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22 de novembro de 2016

Melina Balcazar Moreno sobre Da Natureza Dos Deuses

António Lobo Antunes ou o núcleo das trevas

Edição Christian Bourgois, 2016
tradução de Dominique Nédellec
«O mundo foi feito ao contrário», proferiu um dia um velho, num hospital psiquiátrico, a António Lobo Antunes.  Um homem a quem «os médicos chamavam «esquizofrénico» e que, atormentado por tais palavras que o torturavam, ofereceu ao jovem escritor a mais simples lição de escrita de sempre:  não se pode escrever senão a partir do que antecede as palavras. Ou seja, as emoções, as pulsões que lhe conferem forma e, ao mesmo tempo, deformam a memória. Assim, em «Receita para me lerem: «as palavras não passam de signos das nossas emoções, e as personagens, as situações, e as intrigas, pretextos aparentes para atingir o avesso escondido da alma. A verdadeira aventura que persigo é a de que narrador e leitor partilhem as entranhas do inconsciente, sede da alma humana» (Livre de chroniques III *). Uma vez que, e tal como Lobo Antunes faz questão de nos lembrar, não há nada de mais contingente, mais imprevisível, que o passado.

Em Da Natureza Dos Deuses, o seu último romance – ou talvez devêssemos antes dizer um longo poema, já que a fronteira entre os géneros parece tão frágil –, o escritor aborda o destino de uma importante família portuguesa, com fortes ligações ao poder e ao dinheiro. Uma história repleta de incertezas, lacunas, de sombras, contada de modo fragmentário por um cruzamento de vozes, tempos e de níveis de consciência. O leitor vê-se, por conseguinte, confrontado com frases sincopadas, marcadas pela ausência de vírgula ou de maiúscula, arrastado por esta sucessão de vozes, atormentadas por outras vozes, que se interrompem  e permanecem frequentemente em suspensão. Estes monólogos tendem, todavia, a dirigir-se à figura de um homem, que nunca será designado senão por «senhor doutor», detendo, porém, um poder de decisão sobre a sua vida, quer na qualidade de patrão, dono, marido, amante ou pai. Aliás, o próprio Senhor acabará, por sua vez, por tomar a palavra, deixando emergir a sua própria angústia perante a solidão e a morte: «se além dos bancos mandasse na vida das pessoas proibia-as de morrer». Mais do que uma reflexão sobre os mecanismos do poder, Lobo Antunes explora [neste romance] de forma magistral o seu avesso, a sua fragilidade, até mesmo a sua impotência.

Sobre a infância e o medo do escuro

A escrita de Lobo Antunes procura, pois, situar-se para além da narrativa, para se concentrar no modo como as recordações, em particular as da infância, se apoderam do presente, a ponto de o fazer vacilar. «veja-se o poder que a infância tem, enfia-se no interior da gente e, sem que se espere, zás, salta». Da Natureza Dos Deuses apresenta-se, assim, como «um espelho no qual nos vimos [reflectidos] tal qual somos, nus e sem  defesa». É sem sombra de dúvida o desafio mais importante lançado por este romance ao leitor, que se encontra incessantemente confrontado com as suas lembranças, com o seu (próprio) «núcleo de trevas», com a sua solidão: o que se encontra no âmago das personagens, no centro da sua fala, é evidentemente o ferrete que a infância neles deixou e que se prolonga pela sua vida adulta. Apesar dos conflitos e da violência patente nos seus relacionamentos, a hierarquia que rege a sua existência, esta infância continua a fermentar, a amadurecer, acabando mesmo por juntá-los. As alegrias e as feridas da infância emergem e minam silenciosamente o papel que (eles) desempenham nas representações sociais. É o caso do senhor doutor que, na intimidade, com a sua mulher, torna-se uma criança:
                                           
«despindo-se no outro canto do quarto e eu surpreendida de que os homens assim, imaginava-os menos indefesos, mais fortes e então dei-me conta de que não é connosco que estão, é a criança que foram, estendida ao meu lado sem se atrever a agarrar-me
– Não vais fazer-me mal pois não?
sou tão pequeno, protege-me, toma conta de mim, o meu marido, dono de bancos, de companhias, das empresas todas do mundo
– Não cresci
(…)
e o meu marido meu marido a pouco e pouco enquanto se vestia, ao apertar a gravata autoritário, feroz» 

O poder do sofrimento da infância e o medo do escuro é com efeito imenso. Toma de assalto o sujeito, fazendo-o regredir à vulnerabilidade própria desta idade: crianças submetidas ao domínio dos adultos, vítimas da sua indiferença, da sua violência, testemunhas silenciosas dos seus fracassos.

A infância tem também uma ligação única com a linguagem, que actua em profundidade com a questão da rememoração de que são feitas as personagens. São palavras que se «pegam, entranham-se, não nos deixam jamais», como aquela que o pai do senhor doutor lhe dirigia, «sevandija», e a que regressa incessantemente, pontuando a injustiça e a violência dos seus actos, cometidos apesar dele, como se nada mais fizesse que submeter-se, de algum modo, à infâmia do mundo.

Da ferida secreta de todo o ser

Por ocasião de uma  entrevista, António Lobo Antunes evoca um diálogo na obra de Dickens que lhe terá provocado uma forte impressão: um homem pergunta à sua mãe moribunda, «tens dores mamã?»; ao que ela responde: «tenho a impressão de que há uma dor no quarto, mas não sei se sou eu que a sinto». O mesmo parece ser uma das questões principais que atravessa este romance. A quem pertence, afinal, a dor que se sente? Porquanto se trata de uma dor que ultrapassa o sujeito, uma dor que se estende aos lugares, aos animais, e cuja presença se encontra tão impressa ao longo do livro: “muito choram alguns bichos, quebram-se no mesmo ruído do que as pedras, agonizam calados”. Homens, animais, crianças se parecem assim pela sua vulnerabilidade, pelo abandono e indiferença a que estão sujeitos: “a gaivota na estrada sem uma alma que a salvasse”.

Os fluxos de falas das personagens cristalizam-se então à volta de um núcleo de sofrimento, cuja origem remonta a um tempo ancestral que poderíamos descrever, com Georges Didi-Huberman, enquanto «jogo impuro, tenso, este debate das latências e das violências» que mina desde o interior a tirania da ordem social. E é sem dúvida o que a figura silenciosa, mais persistente, do sem abrigo que atravessa as narrativas das personagens e tenta fazer-nos compreender. Parece lembrar-nos esta solidão, esta lassidão originárias que, a exemplo dessas vozes do romance, tentamos ocultar por falsas aparências: «não podia tocar no sem abrigo no caso de ele passar por mim e verificar se era um anjo conforme o senhor doutor sugeriu uma vez, examinando-lhe as costas à procura de asas apesar de ele nunca próximo de ninguém, desviava-se sempre, da mesma forma que Deus nunca perto de mim em nenhuma época da vida, ora aí está outro que não calculo o que Lhe fiz para não me ligar».

Que permanece pois neste mundo abandonado pelos deuses? 

Permanece, apesar de tudo, este livro, que nos é aconselhado, entretanto, a deitar fora: «larguem o livro no lixo já que a sombra do voo dos pássaros lá fora escureceu as páginas». É certamente uma grande lição de trevas que Lobo Antunes nos oferece aqui, neste romance, e que finalmente nos deixa escutar o rumor dos mortos.


por Melina Balcazar Moreno
16.06.2016

tradução do francês por Olga Maria Carvalho Santos Fonseca revista por Dominique Nédellec
texto final traduzido revisto por José Alexandre Ramos

Nota da tradução:
* refere-se ao terceiro volume de crónicas publicado em França pela Christian Bourgois (Livre de chroniques III, traduzido por Carlos Batista), cuja compilação de textos não corresponde ao volume Terceiro Livro de Crónicas editado pela Dom Quixote em Portugal.

7 de outubro de 2016

Bruno Carriço sobre Da Natureza dos Deuses

Quando estamos a dias do lançamento de mais um livro da já longa bibliografia de António Lobo Antunes (Para aquela que está sentada no escuro à minha espera, 18 de Outubro), acabo de ler o seu mais recente romance editado, Da Natureza dos Deuses. Admirador confesso da escrita deste autor, admito que os últimos títulos que lhe li, com uma ou outra excepção, pareciam caminhar para uma espécie de autismo, para um universo cada vez mais fechado. Ia lá cabendo Lobo Antunes e iam-se apertando conforme possível os seus mais devotos leitores, aqueles que já dominam as particularidades da sua escrita, as suas vozes dispersas e sobreposições temporais. É o próprio escritor quem melhor define os seus livros, quando diz que estes não são para ser lidos, que são para se apanhar, como se apanha uma doença. É também ele o primeiro a afirmar que não lhe interessa contar uma história, que quer, isso sim, enfiar a vida entra a capa e a contracapa. E é por estes motivos que eu, mesmo apaixonado por esta escrita (com um ou outro desgosto, como em qualquer paixão), não recomende livros de Lobo Antunes a quem me pede sugestões de leitura. Simplesmente porque é preciso estar disposto a mais do que ler. Avançando até este Da Natureza dos Deuses, não há surpresa na prosa poética com que este se enche, não há surpresa no rendilhado de frases e pensamentos que o autor cria e interrompe a qualquer momento, para concluir adiante. A técnica narrativa é a que vem evoluindo ao longo de toda a obra do autor, com as palavras escolhidas a dedo e as metáforas a alcançarem, quase sempre, o espanto. A vida volta a caber toda num livro. Da pobreza ao triunfo, da solidão às relações, da infância ao envelhecimento e à doença. Do que parece ser aos olhos dos outros até ao que realmente é, ao mais profundo de cada personagem. O que poderá haver de surpreendente neste Da Natureza dos Deuses é a facilidade com que, apesar das inúmeras vozes que o compõem, dos muitos tempos em que é narrado, se segue com clareza a história (sim, aquela que nem sequer é pedra basilar das ideias do autor), feita das muitas histórias individuais (essas sim, uma preocupação de Lobo Antunes) das personagens.  Este será, ao contrário dos últimos títulos do autor, um livro mais aberto, mais à feição de leitores que não dispensem um fio condutor na narrativa. Lobo Antunes continua a explorar o poder da palavra, mas deixa bem visível o retrato de um país e de um tempo. A admirável galeria de personagens deste Da Natureza dos Deuses é, salvo  raras excepções, desprovida de nomes próprios. Portugal está nas mãos do senhor doutor, que representa o poder económico, e do senhor presidente, que será Salazar sem que em algum momento se diga que é Salazar. É um tempo em que o volfrâmio se negoceia com ingleses e alemães. Também procuram o poder o adjunto do senhor doutor, a secretária do senhor doutor e a secretária do adjunto do senhor doutor. Neste romance quase sem nomes, entre as raras excepções encontra-se Marçal, o empregado do casaco branco, único homem da confiança do senhor doutor. As personagens são muitas, mas todas elas se apresentam de forma única. Sobra uma sobre quem pouco se afirma e tudo se questiona, o enigmático sem abrigo, que eu tomei como a figura do leitor a surgir no livro, mas que pode muito bem ser apenas o sem abrigo, alguém que passa ao lado dos jogos de poder, despojado de haveres, um contraste. Sem revelar mais, por ter já revelado mais do que queria, afirmo que António Lobo Antunes tem, neste livro, um dos melhores livros que lhe li. Um livro Da Natureza dos Deuses. Dos Deuses que só poucos autores conseguem ser.


por Bruno Carriço
03.10.2016

15 de agosto de 2016

Bia Couto sobre Da Natureza Dos Deuses

Da natureza humana e das suas misérias. Uma leitura das nossas vidas tão desencantada e triste que impressiona.

