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14 de setembro de 2016

A opinião de um leitor sobre D'Este Viver Aqui Neste Papel Descripto (Cartas da Guerra)

António Lobo Antunes é, para mim, o maior e melhor autor português contemporâneo; tenho praticamente todos o livros que ele escreveu, já os li quase todos e interesso-me por tudo o que tenha a ver com ele, sua obra e vida. Naturalmente, quando houve toda esta “agitação” em torno do filme realizado pelo Ivo Ferreira baseado neste livro, fiquei curioso e com uma grande vontade de o ver, mas antes de o ver gostava de ler esse famoso livro que serviu de base ao filme. Por sorte possuo o livro que me tinha sido oferecido há tempos mas ainda não o tinha lido. A publicação deste livro é curiosa: apesar das cartas terem sido escritas por António Lobo Antunes à sua primeira esposa Maria José, foram as suas filhas (Maria José e Joana Lobo Antunes) quem as publicaram após a morte da sua mãe, a pedido desta.

António Lobo Antunes, em Janeiro de 1971, com 28 anos de idade, formado em medicina há pouco mais de um ano, casado há menos de seis meses e com a mulher grávida, segue para Angola como alferes médico para cumprir os dois anos de serviço militar em pleno auge da guerra colonial. Como todos os outros militares, embarca no navio Vera Cruz em direcção a Angola e logo no navio começa a imensa escrita da correspondência entre ele e a esposa. Apenas interrompida quando da ida de férias a Lisboa e quando da vinda da esposa e da filha para Angola (quando foi colocado em Marimba em Abril de 1972), sendo retomada no período em que a esposa foi internada em Luanda devido a uma hepatite entre Agosto de 1972 e Janeiro de 1973, terminando nessa altura, quando tem alta e regressa para Marimba para junto do marido, voltando todos para Lisboa em Março de 1973. António Lobo Antunes, quando chega a Angola, é colocado na zona leste do país, na cidade de Gago Coutinho, uma área isolada, junto da fronteira com a Zâmbia onde a guerra era particularmente dura.

Como atrás disse, António Lobo Antunes praticamente desde o primeiro dia iniciou a sua correspondência com a mulher e é essa correspondência que nos é dada a ler, sem qualquer tipo de censura. Nela António Lobo Antunes mostra todo o seu amor e desejo pela esposa, o sofrimento por estar longe, separados por milhares de quilómetros, a saudade e a angústia. Porém, mais que todo esse amor, saudade e desejo, António Lobo Antunes mostra-nos também a guerra, a vida militar em Angola, o stress da guerra, o isolamento, estar constantemente em alerta, não dormir e não conseguir descansar durante dias seguidos, comer mal, não ter água e condições mínimas de higiene, as idas aos aquartelamentos longínquos, participar em acções de guerra, assistir a ferimentos graves e a mortes tanto de um lado como do outro. Apesar de tudo isto, António Lobo Antunes também relata o seu dia a dia, o seu relacionamento com os outros militares, com a sociedade civil (portuguesa e angolana), os seus serviços extras como médico a dar consultas à população, mostra também a sua preocupação com as coisas materiais, a procura de casa em Lisboa para viverem, a falta de dinheiro, os exames da faculdade da esposa e, evidentemente, a sua gravidez, e a relação com a restante família. Também a parte literária não é esquecida. Nestas cartas pede livros, dá a sua opinião sobre esses mesmos livros e autores, e fala já com a sua ironia da vida literária em Portugal, mas acima de tudo vai confidenciando à sua esposa como lhe vai correndo a escrita de um seu primeiro livro.

É um livro muito emocionante, são as palavras de um apaixonado que é colocado numa situação extrema, de separação, isolamento e dureza incomparável, e é ao mesmo tempo duro e assertivo, um testemunho de um período tenebroso que milhares de jovens, tal como António Lobo Antunes, tiveram de atravessar e do qual muitos não regressaram ou então regressaram com feridas profundas, tanto físicas como psicológicas [...].

Recomendo a leitura deste livro, mesmo para quem não aprecie os livros de António Lobo Antunes, é totalmente diferente da sua ficção; aqui foi (e ainda é) a realidade...


por Nuno Martins
13.09.2016

[revisão do texto original por José Alexandre Ramos]

5 de setembro de 2015

"Portugueses estão a ser tratados como cães", afirma António Lobo Antunes - Esquerda.net

Durante a apresentação do livro Las Cosas de la Vida, que reúne alguns dos seus textos, o escritor português lamentou ainda que em Portugal só existam “prémios para portugueses darem a portugueses”.

Nove anos após ter sido distinguido com o Prémio Ibero-Americano de Letras José Donoso, atribuído pela Universidade de Talca, no Chile, António Lobo Antunes recebeu esta quinta-feira das mãos do reitor da instituição, do responsável da colecção, do representante do governo do Chile e do director do Instituto Cervantes, o volume intitulado Las Cosas de la vida, que reúne algumas das suas crónicas.

Na cerimónia, que teve lugar no Instituto Cervantes, em Lisboa, o escritor português criticou os últimos anos de governação da maioria de direita, salientando que os "portugueses estão a viver de forma muito dura e a ser tratados como cães". "São os artistas que devolvem a dignidade às pessoas", acrescentou.

Assinalando a importância que as principais figuras da cultura da América Latina, como Juan Rulfo, tiveram na sua formação e no prazer da leitura, lamentou ainda que em Portugal só existam “prémios para portugueses darem a portugueses”.

Lobo Antunes foi o primeiro escritor europeu a receber este prestigiado prémio literário que tem o nome de um dos mais importantes romancistas chilenos do século XX.

O júri, que escolheu o escritor por unanimidade, destacou a sua “crítica forte à identidade portuguesa, não isenta, no entanto, de amor ao país”, bem como a sua capacidade de captar “com profundidade e originalidade o papel das culturas periféricas no mundo contemporâneo”.

Foram ainda assinaladas “a grande variedade de temas, linguagens e estruturas” da sua obra, a “singular sensibilidade” de Lobo Antunes para “explorar a complexidade psicológica das suas personagens” e a forma como “dá conta de experiências que correspondem de muitas maneiras a um contexto semelhante ao dos conflitos da América Latina”.

O escritor é autor de mais de cerca de 50 títulos, entre crónicas, poesia e romances.

No ano passado, recebeu o Doutoramento Honoris Causa da Universidade Babes-Bolyai, o Grande Prémio de Excelência do Salão do Livro da Transilvânia, em Cluj-Napoca, na Roménia, e o Prémio Nonino Internacional, em Udine, em Itália.

Lobo Antunes foi ainda distinguido, entre outros, com os prémios France Culture de Literatura Estrangeira (1996), Médicis Para o Melhor Livro Estrangeiro (1997), Literatura Europeia do Estado Austríaco (2000), Rosalía de Castro (2001), Internacional da União Latina (2003), Ovídio (2003), Jerusalém (2004), Juan Donoso (2006), Camões (2007), Terence Moix (2008), Juan Rulfo (2008) e da Extremadura Para a Criação (2009).


04.09.2015

4 de setembro de 2015

Las Cosas de la Vida, em Cerimónia no Instituto Cervantes de Lisboa

foto de Gerardo Santos /Global Imagens
Lobo Antunes: "Portugueses tratados como cães"

Nove anos após ter recebido o Prémio José Donoso, António Lobo Antunes tem desde ontem um volume com textos seus na colecção com o nome do mais importante escritor chileno, editada pela Universidade de Talca. Em cerimónia em Lisboa, o autor recebeu das mãos do reitor da instituição, do responsável da colecção, do representante do governo do Chile e do director do Instituto Cervantes, o volume intitulado Las Cosas de la vida, entre elogios à obra do escritor português que desde 2006 integra uma lista de 16 artistas que receberam o Prémio José Donoso.

Em resposta às afirmações da comitiva chilena, Dom António Lobo Antunes, como era referido amiúde, agradeceu e num final de cariz político disse que "são os artistas que devolvem a dignidade às pessoas", após ter referido que os "portugueses estão a viver de forma muito dura e a serem tratados como cães", numa alusão aos últimos anos de governação.

Durante a sessão, Lobo Antunes enumerou as principais figuras da cultura da América Latina e explicou a importância que tiveram na sua formação e no prazer da leitura. Jorge Luis Borges não é o seu preferido, ao contrário de Juan Rulfo e do seu livro Pedro Páramo, que disse já ter lido umas cinquenta vezes. Quanto ao Prémio, lamentou que no nosso país não existam galardões destes para homenagear artistas estrangeiros: "Só temos prémios para portugueses darem a portugueses. É uma pena."


fonte: Diário de Notícias
04.09.2015
texto de João Céu e Silva [revisto por José Alexandre Ramos]

26 de agosto de 2015

Las Cosas de la Vida, pela Editorial Universidade de Talca

A Editorial da Universidade de Talca, no Chile, tem vindo a publicar uma colecção que reúne os autores que foram distinguidos com o Prémio Iberoamericano de Letras «José Donoso».

O prémio tem o nome do que foi talvez o romancista chileno mais importante do século XX e um dos expoentes do chamado «boom» das letras latino-americanas.

António Lobo Antunes, que recebeu este prémio em 2006, vê agora publicado nesta colecção um volume, que reúne algumas das suas Crónicas, intitulado Las Cosas de la vida, que será apresentado em Lisboa no dia 3 de Setembro, no Auditório do Instituto Cervantes.



[informação partilhada pela editora Maria da Piedade Ferreira - LeYa]

16 de junho de 2012

Simão Fonseca: António Lobo Antunes «D'este Viver Aqui Neste Papel Descripto – Cartas de Guerra»

Esta é uma das raras oportunidades que o leitor tem de ficar a saber a vida privada de António Lobo Antunes. Esta compilação de cartas que o autor escreveu à sua esposa enquanto esteve na Guerra Colonial, é uma porta para conhecermos o lado mais apaixonado e carinhoso de um dos grandes escritores da actualidade.

