30/07/2014

Da apresentação de Não É Meia Noite Quem Quer na Livraria Arquivo de Leiria em Novembro de 2012


Citado do Jornal de Leiria, edição on-line do dia 22.11.2012:

António Lobo Antunes: "Não gosto de livros fáceis como não gosto de mulheres óbvias"

O público presente na Livraria Arquivo fez de entrevistador, numa conversa que publicamos.

António Lobo Antunes (ALA) esteve n[o passado dia 16 de Novembro de 2012] pela quarta vez na Arquivo Livraria, em Leiria, para apresentar o [...] livro Não É Meia Noite Quem Quer. A sala encheu para ouvir um dos nomes cimeiros da literatura mundial e, como é habitual, a intensidade das suas palavras provocaram, por vezes, um ambiente denso,  introspectivo e de reflexão. Desta vez, no entanto,  houve também espaço para momentos de humor mordaz que provocou fortes gargalhadas no público. Sem “papas na língua”, Lobo Antunes falou de tudo sem o menor pudor, sem tabus, provando que, como ele próprio referiu, vive sem gavetas, não escondendo nada. 

Depois de algumas, poucas, palavras sobre o livro, que disse já estar um bocado longe por já ter sido acabado há cerca de dois anos, mas que foi especial de escrever, desafiou o público para uma conversa, não sem antes ter criticado os jornalistas/entrevistadores: “Aquilo que interessa ao entrevistador, normalmente, não me interessa a mim. Sobretudo quando é imprensa escrita, eles cortam e só põem o que acham que interessa aos leitores ou aquilo que de alguma maneira confirma a ideia que têm na cabeça deles acerca de mim. Os pensamentos saem sempre trocados, os pensamentos saem sempre truncados, o que se diz é sempre alterado. Além disso, toda a reprodução daquilo que nós dizemos, sobretudo quando é parcial é injusto”. Desta vez, o papel de entrevistador coube ao público, se bem que a parte mais ingrata ficou para o JORNAL DE LEIRIA. De facto, não é fácil passar para o papel as suas palavras, tantos são os desvios que vai fazendo ao longo da conversa e as histórias que, aparentemente vindas do nada, vão surgindo. Esperamos que estas páginas não sejam mais uma razão para Lobo Antunes criticar a imprensa escrita...

O mote foi dado pela escritora Sílvia Alves: Arriscando o seu mau humor...
(ALA interrompe) Eu não tenho mau humor. Está aqui este senhor [José Francisco Feição] que pode dizer que eu sou doce, agradável e simpático. 

A propósito de ter dito que há dois meses que não escreve, era capaz de imaginar o momento em que decida mesmo não escrever? 
Eu nunca pensei publicar livros na minha vida. Nunca. Eu quando tinha três anos tive uma tuberculose e fiquei na cama durante muito tempo. A minha mãe tinha-me ensinado a ler. E como estava ali o dia todo, comecei a escrever. Era muito engraçado e muito divertido para uma criança porque punha as palavras umas a seguir às outras e aquilo fazia sentido. E então, aí com dez anos já tinha uma obra considerável. Deitava aquilo tudo fora ou queimava na figueira do quintal. Nunca tinha pensado publicar nada. Uma vez um amigo meu, o Daniel Sampaio, viu lá um monte de papéis e perguntou o que era aquilo. Era a Memória de Elefante, que não se chamava assim. E ele perguntou se podia levar a uma editora. Levou à Bertrand, em que directora editorial é a minha editora agora. Nem houve resposta e andou durante dois ou três anos em bolandas de editora em editora. Até que apareceu uma editora pequenina chamada Vega que o publicou.. Tinha um editor que eu nunca tinha visto que tinha uma característica que eu pensava que fosse única mas é comum a muitos editores: apareciam muitas raparigas para editarem poesia e ele desde que dormisse com elas publicava. E soltava a grandeza da alma de um editor e a sua seriedade profissional. A mim nunca me convidou para dormir, o que me desiludiu. Queria que eu mudasse o nome, retirando o Antunes porque era feio. Obrigou-me a mudar o título, que era comprido. Entretanto eu ia escrevendo livros. Tinha lá um livro que depois se veio a chamar os Cus de Judas que se chamava Memória de Elefante e transferi o título para o primeiro. Fui de férias e quando voltei aquilo tinha vendido não sei quantas edições. Foi uma loucura com aquele livro. Como o segundo já estava pronto, saiu em Outubro. Estávamos a vender muito, com o terceiro vendemos ainda mais, e eu recebi uma carta de Nova Iorque de um agente que na época trabalhava com grandes escritores latino-americanos. Achei que era uma piada nem respondi. Ele mandou uma segunda carta e achei que era chic ter um agente em Nova Iorque e respondi. Mas, passou-se o mesmo que se passou em Portugal, ninguém queria o livro. E um dia ele telefona-me e diz para ir a Nova Iorque porque uma grande editora iria editar o livro. Cheguei a Nova Iorque e fomos ao editor. Ele disse-me: vou publicar o seu livro. E eu cheio de esperança perguntei: gostou? “Nem li”, respondeu. Então porque é que vai publicar? “Porque se o livro tiver má critica não compro mais nenhum livro a este agente”. O livro saiu e nós conseguimos sair na primeira página do New York Times, do Washinton Post, do Los Angels Times e do Chicago Tribune. Conquistámos o Mundo naquele momento. E entretanto começam a aparecer editoras por todo o Mundo. Eu não estava preparado para isso e de repente fiquei rodeado de agentes, editores, tradutores, jornalistas, todo aquele Mundo um bocado a parasitar, cheio de competição, de intriga, de inveja que é o Mundo dos livros. Eu tinha uma ideia completamente romântica. Pensava que houvesse uma grande fraternidade entre os artistas, mas não há. Há mesquinhês, inveja, competição.... De uma maneira geral era muito mau para o que eu estava à espera de encontrar. Então sou preso por aquela engrenagem. Por exemplo, em França assinei por uma editora que começou a comprar-me livros que eu ainda não tinha escrito. E de repente tinha montes de massa, tinha editoras por todo o lado, tinha críticas por todo o lado, e fico preso naquela engrenagem. Eles já me tinham comprado três livros e eu tinha que os escrever. Isto foi sendo assim, os prémios foram aumentando, havia prémios por todo lado, doutoramentos honoris causa, aquela porcaria toda, condecorações. Era muito estranho, de repente pagarem-me por aquilo que eu pagaria para fazer. Lembro-me de ter assinado para um livro em Espanha por um milhão de euros. Deu para comprar uma casa e um Volvo que era uma coisa... Último modelo que não havia outro em Portugal... sentia-me o Cristiano Ronaldo. E depois isto começou a cansar-me a partir de certa altura. Os convites estão a aparecer constantemente. Convidam-me porque escrevo livros, mas se aceito todos os convites não tenho tempo para escrever nada. Então comecei a sair muito menos. Agora saio muito pouco, duas três vezes por ano. Cada vez gosto mais de estar em Portugal. Sinceramente já estou cansado disto tudo.

E a sua vida privada?
A minha vida privada começou a tornar-se insuportável. Vou a qualquer lado é só fotografias, pessoas que vêm pedir autógrafos, amigos que não sei quem são. É horrível, a vida privada começa a desaparecer. Tirei o número de telefone da lista, não tenho telemóvel, como não tenho computador, como não tenho cartão de crédito, não tenho cartão multibanco nem nada. Ando com a massa toda no bolso. Estou farto de pensar em voltar para a Beira Alta,  ficar lá em paz e sossego e que se esqueçam de mim. Tem sido infernal. As minhas filhas protestam de todas as maneiras. Hoje uma delas disse-me: “o pai pensa que essas gajas todas andam consigo por o pai ser bonito?” Isso para a minha auto-estima foi horrivel. Então, só queria publicar mais um ou dois livros. Por exemplo, este ano com a história do Nobel, que é um inferno de há uns anos para cá, ligaram da embaixada sueca a dizer para no dia seguinte estar em casa. Respondi: “vão à merda que já é a terceira vez que dizem isso. Além disso têm dado a tão maus escritores que a mim não me dão de certeza”. Depois são as rádios, as televisões… é um inferno. Ao principio até era muito agradável, tem-se um cortejo de benesses. Não há bichas, o meu gestor de conta é um administrador do banco que vem a minha casa de chofer… essa parte é agradável, mas, por exemplo, se vou a um restaurante melhor, peço a conta e não é nada. Não volto àquele restaurante. Toda essa parte é horrorosa porque eu só escrevo livros, não sou nenhum Tony Carreira ou Júlio Iglesias (risos na sala). Eu gosto de Tony Carreira. Não é das músicas, é do homem. Ele deu uma resposta numa entrevista… perguntaram-lhe se ele não tinha pensado em ser francês, porque tinha vantagens como imigrante. Ele disse: “Não, adoro ser português, somos só dez milhões não é para qualquer um”. Eu gostei desta resposta. Um homem que fala assim não é parvo. Eu gostava de voltar a ter um bocado de privacidade e estar nos sítios em paz.

Conheço-o desde a Memória de Elefante. Para mim é o escritor mais importante de Portugal e dos outros todos… Fico muito furiosa por não ter tido o prémio Nobel.
Eu estou-me cagando para isso.

Mas eu gostava muito…
Agora tenho recusado tudo. Aqui há uns meses telefonaram-me a dizer que tinha ganho o Grande Prémio de Montreal e eu disse que não era piloto de Formula 1. Já estou farto disso tudo. Não torna os livros melhores ou piores; os prémios, no fundo, são um fenómeno mediático que dura até ao Natal. Quem é que se lembra de quem é que ganhou há três anos qualquer prémio? Não fique furiosa com isso, fique contente.

