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26 de junho de 2016

Emanuel Moreira sobre Que Farei Quando Tude Arde? (em Goodreads)

Dezarrezoado amor, dentro em meu peito
tem guerra com a razão. Amor, que jaz
e já de muitos dias, manda e faz
tudo o que quer, a torto e a direito.

Não espera razões, tudo é despeito,
tudo soberba e força, faz, desfaz,
sem respeito nenhum; e quando em paz
cuidais que sois, então tudo é desfeito.

Doutra parte, a razão tempos espia,
espia ocasiões de tarde em tarde,
que ajunta o tempo; em fim vem o seu dia:

Então não tem lugar certo onde aguarde
Amor; trata traições, que não confia
nem dos seus. Que farei quando tudo arde?

Sá de Miranda

O soneto de Sá de Miranda resume bem a situação de Carlos quando confrontado com as questões "o que sou, quem é que sou". Até então se diria masculino mas na realidade pouco do que é se enquadra nesse padrão, descobre que[,] afinal, [é] Soraia. Este despertar ocorre talvez inevitavelmente tarde; Carlos já era casado com Judite, uma professora que posteriormente deixa de exercer a profissão e dedica-se ao alcool e à prostituição. E tarde também porque da relação já existe Paulo, filho do casal e a personagem central do livro.

Esta é a premissa de uma obra inspirada na vida de Ruth Bryden, aquela que foi uma das mais icónicas figuras do show travesti em Portugal. Ruth/Joaquim após o divórcio namorava com um rapaz quinze anos mais novo, Paulo (no livro Rui) que morre por overdose (suícidio) após a morte de Ruth (Soraia). Do casamento de Joaquim (Carlos) com Maria (Judite) há um filho, Rui (no livro Paulo).

A partir destas semelhanças a viagem vai muito além da realidade, levantando importantes questões sobre a identidade de género que[,] primariamente notórias em Carlos, são também vividas por Paulo. Quando Carlos já a entregar-se à Soraia a sua relação com a mulher muda, o tratamento, o respeito, finalmente começa a sentir na pele os avessos da condição feminina, num permanente faz, desfaz.

"uma filha não há-de passar o que passei, as mulheres são capazes do que eu não sou capaz, acostumam-se ao passado, vivem nele, respiram-no, distinguem-no, distinguem pela orientação do vento as sepulturas que habitam, uma filha não haveria de sentir o que sinto, estas mão que me puxam, me arrepelam, me prendem, as mulheres bebem o sofrimento como as plantas ou as éguas ou a terra ou as árvores, as mulheres são éguas e mantêm com a morte um diálogo secreto, conhecem as trevas do seu corpo onde me desloco às cegas e a direcção da paz, uma filha poderia fazer o que eu não"

Como se isto não fosse complicado o bastante Paulo e outras personagens consomem heroína, proporcionando momentos realmente complexos e obscuros. A partir do momento que o núcleo familiar se desintegra, Paulo não fica com nenhum dos pais. Assim seguimos os três percursos e de todas as novas personagens que fazem parte das suas vidas. Todos têm algo a dizer, modificar, deturpar, as pontas são lançadas e ficam soltas.

Ao longo do livro dei especial atenção às personagens enquanto crianças, nenhum daqueles adultos pediu para nascer e por inconsequências nasceram, e sofreram, nasceram como nascem os coelhos, são coelhos. A infância não é feliz, há antes uma sede de um ideal da infância, o que qualquer criança deveria ter, e estas não tiveram. 

O final é aberto, o leitor escolhe. Este livro devolve uma admirável dignidade à condição feminina, o também ser-se Soraia. Como um produto de tudo que ardeu, podem dois seres distintos ter a mesma identidade? 


por Emanuel Moreira
30.05.2016

23 de maio de 2015

Denis Leandro - dissertação sobre Que Farei Quando Tudo Arde?


“Quis escrever um livro sobre a identidade, fazendo várias interrogações que se colocam de um modo especial num travesti.”[1] Assim António Lobo Antunes resume [o] seu 15º romance, Que farei quando tudo arde?, publicado em 2001 [...]. O livro é, de facto, uma narrativa sobre a identidade e, sendo sobre a identidade, é também sobre o passado, sobre a origem e todo o emaranhado inextrincável que essa questão arrasta consigo.

