há raticida, pó das baratas, remédio para o bicho das vinhas. Os anjos são mais fáceis de matar do que o bicho das vinhas.

E ele imaginou por um instante, enquanto escrevia na ficha uma receita qualquer, anjos a agonizarem no soalho, suados e pálidos, chamando-o com as pupilas de vidro baço dos moribundos, que se despem a pouco e pouco de expressão e de cor até se assemelharem a cristais ocos, sem reflexos, idênticos aos duros olhos de plástico dos bichos empalhados. Imaginou as camionetas de lixo da cidade carregadas, ao fim da noite, de astronautas bíblicos, de ossos porosos de água e barbatanas de mergulhador, acumulados uns sobre os outros em atitudes de náufrago, imaginou um jovem querubim enforcado num algeroz, raspando com os tornozelos lilases parapeitos de varanda, imaginou o seu próprio anjo da guarda estendido aos pés como uma sombra, de braços abertos, um resto sangrento de Via Láctea a evaporar-se-lhe do canto dos beiços
”. (1)

Imaginem 315 páginas nesse teor e é fácil imaginar que a lava vulcânica muitas vezes se deixa levar para o jorro fácil, para o informe e o meramente prolixo. Trata-se, com uma respiração narrativa de maior fôlego, de um caso parecido aos textos em prosa da nossa Hilda Hilst (FluxofloemaQadósTu não te moves de ti).


CASA PORTUGUESA HORROR SHOW

Lobo Antunes, em Auto dos Danados (1985), lançamento da editora Best Seller (salvo engano, é o segundo publicado no Brasil; o primeiro foi Os cus de Judas pela Marco Zero), demonstra maior habilidade técnica, esmerando-se na construção do romance, apesar de manter o mesmo lirismo (no sentido lukásiano). E assim como Hilda Hilst esse autor de 50 anos tem certa afinidade com outro ótimo escritor lusitano, Vergílio Ferreira, que conseguiu ser um grande alegorizador da opressão salazarista e um autor verticalmente existencialista e fenomenológico em romances raros, como Alegria breve, Nítido Nulo e Rápida, a sombra.

Em Auto dos Danados, cujos acontecimentos principais transcorrem por volta da Revolução dos Cravos, as baterias do realismo grotesco de Lobo Antunes se voltam contra a alta burguesia que se beneficiou do regime de Salazar. E ela nunca entrou em decadência; ela é a própria decadência, pela sua ganância, pela sua falta de interesse público, pela sua depravação, equivalendo a uma casa apodrecendo ao som meloso de Roberto Leal tirolando “é uma casa portuguesa, com certeza”…

Realismo grotesco, sim. Porque o instrumento utilizado para mostrar tal podridão moral e ética é o exagero. Enquanto o patriarca agoniza, somos informados de que o seu genro fornicou com todas as mulheres do clã: as duas cunhadas, sendo uma delas mongolóide, a qual inclusive dá à luz uma filha dele, com quem ele também transa (e tem outra filha), além de faturar de quebra a sobrinha, Ana, que muitos anos depois retorna a Portugal para ajustar contas com o tio-amante.

Exagero eficaz, sim. Porque confronta o leitor com coisas “que não são possíveis”. E no entanto são possíveis e acontecem (ao contrário da necessidade e da possibilidade da ação heróica). Não se pense com isso que o romance é facilmente escandaloso ao mostrar os escombros da respeitabilidade portuguesa, ou então uma leitura fácil. É um livro pesado, como se um crítico da burguesia implacável como o italiano Alberto Moravia desse as mãos a um visionário compilador da realidade bruta dos objetos e das coisas diante do sem sentido do homem e da sociedade, como o francês Claude Simon, Nobel de 85. É o inferno, com certeza.


(1) a citação de CONHECIMENTO DO INFERNO foi extraída da 6ª. edição portuguesa, pelas Publicações Dom Quixote, 1983

por Alfredo Monte
01.11.1994

19 de outubro de 2004

Nuno Barbosa: Comentário a Auto dos Danados


Pano de fundo: pós 25 de Abril, Alentejo, o "avanço comunista".

Situação: uma família em queda livre, a morte do "patriarca", a demanda por uma herança ilusória:

"(...) uma família nojenta de cabras e bois mansos a devorarem-se mutuamente no casarão do Guadiana, a sonegarem-se as heranças, a odiarem-se, a roubarem-se a esmagarem-se, a destruírem-se, e tudo isto debaixo da boquilha e da pálpebra cáustica do avô, derramado na cadeira de baloiço da sala, a assistir, numa alegria formidável à agonia da sua matriz, como se não suportasse que nada de seu sobrevivesse ao seu fim, que nada de seu continuasse insolentemente vivo após a sua morte, como se quisesse arrastar consigo as terras e as pessoas para os desconhecidos pântanos subterrâneos aonde ia, como se quisesse matá-los com ele a gozar a sua lenta dissolução nas desmemoriadas névoas do passado, o velho estendido agora na cama, a observar-nos, com o único olho válido, sem lograr falar, sem lograr mover-se, e no entanto de lábios desconjuntados na risonha crueldade do costume."

Sucedendo-se as personagens encarregues da narração, o leitor é confrontado com uma família que através das sucessivas gerações vem a perder toda a pujança financeira que a caracterizara outrora e chega a um ponto em que vários dos seus membros se encontram totalmente dependentes da presumível herança do "avô" e por ela se degladiam, esperando-os a recompensa de múltiplas dívidas acumuladas.