Acompanho-o desde sempre e achei que devia ganhar. Fiquei muito triste. Sempre que o leio penso no porquê dos títulos dos livros. E com este aconteceu-me o mesmo. Pode dar-nos uma explicação do porquê deste título?
Os títulos são um problema grande. Há pessoas que começam pelo título. Comigo normalmente os livros não têm título, aparece depois. Este é um verso de René Char, que é um poeta de que eu gosto muito e um homem que eu admiro. Combateu na guerra cívil espanhola, combateu na resistência, é um grande poeta e gosto muito desse poema. Esse título aparece também como uma homenagem ao Steiner. Eu tinha estado com ele e tínhamos falado sobre isso. É um homem que tem livros geniais, de compreensão do fenómeno literário, de compreensão da vida. Recebi uma carta dele há pouco tempo e ele está muito doente. Tinha saído do hospital e dizia-me sentir-se muito fraco. Fiquei preocupado, é um homem muito terno. Falámos de escritores e de livros. Uma vez eu estava dizer que gostava do Monte dos Vendavais e ele não gostava nada. Dizia: “Mas não acha um livro kitsch, não acha um bocado histérico?” E de repente dei por mim a olhar para as coisas pelos olhos dele. E ele tinha razão e eu não tinha. É óptimo não ter razão, eu gosto imenso. Às vezes trato mal este senhor, que é meu amigo [José Francisco Feição], e depois fico arrependidíssimo e peço desculpa. Então, é em parte uma homenagem ao Steiner que agora queria fazer um livro… eu ando cá com umas ideias ambiciosas que eu nem sei… assim um opus magnum para acabar, tipo os últimos 100 anos de Portugal através de uma grande família. Tenho pensado num título do Cícero que é Da Natureza Dos Deuses, que é um livro de que eu gosto muito. Eu acabo sempre por voltar aos autores latinos, são aqueles que eu gosto. E então tinha pensado fazer um livro para aí em três volumes, não sei. Estava a pensar começar a escrever para a semana mas não sei se sou capaz.

Comece, comece…
Mas não era para publicar. Até porque teria razões para não publicar esse livro, pois tenho uma filha que do lado da mãe pertence a uma dessas grandes famílias e sei que ia magoar a miúda. Tem vinte e poucos anos e ia ficar magoada. Não sei. Sei que para o ano, que é aquilo com que eu me comprometi, sai um livro de crónicas e em 2014 um outro livro. Depois não sei, logo se vê. Talvez continue a publicar no estrangeiro, não sei. A distância toma o lugar do tempo. É mais fácil ser-se entendido em França ou na Alemanha do que… há muito ruído aqui…

Não gosto nada desses planos…
Oiça, é para os portugueses que eu escrevo, quer dizer… eu escrevo porque se não escrevesse… eu não tenho depressões porque não tenho tempo, mas as alturas de desespero são horríveis, os intervalos dos livros… fico cheio de cães pretos que se devoram. Depois sinto-me culpado, fico insuportável quando não escrevo.

[José Francisco Feição] Quando não escreve o António fica um bocadinho irrascível...
Eu dantes fazia planos e eu trabalho sem planos agora. Tenho uma ideia… nem é uma ideia… é… Estou cheio de problemas técnicos e é muito difícil. Nunca se fala nisso mas isto é um ofício como outro qualquer e os problemas técnicos para mim são muito grandes.

Descomplique…
Escrever é muito difícil. Eu acho extraordinário a quantidade de livros que se escrevem. Mandam-me muitos livros, mas são tão maus… Eu digo às vezes que este livro tem que ser trabalhado e a pessoa aparece no dia seguinte a dizer que já está. Eu tinha um grande amigo, que me faz muita falta que é o José Cardoso [Pires], era um irmão mais velho para mim e líamos os livros um do outro. Quando estava a escrever o Fado Alexandrino não havia maneira de ele me dar uma opinião do livro. Até que, por fim, perguntei: então o que é que achaste? “Não sei. Ainda só li três vezes”. Cada vez que se lê um livro ele é diferente. Descobrimos coisas novas. 

Que conselho ou conselhos daria a alguém que queira seguir uma carreira na escrita. A um jovem escritor?
O Mozart morreu com 35 anos e quando ele tinha vinte e tal apareceu um homem e disse: “mestre, eu queria escrever uma sinfonia”. E o Mozart disse: “ouça, uma sinfonia é um cabo dos trabalhos. Porque é que não começa por escrever um sonata ou um prelúdio?” O outro respondeu-lhe: “Pois, mas você escreveu uma sinfonia com oito anos”. E o Mozart disse: “de facto escrevi, mas nunca perguntei como é que se fazia”. Se uma pessoa precisa de conselhos, é porque não presta. Nunca dei conselhos nem nunca os aceitei. Nem na minha vida, que é uma das queixas da minha mãe. Gosto de fazer as minhas asneiras. Normalmente as pessoas chamam experiência à soma dos erros que cometeram, não é? Se for um escritor, se for um pintor ou outro artista, não precisa para nada de conselhos. Eu estava completamente seguro do meu génio quando tinha cinco anos e espantava-me ao andar na rua que as pessoas não olhassem para mim a pensar: “ele vai mudar o Mundo, ele vai mudar o Mundo”. Não vale a pena escrever para não ser o melhor. Tem que ter a certeza daquilo que faz. E depois tem que viver toda angústia e agonia da escrita sozinha, sem se queixar. Porque se o leitor sente o trabalho, o livro está falhado. Embora, normalmente, as pessoas vão à procura daquilo que conhecem. Isso explica o sucesso dos best sellers. Mas estou a falar mesmo de literatura, estou a falar de arte. Aí é diferente. Portanto, só pode aprender consigo mesma, à custa de fazer asneiras, de fazer erros, de escrever porcarias. Vai levar anos a fazer porcarias. E depois a tendência e o desejo que a gente tem de dizer tudo. Um livro não é uma coisa que nos fala, um livro é uma coisa que nos ouve. A maior parte dos livros começam quando a gente acaba de os ler, começam a fazer o seu caminho dentro de nós. Eu não gosto de livros fáceis como não gosto de mulheres óbvias, não sei se estou a ser claro. Quero que o livro me obrigue a uma luta com o texto, com as palavras com a reinvenção do Mundo. Ao princípio, quando comecei a ler grandes obras, tinha a sensação de não perceber nada, de caminhar no nevoeiro. Sabe, um grande editor é aquele que edita livros que o público não quer. Não é aquele que vai ao encontro dos gostos do público. O público a princípio vai rejeitar e depois aprende a ler. Todo o bom escritor tem que nos ensinar a ler. Os temas dos grandes livros são sempre os mesmos. Todos nos falam da mesma coisa, que é a angústia da pessoa no tempo. Os temas são sempre os mesmos. É o sentido da vida, o sentido da morte. E é sobretudo o fazer-nos aceder a um maior conhecimento sobre nós mesmos, dos outros e da vida. Muitas das minhas grandes alegrias da vida são passadas com a música, com os livros, com a pintura... e que depois nos voltam a dar uma dignidade enorme. Que nos fazem andar sobre as patas de trás. Projectarmos uma grande sombra. A gente vê, sei lá, uma estátua do Miguel Ângelo e fica reconciliado com a nossa condição. O Torga, que era ateu, dizia: “às vezes Deus faz homens à sua medida” e eu estou muito grato a essas pessoas todas que encheram a minha vida de beleza e da alegria que a beleza traz consigo. Shubert, Mozart, Bach, Velasquez, Camões... Um País mede-se pela sua cultura. E se antes do 25 de Abril a cultura assustava – aquele General do Franco dizia: “Sempre que ouço a palavra cultura puxo logo da pistola”. A verdade é que depois do 25 de Abril nenhum Governo, seja mais à esquerda seja mais à direita, se preocupou com a cultura. Se preocupou com os seus artistas. Nunca, nada. A cultura mete medo porque em si mesma é subversiva, no sentido mais lato, no sentido político. Porque as pessoas começam a exigir outras coisas. De maneira que a gente vai-lhes dando Big Brothers, Rodrigues dos Santos, essas coisas, novelas, onde tudo é óbvio, nada nos incomoda, nada nos estremece, nada nos faz exigir mais. Um povo culto é muito perigoso. Então, eu não daria nenhum conselho. Quando as pessoas têm mesmo talento não andam, a pedir conselhos a ninguém. Escreva e não pergunte nada a ninguém.

Eu pergunto ao António se quando faz estas apresentações espera ser surpreendido pelo público ou encara isto como uma obrigação.
Este senhor [José Francisco Feição] vinha a ralhar comigo porque eu já não me apetece ir a parte nenhuma. O lado de caixeiro-viajante não me interessa nada. Eu vinha um bocado pelos cabelos. Estava a chover, não me apetecia, ele [José Francisco] vinha a protestar que eu estou sempre em casa... apetece-me cada vez mais estar em casa. Bares não me apetece, discotecas fazem muito barulho, amigos tenho poucos, ando muito esquisito, percebe? Para além de coisas pecaminosas que não vamos falar aqui, apetece-me estar em casa. Vim também porque as vezes que aqui vim soube-me bem. Gosto da cidade, é bonita e as pessoas têm sorrisos agradáveis. 

António Lobo Antunes perde-se na conversa e [José Francisco Feição] relembra-lhe a pergunta...

Eu sei lá. Estou aqui porque ele me trouxe. Eu tenho muita dificuldade em dizer não às pessoas de quem gosto. Porque as pessoas do nosso País têm sido tão generosas comigo que a maneira que eu tenho de agradecer é estar presente. E vou à feira do livro assinar autógrafos durante horas, horas e horas, e tiro as fotografias que as pessoas querem. Aquilo cansa que se farta. Mas acho que é a minha obrigação... Apareceu uma vez um senhor muito pobre com bastante idade e disse-me “gosto dos seus livros todos mas só posso comprar um que não tenho mais dinheiro”. Era camponês. Um senhor com a quarta classe. Há surpresas assim... Miúdos de 17 anos que leram quatro, cinco, oito livros meus, que estão horas na bicha, ao sol, a suarem, em pé pela merda de um autógrafo. E depois eu penso, o que os Governos fazem a este povo... Este povo andou nas caravelas. Não têm o direito de o tratar assim, não têm direito de nos desrespeitar. Eu estou zangado com este Governo pela insensibilidade, e com os outros também, claro! O nosso País é isto. Por muito estranho que lhe possa parecer é nestas alturas que gosto mais de estar perto das pessoas. Escrever é muito solitário. Estar a escrever para ninguém, não se sabe para quem, e nesta altura vejo as caras. É completamente diferente de estar na Alemanha onde vendo 200 mil, pareço o José Rodrigues dos Santos. Uns homens com uns pés enormes – se fosse mulher recusava-me a deitar com um alemão –, uns pés enormes lá no fundo da cama… e quando é no Verão, com sandálias, uns tipos com pés horrorosos… eu sou sensível a pés. E aquelas mulheres não se arranjam. Há tempos tiveram cá uns professores americanos e diziam espantados “as portuguesas arranjam-se imenso”. As Portuguesas arranjam-se muito bem. Como é que se pode comparar? Quando estava na América tinha uma namorada norueguesa [hoje está desbocado, diz José Francisco Feição] e na intimidade, nos momentos supremos, parecia que se estava a afogar na banheira: “borum, borum, borum”. Era uma coisa horrorosa e eu tinha saudades de Portugal porque ao menos gemem na minha língua. 

