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Raquel Silva: opinião sobre Quarto Livro de Crónicas


Sinopse:
É inexistente.

Opinião:

Nunca tinha lido nada de António Lobo Antunes, mas um amigo meu, de nome António curiosamente, estava a lê-lo e, um dia em que fomos à praia, pus o olho no livro e ele lá teve que mo emprestar, não sem antes o acabar, é claro. A opinião do meu amigo é-me desconhecida, mas em boa hora saberei, que não me custa nada perguntar.

Antes de tudo, tenho de vos dizer que por nunca ter lido nada deste autor, foi com estranheza que comecei a bisbilhotar este seu conjunto de crónicas. É ainda com estranheza que olho para trás, para o início, quando o abri, com os olhos a espelharem a expectativa - essa, a expectativa, não me foi defraudada, na verdade não foi nada, porque, simplesmente, não era assim tanta. Sempre ouvi falar do António Lobo Antunes, bem, menos bem, muito bem. As opiniões são diversas. Até eu, consigo perceber, tenho várias opiniões, e todas elas divergem, apesar de ser só uma.

A maneira de escrever que António possui é fora do comum, tal como é a de Saramago, outro grande senhor do qual ainda não li qualquer obra. Não tenho vergonha. Não li, mas ainda posso ler. Não há condicional, há futuro, hipótese. Adiante: não sei se gostei, se odiei: tenho o sabor amargo da dúvida na ponta da língua. Mas, como o senhor António declara numa das suas crónicas, mais exactamente a cujo nome é Juan Marsé, "a gente lê e pode não concordar com o estilo ou a estrutura ou os tiques ou o que seja: no entanto temos de lhe admirar a eficácia. E, como insistia, Tolstoi, a eficácia é a primeira qualidade de um escritor".

Houve momentos em que o autor me conseguiu arrancar bocejos, e temo que não fosse sua intenção; porém, por incrível que pareça, mesmo com o tédio a instalar-se em todas as minhas articulações, foi-me impossível largar a leitura, e isso deve significar alguma coisa. Não a persistência, mas algo delicioso, escondido nas entrelinhas das palavras escritas. Algumas crónicas até me emocionaram, provocando-me uma lágrima no canto do olho, como , que transpareceu dor e saudade, pois, declara António, "desde que morreste palavra de honra que há muito frio. Tem paciência, Zé: faz lá um sorriso à gente.", ou Buganvílias, que não me provocou uma lágrima, mas um sorriso, um assentimento, ao ler: "Numa manhã de férias uma cobra: não uma cobra grande, é evidente, uma dessas pequenas, inofensivas. Esmaguei-a com uma pedra, espetei-a numa cana, fui assustar a minha mãe com aquilo:
- Tira-me essa porcaria da frente.
Meu deus, a quantidade de porcarias que eu devia ter tirado da frente. Ainda irei a tempo de começar agora?". 

Houve ainda outras, crónicas não vezes, que me provocaram um revirar dos olhos, embora, na verdade, não saiba porquê. Como Os Trocos do Amor. De qualquer maneira, a eficácia está mesmo lá: as crónicas prenderam-me, torturaram-me, aborreceram-me, envolveram-me, tudo ao mesmo tempo, um sentimento de cada vez, assim uma misturada. Mas valeu a pena a leitura, valeu-lhe a pena a eficácia.

Antes de terminar, confesso que não vou conseguir ler algo deste autor muito em breve. À vontade está cá, mas falar de capacidade, bem, já é outra história. Gosto muito de ler, mas, como diz a minha mãe, ainda sou muito pequenina. Leituras como estas, é para repetir de ano em ano, uma vez ou duas. Se forem mais, a cabeça deixa de funcionar. Portanto, é com um sorriso que deixo um até já. Além disso, Os Maias continuam em cima do armário à minha espera e, eu começo a ficar com pena.

Capa&Designe:
A capa é simples e muito bonita, com a fotografia do escritor com um olhar lacrimoso. Muito bonito. E o designe interior não fica nada atrás, muito pelo contrário.

Nota:
8/10

por Raquel Silva
11.08.2011

Comentários

  1. Um taxista lendo Lobo Antunes no fim do fundo da América do Sul.
    www.taxitramas.com.br
    Há braços!!

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