26/08/2010

Pedro Tavares: opinião sobre Memória de Elefante

Não vale a pena esconder que não comprei este livro apenas pela minha "curiosidade" em conhecer a obra de Lobo Antunes. Comprei o livro acima de tudo pela edição. Ler António Lobo Antunes era um interesse que foi alimentado com essa aquisição, não antes disso.


Escrito em 1979, "Memória de Elefante", juntamente com "Os Cus de Judas" (escrito no mesmo ano) figuraram juntos numa edição limitada numerada e autografada pelo autor (num conjunto de 500 packs). Curiosidade: o meu número é o 42. As capas são bastante bonitas, a qualidade do papel é impecável, só restava saber o que escondiam as suas páginas.

Há umas poucas noites espequei-me à frente das minhas estantes, cheias de livros por ler. Peguei, num acto cego, neste livro. Não escondo que adorei o que me foi apresentado.

Este livro não se trata de um enredo em busca de uma solução, mas sim de um homem em busca de um sentido. O psiquiatra (irónico sem dúvida o seu emprego) é um homem profundamente deprimido, recém-separado da mulher e das duas filhas, vivendo numa Lisboa pós-fascista e com a Guerra do Ultramar bem presente na sua memória. Tudo isso faz dele não só uma pessoa extremamente observadora como alguém capaz de se afogar a si próprio num monte de dúvidas existenciais ao questionar a realidade, a lucidez, o sentido dos seus actos.

Se formos a contar os dias que passam no livro, uma semana é demasiado. É um livro pequeno, que se passa em pouco tempo, que se debruça totalmente nas divagações do psiquiatra, no pouco que o seu quotidiano tem para oferecer e no muito que ele próprio é capaz de captar. Porque é isso mesmo a "memória de elefante": alguém que consegue lembrar-se de tudo, adquirir facilmente informações à sua volta e guardá-las. Isso pode ser uma mais valia para muitos, mas para este psiquiatra é a causa da sua desgraça.

Fiquei absolutamente admirado com a obra. Não esperava encontrar o que encontrei, nem de perto nem de longe.

António Lobo Antunes tem uma escrita extremamente densa. Não é para todos. Já ouvi muitos queixarem-se não da densidade do texto, mas de como o autor se aproveita disso para se gabar da "capacidade de escrever". Não digo que, como pessoa, não aconteça isso, mas o que encontrei foi um tipo de escrita bastante denso mas com todo o sentido. Ultimamente aparecem autores portugueses que "copiam" a escrita de Lobo Antunes, contudo facilmente caem na armadilha de se contradizerem constantemente, ou utilizarem vocabulário e expressões que, no fim de contas, não têm qualquer sentido nem ligação com o que estamos a ler. Não foi isso que encontrei em "Memória de Elefante". Encontrei, sim, um tipo de escrita bastante difícil de seguir, que talvez faça a maioria dos leitores perder-se ou cansar-se antes do parágrafo acabar, mas que a mim me cativou absolutamente. Por muito difícil que o vocabulário fosse, nenhuma expressão me pareceu fora do contexto, tudo teve um sentido de estar escrito, e a maneira como o texto corre, com bastantes apartes entre vírgulas, bastantes apartes próprios de uma personagem observadora, nunca me fizeram perder o fio à meada. Aliás, apenas contribuíram para me "encher" completamente as medidas, encontrando aqui uma escrita digna de explorar não só uma personagem mas obras inteiras. Para mim, um leitor que gosta de ir analisando o livro e as situações descritas, que gosta de ler uma frase e tentar perceber o que o escritor quer dizer com aquilo, esta foi a escrita mais compensadora que poderia encontrar.

Para o tipo de tema que é discutido neste livro, esse existencialismo todo, um vórtice de observações que arrastam o pobre psiquiatra, apenas uma escrita assim alguma vez conseguiria concretizá-lo.

"Memória de Elefante" é, também, curioso pelo seu carácter autobiográfico. E António Lobo Antunes deixa transparecer isso através da maneira como o narrador vai mudando, originalmente na terceira pessoa mas muitas vezes desviando-se para a primeira pessoa, entrando na mente do psiquiatra como se fossem um só. Cativante essas passagens. É uma técnica pelos vistos frequente nos seus livros, que pessoalmente gostei de encontrar aqui.

