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16 de outubro de 2015

Premiada tradução em francês de Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar, por Dominique Nedellec

Gulbenkian de Paris entrega prémio a tradução francesa de obra de António Lobo Antunes

A tradução francesa do livro "Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?", de António Lobo Antunes, foi hoje distinguida, em Paris, com o Prix Gulbenkian Books da delegação francesa da Fundação Calouste Gulbenkian.

Esta foi a primeira edição do prémio que distingue a melhor tradução de português para francês de uma obra de literatura em língua portuguesa, publicada em França nos últimos dois anos, sendo atribuído em parceria com a revista literária Books.

Dominique Dedellec
O júri decidiu distinguir Dominique Nedellec, o autor da tradução "Quels sont ces chevaux qui jettent leur ombre sur la mer", editada em 2014 pela Christian Bourgois Éditeur, pelo "brio com que recriou em francês a prosa tão densa e sinuosa de Lobo Antunes, a sobreposição de vozes, as palavras e os pensamentos das suas personagens torturadas", declarou Suzi Vieira, membro do júri, durante o anúncio do prémio.

"Esta tradução, que considerámos admiravelmente fiel, conseguiu recriar a polifonia do romance e também o ritmo e estrutura musical em que se baseia a arquitectura da sua obra", justificou a porta-voz do júri, também jornalista na revista Books.

Dominique Nedellec, que acaba de entregar a sua quinta tradução de um livro de Lobo Antunes à sua editora, disse à Lusa que o prémio é "um incentivo para continuar a trabalhar em prol da genialidade da língua portuguesa e, neste caso, da genialidade de um autor único", sendo também "uma marca de reconhecimento do trabalho que mostra que as pessoas estão atentas" ao que fazem os tradutores "na sombra".

"Traduzir Lobo Antunes exige da parte do tradutor esquecer as referências de leitura que cada um de nós tem para se introduzir no universo e na língua dele, porque ele está a escrever numa língua que não é a língua canónica, que não é a língua normal. Ele está a criar uma língua muito pessoal, sui generis, muito peculiar. O meu objectivo é recriar na minha língua, o francês, a mesma estranheza, a mesma violência que ele introduz na língua portuguesa", acrescentou Dominique Nedellec que também já traduziu para francês várias obras de Gonçalo M. Tavares e de outros autores de língua portuguesa como Alice Vieira, José Jorge Letria ou Ondjaki.

[...]

O júri era composto por personalidades portuguesas e francesas do mundo académico e literário, nomeadamente o poeta Nuno Júdice, a escritora francesa Maylis de Kérangal, a professora associada da Université de Paris-Sorbonne Paris IV Maria-Benedita Basto, o titular da cátedra Lindley Cintra na Universidade Paris Ouest-Nanterre José Manuel Esteves, o ensaísta alemão Sébastien Lapaque, a especialista em literatura lusófona Jacqueline Penjon e a jornalista da revista Books Suzi Vieira.

O objectivo do prémio Gulbenkian Books, no valor de 10.000 euros a dividir entre o editor e o tradutor, é promover a tradução de obras de língua portuguesa em França.

A iniciativa deverá repetir-se de dois em dois anos e o seu lançamento insere-se no programa do cinquentenário da Gulbenkian de Paris, o qual vai ter como pontos altos uma retrospectiva, no Grand Palais, da obra de Amadeo de Souza-Cardoso, entre Abril e Julho de 2016, e uma mostra sobre os últimos 50 anos da Arquitectura Portuguesa, na Cité de l'Architecture et du Patrimoine, de Abril a Agosto do próximo ano.


LUSA
15.10.2015
citado de SAPO Notícias
revisão do texto por José Alexandre Ramos

21 de junho de 2015

Tradução holandesa de Caminho Como Uma Casa Em Chamas finalista do Europese Literatuurprijs (Prémio da Literatura Europeia)

Harrie Lemmens com António Lobo Antunes
foto de João Céu e Silva - Diário de Notícias
Harrie Lemmens, tradutor holandês de António Lobo Antunes, está nomeado para o Europese Literatuurprijs - Prémio da Literatura Europeia -, que é atribuído anualmente na Holanda ao melhor livro traduzido do ano anterior publicado num país europeu.

Als een brandend huis, a tradução de Caminho Como Uma Casa Em Chamas, de António Lobo Antunes, pela mão de Harrie Lemmens, está na shortlist dos 6 títulos escolhidos de entre a primeira selecção dos 20 melhores títulos traduzidos que fora anunciada em Março. Esta shortlist foi conhecida no passado dia 9 de Junho e um mês depois, a 9 de Julho, será revelado o vencedor do prémio.