Como é que foi a sua experiência na Escritaria [Festa literária que aconteceu em Penafiel]?
Foi muito muito agradável. Não imaginava nada que aquilo fosse assim. Ia na rua e as pessoas vinham-me dar beijinhos. Fartei-me de dar beijinhos, infelizmente mais a velhotas. As pessoas foram de uma ternura, de um calor… foi muito, muito comovente. Estou muito grato às pessoas. Aquilo é feito com tanta dedicação, tanto amor… é bom a gente sentir-se amado. A nossas sede de amor é insaciável, a nossa sede de ternura é insaciável. Todos nós fomos mal amados em crianças. Uma vez um amigo perguntou ao Freud como é que devia educar o filho. “Faças o que fizeres está mal feito. De qualquer modo eles não vão gostar”. Se formos mais permissivos não vão gostar, se formos mais severos não vão gostar. Os pais servem em primeiro lugar para ser odiados e eles experimentam-nos, querem que a gente resista e que não fique destruído. Os filhos têm um pavor horrível que os pais sejam fracos. Nenhum filho quer mandar em casa. Nenhum filho quer que o pai seja amigo. Quer que o pai seja pai e que a mãe seja mãe. E nós temos tendência para nos demitirmos disso. 

A sua mãe quando olha para si e para a sua obra não tem nenhum sentimento de culpa em relação àquilo em que se tornou?
Eu demorei muito tempo a entendê-la, porque ela ao fim de 5 anos de casada tinha 4 filhos e tinha um marido que estava o tempo todo com um olho no microscópio. E a nossa infância passou-a na Alemanha. Então, estava sozinha com aquela filharada toda. Nós éramos bastante sossegados, mas era muito filho para uma mulher. Ela tinha 23 anos quando começou aquele trabalho.  O meu pai era um homem sem sentido de humor, era um homem violento, muito violento, mas que nos obrigava a ler, que nos obrigava a ouvir música, que fazia discursos intermináveis. Portanto era uma mulher que teve que aturar este homem, um homem complicado. Às quintas-feiras eu e os meus irmãos costumamos ir almoçar lá a casa - e nesta última quinta-feira ela, que nunca beijou um filho, disse-nos: “Vou ficar viva muito tempo, por muitas gerações porque estiveste na minha barriga”. E aquilo comoveu-me. Comoveu-me a solidão dela. Eu faço anos no Verão, nunca havia festa e este ano convidaram uns amigos e eu fiz um discurso que acharam muito agressivo em relação à minha mãe. Agradeci o facto de não me ter amado muito. Nuns certos aspectos tive uma infância miraculosa, mas dos meus pais nunca houve ternura, nunca havia beijos, nunca havia nada disso. Em férias o meu pai só lá ia ao fim-de-semana, chegava ao sábado estava logo doido para se ir embora, para se ver livre de nós. Eu pensava que ele andava aí numa malandrice, mas quando comecei a ter exames ficava em Lisboa e percebi que ele ficava a gozar a casa, finalmente sem filhos. Quem tinha que os aturar era a pobre da minha mãe. 

Estive a morrer
Os médicos agora dizem a verdade mas, às vezes, a verdade é muito cruel
Estive a morrer há cinco ou seis anos. Agora dizem-me que estou curado, mas estive a morrer com um cancro complicado. Não sabia se ia viver se ia morrer e os médicos também não, foi muito complicado. E recebi mais de cinco mil cartas. Recebi uma de um rapaz de 18 anos que dizia “Não admito que o meu ídolo se vá abaixo das canetas”. Isto deu -me uma força do “caraças”. Esta história no hospital é horrível. A gente a sentir que as pessoas estão a armar o sorriso no corredor e chegam lá e dizem: “Então? Estás com óptimo aspecto. A minha irmã teve isso e está óptima”. A única pessoa que me ajudou foi o Júlio Pomar, o pintor, que me disse: “Aguenta-te” e não disse mais nada. Foi a coisa mais importante que me disseram, ele não veio com paninhos quentes. Os médicos agora dizem a verdade, o problema é que a verdade é difícil de suportar, às vezes é muito cruel.

As mulheres têm que ter muita paciência
Todos os homens têm o complexo da castração
Uma vez perguntaram ao meu pai: “como é que a sua mulher que teve seis filhos tem tão boa figura?” e o meu pai disse: “É por ter boa figura que ela teve seis filhos”. Depois da morte dele perguntámos-lhe uma vez: como é que era com o nosso pai. Nós nunca tínhamos ouvido barulhos, nada. “Com 88 anos foi três vezes por semana – ela, coitada, cheia de osteoporose – fico cheia de dores”. Nós ficámos todos enternecidos, mas ela estava com um ar um bocado dorido. Mas ao mesmo tempo, ela tem 90 anos e diz-me: “Eu continuo a ter desejo”. Esta história das mulheres deixarem de ter desejo é uma treta. E os homens também. Eu acho que é preciso dessacralizar isto, é tudo tão natural. A minha mãe, felizmente para ela, teve até à morte do meu pai ali uma assistência… como de fosse um Mercedes. Mas depois continua a sentir falta. Mas não diz isto com ar provocante, nem atrevido, nem nada disso. Por exemplo, diz coisas assim do género: “Pela maneira como um homem nos toca sabemos logo como é o resto”. Quando me via fumar dizia: “Ó filho, tira o cigarro que ficas com ar de cama”. E eu tirava o cigarro. Tinha assim este lado. Aquilo que eram tabús ultrapassava com elegância e deixava de atribuir a isso a dimensão com este terror que os rapazinhos que estão a crescer têm relativamente a eles mesmos, em relação às mulheres, etc. Nós não tínhamos irmãs, vivíamos ali entre rapazes. Os liceus eram homossexuais, ou de meninos ou de meninas. Portanto, a descoberta da mulher foi feita através dela e mostrava a mulher como uma fonte de prazer e não como uma coisa de medos. A maior parte dos homens, eu notava isso quando era psiquiatra, é muito raro fazerem amor sem angústia. Têm sempre imensas dúvidas em relação ao pénis, à erecção, essas coisas. E as mulheres assustam muito os homens. Os homens têm medo das mulheres. E depois têm aquela coisa horrível que é o complexo da castração. Todos os homens têm isso, quando eu estou lá dentro já não tenho pirilau. Então todos os fantasmas – isto é o Freud que diz não sou eu – aparecem. Então a relação é sempre uma relação angustiante, as mulheres têm que ter muita paciência, que ajudar os homens, coitados.

textos de João Nazário
Jornal de Leiria
22.11.2012

imagem recolhida na web
adaptações ao texto por José Alexandre Ramos

13/07/2014

Silvana de Oliveira: «Relendo as naus portuguesas – ironia e paródia na obra de Lobo Antunes»

I

António Lobo Antunes lançou seus dois primeiros romances, Memória de elefante e Os cus de Judas, simultaneamente em 1979, com poucos meses de intervalo. A eles seguiu-se Conhecimento do Inferno (1980), obra que fecha um primeiro ciclo, que seria o de aprendizagem, segundo o autor. Começando por Explicação dos Pássaros (1981) e encerrando-se com as Naus, de 1988, seu sétimo romance, estabelece-se o ciclo seguinte que, de acordo com Lobo Antunes, é o das epopéias, "no qual o país é a personagem principal" [2] .

Para boa parte da crítica, no entanto, a protagonista recorrente nas obras desse escritor seria mesmo a linguagem, com parágrafos que se concentram em vários planos temporais, de pontuação rarefeita e diálogos sobrepostos. A narração, via de regra, dilui-se em acordes polifônicos, repletos de uma ironia muitas vezes corrosiva, sempre acompanhada de uma certa veia humorística e de uma desconcertante criação de imagens [3] .

Tal densidade estilística estaria associada, para alguns, ao próprio novo momento histórico em que se insere a escrita de Lobo Antunes, considerando-se o autor, indiscutivelmente, um dos maiores nomes da "Geração de Abril". Essa designação que se pode bem aceitar, ainda que apenas para fins de operacionalização analítica, é defendida por Maria de Lourdes Netto Simões, para indicar o grupo "de ficcionistas que vivenciaram o período revolucionário (antes, durante e depois) e que literariamente nasceram entre os anos sessenta e oitenta" [4] . Quer isso significar, principalmente, que esses escritores se voltaram para uma criação literária mais agudamente consciente de sua configuração como arte(-)fato, evidenciando-se o estímulo à própria elaboração do fazer literário, correspondendo, inevitavelmente, a um maior exercício de construção da própria leitura. Não quer isso dizer que, tanto quanto os ficcionistas precedentes, os da Geração de Abril não tenham passado por períodos iniciais do que se poderia considerar como um exorcismo dos horrores da ditadura, mas ainda assim o fizeram com uma postura mais "imediatamente" desencantada frente aos descaminhos da Revolução: um recrudescimento da violência revolucionária mantendo vivos os fantasmas do autoritarismo, o processo de descolonização tão dramaticamente vivido pelos africanos e pelos próprios colonos portugueses, os retornados, entre outros sérios problemas que se apresentavam.

Mencionem-se, ainda, os desencontros de expectativa e informação do processo revolucionário tal como foi recebido pelos diversos setores da sociedade portuguesa (questão colocada de forma exemplar por Lídia Jorge, em seu O dia dos prodígios) e mais uma vez ganha coerência a preocupação com uma prática literária desafiadora de seus próprios sentidos.

Os romances de António Lobo Antunes são também exemplares de todo esse contexto, que acaba desembocando na problemática da própria busca de identidade de um Portugal que agora precisa novamente voltar-se para si mesmo. Nesse sentido se efetivará a presente proposta de análise d'As Naus: diante de uma História por fazer-se, o futuro implica uma releitura do passado, mas uma releitura tão crítica quanto possa ser toda a sua desmitificação.

II

O "Regresso das caravelas" foi o título originalmente pensado para esse sétimo romance de Lobo Antunes, e só não se confirmou por problemas de registro autoral [5] . Embora não se tenha perdido nada, com certeza a denominação inicialmente desejada pelo autor apontava mais diretamente para a temática geral visada na obra, tal qual define João Medina:

o irônico confronto entre as naus pioneiras, henriquianas, e as traineiras que trouxeram, à matroca e no meio de um excruciante salve-se-quem-puder, os restos de uma colonização em fuga após a independência das antigas colónias africanas de Portugal -, retrato engenhosamente globalizante de toda a nossa aventura marítima colonial e do colapso da mesma após o fim das guerras coloniais posterior à revolução de 1974, verdadeira mise en abîme de toda a gesta e contra-gesta da nossa experiência ultramarina[6] .