A vida dos ricos e a vida dos pobres. Em comum, as mesmas angústias e a falta de alegria. Tudo cru, com as cores que se vêem nos talhos. Ninguém é feliz.

No mundo dos ricos, que tudo podem comprar, incluindo homens e mulheres que os servem submissos ou com a astúcia de lhes sacar o máximo possível, falta-lhes ter paz. Não têm. Tentam ajustar contas com o passado mas nunca as acertam porque não dominam a ganância que sentem nem as memórias que lhes criaram essa dureza implacável.

Nos pobres, a mesma miséria. As mulheres novas, ambiciosas, a desperdiçarem a exuberância e a energia dos vinte anos com velhos com dinheiro, a troco de uns fios, sapatos, brincos, vestidos, jantares e carros que lhes podem ser retirados em qualquer altura, porque eles fazem questão de lhes mostrar quem é que manda. Tudo se passa com a bênção dos pais e restante família, aproveitando também eles algumas benesses.

E assim correm quase seiscentas páginas em que, basicamente, andam alguns com umas cenouras a acenar a muitos que poderão apanhá-las. Se, se e se muitos ses se cumprirem. Há um personagem diferente, o sem abrigo, de quem todos falam mas que só é avistado, ninguém o agarra ou interpela e no final há quem diga que é um anjo. É a fantasia-personagem, a liberdade, ninguém sabe quem é, aparece aqui e ali o tempo suficiente para ir semeando curiosidades e devaneios.

O escritor António Lobo Antunes, para além de ser um vulto da nossa literatura, conhece a nossa raça, sabe do que fala. Porque raio é que entre tantas palavras não lhe deu para falar dos flashes felizes que todos temos da infância, ou das memórias doces enquanto crescemos? Ou dos mundos paralelos que criamos com a imaginação, enquanto adultos? E do amor que nos faz sentir e ver mais alto, mais perto das nuvens, tantas vezes a troco de um sorriso ou de uns dedos que se entrelaçam nos nossos? De vez em quando, que a lucidez não aguenta muito tempo a máscara, por isso digo, de vez em quando, para não nos matar a esperança de uma vida melhor? Ele, que através de um personagem diz que este livro conta uma história de amor. Para mim o que sobressai é o jogo de interesses, a falta de ética e o desamparo. Falta de alegria e de dignidade. Apenas a sobrevivência.

Mas, talvez, com esta narrativa niilista ele tenha pensado que o melhor mesmo é pôr tudo em cacos, com o mundo neste caos tão óbvio já não é possível atamancar, há que recomeçar do zero. Talvez seja isso.


por Bia Couto
em Agalma
14.08.2016

19 de junho de 2016

Melina Balcazar Moreno sur De la Nature des Dieux

Antonio Lobo Antunes ou le noyau de ténèbres

«Le monde a été fait à l’envers», a dit un jour un vieil homme dans un hôpital psychiatrique à António Lobo Antunes. Un homme que «les médecins appelaient schizophrène» et qui, en proie à ces mots qui le torturaient, a donné au jeune écrivain la plus simple leçon d’écriture qui soit: on ne peut écrire qu’à partir de ce qui précède les mots. C’est-à-dire les émotions, les pulsions qui lui donnent forme et, en même temps, déforment la mémoire. Ainsi, dans «Recette pour me lire»: «les mots ne sont que les signes de nos émotions, et les personnages, les situations et les intrigues, des prétextes apparents pour atteindre l’envers caché de l’âme. La véritable aventure que je poursuis est celle que le narrateur et le lecteur partagent dans les tréfonds de l’inconscient, siège de l’âme humaine» (Livre des chroniques III). Car, comme Lobo Antunes veut nous le rappeler, rien n’est plus incertain, plus imprévisible, que le passé.

Dans De la nature des dieux, son dernier roman – ou devrait-on plutôt dire son long poème, tant la frontière entre les genres semble fragile –, l’écrivain aborde le destin d’une grande famille portugaise, étroitement liée au pouvoir et à l’argent. Une histoire pleine d’incertitudes, de lacunes, de zones d’ombre, racontée de manière fragmentaire par un entrelacement de voix, de temps et de niveaux de conscience. Le lecteur se trouve ainsi confronté à une phrase syncopée, sans virgule ni majuscule, emportée par cette succession de voix, hantées par d’autres voix, qui s’interrompent et demeurent souvent en suspens. Ces monologues tendent pourtant vers la figure d’un homme, qui ne sera jamais désigné autrement que comme «Monsieur», mais détenant un pouvoir de décision sur leur vie, en tant que patron, maître, époux, amant ou père. D’ailleurs, Monsieur lui-même finit par prendre à son tour la parole, laissant paraître sa profonde angoisse de la solitude et de la mort: «si en plus des banques j’avais aussi la main sur la vie des gens, je leur interdirais de mourir». Plutôt qu’une réflexion sur les mécanismes du pouvoir, Lobo Antunes explore bien ici son envers, sa fragilité, voire son impuissance.

De l’enfance et de la peur du noir

L’écriture de Lobo Antunes cherche donc à se situer au-delà du récit, pour se concentrer sur la manière dont les souvenirs, particulièrement ceux de l’enfance, s’emparent du présent, jusqu’à le faire vaciller: «voyez un peu le pouvoir qu’a l’enfance, elle se niche au fond de nous et, sans qu’on s’y attende, paf, elle rejaillit». De la nature des dieux se présente ainsi comme «un miroir dans lequel on se voit tel qu’on est, nu et sans défense». C’est sans doute le défi le plus important lancé par ce roman au lecteur, qui se trouve sans cesse ramené à ses souvenirs, à son propre «noyau de ténèbres», à sa solitude: ce qui se trouve au cœur des personnages, au cœur de leur parole, c’est bien l’empreinte que l’enfance a laissé en eux et qui se prolonge dans leur vie adulte. Malgré les conflits et la violence de leurs relations, la hiérarchie qui régit leur existence, cette enfance continue à fermenter, à mûrir en eux et finit même par les rassembler. Les joies et les blessures de l’enfance ressurgissent et minent silencieusement le rôle qu’ils occupent dans les représentations sociales. Tel est le cas de Monsieur qui, dans l’intimité, auprès de sa femme, redevient un enfant :

«se déshabillant à l’autre bout de la chambre et moi surprise que les hommes ainsi, je ne les imaginais pas à ce point sans défense, je les croyais plus forts et je me suis alors rendu compte que ce n’est pas avec nous qu’il sont, c’est avec l’enfant qu’ils ont été, allongé à mes côtés sans oser me saisir
— Tu ne vas pas me faire de mal pas vrai ?
je suis si petit, protège-moi, prends soin de moi, mon mari, propriétaire de banques, de sociétés, de toutes les entreprises du monde
— Je n’ai pas grandi
[…] et mon mari progressivement mon mari à mesure qu’il se rhabillait, lorsqu’il a serré sa cravate autoritaire, féroce»

La puissance des douleurs de l’enfance et de la peur du noir est en effet immense. Elle assaillit le sujet, le ramenant à la vulnérabilité propre à cet âge : des enfants soumis à la domination des adultes, victimes de leur indifférence, de leur violence, témoins silencieux de leurs échecs.

L’enfance est aussi un rapport unique au langage, qui travaille en profondeur la matière mémorielle dont sont constitués les personnages. Ce sont des mots qui «collent à la peau, qui s’incrustent et qui ne vous lâchent plus», comme celui que le père de Monsieur lui adressait, «pendard», et qui revient sans cesse, ponctuant l’injustice et la violence de ses actes, commis presque malgré lui, comme s’il ne faisait que se soumettre en quelque sorte à l’infamie du monde.

De la blessure secrète de tout être

Lors d’un entretien, António Lobo Antunes évoque un dialogue chez Dickens qui a provoqué une forte impression en lui: un homme demande à sa mère mourante, «as-tu mal maman?»; ce à quoi elle répond: «j’ai l’impression qu’il y a une douleur dans la chambre mais je ne sais pas si c’est moi qui l’ai». Telle semble être aussi une des questions principales qui traverse ce roman. À qui appartient finalement la douleur que l’on ressent? Car il s’agit d’une douleur qui dépasse le sujet, une douleur qui s’étend aux lieux, aux animaux, et dont la présence est si prégnante tout au long du livre: “il y a des bestioles qui pleurent énormément, elles se brisent en faisant le même bruit que les pierres, agonisent en silence”. Hommes, animaux, enfants se rejoignent ainsi par leur vulnérabilité, par l’abandon et l’indifférence qu’ils subissent: “la mouette sur la route sans une âme pour la sauver”.

