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18 de maio de 2014

Pedro Fernandes: opinião sobre Fado Alexandrino

Uma coisa é certa: essas notas aqui dispostas sobre este romance de António Lobo Antunes são falhas. Elas não conseguirão dizer, no total, o que é este livro; elas não conseguirão fazer entendê-lo. A razão disso é simples, há que lê-lo para ter essa totalidade; há que relê-lo para se fazer entender. E as notas são recolhas para uma primeira impressão sobre o romance.

1. Este é na linha horizontal da obra do escritor português o seu quinto romance; vem depois da trilogia Memória de elefante, Os cusde Judas e Conhecimento do infernoe de A explicação dos pássaros. Se sobre o último romance arrisquei-me dizer que estava diante de novo lugar temático na literatura de Lobo Antunes, reafirmo esta visão, agora ainda mais acesa, diante do quinto romance. Estamos aqui situados no tempo imperfeito – não no sentido do modo verbal e sim na já característica superposição dos tempos que nos romances antunianos compõe uma amálgama de acontecimentos reinventando um estágio temporal outro, alheio ao tempo comum e muito próximo do movimento de rememoração. Sabe-se apenas que estamos numa situação: um grupo de amigos retornados há pouco mais de dez anos da África sentam-se num jantar e vão, cada um à sua maneira, segurado pelo braço da memória dá contas de como foi esse retorno e o que se sucedeu a eles no correr da última década. Fora o retorno do continente africano outro fato histórico que tem servido de lugar comum à literatura portuguesa de depois da década de 1970, a Revolução dos Cravos, ponto culminante da derrocada do Estado Novo.

2. As cinco personagens são representativas dos dois principais momentos da história portuguesa – são todas militares: um tentente-coronel, um alferes, um comandante, um soldado e um tenente, este que pouco aparece na narrativa e está mais como um sujeito ouvinte.  Todas as personagens estão em declínio, não apenas porque o tempo do militarismo está em falta, mas porque o destino pelo qual lutaram parece não tê-los convencidos tampouco lhes dado razões para o triunfalismo prometido. É, pois, um encontro de desilusões, de reflexões sobre um fim e uma glória perdida num lugar empoeirado qualquer da memória.

3. Dividido em três partes – “Antes da Revolução”, “A Revolução” e “Depois da Revolução” – o livro é uma multiperspectiva sobre os mesmos acontecimentos. Muito embora seja esta uma leitura do próprio Lobo Antunes, o leitor, alheio a esta informação só tomará consciência exata desse movimento da narrativa na segunda parte, na qual os acontecimentos são descritos em sua grande parte na terceira pessoa e com poucos desvios da linearidade. Na primeira parte o leitor é confrontado com um intercâmbio de fatos e uma oscilação entre a primeira e a terceira pessoa que dá uma confusão mental custosa de resolução: até mesmo para encontrar o lugar das vozes das personagens é coisa que só conseguirá, parcialmente, já na segunda parte do romance. Num primeiro momento todos relembram o retorno de África, no segundo o que foi/como foi a Revolução dos Cravos e no terceiro momento, todos estarão confrontados com um acontecimento que mudará os seus futuros, no fim do jantar, entre prostitutas, ocorre um assassinato.

4. Aclamado como um dos mais brilhantes livros do escritor, Fado alexandrino merece, sim, o epíteto: não apenas porque os modos de experimentação do autor são aí utilizados em sua plenitude, como não deixa de existir o rumorejar reinventivo em torno da linguagem do romance como vimos notando nos quatro primeiros romances. Tenho comigo que uma das perguntas mais irresponsáveis a se fazer a um escritor é “qual o seu processo de criação”, mas como incipiente nos jogos de narrar desenhados por Lobo Antunes, se me fosse dada a oportunidade, não hesitaria em fazê-la. Sim, porque é um projeto de engenharia muito bem desenhado: e surpresa maior é que, do caos narrativo, todos não saem ilesos, mas conseguem no fim, ter um suspiro sobre os acontecimentos. Digo isto porque mesmo em Proust, em Virginia Woolf, em Joyce, escritores que são utilizados para aproximar como ilustradores do arquitetado por Lobo Antunes, apenas se assemelham, pelas breves leituras que já fiz desses escritores. No fim, o escritor português é qualquer coisa de novo pela capacidade reinventiva da própria forma narrativa.

5. Fado alexandrinoé o romance de um tempo parado. Todo volteio dado em torno do mesmo ponto, e sempre pela matéria do caótico – até o desfecho, com o crime e seu ocultamento – dão notas de que o tempo de fezes (para reproduzir uma expressão do poema de Carlos Drummond de Andrade) não está no passado, mas prolonga-se num presente que não consegue se desvencilhar do peso desse tempo nele incrustado. Está implícita aí uma ausência de alegria, porque toda vez que colocado diante da reflexão acerca de si e do que está a sua volta as personagens dão sempre com uma paralisia que as sufoca, corrói-lhes as perspectivas e no fim de tudo não há outro sentimento sobre o mundo do que a mágoa, o ponto de uma revolta.


por Pedro Fernandes
em Letras in.verso e re.verso
28.12.2012

27 de agosto de 2012

José Alexandre Ramos: opinião sobre Fado Alexandrino

Impressões da releitura de Fado Alexandrino

Lembro que quando li Fado Alexandrino a primeira vez, há vários anos, o livro andou semanas dentro de mim, sem que fosse capaz de iniciar outras leituras (de outros autores) que não me entediassem logo nas primeiras páginas. Foi de tal modo o impacto que desejei ser realizador de cinema para que conseguisse colocar tudo aquilo num ecrã, pois que não bastavam as descrições que fazia do que havia lido; para contar sobre ele, tinha que dar a conhecer as imagens exactamente como se tinham fixado na minha mente durante a leitura – uma das mais rápidas e devoradoras que tive, mesmo sendo um livro enorme (mais que seiscentas páginas).

A releitura, porém, foi mais morosa, por um lado devido a razões particulares que não interessam à questão, e, por outro, sem dúvida a razão mais válida, para absorvê-lo de maneira diferente. Obviamente que, depois de ter lido tudo o que António Lobo Antunes publicou até hoje, o impacto desta segunda leitura não foi tão forte como da primeira vez, mas não deixo de reconhecer que é, na generalidade da obra, um dos seus livros mais bem conseguidos.