As cartas espelham a miséria e horrores de um jovem que não assistiu ao nascimento da sua primeira filha e que pouco tempo teve para estar a sua esposa após o casamento. Sonhador e irreverente, Lobo Antunes nunca quis ir para a guerra, jamais pediu para viajar para Angola e estar só, rodeado de morte e fome. As cartas revelam um ser humano de uma capacidade única para ultrapassar o sofrimento de um pai e marido ausente, um homem que escreveu um romance num regime de incerteza em relação ao amanhã. 

Um dos aspectos mais interessantes nesta obra é o António Lobo Antunes que redigiu o seu primeiro romance por volta de 1972, intitulado Voo – Crónica da Morte Portuguesa, um livro que incidia sobre Portugal e a sua sociedade, temática amplamente explorada na sua vasta obra. Depressivo, mas com uma grande capacidade de sofrimento, este autor viveu quase exclusivamente da força que a sua primeira esposa lhe deu, constantemente apaixonado e grato pelo casamento. Não raras vezes encontramos o autor a ler e a criticar romances e escritores, ficamos também a saber que os escritores latino-americanos, como é o caso de Gabriel García Márquez, eram naquela época os maiores, sem descurar a importância de Louis-Ferdinand Céline, entre outros pertencentes a um lote restrito. 

O leitor sentir-se-á quase sempre intrometido na vida privada do autor, um sentimento de intromissão; certamente que partilhará a angústia e tristeza de quem se viu privado do nascimento da sua primeira filha e que resistiu ao desgaste de uma guerra. A progressão emocionante da narrativa confere a estas cartas de guerra uma costela de romance.


por Simão Fonseca
Contracultura Aplicada
16.06.2012

13 de outubro de 2011

Marcelo Lyra: opinião sobre As Coisas da Vida

Lobo Antunes num dois em um


Misturar crónicas com ficção no mesmo livro soaria inusitado para muitos escritores, mas não para o português António Lobo Antunes. Ex-combatente de guerra na Angola dos anos 1970 e psiquiatra com larga experiência, ele tem a base de sua ficção calcada justamente na diversificada vida que levou. Conhecido mundialmente por romances como "Memória de Elefante" e "Arquipélago da Insónia", ele prova que escreve com igual desenvoltura nos dois gêneros, misturando sem a menor cerimónia o humor, a melancolia e a nostalgia. Esta edição brasileira condensa o conteúdo de dois livros portugueses.

Assim, as lembranças da infância convivem com atrocidades da guerra, soldados torturados e mulheres violentadas. Ao mesmo tempo, o leitor se depara com narrativas de humor muito divertidas. Mesmo em meio aos horrores da guerra, Lobo Antunes é capaz de momentos poéticos, como quando afirma que a coisa mais linda que viu não foi um quadro num museu, mas um campo de girassóis em Angola. Numa viagem em meio à guerra, a visão das cabeças de girassóis erguendo-se uma a uma em direcção aos primeiros raios de sol o acompanha pela vida.

Em meio a uma visita à antiga casa da sua infância, entrega-se à lembrança das brincadeiras e, diante de um espelho, o que vê é sua imagem de menino. Em outro relato aborda os pouco conhecidos episódios de suicídio de soldados na guerra. Essa nostalgia permeia boa parte dos textos.

Entre os contos divertidos, destacam-se o chapliniano lutador de boxe que se acovarda momentos antes da sua luta mais importante, assustado diante do tamanho do oponente. Ou o ingénuo marido de uma mulher vesga, assediada pelo colega de repartição, um velhinho à beira da morte, mas que, contra toda expectativa, insiste em persegui-la pelos cantos do local de trabalho. Mais adiante, uma crónica narra a origem de sua aversão a computadores, cujas travas e falhas engoliram um romance inteiro no passado, fazendo-o preferir escrever seus romances à mão.

Se na melancolia nostálgica Antunes parece herdeiro dos fados de Amália Rodrigues, nos textos de humor, bem divertidos e aparentemente ingénuos, ele carrega mordacidade e crítica de costumes que o tornam parente distante de Voltaire. A facilidade em sair da melancolia ao riso em poucas páginas só confirma seu talento.

A única ressalva a este livro é a mesma que se faz a todas as publicações portuguesas lançadas no Brasil. Faltam notas de rodapé. Já se disse, parafraseando Mark Twain, que Brasil e Portugal são dois países separados pela mesma língua. Algumas expressões idiomáticas são simples de compreender, como a moça que fazia balões com a pastilha elástica, nada mais que uma garota a fazer bolas de chiclete. Mas algumas chegam a ser quase incompreensíveis, como o homem que achava tanga a mulher dizer que o senhor Castro estava a fazer-se ao piso. Essas diferenças só confirmam a inutilidade da recente mudança ortográfica imposta para aproximar os países lusófonos.


por Marcelo Lyra
07.10.2011

9 de janeiro de 2010

Ismahêlson Luiz Andrade: A memória entre a guerra e o sublime

António Lobo Antunes é uma presença marcante no campo memorialístico da Literatura Portuguesa e Internacional, com a sua impactante obra literária, a saber, os seus romances e as suas crônicas. Por meio de uma narrativa com cenários compostos por narradores vinculados a recordações contundentes, lembranças aguçadas, densas e sublimes, o leitor é seduzido a acompanhar os seus narradores com as suas lembranças impregnadas de fantasmas, fragmentos discursivos, imagens traumáticas. Enfim, (re)construções, na memória, de um tempo passado e entrelaçadas num tempo presente.

A partir das características narrativas proporcionadas por Antunes, a proposta do nosso artigo é, considerando o percurso dos seus narradores, pela memória, realizar uma breve leitura de abordagem memorialística da sua obra, tendo em consideração seus romances e crônicas, designadamente “D`este viver aqui neste papel descripto – Cartas da guerra”. Trata-se de uma compilação das cartas escritas para a sua esposa, compiladas por suas filhas, e que compreendem o período de Janeiro de 1971 a Janeiro de 1973, quando o escritor esteve na guerra colonial em Angola. Um cenário, portanto, que percorre entre o espaço de guerra e o espaço de amor, revelando sentimentos distintos: a hostilidade e o amor, a solidão e a vida.

Para a nossa análise, tomaremos como referências principais algumas considerações de Paul Ricoeur, resultado de suas investigações sobre a memória e apresentadas em A memória, a história, o esquecimento.

Organizado por Maria José Lobo Antunes e Joana Lobo Antunes, D`este viver aqui neste papel descripto: Cartas da Guerra revela uma coletânea de textos do, posteriormente, escritor português António Lobo Antunes, e nos é apresentado sem qualquer percurso ou nuances de ficção. É ele, ali, personagem real, presente em suas palavras penetrantes, que funcionam como agulhas que costuram sentimentos que lhes são tão íntimos e sucessivos, os quais, são expostos num gesto que emendam duas faces antagônicas: o amor e a guerra. Tratam-se de cartas que podem ter sido escritas sem qualquer preocupação literária, onde as formas, o estilo, ou a mais exata utilização da palavra e frase não estavam propositalmente presentes nos artifícios do escritor, entretanto, é inegável que linhas, traços, perfis da sua escrita permeiam em cada carta, formando um fio condutor que interliga, de uma maneira ou de outra, toda a sua obra.

Muito se tem dito e muito se dirá, certamente, da obra de António Lobo Antunes, estudos e críticas garantidos pela sua ininterrupta evolução, quando cada novo lançamento é aguardado com a expectativa de um novo labirinto do ser a ser trilhado. Discursos que se encontram, que se assemelham, dados que se repetem em meio a dados consecutivamente novos, e nada é velho quando se trata da sua obra carregada dos referenciados labirintos, pois são caminhos que podem até ser repetidos, mas sempre apresentam novas perspectivas de leituras, um novo olhar, uma nova imersão na profundidade do ser. Instantes que se fragmentam e que se completam, entrelinhas que emitem discursos objetivos e plurais ao mesmo tempo. D`este viver aqui neste papel descripto é tudo isso, carta a carta, como o são os demais livros, livro a livro.

Cartas da guerra foram escritas durante o período da Guerra Colonial Portuguesa, para a então esposa do remetente, quando, aos 28 anos, ele foi convocado para combater, no Leste de Angola, na fase final daquele marco da história de Portugal. Assim, casado em Agosto de 1970, partiu em 6 de Janeiro de 1971 rumo à guerra na África. São cartas que tiveram três momentos de interrupções, marcados por três períodos bem próximos e curtos e por acontecimentos determinantes. O primeiro se deu nas suas férias em Lisboa, durante 35 dias em Setembro de 1971; o seguinte, entre Abril e Julho de 1972, com a chegada da família a Marimba, até que a sua esposa adoece com hepatite e é hospitalizada em Luanda; e o último período se dá entre Agosto de 1972 e Janeiro de 1973, com o regresso da família a Marimba. Dados que nos são apresentados no Prefácio do livro, datado em Lisboa, Março de 2005, pelas filhas do escritor, organizadoras do livro e que realizam a publicação pela “vontade expressa” (Antunes, 2005, p.10) da destinatária das cartas.


>> continuar a ler aqui (formato pdf)

14 de junho de 2008

Norberto do Vale Cardoso: Algodões e agonias nas Cartas da Guerra de António Lobo Antunes


Artigo publicado na revista Diacrítica, Série Ciências da Literatura, nº 21- 3, de 2007, responsabilidade do Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Minho.

Norberto do Vale Cardoso fez o  mestrado com a tese "Autognose e (des)Memória: guerra colonial em Lobo Antunes, Assis Pacheco e Manuel Alegre", estando neste momento a preparar o doutoramento sobre a guerra em Lobo Antunes na Universidade do Minho.

O artigo, de 21 páginas, encontra-se disponível em formato pdf: clique aqui para ler.

Norberto do Vale Cardoso
e-mail enviado em 14.06.2008

16 de dezembro de 2006

Três opiniões sobre A História do Hidroavião

Paulo Ferreira
O deus inteligível

Dizer que António Lobo Antunes é o melhor escritor português (pelo menos vivo) é tão redundante quanto insuficiente. António Lobo Antunes é um deus inteligível cujos evangelhos vão sendo de há uns anos a esta parte divulgados anualmente. Não consta contudo que tenha criado o mundo em 7 dias. Não consta sequer que tenha tirado algum dia para descansar. Na verdade, o homem que não acredita que se possa escrever bons livros antes dos 40 anos, trabalha compulsivamente no seu ofício largas horas do dia. Escreve escreve escreve. E não tem problemas em dizer que no seu ofício, mais do que escritores, existem bois que marram.

