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3 de março de 2014

Bernardo Carvalho: opinião sobre Exortação Aos Crocodilos

Lágrimas de crocodilo

Os romances do português António Lobo Antunes [...] são feitos de frases e parágrafos abortados, que terminam por formar, nessa composição fragmentária de interrupções, uma trama complexa, revelando os sentidos mais surpreendentes.

Ao jogar com uma simultaneidade de tempos, que parece mimetizar os mecanismos da memória num estado ambíguo de pesadelo, essas narrativas contam as coisas mais inesperadas, de repente, escondidas no meio de outras insignificantes. E, aos poucos, por meio desse enorme quebra-cabeças romanesco, o leitor começa a vislumbrar a imagem de um mundo onde a hipocrisia é um dos fundamentos.

Não é uma tarefa simples ou passiva, como a de quem se prostra diante de uma tela de televisão. São livros que exigem uma leitura activa num jogo de combinações em princípio muito nebulosas. São livros que propõem uma leitura inteligente, cuja recompensa é um prazer sempre renovado: um mundo em que podem ser descobertos novos segredos a cada releitura, em retrospecto, a partir do instante em que se conquista a chave final.

Os livros de Lobo Antunes não entregam esse mundo de imediato. Primeiro, abrem apenas frestas, por onde se tem uma visão parcial da realidade narrada. As visões vão se acumulando de maneira entrecortada, são interrompidas justamente no momento em que deixariam de ser visões parciais para se tornar revelações, que são sempre postergadas.

E assim, por diferentes pontos de vista e pela voz de diferentes personagens, vai surgindo gradualmente uma dimensão tão mais real por oferecer várias portas de entrada, uma dimensão enigmática que parece de facto existir por trás das palavras.

Em "Exortação aos Crocodilos", [...] quatro mulheres contam uma história terrível, semeando revelações pelo caminho, enquanto misturam as lembranças remotas, da infância de cada uma, com um passado mais recente, em que servem a um grupo de homens de extrema direita, salazaristas saudosos, que organizam atentados contra a democracia, produzindo bombas caseiras e se encarregando de raptar, torturar e desaparecer com "comunistas".

É possível ver aqui uma referência ao thriller político "Balada da Praia dos Cães", de José Cardoso Pires, romancista português [falecido] em 1998, de quem Lobo Antunes é declarado admirador. A organização integrista clandestina é formada por um general, um dono de hotéis e seu motorista, um oficial da marinha e um bispo. Além das quatro narradoras: a viúva do sócio assassinado do dono de hotéis; a mulher surda do dono de hotéis; a "afilhada" (e amante) do bispo e a namorada obesa do motorista encarregado da confecção das bombas.

Vem a calhar que esse texto seja feito de estilhaços, e que nele o leitor construa a imagem de um mundo por suas impressões fragmentadas. Lobo Antunes é psiquiatra de formação e sua ficção parece mimetizar as ondas cerebrais num estado em que a consciência é dúbia, em que há simultaneidade de tempos e ocorrências, em que não dá para saber ao certo o que é realidade e o que é metáfora. Um estado febril, que só se dissipa com a surpresa final, diante da morte.

Uma narrativa enumerativa, sincopada e progressiva, que vai sobrepondo momentos, factos e objectos da memória, entrecortados pela recordação de outros momentos, factos e objectos numa espécie de processo de livre-associação em que o sentido vem do acúmulo, quando por fim se constata, com espanto, o que aconteceu realmente por trás da nebulosa da memória.

É uma construção narrativa em suspense, já que as frases e parágrafos se interrompem no momento em que estão para dizer algo. "Não diga nada" é, aliás, um dos vários refrões do texto e define não apenas o princípio do comportamento hipócrita e a base dessa actividade terrorista e clandestina que acaba se invertendo contra si mesma, mas também a fórmula da traição e do costume de enterrar os próprios podres às escondidas.