Quem lê o autor pela sua ordem cronológica (é o método que estou a seguir para a  releitura da obra), não ficará indiferente ao facto de Fado Alexandrino ser um livro muito mais maduro que os seus antecessores (foi o quinto que publicou): no estilo, no discurso, no aproveitamento das personagens. Digamos que o autor deixa o tom de um certo queixume que marca os três primeiros livros, segue pela via experimentada em Explicação dos Pássaros (no sentido de já não ser uma catarse da sua própria experiência) e solidifica, neste seu primeiro longo romance, a linguagem cuidadosamente escolhida e o encadeamento de várias narrativas dentro própria narrativa – marca do seu estilo com que nos habituará na dezena de livros seguintes. Porém, ainda não é aqui que o uso do discurso na terceira pessoa do singular cai, o livro é narrado por uma personagem cujo papel é ouvir o que as outras personagens (essencialmente quatro) têm a dizer, personagem que pouco ou nada intervém com o seu discurso mas é o veículo para a expressão das que vamos conhecendo. Mesmo assim, e como já em Conhecimento do Inferno ou em Explicação dos Pássaros, assistimos à transformação do discurso para a primeira pessoa em longos trechos do texto, principalmente quando existe na narrativa a necessidade de introduzir maior subjectividade ao discurso ou experiência da personagem.

Outra grande inovação neste livro é a sua estrutura: divide-se em três grandes partes, cada uma delas subdividida em doze capítulos. É a primeira vez que o autor não dá tréguas ao leitor, já que cada capítulo (todos do mesmo tamanho) não se lê de uma assentada, tanto pelo seu comprimento, como pela forma como foi escrito. Daqui, sem dúvida, a razão do título: alexandrino diz-se de um verso de doze sílabas, e o que é aqui narrado senão um fado, o fado da sociedade portuguesa durante um período conturbadíssimo da sua história recente? As três partes correspondem cada uma delas, respectivamente, a três períodos históricos: antes da Revolução, durante a Revolução e após a Revolução (25 de Abril de 1974).

Resumindo a intriga ao seu mais básico: ex-combatentes da guerra colonial (em Moçambique) reúnem-se num encontro após dez anos do seu regresso. É este período de uma década em que a intriga e os relatos se desenvolvem, dividido pelas três partes de antes, durante e após a Revolução. O encontro é um jantar em que se destacam as vozes mais próximas do narrador (a quem as personagens tratam por capitão): um tenente-coronel, um tenente oficial de transmissões, um alferes e um soldado. Estamos no restaurante e são evocadas as vivências de cada um antes da revolução, quando do seu regresso da guerra; decidem depois do restaurante ir a uma boîte, que marca a transição para o durante a revolução; por fim acabam em casa do alferes, na companhia de prostitutas que trazem da boîte e entramos no depois da revolução. Bastante bebidos, descontrolados, e conhecidas as suas experiências durante os dez anos, em que constatam algumas coincidências de relações pessoais e factos entre si, acabam por assassinar um deles com uma faca de cozinha, e no final é relatado como uma caricatura o plano para se desenvencilharem do cadáver e esquecerem uma noite em todos os aspectos degradante, reflexo da maneira de estar de cada um e como cada qual foi reagindo às atribulações vividas durante esse período de tempo.

É curioso constatar que, mesmo não se tratando de um romance histórico, pois os factos reais da história nem são desenvolvidos, apenas servem de marcadores temporais, o autor acaba por deixar uma espécie de testemunho psico-sociológico da sociedade de então através das experiências subjectivas narradas por cada uma das personagens: a incerteza com que muitos homens, sobrevivendo à guerra, voltaram para casa, uns tentando readaptar-se, outros seguindo por caminhos mais tortuosos, e ainda com o peso de um regime que continuava a oprimir; a esperança de uma revolução que viesse a libertar as pessoas, a mudança prometida, os exageros cometidos em nome de ideologias extremas; e por fim o desencanto, a desilusão em que essa mudança se transformou, servindo apenas os novos donos do poder e dando a sensação de que para os que sofreram pouco ou nada havia mudado. O leitor que ainda não conhece este livro irá com certeza identificar estes elementos não só pelas marcas temporais mas também no que cada personagem representa, a nível sociológico.

E mais nada é dado a dizer pois, tratando-se de António Lobo Antunes, para se chegar à compreensão, é preciso ler de facto o livro. Não há resenha ou crítica que por si possa convencer à leitura. E neste Fado Alexandrino, o escritor respeita muito bem o leitor, pelo menos não subestima a sua inteligência, dando-lhe o prazer de conseguir ver, através da leitura, um mundo muito abrangente com estas personagens, não esquecendo que é do ser-se português que aqui também se fala.


por José Alexandre Ramos
27.08.2012

20 de abril de 2012

Damian Kelleher: opinião sobre Fado Alexandrino

edição em inglês Grove/Atlantic, 1995
É noite avançada, em Lisboa, Portugal, e cinco homens do exército convivem no décimo aniversário do seu regresso da guerra em Moçambique. Desde o horror vivido em África, alguns destes homens  foram promovidos, outros se divorciaram , casaram, voltaram a casar, rebaixados, demitidos, iniciaram negócio próprio, cuidaram dos seus familiares, enterraram outros. Discutem as suas vidas sobre o vinho, as línguas enrolando à medida que o álcool vai fluindo. Em poucas horas, um dos homens será morto, assassinado, apunhalado pelas costas por um dos outros soldados.

Para reduzir a intriga à sua pura essência, o parágrafo acima pode resumir Fado Alexandrino. Porém, este difícil, extravagante e aberto romance  abrange muito mais com cada uma das suas quase quinhentas páginas. O impacto deste romance não está no que é relatado, mas na maneira como é relatado, a forma com que António Lobo Antunes consegue tecer cinco vidas diferentes num todo coerente, abarcando mais que uma década.

Lobo Antunes recorre a um interessante estilo de parágrafos extremamente longos, quebrados por raros pontos finais, mas carregados de vírgulas. Num só parágrafo - e isto não é raro - uma personagem começa por pensar em algo, os seus pensamentos são desencadeados por um comentário à margem, a sua mente vai divagando até cinco ou dez anos no passado, ou sobre o dia anterior, e o ponto central da narrativa alterna para novos cenários, com novas personagens, sem mudar de tempo, continuando no "presente"; então outras personagens começam a pensar, e vão tomando conta da cena, direccionando o parágrafo para outro espaço e tempo, tornando-se à vez no ponto central. Isto acontece repetidamente, constantemente se muda do tempo remoto em que os soldados eram novos e inexperientes, para um tempo intermédio, com as suas mulheres e filhos, felizes ou não, até ao "presente", o convívio, em que alguns já são velhos e outros apenas mais velhos, mas todos esgotados de qualquer forma. Mas funciona. É uma marca da habilidade literária de Antunes, a de nunca nos perdemos completamente, há sempre um fio para nos mantermos no caminho, mesmo com uma repentina e não anunciada mudança do ponto de vista da personagem, de cenário, de tempo, de ponto central, conseguimos continuar a par do curso narrativo e compreender o que se vai passando. [...]