Contrariando o que vinha a ser prática, António Lobo Antunes este ano optou por não lançar um romance. O que apresenta é um conto à primeira vista poderá ser catalogado de infantil. Tem uma capa dura e uma fonte grada; um formato que se aproxima do género e ilustrações (lindíssimas, diga-se) impressas no papel couché, da autoria do amigo Vitorino.

Contudo, ao lermos o texto, percebemos que o mesmo atinge jovens e graúdos. É um daqueles livros que se poderá contar (não ler textualmente) ao público mais infantil, mas que os adultos poderão repousar o olhar sem prejuízo de estarem perante um texto escrito para crianças – porque de facto este não é um texto para crianças. O mesmo poderá ser lido tanto aos 8 como aos 40 anos, tirando de cada uma das leituras as interpretações que o entendimento assim o permita e consiga.

É um livro inteligente pois claro, onde Lobo Antunes está presente de corpo e alma, ou de estilo e universo se quiser. Existe África, e Lisboa também está lá, ou vice versa. Existem relações humanas à flor da pele e as memórias do médico que esteve no Ultramar, borbulhando intensamente; temos as imagens (únicas) de Lobo Antunes e até as marcas repetitivas de oralidade do autor.

Contando a história de dois amigos vindos de África, (“Como é Lisboa, Artur?”), com a nostalgia daquele continente a morder-lhes a pele, Lisboa é o cenário para evasão de outro mundo que não aquele que fora cadinho de mais de 40 anos de memórias, onde um deles “foi motorista de camião ao serviço dos holandeses dos diamantes”. Comovente o retrato humano dos dois personagens, onde Lisboa serve apenas para retratar a dimensão triste de dois homens arrancados brutalmente do seu útero.

Face ao livro, e não ao que aqui se escreve, sugiro-lhe pois que largue este jornal e corra. Para a livraria mais próxima; não espere pelo local mais confortável para folhear a obra. Abra-a ali mesmo e leia. Traga-o para casa. Aconselha-se releitura e repetição como se de uma oração se tratasse.

Título: A História do Hidroavião
Autor: António Lobo Antunes. Ilustrações de Vitorino
Editora: Publicações Dom Quixote
Nr. Páginas: 30

por Paulo Ferreira
Jornal de Vila Franca
16.11.2005

***


«Uma comovente história de amor e saudade por África e uma estranha viagem de hidroavião sobre Lisboa, ilustrada por um músico, Vitorino. António Lobo Antunes no seu melhor.» (1998) As palavras citadas encontram-se registadas na contracapa de A História do Hidroavião e parecem resumir o núcleo semântico de toda a narrativa. Acrescentaríamos, porém, a essa “história de amor e saudade” a palavra trágica, porque é, de facto, de um retrato profundamente trágico, que redunda numa metáfora de sabor amargo, que se trata.

O tratamento ficcional de problemáticas atinentes à descolonização portuguesa constitui, a nosso ver, um topos da produção literária de António Lobo Antunes. A verdade é que o autor do recém-editado romance Que farei quando tudo arde? escreve, frequentemente, sobre Portugal de um modo pessimista e desencantado, castigando um passado para muitos marcado, de forma indelével, por dissabores, nunca superados. (É o caso, por exemplo, de As Naus, história(s) feita(s) de um pedaço relevante da História de Portugal do séc. XX, por nela se prefigurarem diversos relatos de vidas que partilham o movimento de retorno à Pátria, fruto do processo de descolonização sequente ao 25 de Abril de 1974).

Em A História do Hidroavião, o espaço a partir do qual se equaciona o presente em face do passado é, mais uma vez e à semelhança do que ocorre, por exemplo, na obra As Naus, Lisboa. A centralidade da capital nesta narrativa só pode, no entanto, ser encarada num plano físico, já que o protagonista da diegese - um homem «que tinha chegado de África (...)», após quarenta e sete anos, «... sem mais roupa que a do corpo e sem mais bagagem que um baralho de cartas...» (Antunes, 1998: 2) -, situado em Lisboa, invoca constantemente África, fazendo desta o cerne espacial da história, através de conjunto de viagens sonhadas, interiores e íntimas. Aliás, e em oposição às referências evocativas a Luanda, a imagem de Lisboa que o narrador oferece é a de uma cidade malvada, feia, tétrica, suja e nada hospitaleira. Trata-se, portanto, da recriação de um cenário disfémico, do qual sobressaem barracas, caldos, «cachorros vadios sempre à cata de sobras» (idem, ibidem: 16) e «os pântanos do Tejo» (idem, ibidem: 12).

Misturam-se, assim, dois espaços, Lisboa e Luanda, correspondentes, respectivamente, ao presente e ao passado. E é neste sentido que a uma sobrevivência precária, miserável, real e presente se contrapõem vivências passadas, luminosas e aprazíveis. Por isso, talvez, o protagonista, representante do reverso humano do império Português, pareça não buscar sequer um sentido para a vida, porque a Vida já foi, em África.
A quebrar ligeiramente o desencanto que emana do texto, parece estar o hidroavião. Se, à primeira vista, a sua aparência - «...era um esqueleto de morcego, com a pele de lona, a desfazer-se debaixo da surpresa das gaivotas...» (idem, ibidem: 2) - não ilumina a vida dos retornados habitantes de Cabo Ruivo, no desfecho da narrativa, este meio simbólico acaba por proporcionar a evasão misteriosa do homem, que vivia a jogar cartas, e do seu companheiro cego, que, lapidar e ininterruptamente, indagava: «- Como é Lisboa, Artur?» (idem, ibidem: 7, 8, 9, 12).

Seguindo as palavras de José António Gomes (1997: 81), «Relato de sonhos “por percorrer” e desejos por realizar, de que a imagem do hidroavião abandonado é uma metáfora, o texto de Lobo Antunes detém-se na descrição de um ambiente suburbano, das personagens e seus devaneios, abordando cenas da vida de um grupo de retornados de África, gente dilacerada pelo corte forçado com o passado, com uma terra de excessos e abundância: “- Como é Lisboa, Artur? (...) - Lisboa é esta infelicidade, amigo.”».

A título conclusivo, e tendo em conta a densidade psicológica e/ou a complexidade dramática das personagens, bem como as portas que o desfecho da diegese abre à fantasia - Artur e o Cego parecem ter voado de hidroavião e ter desaparecido em direcção a Luanda -, A História do Hidroavião é, em nosso entender, um conto exemplar, um testemunho vivo de que, para António Lobo Antunes, o que interessa verdadeiramente «são pessoas que tenham uma espessura de vida.» (Antunes, 1994)

por Sara Silva
não datado



***



E se o Lobo aparasse as garras para não arranhar a interpretação dos leitores mais novos? Concebesse uma crónica afiada nas asas, pronta a levantar voo, via sonho, pronta a descolar num leque de leitores, aeródromo, mais extenso? E, na iminência das ilustrações, chamasse outra vez o lápis deste amigo?

Imaginar a pena de António Lobo Antunes num universo de literatura infanto-juvenil (ou para maiores de 10, ou para todos) é, à primeira vista, tão surpreendente como encontrarA história do Hidroavião a espreitar numa prateleira arrumada em preços baixos. As asas de um avião, desenhado pela pureza artística de Vitorino, a acenarem ruidosamente (asas por momentos braços). Leva-me contigo se ainda crês no conceito de voar. E, para sorte do desejo, ainda há muito quem acredite em tal recurso de estilo.
Dizia eu, tão inesperado como encontrá-la – qual anónimo no metro – sem saber de onde vinha, se vinha, porque ia, que existia. Mas esta história, ao contrário dos desconhecidos, vinha, vinha mesmo, existia, vinha para ficar.
E, mesmo assim, por mais penoso e difícil que pareça, a imaginação dorme e acorda na realidade – na inevitabilidade de um texto delicioso.
Em A história de um hidroavião, Lobo Antunes (nota: futuro Prémio Nobel da Literatura) semeia o néctar da lucidez, de como a vida dos cruéis obstáculos pode ser tão bem contada. Raízes de África (haverá raiz mais instintiva na sua prosa?) numa Lisboa demasiado descolorada pela vontade de fuga, de regresso, no direito da árvore voltar à raiz, do homem cego a tactear a luz do útero. Numa Lisboa que nunca pertence a quem não a deseja. E, no caso extremo da personagem cega que ilumina o texto, a quem nem a conseguiu ver.
A história do Hidroavião é uma crónica maior – por (também) ser para os mais pequenos, desconfio. É a síntese implacável da incapacidade humana em adaptar-se (conformar-se) a destinos afastados do coração, da trágica obsessão por nunca desistir, mesmo que tal signifique perder-se no azul, agarrado a um balão de sonho.

Lobo Antunes ajustou a sua sensibilidade às ventoinhas de um hidroavião imprevisível. Vitorino, o indomável cantautor, deu tons, linhas e cor à imprevisibilidade do aparelho. O hidroavião e a sua história são a prova irrefutável de que qualquer carcaça, desde que sonhadora, tem como génese um vírus de voo.

por Sílvio Mendes
não datado

12 de março de 2006

Maria de Lourdes Soares: Até ao fim do mundo


D’este viver aqui neste papel descripto: Cartas da guerrao mais recente livro de António Lobo Antunes (Lisboa, 1942), reúne cartas enviadas pelo autor à sua mulher, entre 1971 e 1973, quando ele combateu no Leste de Angola, na fase final da guerra colonial portuguesaAssinam o prefácio as organizadoras do volume, Maria José Lobo Antunes e Joana Lobo Antunes, filhas do casal. O projeto do livro, extremamente cuidadoso, além dos aerogramas, inclui fotografias e algumas notas, que “fazem algumas contextualizações da época e explicam parte das referências feitas nas cartas”, assim com um glossário, “que trata da linguagem relativa à África, à guerra e a alguma gíria usada nas cartas” (ANTUNES, 2005: 12).

