29/11/2014

Karlo Mongaya - opinião sobre O Esplendor de Portugal

O esplendor de Portugal (e a colonização de Angola)

"O Esplendor de Portugal" de António Lobo Antunes é um magnífico romance que lida com o desencanto do colonialismo português em Angola. É a história de uma família de colonos, donos de uma exploração de carácter esclavagista. Família essa que caiu do pedestal da sua antiga glória aos gritos dos guerrilheiros movimentos independentistas angolanos.

A matriarca da família é deixada em Angola, vivendo na miséria com a esperança que os filhos voltarão para o seu lado. Estes, porém, agora adultos, vivem em Portugal as suas vidas desgastadas, todos derramando a parca aparência de humanidade que lhes resta, atormentados pelos fantasmas das suas antigas vivências em Angola.

Sendo um lancinante e angustiado olhar sobre esse "coração nas trevas" real (em oposição à imagísitca orientalista de Joseph Conrad sobre África), "O Esplendor de Portugal" é uma denúncia ao imperialismo, e da forma como tal regime explora esses povos periféricos por forma a sustentar a prosperidade da metrópole.

Graficamente retrata a forma como o poder político e económico, e as relações sociais dominantes que o próprio cria, desumaniza o povo governado, tornado monstros os governantes. É um imponente e temeroso retrato da opressão e da exploração a todos os níveis, através do ponto de vista desses antigos senhores agora despojados do seu poder.

Contado através de um fluxo de pensamentos e de memórias fragmentadas, que poeticamente alternam entre presente e passado, a construção deste romance reflecte o desmoronamento das vidas dos membros da família outrora próspera, embutida na sociedade colonial onde aqueles tinham as suas raízes.

De uma vez obscuro, irónico e poético, o romance imputa clara e significativamente uma extrema consciência de classe e psicologia racista das brutais e hedonistas elites coloniais. "O Esplendor de Portugal" é de leitura obrigatória.


por Karlo Mongaya
18.11.2014
[traduzido do inglês por José Alexandre Ramos]

Karlo Mongaya about The Splendor of Portugal

Dalkey Archive Press edition, 2011
The Splendor of Portugal (and the Colonization of Angola)

António Lobo Antunes’ Splendor of Portugal is a splendid novel dealing with the ugliness of the Portuguese colonial enterprise in Angola. This is the story of a family of settler colonialists that used to own a slave plantation in Angola but has fallen from their former glory in the wake of the Angolan War of Independence.

The matriarch, left in Angola, lives in destitution with the one hope that her children will come back for her. Her children, now adults living wasted lives in Portugal, have all but shed any semblance of humanity, tormented by nightmarish details of their former life in Angola.

A searing and anguished look into this real ‘heart of darkness’ (as opposed to Joseph Conrad’s Orientalist imagining of Africa), Splendor of Portugal is an indictment of imperialism and how it super-exploits the people of the peripheries to sustain prosperity of the mother country.

It graphically portrays the way a political and economic order and the dominant social relations it creates dehumanizes the ruled as it makes monsters of the rulers. It is an awe-inspiring portrait of oppression and exploitation at all levels through the eyes of the now disgraced former masters.

Told through streams of consciousness and fragments of memories that poetically jumps back and forth through time, the novel’s form mirrors the falling apart of their personal lives, their once wealthy family, along with the colonial society they were accustomed to.

At once dark, ironic, and poetic, the novel gives much-needed insights into the extremely class conscious and racialized psychology of the brutal and hedonistic colonial elites. Splendor of Portugal is a must-read.


by Karlo Mongaya
18.11.2014

25/11/2014

Citações da crítica à edição holandesa de Caminho Como Uma Casa Em Chamas (Als Een Brandend Huis)

Por cortesia de Maria da Piedade Ferreira, transcrevemos aqui algumas citações de crítica à edição holandesa de Caminho Como Uma Casa Em Chamas, Als Een Brandend Huis. Relembramos que a edição da Ambos Anthos antecedeu a edição em português da Dom Quixote, tendo sido a estreia mundial do livro. Estas citações foram recolhidas e traduzidas por Ana Carvalho, esposa de Harrie Lemens, o tradutor em holandês da obra de António Lobo Antunes.

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«Como sempre, Lobo Antunes é capaz de delinear qualquer situação através de uma imagem inesperada, por exemplo, o momento da despedida de dois amantes desiludidos (Despedimo-nos num aperto de mão de negociações políticas sem acordo.)

A maior força de Lobo Antunes é ele conseguir arrebatar o leitor com uma intensa e crescente compaixão pelas suas personagens.»

por Ger Leppers
em Trouw

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«...saiu antes da edição portuguesa, graças à interferência do seu tradutor de sempre, Harrie Lemmens, que uma vez mais soube verter primorosamente para o neerlandês essa prosa tão densa.

Neste livro ele disseca com uma precisão cirúrgica a psique de um país traumatizado.

O que torna “Caminho como uma casa em chamas” num romance inconfundivelmente Lobo Antunes é o seu estilo evocativo, a esvoaçar de uma situação para a outra, mas escrito e traduzido de tal forma que o leitor jamais perde o fio da história. Os diálogos são aqui entrecortados pelos ecos do passado.

“Caminho como uma casa em chamas” lê-se como um jogo de sons, quase como o roteiro de uma produção radiofónica.»

por Ger Groot
em NRC

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«António Lobo Antunes é um escritor extraordinário. Deixe-se levar pela leitura: António Lobo Antunes é um mestre da narrativa.»

por Maarten Moll
em Parool

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«António Lobo Antunes escreveu um romance caleidoscópico em que não incomoda o facto de não haver praticamente enredo.

Ler António Lobo Antunes é uma escolha deliberada. Porque numa conjuntura literária em que domina a narrativa (anglosaxónica) plot driven, a sua prosa coloca outras exigências ao leitor. Exigências muito maiores. O grande crítico literário Harold Bloom disse uma vez considerar a literatura como um prazer penoso, e esta definição aplica-se plenamente à obra de ALA.

A abundância de metáforas dos seus primeiros livros deu, entretanto, lugar em romances posteriores ao estilo único que ele foi desenvolvendo com o tempo. Poder-se-ia aqui tirar da gaveta o termo stream of consciousness, mas é muito mais do que isso. Estilo único, sim, porque, na minha opinião, é impossível compará-lo com quem quer que seja. Só talvez com Faulkner, no seu manejar de vários tipos de linguagem, nos farrapos de pensamentos que ora se impõem ora se desvanecem.

Fica-se com uma estranha sensação de sincronia, como se ao lermos nos encontrássemos dentro de uma mente omnisciente de que emanam as oito mentes narradoras.

Li as primeiras páginas lentamente, voltando sempre atrás com receio de perder alguma coisa. Ora isso é o pior que se pode fazer. A prosa de Lobo Antunes exige do leitor uma entrega total. Notei que a leitura passou a fluir melhor a partir do momento em que decidi deixar-me levar pelo ritmo da voz narradora. A leitura transformou-se então numa espécie de transe, numa experiência em que pouco importa se neste romance caleidoscópico há ou não um enredo.

A prosa de Lobo Antunes provoca fortes emoções, sobretudo pela forma como ele consegue evocar imagens que nos ficam gravadas na mente. Em frases que nos tocam profundamente.