A certa altura, a namorada do motorista lembra-se de quando lhe perguntaram na escola, em criança, o que era a pátria. A que ela respondeu: "São caixas de mármore com pedacinhos de manto, caveiras, coisas mortas", antes de ser corrigida por uma amiguinha, que lhe esclarece que a pátria é "onde a gente nasceu". Lobo Antunes tem outra resposta: a pátria é onde tudo é feito às escondidas, o lugar das traições e da hipocrisia, onde choram os crocodilos.


por Bernardo Carvalho
colunista da Folha de São Paulo
em 29.01.2000

22 de junho de 2011

Luiz Guilherme de Beaurepaire: opinião sobre Exortação Aos Crocodilos


Exortação aos Crocodilos é um livro que não chega a ser uma viagem lisérgica, longe disso, mas é contada de tal forma que beira o inconsciente, no qual pequenos sentimentos, emoções, estados de espírito, loucuras humanas, ausência de amor e incertezas estão presentes nessas vozes, vindas da memória mais profunda de um mundo sufocante.

“O corpo era uma sombra do meu corpo movendo-se sem peso nos chinelos porque o corpo verdadeiro permanecia nesta cama ou em Coimbra há muitos anos, perto dos Salgueiros altos, a eu crescida observando a eu pequena ou a eu pequena observando a eu crescida, não sei...”

Nos primeiros capítulos o leitor anda num terreno minado por bombas e estilhaços. É preciso seguir adiante, ir montando um quebra cabeça compostos de imagens de infância, sabores, objetos de estimação, humilhações cotidianas, procurando reconhecer a voz dos personagens, o tempo de suas falas, o espaço a que se referem, o que acontecimentos relatam.

A narrativa é enigmática, são histórias vividas por homens sob o prisma feminino. São quatro mulheres que escrevem na primeira pessoa: Mimi, Fátima, Celina e Simone. Cada uma delas tem um passado e percurso próprio. O livro começa com as rememorações de Mimi que conta fatos vividos por seus homens, sua avó – uma galega que tinha tranças compridas penteada com aguardente – exerce uma forte influência sobre as demais. Essa avó galega, que possuía o segredo da fórmula da coca-cola, uma fórmula caseira em que misturava água gasosa, açúcar e café.

Mimi é uma surda que ouve o som das coisas, mas é incapaz de ouvir as pessoas. Ela encarna a pobreza da experiência enquanto processo de comunicação.

Fátima é afilhada do Bispo conspirador. Eram amantes. O seu destino estava traçada pelo pai. Celina representa a figura atormentada por ter sido casada ainda jovem com um homem mais velho, porém, rico. Vinga-se ao traí-lo com o seu sócio, que era nada mais, nada menos que o esposo da Mimi.

Simone é uma jovem gorda, complexada, acredita ter encontrado a saída existencial de sua vida carregada de humilhações, namorando o motorista de Mimi:
“Se meu namorado se enganar nos fios e a garagem for inteirinha pelo ar, por mim, palavra de honra, é-me indiferente.Estou cansada de dormir em colchão atrás dos automóveis acordar com dores de cabeça derivado aos vapores de gasolina(...) (...) viver rodeada de pneus motores e embreagem, em vez de quadros e móveis, do general e os outros entrarem sem incomodarem comigo, pedirem licença, me darem os bons dias sequer...”
O que essas mulheres têm em comum é que todas são casadas com pessoas desagradáveis, que abusam de serem violentos, torturadores de comunistas, envolvidos em atentados de direita, movidos por uma nostalgia do regime salazarista.

Exortação aos crocodilos não é um livro que nos leva ao maniqueísmo, ninguém é inocente nesta história toda, o general e o bispo mandam matar; militares e diplomatas articulam contrabandos de armas e operacionalizam fábricas de bombas; e as mulheres assistem a tudo com um silêncio cúmplice. No decorrer do romance, as vozes se cruzam, os tempos se misturam, as histórias se confundem. A morte invade as recordações como se misturasse numa espécie de aniquilamento final.

Nos monólogos interiores das quatro personagens é mostrado um instantâneo do inferno de cada consciência individual.

Exortação aos Crocodilos mistura polifonia, fratura, delírio, caos. Exortação aos Crocodilos é um “pit stop” no inferno da lembrança.


por Luiz Guilherme de Beaurepaire
17.01.2011

28 de novembro de 2009

Maria Celeste Pereira: opinião sobre Exortação Aos Crocodilos


Havia já lido este livro há já alguns anos (talvez oito) quando, num Natal, foi oferecido à minha filha. Confesso que, na altura, tive alguma dificuldade em me aplicar o suficiente na leitura para o apreciar de forma conveniente. Tinha o tempo muitíssimo ocupado, com actividades diversificadas, o que não me deixava grande margem para uma leitura atenta e seguida como é exigência de um livro como este.