A leitura deste livro provoca ao mesmo tempo comoção e reflexão. Comove e faz refletir já a partir do contraste entre a emanação de felicidade da fotografia da capa – um jovem casal de noivos - e os presságios de desgraça, evidenciados no subtítulo. A comoção desta foto amplia-se na foto em página dupla, referente ao aerograma de 17.5.71 (ANTUNES, 2005: 164-165), ante a beleza e desprevenida alegria das faces dos nubentes, vivendo a ilusão de um futuro que logo se quebrará. Punge pela maravilhada inocência do que está no começo, pela promessa de felicidade, pura potencialidade de ser – o casamento, a profissão, a literatura, os sonhos... -, e que irremediavelmente será atingida pelas “malhas que o império tece”, como diria Fernando Pessoa (PESSOA, 1977: 146). Toca-nos porque essa é também a nossa história, de alguma forma contemporâneos e de alguma maneira atingidos pelo monstro da guerra e pelo espectro da morte.

Os quase trezentos aerogramas do médico alferes à amada Maria José (dois dos quais dedicados à filha recém-nascida, batizada, por decisão de Lobo Antunes, com o nome da esposa) constituem “uma espécie de diário do amor ausente [aerograma de 12.11.71]” (ANTUNES, 2005: 294), um amor suspenso, em pleno vigor da juventude, adiado por contingências históricas, por uma guerra absurda e inútil como soem ser todas as guerras. Ele parte deixando para trás um casamento recém-iniciado, a esposa grávida, impedido de acompanhar a gestação, o nascimento e os primeiros meses de vida da filha. “Porque não nos deixam ser felizes? Porque nos tiram assim alguns dos melhores anos da nossa vida? [aerograma de 15.6.71]” (ANTUNES, 2005: 198).

O material epistolográfico constitui um longo e obsessivo discurso da ausência. Nas palavras de Roland Barthes, “devo infinitamente ao ausente o discurso da sua ausência; situação com efeito extraordinária; o outro está ausente como referente, presente como alocutário” (BARTHES, 1986: 29). Escrita compulsiva, praticamente diária, a tentar enunciar o amor por toda a parte, ocupando todo o espaço disponível no papel, inclusive as margens, e a suplicar angustiadamente pela pronta resposta. Ainda com Roland Barthes, esta é a dialética particular da carta de amor: “como desejo, a carta de amor espera sua resposta; ela impõe implicitamente ao outro de responder, sem o que a imagem dele se altera, se torna outra” (BARTHES, 1986: 33).

O autor dessas cartas de amor em tempo de guerra do Ultramar revela-se, portanto, um remetente apaixonado e, como tal, hiperbólico no envio de beijos e na enumeração das qualidades da amada, objeto de singulares epítetos e comparações, de que serve de exemplo o início desta longa carta-poema: “Adoro-te minha gata de Janeiro meu amor minha gazela meu miosótis minha estrela aldebaran minha amante minha Via Láctea minha filha minha mãe minha esposa (...) [aerograma de 17. 4.7] ” (ANTUNES, 2005: 131).

Quanto mais proclama a desmedida e quase insuportável dor da ausência, mais grita a dor da guerra, dor nem sempre descrita, quase abafada, controlada, por várias razões (para não afligir a esposa grávida, por não ser permitido tocar nesse assunto em aerogramas...). A saudade e o desespero crescentes tornam-se materialmente visíveis na grafia alterada do aerograma de 5.4.72, que apresenta letras imensas e algumas expressões em maiúsculas: “Tudo visto e pesado, prós e contras, VEM, VEM JÁ. Estou farto de viver sem ti. Espero apenas que me digas o dia, e que seja o mais próximo possível. Espero-te com todo amor do mundo. António” (ANTUNES, 2005: 396).
O livro põe-nos diante das fronteiras do literário: (Auto)biografia? Romance epistolar?Memórias do Ultramar? Contribui para o seu caráter híbrido o material nele incluído: algumas fotografias referidas nas cartas (registros do “viver aqui neste papel descripto” do remetente, em flagrantes de campanha, e também da destinatária, mantendo-se sempre esplendorosamente bela durante a gravidez e após o parto) e reproduções da cartilha de alfabetização do MPLA [aerograma de 1.3. 71] (ANTUNES, 2005: 70-71), que agregam à dimensão estética outras dimensões, notadamente as de cunho histórico e sócio-cultural.

O título do livro remete à literatura, mais precisamente a um trecho de uma carta de um dos poetas ligados ao grupo de Fernando Pessoa, Ângelo de Lima (Porto, 1872 - Lisboa, 1921), que viveu muitos anos internado para tratamento psiquiátrico em Hospitais do Porto e de Lisboa. Ângelo de Lima sempre foi muito apreciado por Lobo Antunes, segundo informam as organizadoras do livro, e o seu caso clínico por ele estudado, de que resultou o premiado trabalho: “Loucura e criação artística: Ângelo de Lima, poeta de Orpheu”. O titulo deste volume de cartas anteriormente havia sido escolhido por Lobo Antunes e recusado pela editora para dar nome ao que viria a ser o seu primeiro romance: Memória de elefante (1979): “o título original de Memória de Elefante era a frase final da autobiografia de Ângelo de Lima, deixo de viver aqui, neste papel onde escrevo, mas o editor disse que era muito comercial, que era muito grande” (ANTUNES, 1982). Nessa primeira escolha, portanto, já se desenhavam e entrelaçavam as duas linhas que marcariam a trajetória do autor: a sua paixão pela literatura e o seu imenso interesse pela psiquiatria.

Literatura, aliás, é um dos mais fortes temas que atravessam as missivas de António Lobo Antunes, tendo a destinatária como interlocutora privilegiada e leitora primeira de excertos de seus escritos, que incluíam também algumas tentativas poéticas. Assim, tomamos conhecimento de suas leituras, dos autores amados e detestados e, sobretudo, da sua postura sempre exigente face à literatura, inclusive diante dos próprios escritos (a ponto de pedir à mulher para deitar ao lixo alguns textos que deixara em Portugal ou de ele mesmo destruir inúmeras páginas escritas em Angola). E surpreendemo-nos a acompanhar o nascimento de um escritor, um Lobo Antunes ainda desconhecido, às voltas com a escrita do seu primeiro título, oscilando entre a euforia de quem conseguiu escrever páginas perfeitas e a convicção de que tudo precisa ser revisto ou destruído.

Há uma expressão obsessivamente reiterada em D’este viver aqui neste papel descripto,afirmando o amor “até ao fim do mundo”, figura análoga a “eu-te-amo”, que se refere ao “repetido proferimento do grito de amor”, na acepção de Roland Barthes: “eu-te-amo não é uma frase: não transmite um sentido, mas se prende a uma situação-limite: ‘aquela em que o sujeito está suspenso numa ligação especular com o outro’. É uma holofrase” (BARTHES, 1986: 97-98). Esta expressão nos remete a um dos elementos presentes no mais apaixonante dos mitos portugueses: o dos amores de D. Pedro e Inês de Castro, episódio amoroso cantado por Camões e por muitos outros poetas, ficcionistas e pintores ao longo dos séculos. Segundo conhecidas interpretações da epígrafe dos túmulos de Pedro e Inês («A:E AFIN DO MUNDO»), a inscrição pode significar “Até ao fim do mundo”, e consigna o amor eterno jurado pelos célebres amantes. Por esta razão, um dos cognomes de D. Pedro é “O-Até-ao-Fim-do-Mundo-Apaixonado” (Note-se, aliás, que os seus demais cognomes – Pedro-o-cru e Pedro-o-justiceiro – de certo modo também estão relacionados ao seu “desvario” pela linda Inês).

Parte dessa expressão – “fim do mundo” - aparece também na correspondência de Lobo Antunes enviada à amada, mas bem menos vezes e com outro sentido, não ligado às eternas juras de amor, mas ao sentido corrente em Portugal de lugar inóspito, distante da terra natal, desprovido de tudo: “Isto é o fim do mundo: pântanos e areia. A pior zona de guerra de Angola: 126 baixas no batalhão que rendemos, embora apenas com dois mortos, mas com amputações várias. Minas por todo o lado” [aerograma de 27.1.71] (ANTUNES, 2005: 29). Em suma, um lugar situado nos “cus de Judas”, expressão que dá título ao segundo romance de Lobo Antunes (1979), palco onde se desenrola o “gigantesco, inacreditável absurdo da guerra”, conforme o narrador deste livro, um ex-miliciano recém-retornado ao seu país (ANTUNES, 1984: 44). Segundo depoimento do autor, “Curiosamente a Memória de Elefante é que era o título do livro Os Cus de Judas.Os Cus de Judas foram arranjados depois, na altura da obra sair. A expressão quer dizer traidores, para negros” (ANTUNES, 1982).

E é este sentido de traição, de dupla traição, de irreparável traição do destino (um dos possíveis nomes dos senhores da guerra), que a expressão parece sublinhar. Roubou aos amantes os melhores anos. Manchou-lhes a promessa de felicidade. Secou no escritor estreante o pendor para a poesia. Abortou sonhos. Mutilou corpos e almas. Deixou em todos envolvidos, de aquém e de além mar, marcas indeléveis, feridas difíceis de cicatrizar. No campo devastado dos amores e da guerra, entre ruínas e destroços, algo, porém, insiste em fulgir ainda, uma declaração de amor, entoada em forma de pungente canção do exílio, no aerograma de 13.4.71: “Estar aqui traz-me constantemente à memória, não sei porquê, paisagens como aquela estrada entre Santarém e Alpiarça, com os plátanos fechando-se por cima das cabeças, o jardim público de Montemor, a Golegã deserta a qualquer hora e de portas fechadas, o Tejo assoreado reduzido a imensos bancos de areia. Eu gosto desesperadamente do meu país e da minha amada língua portuguesa, a mais bela de todas. Quero ser enterrado aí, onde quer que morra, sob o ‘vento que muxe coma unha vaca’ ”[1] (ANTUNES, 2005: 126). Consola um pouco pensar que, apesar de todos os pesares, este persistente afeto do soldado-escritor por sua língua e pelo seu “pequeno e triste país de viúvas a descer para o mar [aerograma de 13.4.71]” (ANTUNES, 2005: 126) nada nem ninguém conseguiu minar.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANTUNES, António Lobo. Memória de elefante. Lisboa: Vega, 1979.
––––––. Os cus de judas. Rio de Janeiro: Marco Zero, 1984.
––––––. Entrevista com António Lobo Antunes. Jornal de letras, artes e idéias, Ano I, nº 23, Janeiro de 1982.
––––––. D’este viver aqui neste papel descripto: Cartas da guerra. Organização e prefácio Maria José Lobo Antunes e Joana Lobo Antunes. Lisboa: Dom Quixote, 2005.
BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. 6ª ed. Tradução de Hortência dos Santos. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1986.
PESSOA, Fernando. Obra poética. 7ª ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1977.