Ao contrário, no entanto, da conclusão de Medina, que considera As Naus uma obra "pessimista e fúnebre", procurar-se-á demonstrar o quanto essa paródia irônica veicula uma chamada positiva e irrevogável à construção do futuro.

Tratando-se de uma verdadeira anti-epopéia como resposta e continuação ao Canto X d'Os Lusíadas, sentido reiteradamente apontado pela crítica, o romance está estruturado em 18 capítulos, não numerados, apenas divididos pelo espaçamento de quebra de páginas.

O romance abre com um narrador onisciente lembrando que Pedro Álvares Cabral "passara por Lixboa há dezoito ou vinte anos a caminho de Angola", quando então, junto aos pais,

passando por uma placa que designava o edifício incompleto e que dizia Jerónimos esbarrámos com a Torre ao fundo, a meio do rio, cercada de petroleiros iraquianos, defendendo a pátria das invasões castelhanas, e mais próximo, nas ondas frisadas da margem, a aguardar os colonos, presa aos limos da água por raízes de ferro, com almirantes de punhos de renda apoiados na amurada do convés e grumetes encarrapitados nos mastros do aparelhando as velas para o desamparo do mar que cheirava a pesadelo e a gardénia, achámos à espera, entre barcos e remos e uma agitação de canoas, a nau das descobertas [7] .

A citação é ilustrativa do procedimento básico do autor durante toda a obra: confluência de narração onisciente com narração em primeira pessoa; interpenetração do passado no presente sem maior definição temporal e, de certo modo, é o próprio resumo temático da obra: o fechamento, do processo de expansão portuguesa. Cabral, um dos grandes nomes do expansionismo, responsável pelo "achamento" oficial das terras brasileiras, é agora um dos retornados de África, derradeiro momento da colonização empreendida por Portugal.

Empobrecido, contudo, o descobridor do Brasil chega à Lis(x)boa acompanhado de sua mulher, mulata, e de seu filho (que permanecem anônimos durante toda a narrativa), afirmando ao funcionário da alfândega não possuir parentes na capital do "reyno": "Quase que aposto que morreram todos há séculos (...)" (p. 15). Seu destino, é então, a "Residencial Apóstolo das Índias", cujo proprietário é o próprio apóstolo, no caso, "o senhor" Francisco Xavier.

Também referenciado como "padroeiro de Setúbal" [8] o Santo Francisco Xavier é descrito, no romance, como um "indiano gordo de sandálias (...) cercado de uma dúzia de indianozinhos todos parecidos com ele (...)", dono de uma pensão decadente em uma área não menos degradada da cidade. Também ele um retornado, de Moçambique, sem escrúpulos, seu negócio é explorar os pobres recém-chegados: como Cabral não tem dinheiro para pagar a pensão antecipadamente, o padre não terá dúvidas em prostituir a mulher do navegador, alargando o seu exército de "tágides" [9] .

Impotente, Cabral inicialmente resigna-se. No residencial, faz amizade com Diogo Cão - o qual revelava que "há trezentos, quatrocentos ou quinhentos anos comandara as naus do Infante pela Costa de África abaixo" (...) "e de como era difícil viver nesse árduo tempo de oitavas épicas e de deuses zangados (...)" (p. 65). É interessante assinalar a continuação dessa passagem: "(...) e eu [Cabral] fingia acreditá-lo" (p. 65). A duplicação das personagens "históricas" é, portanto, outro recurso muito presente na narrativa - paralelamente, como espelhos disformes, convivem os ilustres antepassados com os miseráveis portugueses de uma época conturbada entre a realidade e o sonho, como foi o período mais imediato da Revolução dos Cravos. De certo modo, a confluência entre o real e o onírico tangenciou sempre a "gloriosa" história portuguesa [10] . Como se pode ver na passagem em que o Infante acaba por desfazer-se do Brasil, mais uma "chatice" para administrar (p. 69), "esse monstro esquisito de carnavais, papagaios e cangaço" (p. 68), e "quem viesse depois que tramasse com aquilo" (p. 69), dando a entender que, ao fim e ao cabo, o Brasil nunca "pertencera" ao Império português, acabando apenas por restar dessa descoberta "um papagaio morto a ressequir-se na almofada"(p. 71), onde dormitava o ébrio descobridor do Congo.

Depois de não mais agüentar a exploração de Francisco Xavier, Cabral decide imigrar para Paris, como havia sugerido Diogo Cão, tanto mais que a sua mulher o abandonara para ser amante de luxo do dono da discoteca onde trabalhava: o não pouco ilustre Manoel de Souza de Sepúlveda. Sem dinheiro, vivendo da caridade dos salões paroquiais (onde serviam-se "refeições de batatas cozidas contra a promessa solene de conversões imediatas" - p. 171), Cabral fica conhecendo os "ciganos" Garcia Lorca e Luis Buñuel, com quem acerta o valor da passagem para fora do país. O dinheiro, vai buscá-lo junto à mulher, e segue viagem com os dois intermediários espanhóis.

Na fronteira, depararam-se com um grande destacamento militar e foram informados de que "o rei Filipe se reunira com os seus marechais na rulote do Estado-Maior a combinar a invasão de Portugal, porque D. Sebastião, aquele pateta inútil de sandálias e brinco na orelha, sempre a lamber uma mortalha de haxixe, tinha sido esfaqueado num bairro de droga de Marrocos por roubar a um maricas inglês, chamado Oscar Wilde, um saquinho de liamba" (p. 179).

O tom explicitamente surrealista dessas últimas passagens, até pela participação de Lorca e Buñuel na trama, reforça a idéia de uma realidade de dimensão onírica, de viés mais psicalanítico, na qual os sonhos ganham as ruas, expondo toda repressão ao desejo de se viver plenamente o agora da vida. Da última citação acima, ainda, comente-se que não pode ser mais explícita a intenção de rebaixamento da mítica figura do "Encoberto", Rei D. Sebastião. Transformado em um adolescente hippie, inconseqüente e irresponsável, a própria morte lhe é motivo de desonra, não restando pedra sobre pedra para facultar qualquer caráter messiânico à tão pobre figura.

Para além disso, os episódios nos quais Cabral situa-se como personagem central suscitam algumas questões: o fato de ele "hospedar-se" na "Residencial Apóstolo" não é uma forma de reconhecimento de que as Índias foram mais importantes do que o Ocidente para Portugal? Pense-se que a pensão decadente de Francisco Xavier abriga os dois navegadores das rotas ocidentais - Cabral e Diogo Cão (Brasil e África, respectivamente).

Além disso, o sentido da mulher de Cabral ter sido prostituída por Xavier não poderá indicar o quanto, em nome da religião católica, mas principalmente da "vã cobiça", descobriu-se o Brasil, escravizaram-se africanos, ficando sempre o Ocidente "a serviço" do Oriente português? Esses questionamentos apenas ilustram a complexidade da proposta de releitura histórica presente em As Naus. A possibilidade de responder-se positivamente às perguntas é, no entanto, bastante tentadora por estabelecer um sentido crítico em relação à falta de percepção histórica dos governos lusitanos - justamente o fim do "Império" se dará naquelas terras que sempre foram "usadas" de forma mais violentamente exploratória, pensando-se, claro está, no continente africano.

Talvez seja esse um dos possíveis motivos para que Francisco Xavier protagonize mais de um capítulo na narrativa. Morando com a mãe e os filhos na pensão decadente que gerencia, transformou-se em um gigolô que não perde a oportunidade de também explorar sexualmente as prostitutas. No entanto, apesar da razoável prosperidade nos negócios, o desgosto de Francisco Xavier foi ter trocado, com o seu compadre de oitenta anos, a mulher, branca, loira e trinta e um anos mais moça, que lhe servia como verdadeira escrava, por uma passagem de avião para Lisboa.

Sendo poucas as referências ao personagem histórico propriamente [11] , sua relação com Fernão Mendes Pinto, porém, está bem presente no romance. Presença totalmente ficcionalizada, pois, na narrativa de Lobo Antunes, foi em Moçambique (Lourenço Marques = Maputo) que as personagens se conheceram, onde Pinto era o único branco do bairro, que "vendia bíblias, postais eróticos e gira-discos" (p. 100) e que fez Xavier de sócio no comércio dos evangelhos, além de permitir seu casamento com a filha adolescente.

Depois de seu retorno, será em Campolide, Lisboa, que o frade reencontra Fernão Mendes Pinto, o qual vive agora de uma "constelação de residenciais e pensões para fidalgos africanistas em desgraça (...) (p. 103). Nessa altura, o aventureiro Fernão mostra-lhe "o maço, já batido à máquina, das suas viagens caudalosas (Qualquer dia entrego esta bodega toda a um editor) (p. 104), e convida o padroeiro de Setúbal para administrar uma de suas sucursais - daí a Residencial Apóstolo das Índias. O negócio para ser lucrativo, dependeria, porém, de um "bom rebanho de tágides" (p. 105). O que facilmente conseguiu o "fradinho":

Se fossem necessárias provas, a certeza acabada de que Deus está comigo é que mandei segunda-feira, embelezadas de lantejoilas e de xailes, trinta e oito africanas para discotecas da Avenida Almirante Reis e do Martim Moniz, sem falar, ó servos do Senhor, nas que espalharam as ancas demoradas pelos jardins e pátios da cidade (...). Em pouco tempo, e graças à benção do Pai, um desmesurado rebanho de convertidas à Fé ocupava os bairros de Lixboa até às docas de Alcântara onde o ar era de celofane em julho (...). (p. 106).

Do trecho destaca-se, claramente, o caráter absolutamente profanador, a severa denúncia de toda a hipocrisia de grande parte do discurso catequizador da Igreja. Em nome dos mais santos princípios, essa instituição permitiu a escravização e mesmo a prostituição "espiritual" de muitos de seus súditos brancos e civilizados em nome da conquista, do lucro e do poder. Isso sem se levar em conta a própria situação de exploração das mulheres, tanto patrícias quanto nativas nesse processo de ambição colonialista. Além disso, é bastante elementar o que daí se pode concluir como crítica do posicionamento da Igreja frente à própria guerra colonial.