Sobre o abismo da origem lança-se Paulo, narrador privilegiado no texto, que elege como pai um travesti de nome Soraia – que quando livre das plumas, lantejoulas e cabeleira postiça, dos enchumaços nas nádegas e no peito e da boca pintada, chama-se Carlos. A origem está já rasurada, tão indefinida e insondável, tão improvável como a sexualidade de Carlos/Soraia, a origem “suposta”.

O romance conta a conturbada história da personagem-narradora, atravessada por uma infância caótica, marcada pela indiferença paterna, pela dor e revolta de aperceber-se filho de um pai desajustado a este papel. Filho de um “palhaço” – como ele próprio afirma – sempre a remexer estojos e frascos de silicone, atormentado por uma sexualidade imprecisa, e de uma mãe ausente, aprisionada pela memória de um marido que nunca teve: Carlos casou-se com Judite, uma ex-professora primária que, no presente da enunciação, é uma decaída prostituta de 44 anos, alcoólatra e solitária. A infância surge, pois, em imagens dialéticas: é o lugar da perda e da morte – da negatividade, portanto –, mas também único espaço possível de retorno, sem, contudo, apontar para uma tentativa de recuperação, de plenitude do passado ou do que quer que seja. Como positividade, a infância é, aqui, um “desejo da infância”, muito mais que a sua idealização enquanto um “paraíso perdido”.

As histórias apresentadas no romance passam-se em espaços nunca pacíficos: o Bico da Areia é o lugar da saudade, mas também da ruptura, de onde Paulo foi tirado dos pais e levado ao casal de velhos que o criou, nos Anjos, e com o qual estabelece uma relação ambivalente, de amor e de resistência a este amor; o Príncipe Real – onde o pai passa a viver após embarcar na camioneta de Lisboa e abandonar a família, levando consigo no braço apenas o que se afigurou um casaco de mulher – é o local no qual Carlos atende seus clientes e recebe seus amantes: em sua casa não há lugar para Paulo e nela este será sempre um intruso. Espaços, portanto, profundamente marcados pela perda e morte dos mitos e afectos do passado ou pelos desencontros, incompatibilidades e cortes nas relações do presente.

O romance é a história dessa família lacerada, mas é também a história de diversas outras personagens que caminham, igualmente, por esse universo esfacelado pela dor e pela ausência: é a história de Gabriela, jovem namorada de Paulo, que perde o pai e se sente eternamente desamparada por essa perda; de Rui, órfão de pai e mãe, tratado com indiferença pela tia e que procura repouso no vício da heroína; ou a de Dona Amélia, velha de 73 anos que gasta os dias a vender [rebuçados] e cigarros na casa nocturna onde Soraia se apresenta; é também a história de um jornalista decadente de 62 anos, que todas as noites põe o prato de sua ex-mulher à mesa e se põe, igualmente, a sua espera, à espera do que não virá; é ainda a história de Luciano, médico lumbago e hipertenso que vê todos à sua volta como caveiras ambulantes e cuja amante, bem mais jovem que ele, nunca responde a seus gestos de carinho e atenção; ou ainda a história de Dona Helena e de seu marido – pais adoptivos de Paulo –, cuja filha, Noémia, morta aos onze anos de meningite, acaba por morrer uma segunda vez quando aquele que seria seu substituto – substituto para a dor trazida pela sua morte – vai-se embora de casa.

Em todos esses excertos de histórias, as personagens, as relações interpessoais e os espaços – notadamente as casas, esse locus familiar por excelência – são inscritos sob o signo da finitude e do precário: ao que parece, os anti-heróis de Lobo Antunes, não somente quando morrem, mas ainda e principalmente quando vivem, é pelo espaço da morte que transitam e é nele que cumprem suas atitudes, é ao tempo indefinido do morrer que eles pertencem.

Configurando-se como uma espécie de não-romance ou um romance às avessas, o livro divide-se em 32 capítulos não enumerados ou intitulados, compostos de fragmentos de histórias e suas variadas versões apresentadas fora de qualquer lógica convencional de cronologia, histórias repletas de avanços e recuos no tempo, numa torrente vertiginosa que desconhece pontuação, sintaxe ou paragrafação, valendo-se, inclusive, de procedimentos típicos da linguagem poética, como a metáfora e a metonímia, fazendo com que a narrativa esteja sempre a meio caminho entre a prosa e a poesia.