Finalmente, o que acima de tudo me deixou totalmente ligado ao espírito melancólico, dramático, do livro: Lisboa. Eu próprio sou um observador, um divagante, tal como o psiquiatra, e delicio-me a percorrer as ruas de Lisboa, quer pelas praças e avenidas como pelas pequenas ruas que entram directamente no coração da cidade. E Lisboa não é uma cidade alegre: é uma cidade nostálgica, quase melancólica, muito boémia. Eu encontrei essa Lisboa nesse livro! Nunca vi alguém transmitir tão bem o espírito de uma cidade como António Lobo Antunes aqui fez. E a Lisboa que ele observa é uma que eu encontro, com a qual eu sonho, na qual me identifico. Isso deixou-me irremediavelmente cativado.

Não posso aconselhar "Memória de Elefante" a toda a gente devido ao seu estilo de escrita. Embora seja bastante lido, não deixa de ser demasiado denso, e facilmente nos perdemos. Para além disso, é um livro muito melancólico, nada alegre, e para muitos isso pode ser ainda menos animador. É difícil de recomendar. Por outro lado... Há poucos assim. A partir de agora, vou ler as obras de António Lobo Antunes, pois quero mais desta escrita, quero mais deste sentimento.


Pedro Tavares
O Cantinho do Bookaholic
18.08.2010

21/08/2010

Bernardo Scartezini: sobre O Arquipélago da Insónia


A casa da noite eterna

O passado grandioso de uma decadente família assombra o casarão que abriga O arquipélago da insónia

O estado de extrema vigília, a insônia, parece induzir no infeliz uma lógica ilógica vizinha à dos sonhos. Os livros de António Lobo Antunes parecem serem criados nesse lusco-fusco, nessa fronteira obscura entre o sonho e a vigília. Não apenas este recente O arquipélago da insónia, que já traz no próprio título o mal que lhe aflige, mas também outros tantos, desde os primeiros, desde os romances iniciais — como Conhecimento do inferno (1980) — ainda assombrados pelos fantasmas da guerra civil angolana presenciada pelo autor como médico psiquiatra em campanha.

Os fantasmas que pairam ao redor e alimentam O arquipélago da insónia são entes de outra natureza. Elementos ficcionais, explica Lobo Antunes, nascidos do exercício a que ele se propôs: escrever uma trilogia sobre o interior rural de Portugal. Este volume, original de 2008, se passa entre as paredes de um antigo casarão de uma família do Alentejo. A ele se seguiu, Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?, de 2009, cuja ação ocorre no Ribatejo. Esse já tinha recebido edição nacional pela Alfaguara — que se põe a lançar também O arquipélago da insónia.

O 20º romance do português Lobo Antunes, 67 anos, acompanha o lento esfacelar de uma antes rica & prestigiosa família proprietária de terras. Partimos da figura patriarcal e arcaica do avô. Cercado por escravos e capangas, ele é coronelão daqueles que manda prender, manda matar. Do avô chegaremos à terceira geração da família, aqui representada por um neto autista. (Um abraço para o William Faulkner de O som e a fúria, 1929.) Entre avô e neto, encontra-se essa figura opaca e rancorosa do pai, que perdeu para o irmão a mulher que amava. E... Basicamente eis o enredo principal — deste romance — e de outros tantos, poderíamos acrescentar.

Mas o leitor de Lobo Antunes já entendeu que, se a história guarda todas as implicações da prosa, por outro lado, é justamente o terreno da linguagem a arena onde Lobo Antunes se esfalfa a cada linha. Sabotador de significados anteriores e de lugares-comuns próprios à prática romanesca, o autor embaralha suas palavras e, a partir delas, embaralha os tempos narrativos (o presente e, ao menos, mais dois tempos pretéritos, um para o avô e outro para o pai) e embaralha a voz narrativa (sabota seus personagens em plena atividade, em plenos diálogos, reescrevendo frases de outros contextos, como a ecoar antigas palavras no fundo da cachola).

