31/10/2010

Da apresentação de Sôbolos Rios Que Vão



Visão: Ricardo Araújo Pereira entrevista António Lobo Antunes


Visão
Entrevista de Ricardo Araújo Pereira
28 de Outubro de 2010




Sabíamos da admiração mútua. E ainda no lembramos de quando Ricardo Araújo Pereira era estagiário no Jornal de Letras. No momento em que Sôbolos Rios Que Vão chega às livrarias, a Visão desafiou o humorista a entrevistar o escritor. António Lobo Antunes abriu-lhe as portas da sua casa, e baixou todas as defesas.


O sr. António Antunes vive num sítio que não existe. Ora está no Hospital de Santa Maria, onde lhe chamam sr. Antunes, em março de 2007, ora está em Nelas, no tempo em que o tratam por Antoninho. Corrijo: não está ora num lugar, ora noutro. Está nos dois ao mesmo tempo, no tal sítio que não existe. Está num hospital que cheira a campo e a compota; e está na margem de um Mondego à beira do qual há árvores das quais saem tubos de soro. E não é só o sítio que não existe: o sr. António Antunes, na verdade, também não («Não vês que nenhum de nós existe?», lembra, insistentemente, a governanta do senhor vigário): é um menino que os médicos operam a um cancro e um velho que enche balões que têm escrito «Armazéns Victória Tudo Para a Mulher Moderna», que sonha com uma estrangeira loira que viu num hotel, que luta com a ortografia da palavra bochecha por causa de um ditado («Título: O Balão. Noutra linha: Bochecha de menino me deu vida»).


Sôbolos Rios Que Vão é, como diz Lobo Antunes de si mesmo, um elo de uma corrente. Está encadeado com um poema de Camões que, por sua vez, estava enlaçado à Bíblia. Mas é escrito noutra língua. No idioma de Lobo Antunes, Sião diz-se infância, exílio diz-se cama de hospital, e Tigre e Eufrates confluem para levarem ambos o nome de Mondego. A harpa passou das mãos dos que a tocavam junto dos rios da Babilónia para as de uma certa dona Irene, que também perde a alegria de tocá-la.
Não interessa muito saber até que ponto o sr. António Antunes é António Lobo Antunes, uma vez que, para todos os efeitos, o sr. António Antunes somos também o leitor e eu. Estamos todos no Hospital de Santa Maria (local a que, fora dos livros, chamamos mundo) entre 21 de março e 4 de abril de 2007 (período a que aqui costumamos chamar vida).
António Lobo Antunes, a quem Mario Vargas Llosa telefonou, na semana passada, a pedir desculpa por ter ganho o Nobel em vez dele, refere-se muitas vezes aos seus livros como «as minhas redacções». Em criança, escrevia com um livro aberto à sua frente, para enganar um adulto que o surpreendesse quando devia estar a estudar. Hoje, continua a escrever com um livro aberto diante de si, como se a escrita fosse ainda uma espécie de transgressão infantil. Aos livros de António Lobo Antunes, é bochecha de menino que lhes dá vida.
Esta entrevista foi feita em casa do escritor. Como sempre que se encontram dois benfiquistas decentes (passe o pleonasmo), começou por se falar do Benfica. Recordou-se a equipa bicampeã da Europa, e os seus jogadores foram sempre designados pelo nome completo, como deve ser. Dedicou-se um quarto de hora ao pé esquerdo de Fernando Chalana, que, no entanto, merecia mais. A subtileza de Nené e a inteligência de Pablo Aimar foram medidas contra a subtileza e a inteligência de outros (sim, outros) poetas, e ganharam a contenda. Só depois se falou de temas não tão importantes, como a vida, a morte, a literatura. Com desculpas aos leitores, é essa parte menos interessante da conversa que aqui se reproduz.
Quando, ainda criança, o sr. António Antunes assiste a um cortejo fúnebre e se aproxima da ideia da morte pela primeira vez, a prima põe-lhe a mão na testa e diz: «Quando cresceres compreendes» (página 31). Mas ela está a mentir, não está? Nós nunca compreendemos.
Nunca compreendemos. Há uma história engraçada do Walt Whitman. Ele estava num velório e havia uma criança ao pé dele. Agarrou na miúda, mostrou-lhe o caixão e perguntou: «Tu não percebes? Eu também não.» É uma incompreensão perante a morte... Eu nunca tinha visto morte. Vi esse enterro de criança, em Nelas, e não voltei a vê-la: eu era o filho mais velho de dois filhos mais velhos, os meus avós tinham 40 anos. Só voltei a vê-la quando entrei na faculdade de Medicina, no teatro anatómico, tinha acabado de fazer 17 anos. E pensei: não sou capaz de ver, não sou capaz de olhar. É uma total incompreensão para mim.
 
Escrever sobre a morte é um modo de tentar compreender?
Nunca ninguém morre nos meus livros, passam é a viver de maneira diferente. O meu pai, depois de morrer, continuou a mudar, a existir dentro de mim. E continuámos a falar. Até que chega uma altura em que estamos em paz e o nosso diálogo é de tal maneira perfeito que nem sequer necessitamos de palavras. E depois sentimos que estamos a viver também por eles. Eu estou a viver pelas pessoas de quem gostei e que, para mim, continuam vivas. Mas, ao mesmo tempo, quando escrevemos, estamos tão ocupados a resolver os problemas técnicos que não sabemos muito bem para onde estamos a ir. Claro que não é escrita automática, mas... Estamos a querer dizer a vida toda. E, no fundo, talvez seja a única maneira que nós temos de vencer a morte. Não sei. Há uma coisa muito mais importante do que o talento: é a bondade.  E como, para mim, o defeito mais grave é a ingratidão, a única coisa que eu sempre achei que tinha era a capacidade de escrever coisas em que pudesse dar às pessoas de quem gostava aquilo que não era capaz de lhes dar. Por pudor, por vergonha, por cobardia, talvez, por estupidez. Está a ver? Tomem lá, isto sou eu. Tomem. É para vocês. É um presente que eu fiz. Quando um dos meus irmãos era pequenino, o meu pai fez anos e o presente que o miúdo lhe deu foi uma torrada embrulhada num guardanapo de papel. Nunca vi o meu pai tão comovido. Uma vez, uma das minhas filhas, quando era pequenina, deu-me 25 tostões, nos meus anos. Foi o melhor presente que me deram. Estou a dizer isto e estou a comover-me porque [pausa] nunca me deram tanto dinheiro.
 
Há um momento no livro em que o sr. António Antunes diz: «Não faz sentido eu morrer» (pág. 53). Na crónica que publicou  aqui, na Visão, depois de ter sido operado, António Lobo Antunes escreveu: «Quero ficar sozinho a medir isto, a minha doença, a minha mortalidade, o meu pasmo.» Tanto o autor como a personagem são tomados pelo mesmo espanto. A morte é a circunstância mais corriqueira da existência, mas surpreende-nos a todos.
O que senti nessa altura foi: «Estão a brincar comigo, não sou eu. Um cancro? Não.» Mas quando comecei a pensar em escrever o livro decidi fazer uma coisa que nunca fiz: usar uma falsa terceira pessoa. E jogar com os tempos. Porque a carga emocional era tão forte que tinha de me servir de uma série de artifícios técnicos para me ser menos penoso escrever. Para não me comover tanto, para não me emocionar tanto, para não sofrer tanto.
 