O livro obriga o leitor a uma revisão dos procedimentos de leitura empregados [n]um romance convencional: nada é aqui claramente determinado, nem o tempo, nem o espaço, nem as próprias histórias que apresentam, quase todas, versões diferentes e mesmo antagónicas sobre os destinos das personagens – que podem, com a mesma plausibilidade, ter morrido de [SIDA], ou se afogado, ou ainda se suicidado nas águas escuras do Tejo. Assim, a fragmentação do sujeito ocorre no texto – que não responde a um projecto totalizante, não havendo, pois, uma solução narrativa para tantas versões inconciliáveis e dispersas dos fragmentos de histórias apresentadas – e se dá, também, na própria superfície da página, com frases interrompidas e inacabadas e as intromissões constantes de vozes narrativas sem qualquer demarcação.

A literatura contemporânea, sem dúvida, tem aqui um d[os] seus representantes mais audaciosos e competentes no que concerne aos procedimentos de referencialização e construção textual, como talvez nunca antes se viu na história da  literatura de Língua Portuguesa. Estamos, sim, diante de uma outra forma de narrar, muito diferente daquela do romance tradicional do século XIX: uma narrativa que parece supor, em si mesma, uma certa conivência com a morte e o efémero, uma escrita que tem sua morada, paciente e perseverante, no desmoronamento. Narra-se contra a verossimilhança e a representação, num esvaziamento da mimese que parece instar por uma “apresentação” das coisas.

Mesmo com toda a subversão do realismo tradicional que o texto  opera, fisga-se ainda, como não poderia deixar de ser, alguns alinhavos de real: o romance teria sido escrito a partir da história de Ruth Bryden – grande ícone do travesti em Portugal que, semelhantemente à personagem Carlos, casou-se, teve um filho, separou-se e morreu tragicamente em 1999. O nome do narrador é o mesmo do namorado de Ruth, Paulo Oliveira, que se suicidou na praia da Fonte da Telha, aliás, mesmo lugar onde Rui, namorado de Soraia e quinze anos mais jovem que ela, é encontrado morto pela polícia. Mas o romance de Lobo Antunes afirma-se como ficção e os fragmentos de histórias nele narrados não adentram trilhas biográficas.

No “último” capítulo do livro – espécie de epílogo para todas as  histórias –, o leitor reencontra em Paulo a figura do pai, numa identificação que parece revelar uma certa dimensão cíclica das coisas ou, mais ainda, a sua permanência desde o início: as coisas não exactamente retornam porque, na verdade, nunca saíram de lá, permanecem sempre presentes, em profundidade, algumas vezes diluídas e apagadas, quase esquecidas, outras absurdamente pesadas e visíveis. A escolha de Paulo pelo nome Soraia é sua derradeira homenagem ao pai, cujo lugar passa a ocupar, numa transformação/revelação anunciada, em verso, desde a epígrafe do livro: 

Eu sou tu e tu és eu; onde estás eu estou e em todas as coisas me acho disperso. Seja o que for que encontres é a mim que encontras: e, ao encontrares-me, encontras-te a ti mesmo.[2]

As indagações que as personagens lançam, incansavelmente, a si mesmas e ao Outro em seus imensos monólogos permanecem, quase sempre, sem resposta, ecoando, incessantemente, pelo texto. Talvez porque, nesse universo de Lobo Antunes, nesse mundo de órfãos irredimidos onde absolutamente tudo arde, não há verdade alguma possível e perguntar seja, em si mesmo, um acto inacabado e sem pouso. À belíssima pergunta-título do livro segue-se, em 637 páginas, uma única certificação: de que “passamos a vida a fazer perguntas. E vamos morrer sem saber as respostas” [3].


[1] Entrevista concedida por António Lobo Antunes à revista Visão, n. 450, 18 Out. 2001.
[2] ANTUNES, 2001. p. 9. 
[3] Entrevista concedida por António Lobo Antunes à revista Visão, n. 450, 18 Out. 2001.

Referências bibliográficas

ANTUNES, António Lobo. Que farei quando tudo arde? Lisboa: Dom Quixote, 2001.
Visão, Lisboa, n. 450, 18 Out. 2001.


por Denis Leandro
em Revista do Centro de Estudos Portugueses
2005

[revisão do texto por José Alexandre Ramos]

25 de setembro de 2008

Fabrício Vieira: opinião sobre Que Farei Quando Tudo Arde?