Les flux de parole des personnages se cristallise alors autour d’un noyau de douleur, dont l’origine remonte à un temps ancestral que l’on pourrait décrire, avec Georges Didi-Huberman, en tant que «ce jeu impur, tensif, ce débat de latences et de violences» qui mine dès l’intérieur la tyrannie de l’ordre social. Et c’est sans doute ce que la figure silencieuse, mais persistante, du sans-abri qui traverse les récits des personnages essaie de nous faire comprendre. Il paraît nous rappeler cette solitude, cette détresse originaires que, à l’instar de ces voix du roman, nous essayons d’occulter par des faux-semblants: «je n’aurais pas pu toucher le sans-abri si d’aventure il était passé devant moi ni vérifier s’il était un ange comme Monsieur l’avait suggéré une fois, examinant son dos à la recherche d’ailes même s’il ne s’approchait jamais de quiconque, il se détournait toujours, de la même façon que Dieu jamais auprès de moi à aucun moment de ma vie, en voilà un autre dont je me demande bien ce que je Lui ai fait pour qu’Il se fiche de moi à ce point. »

Que reste-t-il donc dans ce monde déserté par les dieux ?

Il reste malgré tout ce livre, qu’il nous est pourtant conseillé de jeter, de «balancer à la poubelle» car il a été obscurci par «l’ombre du vol des oiseaux au-dehors». C’est certainement une grande leçon de ténèbres que Lobo Antunes nous offre ici, et qui nous fait enfin entendre la rumeur des morts.


par Melina Balcazar Moreno
en Diacritik
16.06.2016

2 de junho de 2016

Antoine Perraud, "Les voix du silence" (sur De la nature des dieux / Da Natureza Dos Deuses)

edition Christian Bourgois
L’enthousiasme désabusé, l’ironie macabre et le rythme envoûtant de l’immense écrivain portugais António Lobo Antunes, né en 1942, font merveille dans ce vingt-cinquième roman, annoncé comme le dernier par un prosateur qui ne résiste pas à jouer, entre autres, avec sa propre disparition. Voici, admirablement traduit par Dominique Nédellec, un magnifique da capo – mais l’auteur de Mon nom est légion, La Nébuleuse de l’insomnie, ou Quels sont ces chevaux qui jettent leur ombre sur la mer ?, a-t-il jamais cessé de ressasser en pure poésie ?

Son écriture organise un réseau d’obsessions. Des soliloques se tressent. Impression de choralité. Polyphonie mais cohérence, en dépit d’une écriture multipliant les embardées, les tonneaux, ou les marches arrière. Une écriture hoquetant langoureusement le temps de phrases privées de ponctuation, grinçantes et douces à la fois, vibrantes de l’énergie du désespoir.

Une écriture contagieuse : les plus fervents lecteurs d’António Lobo Antunes se reconnaîtront peut-être un jour à psalmodier sur les places et sur les parvis ! Ils ne craindront plus d’entendre des voix ; à l’instar du romancier, jadis psychiatre, qui réverbère au long de son œuvre des récitatifs avec une technique de chef d’orchestre.

Cette musicalité radicalement énigmatique prend aux tripes, après un premier temps d’égarement face à la ronde carnavalesque ainsi instituée par un conteur hypnotique dans le sillage de Conrad. Et qui reprend, où Céline les avait laissées, des fulgurances chargées d’échos électrisants. Voici donc une houle de littérature nobélisable, on vous aura prévenus !

Splendide cantate éruptive d’impressions et de mots

Impossible à résumer, De la nature des dieux a pour épicentre, à Cascais, sur l’Atlantique, non loin de Lisbonne, une propriété entraînée dans une fin de cycle. Le roman compte quatre parties labyrinthiques. Il y a d’abord les visites de Fatima, chargée de livres que ne lira jamais Madame, qui se débat avec l’ombre du richissime Monsieur, son père hégémonique, dont nous découvrons ensuite les ravages, restitués par bribes, dans la bouche de ceux qui eurent à en souffrir, avant que Monsieur soi-même ne prenne part au débat, que viendra clore la parole d’une chanteuse populaire.

Le dispositif d’une telle répartition des voix évoque le Tuba mirum du Requiem de Mozart, où quatre chanteurs se passent le relais. Mais ici s’échappe, avec une puissance stylistique irrésistible, un monde chaotiquement cadenassé : ce qui pousse et tombe en ruine, les arbres et les oiseaux, le silence et le bruit du jardin, le craquement d’une marche d’escalier et le froid du marbre sous les pieds, les corps qui se déforment « avec une malveillance subtile », la mer dévorant les dunes, un désir de bleu inassouvi, les rencontres clandestines et les dominations officielles, « les douleurs de l’enfance et la peur du noir », le sans-abri lancinant comme un reproche, l’ombre de l’Afrique et les horloges omniprésentes comme toujours chez Lobo Antunes, les sourires qui se dissipent et les rictus qui se figent, la poussière qui nous guette tandis que nous hante « l’espoir de sentir un être vivant dans les parages »…

Splendide cantate éruptive d’impressions et de mots, témoignage des bouillonnements affranchissants de la langue qui travaille en chacun de nous, parti pris en faveur des femmes qu’il faudrait tout de même un jour décoloniser, réquisitoire contre la rapacité des rapports sociaux ou familiaux : ce roman, dont l’auteur sait s’effacer au profit de l’écriture, sème à foison des messages à première vue indéchiffrables.

De bout en bout, par exemple, un tournis de tours de clés compose une étrange et brutale poétique des battants qui s’ouvrent et se ferment. Comme si, par-delà Cicéron ­­ – auquel est emprunté le titre, De natura deorum –, António Lobo Antunes rendait hommage à Lucrèce. Lucrèce qui, dans son poème épique pionnier, De rerum natura, honorait Épicure pour avoir « désiré, le premier, forcer les verrous des portes de la nature ».

Voilà pourquoi le romancier portugais jamais ne capitule : toujours il récapitule !


par Antoine Perraud
en La Croix
02.06.2016

(merci a Dominique Nédellec pour la référence!)

13 de fevereiro de 2016

José Mário Silva, crítica a Da Natureza Dos Deuses

Invenção da Melancolia


Na fase mais recente da sua obra – que abarca romances densos como Comissão das Lágrimas (2011), Não é Meia Noite Quem Quer (2012) e Caminho Como Uma Casa Em Chamas (2014) –, António Lobo Antunes vinha seguindo uma trajectória de progressivo ensimesmamento, fechando-se mais e mais dentro das suas estruturas polifónicas, essa arquitectura claustrofóbica de múltiplas vozes emergindo da página, ao mesmo tempo tão intrincadas e tão rarefeitas que o leitor deixava de as conseguir separar umas das outras. O fulgor da prosa de Lobo Antunes nunca se perdeu, mas saíamos desses livros como que desorientados, meio perdidos, expulsos de um território onde nunca chegávamos verdadeiramente a entrar. Ou seja, éramos meros espectadores que contemplam, de fora, os fragmentos de vida que o romance arranca ao real quotidiano, mas logo esconde e abafa, sob o peso da voz que se sobrepõe a todas as outras. A voz do autor fascinado com o seu poder discricionário, esse poder maior que consiste em dizer o que se quer, da maneira que se quer, sem pensar em coisas vulgares como, por exemplo, a inteligibilidade.

A maior surpresa que nos proporciona Da Natureza dos Deuses, o mais recente romance de Lobo Antunes, é justamente uma inflexão na tal trajectória de fechamento que ameaçava alienar muitos dos seus leitores. Num livro com quase 600 páginas, nunca chegamos a sentir cansaço ou exaustão, mesmo quando o autor multiplica os narradores e cria novelos mentais que embatem violentamente uns contra os outros, oferecendo visões distintas dos mesmos acontecimentos. À perícia do escritor, na forma como deixa a narrativa seguir o seu curso, permitindo à mão que escreve ir atrás do fio das histórias que se acumulam no seu imparável carrossel mental, junta-se uma força centrípeta que mantém a coesão do edifício, conferindo-lhe solidez e sentido.

No centro do romance está precisamente um edifício, um palacete na zona de Cascais, perto do Guincho, cenário faustoso para o lento declínio de uma família. «Tudo se gasta e cede», diz alguém. E Da Natureza dos Deuses é a crónica dessa ruína. Uma ruína dos corpos, das relações afectivas, dos impérios financeiros, das casas erguidas contra o vento que vem do mar, contra o imparável cerco das areias que um dia soterrarão o court de ténis, as estátuas de deusas e discóbolos, os canteiros do jardim, a janela na torre (onde uma mulher, reclusa, espreita) e a memória de quem um dia habitou aqueles espaços. O tema central é o poder que o dinheiro traz consigo e a forma como esse poder vai sendo exercido. O Senhor Doutor, nascido na pobreza, sobe a pulso e cria um império de bancos, seguradoras e outras empresas. Esse sucesso nos negócios confere-lhe uma aura que distorce a forma como as pessoas se relacionam com ele. Sem surpresa, é quase sempre em modo de submissão, embora por trás dessa fachada de arrogância e superioridade aparente se possam esconder outras relações de força (como acontece com Marçal, o «criado» fiel, no seu impecável casaco branco).

Os vários laços de afecto ou dependência vão sendo minuciosamente revelados à medida que a narração alterna entre figuras muito diferentes: o próprio Senhor Doutor, eminência parda do Portugal dos anos 50 e 60 do século passado, íntimo de um Salazar que aparece várias vezes como um espectro moribundo, fragilíssimo, de manta sobre os joelhos; a Senhora, mulher do Senhor Doutor (a reclusa que espreita por detrás dos cortinados); a filha da Senhora, com um cão ao colo, rodeada por livros que lhe são trazidos por uma funcionária da livraria mais próxima e nunca lidos, porque os pacotes são um mero pretexto para ter quem a oiça; e muitas personagens secundárias, que vão destapando o reverso do esplendor burguês, a miséria atávica de uma sociedade supostamente de brandos costumes, mas onde imperam as mais brutais formas de violência.

Lobo Antunes é particularmente feliz no modo como capta os estados emocionais das personagens, os seus abismos íntimos, os seus dilemas morais, essa tristeza entranhada nos corpos, «espécie de melancolia» que os paralisa a meio de um gesto, de uma frase, às vezes de uma palavra. Quando essa ruptura no discurso acontece, a palavra deixada a meio pode ficar assim, partida, suspensa, enquanto novos fios de pensamento se intrometem, para depois, mais à frente, vermos surgir o resto da palavra, retomando o processo mental interrompido. Estes malabarismos não são meros exercícios de virtuoso, antes obedecem a uma necessidade do texto, o mesmo se podendo dizer dos cruzamentos de planos temporais e da hábil sobreposição das várias subjectividades que coexistem em cada capítulo (incluindo a do autor deste mundo, sempre consciente da sua efabulação).