Assim, após terminado um livro de um dos irmãos, o mais novo (Nuno Lobo Antunes), completamente diferente no seu estilo, achei que estaria preparada, neste momento em que disponho do tempo da maneira que me apraz, para o reler com a expectativa de melhor apreciar quaisquer subtilezas de estilo, e não só, que me tivessem escapado na primeira leitura.

Pois bem, mais uma vez me levou muito mais tempo do que é normal para ler um livro de dimensão semelhante.

Mais uma vez me vi atrapalhada para acompanhar as personagens sem me perder nos meandros das suas vidas e, sobretudo, sem fazer confusões que tornariam o argumento ininteligível.

Mais uma vez, embora reconheça a imensa mestria necessária para organizar prosa nestes moldes, dava por mim a perguntar-me (sobretudo quando tinha necessidade de voltar uma ou duas páginas atrás para ver o que me tinha escapado para que o resto fizesse algum sentido) se haveria necessidade desta excessiva fragmentação narrativa que pode, e não é difícil que aconteça, desmotivar o leitor menos tenaz.

Será que para se escrever bem é necessário escrever difícil? E reparem, eu até aprecio Lobo Antunes…

Neste livro a narrativa cabe inteiramente a quatro mulheres que partilham segredos comuns por se encontrarem ligadas a um determinado conjunto de homens.

Estes, um grupo de “saudosistas” do anterior regime, oriundos, aparentemente, de diversos meios: burguês, clero e antigos elementos da PIDE, desenvolvem, clandestinamente, perseguições e atentados contra os “comunistas”.

É apenas através do que elas vão desenrolando das suas próprias vidas, desde a infância até à actualidade, que nós vamos decifrando o enredo do livro.

Mimi, Celina, Fátima e Simone, todas elas revelando marcas profundas ao nível da sua estrutura psíquica, devidas a vários factores, todos traumáticos (uma é surda, outra é obrigada a casar muito nova com um homem muito mais velho, outra é sobrinha do bispo, um dos conspiradores e, finalmente a outra sofre de obesidade mórbida tendo encontrado no seu companheiro, o motorista, o seu reduto) vão-nos encaminhando quer de forma inquieta e até brusca, quer de forma surpreendentemente afectuosa, inacreditavelmente terna, através dos acontecimentos que dão corpo ao livro. Embora, a meu ver, o corpo do livro é, na verdade, o próprio imaginário das personagens femininas que o compõem.

Para finalizar. É inegável a mestria literária do autor que faz recurso de técnicas expositivas terrivelmente difíceis. É, sem dúvida, um excelente exemplo de um tipo de literatura contemporânea portuguesa que tem angariado alguns e bons seguidores bem mais recentes.

Contudo, é com algum pudor que o digo: penso que me foi tão difícil ler o livro hoje como já tinha sido há sete ou oito anos atrás.

É muito bom se entretanto conseguirmos não desmotivar e ir lendo até encontrar aquele fiozinho que já não nos deixa largá-lo.

Quando aí chegamos, se chegamos, é fantástico.


Maria Celeste Pereira
02.01.2009

1 de julho de 2009

NetSaber: artigo sobre Exortação Aos Crocodilos


A "Exortação aos Crocodilos" de António Lobo Antunes é um dos mais expoentes trabalhos na carreira deste escritor. O tipo de narração fragmentada é a marca distinta de um livro nada fácil de absorver, e, que valeu a António Lobo Antunes a nomeação para Prémio Nobel da Literatura.

Atordoante, pelas múltiplas vozes narrativas, cria um texto delirante mas ao mesmo tempo belo, com uma assombrosa autenticidade estilística. A narração é feita exclusivamente por quatro mulheres que vivem engajadas no mundo de antigos polícias da PIDE que torturam comunistas e organizam atentados de direita movidos por um saudosismo do regime de Salazar. Mimi é surda e só consegue ouvir o som das coisas e não das pessoas, despojada de interesse é escolhida por um milionário para casar. Celina vê-se obrigada a casar ainda cedo com um homem mais velho, como vingança torna-se amante de um milionário (justamente o marido de Mimi). Fátima é sobrinha de um bispo conspirador. Simone, gorda e complexada, encontra alívio para a sua vida miserável no namoro com o motorista de Mimi.