O rito da palavra em Que Farei Quando Tudo Arde?

Após 19 romances publicados, com todas as particularidades que os caracterizam, soa ao menos estranho abordar a obra do escritor português António Lobo Antunes sob a perspectiva de gêneros literários. Apesar de ser um romancista, reconhecido e aclamado como tal, Antunes, com seu trabalho literário, opera um deslizamento que abala radicalmente os limites que demarcam prosa e poesia. O próprio autor busca pontuar esse fato ao afirmar repetidamente em entrevistas que não faz mais romances, nem conta histórias: sua pretensão é a de colocar a vida entre as capas de um livro.

Esse deslizamento poético tem se acentuado a cada livro, atingindo talvez seu momento mais representativo em um período que vai de O Esplendor de Portugal, de 1997, a Que Farei Quando Tudo Arde?, lançado em 2001. Nesse curto intervalo, Antunes trouxe a público também Exortação aos Crocodilos e Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escuraque, não por acaso, recebeu como subtítulo a palavra “Poema”. Além da aguda exploração de vozes e tempos, que fazem da obra antuniana um campo de criação plurivocal e policrônica singular, o autor tem buscado uma sintaxe e uma prosódia muito particulares, marcadas por traços como a descontinuidade frásica, as interrupções em itálico e as intromissões parentéticas.

Um exemplo expressivo dessa fase antuniana é exatamente Que Farei Quando Tudo Arde?. Dividido em 32 capítulos não numerados e não nomeados (todos se chamam apenas “capítulo”), Que Farei Quando Tudo Arde? tem em seu núcleo fabular a história de um homem (Carlos) que abandona mulher (Judite) e filho (Paulo) para se travestir em Soraia. Essa cisão no eixo familiar se opera de forma traumática: Judite, que nunca compreenderá ou aceitará o que ocorreu, se tornará alcoólatra e perderá a guarda do filho. Paulo, viciado em heroína, não cortará os laços com Carlos-Soraia, mas passará a vida tentando responder à questão: quem é o meu pai? Carlos-Soraia se casará com um jovem rapaz (Rui) e fará shows em boates até que a decadência o alcance. Por sua vez, Rui, também um viciado, como Paulo, se suicidará na praia pouco depois da morte de Carlos-Soraia.

Se o livro se restringisse apenas ao desenvolvimento desse núcleo fabular, provavelmente não teríamos muito mais que um melodrama contemporâneo. Talvez por isso Antunes não permita que seus livros, ao menos em sua edição ne varietur que a editora portuguesa Dom Quixote tem publicado, tenham nem orelha, nem introdução, nem resumos de contracapa.   

Se fôssemos nos preocupar apenas com a “história” deste livro, seria importante considerarmos que Antunes leu nos jornais o caso de um travesti português que morreu e deixou um filho de um casamento que teve antes de se transformar. Além disso, havia seu jovem marido que foi encontrado morto na praia. Temos aí a história de Que Farei Quando Tudo Arde?. Mas que importa de fato saber isso? Está aí por acaso a chave para se penetrar nessa obra? A força da obra de Lobo Antunes, aquilo que faz dela algo excepcional e que aponta para sua permanência dentro da literatura, está em outro lugar. A autonomia de seu texto literário em relação ao mundo real, seu não-reflexo da existência como a conhecemos, não pode ser deixada em segundo plano.

O início de Que Farei Quando Tudo Arde? é conduzido pela voz de Paulo, que afirma:

Tinha a certeza que sonhara aquele sonho na véspera ou antevéspera
na véspera
e por isso mesmo, sem acordar, pensava
- Não merece a pena preocupar-me já conheço isto
desinteressado de episódios que sabia falsos
- Estou a dormir (ANTUNES, p.11)

Talvez, como esse próprio começo do livro indica, sua poética pertença muito mais à banda do sonho. Uma poética do devanear, na qual as palavras pulsam e iluminam novos mundos.   