Basta de divagações: quem quiser saber do que a literatura é capaz sabe agora qual o caminho a seguir.»

por Jeroen Vullings
em Vrij Nederland

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«António Lobo Antunes explora as cavernas sombrias da mente humana. Os seus romances são tão complexos como a própria vida.

Nesta polifonia ensurdecedora o passado e o presente entrecruzam-se continuamente culminando numa simultaneidade aparentemente estranha. Este método, embora brilhante, exige o máximo do leitor a quem não resta outra alternativa senão deixar-se levar pelo turbilhão da torrente de pensamentos.

Ler António Lobo Antunes (...) exige a máxima concentração, mas o que se recebe em troca compensa plenamente esse esforço.

Um romance brilhante e vertiginoso.»

por Marijke Arijs
em De Standaard

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Um agradecimento especial da nossa parte dirigido ao casal Harrie Lemens e Ana Carvalho pela recolha destas citações.

20/11/2014

Visão - «Não tenho muito jeito para viver»

Visão
texto de Sara Belo Luís
13.11.2014


Como são os dias de alguém que dedica uma vida inteira à escrita? No momento em que chega às livrarias Caminho Como uma Casa em Chamas, aqui fica o relato de uma entrevista com o escritor, entrecortada com "a pavorosa realidade" do quotidiano.

foto de Gonçalo Rosa da Silva
Não gosta de conversas, de entrevistas então ainda menos. "A única coisa a que os leitores têm direito são os livros", costuma afirmar António Lobo Antunes, 72 anos. Com isto, o escritor quer dizer que o que importa é a literatura. E também que não se esperem grandes revelações sobre a sua vida privada: "Tenho relações de intimidade com duas ou três pessoas." Do dia a dia de Lobo Antunes há apenas algumas coisas que perpassam nas crónicas que publica na Visão, sobretudo nas que se aproximam mais do género diário pessoal.

"Eu só sou o António Lobo Antunes com o papel na mão. Sem o papel na mão, sou um chato."

Não, não é um chato. Apesar de todas as angústias, António Lobo Antunes mantém um sentido de humor de que vale a pena falar. Adora uma pequena história, um diálogo sem nexo, uma incongruência divertida. É capaz de se rir até às lágrimas de uma frase possidónia proferida por alguém, não importa quem. E de voltar a contá-la, acrescentando-lhe uma graça que nem todos poderão gabar-se de possuir. Lobo Antunes tem, isso sim, uma vida rotineira, uma vida de dedicação total à escrita. E, ao mesmo tempo que diz  escrever porque não sabe fazer mais nada, também é capaz de dizer que está cansado de tudo. 

"No princípio só vinha para aqui escrever. Já estou farto, apetece-me mudar de sítio. Nunca aguento muito tempo numa casa. Passado uns tempos, começo a ficar cansado. Não sei o que é e, sobretudo, não sei até que ponto é que quando estou a dizer que estou farto desta casa, não posso estar a dizer 'estou farto de mim'."  

Vem aí uma daquelas alturas. António Lobo Antunes já acabou de escrever a primeira versão do livro (o terceiro depois deste que agora chega às livrarias, Caminho Como uma Casa em Chamas, sendo que, pelo meio, ainda terminou outro, que sairá no próximo ano) e tem em cima da sua mesa de trabalho um monte de folhas A4 que é preciso rever e cortar, cortar e rever. Anda às voltas com uma personagem, uma surda-muda que lá aparece. E lembra-se dela, a propósito de nada, antes de, na Avenida de Roma, entrar para o dentista onde há meses passa duas tardes por semana.

"- Não tenho muito tempo livre.
- E o que faz nos intervalos dos livros, quando não está a escrever?
- Coisas inconfessáveis [risos]."

Os dias estão mais frios e, às quintas-feiras, já não há jantar em casa dos pais, em Benfica. A mãe, Margarida, morreu quase há dois meses; um dos irmãos, Pedro, vai fazer um ano. Na semana passada, pela primeira vez depois da morte da mãe, o seu irmão João, o neurocirurgião, convidou os manos para jantar. Da casa da infância, António Lobo Antunes só quis trazer uma fotografia da mãe. Tem-na, emoldurada, nova, bem vestida e elegante, rodeada de estantes com livros até ao tecto, de frases escritas na parede, de quadros pintados por Júlio Pomar.

"Nos hospitais, vi muita gente morrer, mas nunca vi ninguém chamar pelo pai. Agora olho para aquele retrato e penso: é a minha mãe. Só com a morte dela é que me dei conta da sua importância. Há aquela frase de Conrad tão dramaticamente verdadeira: tudo o que a vida nos pode dar é um certo conhecimento sobre ela que chega tarde demais." 

Impressiona qualquer um, a quantidade de frases que António Lobo Antunes sabe de cor. Poemas, bocados de livros, diálogos, histórias. Sim, memória de elefante. As suas entrevistas estão cheias de citações, como se houvesse sempre uma à medida de cada pergunta jornalística. Já se disse aqui que não gosta de entrevistas, "uma espécie de interrogatório policial" (acha o próprio) durante as quais o alegado suspeito não larga a sua personagem (acrescentamos nós). E este, em concreto, diz apenas o que quer. Nos últimos tempos, por exemplo, tem-lhe apetecido dizer mal do Governo. 

"Os portugueses merecem muito melhor, merecem muito mais do que o Governo que têm, muito mais do que a maneira como os obrigam a viver. Já ouviu um discurso do primeiro-ministro? A quantidade de erros de português que ele dá... Como é que podemos ser governados por pessoas que nem sequer sabem falar português? Não posso com esta mediocridade, com este vazio de ideias, com esta mentira constante. 'Decisão irrevogável'? O meu pai nunca admitiria que um filho seu voltasse atrás com a palavra. E isto passa-se no mundo inteiro. Há pouco tempo, George Steiner comentou comigo que nenhum dos bons alunos de Cambridge ia para a política: só os medíocres vão para a política." 

António Lobo Antunes sobreviveu a mais um cancro. A dois, um em cada pulmão. O médico que o assistiu disse que o curava - e curou. Faz exames regulares, come rebuçados de mentol para ver se consegue reduzir o número de cigarros que ainda fuma. Fica com a boca impregnada de mentol. E continua a fumar. "Dá-me prazer." Tirando as viagens ao estrangeiro, sempre por causa dos livros, pouco sai de casa. Não vai de férias, nem de fim de semana (houve um tempo em que, como os magalas, tirava as tardes de sábado).

"Não tenho muito jeito para viver. E acho que os livros são a minha redenção." 

Escreve dez horas por dia, sete dias por semana, com uma disciplina que poucos escritores no mundo devem ter. E a vida só existe assim. Umas vezes, os livros são tudo. Outras vezes, são "só papéis": "O que é isto comparado com a pavorosa realidade de, daqui a nada, estar no dentista?". É capaz de fazer, de enfiada, seis crónicas, "prosinhas", para depois regressar ao livro sem interrupções (o galope é outro, já explicou várias vezes). Almoça num dos cafés do bairro onde vive, o Conde Redondo. O prato do dia e, muitas vezes, uma sobremesa (tem gostos de garoto, pede leite-creme ou mousse de chocolate). Recebe visitas de meia dúzia de pessoas, três filhas, amigos, a editora Maria da Piedade Ferreira. E telefona a outra meia dúzia. De resto, está sempre ali, a escrever. Contabilidade bibliográfica: 25 livros (não quer que lhes chamem romances), mais cinco volumes de crónicas.