Este trabalho, de Lobo Antunes, possui uma leitura ofegante, a qual nos permite o ingresso na estrutura psíquica das quatro mulheres. Poderíamos dizer, que inspira-se em cada signo o ar irrespirável daquele mundo execrável dos homens, que as mulheres habitam com uma sofreguidão pautada por cada pensamento, cada impulso, cada emoção ou uma mescla organizada e não gratuita de todas essas pulsões, ao mesmo tempo que consegue construir esses "imaginários femininos" com uma ternura e sensibilidade impares. Um estilo possuído por uma mestria soberba e que vicia. Um bom exemplo da literatura contemporânea portuguesa que revela domínio da linguagem e na construção romanesca.
 
A formação de psiquiatra de António Lobo Antunes tem papel preponderante nesta sua obra, que é um lampejo esquizofrénico, um surto de êxtase resultado de uma técnica espantosa. No final, ficamos com a impressão que de o livro não será igual numa segunda leitura e uma segunda leitura recomenda-se.


artigo citado do site
não datado

6 de março de 2008

Júlio Conrado: Recensão crítica na Colóquio Letras nº 157/158 de Julho de 2000 – pp. 411 a 413


A popularidade e a ressonância dos romances de António Lobo Antunes terão hoje de ser procuradas à margem das coordenadas do bem escrever, pois vários são os sinais da existência de certo «problema» da escrita na oficina de um autor que admira Céline, gostaria de se rever no estilo de Cardoso Pires e tem «inveja», neste particular, de Mário Cláudio. Num pequeno exercício de leitura crítica de Exortação aos Crocodilos, procurarei isolar duas ou três linhas de força que ilustrem sumariamente o que precede. Pelo volume da obra, a sua penetração num vasto público, o seu renome, ambos, obra e Autor, merecem a observação, de perto, do modo como um produto manifestamente não encantatório e de escassa ludicidade consegue, em todo o caso, ganhos de sociabilidade só ao alcance de textos em que o prazer da cumplicidade estética na partilha da leitura do mundo por via escritural é uso atingir-se a partir de outros padrões de realização. Enigmático? Vamos por partes.

Talvez como em nenhum dos anteriores romances de Lobo Antunes da fase mais recente[o recenseador estava em 2000] - aquela em que o Autor se compraz em executar alguns exercícios «formais». supostamente irreverentes, que marcam a diferença em relação à compostura sintáctica dos primeiros livros - seja tão evidente a aposta num efeito de pulverização do discurso como em Exortação aos Crocodilos. Esse efeito é obtido através do dispositivo verbal que estimula o levitar de pequenas fracções do texto num espaço narrativo restrito onde concorrem sobretudo para a criação de atmosferas em detrimento de fluxos contínuos de sentido lógico. A demonstração desta «técnica» nas primeiras páginas deixa perceber uma premeditação de caos ao arrepio de nexos gramaticais e linguísticos conservadores que a lenta evolução da intriga acabará por naturalizar, graças a procedimentos de recorte iterativo-redundante a que o narrador recorre sem qualquer embaraço. Desde logo dá nas vistas a personagem surda e isso explicará, quando em intervenção mediúnica o narrador «por ela» discorre na primeira pessoa, o corte abrupto das palavras, a incompletude das representações, o défice de associações e equivalências correspondentes ao que no campo visual vai captando. Surpreendentemente, porém, essa personagem - a mulher de um «patrão» terrorista - , em lapsos fulgurantes de lucidez, consegue contextualizar, racionalizando, o que se passa à beira dela, de tal modo que as suas intermitentes reflexões se tornam, desde cedo, um dos traços credenciadores do recado que se pretende fazer passar, a «voz» de que o narrador se serve para, em apoio dos próprios desígnios, estabelecer na desordem vocabular e de conteúdos um princípio de organização espacio-temporal.

A partir desta linguagem «surda» de retalho, dinamitada por fracturas, interrupções bruscas, cortes, elipses, silêncios e falas sibilinas de conspiração, ganha gradualmente nitidez a ligação do operacional terrorista à hierarquia da Igreja Católica (não por acaso a acção tem por centro geográfico o Patriarcado), empenhada numa guerra santa, ao lado de generais inconformados com o estado das coisas e do embaixador norte-americano - guerra santa cujo aparato rapidamente coloca o receptor no miolo de um esquema do tipo de rede bombista. Outros comparsas entretanto se intrometem, outros elementos de distúrbio atrapalham, outros cenários alternam com miúdos relatos de odisseias pessoais, como por exemplo a vida conjugal de Celina e seu epílogo violento. De sublinhar que a maioria dos eus da história se expressa do ponto de vista do feminino - Mimi, Simone, Celina ou Fátima (o que revela uma tendência de Lobo Antunes já visível noutros escritos, veja-se O Esplendor de Portugal). A leitura terá de continuar em esforço porque a clareza expositiva no vermelho deriva do que tende a consolidar-se como «estilo». Se o Autor não é capaz de escrever bem e claro embora os temas o reclamem, porque não fazer da falta de estilo «o estilo»? Ou será o instinto de autodefesa a impor o não estilo como medida de precaução, não vá o diabo tecê-las?