A decadência económica é no entanto o ponto de partida para se penetrar numa teia de relações em que a infidelidade, a desconfiança, a carência, a violência e o ódio são tónicas constantes.

Assemelhando-se, inevitavelmente, a uma película de Woody Allen, o livro é um desfile de personagens insatisfeitas e frustradas que se voltam para todo o lado em busca de um eco reconfortante, de alguém diferente daquele com quem vivem ("a tua mãe que dorme com o marido da irmã do teu pai, o qual marido, por seu turno, dorme com as mulheres todas da família, mesmo a anormal, mesmo a doente a quem fez uma filha de quem há cinco ou seis anos teve um filho"), sentindo, no entanto, ainda assim, o logro das relações humanas, condenadas ao fracasso, e mesmo o desprezo pelos "parceiros de outrora" ("Como é que eu pude e como é que a minha mãe pôde, mesmo sem falar, mesmo mongolóide, como é que podemos ambas parir dele, como é que a mulher do meu tio pôde, como é que a minha tia pode ainda?").

Cada vez mais amargos e secos, são indivíduos para quem a sobrevivência é a palavra-chave, capazes das maiores mentiras, sacanices e crueldades para com os outros, na busca da sua satisfação egocentrista e em que os outros só parecem contar em função da sua utilidade - "O ferroviário disse Deita, de uma forma tão neutra que principiei a chorar e os sobreiros e a paisagem e o seu rosto se desfocaram pela lente das lágrimas, exactamente assim, Deita, após tantos anos de dormir ao meu lado sem me tocar sequer, nem num desses casuais e inexplicáveis movimentos do sono, arregaçou-me a roupa, Deita, quebrou-me o elástico das cuecas, Deita, acabou por crucificar-me os ombros contra os limos, Deita, à medida que remexia na braguilha das próprias calças, à procura, e três meses depois abortei, no hospital, um ano antes do Francisco nascer, uma dolorosa pasta escura num balde, e acho que o meu marido nem sonhou, ocupado como andava com carruagens e furgões, a soprar a corneta a meio do almoço ou a saudar com a bandeira vermelha nos ofertórios das missas, uma pasta num balde (...)"

De resto, a capacidade de amar parece evaporar-se, volatilizar-se na repetição incessante de gestos e palavras desapaixonadas, a-significantes e até agressivas, verificando-se um círculo vicioso (cfr. Capítulo transcrito e a educação à chibata), de geração para geração, já que os pais, vendo-os com desconfiança como acidentes e estranhos, não são capazes de amar os filhos - "(...) e a barriga cresceu-me misteriosamente a seguir a uma noite de sangue e comboios e dores, a ouvir grasnidos de corneta na estação dos lençóis, e meses depois os meus ossos quebraram-se no Hospital de Reguengos e trouxeram-me a Ana, vermelhíssima e eu a olhá-la sem forças e a pensar Quem é, quem será, porque me trazem ao quarto esta larva horrorosa. Uma enfermeira de óculos disse Vamos experimentar o leite, desabotoou-me a camisa, girou o mecanismo aos pés da cama, colocou contra mim a repugnante criatura enrugada e empurrou-lhe cabeça contra o bico do meu peito, e senti que me mordiam a carne com um par de ferozes pinças cartilagíneas de lagosta."

Para mais à raiva destes seres danados devemos somar o terror que o espectro do comunismo lhes desperta:

- "preferes os comunistas, minha santa, queres que nos fuzilem amanhã contra a parede da igreja?";

- "não percebeste que nos dividem às rodelas se não passarmos a fronteira depressa?, e eu imaginei um cortejo de bandeiras vermelhas a correr para nós";

- "Não vês que querem matar as pessoas como nós (...) não se te mete nessa cabeça dura que quero salvar a tua mãe de ser violada dias a fio por uma bicha de ganhões?";

- "Todos defuntos, num banho de sangue, com forquilhas espetadas na barriga, com os braços decepados, com as partes cortadas";

- "os comunistas estão aí, não lhes sentes o cheiro?".

E assim chegamos à compreensão de que acabam por assassinar o velho, que se matam uns ao outros, que se matam a si próprios, sendo os seus instrumentos os mais cruéis - a indiferença, a ausência de afecto, o desprezo no tratamento - e as suas técnicas as mais perversas - a corrosão gradativa, o desgaste continuado, a rotina do ódio.



Nuno Barbosa
citado daqui
[não datado]

22 de setembro de 2004

Maria Lúcia Wiltshire de Oliveira: sobre Auto dos Danados


Auto dos Danados: cenas de uma família condenada

Resumo. Em Auto dos danados (1985), António Lobo Antunes encena a fragmentação de uma família tradicional ao mesmo tempo em que rompe a tradição da escrita romanesca, praticando uma tendência dupla da prosa portuguesa pós-75. Ao conceder a narração diretamente às personagens, o autor procede como um psicanalista a seus pacientes, fazendo do romance a sucessão progressiva e aleatória das falas dos membros de uma família patriarcal, retratados como criaturas humanas, demasiado humanas, que nos causam horror mas também compaixão, numa clave polifônica à Dostoievski. Tema, tons e tintas conferem à obra um lugar especial na literatura portuguesa contemporânea.

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Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...