Esse permanente trabalhar de Lobo Antunes com parênteses e frases fora de contexto invadindo diálogos da narrativa parece funcionar como o inconsciente de seus personagens — cenas e sentimentos que parecem esquecidos, mas que, em fato, guiaram o afundar da família. Essa família que, no tempo presente, nem está mais ali na casa da fazenda — todos mortos, desaparecidos ou fugidos — mas que está sim, de outras maneiras, está nos retratos ainda pendurados nas paredes antigas, está na lembrança dos objetos, dos espaços, dos corredores e alcovas do antigo lar — como os fantasmas que assombram Fronteira (1935), de Cornélio Penna, ou A crônica da casa assassinada (1973), de Lúcio Cardoso. (Ou, agora em outro tom, Lavoura arcaica, 1975, de Raduan Nassar.)

É justamente esse presente-incerto e esse pretérito-presente que emprestam a O arquipélago da insónia seu caráter de sonho fugidio — ou, Lobo Antunes deve preferir — seu ar de delirante vigília. Aqui e acolá, ao longo do livro, ele vai jogando com essas ideias, até chegar a uma frase de efeito que parece jogar luz sobre o que se passou, mas convenientemente sem nada esclarecer em demasia: “Daqui a nada é manhã/ e não será manhã nunca”.

Mas a quem interessa?
 
Como se disse, tais procedimentos de linguagem não são propriamente novidades na obra de Lobo Antunes. O caráter engenhoso de sua prosa rendeu-lhe, além-mar, tanto uma fama de “gongórico” quanto uma condição relativamente rara, em todos os idiomas, de autor reconhecidamente experimental, porém bom de vendas. Ainda recente no Brasil, sua obra vem sendo editada com assiduidade e Lobo Antunes, após um momento pop em Paraty-2009, parece estar na ordem do dia para os editores brasileiros.

“Eu tinha deixado o Brasil para Saramago”, ria-se Lobo Antunes naquela visita, que ele não é camarada que deixasse chance de provocar o colega, o único Nobel da Língua Portuguesa. Até porque, ao contrário do que costuma ser dito de José Saramago (1922-2010), Lobo Antunes em momento algum tirou o pé de suas aventuras estilísticas e de suas narrativas fantasiosas para abraçar um público maior e mais camarada. Não.

Tanto que Lobo Antunes ainda hoje provoca desconcerto em Portugal. O excelente site lusitano que leva o nome “António Lobo Antunes”, mas não é um sítio oficial (http://www.ala.nletras.com/), disponibiliza, além de bibliografia minuciosa e rico acervo de ensaios, algumas entrevistas do autor para a televisão portuguesa. Quando do lançamento de O arquipélago da insónia, Lobo Antunes é perguntado por um entrevistador nitidamente encantado e perturbado: a quem o senhor acha que este livro se dirige? “A todos os portugueses”, ele responde, com ar prosaico, sorrisinho provocador. É nítida a trajetória da família decadente de seu livro como espelho do fim do secular Império Português ultramarino e tal. Mas o entrevistador insiste mais um pouco e o escritor, enfim, cede que o livro é para todas as pessoas, portuguesas ou não. Mesmo assim não parece convencer o interlocutor

A pergunta que o coleguinha português pareceu querer fazer, mas calou, seria ainda mais direta: Lobo Antunes, quem hoje em dia vai ler um livro criptografado deste tanto?... Ou ampliando: Para que serve um livro como este, oras? De que serve a arte, não é mesmo?

António Lobo Antunes, além de um romance desafiador e de um dos estilos mais cortantes e peculiares da língua portuguesa contemporânea, de quebra te abre a cabeça, prezado e incauto leitor, para uma série de questões a respeito de arte & literatura. Adorável.

Trecho

Na esperança que o gosto de terra diminuísse e não diminuía, aumentava, não apenas a língua, os braços e as pernas do milho antigo e terra seca também e nisto o pai com a tesoura no pescoço, a mãe na janela de vidros coloridos do padre e meu avô não indignado, não triste, num ângulo da horta a brincar com pauzitos sem dar fé dos pauzitos, tentou dizer

- Pai e não conseguiu dizer

- Pai nunca conseguiu dizer

- Pai tal como o pai não falava com ele, ajudava-o no pomar sem palavras, fazia o que lhe apontavam, para quê dizer

- Pai se estava sozinho numa casa vazia, olhou a empregada a quem agarrara o pulso