À medida que o romance avança, afrouxa ligeiramente o ritmo da fragmentação. As atmosferas adensam-se com o correr da intriga, mas percebe-se que, a dado passo, o Autor sente a necessidade de começar a explicar-se ao leitor - aligeirando certos truques de mistério, suspense, obstrução lexical. Essa explicação passa por um discurso já não tão prolixo e pelo acumular de informações que remetem para um tempo específico da história portuguesa recente («um levantamento de católicos ao norte, o roubo de armas numa caserna, uma bomba na moradia de um deputado de Souzel», p. 147) e para uma definição mais precisa do relacionamento das personagens entre si e do que lhes vai acontecendo ou daquilo que os seus comportamentos vão determinando.

O tom é de disforia. Não sobra um nico de optimismo, uns laivos de amor ou de ternura aliviando a pressão de quotidianos sem luz, sufocantes de medos e de casos clínicos sem o colorido das perspectivas de cura. O clima é de guerra santa vivida em espaços interiores, frequentados por gente marcada, altos dignitários, antigos polícias, mulheres que colaboram, na sombra, nas acções, mas cujo testemunho é crucial na configuração da trama. A tónica no inventário minucioso de mobiliário, adereços, bibelôs, naperons, reposteiros, talheres, salvas de prata, argolas de guardanapo, abajures, contadores, loiças chinesas, jarras de porcelana, arcas japonesas, etc., numa obsessão pelas coisas que vem do Novo Romance e é recorrente na prosa do Autor, ajuda a situar socialmente todos aqueles nostálgicos de um regime que caiu de podre e que agora encontram nova razão para se sentirem vivos - a cruzada contra os comunistas, com algumas variantes: a relação de Fátima com o «padrinho» no capítulo dezoito é dada com requintes de crueldade, a que não escapa a forte carga simbólica do nome, em episódio que se inscreve como dos melhores instantes no livro de horrores que é Exortação aos Crocodilos.

Sempre com as mulheres conduzindo os fios da intriga numa «fala» segmentada por recordações da infância, reminiscências da fase adolescente, memória de relações familiares conturbadas, identificadas às vezes por frases sobreviventes ou de choque (este é um romance sem diálogos e de precária vocação coloquial, ainda que verbalmente chão), tais como «Livra-te de te coçares agora», «Pára com a choradeira rapariga», «Se o teu pai coitadinho sonhasse...», «Voar Celina voar», «Deslarguem-me», etc., chega-se à consumação do atentado para que a subjectividade do texto vinha apelando. Assim se consagra uma estratégia romanesca de condenação da guerra santa que todavia não chega a ser guerra suja (talvez por falta de condições concretas para tal), mas sem a tendência da escrita se inverter por forma a que o sentido se encaminhe para uma síntese de conto moral capaz de criar empatia e colocar o leitor a favor ou contra o que a história, não obstante, propõe, dificuldade resultante dos níveis de ambiguidade em que essa proposta é literariamente objectivada.

Como «justificação» do sucesso de livros como este, excluindo as campanhas demarketing e promocionais que pouco têm a ver com a literatura, só encontro, por um lado, as fidelidades de leitura que vêm dos tempos de Memória de ElefanteOs Cus de JudasConhecimento do Inferno e Explicação dos Pássaros, e por outro a coragem com que António Lobo Antunes aborda os temas social e politicamente explosivos do nosso tempo e que insolitamente tão pouco eco encontram na produção da esmagadora maioria dos ficcionistas portugueses. Eram tempos, aqueles, em que Lobo Antunes escrevia por prazer e muitos sentiam prazer em lê-lo. Depois, tornou-se escritor profissional, estrito senso, com a obrigação de pôr cá fora uma ficção «genial» de doze em doze meses, mais coisa menos coisa. Exortação aos Crocodilos é sem dúvida o romance mais exuberantemente depressivo, no seu tricô exasperado de ódios, sombras e desastres, desta segunda, estranhíssima, fase.