"A presença das pessoas não me incomoda nada. Desde que não falem comigo, escrevo em qualquer sítio. A Agustina dizia que, se fosse preciso, até escrevia numa cabina telefónica." 

Conta-se que, quando terminava um livro, Iris Murdoch dava uma volta ao quarteirão e começava logo a escrever outro. No caso de António Lobo Antunes, os intervalos entre os livros duram três ou quatro longos meses. Nessas alturas, lê tudo o que apanha. Romance, ensaio, poesia. O que quer voltar a ler, o que gosta muito de ler (Tolstoi e Dostoievski, ditos com a bonita pronúncia que um amigo, professor de literatura russa, lhe ensinou), o que vai saindo, o que lhe mandam. É um grande leitor. 

"Quando uma pessoa tem talento, percebe-se logo. Às vezes até na cara se percebe. As pessoas com talento têm uma certa aura. Marlon Brando pode estar metido num cantinho da tela, mas nós só reparamos nele quando olhamos para lá. Uma vez, vi Chagall a pintar os tectos da ópera de Nova Iorque. Era um homem de 80 e tal anos, pequenino, feiíssimo, estava sentado no chão a trabalhar e, no entanto, eu não consegui tirar os olhos dele." 

Depois, há um dia em que marca uma data no calendário, para se obrigar a si próprio a começar. Não faz concessões de espécie nenhuma. As personagens não têm nome, os livros não obedecem a um plano organizado, têm o número de páginas que precisam de ter. Nas entrevistas, fala pouco ("Não tenho nada para dizer") e quase nada sobre o livro que é suposto ser promovido. Tem por hábito citar D. Francisco Manuel de Melo: "De que trata o livro? O livro trata do que vai escrito dentro."

"Gosto das pessoas que têm cara de quem vive. E isso não tem a ver com beleza. Normalmente, as pessoas que eu acho atraentes não são bonitas, têm um charme lento, que eu não sei explicar. Acontece-me o mesmo com as cidades. Não gostei nada de Paris nas primeiras vezes que lá fui, mas depois, a pouco e pouco, aquilo vai entrando dentro de nós. Não há nada a fazer, o talento é como um berlinde na mão, ou se nasce com ele ou não se nasce. O grande Curro Romero (conhece Curro Romero, o imortal toureiro?) tinha uma frase que explicava isto: o que não se pode não se pode e, além disso, é impossível." 

Lobo Antunes mudou-se para o Conde Redondo há meia dúzia de anos. Começou por escrever num rés do chão transformado em atelier de design que pertencia a um primo bastante mais novo (José Maria Nolasco, que, entretanto, morreu). Era um sítio escuro e frio, no inverno chegava a escrever de luvas e casaco. Depois, Tereza Coelho, a sua antiga editora, que também já morreu, descobriu a casa onde hoje vive ("onde estou", prefere dizer) e insistiu em que ele viesse para aqui. 

"Comprei esta casa com o dinheiro de uma tradução de um livro que vendi para Espanha."

A casa - num prédio recuperado, com grandes janelas a toda a largura da fachada - não fica longe do Hospital Miguel Bombarda, onde, quando ainda exercia psiquiatria, passava muito do seu tempo. Isso, agora, já não lhe diz nada. Entra e sai da garagem e, quando sai a pé, não passa do virar da esquina (isto não se devia divulgar, mas atravessa a estrada fora da passadeira, quase sem olhar). Quando alguém, seu leitor, se aproxima, fica satisfeito. 

"É agradável as pessoas gostarem do nosso trabalho. Temos uma sede infinita de amor. E de reconhecimento. Por muito certos que estejamos do nosso talento e da nossa capacidade de escrever."

E agora que - graças a um super-aparelho que lhe "ressuscitou" um ouvido quase morto - ouve melhor, já nem tem a desculpa da surdez para fingir que não ouve.


entrevista publicada na edição 1132
13.11.2014

15/11/2014

José Mário Silva, "Um remexer no escuro" - crítica a Caminho Como Uma Casa Em Chamas

Um remexer no escuro
 
Os dois romances anteriores de António Lobo Antunes – Comissão das Lágrimas (2011) e Não é Meia Noite Quem Quer (2012) – centravam-se numa personagem feminina muito forte. Era dentro das protagonistas, no seu espaço mental, que as coisas aconteciam e as histórias, próprias ou alheias, se misturavam. Em Caminho Como Uma Casa Em Chamas, o escritor preferiu uma estrutura aparentemente mais convencional, já utilizada por muitos outros autores (de Georges Perec a Alaa El Aswany, passando por Nuno Camarneiro, um recente Prémio LeYa, e até pelo Saramago de Claraboia), e que consiste em descrever a vida dos habitantes de um prédio. Neste caso um edifício lisboeta, «a um canto da cidade, longe do rio».

Tratando-se de Lobo Antunes, era improvável que o romance se deixasse enclausurar em esquemas formais rígidos. De facto, isso não acontece. Cada capítulo leva-nos a um dos oito apartamentos (do R/C esquerdo ao 3.º direito, mais o sótão supostamente desabitado) mas depressa percebemos que os inquilinos vivem em casulos quase estanques, interagindo pouco uns com os outros. Eles sabem bem «a quantidade de coisas de que o passado é feito», porque só se podem agarrar à memória. São quase todos velhos mais ou menos próximos da morte, solitários com tendência para o delírio, deserdados do amor, esquecidos pelos filhos que só aparecem, quando aparecem, para lhes exigir dinheiro.

Nesta pequena galeria há lugar para um advogado viúvo, submisso toda a vida à mulher, que o humilhava; para uma actriz indiferente às «traições do tempo», alucinada, julgando-se ainda rainha de um público invisível («eles adoram-me!»); para uma juíza com medo da decadência física, a quem um amante mais novo chama «esquilozinho gorducho», e que toca piano rodeada de um «excesso de tralha», enquanto evoca a infância em Castelo Branco e os «vapores da Gardunha ao longe»; para dois judeus ucranianos, irmão e irmã, assombrados pelo terror de que fugiram; para um coronel que esteve em Angola e amou uma mulata (deixada para trás no regresso, talvez grávida), e cuja imagem, mesmo «agora que tudo acabou», ainda o persegue; e para outras figuras igualmente trágicas, patéticas, ou apenas sujeitas à «ruína das coisas».

O mais admirável neste romance é a forma como Lobo Antunes cria a sua habitual polifonia em cada um dos núcleos – essa complexa sobreposição de tempos e espaços que está na matriz da sua escrita – mas depois os consegue misturar através de ecos e estribilhos, rastos de frases que saltam de uma casa para outra. Apesar das diferenças entre os vários planos narrativos que coexistem debaixo do mesmo telhado, há também muito em comum: uma mesma «poeira ténue de imagens, vozes, sons» a «atravessar-nos a cabeça misturando os pensamentos e diluindo as ideias», a permitir «um remexer no escuro», uma exploração do que há de mais íntimo e secreto em cada personagem.