No jogo literário conduzido por Lobo Antunes, certas constantes poéticas podem ser detectadas e destacadas. A estudiosa Maria Alzira Seixo avalia que a “qualidade poética” da obra de Antunes se manifesta de vários modos, como “no encadeamento verbal do discurso, na capacidade imagística demonstrada, em situações de uma particular emoção nas quais a expressão se detém para a sugerir em vez de explicitar”. A esses traços, agregaríamos o cuidadoso tratamento rítmico e a musicalidade daí decorrente.

Na poética antuniana, desossar a palavra para reconfigurá-la, tanto em sua relação com outras palavras e com seus possíveis referentes quanto com o espaço da página, se mostra um ponto essencial. Pensar no rito da palavra, em seu poder de encantamento, pode ser uma via de acesso atrativa para se aproximar da obra desse escritor.

Passemos ao caso da personagem Judite. Essa mulher abandonada, que vive mergulhada em uma atmosfera de permanente embriaguez, nunca encontrará o conforto perdido. Como em uma ópera, na qual certo tema se associa a tal personagem e sempre que tocado faz com que o ouvinte dirija sua atenção a esse ponto, Judite será anunciada e marcada por um leitmotiv: Por quê Carlos?. Essa interrogação é feita por Judite quando Carlos sinaliza o fim do casamento e surgirá repetidamente por toda a obra, de forma muitas vezes aparentemente aleatória, como se a expressão circundasse o livro para às vezes mergulhar nele, sempre dentro (ou em torno) da fala de outras personagens. A expressão vai resgatar esse momento chave em que Carlos anuncia que a família não poderá mais seguir estruturada daquela forma. A primeira vez que Por quê Carlos? surge é no começo de Que Farei Quando Tudo Arde?, na página 31. A última vez, ocorrerá na página 481. Em sua primeira aparição, a expressão virá dentro da fala de Paulo e remontará aos momentos de crise que levariam à ruptura da família, em sua infância. Paulo ressalta o retorno obsessivo da interrogação da mãe, que ecoa por tempos e lugares distantes já de sua emissão original:

“Quando eu era pequeno instalava-me cá fora, perto dos cavalos e do mar de modo que as ondas lhes apagavam as vozes no interior da casa, (...) a minha mãe a perguntar num sopro que os pinheiros levavam (...)
- Por quê Carlos?
e o
- Por quê Carlos?
não na sala, de árvore em árvore de mistura com as nódoas de luz na camura, e a pergunta da minha mãe sem a minha mãe
- Por quê Carlos?
a mesma pergunta ainda hoje
ainda ontem
ainda hoje no hospital ao comprido dos plátanos, olhava-se os troncos e a pergunta em cada ramo, as sílabas claras, (...)
ontem
hoje, disse hoje
- Não se entendem com o tempo
- Por quê Carlos? (ANTUNES, p.31)

O bailar de Por quê Carlos?, conduzido num sopro pelas folhagens das árvores infinitamente, marca uma dúvida que nunca poderá ser respondida, pois, afinal, Carlos morrerá. Judite não só nunca compreendeu, como nunca aceitou a forma como seu casamento (esse rito que deveria representar a entrada em um estágio de equilíbrio e gozo) se dissolveu.

Por quê Carlos? assume nova forma em cada um de seus diversos retornos, reconfigurando-se e ampliando o alcance de sua significação. Mais do que uma indagação a Carlos, a frase se desloca para o questionamento da própria vida, com suas injustiças e limitações de um possível ser feliz. Também pode se estender a uma interrogação aos deuses e suas provações muitas vezes cruéis. Por quê Carlos tinha de entrar na vida de Judite se o que traria a ela era apenas sofrimento? Por quê não a deseja? Por quê Carlos tinha de abandonar a família? Por quê tinha de se tornar travesti? Por quê Carlos não podia dar uma chance para Judite tentar encontrar a felicidade? Por quê a vida era tão injusta? Por quê os deuses a abandonaram em sua miséria? Por quê tudo tem de arder?        

