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Mensagens

A mostrar mensagens de Fevereiro, 2015

«O prodígio do prodígio», opinião sobre Eu Hei-de Amar Uma Pedra

António Lobo Antunes: Eu Hei-de Amar Uma Pedra  - O prodígio do progídio

Precisamente quando eu achava que "O Manual dos Inquisidores" seria sempre o meu romance preferido de António Lobo Antunes, "Eu Hei-de Amar Uma Pedra" vem contrariar-me. "Eu Hei-de Amar Uma Pedra" é, desde logo, um romance diferente no processo de escrita. Em vez de uma história imaginada, tem como enredo uma história verídica. António Lobo Antunes encontrava-se a escrever num gabinete de hospital, quando um colega seu, psiquiatra o chamou para ouvir o relato da bizarra história de amor de uma mulher. Descrita no livro como
"Doente de 82 anos, sexo feminino, idade aparente coincidindo com a real, Orientada no tempo e no espaço, alo e heteropsiquicamente, memória conservada de acordo com os parâmetros etários, contacto adequado, sintónico embora retraído, com dificuldade em verbalizar o motivo da consulta"é a sua história que faz "Eu Hei-de Amar Uma Pedra".
A mulher, …

Ana Paula Arnaut disserta sobre O Arquipélago da Insónia

O Arquipélago da Insónia: litanias do silêncio


[...]

As páginas de O Arquipélago da Insónia não ecoam só personagens, temas e motivos dos romances anteriores; nelas, António Lobo Antunes parece ter conseguido o silêncio, o intimismo, (quase) completo, absoluto, que, em diversas ocasiões, disse querer alcançar. Esta sensação não decorre apenas do facto de as personagens parecerem falar para dentro de si mesmas, ou de os substantivos “silêncio” e “fantasmas” percorrerem todo o romance, ou, ainda, de a determinado momento, pela voz do autista, ficarmos a saber que “isto não é um livro, é um sonho”... e os sonhos não têm sons. Para o silêncio a que nos referimos concorre, ainda, o uso de uma linguagem substancialmente despojada do que muitos leitores classificam como ruído e que o próprio Lobo Antunes designa por “gordura” ou “banha”, referindo-se à excessiva utilização do palavrão, de metáforas, comparações, adjectivos, advérbios de modo, etc. Ao contrário dos livros anteriores, principalm…

Ana Fernandes sobre Caminho Como Uma Casa Em Chamas (blog Delfos)

Até a pedra mais pequena encerra um mundo em si. Até a mais corroída pela erosão, até a mais invisível. Ver o que está para lá dessa pedra desgastada, observar os seus mundos em conflito, saber que esses mundos existem, é o que a literatura nos pode ensinar. A partir daí, para mim, todas as discussões sobre o que a literatura pode ou não pode, deve ou não deve, não têm importância nenhuma.
Se para João Botelho o cinema se resume “a luzes e sombras e seres-humanos aflitos no meio”, a literatura não é muito diferente uma vez que todas as personagens procuram um lugar ao sol para se aquecerem. Mesmo as mais comuns, mesmo as que vivem no mais banal dos prédios no mais banal dos bairros. Ir além da aparente erosão dos rostos, além do que transbordam para fora, significa encontrar um mundo não menos verdadeiro nem menos válido. Só alguém com mestria é que o consegue descrever com uma tal sensibilidade que põe tudo a descoberto e desarma. A literatura também é isso, desarmar e ganhar o péssim…

António Carinha - O Manual dos Inquisidores: a escrita com música, a casa sem telhado

