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26 de junho de 2015

Pedro Fernandes: opinião sobre Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura

Certa vez, Miguel Real, uma das figuras mais lúcidas da crítica literária portuguesa, afirmou que António Lobo Antunes trata-se de um caso singularíssimo e alguém não igualado por ninguém, nem antes e nem na contemporaneidade, no cenário das letras portuguesas; “seus livros revelam uma nova dobra na língua portuguesa, um novo horizonte estético para esta, uma nova forma de combinação de palavras até então nunca descoberta”, diz o crítico. Provam-no a extensa obra romanesca que tem escrito, o exercício da crónica, os mais singulares na literatura em língua portuguesa contemporânea. Muito recentemente, escreveu Caminho Como Uma Casa Em Chamas que, certamente, merecerá atenção por aqui, noutra ocasião. Este texto agora publicado é, no entanto, um conjunto de notas sobre um de seus romances mais conhecidos, e um dos mais densos e mais difíceis também (António Lobo Antunes não escreve para leitores comuns, aliás não escreve para, desafia-os).

Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escurafoi publicado em 2000. E ao longo desse período tem já acumulado uma série de textos críticos, sobretudo teses de doutoramento e dissertações de mestrado, parte delas certamente encantadas com o acurado fôlego com que o escritor português dedica à língua e a destituição da natureza comum do romance ou ainda por certo hermetismo linguístico. É um texto que preferiu chamá-lo de poema (está como subtítulo da obra) e que amplia um exercício de interseção dos géneros que já demonstrei noutras ocasiões, quando falei sobre Auto dos Danados e Fado Alexandrino, dois romances que incorporam na sua estrutura elementos definidores do género textual que dão título à obra. Bem, no caso desse livro ora comentado, tudo corrobora para ser uma espécie de longo poema em prosa (a escrita versicular, a predominância do uso das minúsculas para início de frase e, sobretudo, a construção linguística capaz de produzir no leitor o contacto constante com blocos de texto que são exímia poesia).

Em Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura o escritor quase se aparta do contexto histórico e ergue um universo que é mônada no universo quotidiano. É evidente que não deixa de vir a lume certos fluidos da história recente portuguesa, temas de predilecção do escritor dos primeiros romances, mas, o que se amplia aqui é a capacidade de acompanhamento do travellingmental: uma linguagem surda, como disse certa vez, que aspira dizer tudo a uma só vez, assim como é cada vez mais impressionante a capacidade de provocar no leitor uma aproximação com as movimentações do nosso interior. É um romance que se faz pela intercalação de uma diversidade de acontecimentos e cuja estrutura é fracturada, assinalada por interrupções bruscas, os cortes, elipses, e entrecortar de vozes que ora aparecem ora se dispersam sem qualquer ligação aparente com um centro de comando de um facto principal.

O facto principal é a morte do pai da narradora. Situação do acaso, mas que ampliará a ruína da casa. Estamos, pois, diante de dois temas primordiais na obra de António Lobo Antunes. É o contacto com o fim que levará Maria Clara, primeiro, a futricar o passado do pai, sempre guardado a sete-chaves e sempre apresentado como o que não tem nada a esconder seja pelo excesso de cuidado com a aparência seja pela imagem de homem sério e provedor do lar. Mas, a narradora de Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura não é uma figura comum; tem parte com aquelas criaturas que diz confiar no que vê quando na verdade está em busca da primeira oportunidade para conseguir bisbilhotar o que não se revela a olho nu.

E todo [o] romance finda por ser uma tentativa sua de buscar reconstruir o passado da família (e logo reconstruir a si), sobretudo, o desse enigma que é a figura paterna, olhando-a desde as provas (coisa pouca) que reúne sobre ele (algumas fotografias, um registo de nascimento rabiscado, uma agenda com uma ou outra anotação, e um baú de notas fiscais e restos de armas que a leva a perscrutar sobre o trabalho escuso de Luís Filipe com o contrabando de armas). No final desse parêntesis, gostaria de abrir outro para justificar uma posição contrária às acusações de que, por se aproximar demais de um subjectivismo António Lobo Antunes tenha, desde então, produzido uma obra cujo interesse sobre a realidade histórica, social e política não se constitui em elemento para compreensão de sua obra.

A afirmativa corroborada muitas vezes por parte de uma crítica mesquinha é errónea, por vários factores: um deles, já evidenciado pela própria teoria da literatura, a de que não há obra literária fechada em relação ao contexto a que pertence, sobretudo, porque a linguagem, seu instrumento, é um aparelho histórico, político e social. Outro, evidenciado nessa suspeita costurada pela narradora de Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura. Não seria Luís Filipe um modo de denunciar certa parcela do capital que vive às custas da dor e do horror alheio? Não seria Luís Filipe uma figura sobre o que foram as relações escusas entre as Forças Armadas, a Indústria Armamentista e o Governo sempre juntos a dizer sobre a utilidade do conflito armado em África?

Depois de Luís Filipe, a obsessão de Maria Clara, o leitor encontrará Amélia, sua mãe, a irmã Ana Maria, a avó Margarida, sempre torrando o exíguo património com os jogos de roleta no casino, Adelaide, uma figura das mais emblemáticas do romance e peça-chave no imbróglio narrativo que Clara tenta erguer e talvez uma das melhores figuras de empregada desde a Juliana de Eça de Queirós, entre outros. É um romance para envolver-se, não é dado para mentes preguiçosas. O romancista exige a presença do leitor na extensa bricolage de situações a fim de construir uma linha de enredo que, desde então, o adopte para compreender a obra sobre algum acontecimento, mesmo sabendo que a literatura antuniana não é registo, é provocação.

Por fim, e os romances que sucederam a esse cada vez mais provam isso, depois do lugar do crítico mordaz da realidade histórica e um revelador da hipocrisia que vela os mais variados recantos da sociedade e o torna para os indivíduos em pura aparência, António Lobo Antunes instala-se, agora, ao modo do que fizeram os escritores realistas, na mínima unidade institucional que é a família. Depois percorrer outras instituições, como as forças armadas e o aparelho médico, como já disse, esse núcleo parece servir de medida certa na elaboração de uma metonímia através da qual pode observar o pormenor de uma sociedade à beira de um colapso ou fim agonizante de uma civilização.


por Pedro Fernandes
em Letras in.verso e re.verso
25.06.2015

[revisão do texto por José Alexandre Ramos]

23 de maio de 2015

Mário Santos - crítica a Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura

A água nas trevas


António Lobo Antunes tem toda a razão ao chamar "poema" a este romance. "Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura" não só é um poema, um longo, longuíssimo poema, como é um poema para ser lido em voz alta. Obra de um virtuoso, e dos mais extraordinários.

O mais difícil é começar. "Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura"[...] , começa assim: "O meu pai nunca me deixou entrar aqui. Devia sentar-se na cadeira de baloiço e olhar do postigo o jardim lá em baixo, o portão, a rua, eu pequena a brincar às fadas com a minha irmã no rebordo do lago" (p. 15). O mais difícil é acabar. Mais de 500 páginas depois, o 14º romance de António Lobo Antunes acaba assim: "Ir-me embora é como tapar os espelhos todos sobre mim. [...] À falta de melhor toco-me com o dedo no vidro." (pp. 550/551). 