O semanário holandês De Groene Amsterdammer, um dos organizadores do prémio, publicou críticas aos títulos seleccionados logo após o anúncio da lista em 9 de Junho. Citamos de seguida excertos da crítica a Als een brandedend huis, feita por Christiaan Weijts. Estes excertos foram traduzidos por Ana Carvalho.

Relembramos que a tradução holandesa de Caminho Como Uma Casa Em Chamas foi a estreia mundial para a primeira publicação deste livro de António Lobo Antunes, semanas antes de ser publicado pela Dom Quixote o texto original em português, em Outubro de 2014.

*

A alma das coisas (excerto)


Uma pintura camada a camada, pensamentos que emergem para logo desaparecer, recordações, impressões, sonhos, farrapos de diálogos. Por vezes, repetições literais que, sendo temas recorrentes, reforçam a musicalidade. Este ziguezaguear sem pontuação procura imitar a ininterrupta corrente interior que é um misto de pensar, sentir, falar, sonhar e recordar.

Traduzir um livro destes requer uma mão extremamente segura, um ouvido musical e uma sensibilidade especial para encontrar o ritmo certo. O tradutor Harrie Lemmens dispõe visivelmente de todas essas qualidades, tendo sabido criar uma linguagem que traz à superfície uma camada de energia singularmente íntima.

Surpreendentamente, esta linguagem não é, de modo algum complicada. Até mesmo a gramática, embora algo caprichosa, não descamba em nenhum momento em poesia experimental conhecida pelo seu carácter impenetrável. Contrariamente ao que se poderia pensar na primeira abordagem, esta obra é justamente o oposto de impenetrável e confusa. É uma prosa certeira, esmerada, que, através de detalhes concretos, penetra naquilo que Flaubert diz ser “a alma das coisas”.


por Christiaan Weijts
em De Groene Amsterdammer
10.06.2015
[traduzido do holandês por Ana Carvalho]

30 de setembro de 2014

Universidade romena distingue António Lobo Antunes com Honoris Causa

Citado do site Observador:

A universidade romena de Babes-Bolyai vai distinguir o escritor português António Lobo Antunes com o Doutoramento Honoris Causa e com o Grande Prémio de Excelência do Salão do Livro da Transilvânia.
O escritor António Lobo Antunes vai receber na próxima segunda-feira o Doutoramento Honoris Causa da Universidade Babes-Bolyai e o Grande Prémio de Excelência do Salão do Livro da Transilvânia, em Cluj-Napoca, na Roménia, anunciou a sua editora.
A distinção académica, afirma a editora do grupo LeYa, é “resultado de uma decisão unânime dos membros do senado daquela universidade, uma das mais antigas e prestigiadas da Europa central e oriental”. O doutoramento é atribuído ao autor de “Auto dos Danados” pela sua “contribuição excepcional para a literatura mundial” e pela “difusão da cultura portuguesa no mundo”, afirmam as Publicações D. Quixote, citando o documento da universidade romena.
A Universidade Babes-Bolyai, em Cluj-Napoca, atribuiu igual distinção, entre outros, ao escritor Mario Vargas Llosa, ao historiador Jacques le Goff, à chanceler alemã Angela Merkel, e ao teólogo Joseph Ratzinger, actual papa emérito.
Na terça-feira, na abertura do Salão do Livro da Transilvânia, que se realiza também em Cluj-Napoca, onde serão apresentadas as edições romenas dos livros do autor, António Lobo Antunes receberá o Grande Prémio de Excelência do Salão do Livro.
Lobo Antunes, de 72 anos, tem editados mais de trinta títulos, entre romances, poesia e crónicas, tendo-se estreado literariamente com “Memória de Elefante”, em 1979, e logo nesse ano publicou “Os Cus de Judas”. A editora anunciou que o próximo romance de Lobo Antunes, “Caminho Como Uma Casa Em Chamas”, será publicado no dia 21 de Outubro.

fonte: Observador / Agência Lusa
29.09.2014
texto revisto por José Alexandre Ramos
foto de Georgina Noronha editada por José Alexandre Ramos

6 de fevereiro de 2014

Jornal de Letras: «Lobo Antunes, as três irmãs e uma garrafa de grappa», por Ana Margarida de Carvalho

O escritor António Lobo Antunes, em Udine, na cerimónia de entrega do Prémio Nonino: encantou-se com três belas irmãs que usam o mais sofisticado marketing no seu negócio de milhões, enfadou-se com a conversa "intelectual" de figuras de referência da ciência e da literatura mundiais, ensinou anedotas embaraçosas a jornalistas italianos e até cantou...