A razão principal de isto funcionar vem da Revolução, um tempo conturbado na história de Portugal, quando o socialismo e o comunismo ameaçavam tomar o poder, em que a violência, estupro e carnificina eram comuns [*]. O romance é dividido em três partes, Antes da Revolução, A Revolução, e Após a Revolução. Geralmente, ao saltar na narrativa, conseguimos dizer o que se está a passar devido à proximidade das situações, tempo e personagens aos acontecimentos em Lisboa. Reconhecidamente, embora o tempo possa mudar tão repentina e dramaticamente, durante a parte Antes da Revolução toda a analepse é dentro do tempo de antes da revolução, e o mesmo se passando com as outras duas partes. É quase como se a personagem principal do romance fosse a Revolução, um turbilhão que envolve os cinco soldados, torcendo e dando voltas com as suas vidas.

António Lobo Antunes possui um fantástico sentido de imagética, habilidade para descrever situações e ambientes como ninguém que eu tivesse conhecido. É muito orgânico nas suas descrições, a boca de uma mulher é "um gomo de laranja", as sua coxas abertas "como um pólipo marinho", etc. Considerando que o núcleo do romance é a Revolução os seus terríveis e deletérios efeitos sobre a nação portuguesa e, em particular, sobre a cidade de Lisboa, os temas sobre a morte e a decadência são basilares na escrita. Por isso, à luz do dia, com o sol expondo cruelmente as fendas, a sujidade, a falta de tinta, e as feridas da pobreza que as luzes disfarçam, tudo parece mais pequeno, feio, muito deprimente, e absolutamente pobre. Infelizmente, este traço doentio e obsceno da escrita - tão eficaz quando retratando uma nação em decadência - é mais difícil de ler quando se refere às mulheres. Não existe uma única personagem feminina positiva na Lisboa de Lobo Antunes, todas elas são ora egoístas, ora insípidas, ora obscenas, ora decadentes, ora velhas, ora fracas, ora autoritárias, ora... a lista é vasta. Ainda assim, pode argumentar-se - quase correctamente, creio - que estas características negativas serão inerentes à percepção das coisas que os soldados carregam. Em Moçambique, foram habituados à violação e à prostituição - tanto masculina como feminina - e é fácil imaginar que tenham desenvolvido preconceitos para com as mulheres e o sexo por essa razão.

Há um senão neste livro que vale a pena mencionar. O penúltimo capítulo é o único completamente centrado numa personagem, e é o único capítulo em que o narrador é uma mulher. É uma reminiscência ao monólogo de Molly, do Ulisses de Joyce, com grandes e corridas frases que ocupam um longo parágrafo inteiro, com descrições detalhadas de sexo e luxúria, pensamentos à solta e ideias, etc. O capítulo está escrito com uma habilidade fantástica, mas a questão é que na realidade não combina com o resto do romance. O tom é diferente, o ritmo é diferente, o estilo é diferente, e pouco acrescenta. Ainda assim, é uma leitura agradável. Um interessante dilema.

Ao acabar este difícil e denso romance, fica-se com uma sensação de alívio por ter-se chegado ao fim, um sentimento de dever cumprido. Porém, existe a lástima, porque, com Fado Alexandrino, fui capaz de cair tão completamente num mundo violento e decadente que voltar de lá tornou-se difícil, coisa rara de acontecer com um romance. O efeito foi tão poderoso, quase físico, enquanto o lia, que não recomendo que se leiam dois títulos de António Lobo Antunes de uma assentada. Maravilhoso, mórbido, complexo, difícil, estruturalmente supreendente e intricadamente detalhado, Fado Alexandrino bem vale o esforço.


por Damien Kelleher
Literary reviews and essays
18.11.2006
[tradução do inglês por José Alexandre Ramos]

[*] é a interpretação do autor do artigo sobre o período do 25 de Abril, obviamente desfasada da realidade, talvez por conhecimento incorrecto dos factos.

30 de abril de 2011

Nuno Martins: opinião sobre Fado Alexandrino


Fado Alexandrino, é o 5º livro de António Lobo Antunes e é igualmente o maior.

Este livro, arranjando assim um ponto de comparação é uma espécie de "Ulisses" do James Joyce.

A acção propriamente dita decorre durante uma noite, madrugada e respectiva manhã em que num jantar de convívio de ex-combatentes da guerra colonial que tinham combatido em Moçambique, um grupo homens, o tenente - coronel (comandante do batalhão), um soldado, um alferes, um tenente e um capitão, vão contar toda a sua vida desde o dia da sua chegada da guerra até ao fim dessa manhã.

Sendo assim, o livro está dividido em três partes; antes da revolução, a revolução e depois da revolução e é nesse espaço temporal que a narrativa se vai desenrolando, com os personagens a contar todas as suas peripécias, contratempos, amores, desamores, casamentos, divórcios e tudo o mais que lhes aconteceu durante esses anos.

O livro para além de ser muito intenso (já se começa a notar o Lobo Antunes de escritos futuros), é também uma crítica profunda ao Portugal da década de 70 do século passado, com todos os seus defeitos, mesquinhices e brejeirices que nessa época (e na nossa igualmente) abundavam. É também uma crítica política pondo à mostra primeiro os excessos do regime anterior e da Pide e depois com a revolução, e a passagem de um regime acomodado e repressivo a um regime libertário e até mesmo um pouco "anarca", que foi o do Portugal pós 25 de Abril, o caos e os aproveitamentos políticos e vinganças pessoais que daí advieram.
 
O livro tem um final inesperado, que vai contribuir para um desenlace da história nada esperado.

Eu gostei deste livro, tem uma história bem construída, a vida dos personagens é complexa e por vezes cruza-se, sem eles próprios se aperceberem e é igualmente como atrás referi uma espécie de descrição de usos e costumes do Portugal da década de 70 do século XX.

Para quem nunca leu Lobo Antunes, não aconselho este livro para se iniciar, agora para quem já leu e quiser aventurar-se e tiver "paciência", devido ao tamanho do livro, aconselho-o vivamente.

 
Nuno Martins
05.11.2008

9 de outubro de 2010

Maria Celeste Pereira: opinião sobre Fado Alexandrino


[...] Não me tinha apetecido ainda escrever nada sobre [este livro]. É que o impacto da sua leitura é tal que receio que tudo o que possa dizer a seu respeito venha a ser disparatado. Se não por outra razão, por supérfluo.

Mais um livro absolutamente cativante.

E não, não é pela originalidade do seu enredo. Na verdade ALA desenvolve um tema recorrente na maioria dos livros que li dele; as memórias da guerra e a forma como ela acabou por influenciar os percursos de vida de quem por lá passou.

Dito desta forma poderemos ser levados a pensar que, enfim, li mais do mesmo.

Nada disso! Embora, como já disse, o assunto não seja novo, a verdade é que é explorado sempre de forma diversa.