À sombra, ou à luz, destas duas citações podia instalar-se  talvez, sem dúvida, má iluminada, precária, sombriamente redutora  uma leitura deste livro. Falar-se-ia então de todas aquelas imagens que o percorrem, remetendo para o campo metafórico do olhar, dos espelhos, dos reflexos: "lagoa de sombras" (p. 293), "ovo de penumbra" (p. 327), "a luz acesa no espelho antes de se acender na parede" (p. 400), " a chaminé não completa, quebrada como um lápis na água" (p. 428), "quando os reflexos na janela eram mais nítidos que nós" (p. 515), "os três espelhos do toucador perguntando ao mesmo tempo, uma mãe de frente, duas mães de perfil e nenhuma / que estranho / parecida com as restantes" (p. 532), "cada vez que um peixe à superfície mil pedaços de jardineiro numa tremura de água" (p. 533). O espelho em que a narradora protagonista deste livro, Maria Clara, tenta rever-se estilhaçou-se (como terá acontecido com todos nós). O que sobra é um "puzzle" de reflexos para sempre fragmentários, um labirinto de vozes que se disputam, sobrepõem e se calam. Para sempre. Mas é preciso, e é quase sempre vital, não acreditar nisso. À tentativa apaixonantemente pueril de harmonizar esses ruídos nocturnos costuma chamar-se vida. Ou ficção. Por isso, Maria Clara convoca o bafo de outras vozes, que vem embaciar o que ela vai escrevendo (talvez com o dedo sujo de investigar a vertigem da vida) na "tremura de água" da memória. Nas migalhas do espelho.

O método, cremos que se diz polifónico (sendo que neste livro a tonalidade é dada pela voz de Maria Clara), não é novo em Lobo Antunes. Não é novo, pura e simplesmente. Outra coisa é reconhecer que Lobo Antunes o executa com raríssima afinação, donde a alegada vaidade do autor, não sendo pecado algum, é ainda inteiramente justificada.Mas tudo isto, que daqui já nos parece muito, não chega para explicar por que é que este livro  esta escrita  é viciante, perigosamente viciante, fazendo de António Lobo Antunes um virtuoso, e dos mais extraordinários. Busquemos então outro sentido, que não ecoando com a mesma variedade metafórica, não é menos estruturante (perdão?) e decisivo: a audição. 

No mar oceano de palavras que é qualquer livro de António Lobo Antunes (que é sempre, mais do que um rio ou um lago, um mar, uma praia, onde morrem e renascem sucessivas ondas de palavras faiscando minúsculos relâmpagos na areia das páginas), nós somos peixes cativos daquela encantatória "vozinha em anzol" (p. 314) que nos pesca a atenção como se pingasse, profana litania, "uma torneira nas trevas" (p. 307). E é por isso, sonoramente por isso, que tem toda a razão o autor, ao chamar "poema" a este romance. "Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura" não só é um poema, um longo, longuíssimo poema, como é um poema para ser lido em voz alta. Ou melhor: a várias vozes altas. É um livro para ler com os ouvidos (arte em desuso), com orelhas que olham, com "olhos de quem escuta" (p. 342). Mais do que invenção ao nível das figuras de linguagem, trata-se de uma forte e belíssima (ou seja: eficaz) estrutura poética. Coisa desusada, portanto.

Maria Clara, um nome que é claramente obscuramente simbólico, revê o passado no Estoril. E o passado, já se sabe, tem muitos nomes presentes. Nomes que recordam nomes, ou pensam recordar, ou pensamos que recordam. Por vezes com uma nostalgia pungente, "como se tivesse saudades de haver sido árvore" (p. 437), tudo "tão frágil, tão de ossos tenros sob a pele" (p. 543). "Escrever frases umas sobre as outras na esperança que ninguém compreendesse o que sinto" (p. 442), diz a voz obscura de Maria Clara. E isto não é só um resumo da poética de António Lobo Antunes, mestre (citemos o dicionário: "o artífice que era dado como apto em algum ofício e só depois o podia exercer publicamente") na arte de "calibrar palavras"  "horas e horas de trabalho a calibrar palavras" (p. 297). É o resumo de uma ética. Que por vezes incomoda "como um cisco na pálpebra" (p. 305). Para que serve um romance? Para que serve perguntar? Para que serve uma mãe que "apenas nos retratos nos pegava ao colo" (p. 181)? Um romance é o único sítio onde podemos avistar um "pássaro de rio saltitando em seixos de palavras sem se molhar nunca" (p. 534).

Frases que se esfumam numa vírgula, ou nem isso. Ecos sem saída. Vozes como nuvens "sem contornos, mudando de forma" (p. 365). Mudando de voz na mesma frase, na mesma voz. Ou nem isso. E nenhuma capaz de "distrair a dor" (p. 411), esse "vazio de bolor com que as casas [...] lentamente, morrem" (p. 364). E nós lá dentro. Dentro do livro. Personagens "doentes / de desilusão" (p. 313), habitando "um passado defunto onde um piano desafinava episódios e vozes" (p. 407). Que guardamos como aquela roupa antiga que deixou de servir e não deitamos fora. A memória nunca deixa de servir, nunca deixa de se servir de nós. E atordoa. E confunde. Como aquele "caramanchão impresso ao contrário no lago atordoava os peixes" (p. 147). E eis outra figuração do espelho.

Entre a dor e o nada, os personagens de António Lobo Antunes escolhem o ardor sem remédio da infância, desse tempo em que se adivinhavam as tardes "pela cor do limoeiro" (p. 440). Sim, "embalem-me mais depressa para o caso de eu chorar" (p. 369). A vida uma doença que se não pode prevenir. "Rage, rage against the dying of the light", diz um verso de Dylan Thomas, de quem procede o título deste livro. Agora que "o coração do linho" já não afasta "os animais de sombra" da infância, e disso fala o poema de Eugénio de Andrade no limiar do poema (em prosa?) de António Lobo Antunes. A infância, os nomes da infância dos nomes. Sim, somos todos desde sempre suficientemente idosos para morrer. Sim, como aquela a quem António Lobo Antunes dedica "Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura", também o leitor "há-de encontrar maneira de ler este livro". Que a leitura não é tarefa que se possa delegar sem prejuízo próprio e vaidade alheia. Como o não é a morte. Nem a vida. O mais difícil não é acabar.


por Mário Santos
04.11.2000

[nota: as citações do livro são da sua primeira edição em 2000, sendo que as páginas referidas não estão de acordo com a (1º) edição ne varietur]

Emanuel Moreira - opinião sobre Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura

Em sete actos Deus criou o Universo e a Terra, e nesses sete actos criativos o autor criou a Maria Clara. Maria Clara, o homem da casa, Clarinha, menina, e tudo menos Clara.

Ao longo do livro há toda uma sucessão de criação e destruição, cenários idílicos de um universo de fadas que alberga uma quantidade imensa de fotões no meio de uma real noite escura, onde manchas de óleo, que não óleo, impregnam o universo da narradora. Falar do enredo pouco importa em Lobo Antunes, Maria Clara, entre o psicólogo e o seu diário dá espaço a que toda a sua história tome lugar nas mais variadas perspectivas, e no balanço do enleio fica difícil perceber até que ponto a Clarinha não é apenas louca. Um sotão com um passado supostamente fechado. Um pai no hospital em que vai ser operado ao coração, acordando, uma lâmpada no tecto. A irmã, Ana Maria, que tão bela, loira, e ao contrário da Clarinha, tão filha de sua mãe. Uma avó que se perde no vício do jogo e do álcool e que para a empregada Adelaide, menina, ao contrário da sua filha, mãe de Maria Clara, que Senhora, não suporta o cheiro da pobreza. O avô a cegar, com uma bengala que quase varinha de condão. Tudo isto são meros traços, não necessariamente verdadeiros. 