Havia um anúncio sobre pré-confeccionados em que dois cozinheiros supostamente italianos se punham a discutir: um insistia que o segredo estava na pasta; o outro retorquia que estava no molho. No caso da grappa (uma espécie de aguardente típica do norte de itália) da marca Nonino o segredo está numa combinação rara de alquimias e destilações de um tipo de uva muito selecionado, com mais de um século de depuração (desde 1897); não, o segredo está na garrafa, no design feminino, que faz com que a "bottiglia" mais pareça um frasco de perfume do que de aguardente; não, o segredo está num marketing muito inteligente e engenhoso que conseguiu transformar uma bebida tradicionalmente associada à pobreza e ambientes rústicos num produto altamente sofisticado, caro, consumido em meios elitistas; não, o segredo está na família (ou não estivéssemos nós em Itália) matriarcal, uma "nonna", três filhas, Cristina, Antonela, Eisabetta e sete netas (apenas um neto rapaz) que toma a cargo o negócio, a imagem e a marca; não, o segredo está na criação de um prémio internacional (o prémio Nonino existe há 39 anos), que distingue alguns dos mais prestigiados vultos da literatura e da ciência em todo o mundo, alguns deles posteriormente "nobelizados" (como V. S. Naipul, Tomas Transtromer, o chinês Mo Yan ou Peter Higgs), e que acrescenta à grappa Nonino todo um gosto extra a elegância, requinte, com tanto teor de álcool como de alta cultura (e só este evento que mobiliza mundos e muitos - mas mesmo muitos - fundos vale mais do que qualquer anúncio ou publicidade); não, o segredo está em tudo isto junto. Foi assim que António Lobo Antunes (um dos premiados deste ano) veio parar a esta cidade do nordeste de Itália (numa zona rural e industrializada), pouco turística, junto a Veneza, tão perto do mar, quanto das montanhas alpinas cheias de neve nos cumes, mais conhecida pela sua grappa (lá está), por ter uma tradição secular de construção de cadeiras (exportadas para todo o mundo), pelo presunto San Daniele e que tem como prato típico o "frico": batata cozida com queijo derretido. Foi assim que Lobo Antunes, que oscilava entre a satisfação e o seu habitual ar negligé, um misto de indiferença estudada e provocação, se viu nos salões de festas faustosas, servido por famosos chefs de cozinha, nas mesas em que se sucediam pratos de haute cuisine, e até um peixe gigante inteiro, exibido triunfalmente (comentário do escritor: "olha, o peixe do Emingway"), rodeado de mulheres belíssimas de vestidos de gala ("elas são tão simpáticas, e cheiram tão bem, e não repetem a toilette; cada vestido dava para nós vivermos durante um ano, basta passar a mão pelos tecidos para se perceber..." 

Na cerimónia de entrega (sábado, dia 25) com uma assistência de mais de 600 convidados (muitos deles ilustres figuras de Itália) - comentário de Lobo Antunes: "era tão bom que toda esta gente lesse" - ante os principais meios de comunicação daquele, entre coros e dança tradicional, os fornos das destilarias e as omnipresentes garrafas de grappa, o prémio do escritor português foi-lhe entregue por Claudio Magris, com um entusiástico elogio. Juntamente com o escritor português foram premiados o filósofo francês Michel Serres (entregue por Edgar Morin), o psiquiatra italiano Giuseppe Dell'Acqua (entregue por António Damásio) e a palestiniana, activista e escritora Suad Amiry (entregue pelo poeta sírio Adonis), que dedicou o prémio também à sua cadela: é com o passaporte do cão que entra em Jerusalém.

