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21 de julho de 2016

Sue, from Whispering Gums, about «The Natural Order of Things»

Grove Press edition, 2001
Virtuosic? Tour de force? These are such clichéd terms to use in a review – and yet, I can find no other words to better describe Portuguese writer António Lobo Antunes’ 1992 novel, The natural order of things. This is one of those beautifully written, but rather challenging, books that you know you really should read again to get all those nuances, relationships, and connections that you sense but can’t quite fully grasp. If that puts you off reading the book, so be it, but in doing so you’ll miss something quite special.

As you might expect the title is ironic – there is very little natural order here. The novel does not follow the “natural (aka chronological) order” either of fiction or of life. The characters – including a middle-aged man living with a schoolgirl, a miner who “flies” underground, a girl/woman who spends her life in an attic, an ex-secret policeman who teaches hypnotism by correspondence – do not fit the “natural order” either.

The imagery is rich, evocative and effective in building up a picture (mostly of disorder and decay) and a feeling (mostly of melancholy, if not despair). The rhythm – produced by repetition, and by run-on paragraphs that don’t begin with new sentences – compels you on. The characters are convincingly drawn despite their often mad-sounding confusions. The mixing of the surreal with the real works – as does the weaving of two scenes from different points in time in the same sentence, not to mention the telling of a story by two voices in the same sentence. Somehow he makes it work. Here is an example:

…and eleven months later I met Mr Valadas at a restaurant and liked his double chin, he wasn’t as handsome as the skin doctor who hated Verdi, but I felt sorry for him, always by himself, eating lunch all alone,
and my sister Teresa, who kept looking at you and shaking as if she’d been hit by the world’s worst tragedy, “When is the wedding Fernando?” [p. 186]

Two voices alternating in one long run-on sentence – and for some reason, you go with the flow and know who’s speaking when. But that is the thing to do with this book – go with the flow.

So, what is it about? In superficial terms it’s about, as the blurb on my back cover says, “two families and the secrets that bind them”. But really, there’s not a strong plot, though several stories are told. The novel comprises 5 books, each of which is broken into chapters told from two alternating points of view, resulting in 10 voices. The stories are set between 1950 and around 1990 and deal, in their various ways, with post-1974 Carnation Revolution Portugal and the resultant disintegration of Portuguese society (not only in Portugal but in its African and Timorese colonies). This said, the over-riding sense of the book is one of personal stories, of past, present and the way memory works, and not of politics:

Relax, don’t lose your temper, I swear I’m doing the best I can, but that’s how memory is, it has its own laws, its own rhythm, its own whims, … (p. 23)

In a bit of self-consciousness that brings us back to earth, the second last voice in the book, the dying Maria Antonia, says:

I amused myself by imagining that the redheaded girl was the sister of my neighbours at the Calçada do Tojal, I moved her to the house of the Vacuum Oil employee and the imprisoned army officer … my nephew announced with a smile , “You’re going to live forever, Aunt Antonia”, and I nodded so as not to upset him, I stuck a Tyrolean hat on his head and place him in Hyacinth Park of Alcântra, married to a diabetic girl from Mozambique or … [p.263] 
because we who are from here but are not from here, who are from a here that no longer exists, have filled up these buildings with the silt of mementos and albums and letters and faded pictures from the past, and our present is occupied by these ruins of memory, not only the memory of those who preceded us, but the memory of ourselves, because we also forget, because names and images and faces get lost in a fog that makes everything equally blurry, … [p. 274] … with me will die the characters of this book that will be called a novel, which I’ve written in my head, fraught with a fear I won’t talk about, and which one of these years someone, in accord with the natural order of things, will repeat for me in the same way that Benefica will be repeated in these random streets and buildings, and I, without wrinkles or gray hair, will water my garden with the hose in the late afternoon, and the palm tree at the post office will grow again, … [p.277-8] … even if we’re not very large trees, and even if they knock us down, we’ll remain in photos, in scrapbooks, in mirrors, in the objects that prolong and remember us, … [p. 278]

And so here is made clear what should already be clear through the way the book is written and structured – though the repetition of phrases, the recurrence of bird and tree images, and the intertwining of stories and voices –  and that is that the present and past intermingle and repeat each other, that the real and the unreal both have a place, that nothing really ends or begins, and that, perhaps, no matter how bad things are there is hope. What also seems to be made clear is that this has all been the fabrication of Maria Antonia – or has it? After all it is not she but the redheaded girl (Julieta) who has the last say. Read it and decide for yourself.


by Sue
08.09.2009

1 de agosto de 2010

Maria Celeste Pereira: opinião sobre A Ordem Natural das Coisas


Terminei a leitura deste livro há, seguramente, uma semana. Entendi necessário um tempo de reflexão sobre o mesmo antes de escrever a minha opinião.

Gostei muitíssimo do livro. Foi, talvez, dos de mais difícil compreensão mas também dos que mais me impressionou até agora.