A dada altura, uma personagem refere-se a «certos pormenores que por muito que a gente se esforce não se desvanecem». Esses pormenores, nos livros de Lobo Antunes, prendem-se sempre com a linguagem, com esse espantoso fôlego lírico que faz equivaler a sua arte narrativa a uma arte poética. O que não se desvanece na memória dos leitores é a força das imagens. Por exemplo, aquele homem «abotoando o colete como se tocasse acordeão em si mesmo». Ou as pessoas «cujas sombras parece que têm ossos».


por José Mário Silva
09.02.2016
originalmente publicado na revista E do Expresso de 06.02.2016

22 de janeiro de 2016

André Matos sobre Da Natureza Dos Deuses em goodreads.com

Enquanto me sento a ouvir as ondas do Guincho, guiadas pela batuta descontrolada de um vento do Norte, vejo as gaivotas a debaterem-se contra tão violenta orquestração. Tão belo o seu rasante voo, tão forte a sua luta. Ao longe a serra. Mais perto, dunas que dançam ao som de tamanha ventania e à minha frente ondas que vão trazendo memórias até aos meus pés. 

Estou envolvido pela natureza. E é na natureza dos deuses que reflicto de que é feito a natureza humana. A ironia da natureza dos homens, é que é auto-destrutiva. E nessa auto-destruição, há sempre uma tentativa de evolução e de aperfeiçoamento. Neste livro existe a dor, o medo, a raiva, o amor, a compaixão, as verdades que dançam com as mentiras, as revelações que são feitas a meia luz, o espectro da morte no canto da sala a fumar cigarros, as memórias que nos picam como cardos. Tudo coisas que nos podem conduzir inevitavelmente a uma destruição iminente. É esta a natureza humana. Somos esse vento que sopra com violência, somos milhões de grãos de areia que formam dunas, somos gaivotas que voam em céu aberto. Somos comboios que nunca partem da estação. Somos pessoas em torres de vigia, fechados do mundo e para o mundo. Somos sem abrigos a quem ninguém estende a mão.

Ler o Da Natureza dos Deuses é como acreditar no amor à primeira vista. Não há explicação. Só o tempo me trará o significado que agora não consigo exprimir totalmente. Este livro somos todos nós em certos aspectos da nossa vida. Nas palavras escritas vejo memórias feitas de mel e vinagre fechadas em gavetas, mas postas a nu. A partir das memórias e das acções concluo o quão complexos somos. O quão fragmentários conseguimos também ser. E do meio da confusão complexa e da instabilidade fragmentária há idas e regressos. E em cada regresso uma nova fuga. E no meio da multidão, tanto silêncio. Em mim, fica a solidão de uma praia deserta, onde cada onda evoca uma memória que eu julgava há muito perdida.


por André Matos
em goodreads.com
10.01.2015

4 de dezembro de 2015

AM: Opinião de leitura sobre Da Natureza Dos Deuses

Os títulos dos livros de António Lobo Antunes (ALA) são, na sua maioria, citações. O último “Da natureza dos deuses” é o título de um livro de Cícero. A principal temática deste livro é o poder e a riqueza. Monopólio e domínio. Submissão, servidão e subserviência. Infidelidade. Desumanidade. Velhice: “que maldade incompreensível o tempo”. A grandeza: “uma casa maior do que todas as casas do mundo, salas, corredores, varandas e o jardim e o pinhal e o campo de ténis..".

Este, é um dos livros maiores de ALA, ultrapassa as 500 páginas, exactamente 574, talvez também a fazer a analogia à imensidão dos deuses do título. Os nomes dos personagens, como é tão característico de ALA, são poucos. Os personagens deste livro são: a Senhora, o senhor doutor, o senhor presidente, o avô da Senhora, o sem abrigo, a dona da livraria, a funcionária da livraria, o empregado de casaco branco (Marçal), o sujeito da editora, secretária loira, o senhor engenheiro (adjunto do senhor doutor) casado com a secretária loira do senhor doutor (amante do Sr. Doutor), o senhor presidente, a esposa do deputado, a dona da loja de roupa, o homem mais novo que o senhor doutor. O livro divide-se em 4 partes. As primeiras 3 partes com 10 capítulos cada e a quarta parte com 7 capítulos. Este livro passa-se entre Cascais, Estoril, Guincho e Lisboa.

O livro começa pelo tempo presente. O primeiro capítulo começa com a funcionária da livraria, que é uma retornada de África, vive com um filho pequeno numa casa barata de Cascais e já passou os quarenta: “sou fácil de enganar, perdoo a todo o mundo, olho e não vejo, vejo e não ligo”. Não entende a razão de a Senhora conversar tanto com ela: “qual o motivo de falar comigo sou pobre”. Vai muitas vezes a casa da Senhora, que está sempre sentada com um cãozito nos braços, entregar livros: “a mulher idosa percorria o cãozito no colo com o anel”... “numa poltrona grande demais para ela... quase em contraluz, transparente, a voz apenas...”. Vive o presente numa profunda solidão mas refere-se a um passado totalmente diferente: “os jantares que havia aqui o rei da Itália, o rei da Roménia, o duque inglês... A sala com os seus móveis, os seus quadros, os seus tesouros tão caros”. A Senhora “não recebe visitas nem sequer dos filhos... qualquer desconhecida que a escute sem comentários nem perguntas... a garganta magríssima, as linhas claras dos ossos e os dentes tão nítidos sob a pele... não uma mulher idosa ou gasta, uma mulher quase defunta, não o palhaço que durante anos e anos aceitara ser... os olhos vazios".

O pai da Senhora (senhor doutor) “de olhos tão pobres apesar de ser dono de bancos, companhias, ministros”. É uma figura detestável, autoritário, um “dono disto tudo”, “um pulha”a quem toda a gente presta vassalagem: “A quantidade de gente que ele foi degolando ao comprido da vida (...) a afastar-se no sentido de subalternos que o esperavam, atenciosos, curvados (...). É uma questão de princípio não dar confiança a subordinados”. Joga ténis com personagens que vão sempre mudando à medida que vai deixando de precisar deles e à medida que os destrói: “Obrigado por consentir ganhar-lhe.” São continuamente substituídos. Tem sempre raparigas loiras novas a quem cobre com puldeiras e colares, tacões, perfumes que, são também substituídas com o passar dos anos e da idade. “...é sempre desagradável apertar a mão a um pobre, fica-nos o cheiro na pele”.

O avô materno da Senhora era judeu e com “estabelecimentozito de câmbios”. O pai da Senhora salvou o avô da Senhora da falência: “Perdoo-lhe a dívida se me der a sua filha”. A mãe da Senhora tinha quinze ou dezasseis anos: “Não lhe faço mal descanse... Livra-se de ser preso e ainda ganha um genro que o protege”. O casamento da Senhora foi arranjado pelo pai: “Casas-te em Outubro” e a “Senhora a informar o pai de que preferia o sapo de uma cómoda transformado em príncipe”. O marido da Senhora, “herdeiro de outro banco que o pai da Senhora administrava, mais fábricas, mais empresas,...um monte no Alentejo, dois barcos na marina...”.


O avô paterno da senhora (pai do senhor doutor): “O meu pai teve que afastar o meu avô dos negócios... o meu avô morreu sem lhe ter perdoado... sem conhecimentos nem estudos... vendia jornais e lotarias no início, emprestava dinheiro no bairro... não se conhecia o pai, a mãe apenas, que trabalhava nas limpezas... ao regressar da tropa o pai da Senhora, há quem se lembre dele do bairro, aumentou os juros e transformou o negócio contra a vontade do meu avô... o pai da Senhora chamou advogados que proibiram o avô da Senhora de entrar”. O pai da Senhora para o avô da Senhora: “A partir de hoje começa a sua santa vida que sorte... A partir de hoje tem tempo para o dominó com os amigos ler o jornalzinho e gozar a reforma... você está gasto não presta”. “O pai da Senhora comprou-lhe uma casita com uma horta na província e pagou a uma camponesa para tomar conta dele”.

O senhor engenheiro (adjunto do senhor doutor) é casado com uma das secretárias loiras do senhor doutor (e sua amante). Começou na contabilidade e passou, depois, a adjunto. Tem gabinete próprio, automóvel, secretária loira e facilidades no crédito desde que não abuse. O senhor doutor cumprimenta-o: “ele que não cumprimenta ninguém e eu honrado... convida-me para o ténis aos sábados, onde a minha esposa se senta ao lado dele, tão loira (...) sem me apertar a mão, claro, mas uma honra da parte de quem não cumprimenta as pessoas de modo que eu, agradecido”. Insinua que o filho mais novo é filho do senhor doutor: “o único que não se parece comigo, a coincidência de uma pálpebra pendente como o senhor doutor”. Sem um poder comparável ao senhor doutor, o senhor engenheiro, apesar de subalterno, de acordo com determinada hierarquia, tem poder. Como tal, também tem uma secretária loira, que é sua amante. Com o desenrolar das páginas, perceber-se-á que essa afirmação sobre a questão da paternidade do filho mais novo não faz sentido.

O Senhor presidente: “o que manda em Portugal... o senhor doutor visitava-o aos domingos... de pés numa escalfeta e manta nos joelhos... uma voz fraquinha (...) a voz fininha... de fatito cinzento e cabelo branco (...) sempre sozinho, escrevendo bilhetes minúsculos, numa caligrafia minúscula, para os ministros que não o viam, eram nomeados e despedidos através de cartõezinhos daqueles (...) o senhor presidente, que o mundo inteiro temia. Parece o personagem que vivia no sotão no livro “Caminho como uma casa em chamas”.

A mulher do senhor doutor (mãe da senhora) está aprisionada num quarto no alto da casa de onde, através da janela, está sempre à espreita e a ver os jogos de ténis. “O meu marido mandou pôr uma cadeira no meu quarto, mesmo no alto da casa, onde até os falcões da serra vejo e o mar por trás dela, outro mar além do Guincho... para me visitar de vez em quando, sinto-lhe os passos no corredor, mais lentos do que os dos criados, o empregado de casaco branco destranca a fechadura, volta a trancá-la quando ele se senta, sem olhar para mim, e fica ali calado...”. Há uma ténue alusão à infidelidade da mãe da Senhora: “anos depois a mãe da Senhora no comboio para Madrid com um homem...de óculos escuros e lenço na cabeça”.