[1] António Lobo Antunes atribui o verso citado à poeta galega Rosalia de Castro [Santiago de Compostela, 1837 – Padrón, 1885]. Na realidade, porém, de acordo com a nota das organizadoras, “a citação é de Garcia Lorca, conforme vem correctamente identificada mais à frente” (ANTUNES, 2005: 126).

por Maria de Lourdes Soares
em CiFEFiL (Círculo Fluminense de Estudos Filológicos e Linguísticos - Brasil)
12.02.2006

21 de janeiro de 2006

Jordi Joan Baños: Cartas de amor e guerra


Como a corda em casa do enforcado, a guerra de Angola é o trauma omnipresente em toda a obra de António Lobo Antunes. Agora por fim, aparece em português - em breve em várias outras línguas - um livro em que aquele sangrento epílogo colonial constitui a coluna vertebral da sua escrita. Ainda que desta vez não se trate de um romance, mas da recuperação das centenas de cartas que um médico recém-casado enviou a sua esposa grávida, ao longo de 1971 e 1972.

António Lobo Antunes é um "estajonovista" da literatura, um perfeccionista da frase e um homem de rotinas. Um escritor fechado no seu mundo que se gaba de vender centenas de milhares de volumosos romances "sem contar alguma história". O estúdio de seu primo, onde se "esconde" para escrever desde há dois anos, está no mesmo edifício onde há três décadas deu uma consulta, muito perto daquele que foi o seu anterior refúgio de escritor: o hospital Miguel Bombarda. No dito estúdio, em cuja entrada se destaca um coqueiro de plástico de três metros, o romancista aceita conceder a La Vanguardia a sua até agora única entrevista sobre D'este viver aqui neste papel descripto. Uma compilação da iniciativa das suas duas filhas - os direitos de autor estão no seu nome - que o apresentam como uma homenagem ao amor dos seus pais e, particularmente, da sua mãe, Maria José, já falecida.

"O que sinto perante aquelas cartas é muita ambivalência", confessa. "Surpreende-me ser a mesma pessoa. Agora reli algumas, poucas. Nunca pensei publica-las e não sei se têm valor literário, porque onde jogo a vida é nos livros que agora escrevo. Mas quem sabe sirva para que as pessoas compreendam o horror da guerra e a destruição de uma geração. Na apresentação do livro foi muito comovedor ver chorar aqueles homens que estavam morrendo e matando durante muito tempo, fazendo uma guerra praticamente sem recursos. A alguns já não os via há trinta anos e foi como se viesse vindo a estar com eles um pouco todos os dias. Como sabe, nunca falei da guerra, nem sequer com os meus camaradas, e nunca escrevi sobre ela. É demasiado horrendo. Ao voltar a Portugal surpreendeu-me a ausência de culpabilidade".

Nas suas cartas, Antunes também critica a arrogância dos colonos portugueses, aos que em teoria se defendia: "Não merecem a terra extraordinária em que vivem", escreve, antes de apelidá-los de "vendedores de carros". "A quem pertence a um país cansado vão bem estes verdes, estes sons, esta exuberância animal. Seria possível construir um Brasil aqui, uma mestiçagem, se não fosse já demasiado tarde", conclui.

Porém quem espera encontrar uma visão profunda sobre a guerra, ficará decepcionado, uma vez que as cartas representam muito mais uma forma de escape para o então jovem médico militar. "É certo, havia uma auto censura porque havia um risco, as cartas eram interceptadas. Ainda que, na realidade, que nos poderiam fazer, quando já vivíamos em Angola, o pior sítio?". Sem esquecer a censura do regime: "Jorge Amado estava proibido, por exemplo, e Fellini era censurado Em seu lugar mandavam-nos filmes de Joselito, comoManolito, pão e vinho".

Por isso escreve: "um dia serei mais claro. A maior parte das coisas não as posso contar, e as minhas opiniões sobre esta guerra não devem ser escritas. Isto é tudo muito diferente de como se pensa". Até ao dia de hoje não mudou de atitude.

Repentinamente, entre muita lamechice de recém-casado, irrompe a brutalidade da guerra. "Ontem amputei dois dedos". Ou uma bomba fizera voar a perna de um soldado, que na sua aflição repete uma e outra vez: "Quando meu pai souber, mata-se". Porém, e apesar do seu trabalho médico, a mentalidade do Lobo Antunes de então "amigo íntimo do chefe da Pide (polícia secreta)" pode parecer inquietante: "Logo vou passear no T6 (os aviões de guerra que por aqui há) para lhe tomar o gosto. Vão bombardear Chalala-Nango com napalm e não quero perder uma coisa dessas. Lembra-me muitas vezes as fotografias que mostram a população vietnamita em aldeias devastadas". Do "chefe da Pide, meu amigo íntimo", hoje reconhece: A guerra mudou-me muito, também a minha visão das coisas". E já então escrevia: "Não voltarei a ser a pessoa que fui, nunca mais. Começo a compreender que não se pode viver sem uma consciência política da vida. Meu instinto conservador e comodista evoluiu muito".

O romancista opina que com a experiência bélica "desaparece a vaidade" e se conquista "a humildade". Ainda que as suas palavras, pelo menos as de então o contradigam: "Creio sinceramente estar em posse de uma obra prima. Vamos ser ricos, bonitos, inteligentes e célebres. Tenho em mãos o melhor e mais revolucionário romance que nunca li. Valeu a pena que acreditasses em mim, porque, finalmente, me tornei um escritor de uma elegância corrosiva inigualável. Às vezes penso se não serei uma reencarnação de Victor Hugo".

A Antunes causa-lhe apreensão que o livro "seja lido pelos motivos errados" ou, dito de outra maneira, por voyeurismo. Não é em vão, o livro reproduz sem disfarce suas confissões íntimas: "Quero possuir-te com uma fúria de cavador cavalgando uma marquesa. Quero que tenhas um olhar desdenhoso e lento, um riso extravagante, um desprezo de monossílabos". Ou, mais adiante, "vão ser 35 dias de coitos ininterruptos", ou "quero violar-te com a fúria de um ocupante alemão". Mas aquele livro que acreditava ser genial, que iria chamar-se Dilúvio ou Voo, nunca saiu do chão.

As cartas dão a imagem de uma guerra suis generis própria de Gila, na que um batalhão alega ter sofrido dois mortos e 126 baixas. Ou na que os portugueses acabam por se dar conta de que a alegre despedida ao ritmo do merengue com que obsequiam os nativos cada vez que saem de patrulha é na realidade um sinal para os guerrilheiros. Ainda que Lobo  não se deixe dobrar: "O risco é mínimo porque estes tipos nunca acertam", escreve.

Em 1972, depois de muito suplicar, recebe a visita da sua esposa e da primeira das suas duas filhas, recém nascida. Sua mulher, Maria José, a única branca entre milhares de negros, adoece e tem de ser internada. Mais tarde regressam a Portugal, e para António será ainda mais duro aguentar os últimos meses, até cumprir os dois anos de serviço. Os seus aerogramas deixam de ser diários. "Vou-me afundando numa apatia total. Não faço nada, nada me apetece. Chego a pensar que sairei daqui para um hospital psiquiátrico, como paciente". Sairia como escritor.

(...)

por Jordi Joan Baños
La Vanguardia (citado deste site)
31.12.2005

15 de janeiro de 2006

Manuel Barata: D'este viver aqui neste papel descripto - ensaio


1. As chamadas “cartas de guerra” de António Lobo Antunes, reunidas no volume "D’este viver aqui neste papel descripto", são, também, um poderoso documento sobre a guerra colonial. Embora dirigidas a sua mulher, o autor constrói ao longo dos dois anos de comissão, isto é, entre 7 Janeiro de 1971 e 30 de Janeiro de 1973, através de múltiplas notações, um libelo acusatório contra as abjectas condições a que os homens estavam sujeitos, nos aquartelamentos das zonas de guerra.

2. Porém, o conteúdo destas cartas não se esgota nos valiosos apontamentos sobre a guerra e na profunda relação amorosa com Maria José e ainda com a outra Maria José, a quem, até ao nascimento, chamará muitas vezes o “cafeco”, que significa criança em quimbundo. Através das cartas apreendemos também o mundo de relações do autor e da extrema atenção que presta a todos aqueles com quem se relacionava e com quem se continua a relacionar através da escrita de aerogramas. Todos os familiares lhe conhecem o gosto pela leitura e muitos enviam-lhe livros e revistas. De resto, é até curioso notar que António sugere a Maria José que sugira livros que gostaria de ler, mas que não está disposto a comprar, porque é absolutamente proibido gastar dinheiro. Esta sua natureza poupadinha vai ser motivo de um tópico. Também merecerão destaque neste trabalho testemunhos extraordinários que relevam do ponto de vista da antropologia e ainda impressões sobre arte e literatura.