Interpor um filtro de técnica entre o coração e página.
Exactamente. Embora, para escrever, tenhamos de ter o coração aberto mas, ao mesmo tempo, todo o conhecimento. Quando eu acabei o curso, havia um professor de cirurgia que era muito bom. Dizia o que tinha a dizer e depois: «Agora esqueçam tudo e vão lá para dentro.» Porque o conhecimento técnico acaba por ser internalizado. E nós, quando estamos a escrever, estamos a aprender a escrever, também, porque qualquer livro bom é um livro sobre como escrever. Qualquer bom escritor está a ensinar-nos a lê-lo. Por exemplo, eu aprendi a ler o Conrad com o Conrad. Ao princípio, não percebia nada, parecia-me uma confusão. O Gogol. Aprendi a lê-los com eles. O Dylan Thomas, que, à primeira vista, parece uma catadupa de imagens sem sentido. E não é. É muito mais que isso, somos nós todos. E então, a minha gratidão para com os artistas é imensa. A melhor crítica de pintura que eu conheço foi feita quando o Théophile Gautier foi ao Prado ver As Meninas. O gajo olhou e disse: «Mais où est le tableau?» Onde é que está o quadro? É quando o livro deixa de ser livro para se tornar nós - nós, leitores. Acontece-me tanto. Às vezes a gente descobre um bom escritor. Descobri, há relativamente pouco tempo, o Cormac MacCarthy. Muito bom. O Kosztolányi, o húngaro. Muito bom. Eles escreveram só para mim. Os outros exemplares trazem coisas diferentes. Eu não gosto de emprestar livros, porque o meu exemplar é que é. Como acho que O Monte dos Vendavais foi escrito só para mim. Ela está a falar comigo, ela conhece-me. Ela conhece-me.
 
Há outro livro de um escritor português - aliás, seu amigo -, José Cardoso Pires, também escrito a partir de uma situação em que o autor se confronta com a morte, que se chama De Profundis, Valsa Lenta. «De profundis» são as primeiras palavras do salmo 130. «Sôbolos rios que vão» são as primeiras palavras de um poema de Camões que é uma glosa do salmo 137. É uma coincidência que dois ateus, quando colocados perante a morte, invoquem a Bíblia?
Eu acho que não há ateus. Não há, não acredito que haja. Há um provérbio húngaro muito antigo que diz: «Não há ateus na cova no lobo.» E há outro que eu acho do caraças, que é: «Qualquer bocadinho acrescenta, disse o rato, e fez chichi no mar.» É magnífico, não é? Talvez seja isso que nós fazemos. Fazemos chichi no mar mas, porra, acrescentámos. Isso dá-nos algum consolo. Mas são duas situações muito diferentes. O Zé podia ser meu pai, quase, e, no entanto, era o melhor amigo que eu tinha. Era um homem excecional. Telefonava todos os dias. Era um homem duro, cheio de arestas. Uma vez mostrou-me uma coisa do Redol, que era uma pessoa que ele admirava muito. Eu lia os livros do Redol e não gostava nada. E um dia percebi. Ele mostrou-me uma carta que o Redol, que estava a morrer em Santa Maria quando eu era estagiário, lhe escreveu. Uma carta em papel timbrado de um hotel. O timbre era uma coisa muito pomposa. E o Redol despede-se. Zé, nunca mais te vou ver, fui muito teu amigo, e tal...P.S.: Já viste papel de carta com mais mania? O Zé disse: «Foi a única vez que eu chorei como uma criança.» E o Zé, quando chega a altura do De Profundis, escreveu aquele livro pequeno porque já não era capaz de o escrever grande. Foi muito diferente disto, porque eu estava cheio de força quando estava a escrever o livro, embora me tenha custado muito. Eu li, há dias, uma entrevista do escritor [José] Rodrigues dos Santos, julgo que na Visão, em que ele dizia que, se o escritor não tem prazer em escrever, o leitor não tem prazer em ler. Qualquer coisa desse género. Meu Deus... O Zé dizia: «É preciso que a gente sofra para que o leitor tenha alegria.» Lembro-me sempre daquele primeiro verso do Endymion, do Keats: «Uma coisa bela é uma alegria para sempre.» O que eu devo aos livros, e à pintura, e à música... O que eu devo ao André Brun...
 
Ao André Brun?
O André Brun foi comandante do meu avô, na guerra, era oficial do exército. O meu avô dizia que era um homem de uma coragem extraordinária. E depois ficaram amigos. Ele morreu relativamente cedo, e o meu avô contava, comovido, que, na última vez que o visitou, perguntou-lhe: «Então, André, como vais?» E ele respondeu: «Olha, se calhar vou de casaca.» E tinha lá os livros todos do André Brun. O que aquele homem trouxe aos meus 10 anos foi imenso. E era um humorista. Tem um livro passado nas trincheiras onde consegue fazer humor com situações muito complicadas, de vida ou de morte. O que eu devo às Selecções do Reader's Digest que havia em casa dos meus avós. Perguntam a um escritor: quem foram os autores influentes para si? Homero, ou este, ou aquele, ou aqueloutro. É mentira, isto.
 
Quem são os seus?
A mim, o que me deu vontade de escrever foram o Almanaque Bertrand, o Pato Donald, O Mandrake... Foi por causa disso que eu comecei a escrever. Estava sozinho, escrevia, e depois é um milagre, para uma criança, que as palavras, postas à frente umas das outras, façam sentido. Até que descobrimos que há uma diferença entre escrever bem e escrever mal. E aí, pelos 20 anos, descobre-se que, entre escrever bem e uma obra-prima, há uma diferença ainda maior, e que só vale a pena escrever para ser o melhor. Para dizer aquilo que nunca foi dito. Como é que eu hei-de explicar? Eu sinto-me um elo de uma corrente que começou muito antes e acabará muito depois. E quem é que escreve? Quando escrevemos, quem é que escreve? Quem é que, através da nossa mão, se exprime? Quem? Não sei. A gente só tem perguntas, e quando encontra respostas elas transformam-se em novas perguntas. Então, nunca faremos o livro que queremos, porque pode-se sempre ir mais longe. E, se conseguirmos trazer uma coisa que achamos nova, percebemos que essa coisa é uma porta que dá para outra coisa ainda, e outra, e outra, e outra...
 
Quem é que o António lê hoje?
Nós temos poetas contemporâneos de grande qualidade. O Vasco Graça Moura é um grande poeta. Um, que descobri há relativamente pouco tempo: Manuel António Pina. É muito bom. António Franco Alexandre. É muito bom. E estou a esquecer-me de nomes. Pedro Tamen. Infelizmente nas traduções de poesia, essa qualidade não passa. Mas eu gosto tanto de ser português, pá. Gosto de Portugal. No aeroporto, conheço logo a bicha do avião que vem para Portugal: são os mais feios, mais pequenos, mais escuros. Mas gosto. Gosto do nosso mau gosto. Gosto. Há um lado meu que adora essas coisas: cães de faiança, molduras de talha. Gosto. Quadros de palhacinhos a chorarem, de gatinhos a saírem de botas. Gosto. Um livro sem mau gosto é mau.
 
Em De Profundis, José Cardoso Pires fica sem memória; em Sôbolos Rios Que Vão, a memória é tudo o que resta ao sr. António Antunes. É mais cruel perder a memória ou conservá-la, sabendo que, como diz o poema de Camões que dá título ao seu livro, «todo o bem passado...»
Ah, sim, «...não é gosto, mas é mágoa». [Pausa.] Não sei responder. Era uma mistura de emoções. [Pausa.] Sabe, na semana passada, disseram-me da editora que uma senhora que tem um cancro em fase terminal gostava que eu lhe assinasse os livros. Ou, o ano passado... recebi um telefonema de França. «Está? Chamo-me Jean Daniel.» Jean Daniel era um ídolo da minha juventude. Diretor do Nouvel Observateur. Foi através da crítica literária do Nouvel Observateur que vim a saber do boom sul-americano, que estava a acontecer nessa altura. Portanto, era um homem a quem eu devia muito. E o senhor telefona-me e diz: «Eu tenho 89 anos e gostava de o conhecer antes de morrer.» Isto é tudo tão comovente, não é? Tenho tido muita sorte. E depois são os amigos desconhecidos. No outro dia, estava à procura de uma rua até que entrei num cafezinho pequeno para perguntar. Dois homens levantaram-se e levaram-me lá. O que isto vale... Diga lá se uma pessoa merece isto... Não merece. Tinham lido os livros, é extraordinário.
 