No final, a figura de Salazar, omnipresente ao longo do livro enquanto memória do Portugal em que estas pessoas cresceram, materializa-se no sótão, «cubículo sujo» onde se esconde o «senhor doutor sempre de fato e gravata, sempre bem penteado», mesmo se a roupa já está no fio e as botas gastas, «uma das solas aberta com os preguinhos ao léu». Ele é «a presença atenuada de uma autoridade extinta», convencido de que ainda dirige o país, quando na verdade depende da «sopinha» quotidiana, trazida pela dama de companhia da actriz que mora mesmo em baixo, e terá sido um dia sua amante.

Além de uma síntese dos principais temas lobo-antunianos (famílias em ruínas, África e os restos do império, solidão, miséria existencial, trabalho da memória), este romance é também o retrato duro de um país que ainda tem, sobretudo em gerações mais velhas, as marcas do salazarismo no seu subconsciente colectivo.


por José Mário Silva
11.11.2014

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

11/11/2014

A colecção António Lobo Antunes - Ensaio (Texto Editora - LeYa)


Para os mais interessados sobre a complexidade da literatura de António Lobo Antunes, existem muitos livros que estudam e tentam explicar a sua obra, entre os quais os trabalhos de e sob a coordenação da Professora Maria Alzira Seixo, bem como os trabalhos de Ana Paula Arnaut, entre outros.

Desde 2011 que têm sido publicados os volumes de uma colecção orientada pela Professora Maria Alzira Seixo, intitulada António Lobo Antunes - Ensaio, sob a chancela da Texto Editora (que faz parte da LeYa, o mesmo grupo editorial que publica os livros do escritor). São estudos e teses sobre a obra de António Lobo Antunes que muito acrescentam ao que já foi publicado e focam aspectos interessantes da sua escrita que ajudam a compreender a obra antuniana no seu todo. 

Retomamos aqui a divulgação dos 5 volumes já publicados (o último muito recentemente). Sendo de menor tiragem, são livros que podem não estar disponíveis em todas as livrarias, mesmo as de maior superfície; no entanto, através da LeYa Online é sempre possível obter ou encomendar os títulos que abaixo referimos. Com esta informação foi também actualizada a bibliografia passiva de António Lobo Antunes.

Aconselhamos vivamente.

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António Lobo Antunes: A Arte do Romance, de Filipe Cammaert. 1º volume, edição: 2011, 184 páginas.


Este livro abre a Colecção António Lobo Antunes – Ensaio. Inclui estudos dos especialistas reunidos em Junho de 2009 no Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras de Lisboa para estudarem a arte do romance na obra deste escritor: José Gil, Paula Morão, Agripina Carriço Vieira, Eunice Cabral, Graça Abreu, Ana Paula Arnaut, Inês Cazalas e Catarina Vaz Warrot. Apresenta o state of the art desta obra no final da 1ª década do séc. XXI. Como escreve A. Lobo Antunes? Porque escreve? Como muda ele a literatura? O que dá ao leitor? Como o prende? Subjectividade, romanesco, inquietação, incidências da música, escrita abstracta, ritmo narrativo e modos de compor são dos tópicos aqui mais abordados. Foi organizador do encontro Felipe Cammaert.

A Colecção ALA – Ensaio edita estudos críticos e/ou universitários que se debrucem, total ou parcialmente, sobre a obra antuniana, e privilegia os trabalhos de índole comparatista.

Maria Alzira Seixo



A Mão-de Judas: Representações da Guerra Colonial Em António Lobo Antunes, de Norberto do Vale Cardoso. 2º volume, edição: 2011, 280 páginas

António Lobo Antunes e a guerra colonial em África, tópico fundamental da literatura portuguesa nos últimos 50 anos, continua actual na obra do escritor, como está patente no último romance, Comissão das Lágrimas. E se esta guerra constituísse, além de atroz experiência  humana e existencial, um vector basilar na composição do texto antuniano, imprimindo na expressão literária a perdurabilidade do risco, a ulcerada exposição à perda de si, dos outros, do sentido de tudo? Este livro percorre tais caminhos, a partir da figuração de Judas, que, entre Marte e a Morte, passando por Narciso, e um rapaz chamado António, enfrenta medos, anseios, valores, ideologias, e o risco de traçar no papel o sofrimento de irremediáveis contradições. Livro que prende o leitor, tanto quanto o ensina, constituíu, antes de ser reelaborado para esta publicação,  uma tese de doutoramento na Universidade do Minho, e é seu autor Norberto do Vale Cardoso, professor do Ensino Secundário, actualmente na Escola Profissional de Chaves.

Colecção ALA – Ensaio edita estudos críticos e/ou universitários que se debrucem, total ou parcialmente, sobre a obra antuniana, e privilegia os trabalhos de índole comparatista.

Maria Alzira Seixo


As Mulheres na Ficção de António Lobo Antunes: (In)Vatriantes do Feminino, de Ana Paula Arnaut. 3º volume, edição 2012, 264 páginas.

Como trata a mulher António Lobo Antunes? As figuras femininas são abundantíssimas, na sua obra, marcadas por traços indeléveis de actuação e  personalidade. Mas agem elas com frequência ou são meras personagens comparsas, de procedimento subordinado a dos homens? Têm vincado o carácter ou, ao invés, apresentam compleição débil, não alcançando voz activa na intriga do romance? Ana Paula Arnaut, professora Agregada da Universidade de Coimbra e especialista desta obra, estuda com pormenor e rara argúcia, em todos os romances, as figuras femininas neles existentes, procedendo a finas análises do texto e de comportamentos nele representados, que impressionam pela tendencial exaustão do trabalho e pela justeza das conclusões, que nunca simplificam essa capacidade de sugestão e vaga impressividade que é dos encantos maiores da escrita de António Lobo Antunes. Este é o livro que faltava, para uma melhor compreensão do universo ficcional do criador de Julieta de A Ordem Natural das Coisas, da Isilda de O Esplendor de Portugal e da Maria Clara de Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura, personagens que marcam o romance português de todos os tempos.

Colecção ALA – Ensaio edita estudos críticos e/ou universitários que se debrucem, total ou parcialmente, sobre a obra antuniana, e privilegia os trabalhos de índole comparatista.

Maria Alzira Seixo


Chaves de Escrita e Chaves de Leitura nos Romances de António Lobo Antunes, de Catarina Vaz Warrot. 4º volume, edição: 2013, 256 páginas.

A música, em António Lobo Antunes, é um aspecto de relevo. Na composição dos romances, na caracterização de personagens, no tecido de sons que povoam o universo dos seus textos. Surge em referências e antologias (jazz, música pop, modelos sinfónicos), em formas de composição (o articulado de vozes alternadas, cruzamento de ‘mãos’ da escrita, a construção de repetições, certos efeitos de ressonância) que são familiares ao leitor antuniano. Mas não tem havido estudos que o objectivassem no processo de escrita do autor de Fado Alexandrino. Catarina Vaz Warrot, doutorada em Franla com uma tese que justamente de tal se ocupa, estuda aqui o tema a preceito. Encara-o de uma perspectiva linguística precisa, combinando análise da enunciação com factores da estética musical, e centrando ambos no tema do tempo, característico do autor. Mais: ela mostra como certas dificuldades de acesso à leitura dos seus romances (para isso analisa parte de Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura) se tornam fáceis «chaves» de entendimento do universo desta escrita. Num finíssimo trabalho de análise da enunciação, mas utilizando uma linguagem sempre acessível ao leitor corrente. Imprecindível, para se «entrar» melhor na obra do nosso grande escritor!