Júlio Conrado
Colóquio Letras 157/158
Fundação Calouste Gulbenkian
Julho de 2000

6 de janeiro de 2007

Le Monde Diplomatique (Brasil): sobre Exortação Aos Crocodilos


Um romance sobre a revolução portuguesa

Quando o Prêmio Nobel de Literatura foi atribuído a José Saramago, algumas vozes levantaram-se para lamentar que o júri não tivesse preferido Antonio Lobo Antunes. Sem querer entrar numa polêmica inútil, dada a dificuldade de comparar os méritos dos dois autores, diríamos que seu Exortação aos crocodilos prova mais uma vez que ele é um grande escritor, um daqueles que os séculos contam nos dedos das mãos. O romance é composto de um coro a quatro vozes que intervêm sucessivamente oito vezes, um pouco sob a forma de um padrão: trinta e dois capítulos de uma extraordinária profusão de imagens poéticas, sustentadas por uma escrita de extrema tensão — falou-se a seu respeito de um estilo modelado pelo de Céline  — e por uma construção de impecável rigor, que evoca para o leitor lembranças da música barroca e da pintura cubista.

Emília (que todos chamam de "Mimi" e que é surda), Fátima (afilhada de um bispo lascivo), Celina (preocupada com os primeiros estragos do tempo em sua beleza congelada) e Simone (obesa, mas gostaria de se chamar Cintia) recitam, uma de cada vez, monólogos sobre seus pais, sua juventude perdida, seus maridos, seus amantes, suas preocupações, seus sonhos e lembranças, a morte que as oprime cada vez de mais perto. A própria morte e a morte dos outros, esses comunistas e democratas que seus homens decidiram exterminar acreditando fazer desaparecer a Revolução dos Cravos graças a sua miserável conspiração apoiada por militares espanhóis (Franco ainda estava vivo), pelo embaixador americano e por agentes secretos da África do Sul (Mandela ainda estava preso).

 

Sensível, mas empolgante como um thriller


Esta conjuração realmente existiu, agrupada em torno do general Spínola, e realmente custou a vida de comunistas, democratas e do primeiro ministro Sá Carneiro. A genialidade de Lobo Antunes é falar dela apenas indiretamente, através do envolvimento mais ou menos definido dessas quatro mulheres. Essa mistura de emoções íntimas, de delírios oníricos, de reflexões irônicas ou desiludidas e de cenas de massacres, de torturas e de atentados, coloca de uma forma inteiramente nova uma das questões mais antigas que a humanidade enfrenta: o mal. Nenhuma resposta é proposta, muito menos uma "compreensão" qualquer.

O romance é também um espantoso thriller. Pouco a pouco acreditamos entrever, por meio das lembranças das narradoras, em que trauma profundo se insere a anomia que lhes permite não apenas tolerar como participar de todos esses crimes. As quatro pertencem a uma outra época, à de um Portugal paralisado no passado, aterrorizado pela Igreja e seu inferno prometido às almas pecadoras, povoado de famílias de camponeses e comerciantes destruídas por incestos, tudo isso adormecido sob um regime político ditatorial. Tendo como exemplo os homens a sua volta, as quatro estão profundamente desajustadas à modernidade que acaba de irromper, ao mesmo tempo que os militares revolucionários voltam da África em um certo 25 de abril, o que, evidentemente não justifica nada.

Seja como for, não se sai ileso desta leitura: é próprio da arte impor-se ao mesmo tempo como fonte de admiração, reflexão e emoções intrincadamente emaranhadas.


artigo citado do site
Março de 2000

16 de julho de 2006

Bruno Silva: opinião sobre Exortação Aos Crocodilos


A "Exortação aos Crocodilos" de António Lobo Antunes é um dos mais expoentes trabalhos na carreira deste escritor. O tipo de narração fragmentada é a marca distinta de um livro nada fácil de absorver, e que valeu a António Lobo Antunes a nomeação para Prémio Nobel da Literatura.