Neste caso, ao longo das 715 páginas que constituem o livro, vamos acompanhando os desabafos que quatro (cinco? Tenho dúvidas em relação ao capitão, personagem apenas ouvinte) personagens, antigos combatentes em Moçambique de patentes diversas (do soldado ao general), num jantar de batalhão que teve lugar dez anos depois de terminada a guerra colonial, já completamente ébrios de vinho e de mágoa, vão desdobrando.

Bem, na realidade, quem tem que desdobrar e recompor o puzzle que é a escrita deste livro somos nós, os leitores. Confesso que foi dos que me criou maiores dificuldades em relação ao encaixe de todas as peças.

É que, embora esteja escrito numa linguagem de matriz eminentemente objectiva, as constantes interrupções e/ou descontinuidades discursivas entre os diversos narradores tornam-no um rendilhado difícil de compor. As diferentes vozes misturam-se, completam-se, galgando tempos e espaços sem que se desviem daquilo que, no meu ponto de vista, é o objectivo principal; dar-nos uma perspectiva, através do percurso de vida das personagens nesse período de 10 anos, de um Portugal antes, durante e num pós/ próximo do 25 de Abril de 1974.

Tudo decorre no espaço temporal de uma noite e uma manhã. Contudo, nesse espaço de tempo desfilam perante o leitor algumas vidas com as suas voltas, as suas lutas, os seus desencontros, as suas traições… e até, curiosamente, as suas interligações. Todas se tocaram a dado momento sem que de tal se apercebessem.

No decurso de cada uma delas e de todas ALA vai abordando, sempre de forma muito cáustica, muito dura, muito grotesca (provavelmente muito real na sua ficção) instituições militares e políticas, diversos sectores da sociedade, organizações partidárias, a polícia política, as prisões, a guerra…

É uma escrita talvez algo agónica pois, as vidas que se vão desenrolando perante nós, estão irremediavelmente presas à derrota, ao desânimo, ao fracasso, ao medo. Consequência das duras vivências da Guerra Colonial? Dos tempos conturbados e algo confusos do pós 25 de Abril? Do regresso a um status sócio/politico/económico algo semelhante ao anterior variando apenas os que dele se aproveitavam?

A linguagem usada é crua, dura, sem pudores, absolutamente adequada ao que nos quer transmitir. Porém, a narrativa está eivada de metáforas belíssimas, tornando o livro uma peça literária que só alguém com a mestria do autor poderia escrever.

E finalizo com o fim! É que este livro tem, na minha opinião um final inesperado. Para mim, pelo menos foi-o. E que final!

Não será um livro para dar início à leitura do autor. Mas é, seguramente, um fabuloso exemplar da sua obra.


Maria Celeste Pereira
21.09.2010

1 de setembro de 2006

Palabras que se evaporan, por Jesus Aguado (El País) acerca de Fado Alexandrino

edición Mondadori, 2006
António Lobo Antunes (Lisboa, 1942) es uno de los mayores poetas de la literatura contemporánea. Aunque su carrera la haya hecho como novelista - y también, vaya esto por delante, sea uno de los escasísimos grandes de la novela actual -, en su obra hay tal densidad poética, ese amor a la palabra recién nacida y ese dejarse fecundar por la imagen y el ritmo que emanan de ella, que la sensación que queda después de leerla se parece mucho a esa especie de estupor iniciático que siempre produce un buen poema. Esta cualidad la comparte con Paradiso, La muerte de Virgilio, La búsqueda del santo grial o El Kalevala, libros en los que se siente respirar al lenguaje a medida que éste se cuenta en voz alta una historia, y en los que el relato no se construye según modelos arquitectónicos sino biológicos -el revoloteo de la mariposa, el rizoma, el zigzag de los cardúmenes, el descenso de la lava-, algo a lo que aspira la mejor poesía. En las entrevistas Lobo Antunes afirma de manera reiterada que le hubiera gustado ser poeta porque entonces no habría perdido el tiempo escribiendo novelas, lo cual no deja de sonar extraño: en Esplendor de Portugal, Buenas tardes a las cosas de ahí abajo, En el culo del mundo, Exhortación a los cocodrilos, Yo he de amar a una piedra o Fado alejandrino hay tanta poesía que uno sale de su inmersión en ellos tambaleándose como de un sueño, de una visión o de una enfermedad.

Fado alejandrino, el quinto libro de António Lobo Antunes, que ahora se reedita en España con nueva traducción, fue el primero que obtuvo un gran éxito de crítica, el que lanzó a su autor al escenario internacional. En él cuatro militares de distinta graduación y clase social se reúnen, después de muchos años, en un burdel para recordar, mientras se emborrachan, su participación en la guerra de Mozambique, repasar sus peripecias personales desde entonces y contarnos cómo les ha afectado la evolución de Portugal, que, además del cruel proceso de descolonización de sus posesiones en África, viviera en abril de 1974 la Revolución de los Claveles contra la dictadura de Caetano. Sobre este fondo, estructurado en tres partes - antes, durante y después de la Revolución-, Lobo Antunes construye una novela coral en la que las voces de los protagonistas se van amalgamando, o devorando mutuamente, hasta escucharse como una única voz, como un único murmullo: el amargo inconsciente colectivo de varias generaciones portuguesas desmenuzadas por la guerra, el fascismo y el posterior desencanto con la democracia. La desilusión de unas existencias truncadas y la tristeza por una revolución que prometió más de lo que dio, tema también de Manual de inquisidores, dando un manotazo al puzle bien encajado de la realidad y de la historia: el desorden de piezas - tiempos verbales, personas del verbo, cronología de los hechos - como crítica a la verdad oficial y como propuesta de un orden más justo no impuesto desde arriba, desde las instituciones, sino desde abajo, desde los individuos. Y todo ello sin resquicio para la esperanza, sin connivencia con la posibilidad de un futuro mejor porque éste siempre acaba echando sus raíces en el pasado tenebroso. (En esto se diferencia de En el culo del mundo, novela que es en tantas cosas antecedente de Fado alejandrino, donde el horror de la guerra de Angola experimentado por el protagonista confía en poder cauterizarse con el amor o por lo menos con la comunicación).