Colecção ALA – Ensaio edita estudos críticos e/ou universitários que se debrucem, total ou parcialmente, sobre a obra antuniana, e privilegia os trabalhos de índole comparatista.

Maria Alzira Seixo


António Lobo Antunes: A Desordem Natural do Olhar, de Susana João Carvalho. 5º volume, edição: 2014, 224 páginas.

Sobre a obra de António Lobo Antunes, leitores e crítica referem com frequência as vozes que emergem no texto, nela constituindo uma rede de significação singular. Susana João Carvalho não é dessas vozes que se ocupa, ou antes, encara-as através de um motivo literário diferente, o do olhar. Imagens, retratos, filmes, espectacularidade são neste trabalho campos de pesquisa para uma interpretação original. E o livro que ora se publica, A Desordem Natural do Olhar, é aliás ordenadíssimo, bem planificado e expresso num português de assinalável correcção. Inspira-se o título num dos romances do escritor, mas é de outros que trata: Explicação dos Pássaros, Fado Alexandrino, Auto dos Danados e As Naus, designados pelo autor como ‘o ciclo das epopeias’. Um livro valioso, pois, sobre os efeitos visuais na expressão literária, e sobre a humanidade complexa (de ordem trágica e dramática, tanto quanto cómica e grotesca) do grande escritor que é António Lobo Antunes.

Colecção ALA – Ensaio edita estudos críticos e/ou universitários que se debrucem, total ou parcialmente, sobre a obra antuniana, e privilegia os trabalhos de índole comparatista.

Maria Alzira Seixo

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Agradecemos a colaboração de Norberto do Vale Cardoso e Maria da Piedade Ferreira para a actualização deste tópico.

Além da LeYa Online, estes livros também poderão ser encontrados nos sites da Bertrand e da Fnac.

08/11/2014

Público: «Tenho um medo permanente de isto ter acabado»

Público/Ipsilon
Entrevista de Isabel Lucas
07.11.2014

António Lobo Antunes escreve Caminho como uma Casa em Chamas, um livro com cenário num prédio de quatro andares e um sótão. O amor, a morte, o tempo, o envelhecimento e o que cada um faz da sua vida são o pretexto para muitas interrogações. Algumas estão nesta conversa meio vadia.

O sol bate nas cortinas e é entre elas que a conversa começa na casa onde vive na Rua do Conde de Redondo, em Lisboa, um antigo café. A olhar para uma fotografia nova na sala. A mãe. “Era muito bonita. Foi embora há menos de um mês.” Que idade na foto? “A gente tem a idade com que nasce. Dez, setenta. Ela era muito nova”.

A conversa alonga-se, uma tarde inteira. Pede algumas reservas. Vai sendo assim. Com interrupções e alguns entusiasmos sobre si enquanto protagonista de uma escrita que diz não controlar, rodeado pelos livros dos outros, por frases e palavras escritas a marcador nas paredes, como fazia em criança no quarto em casa dos pais, em Benfica. Essa casa que se fechou agora e pode voltar a abrir-se como museu, ou fundação. Não quer falar disso.


Estamos no espaço onde António Lobo Antunes lê e onde escreve o tempo todo entre cigarros e a certeza de que quer escrever até morrer. Parece ser a única num homem que diz não ter um discurso sobre a sua literatura quando completa 35 anos de escrita publicada. A outra foi queimada na figueira do quintal porque era má e íntima. “Não falo de livros, falo do que me vem à cabeça…” É mais ou menos assim…

Vamos falar deste livro?
Não me lembro de nada. Já escrevi um a seguir que talvez seja a coisa melhor que fiz. E agora estou com outro que está complicado.  

Numa das suas crónicas, disse que ele nasceu quando começou a desenhar uma casa.
Sim, era o plano. Mas foi só isso. Não sei o que me passou pela cabeça porque escrevo sem plano, é o livro que se faz a ele mesmo. Mas para este desenhei várias casas, a ver quem punha aqui e ali, no rés-do-chão, no primeiro andar… [faz no ar o movimento da caneta no papel].

Em 25 romances tem ideia de quantas personagens já criou?
Eu não tenho personagens.

Mas tem gente, vozes
Não faço a menor ideia. Só aparecem quando estou a escrever. Depois calam-se e só voltam com a caneta na mão, quando estou sentado. De resto, não penso nas vozes. Ao princípio ficava a pensar no livro, agora só quando me voltar a sentar àquela mesa, daqui a nada. 

Tem horas para isso?
Tenho. É o tempo todo. 

Diz que não gosta de chamar romances aos seus livros. O que são?
É, não sei se são romances. Tenho tantas dúvidas em classificar aquilo. Para mim são livros. Não há histórias. Acho que tive muita sorte. A Memória de Elefante sai por acaso, ninguém sabia que eu escrevia, e um amigo meu, o Daniel Sampaio, andou com aquilo pelas editoras e ninguém queria. A Bertrand, onde estava a minha actual editora, a Maria da Piedade Ferreira, recusou o livro. Acabou por sair numa editora pequenina chamada Vega, em 1979, e vendeu loucamente. Percebo porquê. Nos escritores antes do 25 de Abril a acção passava-se em países imaginários, ou na antiguidade; a seguir ao 25 de Abril ficámos à espera dos romances que estavam na gaveta, já escritos e não podiam ser publicados, e não saiu nada. Aparece em 1977 o livro do Dinis Machado, O Que Diz Molero?. E foi só. O Memória de Elefante já estava escrito nessa altura. Três meses depois sai Os Cus de Judas, que estava pronto havia tempo, e chega uma carta da América de um agente…

Nestes 35 anos que passaram escreveu-se muito sobre si, deu muitas entrevistas. Como constrói ainda o seu discurso sobre a literatura que faz? 
Eu não falo dos livros. Falo do que me vem à cabeça, mas não falo dos livros.

Porquê?
Tenho muito pudor, tenho vergonha.

Não acha que os livros são a sua maior exposição?
Acha? Talvez seja então por isso. Eu mostrava os livros ao Zé [Cardoso Pires], fazíamos editing um ao outro. Ele dava-me páginas e páginas com sugestões que eu não seguia. Era a única pessoa que lia os meus livros antes de saírem. Sempre escrevi e ninguém lia. Eu não mostrava a ninguém. Queimava tudo na figueira do quintal. 

Porquê?
Porque era íntimo e porque era mau. 

Mas, o que o inibe a falar deles, é o medo da crítica, o julgamento do leitor?
Não tenho nenhum medo da crítica porque sei o que eles valem. Não sou parvo. Mas acho que não tenho direito de estar a maçar as pessoas. Está a fazer-me pensar em coisas sobre as quais não sei bem o que dizer. Por exemplo, esta pilha [aponta para um monte de folhas A4]. É o que estou a fazer agora e acho que está tudo mal. Os últimos livros têm saído exactamente como eu queria e este não, este foge-me. Não nos estamos a dar bem, não me sinto confortável com ele e se calhar ele não se sente confortável comigo. 