No segundo capítulo, o da operação, o jogo com os tempos de que falava há pouco é mais intenso. Há uma espécie de «chuva oblíqua» entre Nelas e o hospital em que, ainda mais do que no poema do Pessoa, é evidente que o tempo passado e o tempo presente se misturam e criam um outro tempo, um terceiro tempo que é a fusão dos dois.
Foi muito difícil escrever esse capítulo, não sabia como havia de fazê-lo. [Pausa.]Concordo consigo, os tempos misturam-se e há um outro tempo.
 
Quem está naquela cama, em Santa Maria, é o sr. António Antunes ou o Antoninho? Quem morre, quando se morre? O velho que vemos no hospital ou uma criança que já não existe mas que continua a ocupar o espaço da memória, a lembrar-se dos balões dos «Armazéns Victória Tudo Para a Mulher Moderna», de uma estrangeira loira que havia num hotel - ou de um trenó que tem escritoRosebud?
Ah! Não tinha reparado nisso.
 
Sabe qual é o seu balão, a sua estrangeira loira, o seu trenó?
Não sei... [pausa]. Não tinha pensado nisso. Sabe, o Orson Welles disse uma coisa que foi importante para mim: «Há duas coisas que nunca filmo: pessoas a fazerem amor e pessoas a rezarem.» Não há uma descrição de sexo num livro meu. [Pausa.] Esse filme[Citizen Kane] é um milagre. Um milagre. A gente fica com aquela inveja saudável. E, ao mesmo tempo, com orgulho. Um grande artista devolve-nos uma imensa dignidade. Eu vejo sempre o concerto de ano novo, com música do Strauss, e comovo-me até às lágrimas. É uma tal vitória sobre a morte, a música do Strauss... É preciso acreditar nas pessoas. As pessoas são tão mais ricas do que elas mesmo pensam. Nós parecemos viúvas pobres: vivemos em duas assoalhadas com serventia de cozinha. E procuramos a porta em paredes que sabemos que não têm porta, e temos medo de abrir as janelas. E, depois, há assim uns cabrões, como o Strauss, que fazem isto por nós.
 
Há um livro da Susan Sontag (A Doença e as Suas Metáforas) em que ela diz que a antiga ideia romântica que tínhamos da tuberculose, segundo a qual a doença era provocada pelo caráter do doente, subsiste hoje, mas agora em relação ao cancro. Que a vítima é, ao menos em parte, culpada. Sentiu isso?
Isso é tão verdade que eu tinha vergonha. Por exemplo, eu podia pagar menos IRS se invocasse o cancro, e fui incapaz de o fazer. Tinha vergonha. Era uma inferioridade minha. Só pensava: que diferente que isto é da guerra. Porque, na guerra, há uma coisa que está fora de mim e eu posso dar-lhe um tiro. Aqui, não posso fazer nada. Lembro-me de, quando estava a fazer radioterapia, dizer: «Morre, morre, filho da puta.» Insultava o cancro. [Risos.]
 
É como diz no livro? «Pode ter-se um cancro e estar alegre, ora essa» (pág. 19). Se calhar, nem há outra maneira.
Eu, infelizmente, não sou uma pessoa feliz nem alegre. Tenho dois ou três amigos que são, e tenho uma inveja imensa deles. Primeiro, porque pertenço à classe dos eternos culpabilizados. Culpado de tudo. E, depois, às vezes, penso: porque é que a gente sofre tanto? E sofrer por nadas.

Logo no início do livro, diz-se: «que terrível e cómica, a morte» (pág. 14). O facto de ser cómica faz com que seja ainda terrível ou torna-a menor aos nossos olhos e por isso mais fácil de enfrentar?
Ó Ricardo, não sei, ainda não morri. Mas a gente não pode levar a morte a sério. Há que aceitar a morte como a impostora que é. Uma vez perguntaram ao Hemingway o que é que ele achava da morte, e ele disse: «Outra puta.» E venceu-a. Ele dizia: um homem pode ser destruído, mas não pode ser vencido. [Pausa.] Tinha razão, não tinha?
 

pequenos excertos da entrevista podem ser vistos num vídeo disponível no site da Visão.

Visão
28.10.2010

30/10/2010

Da leitora Lígia Trindade: «um escritor sensível»

António Lobo Antunes, um escritor sensível que escreve para gente sensível capaz de ler o que não está lá

Julgo na minha modesta opinião que para entender devidamente as obras de António Lobo Antunes, é preciso saber lê-las nas entrelinhas. A sua narrativa é representada através de um bailado de palavras que actuam numa coreografia poética e musical, onde a linguagem por vezes mística e enigmática assume uma aparente incoerência. Para desvendar o mistério dessa linguagem, é preciso ser-se dotado de uma sensibilidade próxima da sensibilidade do autor. Por detrás de cada frase, co-existe uma densidade de emoções e sentimentos que emergem de monólogos interiores profundos, ruminantes por vezes, mas essenciais. Desta forma creio que o conteúdo da “história” perde importância (não deixando de ser relevante) para a forma peculiar, sibilina e magistral como é contada; não importa tanto como começa, nem como acaba, mas como se desenvolve num momento que é intemporal feito de fragmentos dispersos, que surgem para fomentar uma estranheza propositada para dar sentimento e lógica às relações humanas por vezes degradantes.

O leitor precisa ter alguma capacidade de reflexão e sensibilidade para conseguir embrenhar-se nas palavras que estão escritas (que são visíveis) e nas que não estão lá. Só assim é possível chegar à verdadeira leitura, à leitura que o autor oferece para que a decifremos e desvendemos, não tanto com o cérebro, mas com o coração e com a alma.

Há quem se preocupe em encontrar de forma excessiva e por vezes obsessiva, aspectos biográficos do autor nas suas obras, como se isso fosse o mais importante ou como se isso fosse assim tão evidente. Um escritor não consegue evitar que a ficção se misture com a realidade e muitas vezes não consegue perceber onde acaba uma e começa a outra. Cabe ao leitor abstrair-se dessa tentação de interpretar o que não deve ser interpretado, ou corre o risco de não sentir o romance como ele deve ser sentido; é preciso vivê-lo com todas as vísceras e encontrar o sentido daquilo que o autor pretende transmitir e que é tanta coisa…


Lígia Trindade
e-mail de 30.10.2010

«De repente, percebi que sou mortal»


Diário de Notícias
Entrevista de João Céu e Silva
28 de Outubro de 2010

foto por Orlando Almeida

«De repente, percebi que sou mortal»

António Lobo Antunes prometeu regressar às páginas do DN aquando do lançamento deste livro. A entrevista aconteceu na terça-feira e foi tudo menos clássica - até para os seus parâmetros de contestatário a este género jornalístico. O escritor iniciou a conversa preocupado com os falsos fenómenos editoriais do mercado português e o debate continuou por 45 minutos. Só então começou a dar a entrevista. Pediu para ligar o gravador e falou sem ter existido uma pergunta inicial. Disse tudo o que sentia e as três perguntas que lhe foram feitas posteriormente eram acessórias e, por isso, só estão nesta introdução.

Contrariamente ao que lhe é habitual, aceitou falar especificamente da gestação de Sôbolos Rios Que Vão e comentar o seu parto. Criticou a leveza com que se fazem as recensões literárias em Portugal e preferiu eleger as palavras do humorista Ricardo Araújo Pereira como das mais interessantes que foram escritas. Reforça: "Não estou preocupado com a crítica."
 
Também não está preocupado se este livro vai ser entendido: "Agora, que está cá fora, vai ter de se defender sozinho." Cita Shakespeare ao dizer que se escreve para os happy few e Lenine, quando referia que não era a arte que deveria descer ao povo mas este que tinha de subir.
 
Confessa que em Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar? só tarde percebeu que "tinha usado o pedófilo e a drogada como muletas técnicas para levantar o livro" e que ficou "muito zangado com isso". Em relação a Arquipélago da Insónia, não tem "cedências." Quanto a Sôbolos, houve uma dor pessoal muito violenta durante o processo de escrita: "Estar a escrever o livro fez-me reviver aquilo que passei [quando foi operado a um cancro em 2007]. É claro que é muito diferente porque eu não fui operado pelo dono do hotel como acontece no livro."
 