Con Fado alejandrino pasa como con muchos de los otros libros de Lobo Antunes: a medida que uno avanza por ellos le queda la sensación de que las palabras se evaporan, de que se van condensando a causa de un calor que ponen a medias el texto y el lector. Palabras que se fugan a su origen después de iluminarnos, palabras que desaparecen para dejarnos dormidos entre las sábanas de las páginas blancas. ¿No es esto poesía, la razón de ser de cualquier poema?


por Jesus Aguado
en El País
12.08.2006

31 de agosto de 2006

Lourenço Bray: opinião sobre Fado Alexandrino


A melhor escrita resulta essencialmente de um desequilíbrio. É por isso verdade o velho cliché de que as pessoas quando estão “deprimidas” ou em estados considerados frágeis criam mais, estão num estado mais introspectivo e por isso mais próximas das questões básicas do quem sou eu, de onde vim e para onde vou. Porque precisam de pensar nisso. Se a vida fosse feita de praia, surf, peixinho fresco assado, bom vinho, fogueiras crepitantes onde um grupo de eternos jovens se reúne para tocar guitarra e fumar cigarros que não dão cancro no pulmão, de olhos postos nas faúlhas de fogo que espiralam em direcção ao firmamento, se fosse assim, a literatura morria.

O escritor reage ao que o rodeia, transformando as suas experiências em escrita. A experiência de vida, a par da leitura, é fundamental para a escrita. É muito difícil escrever algo com substância com menos de 30 anos porque não se viveu o suficiente, nem se leu o suficiente. O escritor quase nunca pode agir para se rodear daquilo que em princípio o estimulará a escrever textos melhores, isso é a vida que escolhe. A vida do Lobo Antunes estará marcada por experiências extremas, elas aparecem no Fado Alexandrino. Não há limites, Lobo Antunes escalpeliza as relações humanas como se lhes fizesse autópsias e sentimos que estamos perante um limite da arte: a perfeição. Não existe outro escritor que domine melhor a escrita e a palavra como Lobo Antunes. Se fizessem o equivalente no cinema seria algo do calibre de um Ingmar Bergman.

Mas quero evitar autopsiar eu o Fado Alexandrino até porque não tenho jeito para isso. O problema evidente que a obra de Lobo Antunes suscita a qualquer escritor é que se pode ler muito e ser culto mas que não se pode fugir de uma vida completamente banal, estéril e desinteressante. Pode-se transformar a literatura que se leu, e o cinema e tudo mais em textos, até em mais literatura, mas faltará sempre uma marca, uma voz única, uma espécie de assinatura de vida que distingue um grande escritor de um assim assim erudito que nunca consegue escrever uma só linha sincera.

É verdade que enfrentei estas 600 páginas do Fado Alexandrino com o incentivo extra do livro me ter sido oferecido pelo Lobo Antunes na futuramente mítica sessão de autógrafos da Feira do Livro.

Estava um pouco amuado com ele, comecei a ler o Esplendor de Portugal e desisti às 100 páginas, aborrecido de morte com “mais do mesmo”. O Lobo Antunes exige uma aprendizagem progressiva para a sua linguagem e universo muito particulares. Este Fado Alexandrino é um excelente ponto de partida. Fica-se viciado. Não conhecem viciados em Lobo Antunes? Aquelas pessoas que estão sempre a ler um livro de Lobo Antunes? (…)

 
Lourenço Bray
04.07.2006

17 de fevereiro de 2006

Antônio Panciarelli: Fado Alexandrino - um romance em versos dodecassílabos


Um dos mais complexos e fascinantes romances de Lobo Antunes é Fado Alexandrino (Rocco editores, 2002), escrito em 1983. É o seu quinto livro de prosa e se trata de uma obra romanesca, com estrutura de poema alexandrino, ou seja, com versos de doze sílabas, cujo texto compõe-se de três partes: antes da revolução, a revolução e depois da revolução. Cada uma delas está dividida em doze capítulos, que podem ser visualizados como uma métrica poética do verso dodecassílabo. Assim, cada uma das partes forma um grande poema; isto é, a história é contada em três grandes poemas. O romance tem ao todo 600 páginas, que representam 50 estrofes. 

As personagens de Fado Alexandrino não carregam o traço de herói, nem possuem o destino predefinido. São ambíguas, construídas durante a diegese em que a estratégia narrativa é encenar a perda ou a ausência de modelos organizadores de sentido linear. Através de fendas, as pequenas narrativas em estado de desordem montam e desarrumam a seqüência para o receptor. Essas pequenas narrativas é que compõem a grande fábula e, por isso, pode-se falar em narrativas por encaixe e alternância.

Tem-se, então, uma polifonia em que imperam o plurivocalismo, a pluridiscursividade, a interdiscursividade, a heteroglossia ou a hibridização, postulados que, apesar de se revestirem de nuanças distintivas, apontam quase sempre para o cruzamento dialógico de várias vozes, das diferentes personagens, decorrentes da adoção de diversos pontos de vista, contraditórios ou em confronto.

Lobo Antunes utiliza uma arquitetura polifônica com vozes que polemizam entre si, se completam ou respondem umas às outras. Impõe-se o intertextual sobre o textual - não se trata aqui de uma dimensão derivada de intertextualidade, mas sim de uma dimensão primeira de que o texto deriva. Podem-se observar, neste romance, os conceitos definidos pelo lingüista russo Mikhail Bakhtin sobre polifonia e dialogismo.

Na escrita de Lobo Antunes, as personagens também emitem diferentes vozes não unificadas por uma única ideologia, filosofia ou personalidade. Há, durante a trajetória da narrativa de Fado Alexandrino, uma multiplicidade de vozes fragmentadas em seus discursos e contraditórias em seu desenvolvimento. A criação romanesca do autor privilegia essa multiplicidade e um entrecruzar de vozes em que o princípio da identidade dilui-se e o aqui e agora dificilmente instauram fronteiras.

As vozes viajam constantemente, atravessando a fronteira de tempo e espaço, mas deixando sempre uma trilha para que o receptor possa acompanhar o desenrolar da trama. O resultado disto é um processo que faz a narrativa avançar pelo entrecruzar, por vezes coerente, mas muitas vezes contraditório e mesmo paradoxal, dos vários discursos que representam o fluir de diversas consciências em torno de um acontecimento central que unifica a acção.

Octávio Paz, em Signos em rotação, afirma que o carácter singular do romance provém, em primeiro lugar, de sua linguagem. 1 É prosa? Se consideradas as epopéias, evidentemente sim. No entanto, se estas forem comparadas aos gêneros clássicos da prosa - o ensaio, o discurso, o tratado, a epístola ou a história -, percebe-se que não obedecem às mesmas leis.

O que torna Fado Alexandrino um romance inovador em termos de linguagem é uma descrição pormenorizadamente trabalhada que satura de informações a ilusão de real que o texto oferece, suprimindo banalidades ou recursos estilísticos desnecessários, mas construindo artesanalmente uma carga metafórica de analogias semânticas espessas. São exemplos disso trechos como “a caixa de sapatos esmagava os telhados”, ou “as órbitas vazadas das janelas fitam o sujeito”. 2 Tais características a tornam uma obra peculiar em que a objetividade narrativa do texto não impede, entretanto, que o autor utilize sinestesias e silepses em todo o romance.