O Marçal é o empregado do casaco branco, o“faz tudo” e o “cachorro” do senhor doutor. É o único que não foi substituído (...) Quando morreu foi o único momento em que vi o senhor doutor chorar... no escritório, não limpava as lágrimas, desciam-lhe as bochechas encalhando nas rugas”.

O sem abrigo atravessa todas as partes e todos os capítulos. O seu papel no livro, é para mim, um enigma.

A cronologia deste livro divide-se em várias gerações. Talvez do começo do Estado Novo até aos dias de hoje.

Há sempre algumas frase autobiográficas claras de ALA: “lembro-me que não chorava, não era que não me desse vontade, as lágrimas não saiam (...) Não me recordo de ser muito de beijos... aconteceu-me chorar...fui secando com a vida (...) sempre tive um problema com lágrimas, o meu pai não chorava, a minha mãe às vezes... mas escondia-as logo (...) a quem as lágrimas tornam um fraco”.

Há as habituais referências a África e à tropa, mesmo que de forma muito ténue. E as histórias paralelas que abordam o aborto, maus tratos e relações ocasionais. Depois de todas as evidências e aparências dos personagens há o submundo, a parte frágil e humana de cada um deles. Os livros de ALA, ao contrário do que o próprio não assume, são difíceis de perceber. Os leitores habituais terão bastante menos dificuldades para perceber as frase polifónicas, analepses e prolepses mas há uma analogia cinematográfica que se poderá fazer com os filmes de David Lynch. Muitas vezes os mistérios não são desfeitos e muitas vezes existem partes que poderão ter sido escritas para serem mesmo incompreensíveis. Quem sabe?

Famílias destruturadas. Traições. Mentiras. Humilhação. Desprezo. Insensibilidade. Mentiras. Ilusões. Indiferença. Destruição. Mostra-nos que o poder pode, quase tudo, mas não tudo. O senhor doutor, a mãe da senhora (mulher do senhor doutor), a senhora e o Marçal (empregado de casaco branco) são as chaves deste livro. Os dados estão lançados. Parte das personagens e do enredo está exposto. Mais não digo. Falta agora o leitor envolver-se e interpretar à sua maneira. Espero que aproveitem e desfrutem este livro que, apesar de denso, é cativante e nada monótono. Não sei se sou eu que me torno a cada livro mais devota do estilo de ALA e dos seus livros, ou se com o passar dos anos, comecei a percebe-lo melhor. Continua com a sua habitual escrita tão real, quotidiana, cuidada e cinematográfica.

Este livro já estava escrito há dois anos. Por esse motivo, não há qualquer relação entre os factos actuais do poder e queda dos banqueiros e bancos e a sua queda com este livro. Parece tratar-se de um pronúncio mas (provavelmente) não passa (de uma mera) coincidência. O livro não está organizado de acordo com este texto. Este texto é (apenas) a interpretação que faço do livro, que poderá não ser a verdadeira.


por AM
01.12.2015

3 de dezembro de 2015

Isabel Lucas - crítica a Da Natureza Dos Deuses

Lobo Antunes e a busca da chave certa


Em Da Natureza dos Deuses, o escritor persegue um sentido original da linguagem enquanto modo de expressar um interior que se escapa sempre.


Uma personagem do mais recente romance de António Lobo Antunes interroga-se sobre a razão pela qual o marido a mantém no casarão, “uma espécie de paixão não no sentido de paixão, no sentido de paixão, compreendem, de amor não no sentido de amor, no sentido de amor, compreendem, porque a paixão e o amor não são paixão e amor, à força de usarmos as palavras modificámos-lhes o significado e estou apenas a tentar dar-lhes o significado que modificámos, dizer paixão no lugar de paixão e amor no lugar de…” A tentativa de chegar o mais perto possível de um sentido original da palavra, da linguagem enquanto modo de expressar um interior que lhe escapa sempre — porque a linguagem parece andar sempre atrás e o sentido das palavras se vai alterando pelo uso —, é cada vez mais evidente no trabalho de António Lobo Antunes. A procura desse sentido é tão arriscada quanto sinal da liberdade literária que o escritor persegue, partindo do que parece ser uma angústia central: e se a linguagem não chegar, e se o homem não for mais capaz de a usar para nomear o essencial?

A pergunta “o que acontece à linguagem com o tempo?” sucede a outra interrogação, mais humana: o que é que o tempo faz com o homem, como altera a sua percepção do mundo e o modo de comunicar nele e sobre ele? A angústia perante a perda da comunicação — ou da sua ineficácia, o que é o mesmo —, não como acessório burocrático mas como algo primordial, atravessa mais uma vez a escrita do escritor no seu 26.º romance, um romance irónico, amargo, melancólico. Da Natureza dos Deuses replica o título do livro de Cícero, escrito em 45 a.C. para retomar temas como memória, a velhice, a morte, o pós-colonialismo, a sexualidade, o divino, amor, o tempo (“que maldade incompreensível, o tempo”, pensa outra personagem) dando especial ênfase ao poder e à percepção que dele têm quem o exerce e quem é por ele dominado.

Num casarão entre Cascais e o Guincho, uma mulher, a Senhora, recebe periodicamente a visita de uma empregada de livraria que lhe entrega embrulhos com livros que ela não abre. Fátima é a confidente de uma história de família centrada na figura do Senhor Doutor, pai da Senhora, um déspota, agiota, que pediu a mão da mulher nos seguintes termos: “Perdoo-lhe a dívida se me der a sua filha.” E “o judeu a secar-se no lenço sem que o pai da Senhora reparasse nele, de cara a desaparecer da cara e expressão alguma, ruga alguma, apenas o bigode a hesitar, a mãe da Senhora quinze ou dezasseis anos, dezasseis…” Fátima, a empregada da livraria, ouve. Tem 36 anos, um filho de seis, o marido deixou-a, e ela vigia, com uma atenção que ultrapassa a mera curiosidade, o sem-abrigo que se alimenta da loja de hambúrgueres no centro de Cascais, bem perto da livraria. Fátima veio de África em criança e, como a Senhora, sabe que na vida “procuramos o que se segue e descobrimos o princípio”. É a velha história do passado que não larga e que tem alimentado tanto a literatura. William Faulkner colocou isso numa frase em O Som e a Fúria que tem sido traduzida com várias nuances: “O passado não está morto. Nem sequer passou.”

No início do romance, Fátima tem umas chaves nas mãos. “Mandaram-me pela primeira vez a casa da Senhora mais ou menos na altura em que encontrei o sem-abrigo a dormir no degrau da livraria e palavra de honra que só dei por ele no momento em que tirei a chave da carteira para abrir a porta, ou antes duas chaves na argola com um ursinho de pano a que faltava o olho direito, a boa, e uma segunda de que continuo a ignorar a serventia, desde pequena que as chaves me intrigam, misteriosas, secretas, introduzindo-as na fechadura abrem o quê, se lhes perguntasse…” No casarão, ela escuta a Senhora e interroga-se sobre as portas fechadas ao longo do corredor. Aquela casa é o centro do livro e, dentro da casa, o Senhor Doutor. Uma e outro atravessam o romance, como a figura do sem-abrigo a caminhar em direcção ao mar de Cascais, espécie de fantasma a cruzar o tempo. São permanências, enquanto os narradores se sucedem, personagens secundárias de uns, centrais na existência de outros, mas sobretudo na própria, e tantas vezes encerrados nela. Quem lê o Lobo Antunes das crónicas percebe que elas funcionam como um laboratório do romance. Há detalhes importados, personagens que se ensaiam, e o apurar do tal trabalho sobre a linguagem que persegue desde o primeiro livro, Memória de Elefante, publicado em 1979. Desde então, é como se Lobo Antunes andasse sempre às voltas com o mesmo livro, cada vez menos narrativo na concepção tradicional do termo — o contar da história —, e cada vez mais a procura da linguagem (num trabalho de arqueologia por vezes demasiado exposto) mais precisa e mais verdadeira face a um tempo, a uma emoção, a alguma coisa muito secreta porque nunca dita.

Em Da Natureza dos Deuses, um dos mais longos romances de Lobo Antunes, volta a haver muitas vozes; interpõem-se, atropelam-se, ecos de vários tempos históricos. E também, mais uma vez, a cronologia é a da memória, pouco obediente ao calendário, mas capaz de refazer percursos e, tanto quanto possível, resolver enigmas para contar uma história que é o presente de um país melancólico e velho: “A velhice não é roubarem-nos o futuro, é terem-nos roubado o passado, até a voz dos meus pais me levaram… “ No futuro, parece dizer Lobo Antunes pensando ainda em Faulkner, o passado existe.


por Isabel Lucas
02.12.2015

27 de outubro de 2015

«Da Natureza Dos Deuses: uma sopa de letras», por Norberto do Vale Cardoso

António Lobo Antunes e Da Natureza Dos Deuses:
 Uma sopa de letras

Norberto do Vale Cardoso [i]

Na vasta e complexa obra de António Lobo Antunes destaca-se a importância do que parece fragmentário e lateral. Efectivamente, na obra deste autor não podemos ater-nos aos aspectos mais evidentes e tradicionais da narrativa, porque esta, como um mar imenso, está repleta de micronarrativas que funcionam como “microclimas” a perscrutar, exigindo ao leitor uma atenção redobrada. Essas “funduras”, onde tudo se subsume (e de onde tudo reemerge), funcionam como um “avesso”, noção que pode possuir várias componentes sémicas. Ora em Da Natureza Dos Deuses (ND) julgamos importante abordar três aspectos “submersos” na narrativa: as questões do poder, da paternidade e da linguagem.  
Em Da Natureza Dos Deuses, romance em que, uma vez mais, somos levados a percorrer os “corredores sombrios” (ND, p. 346) do poder, confrontamo-nos com uma questão central da identidade, veiculada através de uma dicotomia entre os “deuses” e os “homens” (vistos como “palhaços”). O tema não é novo na obra de Lobo Antunes, até porque “o circo […] é uma imagem catalisadora e sempre actuante nos romances” deste autor (Susana Carvalho, A Desordem Natural do Olhar, 2014, p. 171), mas interessa-nos particularmente porque Lobo Antunes vem encontrando outros modos de dizer para dizer também outras coisas.
Assim, os “deuses” serão representados pelo “senhor doutor” e pelo “senhor presidente” – que se reúnem em consílio aos domingos -, enquanto os homens-palhaço se fazem representar, grosso modo, pela figura do sem abrigo (que recorda a personagem de “As mãos são as folhas dos gestos”, incluída no Quinto Livro de Crónicas).