Este livro é inclassificável e dar-lhe cinco estrelas não o torna decifrável ou mais sedutor para os admiradores do 22.º volume de uma carreira literária com 30 anos.
 
Ligo o gravador...
Eu disse várias vezes que ia deixar de escrever e tenho a maior vontade de o fazer. Simplesmente não sou capaz, porque a minha vida fica completamente sem sentido...
 
Neste livro [o próximo] já vislumbro, dentro do magma, a primeira versão. Mas está a dar-me tanto trabalho que acabo o dia estafado fisicamente. Este que saiu agora [Sôbolos Rios Que Vão], enquanto manuscrito, tinha cinco vezes o tamanho do que foi publicado. Parece que estou a descascar uma cebola e que a cada revisão sai uma película até ficar como quero. Fico completamente escravo do livro. e, quando digo que vou deixar de escrever, é do coração, mas não sou capaz... Parece que há diante de mim um abismo nos intervalos dos livros, mas não concebo a vida sem eles porque não sei fazer mais nada...
 
Cada vez mais me é claro que o que escrevo não são romances no sentido da palavra. Não me interessa a intriga, a história ou as personagens! Há um tempo atacaram-me dizendo que não tinha personagens. Esse é o maior elogio que me fazem... Queria que fosse uma viagem ao coração. É como dizerem que o livro é autobiográfico - seja lá o que isso queira dizer. O que interessava era fazer o melhor que podia e desembaraçar-me dele, porque é um objecto independente de mim e que não me pertence. Na vida, é muito difícil separar o que é invenção do que é memória. A vila que aparece no livro não existe, embora tenha partido de uma real, que é Nelas, mas que nunca existiu tal como está no livro. Tal como a Lisboa que aparece nos meus livros não existe. O Hotel dos Ingleses não era aquele. O curioso é como tudo é e não é ao mesmo tempo. A partir da experiência, o que acaba por sair das minhas mãos é outra coisa...
 
Com este livro havia todos os problemas técnicos da escrita. Preencher o livro de silêncios... Consegui exactamente aquilo que queria e as pessoas têm o direito de gostar ou não, de aderir ou não e de achar difícil ou fácil. É-me indiferente, o livro é aquilo que queria escrever. Nos últimos livros está lá tudo, aquilo que tem sido publicado era aquilo que eu queria dizer mesmo que tenha evoluído a minha ideia acerca dos livros...
 
Recebi um telefonema da Dominique Bourgois [a sua editora francesa] a propósito da tradução de O Meu Nome É Legião e ela disse-me uma coisa que me surpreendeu: "Fartei-me de chorar com este livro." Nunca me passou pela cabeça que o livro fizesse uma pessoa chorar. As reacções são muito surpreendentes, e isso faz-me perguntar o que é a literatura? Há um livro do Jean-Paul Sartre com este título, em que discute durante 400 páginas o que é de facto a literatura. Eu não sei o que responder, ou então faço como o Santo Agostinho a propósito do tempo: "Se não me perguntas, sei o que é que é. Se me perguntas, já não sei dizer." Uma coisa é certa, cada vez trabalho mais para obter um resultado satisfatório. Este próximo livro ainda está muito longe do que eu queria. Sei lá se vai ser um livro? É muito ambicioso do ponto de vista técnico formal. É a voz de uma rapariga que se desdobra em três. Como lidar com isto? Misturando a técnica e a emoção, porque um livro só com técnica e sem emoção é frio e sem charme; um só com emoção é um delírio desestruturado...
 
Uma coisa que me começou a interessar foi a sobrevivência do meu trabalho. Todos sabemos que raras obras sobrevivem aos autores, mas eu queria que [a minha] ficasse, como permaneceram as dos escritores de que gosto...
 
E a série de equívocos que há à volta de um homem. Quem é que lê o Guerra e Paz? Todos dizem que é o maior livro, mas não é verdade, porque é profundamente desequilibrado; começa com a história de uma família e acaba como uma epopeia; sobre certos aspectos é profundamente maniqueísta porque Tolstoi projecta em Napoleão todos os defeitos que não gosta no homem enquanto no Kutuzov põe todas as qualidades. No entanto, é um grande livro, um mamute sem a perfeição formal de Anna Karenina...
 
Mas será que a perfeição formal é muito importante? Ou será mais importante a emoção que o livro nos transmite; o ser a fonte de conhecimento; ensinar-nos a olhar para dentro e permitir conhecer melhor o nosso mecanismo interior...
 
Depois, há outra coisa que começa a contar: a idade e a noção do fim. Com o cancro foi a primeira vez que estive diante da minha finitude enquanto homem. O que é que me vai acontecer? Precisava de 200 anos para escrever e, pela primeira vez, de repente, percebi que era mortal. Que o tempo que tenho, tal como quando tinha 20 anos, é medido. Mesmo que a esperança média de vida aumente cada vez mais, sei lá quanto tempo é que eu vou ter?
 
Tudo isso relativiza o sucesso, e o que me interessa e cada vez mais é produzir uma obra digna. Que me deixe fechar os olhos em paz comigo. Sem ter feito cedências. Custou-me imenso eliminar no manuscrito frases que eram bonitas e agradáveis para o leitor, mas que prejudicavam a eficácia. É melhor que não exista...
 
Houve isso [o cancro] que passou a ser importante para mim. Cada vez mais os exames vão sendo espaçados e a possibilidade de cura já começa a ser muito grande. Mas outra coisa qualquer virá. Ainda sinto forças dentro de mim para continuar a escrever. Por isso é que quero uma obra digna, sem cedências...
 
Vi uma crítica que falava em fragilidades do meu livro, mas são essas fragilidades que dão a força ao livro. E o livro só é confuso para quem não estiver dentro dele. Como diz o Georges Steiner, é preciso capacidade de empatia e de compreensão profunda dos mecanismos mentais do autor. Um bom leitor, quando entende o livro, torna-o bastante claro. Quando li o Moby Dick achava aquilo uma confusão porque não tinha a experiência de vida e a perspicácia para entender aquele extraordinário monumento de livro...
 
Cada vez menos há espaço para a grande literatura. As pessoas passam o tempo no Facebook, na Internet, comunicam-se por e-mail e eliminaram a correspondência. É impossível pensarmos que as pessoas não deixarão milhares de cartas como os vitorianos fizeram. Talvez o melhor livro de Flaubert seja a sua correspondência, e isso vai desaparecer. Há uma falta de pudor por parte das pessoas que escrevem nos blogues sobre os seus estados de alma. É extraordinário que haja pessoas que pensem que os estados íntimos têm importância universal. Os meus, só têm para mim. Importante, serão os livros e se for capaz de fazer deles a voz da tribo...
 
Enquanto leitor, se um livro é bom, ele começa a fazer percurso dentro de mim quando acabo de o ler. Essas vozes tornam-se cúmplices, amigos e companheiros de viagem porque continuam vivas connosco. O Sandokan continua vivo em mim...
 
No meio de toda esta floresta de enganos, como diria D. Francisco Manuel de Melo, e desta confusão de emoções que vivemos num presente que se encurta cada vez, a própria Internet autodevora-se. Isso é bom, porque o livro em papel tem perenidade e assegura permanência. Julgo que, sob a forma tradicional, os livros vão sobreviver - certamente vendendo menos - e a literatura vai prevalecer...
 
Até há muito pouco tempo, o que me interessava era descobrir, novas formas de dizer. Neste momento, é como se já tivesse um território conquistado, e só o quero é consolidar. Já delimitei as fronteiras e não vou sair delas. Construí o meu país, interessa-me aprofundá-lo e dar notícia dele. Fazer uma cartografia das emoções. Essencialmente é isto.