Assim, levando com determinação sua "missão", os negócios de Francisco Xavier iam muito bem, mas continuava saudoso da mulher, muito mais por seu orgulho ferido, quando ela se decidiu a ficar ao lado do velho e não aceitou reverter o acordo como o indiano chegou a propor. Com a determinação de buscá-la, de volta a Moçambique o que encontra é uma pessoa profundamente envelhecida, quase irreconhecível. O decepcionado apóstolo não titubeia no cumprimento de seu dever, levando a mulher para "trabalhar de puta em Lixboa" (p. 110).

Já a situação dos colonos portugueses em África, quem realmente "encarna", sentindo toda repercussão do processo, confuso e mesmo injusto, das independências africanas, é o casal anônimo que protagoniza dois capítulos do romance - o quinto e o décimo-segundo. Para António Quadros, a crítica situação dos retornados decorreu de uma descolonização sem referendo, sem garantia dos interesses portugueses e sem quaisquer concessões aos nossos colonos e assimilados, esses que mais tarde foram compelidos a fugir em massa das terras que desbravaram, das plantações que semearam e das cidades que edificaram, num dos êxodos mais pungentes e aviltantes da história contemporânea [12] .

Essa é a situação protagonizada pelo casal já idoso, que escuta, por acaso, na telefonia, em meio a um vendaval de ruídos, sobre a revolução em Lisboa (p. 51): aí, mais uma vez a temática sempre recorrente de que o conhecimento da Revolução era recebido com surpresa. Isso indica o quanto o processo revolucionário não foi efetivamente representativo [13] e daí o casal protagonizar uma das críticas mais fortes ao processo revolucionário e, sobretudo, ao processo de independências das colônias africanas:

(...) um coronel de artilharia, com uma tripla fita de condecorações na clavícula, lhes ofereceu de mão beijada, numa generosidade inexplicável, a possibilidade gratuita de tornar a Portugal. (...) Os oficiais de tripas puídas, debandaram do andar de baixo e tomaram o avião para a Europa. Batalhões completos, convulsos de amibas e lombrigas, com os furréis a cabecearem de doença do sono logo após a charanga e a bandeira, alçavam-se para navios ferrugentos carregando as suas armas e os seus mortos. Guerrilheiros descalços, de camuflado, colares ao pescoço e bafo canibal de gato selvagem, passeavam-se nas escadinhas da cidade chacinando mulatos à baioneta (p. 52).

............................

As naus aportavam vazias e partiam cheias, convexas de gente e de caixotes. Bissau despovoava-se de brancos e o início da estação das chuvas encontrou-os sem saber o que fazer numa terra de selvagens triunfais que estilhaçavam à metralhadora os postigos das fachadas (p. 53).

O primeiro excerto desvela a decrepitude em que já se encontravam os oficiais portugueses, bem como o absurdo da guerra com seu saldo de mortes e terror. Não passa despercebido, do mesmo modo, o quanto a "debandada geral" em que se configurou o retorno português das colônias africanas acabou estimulando as disputas das forças guerrilheiras locais, em nada contribuindo para o ideal democrático propalado pelo exército revolucionário em Lisboa.

O casal de velhos, além disso, como representante do povo anônimo português que se dirigira às terras africanas em busca de melhor vida, exemplifica em sua trajetória o fracasso de tal ilusão, pois os retornados, geralmente, chegavam tão ou mais pobres do que quando partiram.

Sendo assim, ao regressar, o casal é instalado, inicialmente e na companhia de dezenas de outras pessoas, num hotel, onde uma voz informou com ferocidade, damas e cavalheiros, informou com pompa senhoras e senhores, que se encontravam no Hotel Ritz por pura benevolência paternal das autoridades revolucionárias (...) até o Estado democrático, nascido com a ajuda da parteira mão castrense, do ventre putrefacto do totalitarismo fascista que durante tantos decénios nos garroteou e oprimiu, conseguir casas ou pré-fabricados para as vítimas da ditadura felizmente extinta, e que em nome, camaradas, da luta de classes e da construção do socialismo dirigida pela vanguarda política do exército, passariam a ser punidos com a forca, a decepação da mão esquerda, a extracção de vísceras pelas costas ou o degredo em Macau, os intoleráveis abusos de assar sardinhas nos lavatórios, engasgar os ralos com tornozelos de faisão, cozinhar refogados e fritos nas cerâmicas dos chuveiros, vender as torneiras (...), assim como servir-se das cortinas estampadas do hotel para blusas e adornos. (p. 62 - grifos nossos).

Não poderia ser mais irônico e cruel esse discurso, proferido com os devidos chavões marxistas, como indicam as passagens grifadas, denunciando a decadência total em que se encontravam os retornados de África. Foi essa a realidade enfrentada pelo casal anônimo que, mais tarde é removido para uma pensão horrível e, por fim, vai morar em uma casa identicamente arruinada, na região da Ericeira. A mulher, sem mais conseguir reconhecer a si mesma nesse presente caótico, submerge na alienação que a mantém nos tempos da infância. E os idosos terminam destruindo suas vidas, afastando-se: ele prefere viver a sua solidão em Lisboa, em um quarto alugado, onde passa também a alienar-se de tudo. Recebendo um magro salário-desemprego, lança fora, por último, o retrato de recém-casados "em que se adivinhava, com muito custo, uma fivela de cinto e um ângulo de véu (...). De repente sem passado, aboborou-se na contemplação pasmada dos pescadores da muralha e dos seus anzóis de inimaginável persistência, na mira de que mais cedo ou mais tarde uma tágide desgovernada pelas correntes de fevereiro abocanhasse a linha" (p. 144). Passagem de uma riqueza de imagens a compor um quadro desolador de pobre esperança tão pouco lúcida - só mesmo fora de rota poderia a inspiração novamente correr pelos mares de Lisboa, pois não há mais nada sobre o que se cantar.

Outro personagem histórico destacado na narrativa, Manoel de Souza Sepúlveda aparece como um homem de posses: propriedades em Loanda, vivenda no Bairro de Alvalade, apartamento na costa da Caparica - mas morava em Malange (Angola), onde, viúvo ("a mulher descansava o reumatismo no cemitério do Lobito, com um anjo de mármore funerário, de asas desfraldadas, assente no peito para obviar ressuscitações inoportunas" - p. 74), ganhava a vida trocando diamantes com um "amigo inspetor da PIDE", do qual recebia um cheque (da Holanda ou da Bélgica), quando a jóia chegava ao lapidador parente do policial.

Novamente, a notícia da Revolução chega ao acaso, dessa vez através de um engraxador de sapatos:

Informou-o de que haviam sucedido acontecimentos estranhos em Lixboa: o governo mudara, falava-se em dar a independência aos pretos, imagine, os clientes dos folhados de creme e das torradas indignavam-se (...) Manoel de Souza de Sepúlveda escutou a mesma conversa no barbeiro, no notário, na farmácia (...) e na semana seguinte era visto na África do Sul a tomar o avião para Lixboa (p. 76-77).

Como pode-se ler na passagem anterior, destaca-se em Sepúlveda a astúcia própria dos negociantes, com sua preocupação em não perder tempo diante das circunstâncias, não perder oportunidades sejam elas quais forem. Assim, a sua apressada partida tem como destino certo, inicialmente, a casa paterna, onde mora o irmão e a cunhada. Tudo o que encontra é decadência, da casa, do casamento do irmão, e decide-se a ir para seu apartamento na Costa da Caparica. No caminho, o cruzamento, mais uma vez, do passado com o presente: do táxi, avista os pedreiros construindo os Jerônimos (p. 80).

No entanto, surpresa mesmo terá ao entrar no imóvel e deparar-se com dezenas pessoas que ali estavam vivendo: a crítica ao processo revolucionário não poderia ser mais sarcástica do que o irônico discurso dos pobres miseráveis reclamando seu direito à propriedade:

Chegou agora de África, coitado, não vinha cá há séculos, explorava os camaradas pretinhos, julga que a casa é dele. Isso pertence ao povo, amigo, pertence à gloriosa vanguarda do proletariado, foi ocupada revolucionariamente, percebe?, se for à Câmara encontra lá o meu nome como dono e gerente deste centro de recuperação para doenças da espinha (...) (p. 85).

Novamente, a apropriação das palavras-de-ordem marxistas demonstra o quanto todo o processo não foi a sério, permitindo, ao contrário, todo tipo de oportunismo, diante da situação de grande miséria com a qual se defrontava o país. Diante desse real pesadelo, sem saber o que fazer, Sepúlveda adormece na praia, onde é assaltado. Restou-lhe, contudo, um cheque para recomeçar a vida: montou um bar, alugou uma casa e mais tarde conseguiu comprar a discoteca.

Interessa registrar uma passagem de grande significado simbólico: a prosperidade de Manoel de Souza de Sepúlveda chegou-lhe após ele se ter livrado da cabeça de touro que sempre acompanhara a sua família desde a infância. Segundo o simbolismo analítico de Jung, o sacrifício do touro representa o desejo de uma vida do espírito que permita ao homem triunfar sobre suas paixões animais primitivas e que, após uma cerimônia de iniciação, lhe daria a paz. Então, matar o touro é suprimir o pai, porque o touro seria a dominação perversa; domar o touro é sublimar os desejos instintivos [14] . A ironia de tudo isso está em que, refletindo-se sobre a "real" história de Sepúlveda, conhecida através da História Trágico-Marítima do século XVI, conclui-se pela total inversão dos acontecimentos: foi o instinto dos "selvagens' que não conseguiu "domar" o responsável por sua morte e a de toda sua família.

Nesse romance, subvertendo, portanto, a "real" trama histórica, Sepúlveda consegue sobreviver à crise geral e não só, pois enriquece. Tornou-se dono do bar Dona Leonor, assim batizado em homenagem à esposa morta, local freqüentado pelos vice-Reis da Índia depostos (p. 124) e onde igualmente aparece o Padre António Vieira, com "seus sermões de ébrio" (p. 124). Assinale-se que para bom resultado dos negócios, Sepúlveda não deixou de manter acordos com Fernão Mendes Pinto e Francisco Xavier sobre o recrutamento de mulatas para o estabelecimento (p. 125). Enriqueceu tanto o "naufragado" Sepúlveda que financiou a possibilidade de editar Os Lusíadas em bolso, publicada numa coleção de romances policiais, e ganhou tanta notoriedade que privava da companhia do Rei durante os autos de Gil Vicente (p. 129).