Atordoante, pelas múltiplas vozes narrativas, cria um texto delirante mas ao mesmo tempo belo, com uma assombrosa autenticidade estilística. A narração é feita exclusivamente por quatro mulheres que vivem engajadas no mundo de antigos polícias da PIDE que torturam comunistas e organizam atentados de direita movidos por um saudosismo do regime de Salazar. Mimi é surda e só consegue ouvir o som das coisas e não das pessoas, despojada de interesse é escolhida por um milionário para casar. Celina vê-se obrigada a casar ainda cedo com um homem mais velho, como vingança torna-se amante de um milionário (justamente o marido de Mimi). Fátima é sobrinha de um bispo conspirador. Simone, gorda e complexada, encontra alívio para a sua vida miserável no namoro com o motorista de Mimi.

Este trabalho, de Lobo Antunes, possui uma leitura ofegante, a qual nos permite o ingresso na estrutura psíquica das quatro mulheres. Poderíamos dizer, que inspira-se em cada signo o ar irrespirável daquele mundo execrável dos homens, que as mulheres habitam com uma sofreguidão pautada por cada pensamento, cada impulso, cada emoção ou uma mescla organizada e não gratuita de todas essas pulsões, ao mesmo tempo que consegue construir esses "imaginários femininos" com uma ternura e sensibilidade ímpares. Um estilo possuído por uma mestria soberba e que vicia. Um bom exemplo da literatura contemporânea portuguesa que revela domínio da linguagem e na construção romanesca.

A formação de psiquiatra de António Lobo Antunes tem papel preponderante nesta sua obra, que é um lampejo esquizofrénico, um surto de êxtase resultado de uma técnica espantosa. No final, ficamos com a impressão que de o livro não será igual numa segunda leitura e uma segunda leitura recomenda-se.


Bruno Silva
13.07.2006

21 de julho de 2005

Dauro Veras: opinião sobre Exortação Aos Crocodilos


Quatro mulheres compartilham um segredo terrível ligado aos homens com quem vivem. Suas memórias e a opressão de carregar o segredo compõem o cenário deste romance do português António Lobo Antunes. Por meio dos monólogos interiores de Mimi, Fátima, Celina e Simone, o escritor conta a história fictícia da rede de extrema-direita que cometeu atentados em Portugal nos anos setenta.

Elas expõem seus pensamentos de forma fragmentada, alternando-se umas às outras capítulo após capítulo. Mimi é surda e sofre de câncer. Na sua lembrança está sempre presente a avó, matriarca que mergulhava a trança dos cabelos em aguardente e que lhe ensinou a fórmula da coca-cola. Seu marido participa da organização terrorista, trabalhando para um bispo católico. Fátima é afilhada e amante do bispo. Celina é a esposa atormentada e depois viúva de um homem rico. E Simone namora o rapaz que monta as bombas.

Lobo Antunes não apresenta amenidades ao leitor. Exige-lhe dedicação para avançar entre palavras interrompidas, digressões, misturas de vozes e tempos, longos trechos sem ponto final. É preciso ir, pouco a pouco, montando um quebra-cabeças de estilhaços, composto de imagens da infância, sabores, objectos de estimação, humilhações quotidianas. A culpa está presente em todos, de uma forma ou de outra: o general e o bispo são mandantes de assassinatos. Militares e diplomatas articulam o contrabando de armas. As mulheres são cúmplices silenciosas. Elas têm em comum entre si uma profunda solidão.

A linguagem inusitada parece, a princípio, uma barreira para a fluência da narrativa. Mas aos poucos vai-se penetrando na consciência sofrida das protagonistas, percebe-se seus desejos, medos e frustrações. Da metade para o fim o ritmo se acelera e alusões que pareciam enigmáticas começam a ganhar sentido. Mas para cada leitor, esse sentido será único, com peças montadas a seu modo e outras que não se encaixam. Assim como a verdade permite distintas interpretações, o universo mental das quatro mulheres oferece um campo vasto para que se desfrute o romance com uma verdadeira sensação de co-autor.


por Dauro Veras
Junho 2001

30 de janeiro de 2005

Luciana Hidalgo: sobre Exortação Aos Crocodilos


O estilo do Lobo

O escritor português António Lobo Antunes inventa uma escritura que se inscreve no papel como partitura. Inspirado na estrutura sinfônica da música, este autor cria um estilo musical e delirante, lírico e raivoso, poético e desesperado. O livro “Exortação aos crocodilos” insere-se na literatura de língua portuguesa com uma autenticidade estilística que assombra, provocando desconcertante estranheza. E somente ao longo de sua decifração percebe-se o quanto este código a princípio desconhecido não só tem coerência como é aturdido, belo — e extenuante. A leitura flui numa labiríntica sucessão de vozes e sons, combinadas harmonicamente como fragmentos de existências que ora se encaixam ora se estranham. Há consonância e dissonância, porque, basicamente, o tom é o do delírio, da alucinação, do sonho. A escrita como um surto, um êxtase sinfônico: eis a marca de Lobo Antunes, que ele leva à máxima depuração nesta obra, com técnica espantosa.