Há uma família rica. O pai é ministro, recebe a visita do professor Salazar, que o ouve para decidir os destinos do país, têm criadas e uma governanta, uma quinta com boa casa, jardins cuidados, uma boa vida.
Há uma família pobre. O filho vive numa casa destelhada, com janelas sem vidraças, recebe a visita da filha para ralhar com ele, nos jardins cresce capim, as cuecas misturam-se com os talheres na gaveta da cozinha.
A família é a mesma. A casa também. Os tempos é que mudaram. A família rica vivia no tempo da ditadura. A família pobre surgiu com a revolução que, em Portugal, no dia 25 de abril de 1974, tornou os portugueses livres.
- Livres de quê?
já que a miséria permanecia a mesma só que com mais gritaria, mais bêbedos e mais desordem por não haver polícia […], cansaram-se de besuntar os muros a giz, o do café desistiu do acordeão, os doentes do hospital continuavam na cerca a sua procissão de agonizantes […]
Nesta obra, António Lobo Antunes expõe as glórias e as misérias de uma famí…

Alice Ferney em Le Figaro - «Ser e ter sido» crítica a tradução francesa de Sôbolos Rios Que Vão

Ser e ter sido
António Lobo Antunes - O escritor conta a sua estadia no hospital durante o tratamento de um cancro. Desconcertante e sublime.
As obras-primas, disse Proust, são escritas numa língua estrangeira. Falam a língua de uma forma como nunca se havia entendido. Constroem no centro da sintaxe contradições, combinações, silêncios, que despertam os nossos olhos para um nunca visto. Como Céline, a quem escrevera na sua juventude, o escritor português António Lobo Antunes pertence a essa espécie de criadores da escrita. Ninguém escreve como ele, e ele não escreve como ninguém.
Resumir este grande livro é quase um ultrage: Sôbolos Rios Que Vão [Au bord des fleuves qui vont] (os rios míticos, os rios de Portugal, as torrentes de emoções que em nós fluem, os rios da memória e do tempo) relata os quinze dias do Senhor Antunes num hospital de Lisboa, onde é operado a um cancro, «o ouriço». Sendo nada mais que isso, é contudo dentro de um oceano, de um abismo, de uma floresta densa ou, na r…

Entrevista de 2001, ao El Cultural - «Em literatura gosto de sentir o sangue»

Uma entrevista com treze anos, dada a um jornal espanhol, nunca publicada aqui, mas que agora passa a fazer parte do nosso acervo. António Lobo Antunes falava de temas de que viria a voltar em entrevistas posteriores (até mesmo nas mais recentes), mas é curioso ler da sua posição iberista versus a europeísta; da sua parca experiência como candidato comunista; da sua conhecida obsessão em desmitificar o papel do escritor, e também dos prémios literários, como o Nobel; da sua paixão pelos clássicos; e, enfim, da sua irreverência em pequenos detalhes que muito gostaríamos de ver reunidos num suposto livro de memórias suas. Posições e afirmações em (quase) oposição ao que tem proferido em entrevistas recentes. 


«Em literatura gosto de sentir o sangue»
El Cultural Entrevista de Martín López-Veja 07.11.2001

Lobo Antunes escreve com esferográfica. Pousa-a no papel e pelo rio de tinta navegam as personagens de um mundo ora real, ora ficcional, um mundo de trágicos dias em Angola e nos trilhos de B…

Entrevista à LER Dezembro 2014 «O que importa é que a gente escreva»

Revista LER Entrevista de Francisco José Viegas Dezembro de 2014
Pouco importa que o tempo julgue. O que importa é que a gente escreva.
Depois da publicação de Caminho Como Uma Casa Em Chamas, António Lobo Antunes já terminou um novo romance, A Natureza dos Deuses, e está a escrever outro. No entanto, diz, não há «sentimento de urgência» - pelo contrário, trata-se de serenidade e plenitude.


Veio agora da Holanda e da Bélgica, onde foram lançados livros seus em festivais literários. Li uma entrevista sua ao Diário de Notícias, na qual diz que queria regressar a Lisboa porque precisava de continuar a escrever o livro, esse que está aí. É como se tivesse um sentimento de urgência em relação ao livro que está a escrever. Isso é de agora ou é de sempre? É de sempre. Porque já me aconteceu, por exemplo, interromper um livro por 15 dias e não ser capaz de retomá-lo. Tive de atirar o material todo fora. É que já tinha perdido o ritmo… No fundo, tinha perdido o livro. Porque eu não escrevo com um pl…