O conjunto de idéias e representações que servem para justificar e explicar a ordem social, as condições de vida do homem e as relações que ele mantém com os outros homens é o que comumente denomina-se ideologia.

A ideologia é constituída pela realidade e, ao mesmo tempo, constitui a realidade, já que não se caracteriza por ser um conjunto de idéias surgidas do nada ou da mente privilegiada de alguns pensadores. A ideologia é, sim, fruto de uma série de decorrências resultantes de fatores sociais, econômicos, políticos e intelectuais, revelada pela análise do discurso no plano da semântica discursiva.

Existe ainda o que se convencionou chamar de “ideologia dominante”, aquela que é imposta persuasivamente sobre a classe dominada com o objetivo implícito de obter a legitimação de seu poder. Ao colonizar países africanos, Portugal impôs sua ideologia e seu conceito de sociedade européia aos povos colonizados.

A narrativa de Lobo Antunes está impregnada com esses conceitos e valores e, ao retratar Portugal entre 1972 e 1982, não se preocupou apenas em definir suas personagens como arquétipos que estariam de um lado ou de outro em um campo de batalha, mas sim em mostrar suas personagens lidando mais com o comezinho, com a luta diária pela sobrevivência e pela reintegração em uma sociedade que os definira como “os retornados”.  Há, entretanto, em todo o romance a preocupação em mostrar as marcas que a colonização portuguesa deixou na África.

Logo após o 25 de abril de 1974 e a descolonização feita atabalhoadamente nas colônias africanas, Portugal passou a viver com uma população que não deveria mais fazer parte da vida lisboeta. Não havia mais lugar para acolher os emigrantes que voltavam de Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné Bissau e São Tomé e Príncipe. Essa população que era, literalmente, despejada no parque público de Monsanto recebeu da imprensa portuguesa a alcunha de “os retornados”.

Logo se originou no país uma comunidade de segunda classe - os emigrantes que perderam tudo na África e passaram a viver acampados nos jardins de Monsanto. Lobo Antunes não coloca as personagens de Fado Alexandrino nesse mega-acampamento, mas as distribui pela periferia da cidade, situando-as junto à classe média baixa. Ao colocar as personagens em bairros como Pixeleira, Cabo Ruivo, Intendente ou Anjos, o autor traça o retrato de um verdadeiro “cordão sanitário” que foi criado ao redor de Lisboa e da classe média que não precisou emigrar.

A temática central de Fado Alexandrino é a guerra colonial na África, contada por meio das reminiscências de um grupo de militares que combateram em Moçambique. Aborda o retorno a uma Lisboa desconhecida, que sofreu com a rápida e desorganizada urbanização, com a re-inserção no ambiente familiar na periferia da cidade e, sobretudo, com a dificuldade para sobreviver fora da caserna.

O título da obra também remete ao fado, palavra originária do latim fatu, que significa destino. Em Portugal, o fado está diretamente ligado a um ritmo musical originário dos cânticos dos mouros que permaneceram nos arredores de Lisboa, mesmo após a reconquista cristã. A dolência e a melancolia daqueles cantos, comuns ao fado, estão na base desse ritmo. No entanto, o significado que Lobo Antunes dá a essa palavra refere-se mais ao destino lusitano do que à canção.


Antônio Panciarelli
artigo citado de Sibila - Estado Crítico
não datado

24 de novembro de 2005

João de Melo: Recensão crítica na Colóquio Letras nº 82 de Novembro de 1984 – pp. 104 a 106


Concebido como plano de cobertura dum período de cerca de dez anos da realidade portuguesa [pós 25 de Abril]*, e hipoteticamente confinado, no tempo, à década de 70,Fado Alexandrino assenta num estrutura de três painéis, a que correspondem as epígrafes de «Antes», «A» e «Depois da Revolução». Três painéis que se constituem, cada um deles, em 12 capítulos de acção, de micro e macro-histórias, discursos cruzados e vivências mais ou menos protagonizadas pelos cinco personagens principais da obra. Nesta aparente simetria estrutural, com tudo o que possa ser rigoroso e calculado, procura implicar-se uma ordem de tempo(s), pessoas, factos e análises, de forma a que (a)pareça problematizada a junção da História, no seu sentido positivo, com a verosimilhança da ficção narrativa. Daí que a primeira questão acerca deste romance possa ser suscitada pela forma seguinte: será que a sua ficção é susceptível de catalogar-se, prontamente, como «histórica»? Se for certo dizer-se que podem existir romances «históricos» que da História colham uma visão precária, algo condicionada e até esmorecida, então Fado Alexandrino pode perfeitamente perfilar-se como exemplo de uma obra literária que tem por si as margens de ambiguidade suficientes para ser duplamente interpretada: é «histórica», no ponto em que observa referências e os limites dum período bem determinado da nossa vivência colectiva; mas não é «histórica», se a sua finalidade literária e sobretudo o acervo das suas análises subjectivas puderem suscitar discordâncias de fundo ou se subsistirem factos objectivos que a contraditem. O levantamento destas duas hipóteses não tem de considerar-se gratuito, já porque se trata de um autor cuja obra, no seu conjunto, se centra nalguma tradição da nossa prosa historicista, já porque me parece ser esse um dos problemas que mais frequentemente vêm sendo introduzidos nos debates acerca da nova escrita lusitana. E se a escrita do Autor possui a noção prática do novo e o pendor poético e metafórico (por vezes mesmo barroco) que muitos lhe reconhecem; se o seu êxito editorial radica, acima de tudo, no reconhecimento duma competência específica, duma voz ou mesmo dum idiolecto de literatura, parece-me a mim que é mais problemática, neste Fado, a concepção do que avisão justa da História da nossa Revolução.

Não tanto por razões ideológicas objectivas, mas sobretudo ao nível duma avaliação sintomática do período histórico, político e social a que este romance se reporta, sou levado a considerar que a visão do Autor sobre as transformações operadas se ressente de um excessivo pessimismo, acabando até por desembocar numa espécie de delta da dissolução sem remédio, aliás antevista desde a primeira página do livro. Neste ponto, teria eu preferido vislumbrar um outro clima de variações periodológicas que melhor se coadunasse com os desesperos, euforias, ilusões e desilusões do «Antes», «A» e do «Depois» dessa Revolução. Preferia também  ter visto um mais intenso cromatismo de situações que dessem ao fundo romanesco uma melhor sucessão dos tempos específicos. Ao contrário disso, o Autor parece incorrer num tom quase unívoco, arrastando sob o mesmo discurso períodos tão distintos como o estertor final da ditadura marcelista, o sucesso do golpe de Estado e o que se lhe seguiu. Curiosamente, a mole humana que apoiou e pressionou, nas ruas, as transformações operadas neste país passa quase despercebida às expectativas do leitor. Bem sei que teria sido fácil ao Autor envolver o universo relativamente fechado do seu romance com alguns garridos episódios de rua, que infelizmente se constituíram já em péssima literatura, pela mão de outros escritores; mas nem por isso a aparente omissão desse barómetro temporal, que é o fervor fecundo das multidões, me parece ter sido uma alternativa feliz. Ou só o será, no ponto em que a aposta do Autor é seria, pela recusa do fácil e a escolha do caminho mais longo.