E o modo como escreve, tem mudando?
Normalmente cada vez escrevo mais depressa. O problema são as correcções. Aí perco muito tempo. Mas a primeira versão sai-me mais depressa. Antes, trabalhando o dia inteiro, saía-me meia página por dia. Continuo a escrever à mão. Começo por escrever em folhas pequenas, depois passo para folhas A4 em letra maior e começo a corrigir. Faço umas dez correcções e mando dactilografar. Quando vem já não parece escrito por mim e há muito menos narcisismo nessa leitura, sacode a água a mais.
[Olha para a capa do livro] Esta capa… Não sei se gosto se não gosto. Não folheei o livro, sequer. Mas não escolho as capas. É a editora.

Mas lembra-se da dedicatória, “Ao Zé Manel, com amorzade”?
Lembro-me. Gosto do amorzade, que não é meu. É uma dedicatória do Valerio Adami. Ele vive em Paris na casa do Dali, mesmo diante da igreja em Montmartre. Escreveu-me num desenho: “para o António com amorzade”. E eu gostei tanto daquela fórmula e acho-a tão verdadeira e tenho amorzade por esse homem.

Este livro está cheio de perguntas sobre a vida, o amor, a morte, o tempo. Tem dito que há mais perguntas que respostas. Continua a ser assim, um inquiridor…?
Acha que sou? Não faço muitas perguntas. Talvez seja uma das técnicas da análise, nunca fazer uma pergunta com ponto de interrogação. Se quer saber qualquer coisa, aprendi quando era médico, é repetir a última frase da pessoa que está a falar. Por exemplo, a pessoa diz: “hoje estou muito nervosa”, e em vez de perguntar porquê, dizer: “estou muito nervosa…” Isso obriga o outro a transformar a linguagem noutra linguagem.

Mas há alguns pontos de interrogação. Quando um dos inquilinos do prédio fala sobre a relação com o divino, “o que sente um judeu?”, a tal pergunta mais íntima. Como vai a sua relação com o sagrado?
Uma vez perguntaram ao Voltaire como era a relação dele com Deus: “cumprimentamo-nos mas não nos falamos”. É uma relação ao mesmo tempo complicada e simples. A minha relação com Deus modificou-se desde que estreitei amizade com [Frei] Bento Domingues. Ele diz, por exemplo: “eu não vou ao cemitério porque não está lá ninguém”. Eu faço perguntas como estas: “E os que morrem, onde é que estão?”; “Andam por aí”, reponde ele.

Não sei, houve uma altura da minha vida em que lia muito os físicos… Porque é que os grandes físicos, e grandes matemáticos, eram quase todos profundamente crentes? O Einstein dizia “esta coisa de Deus, por exemplo, os meus filhos têm de Deus a ideia de um vertebrado gasoso”. É a ideia que nós temos todos, e que a catequese nos dá. E Deus não é um vertebrado gasoso, como é evidente. Começamos a perceber que é qualquer coisa muito para lá disso. Passei por coisas difíceis nestes últimos anos em que tinha muitas probabilidades de morrer e o que é engraçado é que não tinha medo. Estava tão espantado e indiferente, demasiado absorvido pelo sofrimento físico, que foi brutal. Passei por uma quimioterapia de grande violência. Não sabia se ia viver ou morrer. Só gostava de viver mais uns tempos porque tinha mais uns livros dentro de mim  e sinto que ainda tenho – e queria escrevê-los. Mas não queria que Deus me salvasse da morte. As noites nos hospitais são tremendas. É um bocado como conta o Proust, ficar à espera da manhã como se a manhã salvasse de alguma coisa e não salva de nada. E depois pensava: tenho vivido tão mal...

Porquê?
Porque havia uma data de coisas para as quais eu tinha os olhos fechados. E porque procuramos a porta nas paredes em que sabemos que não há porta, quase nos sentimos culpados de ser felizes, se é que isso existe… Mas estar aqui sentado já é uma vitória do caraças, sair para a rua, ver o sol.

Disse que não queria morrer porque sentia que tinha mais livros para escrever. Os livros são a sua vida?
Há uma serie de anos o Libération ressuscitou aquele inquérito dos surrealistas, Porquoi écrivez-vous? Havia pessoas que respondiam uma página inteira. A resposta mais curta era a do Beckett, Bon qu’à ça. Eu digo que escrevo porque não sei dançar como o Fred Astaire. Se soubesse dançar como ele escusava de escrever. Não quer dizer que trabalhasse menos. Escrever é a mesma coisa. O Renoir sustentava que não há talentos, há bois. Mas há muito poucas pessoas com talento. Já reparou no deserto? Compare com o século XIX em que tinha 30 génios ao mesmo tempo. Na Rússia, de repente, Tolstoi, Dostoiesvki, Gogol, Pushkin, Lermontov, podemos continuar… Em França uma data deles, em Inglaterra… Agora não há. 

Quem é que o António lê?
Gosto muito de ler, sempre foi um prazer enorme. Há livros bons de que a gente não gosta e outros de que gostamos e não são tão bons. Por exemplo, o Thomas Mann é bom mas não gosto, chateia-me. O Musil é bom, mas não gosto. O Broch já gosto, o primeiro capítulo de A Morte de Virgílio é espantoso.

É a experiência de vida a ditar o gosto?
Claro. Se tivesse de falar assim de repente em escritores de que gosto, o Conrad, o Tolstoi… já reparou o que ele faz com frases tão simples? “Está frio, a cerejeira floriu, amanhã vamos à cidade”, com frases destas ele consegue exprimir tudo, filho da puta. Os manuscritos dele estão cheios de emendas. O que aquele homem trabalhava os textos… Só d’A Morte de Ivan Ilitch, do primeiro capítulo, há catorze versões conhecidas. Em Portugal nunca tivemos grandes escritores, ao nível destes. Quem é que o nosso século XIX tem para apresentar? O Eça e o Camilo. Uma vez vi uma crítica inglesa ao Eça que o destruía por completo porque o comparava com escritores de quem ele era contemporâneo. São estes nomes de que falámos. E de facto ao pé deles ele é um pigmeu. Temos óptimos poetas. Há poetas vivos muito bons. Mandaram-me um livro do José Luís Barreto Guimarães e gostei imenso daquilo. É bom. O José Tolentino Mendonça é bom. Mas em prosa não consigo. O problema pode estar em mim.

O que falta?
O meu pai tinha uma expressão para isso: falta faísca. Quando aparecia um bom artista ele dizia “tem faísca”. É um não sei o quê. Não sei o que faz com que o Proust seja o Proust ou o Céline seja o Céline. Noutro dia pus-me a reler o Céline e não tem uma prega. O Sartre tinha consciência disso porque quando lhe diziam: “este é o século do Sartre”, ele dizia: “não este é o século do Céline”. E ninguém lê o Sartre, já o Céline continua vivo da Costa. Aquilo não tem uma prega.