Estimado como um dos maiores nomes (entre os vivos) da literatura mundial, este ex-psiquiatra, que introjeta muito da desestrutura da loucura em sua literatura, é destas lendas que aos poucos tornam-se mitos ainda em vida, aqui e ali, nos mais de 20 países em que tem sido traduzido. Avesso a entrevistas, isolado do mundo em seu apartamento em Lisboa, não ao acaso Lobo Antunes cita Louis-Ferdinand Céline, o eterno maldito escritor francês, como o eleito. Em suas personalíssimas elaborações formais, os dois pouco se assemelham, mas trazem o estilo seco e polêmico, certa virulência, uma assumida infelicidade e toda a certeza da miséria humana. Na França, por exemplo, a imprensa chegou a coroá-lo, Lobo Antunes, como “o Céline português” — e nisto era só elogios.

Em “Exortação aos crocodilos”, o autor, que quando concede entrevistas entrevê todo o desencanto que justamente encanta a sua obra, dá voz a quatro mulheres, assombradas por reminiscências tristes e massacradas pelo mundo dos homens. A primeira, Mimi, é uma surda só capaz de ouvir o som das coisas, jamais das pessoas, e totalmente destituída de charme, mas escolhida por um milionário para o casamento. A segunda, Celina, tem a infância roubada por um marido velho que a desposa ainda jovem, e vinga-se traindo-o com seu sócio (justamente o marido de Mimi), para depois bolar crime mais cruel. A terceira, Fátima, é sobrinha de um bispo conspirador, e a quarta, Simone, jovem gorda e complexada, acredita ter encontrado a saída de emergência para a sua vida miserável no namoro com o motorista de Mimi. Entre traições e incestos, o que elas têm em comum são homens desagradáveis e violentos, engajados na tortura de comunistas e na realização de atentados de direita, movidos pela nostalgia do regime salazarista. Eis outra das marcas de Lobo Antunes, a renitente crítica política à pátria.

A leitura permite o ingresso na estrutura psíquica de cada uma das mulheres, como se fosse possível desfiar a tessitura do seu imaginário, sem nunca parar, pois o poço jamais tem fundo. O efeito é quase lisérgico, pois desenrolam-se pensamentos, emoções, nostalgias, urgências, pulsões de morte; a miséria humana em todo o seu dissabor. É como se o escritor levasse para a literatura cada frase, vírgula, exclamação que pontuam o pensamento, dada a dispersão da mente do homem, seu descontrole e verborragia inauditos. O que impressiona é que, apesar desta loquacidade do discurso da razão/emoção, o estilo de Lobo Antunes não é barroco, mas enxuto, discípulo que é, confesso, de João Cabral de Melo Neto e sua poesia calcada no substantivo. Ele derrama e resseca, acelera e recua. Dá voz às mulheres, deixa-as tagarelar (mentalmente), para depois dizer que o que busca é o silêncio, como se procurasse o grau zero da linguagem, uma linguagem não inflacionada por adjetivos, advérbios, desesperos.

Toda esta narrativa, que traz um pouco da esquizofrenia, do caos diante do que é realidade ou fantasia (pois no romance nem sempre é possível detectar esta fronteira), é respaldada por inovações. Exceto pelo primeiro parágrafo, os seguintes, de um mesmo capítulo, começam com letra minúscula, não terminam com ponto, têm parênteses abertos para abrigar uma ou outra voz, ou um sonho. Outra invenção é a frase, ou mesmo a palavra, interrompida. Este conceito da composição em fragmentos não-lineares é meio pós-moderno, mas há aí uma preocupação com o entendimento, nada havendo que não possua sentido, que não dê a senha para a compreensão da trama, enfim, um virtuosismo dos mais refinados, destinado aos aficionados do estilo.

por Luciana Hidalgo
10.11.2001

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

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