28.10.2010

17/10/2010

«Tenho a certeza de que serei lido para sempre»


Expresso - Revista Única
Entrevista de Ana Soromenho e José Mário Silva
16 de Outubro de 2010



«Se eu tirasse as máscaras, começavam a aparecer estas histórias»


Esquivo. Arrogante. Gentil. Inseguro. Terno. Brutal. Conversa com António Lobo Antunes, o escritor que continua a dizer que não gosta de entrevistas.
António Lobo Antunes recebe-nos em casa: estantes cheias até ao teto. Quadros de Júlio Pomar, fotografias da família e amigos. Foi aqui que escreveu o livro publicado por estes dias ("Sôbolos Rios que Vão", Dom Quixote) e o próximo, já em fase de revisão. É a primeira vez que escreve onde mora. «Ao contrário das minhas casas anteriores, esta não está sempre a mandar-me embora», explica enquanto nos conduz à sala ampla e luminosa, as árvores a agigantarem-se nas janelas. O escritor que afirma ter muita dificuldade em falar da matéria dos livros, porque «está no limite do indizível», não vive sem eles. Junto aos sofás, a estante dos preferidos: Tolstói, Cervantes, Joyce, Shakespeare, Conrad.... Uma sala inteira é reservada aos exemplares das muitas traduções dos seus livros feitas pelo mundo fora. Quando conversamos com Lobo Antunes, ficamos sem conseguir perceber se ele sabe onde termina a sua ficção e começa a sua realidade.
Disse-nos que não queria dar esta entrevista... E, para nós, também se torna delicado...Delicado porquê?

Preferimos entrevistar quem tenha prazer na conversa. Tanto no seu caso como no nosso, é trabalho.
É o vosso trabalho, não o meu.

Se não fosse pelo seu trabalho, não estávamos aqui.
O meu trabalho é escrever livros, não é falar sobre eles.

Mas fala.
Não, não falo.

Acaba sempre por falar. Dá muitas entrevistas.
Vamos ver... As entrevistas são terríveis. Trata-se de um exercício de vaidade. Construímos uma pessoa a partir de uma ideia ou construímos a ideia a partir da pessoa? Muitas vezes, já se leva uma ideia da pessoa e queremos, instintivamente, que ela corresponda.

Diz que não gosta nada disto, mas colabora sempre. No fundo, aprecia este jogo.
Acho que sou ingénuo. Penso: "Desta vez, vão-me entender." Talvez porque espere um entrevistador ideal. No meu caso, a corrente passa ou não passa. Quando não passa, é impossível. Não quero dar nenhuma ideia ao leitor acerca do livro. Tem de se vender sozinho. Quando o publico, é porque estou contente com ele. O importante é que chegue ao bom leitor.

O que é um bom leitor?
É um leitor que fala para o livro.

Esse diálogo é silencioso.
Não é silencioso, está cheio de gritos.

Mas são gritos interiores, entre o leitor e o livro. Como é que o escritor recebe esse eco?
Há muitos que me escrevem. E não só leitores. O Christian Bourgois [editor francês da obra de Lobo Antunes], com quem não falava de livros, escreveu-me uma carta, antes de morrer, em que diz: "Tu és meu irmão e não há escritor no mundo que admire tanto." Nunca me tinha dito isto. Era um homem que parecia seco, mas por baixo dessa frieza aparente havia um calor humano extraordinário. Portou-se com uma grande coragem durante o cancro, sabendo que ia morrer. Eu disse à mulher, a Dominique, que é quem dirige agora a editora: "O teu marido portou-se com imensa coragem." Ela respondeu-me: "Não é coragem, é elegância."

Essa luta coincidiu no tempo com a sua própria luta contra o cancro.
Foi um pouco antes. O problema é que ele morreu e eu não. Sabe, quando estava a fazer tratamentos, pensava muito: "Hoje vou viver ou morrer?" As outras pessoas comportavam-se com uma dignidade imensa.

Fala nisso como se houvesse em si uma culpabilidade.
E havia. Sentia-me culpado.

Mas porquê?
Porque as pessoas eram melhores do que eu. Mais dignas, mais corajosas. A única coisa que eu sentia era um vazio.

Acha que não teve essa coragem?
Perguntei aos meus amigos. Dizem que sim.

Numa situação dessas, o que é ter dignidade?
Na sala de espera da radioterapia, havia revistas nas mesas que ninguém lia, televisões para as quais ninguém olhava, raparigas de 18 anos com cabeleiras postiças. E eu sentia-me rodeado de príncipes. Eles eram, eu não. Um senhor de idade vinha de uma terra qualquer do Alentejo e a ambulância trazia-o para Santa Maria. Vestia fato completo. Um fato cheio de manchas, com o colarinho abotoado, mas sem gravata. Já tinha a magreza dos estados terminais, uma cor horrível, e, quando o chamavam, avançava como se fosse um rei. Nunca vi gravata tão bonita como aquela. Essa majestade, eu não tinha.

De que modo essa proximidade com a morte o transformou?
Há uma série de coisas que deixam de ser importantes.

Quais?
Olhe, há outras que passam a ser importantes. Estar sol, estar aqui sentado, estar vivo. Agora faço revisões de seis em seis meses e para o ano consideram-me curado.

Entretanto, continua a fumar cigarros...
Claro que continuo.

Foi sorte?
Não. Foi um cirurgião extraordinário. Antes da cirurgia, explicou-me que a TAC não tinha metástases mas que não sabia o que ia encontrar. Eu estava à espera da anestesia e de repente senti que me estavam a pegar na mão. Era ele. Esteve de mão dada comigo até eu adormecer. É difícil imaginar como isto é importante.

Teve medo?
O que vem depois é uma indiferença, um vazio. O pós-operatório foi muito longo. De início, não tinha sequer força para carregar na campainha para chamar a enfermeira. Eu era uma coisa que estava ali.

Como é que se volta à vida normal?
Muito devagar. Eu estava a meio de um livro, "O Arquipélago da Insónia". Quis recomeçar, mas escrevia meia hora e ficava exausto.
Consegue-se regressar ao mesmo livro?
Estava cheio de medo. Se não escrevo durante quatro ou cinco dias, perco a mão. E ali foram meses. Não sei, um livro é tão independente de nós... Tem uma vida própria.

O livro ajudou-o a sair do vazio?Não. Aí eu já estava mais seguro de que não ia morrer. O cirurgião dizia que tinha de retomar as minhas rotinas, e eu não conseguia. Ficava sentado o dia todo a olhar para a parede.

Assustou-o a possibilidade de não voltar a escrever?
Não pensava nisso. Agora, sou outra vez incapaz de imaginar a vida sem escrever. Na altura, era-me indiferente.

O que era voltar às rotinas? Dá a ideia de ser uma pessoa extremamente metódica.
Tenho de ser, não é? Este é um ofício de paciência. Começa das dez à uma, continua das duas até às oito, e depois das nove às onze. Ao sábado, a partir das cinco, não escrevo. No domingo, recomeço.

Toda a sua vida se organiza em volta desse horário intenso?
Sim, desde que deixei de ser médico.

Essa outra profissão aparece sempre em segundo plano., mas também foi determinante.
Gostei de ser médico.

De que é que gostava?
De várias coisas. Ser imediatamente útil, ver as pessoas melhorar. Aprendi imenso com os pacientes. Foi lá que ouvi a melhor lição de teoria da literatura. Já contei isto. Um dia, uma pessoa a quem chamavam esquizofrénico disse-me; "O mundo começou a ser feito por detrás." É uma frase extraordinária. Ou aquela outra, de uma mulher com imensas dores que, ao perguntarem-lhe como se aguentava, dizia: "É tudo a poder de lágrimas e ais." A beleza desta frase! Como isto resume bem o sofrimento! E, depois, o encontro com as pessoas. Sempre vivi espantado com a riqueza das pessoas. Mas fui para Psiquiatria quase por acaso. O meu pai era um neuropatologista e ficou muito chocado com a minha escolha. Achava que a Psiquiatria é uma espécie de conto de fadas científico. Dizia que tanto faz o diagnóstico, o tratamento é sempre igual.