3. Estamos, pois, em presença de uma obra ímpar, que, apesar dos mil milhões de beijos enviados por António a Maria José, a destinatária, extravasa vastamente a temática amor. Dir-se-ia até, que, expurgadas das fórmulas mais ou menos canónicas dos começos e dos impagáveis modos de terminar, estas cartas são, obviamente, muito mais do que simples cartas de amor. Decidir se este é ou não o primeiro grande romance do autor de memória de elefante, é tarefa que não assumimos neste pequeno e despretensioso estudo.

4. No entanto, não temos nenhum problema em afirmar peremptoriamente, que, doravante, estas cartas terão de ser lidas e relidas, por todos os que vierem a debruçar-se sobre os catorze anos da Guerra Colonial. Pois esta determinou toda a vida portuguesa, quer no rectângulo europeu, onde se procedia à incorporação, treino e mobilização de homens, quer nas chamadas Províncias Ultramarinas, onde se situavam os múltiplos teatros de operações. E marca ainda hoje, volvidos mais de trinta anos, de forma indelével, gerações de portuguesa.

5. Embora sejam o testemunho subjectivo de um indivíduo, jovem médico e aspirante a escritor, as cartas possuem a força das confissões espontâneas. A visão do autor é dada silenciosamente, na puridade dos seus aposentos, como notas de um quotidiano, que, apesar da distância, quer partilhar com a mulher amada. Assim, cremos que estas cartas, primordialmente (?) amorosas, são mais objectivas do que os relatórios militares e as notícias necrológicas, sabendo nós que uns e outros eram vigiados e censurados. Acresce a tudo isto, que, também nós, ainda que em teatros operacionais e época diferentes, cumprimos serviço militar obrigatório, na menina dos olhos dos colonialistas, isto é, em Angola. Não sabendo as surpresas que o tempo ainda nos pode reservar, António Lobo Antunes terá sido, até ao momento presente e através das suas cartas, aquele que, de 1961 a 1975, melhor verbalizou a vivência da Guerra Colonial.

6. “Porque é que vieram interromper-nos tão brutalmente?” A pergunta é formulada na carta de 1.6.71, escrita no Chiúme, Leste de Angola, quando o então alferes miliciano Lobo Antunes, cumpria o serviço Militar obrigatório. É dirigida a Maria José, sua mulher, ainda estudante e grávida de Maria José, a primogénita do casal. O autor estava no fim do mês quinto da sua estada em Angola e Chiúme era já o seu terceiro teatro de operações. Passara anteriormente por Gago Coutinho, onde, apesar de tudo, tinha uma certa vida de relação. No Ninda, conhecera Ernesto Melo Antunes a quem tece rasgados elogios e do qual será amigo para sempre. Chiúme é o buraco dos buracos, o lugar onde a DO chega com menos regularidade e há o célebre P., na messe, que não é, propriamente, um modelo de higiene. É no Chiúme, finalmente, que o autor faz referência explícita, reproduzindo de cor os dois versos finais, à Canção X de Camões. E finalmente, porque essa célebre composição de Camões já andava pressentida há muito, nestas cartas.

7. A pergunta em epígrafe, que admite várias interpretações, podia ter sido formulada por dezenas de milhar de jovens soldados que, num dado momento das suas vidas, viam as suas vidas interrompidas. As interrupções eram múltiplas: as luas-de-mel, os cursos, a aprendizagem de profissões, os namoros, muitos e muitos projectos futuros, no limite, a própria vida. Era tudo tão violento, nomeadamente, para quem já tinha alguma instrução escolar e política. O povoléu, ignaro e obediente, psiquicamente treinado para combater pela Pátria, batia-se, quase sempre, até aos limites da insensatez. Quantas narrativas de actos de grande bravura terão ficado por contar?

7.1. Passados apenas quinze dias e já o jovem alferes, médico de formação, notava que iria “pagar um preço muito caro pela possibilidade de voltar a viver” em Portugal (carta de 31.1.71.). As notações sobre a guerra são agora frequentes. Mais tarde há-de, já calejado e aparentemente mais conformado, poupar Maria José aos relatos horripilantes de mortos, amputados, feridos e desaparecidos. À exaltação inicial, vai opor-se um homem mais ponderado e quiçá mais conformado. “Escrevo-te de manhã, no gabinete da enfermaria, enquanto espero três evacuados” (carta de 10.2.71); porém, e também para terminar este subtópico, aqui ficam mais palavras de Lobo Antunes: “ Dos feridos gravíssimos de ontem – três sujeitos cheios de balas – não há notícias, mas espero que se salvem. Entretanto o morto – o guia – foi abandonado na mata às feras”( carta de 11.2.71).

7.2. A guerra não era apenas operações e mais operações militares e mortos e feridos e evacuados. Daí, a pertinência da observação que segue: “ É incrível a guerra que aqui fazemos, sozinhos e sem meios, contra um inimigo cada vez mais numeroso e bem preparado” (carta de 11.2.71). E onde muitos outros meteram o bedelho, passe o plebeísmo, como nota o futuro autor de As Naus: /.../ o nosso exército prolifera e vive no meio de uma confusão e de uma desordem indescritíveis” e mais à frente: “Chegam hoje os pilotos(17) nos seus pássaros gigantes, e não sei de onde é que estes franceses vêm e por que diabo colaboram nisto” (carta de 15.2.71).

7.3. E apesar da guerra ser uma actividade colectiva, onde acontecem os actos mais bárbaros e as solidariedades mais grandiosas, António sabe que ele e os restantes camaradas de armas, nomeadamente os mais esclarecidos, combatem fora da sua terra e em defesa de uma causa iníqua. Combatem pelos execráveis passadores de angolares por escudos, pelos novos-ricos que vão às festas em Luanda e que tudo fazem para que as suas crias masculinas não conheçam os tenebrosos teatros de operações. Não espanta, pois, esta constatação: “Cada um vive quase somente para si próprio e para as cartas que recebe, preocupado com a própria sobrevivência e mais nada” (carta de 17.3.71). Esta guerra, decididamente, era sentida como algo que era imposto e cujo absurdo as elites iam interiorizando. Não admira, assim, que, no pós-25 de Abril, a situação nunca mais se tivesse estabilizado. Todos os sobreviventes queriam voltar ao verdadeiro solo pátrio e ao seio das suas famílias. Cá, no rectângulo europeu, ficou célebre a palavra de ordem: NEM MAIS UM SOLDADO PARA AS COLÓNIAS!

7.4. Não eram, contudo, os tempos da incorporação e da mobilização, que marcavam o início das angústias familiares. A guerra começava a ser tema obrigatório para os rapazes e respectivas famílias, por altura dos quinze/dezasseis anos. Apesar de tudo, António Lobo Antunes terá iniciado o serviço militar já depois dos vinte e cinco anos, facto que lhe permitiu uma abordagem mais adulta e pontuada por uma imensa discrição. Porém, não deixam de ser dignas de registo as seguintes palavras de António:” O meu instinto conservador e comodista tem evoluído muito, e o ponteiro desloca-se, dia a dia, para a esquerda: não posso continuar a viver como o tenho feito até aqui” (carta de 15.5.71). É curioso notar que o futuro escritor, que se referia aos guerrilheiros por terroristas e que até mantinha uma relação amigável com o responsável da Pide, em Gago Coutinho, há-de deixar cair aquela denominação e esta amizade no esquecimento.

7.5. António Lobo Antunes é filho de uma futura grande família do reino. O pai é médico especialista e de nomeada. O irmão mais velho segue, segundo cremos, as peugadas do pai. António já é médico. E os restantes membros do clã hão-de desempenhar papéis noutras áreas, a saber: advocacia, música e diplomacia, nomeadamente. O nosso mancebo, compreensível mas tardiamente mancebo, vai transmitir, através das suas cartas – as cartas a Maria José -, a sua visão da guerra colonial e das actividades correlativas. A primeira grande nota de uma situação burlesca é dada ainda durante a viagem, na carta de 14.1.71, onde o futuro escritor descreve o ambiente das refeições, no paquete: “ Ao jantar e ao almoço, uma velha oxigenada, com duplo queixo e chinelos, toca piano com uma dificuldade míope, e ao lanche (chá e bolos), servido por uma nuvem de criados, a orquestra «Vera Cruz», qual deles com a melhor pinta de chulo lisboeta, magrinhos, brilhantinados, de olhar maroto, esfolam música de cabaré de putas.” Tendo em conta o puritanismo da sociedade portuguesa do início da década de setenta do século passado, imagine o putativo leitor a cara daquela panóplia de tias e avós, se lessem aquela prosa enérgica e realista de António.

7.6. A guerra é uma fonte de medos por excelência: os actores têm medo de morrer, de ficar estropiados, de ser preteridos no amor, de ser esquecidos por amigos, familiares e até pela mulher amada. Não espanta, assim, que o futuro autor de Cus de Judas , logo na primeira carta, a de 7.1.71, em tom imperativo, mas com patética sinceridade, escreva: “Lembra-te de mim”. De resto, esta fórmula vai ser repetida assim ou modificada em dezenas e dezenas de cartas: “lembra-te de mim, sempre/../”, “ /.../ tem paciência e lembra-te, de quando em quando, de mim”, “/.../ lembra-te de mim, tem saudades minhas e gosta um bocadinho do teu marido desterrado”, “Minha noiva linda, nunca te esqueças de mim”. António teme até – e o seu temor é tão humano!...-, que os outros o esqueçam. Daí esta tão comovente confissão nobreana: /.../ espero que continuem a pensar no António coitado/.../” Nobre, o espantoso poeta do SÓ, há-de ser referido explicitamente em duas das cartas e está presente, implicitamente, em muitas outras. Este António, tal como o poeta, é aquele que está longe da sua terra, das coisas e dos seres que lhe são queridos e que vive, também ele, só e corroído pela saudade, já muito longe da sua “torre de leite”. “92 dias separam-nos. Todas as manhãs desconto um. Vivo desta aritmética da saudade/.../”, escreve na carta de 28.6.71.

8. “Porque é que vieram interromper-nos tão brutalmente?” António casara em Agosto de 1970 e embarcou para Angola em 6 de Janeiro de 1971. O casal, apesar dos meses entretanto decorridos e de Maria José já se encontrar grávida, vivia ainda uma prolongada lua-de-mel. Era um dos efeitos da guerra. Vivia-se o dia presente como se do último se tratasse. A guerra conferia a tudo, e ao amor também, um carácter de urgência. Deixo aqui um verso de Ramos Rosa: “Não posso adiar o amor para outro século”.