Afinal, como é habitual em ALA o leitor é que tem de usar a sua chave para aceder às respostas. Tal como a Maria Clara contava as voltas na fechadura do sotão, no fim é díficil não sermos nós também a tocarmo-nos no vidro.


por Emanuel Moreira
23.04.2015

11 de julho de 2012

R.B. NorTør: opinião sobre Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura


Será, em termos de volume, um dos maiores livros do autor e hesito em escrever romance. Hesito no romance pois não estou seguro que seja um romance. Estamos seguramente perante um dos melhores exemplares da escrita poética do autor, perante uma das menos lineares narrativas, uma análise, desta vez não às profundezas da mente, mas às teias que unem uma família a fragmentar-se. Acresce ainda que este "Não entres tão depressa nessa noite escura" é ainda um brilhante exemplar de como o acto de ler pode ser fisicamente desgastante sem que isso implique uma escrita sombria.

A afirmação de que a escrita de A. Lobo Antunes não é sombria poderia ser por si só motivo de discussão. No extremo poderia levar um conhecedor a pegar nesse livro, a perder-se nos seus primeiros capítulos e a fechar o livro para nunca mais o abrir. Na realidade, este que vos fala releu os três primeiros capítulos três vezes para se embrenhar nesse fim tarde, para descortinar os raios de sol pelas grandes janelas do hospital onde tudo começa, onde se espera que o pai de uma família sem nome vá para a sua operação ao coração e que volte como novo para os Cuidados Inten ivos. Foram três releituras para que se formasse então a inevitável pergunta: que noite é essa de que nos fala o título?

Essa pergunta atravessa toda a obra. Ela vai mudando à medida que mudam os capítulos, vai tomando nuances consoante o narrador, mas está sempre lá. Ela é a morte de um pai de família com problemas de coração, ela é a vergonha de uma família pejada de dívidas que alimentam uma ilusão de grandeza imposta pelos vizinhos, é a pobreza tão profunda que emana um cheiro nauseabundo e torna os pobres em gente sem direitos, sem inteligência, agradecidos por todas as migalhas que os ricos não precisam e sacodem para fora da mesa, que os bestializa e que envergonham quem se dava com as elites coloniais. Pode ainda essa noite ser a vida de sonhos e personagens imaginárias, escondidas em quartos alugados nas traseiras do barbeiro de uma aldeia que não são mais do que quatro casas, ou será essa noite a vida real que vivemos, nos sufoca e nos leva a sonhar com o que podia ter sido, o que podíamos ter mudado, podem ser todas as noites, pode não ser nenhuma delas.

A obra é apresentada no tradicional estilo catártico do autor, da personagem no consultório a analisar a sua vida. No entanto há algo que torna esta obra particularmente distinta no cânone do autor. Sem sacrifício da densidade e profundidade da escrita, capazes de cansarem o autor, verifica-se que há um tom luminoso que atravessa toda obra. Ao contrário de outras obras do autor, em que nos sentimos abraçados pelas sombras, nesta há uma aura luminosa que ilumina as cenas de espera pela morte em salas de espera, que iluminam os traficantes na praia, que é o raio de luz pela janela do andar de Alcoitão, a luz das máquinas do casino quando se apostam móveis e jóias de vidro. É uma constante na obra, uma oposição a essa noite escura de que nos fala o título, mas não se pense que transborda de alegria. É uma luminosidade que abraça momentos do mais puro desespero que se apodera de nós nas horas de incerteza, que brilha sobre a angústia que sentimos quando vemos o nosso mundo a cair, esse foco que incide sobre o envergonhado. É a luminosidade que passa por entre as folhas das palmeiras, nessa hora de incerteza sobre o passado, quando nos perguntamos "e se tivesse sido de outra forma?".

Há ainda um lado social na obra. Como disse anteriormente, desta feita o mergulho às profundezas da mente humana é substituído por um dissecar de relações interpessoais, uma perspectiva sobre como nos integramos no meio social. É um olhar sobre essa sociedade de ilusões, as aparências em que tem de se nascer para que se seja aceite, porque os pobres são burros, emanam o cheiro de pobreza, não podem brincar com quem partilhava fins de tarde com o presidente Kruger.

Toda a obra é a descoberta dessa família de Cascais, saudosa dos tempos africanos, em que mandava e não negociava com pretos e árabes. Uma menina que luta por respeito junto dos alunos, apesar da menina a caminho do casino sem ter o que jogar, a família que faz por esquecer o bastardo com nome de princípe herdeiro que acolhe no seu meio, emanando o cheiro a pobre, a preocuparem-se com os empregados e particularmente com a Adelaide, presa que está entre o que foi, o que gostavam que tivesse sido e o que é.

E há a Maria Clara. A Clarinha, a Maria Clara que é o homem da casa, nunca Clara, a mãe. Maria Clara a redatora deste diário, a gota de sanidade num micro-cosmos louco, o pilar de realidade que sustenta a vivência imaginária de uma famíilia que tem o pior dos cegos por mãe. A Maria Clara é o homem da casa que perscruta nessa arca do sótão as origens do pai, a Adelaide com uma criança ao colo, as fotos do professor de aldeia. A Maria Clara que nos conta, com uma inveja na pena, a forma despudorada como o médico despia a irmã com os olhos, a Maria Clara que gostava de ser como Ana, o homem da casa que gostava que a Ana gostasse dela, que lia em revistas a opinião dos psiquiatras sobre a normalidade do amor entre mulheres, a Clarinha que queria ser mais mulher. 

Há que falar de Clara, mãe de duas crianças, que vive com o marido na casa dos sogros, que não está mais em Cascais, que foi com a irmã a uma cave em Algés, antes desta ir para Itália e desaparecer da vida deles. A Clara que aparece no conto no momento em que se revela essa noite escura. Não é mais Clarinha, não mais a Maria Clara é o homem da casa, Clara, a sombra que nos sussurra como tudo poderia ter sido bom se tivesse sido assim e que no final nos deixa com a dúvida se alguma vez sairemos dessa noite escura.

Em jeito de conclusão, este Não entres tão depressa nessa noite escura é uma narrativa poética que me ia deixando fisicamente cansado, mentalmente esmagado e no entanto envolto numa radiância. António Lobo Antunes não o escreveu para os fracos de espírito, nem para quem começou agora a perceber que ler é mais do que articular palavras. Esta obra terá de figurar em qualquer discussão sobre a magnum opus do seu autor.


por R.B. NorTør
30.05.2012

5 de agosto de 2009

Cristina Robalo Cordeiro: Recensão crítica na Colóquio Letras nº 157/158 de Julho de 2000 – pp. 413 e 414


Desde Memória de Elefante que, ano após ano e de título em título, acolhemos os romances de Lobo Antunes com forte expectativa, esperando do seu mundo romanesco que nos surpreenda, nos abale e nos confirme no que parece ser o essencial das forças que o plasmam: polifonia, fractura, delírio, caos, dissecação de figuras e de ambientes fantasmagóricos, obstinação de memórias labirínticas, descida aos infernos de um quotidiano sempre transfigurado.