- Chega cá e reconheceu a irmã mais nova da que lhe servia o jantar, uma garota que ajudava as colegas com a lenha e os pratos, quase do seu tamanho quando o pai faleceu, agarrou-lhe de novo o pulso não consentindo que fugisse a compor a roupa no peito, subiu-lhe o avental, encostou-a à tulha, lembrou-se do homem a quem não conseguiu dizer

- Pai e em vez de tomar a menina num assalto rápido de canário

- Quieta foi descendo ao longo do tronco dela até os joelhos e achatou-se contra eles na esperança que o sabor de milho antigo e terra seca lhe desaparecesse da língua.


por Bernardo Scartezini
31.07.2010

01/08/2010

Maria Celeste Pereira: opinião sobre A Ordem Natural das Coisas


Terminei a leitura deste livro há, seguramente, uma semana. Entendi necessário um tempo de reflexão sobre o mesmo antes de escrever a minha opinião.

Gostei muitíssimo do livro. Foi, talvez, dos de mais difícil compreensão mas também dos que mais me impressionou até agora.

Considero-me bastante ignorante no que diz respeito à obra de ALA sobretudo pelo muito que ainda me falta ler. Contudo, mesmo considerando os erros de opinião que possa cometer pela falha apontada (a qual estou a tentar colmatar lendo os livros que não li e relendo outros que já li há demasiado tempo, procurando fazê-lo numa lógica de cronologia de publicação), pareceu-me sentir neste livro um ponto de viragem. Pareceu-me mais aproximado das publicações mais recentes e, consequentemente, um pouco mais distante da quase linearidade dos primeiros.

Mesmo a mim me parece estranho, paradoxal até, chegar ao fim da leitura de um livro, completamente agarrada e com pena de ter terminado sem, contudo, ter a certeza absoluta de o ter compreendido inteiramente; de ter construído a história que o autor me desenhou…

Se alguém me contasse que tal lhe havia sucedido, provavelmente o meu conselho seria: - não percas tempo com isso. Parte para outra…

Pois, mas a verdade é que sucedeu comigo exactamente o contrário. A vontade de não me desligar daquela forma de escrita, do imenso volume que cada personagem ocupa valendo por si, pela sua riqueza, pela forma como o autor lhe desenha e redesenha (quase sempre) os passados atormentados, sórdidos até, como, no presente, lhes esmiúça o consciente e o subconsciente…

A força da escrita de ALA é para mim um desafio tal que me deixa quase impossibilitada não só de largar como de apreciar a calidez de outras (boas) formas de escrita. A maneira peculiar como organiza o seu discurso passando da mais bela ternura, da poesia, da análise profunda da mente humana, à mais prosaica linguagem do quotidiano, raiando a rudeza, o decadente, o grotesco e, sobretudo, o cáustico é, para mim, arrebatador.

Depois, há o desafio de encontrar o fio condutor da história (existe?) e de tentar montar o puzzle com as peças que o autor nos deixa. Também, neste caso, difícil, reconheço. É que a sua narrativa é pejada de cortes, interrupções, saltos no tempo e no espaço que a tornam um entrecruzado de vidas difícil de desenredar e de acomodar.

Neste caso, apenas nas páginas finais do livro julgo ter conseguido organizar minimamente as tais peças do intrincado puzzle e montá-lo da forma que, julgo eu, o autor me indicava. Confesso, todavia, que há pormenores em relação aos quais não tenho bem a certeza… *

Porém, aquilo que para alguns poderá ser desencorajador para mim é, de facto, estimulante como desafio. E é de tal forma estimulante que, tão depressa terminei a leitura deste, dei de imediato início à leitura de “O Manual dos Inquisidores” tal era o receio de não me ajeitar a outro registo.

É assim Lobo Antunes…

* Depois de terminada a escrita desta “opinião” tive curiosidade e fui ler outras opiniões, recensões e críticas que surgiram nos meios de comunicação acerca deste livro e, curiosamente (mas não surpreendentemente), apercebi-me de leituras diferentes para o mesmo livro. Apenas a título de exemplo; se para uns “o livro conta a história de duas famílias assoladas pelos passados de várias gerações”, para outros é a história “de uma família rica, residente na Lisboa dos anos sessenta, numa casa apalaçada na zona de Benfica…” Uma família? Duas famílias? E isso interessa muito?


por Maria Celeste Pereira
01.08.2010

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...