E se a família Nonino conseguiu desarmar todas as relutâncias e aquela fleuma altiva do escritor português, "destilavam" exuberância e simpatia, com um luxo, que sem ser nada discreto, não ostentava mau gosto ou qualquer exibicionismo provinciano, os jornalistas desconcertavam-se... Eles indagavam da sua relação com escritores italianos, como Tabucchi, e António Lobo Antunes divergia e citava políticos portugueses: "Aos amigos nunca se mente. À pide e às mulheres mente-se sempre". Prefere falar de Salgari, "tive a sorte de o ler na altura certa", de Italo Calvino, "a sua morte foi uma perda para toda a gente que gosta de literatura", do amor "que é feito de atenção delicada", de sexo, "sexo sem amor dá vontade de tomar banho por dentro" e das mulheres, "não há mulheres fáceis: ou são dificílimas ou impossíveis". Detestava ser mulher, admite, "ainda tinha de aturar um parvo a dizer mentiras, convencido que era capaz de conquistar uma mulher, quando na realidade, quem escolhe são elas. E eles, feitos tontos, já foram escolhidos mas não percebem, porque elas são generosas e convencem-nos disso". Recusa a ideia de que a estrutura narrativa dos seus livros, em que muitas vezes os tempos e as vozes se cruzam, seja uma técnica literária, aliás irrita-o a "proeza técnica" ("um livro tem de ser um murro, tem de agarrar o leitor pelo pescoço"), e está cada vez está mais convencido de que não há presente, passado ou futuro: "Existe um enorme presente em que nunca abandonamos as pessoas de que gostamos. Se eu ainda hoje sinto o cheiro de casa dos meus avós, isso quer dizer que eles já não existem?". Prefere não se pronunciar sobre escritores, "porque confundimos sempre paixões com ideias e não somos capazes de abdicar das nossas paixões", volta-se, antes, para aqueles que nunca se desvalorizam na sua bolsa de valores pessoal: Ovídio, Horácio e Virgílio. E cita o general do século XVII Montecuccoli, "que sem saber fez mais pela teoria da literatura do que qualquer académico" ao dizer "é preciso agarrar a oportunidade pelos cabelos, mesmo sabendo que ela é careca". Depois de um cancro no intestino, dois em cada pulmão, uma operação e tratamentos agressivos de quimioterapia, Lobo Antunes faz como Sócrates que quis aprender a tocar lira, mesmo sabendo-se condenado. De que te serve?, perguntavam-lhe os amigos: "Serve para tocar". "O que me interessa a mim ter estátuas equestres? A minha única chance é segurar uma caneta. Talvez haja dentro de nós uma esperança de eternidade. E de que algo nos salve, e de que... olhe, de que haja manhã...". E novamente Hemingway: "A morte pode destruir-me, mas não me mata".

Sente a mágoa da partida dos amigos, "sempre gostei de homens mais velhos", acorda a chorar pelo irmão Pedro, que morreu recentemente, "parece que a família ficou coxa", confidencia, atormenta-o ter perdido parte da sua beleza física - "agora sou apenas um senhor com algum charme" -, mas está convencido que a beleza de Paul Newman "impediu que percebessem o grande actor que era". Declara, perante os jornalistas aglo desconcertados, "que se Claudia Cardinalle escrevesse, faria livros épicos". Mas tem pena das escritoras mulheres "coitadas, os homens sentem-se intimidados, e estão sempre a tirar ilações do que elas escrevem". Ainda se sente capaz de cometer loucuras, de mudar completamente a sua vida, de ter alegrias súbitas, quando se sabe traduzido no Irão ou na Etiópia. "É tão fácil dizer amo-te e nunca dizemos. E ficamos com a ternura no colo como um bebé, sem saber o que fazer dele". E logo o raciocínio se vira para o Papa Francisco: "É conservador e populista porque diz coisas que os outros não eram capazes e como andamos todos com esta sensação de sermos mal-amados, ficamos com esta ilusão de que o papa vai mudar as coisas... Não vai."

Ao fim de três dias, Lobo Antunes dá sinais de inquietação. Tanta atenção, tanta ternura e alegria também cansam. "Elas abraçam-me", consente, "mas não são abraços apertados". Está farto de jantar com gente erudita, de conversas existenciais. Apetecia-lhe citar Walt Whitman: "I like animals because they don't discuss the existence of god". Cansado de ser polido, mas seduz os locais, quando se põe a trautear músicas italianas que sabe de cor. Eles pedem um fado, dizem que a língua portuguesa é "belíssima", parece, ela mesma, "um canto". Lobo Antunes não lhes fará a vontade, mas já no aeroporto (adora passar horas nas portas de embarque a reparar nas pessoas, adora os corrimãos das passadeiras, adora comida de avião "é como brincar aos jantarinhos, deviam abrir um restaurante só disto") confessa que o jazz, que o pai lhe dava a ouvir, o ajudou a "aprender a frasear". Ainda ofereceu o primeiro livro ao pai, ele chamou-lhe "livro de principiante": "também foi o único que lhe ofereci, não levou mais nenhum". Está impaciente por chegar a casa, aquela região traz-lhe amargas recordações infantis: aos nove anos foi fazer a primeira comunhão a Pádua, e perdeu-se dos pais na Praça de São Marcos, em Veneza, deixou-se ficar sentado em cima dos leões: "Andei pelas ruas sozinho, a chorar, uma angústia terrível. Anoiteceu e lembro-me da cara dos meus pais quando me encontraram, tão aflitos que nem se zangaram comigo". Está com saudades. "Tenho saudades de Lisboa, tenho saudades do mau gosto, tenho saudades de ouvir dizer 'esta gaja é tão boa'. E o poder de síntese desta frase, já viu?"