A perspectiva escolhida é, se assim se pode dizer, a do tabuleiro de xadrez cujas peças maiores são constituídas por um grupo de ex-militares que se reúnem num jantar com o ex-comandante dum Batalhão expedicionário em Moçambique e à mesa procedem ao exercício duma memória de 10 anos sobre si mesmos e sobre o Portugal de «antes», «durante» e «após» Abril. E são peças secundárias desse jogo vivencial as relações multi-multiplicadas dos 5 (um Tenente-Coronel, um Comandante de Companhia, um Tenente, um Alferes e um Soldado), com uma série de segundos-planos familiares, profissionais e outros. À medida que o leitor progride na organização desta memória, infunde-se nele a sensação do crepúsculo, do tempo parado, das ilusões traídas, e finda tudo num ambiente de dissolução caótica, onde o cometimento dum crime, na pessoa do Tenente, é quase um acto de antropofagia (começa na cumplicidade dos assassinos e acaba na combina da ocultação do cadáver e no regresso de todos os outros ao marasmo dos dias). Não está implícito em tudo isto que a vida, a solidão sem fundo e as amarguras dos personagens não sejam tão verosímeis como as alegrias ausentes ou as euforias passageiras. A minha especial reserva centra no ponto em que terei de considerar Fado Alexandrino muito mais o romance dos seus personagens do que a visão exemplar, representativa e diversa, de toda uma sociedade que subjaz, em fundo, à montagem dos percursos dos cinco. Se a isto juntarmos os compromissos lógicos dos narradores sucessivos, fica completa a ideia de que este livro se desvia deliberadamente duma sociologia tipológica e portuguesa e acaba por enfocar num universo mais particular do que geral (ou social). É quase umrequiem sobre o tempo. Nenhuma especial vibração sobre palavras e conceitos como, por exemplo, liberdade e justiça. Nenhuma hipótese de futuro, até.

O próprio narrador dominante comunga deste mar de cumplicidades e recusas, a ponto de o seu olhar ser tão ou mais impiedoso e cáustico do que o dos personagens. Lisboa, a cidade-cemitério, é, por isso, um lugar onde sempre quase chove; a fisionomia das coisas é baça e fria; os materiais e os seres longínquos têm, quase sempre, um referente condicionado - o complexo do plástico. Mesmo o humor é violento, ácido e muito macho. Um desgraçado Tenente-Coronel, personagem principal, atravessa todo o calvário das solidões familiares, amorosas e profissionais, e é varrido, como um monte de ossos, de cargo para cargo e de posto em posto, até chegar a general - e tudo para nada. O seu envolvimento no golpe militar é aleatório e indiferente, porém cheio de equívocos e traçados descontínuos. Ele e os outros mostram-se, de facto, incapazes dum ideal, duma relação duradoura e duma firmeza de princípios. Até mesmo o trabalho político de alguns acaba por os conotar com uma espécie de «trânsfugas», com a rasura teórica e com o insucesso total.

Escritos assim, todos estes senãos talvez possam ser tomados como processo de intenção contra uma obra que, além de ter desconcertado alguns, acabou por ganhar quase todas as apostas junto do público. Gostaria, por isso, de deixar ressalvada a ideia de que é forçoso separar a análise anterior do que se me oferece dizer agora acerca de um processo de escrita que está longe de ser vulgar. Em primeiro lugar, Fado Alexandrinoé uma obra onde se acentua uma tessitura de escritas e uma arte combinatória muito segura de experiências narrativas por vezes muito diversas. Depois, a unidade, o fulgor da palavra e da imagem, o poder de escrita que se contém nesta prosa, cifram-se em páginas de inesquecível claridade. Digo mesmo que, se se tratasse de situar este livro no conjunto das anteriores quatro obras do Autor, parecer-me-ia elementar deixar escrito que o considero como o «livro dos seus livros», com tudo o que isso implica de palpável e de convicto. E não apenas porque este processo de melhoria e de maturidade deva ser imputado a um escritor que soma as virtudes do métier a um trabalho dos mais produtivos da actual cena literária portuguesa; mas sobretudo porque alia a exigência a um capital de pesquisas que, estando longe de considerar-se esgotado, é um caso típico de inquietação e daquele húmus criativo que nos torna solitários e nos remete para uma relação sofrida com a vida e com as pessoas. Além do mais, Fado Alexandrino tem tão seguras as aquisições de Explicação dos Pássaros, como acaba por envolver-se também dos mundos e traumas que fizeram de Os Cus de Judas um livro singular. Livro dos livros, também, porque é a retoma subtil dos grandes temas que vêm inspirando quase toda a obra do Autor. O tema da guerra colonial, p. ex., que colocou o escritor num lugar de referência sem precedentes. O inferno dos outros, a solidão punida e punitiva, o espaço do memorizado e do sofrido (visto e experimentado em Memória de Elefante e emConhecimento do Inferno), são outros tantos caminhos recobertos por este livro. Algumas da suas melhores páginas, de resto, bem podem aceitar-se como o refrão ou o coro trágico de todos os percursos, seja nos momentos em que África e o seus cães-de-quartel são reinvocados, seja nas novas solidões dos outros-com-os-outros. O penúltimo capítulo do livro é, por sua vez, um texto de tal intensidade poética, que compensa, por si só, os excessos metafóricos, as espirais de linguagem e as imagens menos felizes que de quando em quando pontuam uma escrita de quase 700 páginas, onde raras são as falhas de gosto e quase nulos os efeitos menores. Fiquem os leitores com a ideia de que a «monumentalidade» deste romance reside tanto nas suas dimensões físicas como na sua estrutura e na sua actualidade. Num país de literatura (quase sempre) apócrifa, e onde os grandes temas sofrem toda a sorte de acidentes e atrasos, até chegarem ao estatuto de ficção distanciada, escrever sobre o Portugal de hoje, como António Lobo Antunes o vem fazendo, é significativo dos muitos méritos e do êxito que os seus livros têm conhecido, aqui e no estrangeiro. Mas lá que a nossa superestrutura crítica não faça esse reconhecimento ou não se tenha apercebido ainda que há um novo conceito de literatura neste país de hoje [1984], é bem outra questão. A História, porém, também ensina que alguns dos nossos vivos serão sempre antepassados nossos.