Na relação que estabelece com o leitor, não é nunca a cedência à lei da facilidade que impera. Não buscamos nos livros de Lobo Antunes serenidade e apaziguamento, nem acção, aventura, divertimento. Não o lemos em estado de repouso, mas de vigilância. Não o recebemos em sossego, tranquilamente, mas de forma tensa e enervada.

Não Entres tão depressa Nessa Noite Escura não nos desilude. Nele reconhecemos, na diferença de um novo cenário, a mesma virtude criadora, a mesma carga emocional, a constante tensão, nunca resolvida, que dialectiza texto e mundo em oposições dinâmicas e fecundas.

Este romance constrói-se em torno de uma personagem feminina, Maria Clara, que ouvimos em excesso de palavras fixadas quer em relatos confiados ao diário quer em monólogos recebidos em escuta (quase) silenciosa de psiquiatra atento, numa casa visitada pela degradação e onde parece esconder-se, num quarto de sótão fechado à chave, o segredo do passado que é também o mistério da família e o enigma da própria vida. A sua voz inquieta navega em regimes temporais mais psicológicos do que cronológicos, e lida com as coisas e com o mundo de forma marcadamente afectiva.

O romance desenvolve-se em círculos cada vez mais largos - das quatro figuras nucleares da família a antepassados longínquos ou menos chegados, do destino meramente individual ao colectivo por detrás do qual se vislumbra uma situação social e política, um contexto histórico -, em espiral de vozes e de planos que se afastam e regressam, se dispersam e aproximam, num movimento de vaivém que, ao mesmo tempo que esclarece e e acrescenta sentido, lhe junta também mistério e dúvida. Movida pela intuição, Maria Clara procura nas gavetas e arcas do quarto interdito vestígios de uma identidade que nem só a si diz respeito, e à medida que junta bocados soltos e desordenados do retrato da família (a que falta um pedaço) vai-se deixando invadir por rostos e corpos estranhos, vai deixando falar em si em outras vozes, já extintas e imaginárias, num jogo em que é difícil distinguir o que efectivamente é do que nunca foi ou algum dia será. Ao avançarmos por entre certezas e suposições, alusões e recuos, antecipações e elipses, reencontramos a força subjugante e enfeitiçadora de uma escrita que se suspende, se interrompe e retoma o que foi interrompido ou ficou suspenso, escrita que avança e volta atrás, se enche de sons, imagens, sentidos, para logo os pôr de lado, esquecer, rejeitar, num tecido textual que, ao misturar sinais gráficos e tipográficos originais e desconcertantes, enreda o mundo no turbilhão de palavras que o desvendam ou o escondem.

Mas se Não Entres tão depressa Nessa Noite Escura é de novo lugar de escrita apaixonada e delirante, é ainda, e simultaneamente, o de uma rigorosa composição. Os sete momentos em que se repartem, em perfeito equilíbrio, os trinta e cinco capítulos que compõem este romance correspondem ao percurso de criação simbolicamente identificado com o «grande trabalho da criação» (p. 465), que destrona o vazio e, em absoluto, o substitui pela vida. Escandida em sete tempos, em sete etapas fundadoras, como no Génesis, a história deste mundo imaginário confunde-se com a história do céu e da terra. E o poder de quem, pela escrita, cria um mundo próprio e lhe insufla vigor e desejo assemelha-se aqui ao da voz divina que ordena que a luz exista, que o firmamento aparte as águas, que a terra se cubra de frutos, que dois luzeiros separem o dia e a noite, que os seres vivos cresçam e se multipliquem, da voz de um Deus que faz o homem à sua imagem e, por fim, descansa ao concluir a obra. Como eles, também Maria Clara caminha na fronteira indecisa do real e da ficção, e, na suposição de ser fada em «gesto da varinha de condão» (p. 28), ou na convicção de «que invent[a] o tempo inteiro» (p. 275), perante um interlocutor mudo, acaba gerando a sua própria verdade sobre as coisas. Dizer/escrever são assim  modos de revelação de uma história que releva do sagrado, na origem da própria vida, formas inspiradas de lutar contra a morte - obsessiva e esvaziante -, de compreender, reconstruir e restituir sentidos. É também de apaziguar o medo do desconhecido e do inexplicável, das rupturas: por isso, no final do relato, Maria Clara pode ter a coragem de repetir «Hoje estava capaz de me ir embora» (p. 551).

É inevitável a implicação do leitor neste universo imaginário que ele próprio ajudou a construir e que o faz experimentar a inquietação de personagens equacionando a vida num misto de paixão e de ressentimento. E do encontro excitante com esta escrita que se debate entre figurar e desfigurar, fixar o real e contrariar tudo o que de alguma forma o imobilize, com o desassossego de um discurso que concilia a desmesura e o segredo, o excesso do dizer e o não-dito, prevalece em nós a qualidade do olhar que se detém no pormenor e capta das coisas o instante que as imortaliza, a força visionária que desmonta e recompõe, tornando visível o infinitamente insignificante, o sabor que as palavras têm e o gosto que deixam na boca de quem nelas morde.


Cristina Robalo Cordeiro
Colóquio Letras 157/158
Fundação Calouste Gulbenkian
Julho de 2000

7 de abril de 2007

Gonçalo Figueiredo Augusto: duas opiniões sobre Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura


1.

Li este romance, desculpem, vivi este romance entre agosto e outubro. Arrependo-me de não o ter lido, redesculpem, de não o ter vivido mais cedo, de não ter conhecido mais cedo a Maria Clara, as fantasias dela, as invenções, a inocência na forma de diário, a inveja da irmã

«A sua filha Ana Maria parece uma estrangeira» 
«A Maria Clara é o homem da casa» 

lamento não ter conhecido mais cedo a velha com a boininha ridícula que apostava a fortuna da família no casino, lamento não ter entrado mais cedo na casa do Estoril com as fotografias do senhor general e do Presidente Krüger cobertas de pó nas prateleiras, os pretos e os árabes a invadirem os corredores da casa, a Adelaide a escoltar a 

«Menina»
(a filha da menina
«Senhora»
a mãe da senhora
«Menina»).

Creio que deveria ter entrado mais cedo na casa do Estoril, no diário da Maria Clara, no andar da Leopoldina em Alcoitão, no percurso das camionetas do Murtal, na clínica onde o coração do Luís Filipe desenhava adeuses no ecrã da máquina, no lago onde um menino de barro para a água, tenho pena de só ter conhecido a Maria Clara muito tempo depois das outras pessoas a conhecerem. Gostei da Maria Clara, gostei muito do romance (ou poema, como o António lhe chamou). Recordo o final do último capítulo, ficou escrito na minha mente: «Há momentos na vida em que necessitamos tanto de um sorriso. À falta de melhor toco-me com o dedo no vidro.» Fechei o livro mas o romance (ou o poema) permaneceu na minha cabeça (ainda lá está), tenho muita pena por não ter lido, desculpem, por não ter vivido o romance (o poema, bolas) há mais tempo. Espero que vão a correr a uma livraria para conhecerem a Maria Clara, vale a pena conhecê-la, vale a pena viver este livro. O título é uma tradução livre de um verso do Dylan Thomas: Do not go gentle into that good night. Traduções à parte, experimentem olhar pela janela do vosso quarto (pelas janelas dentro de vós) e procurem a Maria Clara. Vale a pena conhecê-la. Ela é o homem da casa.