Também não via com bons olhos a sua opção pela literatura.
Nunca falámos sobre os meus livros.

Mas sabia a opinião que ele tinha sobre si enquanto escritor.
Não. Só soube a sua opinião depois de ele morrer.

Como soube?
Deixou-me escrito.

Deixou-lhe cartas?
Uma carta.

Podemos perguntar-lhe o que dizia?
Com 13 anos anunciei-lhe que era escritor e que queria ir para Letras. Ao contrário da minha família, que pensava que eu ia acabar na miséria, a vender pensos rápidos, eu tinha a certeza que não. Estava seguro do meu génio. Era uma coisa que não oferecia qualquer discussão. Isto com 8, 9 anos. Tinha a certeza de que ia trazer coisas novas e também que só escrevia merda. Com 18 anos, o Almeida Faria, que era da minha idade, publicou o "Rumor Branco" e depois "A Paixão", e eu pensei: "Bolas, são todos melhores do que eu." Demorei muito tempo a encontrar uma voz.

A sua voz.
Não sei se é a minha. Mas demorei muito tempo a encontrar uma maneira de dizer as coisas. Com os primeiros livros, sentia: "Ainda não é isto, ainda não é isto, ainda não é isto." Devia ter começado a publicar só a partir de "O Esplendor de Portugal": a partir daí, os livros tornam-se mais parecidos com o que para mim deve ser um romance.

Talvez não conseguisse chegar lá se não tivesse escrito os primeiros livros.
Talvez. É verdade que a partir do "Conhecimento do Inferno" começo a tentar introduzir uma maneira de dizer as coisas diferente.

Na tal carta, o seu pai falava-lhe dos livros?
Falava em geral.

O que ficou a saber que não soubesse?
Nunca mostrei a ninguém.

Surpreendeu-o?
Não. Correspondia ao que eu achava de mim mesmo.

Portanto, ele acabou por reconhecê-lo.
É muito curioso, os nossos mortos continuam a mudar dentro de nós. Continuam a dialogar e a inquirir-nos. Depois, finalmente, há uma altura em que ficamos em paz, se conseguirmos. A maioria dos filhos forma-se contra o pai. Eu formei-me de costas para ele. Mas houve uma coisa muito importante que ele me transmitiu: o pudor. Nunca o vi elogiar um filho. Lembro-me que uma vez tive um Muito Bom, e os pais dos meus amigos, quando eles tinham boas notas, davam-lhes dinheiro. O meu disse: "Só te dou dinheiro quando tiveres um Bestial."

Era muito exigente.
Era muito normativo, mas naquela época era impossível não ser. Não tinha o menor sentido de humor, não  tinha a menor imaginação, não era criativo. E acho que o sonho secreto dele era ser escritor, ou pintor, ou uma coisa assim.

Percebeu isso mais tarde?
Não, já tinha percebido antes. Quando tinha 8 anos, ele sentava-se na borda da cama a ler-nos Flaubert e outros clássicos, a ler poesia.

Se foi ele que o introduziu nesse universo, porque é que se recusava a aceitá-lo como escritor?
Não me contrariou. Quando decidi que queria fazer Letras, disse-me apenas qualquer coisa como: "Acho que era melhor tirares um curso técnico, porque disciplina-te o pensamento."

E inscreveu-o em Medicina.
Sim.

Então estava a combater a sua vocação de escritor.
Não. Fui injusto ao dizer isso. Não me contrariou. Quando era miúdo, eu escrevia às escondidas, com um livro de estudo à frente, para trocar quando alguém me via. Ainda hoje escrevo com um livro aberto à minha frente. Há uma parte de mim que acha que esta não é uma actividade séria.

Será por isso que nunca falaram sobre os seus livros?
Nunca houve conversas pessoais entre nós. É uma coisa que me agrada. Com os meus irmãos também não tenho conversas dessas. Não se fala sobre a relação com Deus, que é uma coisa muito íntima, nem de relações afetivas. E de política muito pouco. Posso imaginar o que é que os meus irmãos pensam, mas não sei em quem é que votam, nem lhes pergunto.

Falam de quê?
De que falamos? De Medicina, de... Na minha família não se fala muito.

O seus pais não diziam que era especial?
Especial não, diferente. E era apavorante.

Diferente como?
Eu não sabia. Não sabia o que estava na cabeça deles. A minha mãe conta que eu com 2 anos me deitava no chão e ficava a olhar para o teto e que ela ficava muito assustada com isso.

Acha que foi um exemplo para os seus irmãos?
Nem por isso. Eu era um cobarde. Tinha medo de tudo. Em adolescente, só dei exemplos de cobardia física. Durante as revoltas estudantis, não ia por medo das cargas da polícia. Depois, houve África. E aí fiz coisas parvas. Sentava-me no guarda-lamas do rebenta-minas. Queria ganhar o meu respeito. Percebi que não se pode ter medo de ter medo. Um dos meus orgulhos é o amor que os meus soldados me têm.

Mas recentemente envolveu-se numa polémica com os militares...
Esse assunto está enterrado. Nunca me preocupei com isso. É uma palermice. O que a mim me mete medo é escrever. Cada livro é o primeiro livro. Uma pessoa está ali diante daquilo, e agora?

Sente sempre essa angústia ao começar um novo livro?
Estou tão ocupado a resolver os problemas técnicos que o texto me coloca que isso não acontece. Ao princípio fazia planos, esquemas, agora já não faço. O livro vai sempre para outros lados. Este que vai sair agora, por exemplo, não o imaginava assim.

O livro foge-lhe?
Não sei se ele foge. É como os filhos. Os filhos não são nossos, mas também não são de mais ninguém, não é? E depois o epíteto de romance... Aquilo não são romances. Eu quero é chegar ao mais profundo da verdade das coisas. Como nas peças de Tchekov, onde nada se passa e as personagens dizem frases como "tenho frio", "amanhã vai chover", "a cerejeira não sei quê"... E como ele consegue dar todas as gamas da alegria e do sofrimento. É espantoso. E, se formos ver os manuscritos, não há uma linha que não esteja rasurada. O problema é diminuir a distância entre a intensidade com que sinto as coisas e o que fica no papel.

Há momentos em que sente que escreveu exatamente aquilo que queria escrever?
São aqueles em que sentimos "é isto". Os bons momentos parece que nos são oferecidos, que não nos pertencem. Nunca releio os meus livros. É um paradoxo, porque escrevemos os livros que gostávamos de ler e depois não os lemos. E, se leio, começo logo com vontade de corrigir aquela porcaria toda.

Leu os trabalhos académicos, e já são muitos, que se têm feito sobre a sua obra?
Começo e depois não leio mais. Tenho medo que aquilo mate qualquer coisa. Mesmo quando fiz análise, nunca falei do que escrevia.

Foi importante fazer psicanálise? Ensinou-lhe alguma coisa sobre si?
Não sei. Foi há muitos anos. Não sei se foi aquilo, se foi o tempo. Há um episódio na vida de Alexandre Magno em que ele tinha de tomar uma decisão acerca de uma batalha e, contra seu hábito, estava muito indeciso. Então falaram-lhe de uma mulher que adivinhava o futuro. e ele mandou chamá-la. Ela disse: "Isto é muito fácil. Acendes uma grande fogueira, e as palavras aparecem no fumo. Só não podes pensar no olho esquerdo de um crocodilo." Ele mandou embora a mulher e não acendeu nenhum fogo. É evidente que a proibição iria gerar a transgressão. Escrever é isto: não pensar no olho esquerdo do crocodilo.

Mas com o novo romance está satisfeito.
Consegui dizer aquilo que queria dizer. Mas foi tão cortado que acabou por ficar pequeno. Quase um quinto da versão original.

Duzentas páginas é um bom tamanho.
É pequenino. Como leitor, gosto de livros grandes. Começo a gostar de um livro precisamente ao fim de duzentas páginas.