Considero-me bastante ignorante no que diz respeito à obra de ALA sobretudo pelo muito que ainda me falta ler. Contudo, mesmo considerando os erros de opinião que possa cometer pela falha apontada (a qual estou a tentar colmatar lendo os livros que não li e relendo outros que já li há demasiado tempo, procurando fazê-lo numa lógica de cronologia de publicação), pareceu-me sentir neste livro um ponto de viragem. Pareceu-me mais aproximado das publicações mais recentes e, consequentemente, um pouco mais distante da quase linearidade dos primeiros.

Mesmo a mim me parece estranho, paradoxal até, chegar ao fim da leitura de um livro, completamente agarrada e com pena de ter terminado sem, contudo, ter a certeza absoluta de o ter compreendido inteiramente; de ter construído a história que o autor me desenhou…

Se alguém me contasse que tal lhe havia sucedido, provavelmente o meu conselho seria: - não percas tempo com isso. Parte para outra…

Pois, mas a verdade é que sucedeu comigo exactamente o contrário. A vontade de não me desligar daquela forma de escrita, do imenso volume que cada personagem ocupa valendo por si, pela sua riqueza, pela forma como o autor lhe desenha e redesenha (quase sempre) os passados atormentados, sórdidos até, como, no presente, lhes esmiúça o consciente e o subconsciente…

A força da escrita de ALA é para mim um desafio tal que me deixa quase impossibilitada não só de largar como de apreciar a calidez de outras (boas) formas de escrita. A maneira peculiar como organiza o seu discurso passando da mais bela ternura, da poesia, da análise profunda da mente humana, à mais prosaica linguagem do quotidiano, raiando a rudeza, o decadente, o grotesco e, sobretudo, o cáustico é, para mim, arrebatador.

Depois, há o desafio de encontrar o fio condutor da história (existe?) e de tentar montar o puzzle com as peças que o autor nos deixa. Também, neste caso, difícil, reconheço. É que a sua narrativa é pejada de cortes, interrupções, saltos no tempo e no espaço que a tornam um entrecruzado de vidas difícil de desenredar e de acomodar.

Neste caso, apenas nas páginas finais do livro julgo ter conseguido organizar minimamente as tais peças do intrincado puzzle e montá-lo da forma que, julgo eu, o autor me indicava. Confesso, todavia, que há pormenores em relação aos quais não tenho bem a certeza… *

Porém, aquilo que para alguns poderá ser desencorajador para mim é, de facto, estimulante como desafio. E é de tal forma estimulante que, tão depressa terminei a leitura deste, dei de imediato início à leitura de “O Manual dos Inquisidores” tal era o receio de não me ajeitar a outro registo.

É assim Lobo Antunes…

* Depois de terminada a escrita desta “opinião” tive curiosidade e fui ler outras opiniões, recensões e críticas que surgiram nos meios de comunicação acerca deste livro e, curiosamente (mas não surpreendentemente), apercebi-me de leituras diferentes para o mesmo livro. Apenas a título de exemplo; se para uns “o livro conta a história de duas famílias assoladas pelos passados de várias gerações”, para outros é a história “de uma família rica, residente na Lisboa dos anos sessenta, numa casa apalaçada na zona de Benfica…” Uma família? Duas famílias? E isso interessa muito?


por Maria Celeste Pereira
01.08.2010

25 de junho de 2010

Urbano Tavares Rodrigues: Recensão de A Ordem Natural das Coisas para a Gulbenkian em Dezembro de 1992


É talvez o melhor romance de António Lobo Antunes. Muito bem estruturado, na linha faulkneriana de vários narradores internos, o que supõe um certo esforço por parte do leitor. A Ordem Natural das Coisas conta a história dos amores, das lutas, dos fracassos, das decadências dos membros de uma família rica, com casa apalaçada na Benfica de há mais de trinta anos. O título fala-nos das leis da Natureza que condenam à morte os seres humanos e votam ao insucesso as paixões de homens de cinquenta anos por meninas adolescentes. Não há um herói nem um fulcro de narrativa, que se tece das múltiplas histórias dos irmãos e irmãs (e do sobrinho bastardo) e ainda de outras personagens adjacentes, como o antigo mineiro semi-louco, na sua arteriosclerose adiantada, que por todo o lado abre furos com a picareta, em busca de ouro, ou do ex-agente da P.I.D.E reduzido a expedientes de miséria. É um romance truculento, como todos os de Lobo Antunes, associando uma grande carga afectiva ao grotesco, ao cáustico, ao imundo, na sua ânsia de comunicar a vida, no seu estendal de sofrimentos, físicos, morais, desejos, delírios e êxtases. Poucas obras, na Literatura Portuguesa, nos terão dado até hoje os quadros de Lisboa, de Alcântara, de Benfica, do Campo de Santana à Baixa, que este livro nos oferece, com tal abundância de visões, cheiros sons, movimentos da multidão. A prosa de Lobo Antunes ganhou neste romance a sua plenitude em poder de representação e em riqueza metafórica, em pujança lexical, com um maior equilíbrio na distribuição das imagens e na adjectivação. Tudo isto, é claro, sob o signo do excesso, que é consubstancial à sua arte de escritor. Nunca também o autor penetrou tão fundo na consciência e na subconsciência das personagens, nos escombros de cada pequeno inferno privado. Tenta mesmo novos registos de linguagem para exprimir alterações psíquicas ou o grau de cultura, melhor dito, da incultura, de certas figuras. Mas nesse domínio fica aquém do propósito, pois o estilo Lobo Antunes, com raras excepções, invade todo o macrotexto, sem atender, no geral às idiossincrasias e níveis etários das personagens. Mas, nesse aspecto, há que fazer uma espécie de pacto com o autor ou com o seu projecto de verosimilhança estética, pois a torrente Lobo Antunes, com o seu brilho ofuscante impõe-se a qualquer lógica realista. Finalizando, trata-se de um romance universal, que oferece alguma resistência à decifração imediata, mas conquista o leitor pela beleza formal desmedida e intensa. E que, como tal, muito se recomenda.