8.1. As cartas escritas por António são apaixonadíssimas. Aqui se transcrevem algumas das fórmulas iniciais, que, de certo modo, atestam essa mesma paixão: “Meu querido amor”, com noventa e quatro ocorrências; “Minha jóia querida”, repetida em quarenta e cinco missivas”; “Minha querida jóia”, surge quarenta e uma vez; para “Meu amor querido”, contamos vinte e seis; e “Meu amor” é utilizada em quinze cartas. Porém, o trabalho de joalheiro vai mais longe, utilizando ainda as fórmulas seguintes: “Minha jóia”, “Minha jóia adorada”, “Minha querida jóia linda”, “Minha amada jóia”, “Minha jóia preciosa e querida”, “Minha jóia zangada”, etc.
Ainda no âmbito destes começos, note-se o emprego de “Minha linda senhora” e também “Minha alma amada”, que, ainda que este amor se alimente de carne, remete para códigos amorosos antigos que o autor conhece bem e que não utilizará por acaso. Nomeadamente a fórmula “Minha alma amada”, que configura uma identidade espiritual plena entre os dois amantes. Maria José é o primeiro leitor de António e este confere grande importância à sua opinião. Devido à separação, Melo Antunes também há-de ler excertos, em primeira-mão, e dar alguns conselhos ao jovem escritor.
Como todos os casais, mesmo à distância, os “amuos” também acontecem, ainda que para António sejam sol de pouca dura. Diz o que tem a dizer, directa e incisivamente, e retoma a relação com a ternura de sempre. É nestes momentos que inicia as cartas com expressões diferentes das habituais: “Maria José”, “Sr.ª D. Maria José” e “Minha Senhora”´. O ciúme também não está completamente ausente, quando, numa das cartas, diz que se vive bem, em sua casa, na sua ausência. Outros exemplos poderiam ser dados.

8.2. Os finais das cerca de trezentas cartas são memoráveis e muitos deles constituem verdadeiros hinos ao amor. Outros, por sua vez, tocam-nos pelo insólito e pelo imenso humor de António. É justo que se diga, neste preciso momento, que os finais das cartas são profundamente caóticos. Há sempre uns milhões de beijos para acrescentar, um “lembra-te de mim”, mais beijos, um “GTS”, etc., que nos dão conta da profunda solidão em que vive este homem e da falta física que lhe faz a mulher amada.

8.3. Nós sabemos, de saber de experiência feito, quanto doíam as carências afectivas. Sabemos, com saber de experiência feito, com se iludia essa dor. Sabemos, com saber de experiência feito, a quanta sordidez nos obrigou a guerra. Houve outros Antónios, mas deve ser aqui transcrito este testemunho: “ As minhas saudades tuas são imensas. É tão triste esta longuíssima separação” (carta de 10.5.71) e diz-lhe imediatamente: “Com nenhuma mulher dormirei senão contigo, a mãe do Toino – ou da Zézinha. Milhões de beijos /.../” (carta de 10.5.71). E no entanto, este homem morre de desejo: “Coloco o meu pénis na forquilha do teu corpo” (carta de 20.1.71) e remata esta carta com ” Milhões e milhões de saudades apaixonadas, de beijos, de festas, de carícias e de abraços/.../”.
Dias depois, com os sentidos já na ordem, se é que pode falar assim, escreve: “ o teu Van Gogh (tinha tido um problema numa orelha) adora-te, minha gazelinha adorada, meu diamante querido, minha pérola e minha estrela” (carta de 21.1.71); todavia, o seu amor nunca deixa de ser superlativo: “Gosto tanto tanto tanto de ti” (carta de 27.1.71). Alguns dias depois, o desejo voltava: “Eu queria tanto voltar a ver-te! Deves estar, com certeza, cada vez mais bonita. E gorda. E barriguda. Apetece-me tanto deitar-me em cima de ti e penetrar-te” (carta de 1.2.71). Passados alguns meses, já próximo do primeiro reencontro, escreve: “Hoje tenho andado com uma terrível vontade sexual. Prepara-te para coitos homéricos” (carta de 13.7.71) e num dos aerogramas seguintes reitera:” Gosto tudo de ti, meu amor querido. E prepara-te para tetraquotidianos combates singulares” (carta de 20.7.71).
Mais palavras para quê?

9. A escrita é a obsessão das obsessões de António Lobo Antunes, que também é, como havemos de ver mais tarde, um grande devorador de livros. Não dissemos grande leitor, propositadamente, ainda que do seu currículo conste uma plêiade de autores de narrativas, que começa com Homero, no séc.VIII a.C. e chega aos seus contemporâneos, estrangeiros e nacionais. Há neste homem um dado relevante: é detentor de uma memória prodigiosa, uma memória onde tudo se inscreve e nada se apaga. Tem, na verdade, uma memória de elefante.

9.1. Antes de avançarmos neste ponto que denominamos a obsessão das obsessões, queremos aqui realçar o facto de Lobo Antunes ter deixado manuscritos em Portugal, os quais manda destruir a Maria José, na carta de 27.3.71. E diz mesmo que ficaria muito zangado, se, porventura, encontrasse as suas “historietas miseráveis”, quando viesse a Portugal. Mas quem tem acompanhado a vida do autor, sabe que escreveu desde sempre. Pelo menos, é essa a ideia que deixa passar em todas as entrevistas, quando perguntado sobre o assunto. E as cartas reiteram definitivamente essa ideia, e, outra ainda, a da escrita como trabalho oficinal. Atente-se nas próprias palavras do autor acerca do Voo: “ O problema tem sido reduzir a minha prosa a uma simplicidade bem legível. Cortar o pescoço à eloquência”, Chiúme, 7.6.71. Eloquente!

9.2. A escrita é o oxigénio de Lobo Antunes. Parece predestinado para escrever livros e daí que, no interior da própria família, o olhem diferentemente. As palavras do próprio autor: “No fundo agrada-me que assim seja, sempre gostei muito do amor, sobretudo do que eles têm por mim, que, não sei se já reparaste, é diferente do que sentem pelos meus irmãos, porque eles têm a sensação de que possuo qualquer coisa de irresponsável e imprevisível e de que farei um dia algo de heróico e de louco e de sublime, que eles não sabem bem o que será mas que os mantém em suspense”, carta de 12.4.71. E curiosamente, esta é uma das poucas missivas em que não fala da “história” ou histórias, tanto faz.

9.3. A inscrição da sua escrita, nesta grande narrativa epistolar, é iniciada com uma intenção: ”Qualquer dia recomeço a escrever (carta de 29.1.71)” e dois dias depois avisa:”/.../começo, de novo, a pensar no livro/.../”. Na carta de 7.2.71, escreve: “ Começo a assentar e a serenar. Comecei, talvez por isso, e a escrever um novo Dilúvio /.../ “Na missiva de 11.2.7, assegura: “ A história cá se vai fazendo com o pouco tempo que para ela tenho, com facilidade e sem muletas.”; para asseverar, cinco dias depois: “ A minha história lá avança entretanto, e parece-me genial...". A 24 de Fevereiro, afirma: “/.../ Tenho avançado o Dilúvio contra ventos e marés, e espero tê-lo pronto e genial antes das férias.” Apesar do tom optimista em que se expressa; nota-se já, todavia, que algo não vai inteiramente bem com este livro, que trazia iniciado de Lisboa e que há-de abandonar.

9.4. Na carta de 13.3.71, António, eufórico, revela a Maria José: “Ontem passou-me uma coisa pela cabeça e comecei a escrever uma história completamente nova, com uma facilidade incrível. É uma coisa que me tem entusiasmado para lá de todas as palavras, e que excede, mesmo, tudo quanto me julgava capaz de fazer”. E não se cansa de tecer elogios ao seu novo projecto, que conta ainda apenas com dez páginas, mas que será um romance “assombroso” e o mais “revolucionário” de todos os que já lera. E assevera que não está “a ser pedante, nem aldrabão, nem exagerado”. É o dia triunfal de Lobo Antunes que, de resto, já era um velho conhecido de Fernando António e conhecia a génese dos heterónimos.

9.5. É verdadeiramente impressionante a quantidade de autores que, aos vinte e oito anos de idade, António já tinha lido e sobre os quais se permite emitir juízos de valor. Conhece os autores sul-americanos fundamentais, que se expressam em português e espanhol. E, apesar da “sua tenra idade” e da ausência de obra publicada, olha-os de cima para baixo (é assim que quero dizer). Gabriel Garcia Marquez, e, sobretudo, Cem Anos de Solidão, Carlos Fuentes e Cortázar, são dos raros autores, do subcontinente, que se salvam da mira sempre muito crítica do futuro autor de A Morte de Carlos Gardel.

9.6. Os franceses, que conhece abundantemente, passam sem grandes críticas. La Chute de Camus é uma coisa bem escrita. A Peste, lida aos dezasseis anos, era uma coisa extraordinária; mas aos vinte e oito, já era maçadora. De resto, parece não apreciar muito a literatura solar de Camus. Nem uma só referência a O Estrangeiro. André Gide, o esteta, é referido várias vezes, mas sem adjectivos. Copia-lhe o método do caderninho. Acusa Balzac “pela cristalização do romance”. Conhece o antiquíssimo Cyrano de Bergerac. Mostra grande interesse pela Shafo de Alphonse Daudet e lê Samuel Beckett. Quem exerce, no entanto, um grande fascínio sobre o jovem escritor é Céline, que chega a considerar o maior, ainda que determinados juízos de valor reflictam muito o estado de alma do momento em que são formulados.
Ainda uma pequena nota referente à língua francesa. António revela um grande conhecimento da língua – e não será desapropriado dizê-lo – um certo gozo em utilizar expressões da língua de Victor Hugo, ora para valorizar a beleza de Maria José, ora para dizer quanto detestava aquela situação que lhe roubava dois anos da sua vida. Aqui fica o registo de algumas expressões francesas:”tristesse”, “três hasardeux”, “à la longue”, “soyons heureux”, “à en mourir”, “environement”, “refaire une beauté”, “je m’en fiche”, je deteste ça”, etc.