Na fala de Carlos-Soraia, a indagação de Judite também surgirá, tal qual eco de um passado, permeado por angústias e incertezas que o tomavam quando ainda casado, que não se apaga:

“(...) um desejo culpado, vontade de fugir, aquilo que me obrigava a diminuir no colchão e a minha mulher:
- Por quê Carlos?
o desenho das pernas a mudar no lençol, a voz que insistia afligindo-me mais
- Por quê Carlos?
e o eco a tremer dentro de mim tal como eu tremia Judite (...)
enquanto os pinheiros
não os pinheiros, outra coisa, um eco que se desvanecia, vinha, repetia por quê Carlos
- Por quê Carlos? (ANTUNES, p.133)

A pulsação dessas palavras, que costumam ser dispostas sozinhas no parágrafo como forma de serem destacadas, faz com que a dúvida primordial de Judite se revitalize a cada retorno. Nesse trabalho coreográfico com a palavra, o autor cria uma das imagens mais fortes do livro. Por quê Carlos? assume a função de refrão, mas um refrão que se desloca de uma forma imprevista (afinal, não sabemos quando surgirá novamente) e que tem uma certa independência do resto do texto podendo, assim, reaparecer a qualquer momento. 

Curiosamente, na voz da própria Judite, quando a ela é dada a palavra, o Por quê Carlos?praticamente desaparece e quando surge é para ser colocado em xeque. Judite questiona se o Por quê Carlos? não é uma criação dos devaneios de seu filho:

(...) o meu filho julga que com o meu marido eu
- Carlos
eu
-Por quê Carlos?
e com o meu marido eu sozinha também (...)
para quê ouvi-lo? (ANTUNES, p.251)

A repetição de palavras, frases e imagens, como fica explícito nas passagens acima citadas, é um recurso muito utilizado por Antunes, que consegue com isso criar ritmos e cadências que vitalizam a musicalidade do texto. Esse processo poético, tão característico de sua escritura, detectável não apenas nos romances, mas também nas crônicas e mesmo nas poucas poesias a que se pode ter acesso, tem um papel de destaque na estruturação rítmica de seus textos. Entendemos que a acentuação desses dois pontos (repetição-ritmo) está muito ligada ao fazer poético ou, mais propriamente, à poesia. Lembramos que no entendimento do crítico e poeta mexicano Octávio Paz, “a criação poética consiste, em boa parte, na voluntária utilização do ritmo como agente de sedução”. E Antunes tem se mostrado mestre em se utilizar dessa máxima de Paz. De forma mais ampla, temos também a incessante iteração de motivos que perpassam seus livros, como plantas, aves, cães, além de elementos aquáticos (rios, mar, chuva), que criam uma intertextualidade que nos conduz por sua obra. Se Antunes não faz continuações de seus livros, nem resgata personagens, ele utiliza-se da repetição de certos tópicos e imagens para fomentar um diálogo intra-obra (diálogo esse que se estende também por suas crônicas).

Como as ondas na praia que Paulo observa quando, ainda criança, sai de casa e se senta na porteira enquanto seus pais discutem, o vaivém da palavra poética de Lobo Antunes – mais intensa aqui, um pouco menos acolá, mas sempre constante – nos convida a vagar mar adentro. Dessa forma, não hesitamos em afirmar: António Lobo Antunes, poeta.

 
Fabrício Vieira
enviado por email em
25.09.2008

11 de janeiro de 2007

Portnoy: opinião de leitura


António Lobo Antunes: Tratado de las pasiones del alma e Qué haré cuando todo arde?

Não se pode resistir à tentação de ler um romance com um título tão maravilhoso:Tratado das Paixões da Alma.

É o meu segundo romance de Lobo Antunes, depois de Que Farei Quando Tudo Arde?. São dez anos de diferença que existem entre a escrita dos dois romances, e a comparação entre si supostamente daria uma clara visão sobre o estilo literário de Lobo Antunes. Porém, dois romances  tão separadas no tempo, e algumas das crónicas do escritor publicadas no Babelia - El País, não implicam demasiado conhecimento da obra de um escritor para se empreender uma crítica séria e tirar conclusões a respeito.

Penso que se tivesse que escolher um autor português para o laurear com o Prémio Nobel, não teria dúvida alguma que, antes da tresnoitada filosofia new-age de Saramago, uma narrativa infestada de conformismo e lugares comuns, viesse a apostar em Lobo Antunes, mais arriscado literariamente e menos comprometido socialmente. De facto, as normas para o Prémio Nobel da Literatura implicam que deve conceder-se "a quem haja produzido no campo da literatura a obra mais destacada, na direcção correcta", o que se mostra bastante ambíguo, ao que se junta "o que suponha uma contribuição notável à sociedade"... mais ambiguidade.