Poder e paternidade:
O senhor doutor, dono do volfrâmio, de empresas, fábricas, casas e carros (ND, p. 217), vê que o seu poder vai aumentando sem freios: “o senhor doutor comprava quadros aos alemães, cristais, pratas, continuava a aumentar a casa até ao pinhal, fez recuar as dunas, transformou as ondas em rochas” (ND, p. 238). Ele é, de facto, o capital, uma espécie de pai global. Todavia, não tem o poder da criação, pois, logo após o casamento, teve conhecimento de que não poderia ser pai. Como julga que o dinheiro compra tudo, procura médicos nos Estados Unidos, na Suécia e na Áustria, mas nenhum especialista encontra uma solução (ND, p. 355). Incrédulo, começa a sentir repulsa pelo seu corpo (ND, p. 355), e essa perda da paternidade (tema muito reiterado na obra de Lobo Antunes), que é uma questão de identidade, leva-o a nomear Marçal, o servente, para o substituir: “[…] minha filha que não é filha de mais ninguém senão minha, mandei o Marçal fazer-ma” (ND, p. 324). Este jogo de substituição eu/ outro, que se coaduna com os motivos circenses, em particular com a dialética palhaço rico/ palhaço pobre, é relevante na medida em que destaca a (im)potência do dono de todas as coisas, colocando em causa os alicerces do poder e da identidade. No fundo, o retirar da máscara deixa à vista a sua “imperfeição”, a “humanidade sofredora”, o “grotesco” do mundo (in Dicionário da Obra de António Lobo Antunes, volume II, 2008, p. 131).
Para tentar suprir as carências efectivas, o sentimento de posse do “senhor doutor” traduz-se em prepotência para com todos os que o rodeiam. Vejam-se, a esse propósito: o modo como encarcera a Senhora num quarto, de onde esta observa o jogo de ténis, que o marido converte em jogo de sedução e manipulação; a ameaça de desterro do sargento para a província (de Cascais a Chaves, ND, p. 342); ou a posse física da secretária do adjunto, que toma para si como quando em miúdo se agarrava aos animais do carrossel (ND, pp. 352, 353), outro elemento que conecta a infância (como tempo irremediavelmente perdido) ao jogo entre ser e não ser. Portanto, o poder e a posse são, na verdade, substitutos de uma carência, aparentemente resolvida através da menorização dos outros, sempre vistos como “imbecis” (ND, p. 353) e “palhaços”.
As mulheres são as maiores vítimas do poder másculo e patriarcal que o senhor representa: “- Todas as mulheres são palhaços”, diz-se a determinada altura (ND, p. 76). Tal apodo justifica-se na medida em que o palhaço representa, a nível simbólico, “o rei assassinado”, “a inversão das propriedades reais” (Chevalier/Gheerbrant, Dicionário de Símbolos, 1994, p. 502), que aquele “que manda em Portugal” (ND, p. 486) teme. O espelho invertido leva-o a olhar os outros com desprezo e a usá-los, ao ponto de estes dependerem totalmente dele, nem que seja por medo. Veja-se o relato cruel da senhora:

“[…] o meu marido […] sem olhar para mim, já não tenho pinturas, nem adereços, nem vestidos, o roupão somente, eu para o meu marido
– De certeza que não me preferias palhaço?
[…]
– Ainda sou a tua vaca não sou?
eu
– Ainda sou a tua cadela não sou?
eu
– Ainda sou a tua puta?
eu, com mais ímpeto
– Ainda sou a tua puta?
enquanto as bolas de ténis para um lado e para o outro da rede” (ND, pp. 227-228)

Esse domínio traduz-se num enfastiamento do “senhor doutor”, que usa e substitui as pessoas que o rodeiam, ainda que, na verdade, o problema esteja em si próprio. Essa alteridade é usada pelo romance de Lobo Antunes+ para se referir, mutatis mutandis, à condição do artista (e do escritor em particular):

“[…] fui o palhaço que me mandaram ser, não fui, fui a tolinha que exigiram de mim, não fui, ao fim de certo tempo substituem-se os artistas, não é, o meu marido substituiu os artistas, conserva-me nesta casa por ele, não por mim, pela sua filha, talvez, reparem que não digo pela minha filha, digo pela sua filha, talvez, porque aceitei dar-lhe a filha, fica com ela, entrega-lhe um marido, tanto faz qual, os palhaços não escolhem o público, uma voz, não adivinho de quem
– Os artistas são todos portugueses” (ND, p. 222)

O artista:
 Como referimos, do outro lado encontra-se o sem abrigo, que, carente de todas as coisas (do emprego à posição social), é tão-só aquele que caminha, indiferente, junto ao mar de Cascais, como se a fímbria do mar representasse a margem social em que se encontra. No entanto, ninguém há de mais misterioso que ele, o que desperta o interesse do senhor doutor: “por que razão a gente, os deste livro, nos inquietamos com o sem abrigo, o que será ele, quem será ele, quem somos nós que não nos abandona nunca” (ND, p. 324). Desapossado, o sem abrigo, como figura desfigurada, representará o “desfavorecimento de classe dos artistas e a dureza do trabalho e do esforço exigido no que aparece, aos olhos do público, como cómico.” (in Dicionário da Obra de António Lobo Antunes, volume II, 2008, p. 130) Não obstante, se Marçal é levado ao suicídio (“enforcou-se sem aviso na estufa”, ND, p. 424) porque é conduzido a uma dissolução moral pelo dono de todas as coisas, o sem abrigo é indiferente aos jogos de poder. De certo modo, ele parece ser o antigo contador de histórias, que emudeceu perante um mundo onde impera o dinheiro e se descura a experiência do outro (Walter Benjamin, Linguagem, Tradução e Literatura, 2015, p. 148).  
Nesta óptica, no seu auto-exílio, o sem abrigo liga-se à importância da linguagem, da palavra e da composição do próprio romance. Sobre esse aspecto destacamos, primeiro, um lugar (uma livraria), depois, uma personagem (a mãe estrangeira da dona da livraria, “exprimindo-se num português cheio de rodas dentadas”, ND, p. 76), e, finalmente, uma acção. Referimo-nos ao momento em que o “senhor presidente” come a sopa de letras, que é símbolo da pluralidade e, enquanto tal, da “palavra do enigma” (Benjamin, ibidem, p. 41). Não é, aliás, despiciendo que as letras da sopa formem as iniciais “L” e “A”, significando, de certo modo, a natureza subsumida da criação artística, formada letra a letra, com paciência. Afinal, o homem não se alimentará exclusivamente de poder, porque até os que o têm acabam por desejar ter um outro poder, o de “construir uma palavra”:

“[…] a governanta, de colher em riste, depois de lhe prender um guardanapo com o escudo nacional ao pescoço
– Não é bonito o guardanapo senhor doutor?
lhe ia dando um caldinho, a apanhar o que escorria dos cantos dos lábios com o bico da colher e o senhor presidente a chupar o bico, demorando a mastigar
– Ainda não engoli
os pedacinhos de frango e as letras da massa, o senhor presidente, satisfeito, pescando um L e um A da língua
– Olha um L olha um A
com vontade de construir uma palavra” (ND, p. 549)


Deucalião:
Explicação dos Pássaros, Auto dos Danados ou As Naus, são romances onde António Lobo Antunes põe em cena a carnavalização do mundo, absorvida e usada parodicamente para caracterizar o nosso tempo. Este novo romance, Da Natureza dos Deuses, revela-nos o rosto oculto sob a máscara porque estas figuras representam o “perpétuo desacerto” e a “aparente normalidade” (Carvalho, ibidem, pp. 176 e 180) em que vivemos neste país, um lugar onde não há homens-deuses, mas onde coexistem homens que vivem vidas muito diversas.
O escritor que se assume (ironicamente) como um “artista” facilmente substituível ou como um “sem abrigo” à margem do todo, não será certamente um deus capaz de restabelecer a ordem para o caos em que vivem os homens. Mas no todo desorganizado que é (qual sopa de letras) o romance, levanta-se a questão intemporal sobre a utilidade da criação artística, da linguagem e do romance. Talvez a resposta tenha sido encontrada por Eduardo Lourenço, pelo menos no que à obra de António Lobo Antunes diz respeito. Num texto intitulado “Sob o signo de Deucalião” (in Público, 15.11.2003, p. 7), o ensaísta considera que “[…] a ficção de António Lobo Antunes lembra o gesto de um deus que se tivesse suicidado na sua criação”, mas sem criar o caos, porque ele se encontra “inteiro em cada um dos fragmentos dessa longa frase”.




[i] Norberto do Vale Cardoso é autor de A Mão-de-Judas: Representações da Guerra Colonial em António Lobo Antunes (Texto, 2011).

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em exclusivo para António Lobo Antunes na Web
26.10.2015

9 de outubro de 2015

Norberto do Vale Cardoso: António Lobo Antunes - Da Natureza do escritor

[...] a velhice não é roubarem-nos o futuro, é terem-nos roubado o passado, até a voz dos meus pais levaram, porém isto que digo continua a acontecer [...]
António Lobo Antunes, in Da Natureza Dos Deuses

Baseado no título homónimo de uma obra de Cícero, De Natura Deorum (45 a.C.), o novo romance de António Lobo Antunes (o 26º desde 1979), é um livro simultaneamente mágico e perturbador. Através dele cruzamo-nos com o secreto, o misterioso, o indecidível, mas também somos conduzidos aos meandros do mundo tenebroso do poder. Ora é na língua que o poder se inscreve, mas é também através dela - enquanto lugar onde a servidão e o poder se interpenetram - que o escritor pode encontrar um modo de liberdade. Efectivamente, a literatura é a capacidade que o escritor tem de "conhecer a língua no exterior do poder", de exercer sobre a língua um "trabalho de deslocação", diz Roland Barthes na sua Lição (Ed. 70, 2007, p. 16). É desta capacidade de "trapacear a língua", e não do comprometimento político nem do conteúdo doutrinal, que depende a liberdade da criação. E António Lobo Antunes (ALA) é, acima de tudo, um escritor de sensibilidades comprometido com a natureza mágica da palavra.