2.

Tinha planeado escrever algo mais simples sobre este livro, mas o livro é demasiado bom para ficar diminuído à minha preguiça. Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura foi publicado em Outubro de 2000 e eu envergonho-me de só o ter lido 4 anos depois. A narrativa é esmagadora e ao mesmo tempo é indizível. Há uma personagem central, Maria Clara, com a qual atravessamos os 35 capítulos do livro, divido em 7 partes – os 7 dias da criação. Maria Clara é uma rapariga ingénua que nada sabe sobre a vida: inveja a irmã Ana Maria, lamenta a distância do pai Luís Filipe, observa a família despedaçada em que se insere, inventa-lhe um passado, inventa-lhe vários passados na tentativa de descobrir os segredos da família guardados num sótão escuro e coberto de pó.

Com Maria Clara somos convidados a entrar na casa do Estoril com as fotografias do senhor general e do Presidente Krüger cobertas de pó nas prateleiras e a partilhar as suas fantasias, as suas invenções, a inocência na forma de diário.

Com Maria Clara vamos conhecer a avó com a boininha ridícula que apostava a fortuna da família no casino, a empregada Adelaide que a escoltava para todo o lado, os pretos e os árabes que invadiam os corredores da casa, o distante pai Luís Filipe que agoniza na clínica onde o seu coração desenha adeuses no ecrã da máquina.

Com Maria Clara vamos conhecer Leopoldina e o andar em Alcoitão, as camionetas do Murtal, os últimos dias do avô cego.

E no meio de tudo Maria Clara descobre o seu corpo, as suas formas, fica estática diante do espelho a observar-se. Maria Clara descobre-se e nós descobrimo-nos também, assistindo ao desmoronar de uma família onde se desconhecem uns aos outros. No final, nas últimas linhas do último capítulo, uma Maria Clara adulta e infeliz confessa-nos: «Há momentos na vida em que necessitamos tanto de um sorriso. À falta de melhor toco-me com o dedo no vidro.»

Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura não é com certeza um livro fácil de ler para quem não conhece a escrita de Lobo Antunes – o título é uma tradução livre de um verso de Dylan Thomas: Do not go gentle into that good night – mas fica um conselho: abram a alma entrem no livro com o espanto de quem se olha a um espelho e percebe já não ser o mesmo.


por Gonçalo Figueiredo Augusto

1. 04.12.2004

2. 20.06.2006

1 de maio de 2006

Rafael Narbona: opinião sobre Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura


Lobo Antunes fez-se romancista porque era incapaz de escrever poesia. A sua impotência perante o versejar tem produzido, não obstante, uma escrita deslumbrante que impregnou toda a sua obra de um forte tom lírico. A complexidade dos seus romances nasce desta peculiaridade, mas tal não significa que o fio narrativo tenha sido sacrificado em benefício da imagem ou da metáfora. Nada mais longe de Lobo Antunes que o esteticismo vulgar.

A sua maneira de narrar nada tem de malabarismos verbais, mas sim a busca da palavra essencial. A intenção de fundo está em exceder a simples aparência das coisas para revelar a verdade de personagens incapazes de compreender a natureza dos seus actos. Este propósito justifica o desvio dos assuntos, os espaços em branco, a destruição da sintaxe ou o recurso ao inacabado. Todos estes elementos se juntam em Não entres tão depressa nessa noite escura, compondo uma história que avança entre memórias, fantasias, confissões e surpreendentes rectificações, onde se coloca em questão tudo o que é narrado desde então.

Lobo Antunes organiza o romance em sete dias que correspondem aos sete dias da Criação. São sete dias que agregam em algumas horas as experiências de uma família reunida à volta de um pai moribundo. Uma intervenção cirúrgica servirá para reconstruir as peripécias de personagens da alta burguesia colonial do Portugal salazarista. Por baixo da aparente respeitabilidade esconde-se um passado duvidoso, onde a filha de um antigo governador de Moçambique se casará com um traficante de armas para salvar a maltratada economia da família. O casamento não evitará a catástrofe, quando a antiga colónia consegue a independência e o exílio forçado se impõe. Já na metrópole, não acabarão as fantasias sobre o esplendor perdido, mesmo quando os credores obtêm uma ordem de despejo que desapropria a família do seu único bem.

O narrador é Maria Clara, que reconstrói a história da sua família através dos fragmentos do seu diário, monólogos longos ou breves confissões a um psicólogo. É provável que o exercício da psiquiatria tenha ensinado Lobo Antunes a necessidade de destruir qualquer aparente ordem para reproduzir a maneira de como actua a memória. Talvez seja esta a razão para o narrador se desdobrar em outras vozes e inclusive chegue a questionar a sua idade e género. O resultado não é um enredo caótico mas uma exacta conjugação de vozes, com a unidade de uma grande oração. A polifonia do relato invoca isto a que poderíamos chamar a ética do leitor, segundo a qual não há experiência estética sem um esforço por complementar a obra que se lhe interpela.

Não entres tão depressa... é precedida de um poema de [Eugénio de] Andrade, que especula sobre a devastação do tempo. O curso das formas até à luz não poderá impedir a sua sentença de sombra. Essa é a conclusão de Maria Clara, possível filha ilegítima, adolescente que descobre a sua condição de mulher adulta e mãe, quando ainda tenta encaixar os fragmentos da sua infância. As suas incursões ao baú do sótão apenas lhe permitem resgatar uma foto velha com uma criança balançando num cavalo de madeira. Uma imagem desbotada para recompor um passado escurecido pela culpabilidade, o medo e a mentira. Maria descobrirá que nada é definitivo. A transformação faz parte da natureza das coisas. O murmúrio dos freixos ou a luz nas glicínias insinuam-lhe que não somos nós mas as coisas que nos observam, evidenciando a nossa inserção num mundo onde apenas se reflectem as nossas palavras. Definitivamente, uma grande obra que não se conforma em narrar uma história, antes tenta explorar as possibilidades da linguagem para explicar as relações - sempre equívocas, sempre imperfeitas - entre a memória e a experiência. Tal como Benet ou Faulkner, Lobo Antunes pretende muito mais do que escrever romances. A sua intenção é criar um mundo. Os seus livros corroboram esta sua condição de demiurgo.
 

por Rafael Narbona
05.06.2002
citado de El Cultural
[traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos]

Mario Merlino: opinião sobre Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura


Como se lendo a noite fermentasse

edição Siruela (Espanha), 2002

Em português, o título tem sete palavras: Não entres tão depressa nessa noite escura. Sete, como os dias da criação que servem de tecido base, linha divisória entre as partes do extenso relato de António Lobo Antunes. Em castelhano são oito, por ser língua menos rica em contracções. Neste caso o tradutor não encontrou melhor saída que a literal, porque o título acarreta estas palavras.