Isto leva-nos também para o escritor e a sua biografia.
Mas repare, quem são os dois escritores franceses do século XX? Este não é um desporto de competição, mas os nomes que me vêm à cabeça são os de Céline e o Proust, que tiveram histórias pessoais completamente diferentes. Homens tão diferentes, que escreviam de formas tão diferentes. Uma vez estava a falar com o meu editor francês e quando lhe perguntei “mas tu gostas do Beckett?” Ele respondeu: “Je respecte”. É o que eu sinto em relação ao Beckett. Mais respeito do que gosto. Gosto do Molloy (1951), mas o resto acho chato. É o meu gosto pessoal. O Ulisses… às vezes irrita-me por sentir a proeza pela proeza. No Faulkner aquilo está ao serviço do texto. Mas depois vai ler o Nabokov que diz mal desta gente toda. Para ele o Conrad era um escritor para crianças, o Faulkner escrevia histórias de plantadores de milho. Então de quem é que gosta? Updike e Robbe Grillet… ou seja aqueles que não lhe podem fazer sombra.

O que acha do Nabokov?
Não gosto. Uma vez estava a falar disto com o [George] Steiner quando fui a Cambridge para estar com ele. Nós temos sempre medo que a pessoa que a gente admira nos desiluda e ele, o Steiner, não me desiludiu nada. É um homem excepcional, com uma apreensão do fenómeno literário… A certa altura falei na Emily Bronte…

O Monte dos Vendavais?
Sim, dizendo que tinha gostado muito. Ele fez uma pausa comprida e disse-me: “mas não acha o livro um bocado histérico?” Eu nunca tinha pensado nisso e, de repente, dei por mim a olhar para aquele livro com os olhos dele.

E conseguiu ver histeria?
Sim, ele tinha razão. Ele preferia a Jane Austen, que é uma grande escritora, de facto. Ou a George Eliot. Tenho tanto respeito pelos escritores, gente que… como é que o Apollinaire diz no verso? “Pitié pour nous qui combattons toujours aux frontières. De l’illimité et de l’avenir…

É o trabalho condenado a não estar inacabado?
Pois é. Essa frase que disse o Marcel Duchamp, que um quadro nunca está inacabado, está definitivamente inacabado. Porque é sempre possível melhorar.

Permanece um “e se…”?
Claro. Acho que está acabado quando o livro está farto de mim, não quer mais emendas… é como quando deixamos de gostar de uma pessoa e se dorme num cantinho da cama que pode ser que ela não nos toque, quando já qualquer toque nos irrita. É tão triste o fim de uma relação…

Com o livro também?
Também. Sinto que já não querem que lhes toque. Não sei explicar isto. Passa-se a numa espécie de estado segundo que não consigo traduzir em palavras. Sei lá porque é que escrevo estas coisas. Não sei. 

Muita gente já lhe disse que a sua escrita é muito marcada, reconhecível. Entra-se num livro seu e percebe-se logo a autoria…
É isso que me chateia.

A marca?
Estava a escrever a Explicação dos Pássaros [1981] na Alemanha em casa da tradutora e do marido, e mostrei-lhe, dizendo que era diferente dos outros. Ela respondeu que lhe bastava ler três linhas e percebia que era meu. Tenho uma maneira de escrever muito marcada e isto dá para a malta imitar. É como a caricatura. Há imitadores por todos os cantos e não me refiro a Portugal.

E porque acha que o imitam?
Não sei. Não sei porque é que escrevo assim. Isto foi a pouco e pouco. Acho que só comecei a fazer livros como deve ser para aí no sétimo ou oitavo. A Memória de Elefante é claramente um primeiro livro cheio de incorrecções. Noutro dia recebi uma edição nova, já vai em mais de trinta edições – e continua a vender  e fiquei espantado porque o livro está cheio de erros de principiante, mas tem uma força… Os erros, já os esperava, mas a força do livro é que me espantou. 

Como é que lida com o seu erro?
Em que sentido?

No sentido em que sempre que um livro é lançado diz que faz o melhor que pode, mas…
Acho que faço, mas posso estar enganado. Acho que o livro a seguir a este é a melhor coisa que já escrevi na vida. Deste não me lembro mesmo. Não sei porquê, ficou apagado em mim. Tanto assim que eu não queria publicá-lo. Mas acho que uma parte da obra, aquela mais experimental, em que tento algumas coisas novas para mim como na Exortação aos Crocodilos (1999), Não Entres tão depressa Nessa Noite Escura (2000), Eu Hei-de Amar uma Pedra (2004)… Aqueles calhamaços são difíceis de ler como o caraças e eu achava aquilo claro e estava todo contente. Com a vida que há agora é muito difícil ler aqueles livros. Não dá para estar sempre a interromper. A vida não é assim, as pessoas têm de trabalhar no dia seguinte. Isto devia apanhar-se com uma doença.

Falava nas conversas com escritores. O que há de fantástico nelas, o chegar perto do enigma, do enigma do talento?
Talvez. Não sei. Ainda vou à feira do livro e fico a olhar para a fila dos autógrafos dos outros e a olhá-los porque eles escrevem. Os autores. E volto a ser o miúdo que era quando vinha do liceu e passava ao pé do Jardim Zoológico. Havia ali uma cervejaria chamada Coral onde comiam grandes génios à quinta-feira, a Natália Correia, o David Mourão-Ferreira, e eu ficava do lado de fora, com 14 ou 15 anos, fascinado a olhar para aquela gente. Atraem-me os escritores. Parece que têm contacto com outra instância qualquer. 

Também lhe acontece, ver alguém olhar para si com esse fascínio?
Talvez, mas não é a mesma coisa. Se vou a um restaurante as pessoas reconhecem-me, algumas começam com o telemóvel a tirar fotografias e a pôr no facebook. Eu não sei, não tenho computador nem telemóvel, mas acontece. Ontem fui ao dentista e estava a comer numa tasquinha ali na Avenida de Roma e umas pessoas vieram falar-me: “Não ganhámos este ano”.

Referiam-se ao Nobel?
Sim. Não percebo porquê, mas as pessoas vêm. Parecem que as pessoas lêem. E não me lêem só a mim, como é evidente. Mas eu olho para os escritores como alguém com acesso a instâncias que nós não temos…

O António é escritor. Há esse acesso?
Não sei… Estou a olhar ali para baixo (estante em frente) e a ver o Stendhal de que gosto muito. A pensar que ele faz O Vermelho e o Negro em 54 dias, a maior parte ditado, e sai aquela obra-prima e passa dois anos com o Lucien Leuwen, que é o pior livro dele. 

Então, existe génio?
Não sei como lhe chamar, mas existe qualquer coisa porque há pessoas que produzem estas coisas. A gente fica com uma inveja saudável, como é que isto se faz? Acho que isto é feito numa espécie de inocência, se calhar. Todo o escritor se acha o melhor senão não vale a pena escrever. Para não ser o melhor não vale a pena, mas acho que depois quando estão a escrever têm uma dimensão angélica… e a sensação de que escrevem só para mim.