9.7. Quanto aos espanhóis da península, Lobo Antunes não dá conta dos seus conhecimentos. Trata familiarmente Don Miguel de Unamuno, atribui um verso de Lorca a Rosalía de Castro e faz uma referência elogiosa a Jorge Semprún, que lhe foi revelado por Melo Antunes.

9.8. Ainda no que concerne a autores estrangeiros da sua predilecção, para além dos sul-americanos já anteriormente referidos, avultam Joyce e Faulkner. Do primeiro diz: “ /.../ o melhor do mundo é James Joyce” (carta de 7.7.71) e quer o seu retrato, na “nossa casinha”, em lugar de destaque. Em relação a Faulkner, diz que gostaria de ter escrito todos os seus livros. E na mesma carta (Carta de 23.2.72), numa condusão propositadamente torrencial e incoerente e por metonímia, refere Hemingway e Stendhal e Flaubert e e Thomas Mann, etc. e depois lembra-se de Tolstoi, “que é o maior de todos”. Outros autores são citados: Franz Kafka, Gunther Grass, Truman Capote, etc. E talvez seja justo dizer, neste ponto, que, apesar das nossas omissões, a carta de 23.2.72, escrita na Marimba, fixa a árvore genealógica de António Lobo Antunes.

9.9. Era espectável que António Lobo Antunes nos desse mais notícias de autores portugueses. Afirma, curiosamente, que os três maiores escritores portugueses são Camões, Pessoa e Bocage. Deste último lamenta o facto de não o conhecer tão bem como devia. E de andar associado ao anedotário.
Lê ensaios de Jorge de Sena, contos de Almada, romances de Namora e descasca em O’Neill. Acerca da obra deste último, As andorinhas não têm restaurante, diz tratar-se de uma série de prosas sem categoria nenhuma, /.../ Qualquer coisa de fotonovela e nem um cheiro daquela atmosfera russa indefinível/.../, que eu tanto gosto de respirar” (carta de 27.2.71).
Acha que Soeiro Pereira Gomes seguiu demasiado Os Capitães da Areia de Jorge Amado, na Engrenagem; contudo, tece rasgados elogios ao neo-realismo, por ter dado voz ao país real. De Redol lê A Barca dos Sete Lemos e não faz quaisquer comentários.
Não é natural, em nossa humílima opinião, que o futuro autor do Esplendor de Portugal, se tenha esquecido dos grandes novelistas portugueses de oitocentos: Garrett, Camilo e Eça. E ainda de nomes do séc. XX como José Cardoso Pires e Agustina Bessa Luís.
É estranho, não é?

10. António Lobo Antunes revela uma grande sensibilidade pelas questões de natureza antropológica. Ao longo das cartas são abundantes os seus testemunhos, quer no que toca ao modo de organização das populações, à volta dos chefes tribais; quer no que concerne às suas crenças e práticas ancestrais. Não sendo um documento insubstituível ou sequer de referência, as cartas revelam aquele que numa delas se despede como “marido, pai e escritor”, como um homem de grande sensibilidade e de cultura.

10.1. Os merengues, que também servem para avisar os guerrilheiros ( para Lobo Antunes ainda são terroristas) da saída das tropas, “são fabulosos de ritmo e de beleza selvagem. Ao centro, um grupo de homens percute os tambores, e a malta dança de roda, velhos e novos, mulheres com filhos às costas, etc., mexendo-se com uma espantosa facilidade e um ritmo extraordinário, cantando ao mesmo tempo uma melopeia estranhíssima” (carta de 15.2.71).
Ainda que desde sempre “o tricotar subterrâneo” da escrita o tenha absorvido, António é por formação um homem de ciência, mas nem por isso deixa de assistir a certas cerimónias autóctones: “Hoje, domingo, passei a manhã, numa cerimónia curiosa, a assistir è esconjuração de uma doente, para que a doença saísse de dentro dela” e mais à frente: “três homens tocavam tambor e a malta dançava e cantava à volta/.../” (carta de 7.3.71).
Porém, nem todas as práticas eram benfazejas: “Ontem, em consequência de uma feitiçaria, amarraram uma velha a um quimbo e queimaram-na viva no Ninda, rito ainda frequente nestas paragens”(carta de 24.3.71).

10.2. A sexualidade é um daqueles temas que nunca lhe poderia passar ao lado. E a sua condição de médico, permitia-lhe um conhecimento provavelmente vedado a outros: “/.../ os casos impotência masculina são frequentíssimos, e todos os dias oiço tristes queixas de machos desiludidos, exibindo pénis formidáveis e inúteis” (carta de 12.3.71).
Constata que “ Não existe homossexualidade, a não ser numas vagas ligações helénicas entre velhos e miúdos, que se desfazem com a puberdade destes. O beijo é ignorado, as carícias também, e a fornicação faz-se de lado, numa imobilidade de preguiça, durante horas, sem se tocarem, numa indiferença absoluta” (carta de 2.4.71).
A desfloração de uma garota nativa por um coxo grotesco, é assim descrita:” Um coxo/.../ foi-se a uma garota de uns nove anos e, como eles dizem, «tirou-lhe o cabaço»: em vez de oito anos de prisão maior celular., a malta teve uma alegria enorme. Seguem-se oito dias de batuque”.

11. Luanda e os luandenses brancos não mereceram a simpatia do futuro grande escritor. A capital de Angola perpassa pelos olhos do artista como “uma espécie de Areeiro de província, com o mesmo pretensioso gosto suburbano/.../” e os seus habitantes brancos “/.../têm o mesmo indefinível aspecto de vendedores de automóveis/.../” dos da Metrópole. As mulheres são “/.../ tipo locutoras de rádio, demasiado bem vestidas para serem inteiramente honestas.”Nesta carta, a de 16.1.71, fala-nos ainda do Grafanil, que era o grande entreposto humano e mercantil que alimentava toda a guerra, naquele imenso território. Estas eram apenas as primeiras impressões.
Na carta de 21.3.71, Luanda volta a estar sob a mira do artista. Sente-se irritado com a vida da capital, onde nada falta e a fazer fé nas revistas, que publicam as fotografias, há “bailes” e “festas” e “eleições de misses”, enquanto lá longe, nos perímetros dos aquartelamentos, os militares sofrem por todos aqueles que se divertem e os olham com desdém. Mas apesar de não querer pormenorizar por razões óbvias, não deixa de afirmar: “/.../ os brancos locais, sobretudo os das cidades, são de um tipo novo-riquismo saloio e soberbo, verdadeiramente insuportável.” Em suma, são gente “execrável”, que não merece as potencialidades de Angola e aponta-os como ”os descendentes dos degredados”.

12. As notações meteorológicas de Lobo Antunes, para além de fidedignas, dão-nos também “uma visão de artista”. Na curta estada em Luanda e na companhia de outros militares, visita a ilha, mas percebe-se que não gosta do que vê e descobre que “O céu nunca é azul mas maciço, grosso, espesso, triste (carta de 17.1.71). Luanda é apenas uma escala a caminho do Leste. Já em Gago Coutinho, vejamos como o autor descreve as grandes chuvadas: “/.../ têm caído aqui chuvadas gigantescas; em cinco minutos fica tudo alagado de charcos e poças imensas, /.../ as trovoadas, fantásticas de intensidade, desabam em cima de nós numa cadência de Apocalipse” (carta de 31.1.71).
A estação das chuvas vai cessar. Aproxima-se o tempo do cacimbo. As palavras do autor: “O calor tem sido, nestes últimos dias, diabólico, e o céu permanece imperturbável. É o início do cacimbo, mas as noites frias ainda não começaram” (carta de 12.3.71). Está-se, com efeito, num período de transição. Precava-se o leitor, que a coisa vem em crescendo: “ontem à noite desabou aqui uma tempestade imensa, a maior a que até agora assisti, com relâmpagos a caírem por todos os lados, numa sucessão ininterrupta, e os trovões a rebolarem num ruído enorme /.../ “ Mas ainda não era tudo. As trovoadas em Angola, às quais também assistimos, eram fenómenos excepcionais. De novo as palavras do autor das cartas: “Tudo tremia e oscilava. Os raios eram tantos que parecia dia /.../, as casas saíam do escuro numa claridade ofuscante, e o som da água era verdadeiramente ensurdecedor”(carta de 8.8.71). Poderíamos transcrever outros excertos, igualmente realistas e belos, porque as notações de ordem climatérica são abundantes, nestas que também serão, com toda a certeza, comoventes cartas de amor. Cada leitor que tenha passado por Angola, pela imensidão do espaço e da noite, na época das chuvas, sabe que a forma de dizer é a de um artista da palavra, mas a matéria substantiva já está ali toda.

13. Há um só aspecto nestas cartas – e por que não dizer uma linha de força -, que nos chocou do princípio ao fim: a relação de António com o dinheiro e as restantes coisas materiais. Sabemos que era casado e que contraíra determinadas responsabilidades, mas também sabemos que a sua família vivia muito acima da média das famílias daqueles soldados - e até muitos graduados - , que nada tinham e que por isso mesmo viam na tropa uma forma de fugir a quotidianos ainda mais pobres. E que o seu vencimento de alferes e os dinheiros recebidos do exercício da sua profissão junto das comunidades locais, formavam uma massa monetária verdadeiramente invejável.
António conta os tostões um a um e sabe a totalidade do dinheiro que já enviou, que irá receber, aquele com que fica e ainda amealha, para depois comprar um carrinho e outras coisas. Compra arte indígena, feita por encomenda, mas confessa depois que tinha gasto uma ridicularia de angolares.
Ainda neste capítulo, e porque também revela uma personalidade, destaque-se o envio de uísques e outras bebidas por diversos portadores. António não bebe, mas sabe que o material é bom e que a compra é um bom negócio.

por Manuel Barata
12.01.2006

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...