Este livro, que narra a história de alguém internado num hospital oncológico, volta a ser bastante autobiográfico.
Não há nada de autobiográfico. Devo ter ido à nascente do Mondego uma vez, e aquilo que vivi não foi assim.

Mas não foi esta a forma que encontrou  de trabalhar literariamente a experiência da doença e da proximidade da morte?
Foi completamente diferente. Eu estava vazio e aquela voz que fala está cheia de coisas lá dentro.

Parece que a aldeia da infância, de repente, entra pelo hospital dentro...
Vila!

Sim, desculpe, a vila... É inspirada em Nelas, não?
Claro. Há um homem, que é o Virgílio, que encantava a minha infância por andar numa carroça com um burro. Não me deixava pegar nas rédeas.

Afinal, é autobiográfico.
Essa parte é verdade, chamava-se mesmo Virgílio. A senhora que toca harpa também existia, fazia-me muita confusão.

E há um jogo com a identidade. O protagonista chama-se António, tratam-no por Sr. Antunes...
Faço isso em todos os livros, já reparou? Fiquei mesmo contente com este. Também tinha ficado com o anterior ["Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar?"], mas depois percebi que tinha usado o pedófilo e que me tinha servido da muleta técnica para uma série de coisas, está a ver? E só me apercebi quando estava a corrigir. Neste livro, quis fazer sem corda nem picareta. Acho, e cada vez mais, que só devemos começar a escrever quando temos a certeza de não sermos capazes de o fazer. Como no livro dos "crocodilos": o que é que um homem sabe das mulheres? Procurar desafios impossíveis.

Há 12 anos que se fala do suposto trauma que terá sido para si o Prémio Nobel atribuído a José Saramago...
Trauma, eu?! A coisa mais curiosa que me aconteceu com o Nobel foi há uns 15 anos. Estava na Holanda, com o editor, num hotel, e havia a certeza absoluta de que eu ia ganhar o Prémio Nobel. Descemos, estavam as televisões todas. Anunciaram quem tinha ganho, já não me lembro quem foi, e desapareceu tudo num instante. Uma coisa espantosa.

Secretamente, não espera que amanhã alguém lhe telefone de Estocolmo? [esta entrevista foi feita na véspera do anúncio do Nobel, atribuído a Mario Vargas Llosa]
É impossível este ano. Nem pensar. E, depois, sabe quem é que ganhou há três anos?

Doris Lessing.
Foi mesmo?

Foi.
Nos últimos anos têm premiado escritores de que eu não gosto. E muitos daqueles de que mais gosto não ganharam. Aliás, seria melhor para mim ficar do lado dos que não ganharam, como o Tolstói ou o Borges. Não sou admirador do Borges, mas ele é bom. Tem tudo para ser mau e é bom. Já o García Márquez, de quem sou amigo, se formos ler agora os "Cem Anos de Solidão", aquilo envelheceu tanto! "O Amor nos Tempos de Cólera" não. É um livro magnífico. Mas acho que o Vargas Llosa tem muito mais talento.

E esse merecia sem dúvida ganhar o Prémio Nobel.
É um grande escritor até ao "Pantaleão e as Visitadoras", mas depois... Estamos muito longe do século XIX, em que havia 30 génios. Agora, se houver quatro bons escritores no mundo já é bom.

Quem são eles?
Cormac McCarthy, por exemplo. Do Vargas Llosa de "A Casa Verde", "A Cidade e os Cães", "Conversa na Catedral", que me parece uma obra-prima. Depois há aqueles livros eróticos, de que eu não gosto, tenta recuperar a mão com "A Festa do Chibo", mas já não consegue. O problema dele é que aceita todos os convites, mas é um homem extraordinário: muito bonito, muito culto, muito agradável. Já aí tem dois. Também gostava muito do William Gaddis.

Esse já não vai a tempo.
Não. Mas também duvido que lho dessem.

Preocupa-o a forma como vai ser lembrado daqui a 20 ou 50 anos?
Daqui a 20, ainda posso cá estar. Daqui a 50, não. Há poucas obras que sobrevivem aos seus autores. Olhe os nossos. Quem é que lê hoje o Zé [Cardoso Pires], de quem eu gosto tanto? Quem é que lê o Carlos de Oliveira? Ou o Namora, o Vergílio Ferreira, a Agustina, O Saramago, essa geração toda, quem é que os lê hoje?

Essa questão preocupa-o muito?
Preocupa-me pelo Zé. E quantos escritores franceses ficam do século XX? Dois: Céline e Proust.

Tem a esperança de ser uns dos que ficam?
Para ser honesto, acho que vou ficar.

Vai ou gostaria de vir a ficar?
Vou ficar. Estive a ler o texto de um crítico do "El País" que diz que daqui a cinco mil anos vou ser lido com paixão. Acho que ele tem razão. Ao mesmo tempo, que diferença é que isso faz? Que diferença faz ao Camões que nós gostemos dele? E ao Horácio? "Estou a construir um monumento mais duradouro do que o bronze", dizia. E estava certo.

Como pode ter essa certeza de que será lido para sempre?
Tenho, e a Ana também.

Eu não...
Então é pateta. Vou ficar, mas não me serve de nada. É como decidir que queremos ser cremados depois de morrer. Quando decidimos, estamos a ser eternos, mas continuamos a pensar enquanto vivos.

Os escritores constroem em vida a biografia que querem fixar para a posteridade.
Sim. Vão começando a construir o mito.

Já há alguns anos que o António vem fazendo isso, não é?
Eu? Acha que sim? Não tenho essa noção. Está a falar de fazer com que a minha obra perdure?

Não só a obra. A personagem também.
E o que digo tem algum interesse?

Posso ser sincera? Não se ofende?
Não me ofendo com a verdade.

Repete-se muito. Em todas as entrevistas há coisas que diz exatamente da mesma maneira. E é aí que se nota a construção da sua personagem.
Claro que me repito. Precisamente por ser uma cassete que já conheço bem.

Torna-se mais fácil dar entrevistas?
Não. Mas assim continuo a ser um desconhecido.

Então como nos pode dizer que procura a entrevista perfeita se nunca se entrega?
É impossível falar de livros. Pasmo com os académicos... Acha que repito sempre o mesmo?

Repete fórmulas.
Não fiquei nada aborrecido... Quanto às fórmulas, naturalmente que as tenho. Por baixo das máscaras, está a pessoa. Lembra-se do que o Nerval escrevia nos seus retratos? "Sou o outro." "Je suis l'autre." Assim, as pessoas deixam-me em paz. Mesmo com amigos que também escreviam... com o Zé nunca falei de livros, com o Eugénio de Andrade, com o Amoz Oz. Nunca falámos de livros [o escritor interrompe a conversa e diz ao fotógrafo: "Isso aí na parede são frases que escrevi. Gosto muito da do Oscar Wilde: "Homero ou outro grego com o mesmo nome"].

Também tem ali uma frase sua: "Se estivesse no meu lugar, o que faria?" Está no "Memória de Elefante", o seu primeiro livro. Quando a escreveu ainda não era o Lobo Antunes.
Descobri-a e já nem me lembrava de que a tinha escrito.

E o que faria se estivesse no seu lugar?
Referia-me a decisões que não tomamos por cobardia. Aqui há tempos a minha filha Joana telefonou-me a dizer: "Pai, acabei o namoro à homem!" Os homens nunca dizem: "Já não gosto." Dizem: "O problema não está em ti, está em mim. Preciso de pensar, preciso de espaço..." As mulheres são muito mais directas: "Deixei de gostar de ti." E pronto. Os homens nunca o dizem porque querem que a mulher fique de reserva.

Aguenta quando uma mulher lhe diz: "Deixei de gostar de ti"?
Que remédio...

Já ouviu essa frase?
Não.

E com tanto romance que teve...
Sou um querido! E quem disse que eu tive muitos romances? Isso faz parte da lenda!

Lá está, a lenda. Alimentada por si...
Não. Nunca falo de mulheres. Se leu as entrevistas, reparou nisso.