Mas deixemos de lado as minhas fobias pessoais.

Lobo Antunes é um escritor que trabalha especialmente a forma das suas obras. Como afirmou numa entrevista:

«Interessa-me o trabalho com as palavras. As histórias dos meus livros não me interessam nada» (..) «A estrutura, sim; (...). Interessa-me tentar traduzir em palavras o que por definição é intraduzível (as emoções, os impulsos) e estruturá-lo num todo coerente. A intriga não me preocupa; o que procuro é estar mais perto do coração, da vida».

Desta forma, esforçando-se em mostrar ao leitor esse mundo interior de impulsos e emoções, cria os romances nos quais o ritmo temporal está completamente truncado. Se bem que o conjunto da obra, os sucessivos capítulos, mostram uma certa continuidade temporal, mantêm uma evolução da história sobre a linha do tempo, o interior de cada capítulo, estruturado em diversos blocos, mostram um caos temporal fruto da indagação do autor na memória das suas personagens.

Tentar uma sinopse dos seus romances é um trabalho infrutífero: uma sinopse não acrescenta nada a uma literatura em que é primordial o uso de palavras para captar conceitos abstractos. Não obstante, tanto Tratado das Paixões da Alma, como Que Farei Quando tudo Arde? são, apesar do que se possa pensar pelo que acabo de dizer, romances em que o humano está muito acima da técnica narrativa. Lobo Antunes empurra-nos para uma frenética descida às entranhas da mente humana, das paixões mais ocultas e os sentimentos mais recônditos, empregando ara isso um tremendo labirinto de palavras que dispõem frases que dispõem parágrafos que não se enlaçam temporalmente com o seguinte, nem com o anterior. Lobo Antunes exige, é inflexível  literariamente.

A evolução que posso constatar nestes dois romances aponta a uma maior dificuldade tanto na sua composição como na sua leitura: em Que Farei Quando Tudo Arde?, Lobo Antunes desmonta toda a narração ao nível de cada frase, de forma que parece haver uma única voz dominante, diluindo os restantes narradores, diluindo o próprio autor. Nas suas próprias palavras:

«Penso que há somente uma voz que se fragmenta e divide; antes fazia planos detalhados, mas agora parto do nada, de uma ideia vaga, o fio narrativo está para o escritor como a corda para o alpinista, a meta para mim surge de como criar personagens que despertem emoções sem esse fio, vejo-me como uma entidade entre duas instâncias, traduzindo o que as vozes interiores me ditam, já não sei se escrevo ou traduzo mensagens disformes.»

Em Tratado das Paixões da Alma, essa possessão não alcança esses níveis de dissolução. Há uma voz única, a voz de Antunes ou a voz de um narrados omnisciente mas também é um diálogo contínuo entre duas personagens ao longo do tempo, personagens que dialogam com a mesma voz, que são denominados com epítetos relativos à sua profissão (que curioso... como Saramago) e que conversam construindo uma história. No romance de 1990 existe todavia certo interesse no que se conta, na trama narrativa. No de 2001, a trama resolve-se precipitadamente, como que uma obrigação que não interessa ao autor.

Lobo Antunes é um escritor arriscado que pede ao leitor um esforço que talvez nos tempos em que vivemos não estará acostumado. Mas também há que reconhecer que é um escritor irregular: existem fragmentos nos seus romances que se prolongam desnecessariamente, as contínuas repetições em que costuma recriar-se não ajudam a que a narrativa avance fluidamente, conseguindo em certas ocasiões um efeito contrário ao desejado: nessa exploração da alma humana o leitor pode sair enfastiado de tanta mediocridade.

São os seus romances tratados sobre as paixões da alma, tratado literário de lato nível. Talvez não seja o melhor escritor do mundo, mas há que agradecer-lhe o esforço das suas composições titânicas, nas quais sempre encontraremos brilhos de perfeição. Seja como for, há que ler um homem que diz sobre a narrativa contemporânea o seguinte:

«Dá-me a impressão que todos (os livros) são escritos pela mesma pessoa. São histórias bem feitas, no geral, mas a mim não me interessam as histórias bem feitas. Gosto de personagens com densidade. Gosto das pessoas que vivem como que com uma guerra civil interior, pessoas com quem podes ter uma luta, no bom sentido, claro. Gosto das pessoas que esgrimam e deixam seu sangue mesclando-se com o teu como num pacto».

