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Mensagens

A mostrar mensagens de Abril, 2014

José Alexandre Ramos sobre a leitura de Não É Meia Noite Quem Quer

Espectros
O título deste meu texto de opinião sobre a leitura de Não É Meia Noite Quem Quer de António Lobo Antunes, numa tão simples, comprimidida e (aparentemente?) muito redutora palavra, tanto podia servir para abrir como para fechar o resumo sobre o que nos diz este livro, o 28º título do escritor, publicado em Outubro de 2012. A razão para tal é simples: parcas ou muitas palavras podem ser, ao mesmo tempo, excessivas e demasiadas quando opinamos sobre um livro de António Lobo Antunes, pelo menos os que foram escritos, mais ou menos, desde O Arquipélago da Insónia. Até porque Não É Meia Noite Quem Quer reafirma a dificuldade de ler este autor, cujo discurso se vem tornando cada vez mais fragmentado, no intuito de ampliar os pensamentos ao nível da palavra escrita e lida. Fica ao critério do leitor – como o afirma António Lobo Antunes há muito tempo – cuidar de ter a chave correcta para o decifrar, chave essa que não existe em mais nenhum lugar senão dentro de nós. O certo é que é …

Anna: opinião sobre Auto dos Danados

[...] acho que fiz uma boa descoberta com Auto dos Danados. Cada capítulo do livro é narrado por um personagem diferente, quase todos sem nome (ele fala de “o dentista”, “a mongoloide”, “a casada com o dos bondes”, “o engenheiro” etc) e sem qualquer introdução — você tem que pescar depois de iniciado o capítulo quem é mesmo que está falando. Conta de uma família portuguesa falida, que se reúne durante as festas do povoado porque o avô está moribundo. A partir desse reencontro, vai se desenrolando as misérias da família: um casamento falido, onde ambos os cônjuges sabem dos amantes um do outro; um tio que já dormiu com todas as mulheres da família — e do povoado —, incluindo sua cunhada débil mental (de quem tem uma filha, e com quem acaba também tendo uma filha); casamentos por interesse; o patriarca que forjou a morte da própria esposa porque esta o abandonara; a mãe que abandona os filhos e o marido e vai morar no Rio de Janeiro com um surfista e por aí vai.
O realismo e o exagero co…

Alcir Pécora: «Português retrata delírio esquizofrênico de mulher torturada» (opinião sobre Comissão das Lágrimas)

Como sabem seus leitores, o romancista português António Lobo Antunes (1942) serviu como médico psiquiatra do Exército português em Angola, no início do conturbado processo de independência do país.
Em "Comissão das Lágrimas" (2011), Antunes justamente retoma esse tema das lutas de Angola, que o tornou mundialmente conhecido. Concentra-se, desta vez, nos eventos passados no período 1977-1979, marcado pelas lutas cruentas entre diversas facções políticas do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola).
O atentado fracassado contra Agostinho Neto, que exercia o poder desde a independência do país, em 1975, foi o estopim ou o pretexto para a criação de um Tribunal Militar Especial ou Tribunal Revolucionário, que comandou uma operação de perseguições, torturas e execuções de supostos dissidentes.
O número de mortos, durante os dois anos de funcionamento do tribunal, apelidado pitorescamente de "Comissão das Lágrimas", pode ter chegado a 80 mil, sem que haja fontes ofi…

Miguel (St. Orberose) about Knowledge of Hell

Knowledge of Hell (1980) is my introduction to António Lobo Antunes. It is not the first novel I read by him, but the reading of A Morte de Carlos Gardel, some time in 2007, has left but faint vestiges in my memory, which only remembers a scene about a junkie searching for money in his mother’s wallet and a general feeling that it was a difficult and perhaps not very rewarding novel. But my disappointment notwithstanding, I realized Lobo Antunes was not a novelist of plots or suspense but of language and metaphors. This Portuguese novelist writes in long sentences, juxtaposing different timelines, bridging several levels of action, mixing memories with reveries, and changing from a third person to a first person narrator within paragraphs. He’s not an easy writer.
Starting this second novel with his complexity in mind made the reading better but no less exhausting than before. Knowledge of Hell comprises several stream-of-consciousness diatribes built by the protagonist in his mind wh…