A sedução exercida pela obra de ALA reside, em parte, na constante busca do novo sem que este seja um fim em si mesmo, mas um processo continuado. E este livro não é excepção, prosseguindo um trabalho quer de reiteração quer de inovação da palavra, da frase e da narrativa tradicional para criar um novo romance (vejam-se, a este nível, os intricados, tais como: "não pronta a proteger-, palram pega e papagaio,-me, pronta a proteger o meu dinheiro", De Natura Deorum - ND -, p. 523). A reiteração é só aparente, pois a insistência temática é um modo de interpelar o leitor e de transfigurar o que foi dito.

Trata-se de uma transfiguração do mundo através do acesso à palavra (sublinhe-se aqui a importância das chaves "misteriosas, secretas", que, no capítulo inicial, abrem a livraria, em Cascais, e das coisas, inconfessáveis, que se passam na cave desse lugar), sendo esta compatível com o modo, quase autónomo, como as personagens se movem dentro da obra, contando ou escrevendo a sua versão dos acontecimentos, e, em simultâneo, movendo (e movendo-se) (n)o tempo como se este fosse uma teia única, ainda que com distintas texturas que se entretecem. 

Como dizia Marcel Proust (À Procura do Tempo Perdido II: À Sombra das Raparigas Em Flor, Relógio D'Água, 2003, pp. 191 e 225), "o tempo de que dispomos em cada dia é elástico", sendo a vida "pouco cronológica". Este conceito em tudo se conecta com a citação que usamos em epígrafe, pois na obra de ALA não devemos considerar a existência propriamente dita de um passado, antes de um presente em que tudo "continua a acontecer", ou seja, de um presente que congrega todos os passados, tantos quantas as versões que deles podemos fazer. 

Esta vivência pessoal e íntima do tempo é estruturante nos seus romances, e vem chocar com o tempo socialmente imposto, pois o tempo é uma construção do poder e a língua desloca-se no seu exterior. Portanto, ganha aqui assentimento cotejar a passagem de Proust com a de ALA por um segundo motivo: a velhice, condição que faz parte da natureza humana, consiste, não no facto de nos roubarem o futuro, mas em "terem-nos roubado o passado, até a voz dos meus pais me levaram, a casa onde nasci desapareceu, nem um objecto me ficou na memória" (ND, p. 465).

Eis-nos no cerne de Da Natureza Dos Deuses, livro denso (580 páginas, quatro partes, 37 capítulos), em que a densidade do poder se assemelha à densidade dos deuses, que impõem a (sua) estabilidade como suposta condição para a estabilidade social. A sustentação dos novos deuses passará, precisamente, por apagar, alterar ou roubar o passado. Lembre-se que George Orwell (in 1984, Antígona, 2012, p. 213) falava na "alteração do passado", que entendia ser "possível" por um "sistema de pensamento" designado "pela palavra duplopensar." Esta consiste na crença e aceitação simultânea de duas ideias, ainda que contraditórias. De facto, as personagens deste novo romance de ALA, mas também, por exemplo, as de Fado Alexandrino ou de As Naus, sentem que algo de muito precioso e irresgatável lhes foi roubado: o tempo. 

A sensação de perda é, pois, irresgatável e, na sua obra, nunca é colmatada por qualquer ganho, seja ele de que espécie for. Lobo Antunes vem, assim, abrindo novos paradigmas, que, em suma, se consubstanciam na ideia de que os portugueses têm sido amputados de um passado, o que coloca em causa a passagem da ditadura para a democracia e, em último plano, a possibilidade de um futuro. Na verdade, neste ND, sucessor de Caminho Como Uma Casa Em Chamas (2014), são dois os donos de Portugal, e são eles que tudo decidem pelos portugueses, que são "os palhaços" desses senhores, com especial destaque para "o senhor doutor", herdeiro do poder da Banca:

"[...] ele o dono dos bancos, das companhias, das empresas, das fábricas, ele o dono de tudo e eu um palhaço entre tantos palhaços, dúzias de palhaços à sua volta nos jantares, no escritório, na casa, [...]" ( p. 217)

Só a personagem do "sem abrigo" parece colocar algo em causa, o que pode parecer absurdo, sobretudo se considerarmos que esta personagem está destituída de todo o tipo de bens materiais e, ainda, de relações que lhe dêem acesso ao poder. Mais do que isso: o "sem abrigo" não fala nem intervém em quaisquer dos núcleos narrativos. No entanto, esta personagem prefigura-se, ela própria, como o núcleo da narrativa, pois é em torno dela que se adensa o mistério (não se conhece a sua identidade), o silêncio (não fala nem dialoga) e a imutabilidade das coisas (não parece mudar). Errando por todo o lado, é visto de diferentes maneiras sob distintos olhares. Para uns não passa disso mesmo, de um simples sem abrigo, havendo outros que conjecturam que pode tratar-se de uma entidade celeste, o que lhe daria uma natureza divina:

"[...] entretido a espalmar a rolha na garrafa glorificando o Altíssimo, a voar às curvetas, com o seu disfarce de pedinte, na direcção do mar onde Cristo caminha, relacionada com Cristo uma outra questão se foi formando em mim acerca do sem abrigo, seria ele Jesus [...]" (p. 335)

Nesse sentido, o sem abrigo, que caminha em direção ao mar, parece ter algo da natureza dos deuses, o que vem contrapor-se aos que se julgam como tal, e que pretendem evitar a todo o custo que o seu poder naufrague. Amputado de História, o sem abrigo, como uma espécie de náufrago ou anjo caído, vive a pequenez do seu dia a dia sobrevivendo, dormindo no umbral da livraria (acesso, porventura inacessível, ao conhecimento, questionando-se aqui o poder dos livros, que saem da cave da livraria para cercar a casa do "senhor doutor"), indiferente ao que se passa no seu país. Ele será um palhaço pobre que viu transformada a utopia de navegar (a revolução do 25 de Abril) em sua própria distopia, e que considera a democracia com indiferença e desesperança, devido ao descrédito para com poder político, que se encontra submetido ao económico, cujo centro é uma casa "empoleirada" num "alto" (o novo Olimpo). 

Se nada muda neste país, António Lobo Antunes é um cicerone daquilo "que constantemente muda" (crónica "Adeus", in Visão, 18.10.2012): a natureza do romance como um caminho perceptível para resgatar o passado perdido e/ ou "roubado" e para, através dele, imaginar outra natureza para as coisas e para os sonhos. 


por Norberto do Vale Cardoso
em Jornal de Letras
publicado on-line em 07.10.2015

2 de outubro de 2015

Norberto do Vale Cardoso disserta sobre Da Natureza Dos Deuses

[texto publicado originalmente na Colóquio de Letras nº 190 de Setembro de 2015 e citado integralmente aqui por cortesia de Norberto do Vale Cardoso]

E a Obra de António Lobo Antunes move-se: Breves notas sobre o romance Da Natureza dos Deuses


O espectro da continuidade 
Tecnicamente sabe-se que a Terra gira, mas de facto não damos por isso, o chão que pisamos parece que não se mexe e vivemos tranquilos. É o que se passa com o tempo na vida.
(Marcel Proust, À Sombra das Raparigas Em Flor, p. 59, Volume II de À Procura do Tempo Perdido.) 
Essa passagem pode muito bem aplicar-se à Obra de António Lobo Antunes, não apenas porque, nela, o tempo é, desde os primeiros romances, um vector fulcral (conectado com a construção e escrita da memória, cf. Cammaert, 2009:203), mas, sobretudo, porque a opus antuniana se revela ao leitor como um mundo novo, repleto de emaranhados, obnubilamentos e indecidíveis. O leitor desta Obra não se limita a ter consciência de que, nela, “a Terra se move”. Ele sente esse movimento com espanto, o que lhe exige uma atitude de indagação do mundo. É isso que sucede com a leitura de Da Natureza dos Deuses, 26º sexto romance de António Lobo Antunes, que gera no leitor sentimentos ambivalentes, entre a sedução e a perturbação.

Neste romance o tempo parece suspenso, sujeito ao poder opressivo da política e do capitalismo dominantes. Esse tempo, que se assegura necessário para o estabelecimento de uma suposta ordem natural das coisas (sempre invertida na obra antuniana) é, na verdade, um constructo que visa criar uma inamovilidade aristotélicado mundo. Assim, os novos deuses exercem um domínio tacitamente aceite sobre quem os serve, por um lado porque os detentores do poder se julgam acima dos seus iguais e incólumes à passagem do tempo, e, por outro lado, porque os que carecem de poder, de recursos e de mecanismos para colocar em causa a ordem estabelecida, são impulsionados a aceitá-la e a ela se juntarem, abdicando, sem razão válida, dos seus sonhos: “porque motivo aceitamos ser palhaços dos homens, a rirmo-nos do que não tem graça e a acharmos fascinante, […]” (ND, 147). 

Neste romance não parece, pois, desenhar-se qualquer saída revolucionária (aliás in-existente na obra antuniana), vislumbrando-se, antes um espectro de continuidade.

II
O epicentro da mudança

Baseado no título homónimo da obra de Cícero, De natura deorum (45 a.C.), algumas das acções deste novo romance de António Lobo Antunes decorrem numa casa “empoleirada” num “alto”, onde se destaca a estátua de Vénus (símbolo do perene e do poder). O dono da casa, conhecido como “o senhor doutor”, vai “degolando gente pela vida fora”, o que o dota de um poder incontestável. A partir desse olimpo, “o senhor doutor” vai “dirigindo os palhaços e os maridos dos palhaços, o duque inglês, os alemães cada vez mais numerosos” (ND, 156). Aí se reúne com os seus “súbditos” (assessores, amantes e gente influente, que formam “ramalhetes sociais” (Proust, 2003: 99), ou seja, gente heterogénea) em torno de um jogo de ténis (que, como o campo de tourada em Boa Tarde às Coisas Aqui Em Baixo, representa a arena moderna, onde a força não se liga à “raça”, mas àquele que tem o dinheiro para ter a força ou que tem a força para ter o dinheiro: veja-se a chantagem sobre o parceiro de jogo, que é ameaçado com o desterro para a província). Estes encontros provam que não há, neste tempo (as acções centrais decorrem durante o Estado Novo), ninguém livre, e que o Estado resulta da confluência dos poderes político e económico (Deleuze e Guattari, 2004: 276).