NÃO. O "não" da desagregação. Uma personagem, Maria Clara, que se dispersa nas vozes das outras, que se escreve a si mesma e escreve os outros como se fosse eles, como autora do universo. O "não" que impõe limites ao leitor para que substitua a preguiça por outro prazer talvez mais voluptuoso: o de deixar-se levar, fazer do seu corpo o corpo de Maria Clara que por sua vez é feito dos fragmentos de outros corpos. O "não" da atenção dispersa, o não do abismo que alude a si mesmo uma entrega amorosa. De modo que, leitor,

NÃO ENTRES como quem espera acção e mais acção, movimento exterior, sacudidas, superação heróica de abismos insondáveis, maiúsculas de triunfo. Sê tu Maria Clara, que é dizer Virgílio e Dante ao mesmo tempo no seu trajecto pelo inferno, agridoce jardim das delícias, ou as figuras femininas e as masculinas.

NÃO ENTRES TÃO firme. Abandona a ideia de firmeza. O mundo é resvaladiço. Este romance é um poema e oferece um formoso exercício de leitura poética da prosa ou, as you like, leitura prosaica da poesia.

NÃO ENTRES TÃO DEPRESSA. Ou fá-lo sem pressa e sem pausa. O melhor que estas páginas têm é que chovem todo o tempo. Chove a dor e os maus tratos. Chove «Maria Clara-o-homem-da-casa». Chovem as doces dolentes palavras da delicadeza: «A velha senhora pediu um dedo de vinho da Madeira às escondidas. Metade derramou-se no colo, mas a metade que sorveu deu-lhe ânimo». A humidade é coisa poética. Por isso

NÃO ENTRES TÃO DEPRESSA NESSA obra intitulada em castelhano No entres tan deprisa en esa noche oscura. Faz o seguinte: inicia a viagem num comboio que pare em todos os apeadeiros. Toda a leitura é uma viagem. O poema de Lobo Antunes, distribuído pelos sete dias da criação, brincou com o rigor perverso do mito: uma semana, sim, mas impregnada de todas as turbulências, os arrebatamentos, o caos oportuno e inoportuno da consciência.

NÃO ENTRES TÃO DEPRESSA NESSA NOITE. Ou inventa a noite que quiseres. Ao fim e ao cabo, ao princípio foi o caos e as trevas. E se a morte está ao virar da esquina, também nos resta fazer da vida uma «desordem prudente» ou uma «ordem demente».

NÃO ENTRES TÃO DEPRESSA NESSA NOITE ESCURA, porque a noite fermenta, como a escrita, como o poema. Porque esta noite vamos fazer a noite lentamente (Alejandra Pizarnik?), por mais que outros teimem não há outra forma que não seja lendo, que é gerúndio em arrebatar o mundo, em condensar a noite muito depressa.
 

por Mario Merlino
tradutor espanhol de António Lobo Antunes
07.06.2002
citado de El Mundo
[traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos]

20 de dezembro de 2004

Rosemary Gonçalo Afonso disserta sobre Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura


Instantâneos na noite escura de António Lobo Antunes

Não entres tão depressa nessa noite escura é o 14º romance de António Lobo Antunes. Dividida em 35 capítulos e sete sequências, ordenadas conforme os dias da criação do mundo, a narrativa reúne um conjunto de vozes que se cruzam, entrecortadas por fragmentos de diálogos, monólogos incompletos e frases inacabadas, reveladores de uma instigante viagem através da memória.

A doença do pai das irmãs Ana Maria e Maria Clara desencadeia as reflexões que evidenciam a insatisfação pessoal das personagens e o sentimento de fracasso que as domina.

As formas de expressão escolhidas pelo autor são as visitas ao psicólogo e o diário de Maria Clara, dona da voz mais frequente que se percebe na polifonia de vozes que percorrem a narrativa. Sem nenhuma ordem aparente na sequência cronológica dos acontecimentos, a memória impõe-se como o único fio condutor da estória.

Uma vez que a cronologia e a veracidade dos fatos são pouco importantes, percebemos que tornar críveis as personagens não é uma prioridade, e sim mostrar as experiências que as marcaram mais profundamente. Esse aspecto da narrativa mostra que o enredo é o que menos interessa ao autor, reiterando o que afirmou durante uma entrevista para o jornal "Folha de São Paulo": Para mim, muitas vezes a intriga não é mais do que o prego no qual se penduram os quadros. Ou ainda, citando Clarice Lispector: As palavras são apenas anzóis, para apanhar o que está nas entrelinhas.[1]

Embora o valor da intriga seja minimizado, não podemos ignorar que as situações descritas nos revelam, sutilmente, um retrato da sociedade portuguesa daquele período, cobrindo um espaço desde os primeiros anos após a Revolução de 25 de abril de 1974 e o fim dos anos 90, quando alguns benefícios da integração à Comunidade Europeia passaram a fazer parte do dia-a-dia dos portugueses.

São esses dois aspectos: a viagem pela memória e os instantâneos da realidade exterior, que pretendemos destacar no presente trabalho.

A viagem pela memória é sugerida desde o capítulo inicial, que começa com lembranças, preenchidas pela imaginação: O meu pai nunca me deixou entrar aqui. Devia sentar-se na cadeira de baloiço e olhar do postigo o jardim lá em baixo, o portão, a rua, eu pequena a brincar às fadas com a minha irmã no rebordo do lago[2].

Mais do que saudades da infância, de um tempo em que os problemas parecem tão distantes, a frase revela que a repressão foi um aspecto marcante na educação de Maria Clara. Embora o uso do imperativo seja frequente entre os portugueses, mesmo em situações de total descontração - e o romance deixa transparecer essa característica pela repetição das frases: Cala-te![3] ou Calem-se[4] -, é significativa a intensidade com que as frases imperativas povoam a memória da personagem: Pede desculpa ao teu avô Maria Clara.[5] Precisamos ter uma conversa menina.[6] Vá para casa Clarinha.[7].

Em sua interpretação filosófica do pensamento de Freud, Marcuse nos lembra que, de acordo com a teoria deste

a história do homem é a história da sua repressão. A cultura coage tanto a sua existência social como a biológica, não só partes do ser humano, mas também a sua própria estrutura instintiva. Contudo, essa coação é a própria precondição do progresso. Se tivessem liberdade de perseguir seus objetivos naturais, os instintos básicos do homem seriam incompatíveis com toda a associação e preservação duradoura: destruiriam até aquilo a que se unem ou em que conjugam.[8]


Submetida à repressão constante, a natureza do homem é inevitavelmente transformada, assim como os seus "valores", para garantir o bem-estar da sociedade.

Ao nascer, os instintos do homem conduzem-no à busca da concretização imediata de todas as suas necessidades, ou seja, à busca do prazer. Ao controlar esses instintos, para satisfazer às exigências da sociedade, o homem transforma o princípio de prazer, sugerido por Freud, em princípio de realidade. (...) O indivíduo chega à compreensão traumática de que uma plena e indolor gratificação de suas necessidades é impossível.[9]

Essa "compreensão traumática" nem sempre é consciente. O conjunto de regras impostas pelas diferentes instituições presentes na sociedade - família, escola e igreja, entre outras - impedem a realização imediata das necessidades individuais, mas não eliminam essas necessidades. Para viver em sociedade, o indivíduo concorda apenas em adiar a realização dos seus desejos, ou em fazer concessões, transformando-os. Quando o cotidiano não satisfaz aos seus anseios ele sente-se burlado, perdido. E, sobretudo, muito só.