Quando era miúdo, no liceu, se alguém falava de um escritor de que eu gostava ficava furioso porque o homem só escrevia para mim e aqueles livros eram feitos de propósito para mim. Tenho uma relação pessoal com os escritores de que gosto e tenho ciúmes dos outros leitores. Isto às vezes é carnal, tem uma dimensão física evidente. Não sei se gostava de viver com uma escritora [pausa]. O facto é que sabemos mais do que sabemos. Ontem estava a ler as entrevistas da Paris Review e há uma com o Nabokov. A certa altura há um adulto que pergunta à criança o que está a desenhar. Ela responde que está a desenhar Deus, “mas ninguém sabe como é Deus”, diz-lhe o mais velho. “Quando acabar o desenho já sabem”, responde a criança. Isto tocou-me imenso, e o Nabokov que me irrita, aquela vaidade, em pose constante, a agressividade inútil. Não lhe serviu para nada, para quê? Dizer mal de toda a gente, o azedume… Mas lá veio o Steiner outra vez pôr-me no lugar: “ele é que inventou as Lolitas e agora há-as por todos os lados”. E tem razão. Antes não havia Lolitas. Tecnicamente tem coisas boas, sem dúvida. Mas as nossas ideias misturam-se tanto com as nossas paixões. Eu gosto, logo é bom; eu não gosto, logo é mau. A crítica é sempre muito emocional. E depois as pessoas começam a dar estrelinhas que é a coisa mais cretina que há no mundo. Eu não daria estrelinhas a ninguém. Se fosse crítico fazia como o Truffaut nos Cahiers du Cinèma, só dizia bem porque só escrevia sobre os filmes de que gostava. Eu só falava dos livros de que gosto. O problema é como é que vou partilhar o meu gosto com as outras pessoas, com os leitores, que muitas vezes lêem apressados, que saltam parágrafos.

Enquanto escritor fala muitas vezes do bom leitor. Acha que tem bons leitores?
Não sei. Tenho bons editores e tenho uma coisa que me ajudaria muito se eu fosse inseguro: pessoas que respeito muito a porem-me nos cornos da lua. Há uma citação que me tem ajudado imenso que é do general Montecuccoli [século XVII]: “é preciso agarrar a oportunidade pelos cabelos mas não esquecer que ela é careca.” É tão verdade. Mas eu não sou os livros… Ou sou? E daí.. Sei lá. 

Há uma pergunta explícita no livro, a da sobrinha da velha actriz no terceiro andar: “o que é ser eu?” O que é ser António Lobo Antunes?
Nunca me fiz essa pergunta. Nos dias mais negros acho que só sirvo para fazer livros e que não sei fazer mais nada de jeito. Não me tenho em grande conta. Sou tão comum. Quer dizer… agora estou a ser parvo. Há um lado de insatisfação. Com os livros nem tanto. Acho que fiz o que devia fazer, mas gostava era de ser poeta. Até aos 18 anos não escrevi outra coisa. Depois um tio, irmão da minha mãe, meu padrinho, fez-me uma assinatura da Nouvelles Littéraires quanto eu tinha 13 anos e logo no primeiro número vinha o poema do [Blaise] Cendrars, Les Pâques à New York. Fiquei varado, o que se pode fazer com as palavras! E achei-me uma merda. Tive tanto desprezo por mim. Agora tenho andado amargo porque não estou a gostar do que estou a fazer. Tenho um medo permanente de isto ter acabado. Se isto seca é uma gaita. O que é que eu faço? Não gosto de ir a bares, não gosto de estar com muita gente. Posso ler. Às vezes nos intervalos dos livros, são três, quatro meses; a gente lê oito horas por dia, mas ao fim de uma semana já está um bocado farta desse ritmo. Mesmo que só se leia o que se goste. Porque é que a literatura portuguesa é tão má?

É?
Não é? Acho que a Ana Margarida Carvalho fez um livro bom.

Antes do gravador estar ligado falava de amigos felizes com o que fazem. Sente isso?
Não.

Nunca?
Lembro O Diário de Tolstoi, quando ele escreve: lutei para ser melhor que o Shakespeare. E sou e depois? E para ser que o Molière e sou e depois? O que é ganho com isto? O Mozart com cinco anos tocou para a Maria Antonieta e acabou o concerto com toda a gente a aplaudir. Ele correu, sentou-se ao colo dela e disse: âimez-moi.

Usa-se o talento que se tem para se ser amado?
Para se ser amado? Que amor é que se recebe com os livros? Estou a ser injusto. Ganhei amigos, ganhei pessoas, ganhei a vida, ganhei muita coisa e acho que tive sorte e quando estou alegre sou divertido.

Tem saudades de ser médico?
Gostei muito de ser médico. O que eu gostava mais era quando as pessoas melhoravam. Eu não era um grande médico, mas acho que era um médico honesto. Era bom na cirurgia, tinha boas mãos, mas na cirurgia o principal é a capacidade de decisão não são as mãos. Nunca cheguei a estar numa posição de dirigir uma equipa. Não tinha de tomar decisões, tinha de receber ordens e sente-se a impaciência e a aflição deles muitas vezes. As pessoas sofrem tanto e sofremos por nadas tantas vezes. Agora vem o inverno que eu detesto. Tenho saudades do sol. Este bairro é feio como a gaita. 

Contava que o seu pai disse que gostava de passar aos filhos o gosto pelas coisas belas. 
E passou. Obrigava-nos a ouvir sinfonias, a ler, mesmo em férias, a fazer resumos de capítulos. Começava por escritores que ele achava mais fáceis. Ler um capítulo da Bovary e fazer um resumo. Vivíamos no meio disso. Mas foi enquanto médico que ouvi as frases mais extraordinárias. Uma vez numa aula de neurologia, onde se apresentavam com casos clínicos, estava uma mulher com uma doença neurológica que mal se conseguia mexer com dores horríveis, uma mulher analfabeta. O professor perguntou-lhe como é que conseguia fazer as coisas da casa e ela teve a definição da dor mais extraordinária que alguma vez ouvi: “é tudo a poder de lágrimas e ais…” Às vezes ouvia frases destas. Já era médico, uma senhora pediu-me para passar só uma embalagem em cada receita porque não tinha dinheiro para tudo e depois chegou-se a mim e disse: “sabe, é que quem não tem dinheiro não tem alma”. 

Este livro está cheio dessas frases que não são bem as de um rapaz de Lisboa, que cresceu e viveu na cidade, num ambiente protegido.
Pois, mas é que a parte mais importante da minha infância foi na Beira Alta e não aqui. Foi o sítio onde fui mais feliz, em Nelas. Podia andar por todo o lado. Gostava da burra, da carroça, daquilo tudo. Era a família do lado da minha mãe. Venho de gente muito humilde. Não na geração do meu pai nem da do meu avô, mas nas anteriores. O meu brasão só tem enxadas.

É a ideia de belo que o persegue quando faz um livro?
Não. É a de fazer bons livros.

O que é um bom livro?
É aquele sobre o qual penso: bolas, gostava imenso de ter escrito isto. Não sei fazer mais nada, não faço mais nada. 

Outro dos seus temas é a memória.
A minha memória e terrível. Tenho uma memória péssima, lembro-me de tudo. Parece aqueles tecidos a que se pega tudo. Então a poesia, como gosto muito de poesia. Olhe, o Appolinaire. Gosto tanto, o Auden, o Yates. Tantos, tão variados. 

Consegue eleger o seu livro, entre os que escreveu?
Gosto deles todos. Acho que tenho orgulho no meu trabalho, não me apetece morrer mas acho que já morria em paz.

Como, se ainda diz que tem livros para escrever?
Mas há-de sempre ficar incompleto.


fonte: Público
08.11.214

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