por Urbano Tavares Rodrigues
recensão para a Gulbenkian
22.12.1992

29 de setembro de 2004

Peter Ephross: crítica a A Ordem Natural das Coisas


Na primeira metade do século XX, escritores como Viriginia Woolf, William Faulkner e James Joyce elaboraram difíceis obras-primas com narradores à deriva e mudando as sequências temporais. Depois da Segunda Guerra Mundial, este método de escrita caiu em desuso, mas um romance português recentemente traduzido para inglês faz homenagem a essa mesma técnica – e insere uma boa dose de um realismo mágico.

Em A Ordem Natural das Coisas, António Lobo Antunes traça o complexo fado multi-geracional de duas famílias que são assombradas pelos seus passados. O livro abre com as divagações nocturnas de um homem de meia-idade quando se deita na cama ao lado de uma mulher diabética, mais nova. Torna-se claro que não se trata de uma relação fácil entre ambos. Como pateticamente o homem diz, “sempre que falo de mim, encolhes os ombros, a boca torce-se, as pálpebras prolongam-se de desdém, rugas escarninhas surgem por detrás da franja do cabelo loiro, de modo que acabo por me calar”.

Nos capítulos seguintes, a narração é tomada por alternadas falas de um homem amargurado que envelhece, e um oficial do exército que é preso e torturado. E isto tudo na primeira parte. Os capítulos posteriores apresentam-nos uma prostituta e o seu chulo, e uma menina, filha ilegítima de um pai que a mantém trancada. O escritor não narra exactamente assim, não é fácil encontrar o trilho à intriga no meio de um emaranhado de narrativas. Quando o interlocutor salta, abruptamente, a meio de um parágrafo, o tempo também se desloca, levando o leitor através de várias décadas e desde a Lisboa actual até à África colonizada (a relativa obscuridade da história portuguesa é um obstáculo adicional). Apenas nas cerca de 50 páginas finais poderá o leitor mais atento capaz de reunir as peças do puzzle e construir a teia que apanha as principais personagens.

Porém este romance não se faz pela intriga, pela trama, pelo menos no sentido tradicional; e os leitores não preparados para esta luta não se sentirão com vontade de ir além das primeiras 75 páginas. Então porque vale este livro o esforço? Porque tal como nos clássicos modernistas, as ideias e a linguagem – sim, mesmo numa tradução! – fazem deste percurso surreal uma viagem pelos labirintos da mente humana. Antunes possui uma habilidade excepcional de descrição, tal como quando comenta a sensação de espera que uma dose de Valium surta efeito: “sinto um ornato de sepultura magoar-me a perna, oiço a erva das campas no lençol, vejo os serafins e os Cristos de gesso que me ameaçam com as mãos quebradas”. De igual modo descreve com muito à vontade as futilidades do dia-a-dia quotidiano, o despropósito das idas às consultas com o médico, em que se esquece de pagar a viagem do táxi, ou os concelhos do médico incoerentes, e os momentos distintos das nossas vidas que nos define – ou na verdade nos surpreende.

Como as criações atormentadas de Faulkner, as personagens são oprimidas pelo seu próprio passado – seja o fardo de uma falácia pessoal, como relações extra-conjugais, seja a opressão da crueldade política e a vida na prisão. Como diz uma das suas personagens, “Não, não proteste, não me censure, palavra de honra que faço os possíveis e contudo, é assim mesmo, a memória tem o seu mecanismo próprio, o seu ritmo, as suas leis, os seus caprichos”. O que sobra às pessoas depois do resultado das suas batalhas com o destino, argumenta Antunes, é uma história que elas devem tentar aceitar, mesmo que isso seja, em última análise, impossível.

(opinião escrita por ocasião da tradução para o inglês do livro, The Natural Order  of Things, edição Grove/Atlantic, 2000, EUA)

por Peter Ephross
05.04.2000
[traduzido do inglês por José Alexandre Ramos]

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...