Dono de bancos, quintas, casas com piscinas e minas de volfrâmio, colecionador de automóveis, com contas em offshores, o “sevandija” (ND, 320) visita, aos domingos, “o senhor presidente” (alusão aos encontros entre o líder do clã Espírito Santo e Salazar), num colóquio entre aqueles que “mandam em Portugal” (ND, 207). Esse (geo)poder, indiferente à História porque se considera a si próprio «a História», representa as forças que se movem para, afinal, nada se alterar: 
eu dono de quase tudo e ele dono do resto, do que a gente chama Pátria ignorando o que é a Pátria, chama História ignorando o que é a História, ou chama egrégios avós ignorando o que são egrégios e avós […] (ND, 418) 
Recorde-se, a este propósito, o descrédito e a caoticidade em que é colocada a revolução de Abril em Fado Alexandrino. Nesse romance, como em As Naus, a revolução é vista como um naufrágio (cf. Carvalho, 2014:99). A mudança é, pois, aparente ou, como se diz em À la Recherche du Temps Perdu, “A única coisa que não muda é que parece sempre que existe «alguma coisa que mudou em França»”. (Proust, 2003: 95) Este nihil novi sub sole (Eclesiastes, 1, 10), que faz parte da mundividência antuniana, torna difícil discernir como pode o mundo mover-se de facto, pois se o mundo devia ser feito da natureza ou da matéria dos sonhos, não é somenos verdade que é nos meandros do poder que se decide o curso dos acontecimentos. No romance de Lobo Antunes, a casa de Cascais é o epicentro dessas decisões (lugar a partir do qual todos os negócios se movem para que nada se mova), tendo na livraria situada no centro da vila (e que pode encontrar na “Livraria Galileu” um elemento referencial, onde a cave se destaca como lugar imagético, tão relevante quanto o sótão na obra deste autor) o seu contraponto, precisamente por nela nada se decidir.

A discussão sobre os deuses, levada a cabo em Da Natureza dos Deuses, de Túlio Cícero, perspectiva-se eterna. Se Balbo acredita que tudo tem uma ordem precisa, que nada há de fortuito, porque tudo depende dos deuses (Cícero, 2004:85), a discussão prossegue em Lobo Antunes, dado que, hoje, o lugar dos deuses mortos é ocupado por novos deuses: os homens que, tendo o governo dos seus iguais, não se julgam feitos da natureza humana (mesmo que esta seja a natureza do que muda). Todavia, a assunção de que nada muda não é definitiva na obra de António Lobo Antunes. Efectivamente, mesmo que o poder se estabeleça e perdure, o romance antuniano vem garantindo que (recordando a frase atribuída a Galileu no século XVII) «eppur si muove».

Ora no romance Da Natureza dos Deuses a mudança principia precisamente no lugar mais improvável, a livraria, pois esta representa a apologia do hermético, quer devido às chaves “misteriosas, secretas” (que, no capítulo inicial, abrem a porta desse lugar, ND, 13), quer fruto das coisas, aparentemente proibidas, que aí se passam na cave. Essas chaves serão, mutatis mutandis, as “chaves” de que necessita o leitor do romance antuniano para decifrar o romance (SLC, 113), e que vêm com o próprio texto, significando este aspecto que o leitor tem de recusar a “sua chave”. Aqui, como na filosofia, o ponto de partida será a ignorância (Cícero, 2004: 19). 

A livraria será, em suma, um lugar compatível com a “magia da palavra” (é nela que Fátima se apercebe que o eixo da terra se move) que deveria mudar o mundo. A cave (lugar oposto ao topo onde se situa a casa do “dono do país”) representa o «conhecimento do inferno», um conhecimento para o qual parece já não existir lugar num mundo desencantado, dado que o saber (que reside nos livros) foi suplantado pelo poder.


III
A natureza da Obra 

Os livros são feitos da verdadeira matéria humana: os sonhos. Aqueles que sonham podem não mudar a História, sendo, não raras vezes, os que dela são vítimas (vítimas do poder másculo - como a empregada da livraria, que é violada, ou a Senhora, que é aprisionada no alto da casa -, do poder político - como o adjunto do senhor doutor -, da doença - como a cantora -, ou do desespero – como Marçal, o servente e, por vezes, duplo do senhor doutor porque este o obrigava a cumprir as suas obrigações conjugais com a Senhora). Essas dramatis personae não são as que participam da História, mas, antes, “da pequena história do dia-a-dia” (Seixo, 2002: 126), que é a que mais interessa na obra antuniana, de entre as quais se destaca o “sem abrigo”, que vemos errar incessantemente.

Ainda que não se dilucide a identidade desta personagem enigmática, que mantém um silêncio indecifrável, a sua indiferença para com todos os movimentos sociais torna-se numa ameaça ao estilo de vida dos deuses. Como um corte para com a narrativa, o misterioso é o incontrolável, pois a passividade dessa personagem parece ter laivos do transcendentalismo norte-americano, que encontramos em Thoreau. De resto, essa personagem que, na obra de Lobo Antunes, a par de outras marginalizadas (consubstanciadas na figura do palhaço pobre, cf. Carvalho, 2014: 174-176), adquire a predilecção dos narradores, surge logo no incipit do romance a dormir no degrau da livraria.

Esta personagem marginal liga-se à paródia, que é, em suma, a subversão imposta pelo próprio romance. Tecida de mistérios, a obra de arte tem um carácter enigmático, e por isso ela “macaqueia à maneira de um clown” (Adorno, 2008: 186). Como palhaço pobre, o “sem abrigo” toma banho nos chuveiros da praia e faz malabarismos com bolas. Desprovido de todo o tipo de bens materiais, sem acesso ao poder, circula em silêncio num mundo tenebroso de homens poderosos cujo único propósito parece ser enriquecer para ter poder e ter poder para enriquecer. Descomprometido e livre, sem desejos inconscientes de grupo (Deleuze e Guattari, 2004: 268), o “sem abrigo” recusa-se a aceitar o desejo de desejar ter poder. Ele não será um Deus ex machina, mas um homem que, não podendo intervir no curso da História, vai sendo mais humano. Esta expressão significará, de outro modo, mais próximo da natureza dos deuses.

Se é um anjo ou um deus, o que não se pode discernir por completo, o errante é (como o romance será) aquele que foge aos cânones estabelecidos (isto é, aos focos do poder). De facto, para além deste “sem abrigo” só o próprio romance (metonimicamente representado pela livraria, que, na cave, contém todos os livros de todos os temas) se move: Fátima, como “caixeira da livraria”, parte para a casa da Senhora carregada de livros, ainda que a Senhora, mais do que ler, procure alguém que a oiça em silêncio contemplativo. São, aliás, tantos os pacotes de livros que Fátima transporta para a casa de Cascais que esta parece ser invadida e ficar “cercada”. Esta situação alude à bibliomaquia que ameaça o poder, como se tudo fosse efémero, menos as grandes obras, que são as que se movem intemporalmente. Portanto, o sem abrigo (que não fala) e os livros (que a Senhora não lê enquanto Fátima não fala), parecem ser feitos de uma outra natureza, “da natureza do silêncio e do mistério”, veios de um texto que se move silenciosamente, ora revelando, ora ocultando-se, criando ruturas aparentemente imperceptíveis e sentidos frequentemente obscurecidos (vejam-se as palavras truncadas), talvez porque o próprio autor seja, tão-só, um mensageiro:
e aguentar o quê se a voz nem a si mesma obedece quanto mais a mim que a não fiz, não passo de um carteiro a entregar encomendas que não escrevi nem recebo, passaram-mas assim […] (ND, 532)  
Para muitos ficará, certamente, a proximidade deste romance de Lobo Antunes a factos conhecidos da vida nacional: referimo-nos, evidentemente, ao ocorrido com o Banco Espírito Santo. Todavia, é de referir que este romance, escrito antes desses acontecimentos, faz parte de uma Obra cuja mundividência tende a privilegiar a concepção do texto em relação ao mundo, pois é com palavras que o mundo se pode verbalizar (cf. Seixo et al., 2008:415 e ss). Assim, mesmo que não rejeite aspectos históricos, e com eles se conecte, anunciando que o sistema financeiro, político e social português faliu (como falira a República no tempo de Cícero), este romance (como parte de uma Obra) pretende, acima de tudo, transcender(-se) enquanto palavra que se move, isto é, que se renova a si mesma. O “romance de páginas de espelhos”, que António Lobo Antunes disse um dia projectar (LC, 52), seria aquele em que o leitor visse o passado, o presente e o futuro. A transcendência de uma Obra resulta, antes de mais, do facto de as grandes Obras serem “antecipação de um em-si que ainda não existe” (Adorno, 2003:124). É isso que as aproxima da natureza dos deuses.


Bibliografia:

ANTUNES, António Lobo, Da Natureza dos Deuses (ND) (provas gentilmente cedidas pelo autor e pela editora), Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2015. 
___________Livro de Crónicas (SLC) 9ª edição/edição ne varietur, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2013 [1998]. 
___________Segundo Livro de Crónicas (SLC) 2ª edição/ 1ª edição ne varietur, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2007 [2002].
ADORNO, Theodor, Teoria Estética (trad. Artur Mourão do original Aesthetische Theorie), Lisboa, Edições 70, 2008.
CAMMAERT, Felipe, L’ Écriture de la Mémoire Dans L’Oeuvre d’António Lobo Antunes et de Claude Simon, Paris, L’Harmattan, 2009.
CARVALHO, Susana João, António Lobo Antunes: A Desordem Natural do Olhar, Lisboa, Texto, 2014.
CÍCERO, Marco Túlio, Da Natureza dos Deuses (trad. e notas Pedro Braga Falcão) Lisboa, Nova Veja, 2004.
DELEUZE, Gilles, GUATTARI, Félix, O Anti-Édipo, Lisboa, Assírio & Alvim, 2004 [1972]. PROUST, Marcel, À Sombra das Raparigas Em Flor (Volume II de À Procura do Tempo Perdido), tradução de Pedro Tamen, Lisboa, Relógio D’ Água, 2003.
SEIXO, Maria Alzira, Os Romances de António Lobo Antunes, Lisboa, D. Quixote, 2002.
SEIXO, Maria Alzira, ABREU, Graça, CABRAL, Eunice, AFONSO, Maria Fernanda, SOUSA, Sérgio Guimarães de, e VIEIRA, Agripina Carriço, Dicionário da Obra de António Lobo Antunes(volume II), Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2008.


por Norberto do Vale Cardoso
texto publicado na Revista Colóquio/Letras, n.º 190, Set. 2015, p. 131-135

[revisão segundo ortografia antes de AO90 por José Alexandre Ramos]

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...