 
Portnoy
21.04.2006
[traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos]

30 de março de 2006

Pedro: opinião sobre Que Farei Quando Tudo Arde?


O espaço exterior deixa de ser apenas uma imagem inerte, transformando-se num poço de sentimentos, um passado e um presente de relações inter-pessoais, de sofrimento e de felicidade. Os vários elementos que compõem os lugares vão sendo descritos separadamente, sobrepondo-se ao longo do livro até construir uma imagem por inteiro. Lobo Antunes volta ao passado e ao mesmo local muitas vezes ao longo da narrativa, chegando a um auge onde deixa de ser necessário referir o nome do sítio ou da pessoa, dando apenas um elemento da paisagem para que o leitor perceba onde a personagem está e consequentemente o que sente (um elemento da paisagem transforma-se na sua totalidade), "e as gaivotas não é verdade, detestava-las e no entanto não esqueceste as gaivotas, a forma como devoravam o peixe, esses gritos de criança à tarde", para quê mais palavras? porque dizer eu odiava o meu pai Travesti, a minha mãe Puta, o degredo da minha vida associada aos meus progenitores, se posso dizer "odiava as gaivotas do Bico da Areia!".

Neste livro o "Cá Dentro" aparece como oposição ao "Lá Fora", o Interior, lugar de opressão e sofrimento, o Exterior, como fuga da tristeza, 
"Julgávamos que se tinha ido embora e as notazinhas a mofarem da gente, o Rui a suspender a guita e veia alguma, uma constelação de feridinhas, atira-lhe uma pedra Paulo, um bocado de tijolo, um torrão, uma merda qualquer que o bicho dá-me cabo dos nervos, o meu quarto nos Anjos a seguir ao quarto da finada,. quase todas as noites despertava cuidando escutá-la, sentava-me na cama a ouvir até me dar conta que era a dona Helena e no dia seguinte rosas novas na jarra, compradas no mercado mais a carne, os tomates, o oregão, não escarlates, quase rosas, procurar os guaches e pintá-las de azul, pintar o sol na parede e as nuvens e as ondas, não as ondas do Bico da Areia, ondas a sério, grandes, quantas vezes ao tornar de Chelas dava com a dona Helena no sofá e o senhor Couceiro a segurar-lhe a mão e como não sou capaz de fazer as coisas de maneira diferente magoá-los por me preocupar com eles, enfurecer-me por os magoar e castigar-me magoando-os mais";

" - Queres apanhar um tabefe não queres malcriada? um cão invisível no quintal antes do nosso..."

 
Pedro
30.03.2006

28 de setembro de 2004

SerMar: sobre Que Farei Quando Tudo Arde?


Com este livro de Lobo Antunes somos levados mais uma vez a viajar pelo mundo das nossas angústias que tantas vezes julgamos serem só nossas. Como ele próprio já afirmou, ler um livro seu é como ter uma doença. De facto vivermos vários dias com personagens que vivem o drama de terem que colar ao que a norma considera normal ao mesmo tempo que vivem a sua homossexualidade que praticam o adultério ou que se refugiam na droga é termos também nós leitores que viajar pelo nosso mundo interior, por aquilo que a coacção social estipulou ser pecado e que afinal por uma questão inerente à nossa condição de animal humano todos temos que viver de forma mais ou menos escondida.

A escrita de António Lobo Antunes é também neste livro a reprodução dos pensamentos, das vivências de várias personagens que se deslocam entre o centro de Lisboa e a chamada outra banda. O homem que evita a sua homossexualidade casando-se mas que acaba por ser vencido pela sua natureza, levando a mulher a procurar momentos de carinho e alguns trocos em relações com o comerciante mais perto de casa e o filho que vê o que os progenitores gastam o tempo a tentar esconder e para quem não foi suficiente a atenção dada pelo casal que tentou transferir para si o amor que não pode dar à filha morta. A droga será o refúgio deste filho daquilo que a sociedade consignou ser pecado.

Um tema muito actual. Uma escrita magnifica que para além do prazer que dá hoje aos seus leitores, será um documento para a história que se fará dos nossos dias.


SerMar
citado de Livra.pt
15.08.2002

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

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