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Mensagens

A mostrar mensagens de Dezembro, 2007

Sergio del Molino: En El Culo Del Mundo

Nunca acreditei naquilo de “diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és”, muitíssimo menos na variante “diz-me o que lês e dir-te-ei quem és”. Nem sequer “diz-me o que escreves e dir-te-ei quem és”. Oxalá as pessoas fossem tão simples. Oxalá, aplicando essas premissas, pudéssemos desenvolver os parâmetros necessários com a menor margem de erro que nos permitissem etiquetar alguém apenas com um golpe de vista. A intuição, a exploração das contradições, em definitivo, o processo de descobrir uma pessoa seria reduzida a uma simples fórmula. É o que procuram os portais de internet de contactos e agências matrimoniais: afinidades eleitas mediante combinações matemáticas. Oxalá fosse tão simples julgar e conhecer, mas, por sorte, as pessoas sempre acabam por surpreender-nos, terão sempre uma parte que elas mesmas desconhecem, sempre terão uma nova cara a mostrar-nos. Por isso não me etiquetem com leviandade quando confesso o meu pecado: gosto de António Lobo Antunes.
Sim, é denso, arcaico em c…

almaro: opinião sobre O Meu Nome É Legião

Ruben A. escreveu sobre Picasso em “Páginas IV”, ”foi indubitavelmente o maior criador estético e um dos maiores desenhistas de todos os tempos. Teve a grandeza de nunca cristalizar, de querer sempre mais, de vibrar em dissonância consecutiva, de dar gritos ao longo de telas definitivas.” Sinto o mesmo ao ler cada novo escrito de Lobo Antunes (em edição ne varietur, com que o autor a partir de determinada fase, passou a doar os seus “romances” aos leitores).
O meu nome é Legião são vários contos, vários relatos com a morte, umas vezes na terceira pessoa, algumas na primeira. É um livro negro (a primeira edição chega ao requinte de ter capa negra, cor que se adequa aos relatos sem esperança, deste livro de guetos e de becos sem saída).
Ao ler as histórias (todas elas com cenário de fundo o cerco pela policia ao Bairro rodeado de Figueiras bravas) recordei um álbum de fotografias de Eduardo Gageiro que durante muitos anos pousou como objecto na mesa de centro da sala de meus pais, Retrato…

Denis Leandro: crítica a Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo

Labirinto de Dédalo

Boa tarde às coisas aqui em baixo, de António Lobo Antunes, foi selecionado para concorrer ao prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa 2007, passou à segunda fase do prestigiado concurso e foi classificado como finalista, mas Jerusalém, do também português Gonçalo Tavares, acabou recebendo a premiação. Esse curioso “romance em três livros com prólogo e epílogo”, conforme se pode ler nas suas páginas de abertura, evoca em seu título uma frase singular e “intraduzível” – singularidade e intraduzibilidade que irão se reafirmar ao longo dessa vasta narrativa que cruza espacialidades portuguesas e angolanas numa torrente de rememorações atormentadas.
Não é sem razão que os diversos narradores que se alternam e se confundem em meio à convulsão narrativa desses excertos de histórias reclamam ajuda para narrar suas vidas irrecorrivelmente estraçalhadas: “Tão difícil explicar-me, de que maneira explicar-me, como se diz isto, quem me ajuda a contar, a ser a p…

Da leitora Manuela Pinto: entrevista na RTP

Dr. António Lobo Antunes

Ouvi há uns tempos, mas só agora tive coragem para escrever, a sua última entrevista na RTP, e se já o admirava fiquei a “amá-lo”.
Pela sua humildade, a sua timidez, o carinho dos seus olhos, tudo em si, um misto de criança e adulto que nos faz sentir medo e ternura, uma mescla tão profunda como o seu ser.
É delicioso! Eu estaria toda a noite a ouvi-lo, a perceber nas entrelinhas a sua vida como psiquiatra ( mesmo quando era pequenino e caminhava pelos corredores com o seu pai), na guerra, enfim no amor. no casamento, na amizade!
Não tenho nem nunca tive ídolos na vida mas existe alguma coisa que me atrai em si como escritor (“ninguém escreve como eu”), como homem, como ser humano com princípios, com um carácter invulgar (creio que comum à família) enfim, uma Figura que me enternece e que eu amo. Sinto-o, quando fala, quando o ouço (pena é ser tão poucas vezes) quando olha insistentemente para a pessoa que o está a entrevistar, ou quase a querer fugir rapidamente …