Numa longa conversa com a jornalista espanhola Maria Luísa Blanco, falou muito sobre a mãe das suas filhas, Maria José.
Se não fosse ela, nunca teria escrito. Tinha 18 anos e achava que eu fazia coisas bestiais. Eu achava que era uma merda. Vivíamos num quarto alugado, não havia dinheiro, e ela cozinhava no peitoril. Tínhamos uma mesa pequenina e, depois do jantar, ela levantava a mesa para eu escrever.

Ela acreditava.
Acreditava. E era uma miúda.

E separaram-se antes de publicar "Memória de Elefante".
Nunca mais me esqueço de ela dizer: "Não admito que outra mulher vá viver contigo e ter aquilo por que lutei tanto."

Isso pesa-lhe?
Não.

Percebo que o seu pudor não lhe permita falar disto.
São coisas que não se partilham... Muitas vezes visitei o cemitério, deixei lá cartas e o único soneto que escrevi. A senhora que toma conta das campas dizia-me: "Está aqui ao lado da menina o lugarzinho para si."

As suas filhas publicaram as cartas que trocaram durante a guerra.
Não li. Foram traduzidas em tantos sítios, um horror. A última coisa que a Maria José me disse antes de morrer foi: "Que horas são?" É muito frequente nas pessoas que estão a morrer: perguntar as horas. Respondi: "Um quarto para as seis." E ela disse: "Que hora mais improvável!" É tudo muito íntimo. Não gosto de falar nestas coisas. Se eu tirasse as máscaras, começavam a aparecer estas histórias. Não tem interesse nenhum. Só me interessa porque foi a minha vida. Tudo me comove... Uma pessoa anda com a ternura assim [faz um gesto de segurar no colo] e não sabe onde a pôr.

Essa é a matéria dos livros?
Por baixo dos livros estão estas coisas. Desde que nasci até agora: a meningite que me pôs em coma não sei quanto tempo, a tuberculose aos 3 anos, coisas boas, coisas más... a morte de pessoas de que eu gostava tanto, a do meu avô oficial de cavalaria - ainda hoje, às escondidas, dou beijinhos na fotografia dele - e que detestava que eu escrevesse, achava que era coisa de maricas... [pausa] Quando o meu pai morreu, os meus irmãos vieram beijar-me a mão. É estranho, não é?

Por ser o mais velho? Estava a receber o legado?
E agora sou eu que me sento à cabeceira. Nos jantares das quintas-feiras, primeiro servem a minha mãe, a seguir a mim. E só depois as minhas cunhadas.

O que sente por ocupar esse lugar?
O mundo fica completamente diferente visto daquela cadeira.

Uma questão muito complicada para muitos escritores é o envelhecer. Não só a aproximação da morte mas também o facto de o corpo deixar de funcionar... Já não conseguir fazer o que fazia.
A única preocupação é isto ter secado. Quando acabo o livro, não tenho outro na cabeça. Mas, quando me vejo no espelho da barba, estou com 20 anos. A minha mãe, que tem um cancro na pele, sonha com eternidades de um ano.

Numa das suas crónicas escreveu: "Os sexagenários vêm morrer na areia numa desilusão de cachalotes sem esperança."
Quando penso na minha idade, fico espantado. Passou tão depressa. Há uns tempos fui ao hospital, estavam lá umas enfermeiras reformadas, uma olhou para mim e disse: "Ah! Era lindo! Onde estão os seus olhos? Era lindo!" Foi horrível! [risos] Passamos de homem bonito para senhor interessante.

Disse várias vezes que só escreveria mais um ou dois livros para arredondar a obra e depois terminava.
Se eu pedir só um, talvez a morte se esqueça de mim durante um bocado. Não me imagino sem isto.

Nesse caso, porque é que anunciou publicamente que ia deixar de escrever?
Às vezes passa-me pela cabeça, mas depois ponho-me a pensar: "E vou fazer o quê?"

Portanto, vai escrever até ao fim.
Não sei fazer mais nada [o escritor interrompe novamente: "O António Pedro está a gostar das frases?", pergunta].

Por falar nisso, não chegou a responder à pergunta que há pouco lhe fizemos.
Aquela frase é ótima. É de um autor inglês, o Thesiger, que esteve na guerra de 14-18. E, mais tarde, quando lhe perguntaram sobre a experiência de combatente, respondeu: "Que barulho querido. E que gentinha."

É um colecionador de frases. Vale-se da célebre memória de elefante.
Para certas coisas. Toda a invenção é memória. O meu pai provava que as pessoas que tiveram um AVC e ficavam privadas da memória também ficavam privadas da imaginação. Quem nos arranja os materiais é a memória. As tais coisas de que a gente não fala e aparecem nos livros, de maneiras desviadas.

"O que faria se estivesse no meu lugar?" Esta frase atravessa a sua vida. E não nos respondeu.
Pois... Pus isso aí para me lembrar às vezes... [pausa longa] Para me lembrar às vezes.


O novo romance é "uma celebração da vida"

Não é a primeira vez que António Lobo Antunes recorre a versos alheios para dar título às suas obras. Aconteceu com "Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura" (2000), tradução livre de um verso de Dylan Thomas. Aconteceu com o romance "Que Farei Quando Tudo Arde?" (2001), em que recupera o verso final de um soneto de Sá de Miranda. E acontece de novo na obra mais recente, "Sôbolos Rios que Vão", uma narrativa de 199 páginas [...] que evoca as mais famosas redondilhas de Camões. "Na editora, criticaram-me imenso por causa do título", explica Lobo Antunes. "Aquele 'sôbolos' é muito arcaico, acharam-no pouco comercial. Mas o poema do Camões é espantoso." Lendo o romance, todo ele atravessado pela imagem do Mondego - quase invisível na nascente mas que vai engrossando o caudal (à semelhança da vida do protagonista, ela própria um rio em que as histórias dos familiares e conhecidos funcionam como afluentes) - , poderia pensar-se que Lobo Antunes partiu dos versos de Camões, que falam de Babilónia, Sião e da "mágoa" de quem recorda, em tempos de desgraça, o "bem passado". Mas não foi assim. "O livro já estava escrito, só não tinha título. Os rios que há lá dentro é que me fizeram depois pensar no Camões. À partida, não tinha nada que ver com o poema." Então como se explica que algumas das redondilhas pareçam autênticas sinopses do romance? "Pois é, isso acontece mesmo. Não sei. Foi um milagre do caraças." Embora o autor negue que o livro seja autobiográfico, salta à vista que "Sôbolos Rios que Vão" é talvez dos romances que mais se aproximam da sua própria experiência, pelo menos desde a trilogia inicial ("Memória de Elefante", "Os Cus de Judas", "Conhecimento do Inferno"). Só que, em vez da guerra em Angola, ou do trabalho como psiquiatra, o que nesta obra se retrata é a luta contra uma doença mortal, um cancro que devora o protagonista por dentro, levantando-lhe do corpo o "pássaro do seu medo" - situação similar à que o escritor viveu em 2007. Aliás, as datas que balizam o romance, que evolui, dia a dia, de 21 de março a 4 de abril, coincidem com as datas em que António Lobo Antunes esteve internado para remover cirurgicamente um cancro do intestino. Embora se chame António e o seu apelido seja Antunes, o protagonista, que delira o tempo todo, deitado numa cama de hospital, cruzando vozes e memórias de infância, não é o autor do romance. Mas duvidamos que o autor do romance conseguisse escrever assim, com esta tremenda exatidão, se não tivesse estado naquele limbo perto da morte. Um limbo concreto, de onde voltou para nos oferecer, nas suas palavras, "uma celebração da vida."   [J.M.S]

* a imagem das frases que ALA escreveu numa das paredes de casa é uma parte digitalizada directamente da foto que saiu na Revista, da autoria de António Pedro Ferreira, e que aparece aqui, a meio da entrevista, apenas para ilustrar aos leitores sobre essa passagem em que se fala dessas citações que o escritor escolheu.

por cortesia de Ana Soromenho
Expresso
16.10.2010

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...