Restava-lhe, apesar de tudo, algo por conquistar: não conseguia comprar a última discoteca do Largo de Santa Bárbara, de propriedade de Nuno Álvares Pereira, assim descrito no romance:

Um homenzinho pequenino, de boné à Lenine na calva (...), que fora, na juventude, condestável do reyno, e a seguir religioso em São Domingos, antes de se cansar de missas e Te Deuns cantados a bater o queixal numa nave gelada, devolver à Ordem as sandálias que lhe aleijavam os pés e o burel que lhe causava urticária sem o defender do frio, recuperar a gabardina profana, pedir um empréstimo ao Duque de Bragança, seu genro, adquirir a Boite Aljubarrota na esquina da Avenida Almirante Reis com a primeira travessa do Largo, e enterrar-se na mesa mais afastada da porta a observar o escuro, na companhia de um capilé aguado, escutando, imune às repreensões da filha, a orquestra que tocava, num estradozito oblíquo, as cantigas de amigo do senhor D. Dinis (p. 130). 

Depreende-se do trecho acima o quanto o caráter historicamente intrépido de Nuno Álvares Pereira é colocado pelo avesso, pois aparece como uma figura nostalgicamente fragilizada. Ao mesmo tempo, porém, o perfil decidido do condestável desloca-se para sua recusa às propostas de Sepúlveda e à obsessão de seguidamente interromper a fala do negociante, para perguntar se o outro não ouvia "as trombetas do acampamento castelhano" (p. 131). O entrecruzamento do passado com o presente não poderia ser mais bem-humorado do que na frase do já irritado Sepúlveda lançada ao teimoso concorrente "— Trombones, uma ova, berrou ele possesso. Em que século é que você julga que vive?" (p. 132). E mais uma vez, o capítulo termina (no caso, essa parte de Sepúlveda e Nuno Álvares) com o espectro da invasão castelhana (p. 133).

No décimo capítulo aparece Vasco da Gama, e há toda uma inversão/invenção da sua biografia: nascido em Sines, o mais famoso navegador lusitano é, no romance, natural de Vila Franca de Xira. No regresso de Angola, é para lá que se dirige, encontrando o povoado, já normalmente empobrecido por essa época, às voltas com uma enchente. Consola-se, apesar disso, pois, enfim, sempre "nomearam-me conde!" (p. 114). O curioso é saber-se que recebeu, efetivamente, essa titulação, mas, na verdade, foi conde de Vidigueira, no Alentejo. Parece, assim, repetir-se o processo de duplicação, através do qual coexistem o Vasco da Gama, mito histórico, circulando impávido no imaginário do presente, com tantos outros Vascos, homens comuns que se confundem em seus fracassos e sucessos com esses monumentos do passado.

Sendo certo que um momento marcante do passado histórico português foi o que protagonizou o navegador de Sines, quando de sua partida para as Índias, as recordações sobre essa passagem são descritas como se Vasco da Gama contasse a "verdadeira" versão da história:

Lembrou-se do Restelo de manhã, à hora da partida dos veleiros, da corte instalada num palanque com um toldo de franjas para ver o largar, das aias que beliscava às cegas nos jardins do palácio, confundindo o seu odor de pedra-pomes com a essência de passiflora da rainha. Lembrou-se dos bispos paramentados a oiro, do núncio apostólico e dos seus óculos escuros de mafioso taciturno, das decotadas embaixatrizes de países longínquos, do mercado a assistir, suspenso, ao levantar das âncoras. Lembrou-se dos corvos que recitavam o Hino da Carta nas tabernas, lembrou-se do povo, ai, do povo, a acenar bandeirinhas verdes e encarnadas, da velha que me atirou uma bênção angulosa de profeta ao bolinarem já para as correntes da barra (...) (p. 113).

Note-se do trecho destacado o quanto a referência desse evento é sempre Os Lusíadas, mas reconfigurado em amarga ironia ao marcar a grande divisão social existente, restando ao povo o papel, não de representantes de um nacionalismo glorioso, mas de pobres ingênuos que, no final das contas, nada ganharam com tão magnânimos ideais de audaciosa expansão.

Entre a história e a ficção, enfim, "o conde entrou na Vila como os mortos nos sonhos" (p. 114). Com um humor corrosivo, assiste-se, então, ao sobrinho pedindo-lhe para não andar pelas ruas exibindo suas "suíças de Neptuno vestuto". E Vasco não se ofende, pois tem noção de que "nem o parvo do Rei julgava que eu voltasse". Como de resto, todo empreendimento expansionista foi feito de forma nada racional, como só poderia ser uma busca pelo que efetivamente se desconhece.

Referenciada uma passagem temporal indefinida, Vasco da Gama volta a encontrar o rei (fica-se sabendo que fazia quarenta e dois anos que eles não se viam), quando já "o mosteiro dos Jerónimos, concluído há decênios, transformara-se de imediato num monumento arcaico votado aos casamentos dos domingos e à patética celebração de glórias defuntas" (p. 117). Nesse contexto, a figura do rei não poderia ser mais decadente: "Encontrou um príncipe envelhecido afastando as moscas com o ceptro, de coroa de lata com rubis de vidro na cabeça e hálito de puré de maçã de diabético" (p. 117).

A decadência atinge toda glória passadista lusitana, pois "uma epidemia de moléstias ribeirinhas extinguira praticamente as tágides, reduzidas a um pequeno cardume de sereias grisalhas que se alimentavam dos esgotos de Chelas e do sedimento da Siderurgia, jogado às ondas por uma complicada rede de canais". Para mais, "Tágides a quem as hérnias da coluna mal consentiam nadar catavam-se de conchas perto do aparato da Petroquímica e do seu odor de tripas amoniacais" (p. 120). Dessa forma, sem as musas, sem as inspiradoras das epopéias, não há nem mesmo como Vasco contar suas aventuras ao Rei, (no caso aqui, as que viveu em Angola), pois vão desaparecendo as tágides: à medida que ia querendo narrar, elas "se evaporavam, uma após a outra" (p. 121). Por fim, o rei quer mesmo é dedicar-se a uma partida de sueca com Vasco da Gama pois, por um lado, de pouco adianta contar-se qualquer coisa e, de outro, tem-se uma crítica à desatenção dos reis para com os reais e complexos problemas do país que a seu tempo não resolveram, postergando para o futuro, sempre pouco refletido, as crises que vivenciam todos os naufragados do presente.

Além disso encontra-se, nessa mesma parte da obra, mais uma dura passagem sobre a decadência geral de Portugal:

"O povo abandonava os castelos e mudava-se para o Luxemburgo ou a Alemanha, à procura de trabalho em fábricas de automóveis e de moldes de plástico. Os duques geriam sucursais de bancos na Venezuela. Os oficiais da escola de Sagres fumavam mortalhas de heroína e exploravam bares em Albufeira. E se os castelhanos invadissem o reyno topariam apenas com ingleses indiferentes no golfe de Estoril, sentinelas a caírem de sono no portão do Estado-Maior do Exército e mulheres vestidas de preto nas aldeias desertas, espalhando as saias em redor de banquinhos de pau, a olharem para o interior de si mesmas um oco absoluto" (p. 119).

Revelada no pensamento de Vasco, através da voz do narrador, essa avaliação tão negativa da realidade portuguesa demonstra o abandono a que se viu relegado um país paralisado economicamente, que não se organizou efetivamente para o futuro. De tal sorte, que nem mesmo os potenciais inimigos, castelhanos, teriam o que encontrar, a não ser a invasão inglesa, que desde o final do século XIX foi marcante e monotonamente vitoriosa. Some-se a esse quadro a própria desmoralização dos mitos, apontada de forma extrema nos episódios em que Vasco e o rei D. Manuel andam "com as roupas bizarras de um carnaval acabado", e "longas madeixas cheirando a orégão de copa, em que proliferavam parasitas de outros séculos", tendo como séquito um "cortejo de desocupados que os troçava" (p. 120) [15] .

Morando, agora, em uma vivenda no bairro econômico de Madre de Deus, que ganhou como pagamento por seus serviços, além de uma medalha e de um diploma, Vasco da Gama passa a receber a visita do rei D. Manuel, que o vai buscar para passeios de automóvel na praia do Guincho. Mas, tudo na sua vida e morada é deprimente e a figura de Vasco da Gama é totalmente rebaixada na passagem em que ele aparece como um velhinho vestindo pijama de criança:

Jantava água de barril e biscoitos de caravela e com todas as janelas cerradas e todas as damas recolhidas, subia a raspar as pantufas no soalho de tacos, despia-se, conforme as juntas deixavam, do cinto, do punhal, do gibão, da bóia de cacilheiro e dos restantes adereços de nauta sem idade (...), enfiava-se membro a membro num pijama de bolinhas de criança (...). (p. 183).

As visitas do rei D. Manoel contavam com um Ford "antiquíssimo, ferrugento e descapotável", para passearem "Marginal fora, a discutir o Oriente num rebolar coxo de bielas, envoltos em rolos de fumo escuro do motor" (p. 183). Em um desses passeios, acabaram presos quando foram interpelados por um policial que lhes pediu a documentação, passando a fazerem vizinhança à cela de António José da Silva, o judeu, o qual jogava batalha naval com Vasco da Gama, enquanto "esperava a visita soturna dos frades da Inquisição" (p. 188).

Passados dois dias, retiraram o conde e o rei da cela, mas sem lhes conceder um mínimo de higiene e dignidade em sua apresentação junto ao Tribunal da Polícia, nada que lhes garantisse a "sua condição de nobres" (p. 188). Arrastados para julgamento, eram assistidos pelo povo, curiosos e desempregados, o vosso povo, o pobre povo de Lixboa, Senhor, o que em mil quatrocentos e noventa e oito se amontoou na praia do Restelo para me ver partir, aquelas caras sérias lavradas pelo desengano da desgraça, aqueles olhos sem esperança, aquela roupa rasgada, o povo que não esperava nada de Vós ou de mim por não esperar nada de ninguém nem de milagre algum (...) (p. 188).

Há nesse trecho um desapontamento, uma desesperança que, à primeira vista, contradiz as lembranças de Gama sobre o momento de sua partida para as Índias. Só não se trata de uma contradição realmente pensando-se que aquelas recordações foram descritas logo de sua chegada em Lisboa; com o passar do tempo, com seu reconhecimento do que estava acontecendo mesmo no país, com o rumo de sua própria trajetória, agora sem nenhum reconhecimento, a impressão que passa a vigorar tem que ser efetivamente a descrença.