texto de Ana Margarida de Carvalho
06.02.2014

fotograma do vídeo da cerimónia de entrega dos prémios - ver abaixo (intervenção de ALA entre os 64 e 79 min.)

30 de março de 2011

Doutor Honoris Causa para António Lobo Antunes pela Universidade de Lisboa

O escritor António Lobo Antunes, hoje [22.03.2011] doutorado Honoris Causa pela Universidade de Lisboa, agradeceu o facto de esta juntar o seu a quatro nomes da sua família ligados à instituição, que comemora o centenário.


«O meu sangue está ligado há 100 anos a esta universidade – o meu bisavô, João Maria de Almeida Lima, foi professor nesta universidade e segundo reitor dela; o meu tio-avô Pedro de Almeida Lima foi aqui professor; o meu pai, João Lobo Antunes, também foi aqui professor; e o meu irmão João Lobo Antunes é professor nesta universidade – e agradeço ao magnífico reitor o facto de ter colocado, de alguma maneira, o meu nome junto destes quatro nomes», disse o escritor.

António Lobo Antunes falava hoje ao fim da tarde na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa, na sessão comemorativa dos 100 anos da instituição, após o elogio que lhe foi feito pelo professor José Barata-Moura e de ter recebido das mãos do reitor, António Sampaio da Nóvoa, as insígnias de Doutor Honoris Causa: a medalha com as armas da universidade e o diploma com a sua chancela.

«É evidente que esta honra não me foi outorgada por ter sido um excelente aluno. Pelo contrário, era um aluno extremamente medíocre da Universidade de Lisboa», observou, fazendo rir a audiência.
Para o escritor, «se não fossem os esforços porfiados da família, nunca teria feito o curso de Medicina», porque a única coisa que lhe interessava era escrever: «Desde os sete, oito anos que tinha dentro de mim a convicção profunda e inabalável de que era um génio absoluto e de que ia mudar a literatura portuguesa – de que ia mudar a literatura ‘tout court’».

«E espantava-me muitas vezes, aos 13 anos, quando passava na rua, que as pessoas não vissem isso, não parassem para me olhar extasiadas… E não eram só elas que não viam: os professores do liceu também não viam, os da faculdade também não viram – era eu sozinho que via», comentou, enquanto a sala se enchia de gargalhadas.

«Não era romances que me interessava escrever. A minha ambição era mais simples: queria pôr a vida inteira entre as capas de um livro. E a cada livro acabado – eu não publicava nada, escrevia-os e deitava-os fora -, pensava ‘ainda não é isto, ainda não é isto’, como continuo a pensar agora que ‘ainda não é isto, tenho de ir mais longe, tenho de ir mais fundo, tenho de trabalhar mais’», disse.

Depois, falou do seu amigo José Cardoso Pires, escritor «cuja obra já quase não é lida», que todos os dias lhe telefonava às dez da manhã e um dia ligou mais tarde e lhe disse «É para te dar os parabéns, porque eu ganhei um prémio», um anúncio que Lobo Antunes interpretou assim: «Foi a declaração de amizade mais bonita que alguma vez recebi».

Da mesma forma, hoje, exactamente quatro anos após o diagnóstico de um tumor que o fez «negociar livros com a morte» – o que, afirma, continua a fazer, tendo a consciência de que a sua obra nunca estará completa -, o escritor agradeceu aos três médicos que o trataram.

«Parabéns, Henrique, por eu ainda estar aqui; parabéns, Leonor, por eu estar aqui; parabéns Luís, por eu estar aqui. É graças a vocês que posso continuar a escrever», concluiu.

Fonte: Sol

30 de dezembro de 2008

«Os livros são indecentemente caros»



Reportagem sobre a atribuição do Prémio Clube Literário do Porto, e ainda sobre a publicação de Arquipélago da Insónia. O escritor comenta o estado da cultura, alegando que os livros estão "indecentemente caros".

duração: 2' 14''

fonte: RTP
28.12.2008

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...