A insatisfação com o momento presente, a solidão e o ensimesmamento são as afinidades que se percebem entre personagens do romance. Os fragmentos de diálogos mostram que apenas assuntos superficiais e pequenos problemas imediatos são discutidos entre os familiares. As personagens não conseguem expor abertamente as suas angústias: se eu pudesse conversar com alguém e podendo conversar com alguém se conseguisse falar[10]. A dificuldade de comunicação faz com que se sintam aprisionadas.

No último capítulo, Maria Clara, sufocada pela rotina, é assaltada pelo impulso de fugir, literalmente.


Hoje estava capaz de me ir embora: as paredes da casa apertam-me, tudo me parece tão pequeno, tão inútil, tão estranho. Entrar na cozinha. Fazer o almoço. Servi-lo. Esperar pela refeição seguinte. Apagar o fogão. Servi-la Atender a meio da tarde a voz do meu marido a saber como estou, receber as cartas da Ana de que não compreendo o endereço. Abandonar as cartas de Ana de que não compreendo o endereço. Abandonar os telefonemas e as cartas também. Hoje estou mesmo capaz de me ir embora antes que fique louca como os cães, correndo em círculos na noite[11].


Nada ingênua, Maria Clara não se vai embora. Sabe que não pode fugir de si mesma tão facilmente: "o diário a persegue". Precisa empreender a viagem interior, enfrentar os seus "fantasmas", percorrer "os atalhos entre o que deixamos e o que esperamos encontrar", mencionados na nossa epígrafe. Tentar descobrir quando foi que se afastou da menina que "brincava às fadas com a irmã no rebordo do lago".

Não é por acaso que a epígrafe do romance foi retirada de um tratado de psicologia. Embora já não exerça com frequência a profissão de psiquiatra, o autor não o é impunemente. Ele próprio afirma, em entrevista ao Jornal de Letras:

[...] o que os estrangeiros dizem que trago para a literatura não é mais do que a adaptação à literatura de técnicas de psicoterapia: as pessoas iluminarem-se umas às outras e a concomitância do passado, do presente e do futuro.[12]


Respeitando as técnicas de psicoterapia, a narrativa dá livre curso aos corredores da memória e é a fantasia que domina. Como afirma Marcuse:

A libertação psicanalítica da memória faz explodir a racionalidade do indivíduo reprimido. À medida que a cognição cede lugar à recognição, as imagens e impulsos proibidos da infância começam a contar a verdade que a razão nega. A regressão assume uma função progressiva. O passado redescoberto produz e apresenta padrões críticos que são tabus para o presente. Além disso, a restauração da memória é acompanhada pela recuperação do conteúdo cognitivo da fantasia.[13]


As personagens são construídas e desconstruídas frequentemente, modificadas pelo conteúdo cognitivo da fantasia durante o exercício de restauração da memória. Talvez seja tudo fruto da imaginação de Maria Clara, mesmo as vozes que não lhe pertencem, como é sugerido no penúltimo capítulo em frases como: Deixei de me inquietar porque afinal está tudo como sempre foi, a moradia intacta, o meu pai connosco,[14] ou ainda, na cave, no sótão, atrás do guarda-fato, mas qual guarda-fato, no compartimento com porta para a escada, mas qual escada[15].

Os fatos são questionáveis, mas deixam perceber os tabus que assombraram Maria Clara, e que assombram a sociedade, entre eles: as dúvidas sobre a sexualidade (duas frases a perseguem): - A Maria Clara é o homem da casa.[16] e (amor entre mulheres normalidade ou doença: o ponto de vista dos[17]; o envolvimento de familiares com atividades ilegais (o pai é traficante de armas): -Quais armas? / um baú de facturas no sótão, morteiros, bazucas, revólveres, minas, a minha mãe se eu lhe contasse / (descanse pai, não conto)[18]; e os sentimentos pouco nobres (como a inveja): (...) a expressão da Ana ao zangar-se comigo, um grito de raiva a aumentar-lhe a boca, a beleza que me fazia sofrer e eu odiava, o cabelo loiro e o meu quase preto[19]

Tentar descobrir o momento em que perdemos o rumo da nossa própria vida, eis uma proposta antiga do autor. Em seu livro Memória de Elefante um personagem angustiado avalia o seu passado, buscando respostas para a pergunta que o persegue e que deixa tão evidente a sua sensação de fracasso: Quando é que eu me fodi?[20].

Em Não entres tão depressa nessa noite escura o autor consegue se superar e vai muito além de sugerir essa busca, indica caminhos: a viagem interior; nunca desvinculada da avaliação dos acontecimentos externos ou dos hábitos de comportamento que se verificam na sociedade que nos cerca. Uma grande interrogação, porém, permanece: o meio será causa ou consequência das nossas crises existenciais?

Na busca de respostas para o seu próprio conflito interior o autor expõe o seu país: também Portugal está em causa no romance.

Um Eça de Queiróz contemporâneo, assim consideramos Lobo Antunes. Retratar a sociedade portuguesa é sua outra proposta, sem alegorias, confirmando o que declarou ao jornal "Folha de São Paulo" durante uma entrevista: "não sou Deus, não invento nada"[21].

Vive imaginando as suas personagens e até sonha com elas. O contacto com a sociedade dá-se através de uma janela virada para o Tejo, numa casa que tem pouco mais do que o indispensável. Aquele é o ponto de observação do 'psiquiatra social'. E o que observa ele? Um mundo doente, demente, vazio, desesperado, apático, sem sinais de esperança — uma catástrofe. Mas de tanto olhar através do vidro de uma janela, acabou por colher o seu reflexo. António Lobo Antunes transformou-se numa personagem do microcosmos lusitano, digna de um dos seus romances.[22]

Menos acusador do que em obras anteriores, mas igualmente crítico, Lobo Antunes aguarda o "salto qualitativo" que nem a Revolução de 25 de abril de 1974 nem a adesão à Comunidade Europeia, em 1986, proporcionaram aos portugueses. Talvez, em nenhuma de suas obras anteriores tenha sido tão benevolente com os seus compatriotas. Retrata-os com uma surpreendente sensibilidade e mostra um notável cuidado com a linguagem, tornando viável a categoria de poema que ele mesmo atribui ao romance. Criar uma certa confusão na categoria aponta, com certeza, para a crise de gêneros que se percebe nos romances contemporâneos, mas também nos prepara para passagens indiscutivelmente poéticas, como a seguinte:

não pedia auxílio, não chamava ninguém, limitava-me a escutar o Tejo e os ramos em torno do Casino inventando uma brisa que não existe em julho e uma desordem de morcegos que o rio despedira há séculos para as faldas da serra[23]

A realidade exterior e os momentos históricos vividos pelo país são reproduzidos exaustivamente. Passamos a destacar alguns desses instantâneos:

Ao extinguir os abusos praticados pelo Estado Novo (regime ditatorial imposto por Salazar) a Revolução foi traumática para uma parte da população, que viu os seus privilégios cerceados e sua estabilidade econômica abalada. A decadência obrigou-os a alterar sensivelmente o seu estilo de vida para sobreviver com as novas limitações financeiras. Como nos lembra Joaquim Vieira: A elite dirigente do antigo regime, a sua oligarquia económica e a classe média alta são, na realidade, as vítimas da revolução.[24]

Exemplificando esse aspecto, lembramos o envolvimento do pai de Maria Clara com o tráfico de armas, apesar dos riscos envolvidos, para manter o padrão de vida a que a família estava habituada. A ausência do dinheiro proporcionado por esse comércio seria, seguramente, o fim de uma série de luxos até então rotineiros:

Nesta casa esvaziada de tudo excepto de reposteiros que envelhecem e lembranças de grandeza, a minha mulher obrigada a vender pratos, tremós, a mandar embora o chofer, a descuidar os canteiros, o jardim transformado num matagal de ervas ruins açucaradas pelas cordas que sobram (...) o escritório aberto a livrá-las do relento dos árabes e pretos incrustado nos estofos, nos móveis, o dinheiro deles a permitir à minha mulher que o chofer e os canteiros, que a modista, que as compras, [25]


A revolução proporcionou mudanças rápidas mas, apesar do ideal de liberdade, não conseguiu eliminar os inúmeros preconceitos de uma sociedade altamente estratificada, como o era (e ainda é) a sociedade portuguesa. Tanto os preconceitos raciais como os de classe social são evidenciados no decorrer da narrativa; a própria história do pai de Maria Clara, possivelmente de origem humilde, deve ser esquecida: o teu pai não tem família quando nos conhecemos já não tinha família.[26] e eu danada com as generosidades do meu pai (...) os cuidados dele com os pobres, nunca diante de nós, às ocultas, como se pertencesse à mesma raça e era óbvio que não pertencia apesar das peúgas de risquinhas e do modo de pegar nos talheres.[27]

A estratificação social foi mantida pelo antigo regime com tanta naturalidade, que fazia lembrar o período da monarquia. Essa prática acentuou preconceitos que não serão facilmente ultrapassados:

(...)

não sei defini-lo mas farejo-o à légua
que vocês, sem dar por isso, nos pegam, é a
miséria que cheira, não são os corpos nem a roupa,
a miséria que cheira como a vida cheira, qualquer coisa desagradável que
carregam convosco[28]


Outra consequência da agitação que se verificou logo a seguir ao 25 de abril foi a invasão de propriedades. Como nos lembra Joaquim Vieira, em suas Crónicas do séc XX.

Descobre-se a ocupação como uma eficaz arma de contestação à posse ou orientação tradicionais do que é ocupado. Ocupam-se palacetes, quintas, terras, matas, fábricas e outras empresas, residências, restaurantes, escolas, clubes, órgãos de informação, câmaras municipais, juntas de freguesia, casas do povo, ministérios e até hospitais. A ocupação torna-se uma actividade rotineira em 1975, quase sempre com o beneplácito e proteção dos militares.[29]

No romance, essa situação é também lembrada:
 
Os motoristas, os carregadores, os operários
A baterem a sola no chão como se enxotassem um bicho
- Vá-se embora senhora
Donos da gente como sempre que os pobres
Quando foi da revolução ocuparam-nos as casas[30]

Perdidos num emaranhado de crises, as personagens nos dão conta da realidade que se alterara. Sejam elas frutos da imaginação de Maria Clara ou não, mostram a dificuldade de adaptação de uma grande parte da população à nova realidade do país. Destacamos a avó, que saía todos os dias às ocultas, a seguir ao almoço, de boininha ridícula no cocoruto, a bolsa de retrós e as suas jóias falsas, para jogar na roleta do Casino.[31] ; a empregada Adelaide, sombra protetora da patroa a quem chamava de menina e que tinha como tesouro uma moldura quebrada com elas duas novíssimas, ou que a empregada jurava serem as duas, dissolvidas numa mancha castanha[32]; e ainda o avô, que uma tarde trancou-se no cubículo que prolongava o escritório e quis matar-se com a pistola descarregada[33]

Entre aqueles que já eram adultos em 1974, os mais velhos no século atual, ainda é possível detectar a atitude de fuga da realidade por parte dos privilegiados do antigo regime; e a subserviência dos menos favorecidos, resultante da dependência e idolatria que desenvolveram pelos seus patrões no passado.

Não entres tão depressa nessa noite escura nos revela a narrativa contemporânea com todos os seus impasses: a fragmentação, o desaparecimento da trama e dos personagens (que são desconstruídos), a ausência do narrador, a contestação política (mostrando os valores decadentes, a crise dos valores burgueses e a crítica ao lado social). Aponta ainda para a crise dos valores estéticos ao chamar o romance de poema.

Espelho da sociedade portuguesa, o romance é uma tentativa do autor de encontrar a si mesmo através da arte. A viagem interior que sugere seria o exercício indispensável para tentarmos compreender as nossas próprias angústias.

Na circularidade que a narrativa oferece, proporcionando o diálogo com o passado na busca de um sentido para o momento presente, voltamos à epígrafe escolhida por Lobo Antunes para abrir o seu trabalho e fechamos com ela o nosso:

Los locos van libres por las salas y pasillos o
por las habitaciones de los hombres, sin que
ello inspire el menor recelo de evasión o
desorden. Incluso algunos de ellos,
pertenecientes a familias distinguidas,
acompañan a las visitas, hacen los honores de
la casa. Guardan las más suaves formas de
cortesía y buena educación.[34]

1] ELEK MACHADO, Cassiano. "Fado' ensaia todo Lobo Antunes, diz crítica. Jornal Folha de São Paulo, 03 ago. 2002, p. E12.
[2] LOBO ANTUNES. Não entres tão depressa nessa noite escura. 5 ed. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2000, p.15.
[3] Idem, p.517 e 519. [4] Idem, p.45. [5] Idem, p.60. [6] Idem, p.113. [7] Idem, p.525.
[8] MARCUSE, Herbert. Eros e Civilização — uma interpretação filosófica do pensamento de Freud. Rio de Janeiro: Zahar Editores,1968, p.33.
[9] MARCUSE, Herbert. Op.cit., p.34.
[10] LOBO ANTUNES. Op. cit., p. 388. [11] Idem, p. 551.
[12] LOBO ANTUNES. " A constância do esforço criativo". Jornal de letras, artes e idéias. Ano XVI/n.677. Lisboa: 25 set. — 8 out, 1996, p.14.
[13] MARCUSE.T. Op cit., p. 39.
[14] LOBO ANTUNES. Não entres tão depressa nessa noite escura, p. 527. [15] Idem, p. 527. [16] Idem, p. 30. [17] Idem, p. 237. [18] Idem, p. 45. [19] Idem, p. 47.
[20] LOBO ANTUNES, António. Memória de Elefante. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1991, p.25.
[21] ELEK MACHADO. Op. cit., p. E13.
[22] HALPERN, Manuel. "Personagem de Romance". Jornal de Letras, artes e idéias. Ano XX / nº783. Lisboa. 04-17 out. 2000.
[23] LOBO ANTUNES. Não entres tão depressa nessa noite escura, p.196.
[24] VIEIRA, Joaquim. Portugal séc. XX — crónica em imagens 1970-1980. Lisboa: Círculo de Leitores, 2000, p. 163.
[25] LOBO ANTUNES. Não entres tão depressa nessa noite escura, p. 207.
[26] LOBO ANTUNES. Não entres tão depressa nessa noite escura, p. 42. [27] Idem, p. 264. [28] Idem, p. 143.
[29] VIEIRA. Op. cit., p. 164.
[30] LOBO ANTUNES. Não entres tão depressa nessa noite escura, p.237. [31] Idem, p.17. [32] Idem, p.21. [33] Idem, p.24. [34] Idem, p.09.

 
por Profª Rosemary Gonçalo Afonso
Janeiro - Março 2004

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...