O navegador e D. Manuel são, por fim, enviados para um hospício, permitindo que se reflita o quanto, talvez, só mesmo os loucos para acreditarem em Vascos e Reis, numa altura em que nem a pátria os conhece mais. Reforce-se a seguinte idéia: em um presente onde o passado ainda se acha o mais poderoso dos tempos, perde-se a lucidez e não há lugar para o futuro.

Uma outra personagem muito especial na obra é Diogo Cão, o qual tem sua trajetória inicialmente relatada quando da sua convivência com Camões na Residencial Apóstolo das Índias. No entanto, sua "história" desenrola-se em dois capítulos próprios, dos quais o último é o maior de todo romance. Fato em si, menos relevante, não fosse o caso de se tratar do navegador que, justamente, alargou os conhecimentos portugueses sobre a África. Sabendo-se muito pouco de sua biografia, apenas restaram os registros de seus feitos, como ter ele realizado duas viagens durante o reinado de D. João II, estabelecendo contato com o rei do Congo, penetrando no Rio Zaire, atingindo a baía de Benguela, então o ponto mais ao sul das rotas portuguesas. Além disso, foi a partir de seus descobrimentos que se chegou à conclusão de que para contornar o sul da África era necessário que os navios se afastassem da costa, navegando em alto-mar. Para demarcar suas conquistas, utilizava padrões que se espalharam pelas praias africanas.

No romance, esse grandioso navegador, fervoroso e pleno de ousadia e coragem, aparece como um beberrão que, por causar tantas confusões nos bairros de prostituição à procura de uma "tágide" por quem se apaixonara, é enviado para Angola. No entanto, reconhecendo os serviços prestados por aquele que foi um navegador "como poucos" (p.151), o monarca ilude a frágil lucidez de Diogo Cão, dizendo-lhe que em África, seu cargo seria o de fiscal das Companhias das Águas, à procura das tágides, pois de acordo com o rei "é claro que toda gente quer que repovoemos o rio dessas pequenas" (p. 151). Quer dizer, se o objetivo é que se esqueça de Diogo Cão, juntamente deverá ser esquecer das tágides, das ninfas, das musas inspiradoras dos poemas gloriosos. E a realidade só evidencia o quanto não há mais o que cantar, sendo a África renegada, assim como não são bem-vindos os retornados.

Diogo Cão, segundo esta narrativa ficcional, viveu em Loanda por doze anos, sete meses e vinte e nove dias, como se essa (ou qualquer outra) precisão temporal tivesse algum sentido na obra - dá, isso sim, a ilusão de uma objetividade, de um testemunho que, em verdade, nada significa em si mesmo.

Em Angola, o navegador era motivo de chacota, por suas aventuras náuticas narradas com a eloqüência dos ébrios; somente uma velha prostituta, encarregava-se de cuidar dele. A fusão da decadência mais brutal com a inocência dos lunáticos faz com que se configurem, nessas passagens, a máxima expressão da humanidade profundamente fragilizada daquele que seria um dos grandes heróis portugueses.

Assim, no capítulo em que a meretriz procura por Diogo Cão na capital do "reyno", ninguém parece mais conhecer de quem se trata, e alguns, sem muita convicção, "confusos, numa voz escolar" perguntavam: "é por acaso o barbaças que descobriu a Madeira? E eu explicava-lhes pacientemente que não, meu menino, não descobriu Madeira nenhuma, é apenas um capitão de Áfricas, aquele que subiu a foz do Zaire com os navios de el-rei" (p. 199). Por aí se vê uma outra crítica: o passado não pode ser simplesmente ignorado, desconhecido, ainda que a verdade não esteja nos livros escolares. O passado deve ser reconhecido, e bem, para que se mantenha como referência à disposição de um olhar para trás que não impeça o avanço do presente.

Dando continuidade à procura de Diogo Cão, a velha instala-se no Terreiro do Paço, a questionar marujos e funcionários públicos sobre "o paradeiro dos heróis" (p. 199). E faz uma contundente contestação à situação presente: "Nunca encalhei, no entanto, em homens tão amargos como nessa época de dor em que os paquetes volviam ao reyno repletos de gente desiludida e raivosa, com a bagagem de um pacotinho na mão e uma acidez sem cura no peito, humilhados pelos antigos escravos e pela prepotência emplumada dos antropófagos" (p. 200). A passagem fala por si na amargura que descreve.

Enfim, a prostituta encontra a triste figura do navegador de D. João II: " o seu corpo de neptuno apeado deteriorara-se nesses meses de abandono desde o regresso de Angola: possuía furúnculos e grandes peladas na cabeça, (...) conservava dois únicos dentes na gengiva inferior, e respirava de leve, como os pintos, em assopros dolorosos e velozes" (p. 207).

Interessa assinalar como o retorno à infância também aparece como um constante questionamento sobre as personagens do livro: numa leitura psicanalítica, muito genérica, as marcas do que se é repousa no que fomos e nos fizeram; assim como o presente de um país se entende pelo passado que o fez. São ilustrativas, por exemplo, a passagem em que Diogo Cão compara a velha à mãe, e vira "miúdo" - p. 213; mas também a própria narração do retorno de Sepúlveda à casa dos pais e a questão do touro; e, claro, os episódios em que Camões quer enterrar o pai, enfim.

Sintomática se faz, portanto, a aparição de uma galeria de personagens que marcaram, de alguma forma, o imaginário passadista português: Egas Moniz e seus filhos de baraço no pescoço; Santo António sermoneando atuns; Fernão Lopes fazendo apontamentos em cadernos espirais; Garret e suas pestanas irresistíveis, polígrafo e político; D. Fuas Roupinho pedindo dinheiro emprestado.

O contraponto que se estabelece vem com nova crítica da mulher à miséria: quando vão para a Apóstolo das Índias buscar os mapas do navegador, diz ela não se recordar, apesar da sua comprida existência de mulher da vida acostumada a mil penúrias de abismo e a um sem números de assombrosas desgraças (...), de uma pobreza como aquela a que assisti nessa tarde, com sujeitos a ressonarem uns sobre os outros em desvão de chiqueiros, crianças roendo baratas nos ângulos dos quartos, mulatas submissas inexistentes de magreza (...) (p. 227).

O mais instigante é que, ao ver as prostitutas da Residencial Apóstolo da Índia, a velha meretriz apiedou-se foi dos homens a quem serviam: ora, se elas são as tágides que restaram, se, portanto, não há mais inspiração, o triste fica mesmo é para os leitores; tristeza consubstanciada no final da trajetória de Diogo Cão, vendo a Terra transformada em um deserto seco de ondas e tágides.

Por certo que o maior cantor da epopéia portuguesa se faz presente nesses episódios "naufragados". Como segunda personagem do romance, é assim apresentado: "Era uma vez um homem de nome Luís a quem faltava a vista esquerda" (p. 19). Tendo-lhe morrido o pai durante a guerra colonial em Angola pouco antes de embarcar de volta para o "reyno", traz a mortalha consigo no navio de regresso. Durante a viagem, em alojamentos miseráveis, faz amizade com Vasco da Gama e Miguel de Cervantes, também retornados e assim apresentados: o primeiro "um reformado amante de biscas e suecas"; e o segundo, "um maneta espanhol que vendia cautelas em Moçambique (...) sempre a escrever em folhas soltas de agenda e papéis desprezados um romance intitulado, não se entendia porquê, de Quixote, quanto toda a gente sabe que Quixote é apelido de cavalo de obstáculos (...)" (p. 20).

No entanto, estabelece uma maior proximidade com o Gama, o qual passa a Camões o endereço em que residirá em Vila Franca, e o poeta não titubeia em decorá-lo para uma visita na Páscoa, já que "não conhecia ninguém em Portugal (...)" (p. 24).

Então "à segunda ou terceira semana e após muitas naus de descobertas" (p. 89), ainda está Camões no cais de Alcântara, procurando uma forma de realizar o enterro. Tendo trocado o esquife por uma embalagem de cartão, segue "com o pai debaixo de braço" (p. 91), a procurar por um cemitério onde possa enterrar o falecido, furtivamente, à noite. No meio do caminho, acaba parando na Gare Santa Apolônia, onde pega a caneta esquecida de um funcionário e começa "a primeira oitava heróica do poema..." (p. 97). Evidentemente: Os Lusíadas é a epopéia de um país já defunto em sua glória passadista.

Segue Camões escrevendo oitavas, quando trava conhecimento com Garcia da Orta, o qual, no romance, trabalha como garçon no bar da estação: "um fulano amargo, de meia-idade, radioamador, que morava no Bairro Alto com a esposa, cinco descendentes e o sogro inválido (...)[que] criava plantas medicinais na varanda" (p. 157). Garcia da Orta propõe que Camões lhe venda o pai como adubo, ao que o outro acaba consentindo: não se enterra, assim, o passado glorioso de Portugal; ao contrário, ele segue alimentando a "natureza" do país, ainda que seja uma natureza artificialmente criada e mantida como experimentos que garantam a descoberta de novos remédios para os males portugueses. Mas, essa natureza é muito perigosa, carnívora e acaba devorando praticamente toda família do botânico, com exceção da mulher, que se vai embora, abandonando-o. Acabam nas ruas de Lisboa, Orta e Camões; o primeiro some-se pelas ruas noturnas, enquanto Camões foi "moendo episódios heróicos, parando a tomar notas nas retrosarias iluminadas, até desembocar na praça de minha estátua, mãe, com centenas de pombos adormecidos nas varandas em atitudes de loiça e cães que alçavam a pata no pedestal da minha glória (...)" (p. 166).

Nessas imediações, chamando o testemunho dos leitores, Camões avista o "cortejo de tochas e de risos de pagens", em que surge D. Sebastião, "rodeado de validos, arcebispos e privados, vestido de uma armadura de bronze e de um elmo de plumas, e desapareceu para as bandas do pelourinho da Câmara, seguido pelo espanto dos polícias e guardas-nocturnos, a caminho de Alcácer Quibir" (p. 166).

Como também não poderia ser de outra forma, Camões é o protagonista do final do romance. Vivendo em um hospital para tuberculosos, desocupado pelo governo para servir de alojamento aos retornados, lá, o homem de nome Luís, a quem apesar da ausência de sintomas obrigaram a um roupão de moribundo, obteve autorização para um intervalo de uma hora fora da cerca do hospício, escoltado por um servente que carregava o penico de loiça destinado aos bacilos da hemoptise que tardava (p. 237).

Pensando-se que a tuberculose, de certa forma, é considerada uma doença "da miséria", nada mais corrosivamente crítico do que a imagem de uma legião de tísicos (a)guardando o futuro do país:

Amparados uns aos outros para partilharem em conjunto do aparecimento do rei a cavalo, com cicatrizes de cutiladas nos ombros e no ventre, sentaram-se nos barcos de cascos ao léu (...). Esperámos, a tiritar no ventinho da manhã, o céu de vidro das primeiras horas de luz, o nevoeiro cor de sarja do equinócio, os frisos de espuma que haveriam de trazer-nos (...) um adolescente loiro, de coroa na cabeça e beiços amuados, vindo de Alcácer Quibir com pulseiras de cobre trabalhado dos ciganos de Carcavelos e colares baratos de Tânger ao pescoço (...) enquanto apertávamos os termómetros nos sovacos e cuspíamos obedientemente o nosso sangue nos tubos do hospital (...) aguardando, ao som de uma flauta que as vísceras do mar emudeciam, os relinchos de um cavalo impossível (p. 247).

Tal cena desconstrói qualquer espírito messiânico: não há mais lugar para a imobilidade mortal e alienada de um futuro que não se fizer construir na certeza de seu presente. O passado, de tão grandioso, acaba, por sua presença maciça, soterrando as expectativas de construção de uma vida nova. D. Sebastião não retornou, a Revolução não se fez, e mesmo o poeta, que ainda finge acreditar minimamente na lira, sabe, muito bem, que o cavalo passadista é impossível de ser mensageiro das necessárias mudanças.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A derrota de Alcácer Quibir levou à perda da independência, transformando-se em mito; a derrota na guerra colonial levou à queda da ditadura, mas com um processo revolucionário que se fez ilusão, que ainda está por se cumprir. Para isso é preciso, antes de mais, quebrar os mitos. Processo feito em As Naus através, principalmente com a humanização dos "heróis", levada às últimas conseqüências: seu rebaixamento. Não se tratando de homens melhores, mas piores do que são, o trágico dá lugar ao riso, sem dúvida bastante amargo, mas remetente de uma crítica ao presente, visto não como sem saída — porque já não se tem, e felizmente, dogmatismos a serem seguidos — mas um presente a fazer-se, em um futuro que já não pode mais ser adiado. O chamado do poeta ecoa distante: "É a hora!", mas com um sentido totalmente renovado, porque já não há mais nada para ser esperado, a não ser a extrema ousadia de humanizar o passado, desglorificar os heróis e desacreditar, com muito bom humor, todas as verdades históricas que não desconfiem de si mesmas.

Tal proposta desmitificadora implica, também, a desmitificação de uma identidade que se reconhece como forjada, construída exemplarmente, por certo, e de tão exemplar tão pouco "verdadeira". Com isso apenas se quer referir o quanto o texto de Lobo Antunes aponta para o terceiro nível da ideologia, de acordo com as proposições de Paul Ricoeur [16] : toda ideologia é integradora, é o fundamento de um grupo que se identifica, que se reconhece como tal. É o molde de todas as identidades sociais e nacionais. Nesse sentido, resguardando-se seu caráter positivo, não se perde de vista, contudo, o traço sempre conservador da ideologia. Pode-se questionar, então: de certo modo, apontar para a artificialidade de uma identidade nacional mitificada, não significa, ainda assim, continuar buscando um sentido mais apropriado de identidade? Reconhecer o fracasso da glorificação ufanista não tem, igualmente, o sentido de afirmar a vitória da lucidez, potencialmente nunca perdida, de que não existe um fim da história? De que o processo histórico assim se denomina por sua inexorável e paradoxal permanência sob o signo da mudança?

Às respostas não se pode furtar um claro posicionamento igualmente ideológico, primeira óbvia constatação, quando se defende um sonoro sim para todas elas; posição de empenhamento que não abre mão de ver na literatura a capacidade sempre renovada de engendrar criticamente, acima de tudo, o presente. O cerne dessas problematizações está em que o presente nada mais é do que a contingência da época de nascimento dessa obra, de toda obra literária (e artística, em geral, sem dúvida), para além e sempre da contingência de todos os presentes possíveis de sua "leitura" (aqui sinônimo de decodificação interpretativa/construtiva).

Por essa razão, entende-se que o romance em foco veicula uma noção positiva de ideologia: a fragmentação de qualquer identidade sólida, estacionária em seu reconhecimento, nada mais faz do que reclamar a construção de um projeto minimamente estruturado de nacionalidade. Como já disse a protagonista de Lucialima, "ter um país é ter para onde voltar" [17] - e não é essa justamente a grande procura dos retornados e dos que os recebem na mesma terra que se tornou estranha a todos?

Assim, a essa concepção de ideologia como base positivamente integradora, corresponde uma visão de utopia que se apresenta como construtiva, como também positivamente configuradora. Porque urge reconhecer-se o país, na provisoriedade inexorável de qualquer afirmação dialética, torna-se do mesmo modo urgente o não abrir mão da utopia.

Poder-se-ia afirmar ser o sebastianismo, certamente, já uma visão utópica. No entanto, o messianismo que o impregna constrói um futuro que no máximo está ressuscitado dos mortos o que, na imponderabilidade de todo milagre, amarra o futuro numa visão do passado e, assim, torna-se tudo, menos efetivamente vivo e pulsante. A utopia revigorada no romance de Lobo Antunes aponta, sim, para o desejo de construção de uma pátria portuguesa tão mais habitável quanto maior for a possibilidade de se sonhar com o que nem se imagina que possa ser sonhado. 

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[1] Departamento de Letras - UNIFRA
[2] A "trilogia do Benfica", com Tratado das paixões da alma (1990), A ordem natural das coisas (1992) e A morte de Carlos Gardel (1994), seria seu terceiro ciclo, de acordo com entrevista que o autor concedeu a Rodrigues da Silva, para o JL de 13 de abril de 1994. Demais obras do autor são: Manual dos inquisidores (1996), O esplendor de Portugal (1997), O livro de crônicas (1998) e Exortação aos Crocodilos(1999).
[3] A definição de autor "barroco" não poucas vezes o acompanhou, embora não o agradasse. Ver, por exemplo, entrevista no JL de 5-11 de abril de 1988, n. 300.
[4] SIMÕES, Maria de Lourdes Netto. As razões do imaginário. Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado/EDITUS, 1998, Anexo I, p. 2.
[5] "Mesquita Brehm, assinando Vitoria Kali, através da Sociedade Portuguesa de Autores, comunica a Publicações D. Quixote e ao autor [António Lobo Antunes] que havia registado a seu favor aquele título na Direção Geral de Espetáculos e do Direito de Autor, no dia 24 de Agosto de 1987, registo que lhe foi deferido a 20 de Outubro de mesmo ano". JL - Jornal de Letras, Artes e Idéias, Ano VII, n. 297, 15/21 de maio de 1988, p. 2.
[6] MEDINA, João. "O mito sebastianista hoje. Dois exemplos da Literatura Portuguesa Contemporânea: Manuel Alegre e António Lobo Antunes". Revista Municipal de Cascais, 1997, v. 4, p. 204.
[7] ANTUNES, António Lobo. As naus. Lisboa: Publicações D. Quixote/Círculo de Leitores, 1988, p. 10-11. Todas as citações posteriores do romance serão retiradas desta edição, passando-se a indicar somente o número das páginas respectivas.
[8] "Fundada canonicamente a Companhia de Jesus, o Padre Francisco Xavier é nomeado Superior de toda a Missão da Índia Oriental, desde o Cabo da Boa Esperança até a China. (...) A 25 de outubro de 1605 é beatificado por Paulo V e Gregório XV canoniza-o a 12 de Março de 1622. A Igreja festeja-o todos os anos no dia 3 de Dezembro. É padroeiro de Setúbal". Conforme verbete encontrado emwww.lasa.pt/xavier.htm#Padroeiro .
[9] A relação tágides/prostitutas será analisada mais profundamente a seguir.
[10] Em entrevista a Luis Medina Martins, Lobo Antunes afirma que a criação de As Naus "teria o sentido de uma tentativa de dar, sob forma onírica, o retrato desse país, em que o presente e o passado se misturam". JL - Ano VIII, n. 3000, 5 a 11/04/88, p. 8-10.
[11] "Recordei-me de quantas vezes, em pequeno, olhei aquelas ondas a lembrar-me de Goa" (p. 47). E em outro capítulo em que aparece (o nono), diz que Deus sabe do íntimo de suas intenções - já que o acompanha desde a Índia (p. 99).
[12] QUADROS, António. A arte de continuar português. Lisboa: Templo, 1978, p. 31-32.
[13] Para Eduardo Lourenço, a questão dessa surpresa generalizada a respeito da Revolução deveu-se ao grande atraso da sociedade portuguesa, subjugada, desinformada, enganada, enfim, desrespeitada em seus elementares direitos de cidadania pela regime ditatorial. Ver, sobre o assunto, seu livro, O complexo de Marx: Lisboa: Dom Quixote, 1979 (p. 186-187).
[14] CHEVALIER, Jean e GHEERBRANT, Alain. Dicionário de Símbolos. RJ: José Olympio, 1996, p. 894.
[15] Além dessa passagem, na qual se torna explícita a referência à carnavalização, todo o romance, de certa forma, joga continuamente com esse recurso. Em concordância com Michelle Giudicelli: "Pour mettre em oeuvre cette carnavalisation, l'auteur a recours à plusieurs procédés, dont le principal consiste à superposer les deux époques, celle correspondant aux périodes de gloire et le Portugal du XXe siècle, invitant par là à une lecture á plusieurs étages, dont le premier se caractérise par um anachronisme voulu qui confère au texte um aspect ludique". GIUDICELLI, Michelle. "As naus, d'António Lobo Antunes et la carnavalisation de l'Histoire officielle". In: PIWNICK, Marie-Hèléne (Org). Regards sur deux fins de siécle (XIX e XX). Colloque Franco-Portugais. Bordeaux: Maison des Pays Ibériques, 1996, p. 31.
[16] RICOEUR, P. Ideologia e utopia. Lisboa: Edições 70, 1991.
[17] COSTA, Maria Velho da. Lucialima. Lisboa: Dom Quixote, 1983, p. 251.


por Inara de Oliveira Rodrigues [1]
2002

07/07/2014

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