* no texto original está "mais recente"

João de Melo
Colóquio Letras 82
Fundação Calouste Gulbenkian
Novembro de 1984

24 de março de 2005

Correio Braziliense: artigo sobre Fado Alexandrino


Podres da humanidade

O português António Lobo Antunes segue o caminho dos grandes escritores do século 20. No longo romance Fado Alexandrino, ele relata à exaustão a realidade sombria da Lisboa pós-guerra.

Ao ver publicado o seu Finnegans Wake, em 1940, o escritor irlandês James Joyce garantiu ao mundo literário da época que aquele livro iria dar muito trabalho aos críticos pelos próximos 300 anos. Tinha razão: Finnegans Wake foi escrito numa linguagem mais cifrada e atordoante, praticamente intraduzível, do que a do seu Ulisses, que é de 1922, considerado por grande parte dos críticos um dos maiores monumentos da ficção do século 20. Para escrever o Finnegans, dizem que Joyce reuniu palavras de um arsenal de mais de 60 idiomas e com esse método procurou narrar a saga da Irlanda, suas lendas, a história da cultura popular de suas raízes e da agonia humana.
  
A verdade é que depois desses esforços ficou difícil inventar algo em literatura que não fizesse os doutores da academia torcer o nariz, afirmar que esse ou aquele texto já nascia velho. Mas a história da criação humana é rica e imprevisível e a sua literatura após Joyce foi ainda mais robustecida por pelo menos uma dúzia de obras de valor escritas por nomes como William Faulkner, Marcel Proust, Louis-Ferdinand Céline com o seu magnífico Viagem ao Fim da Noite, Thomas Mann e a sua incrível Montanha Mágica, Albert Camus, João Guimarães Rosa, Ernesto Sabato, Jorge Luis Borges.
  
O problema é que ao varar a primeira metade do século passado a cultura não só literária, universal, entrou em declínio e mesmo algumas das obras escritas nas décadas de 30 e 40 já refletiam os murmúrios de agonia de um homem atônito com o advento do século das máquinas, das descobertas científicas, da morte dos valores, um homem que ainda parecia escutar o grito angustiado de Nietzsche que afirmou a morte de Deus. De um lado o mundo parecia entender as transformações como um portal do inferno que se abria com as garras das duas grandes guerras; de outro, alguém ainda podia sussurrar que essa era a história da humanidade, portanto repleta de abandono, ódio, renascimentos, com as revoluções sociais e individuais procurando erguer a arquitetura do mundo pela retomada dos valores, de uma economia que escravizava populações inteiras na Europa e nas Áfricas ainda povoadas de colonizadores sanguinários. É neste universo em que se encaixa o Fado Alexandrino, de António Lobo Antunes, obra que dá prosseguimento ao seu projeto literário de traduzir na ficção a realidade sombria dos anos da guerra colonial.
 
Sim, o mundo do jeito que está feito é inadaptável ao homem, por isso preciso de um pouco de demência e de luar, tudo o que não seja daqui, vibrava a voz de um solitário Camus que a duras penas salvava-se do suicídio dia a dia e todos os dias procurava reconstruir o seu mundo interior com a energia da arte enquanto a Europa e a sua Argélia ardiam sobre as cinzas de uma guerra que se foi encerrada para os generais se estendia pelas ruas de Paris, Londres, Calcutá, Bangladesh, Berlim e o mundo inteiro bombardeados pela dor e pela brutalidade de seus ditadores. Nesse cenário de destruição foram erigidas grandes obras da literatura, das artes plásticas (Picasso, Matisse, Dalí) num esforço natural da criação humana que nas figuras míticas da Fênix e de Sísifo possui a qualidade de renascer da pedra ou do fogo. É também nesse cenário, mas outros tempos, onde ecoa a voz de Antunes que costuma resumir a vida numa luta diária contra a depressão com a ajuda da literatura: ‘‘Escrever, para mim, é fuga ou equilíbrio’’.
  
Com Viagem ao Fim da Noite, Céline descortinava para o meio literário do começo da década de 1950 um cenário de absoluta violência que a guerra impõe, um horizonte fechado, cerrado na escuridão do fim e da vertigem, de tonalidade escatológica (no sentido dos tratados que estudam os excrementos) com a brutalidade poética de sua palavra cortante pondo no esgoto das crenças qualquer tipo de esperança. Era médico e escritor como o português António Lobo Antunes, e como poeta da prosa moderna acabou se entregando, dividido entre o médico e o poeta: ‘‘A literatura não merece tanto sofrimento’’. Mas foi longe no que fez e deixou no universo cartesiano do chamado fluxo da consciência diversos herdeiros de um verbo pretensamente inquieto e soluçante como alguns representantes da nouvelle vague, no cinema, os escritores do nouveau roman, entre outros autores de tantas correntes literárias que buscavam e clamavam pelo novo mas que pouco ou quase nada de marcante deixaram para a idade contemporânea. Afinal, quem ainda consegue se interessar pelo novo romance francês do final do século passado, ou pelos epígonos de Joyce e Faulkner, pela poesia concreta da mais dura lavra da inspiração que não aconteceu ou pelos escritores norte-americanos pós-Salinger?
  
O português António Lobo Antunes se inscreve na melhor e na maioria das correntes literárias citadas, vem desenvolvendo sua obra a partir da experiência de médico militar, da leitura de grandes poetas e ficcionistas da era moderna, com a diferença de ser dono de um talento para a poesia capaz de causar a um só tempo repulsa e encantamento, se comparado a um Allan Robbe-Grillet, por exemplo, e outros identificados com a literatura engajada do pós-guerra.
  
Ao enfileirar-se, no entanto, ao lado de um Céline ou de um Marcel Proust na força das descrições mais alucinantes de ambientes e pessoas de uma Lisboa pós-Revolução dos Cravos, o autor de Fado Alexandrino vai às raias do exagero e chega a ser até cansativo. Trata-se de uma obra híbrida e a sensação ao final da leitura é que o livro de Lobo Antunes — com suas 607 páginas — poderia ser muito maior se fosse menos extenso. Com o seu anarquismo virulento, a sua prosa que beira o esgar da esquizofrenia criativa, em alguns momentos, seu desejo cruel de pintar uma Lisboa eternamente sob o manto pardo e podre das derrotas humanas e das crises sociais; uma cidade que ao longo dos últimos 30 anos se transformou num depósito de imigrantes e de ex-combates mutilados por dentro e por fora após o chamado Vietnã Português, as guerras coloniais que eclodiram nos anos 60 em países como Angola e Moçambique, o escritor de A Ordem Natural das Coisas parece a todo instante querer convidar o leitor para a desesperança e a revolta.
  
Os personagens principais são militares que resolvem se reunir num restaurante sujo e sombrio de Lisboa para resgatar os dias de guerra, a memória de uma sociedade que naufragou nas campanhas militares de Salazar, ditador sanguinário que a exemplo dos ditadores do mundo inteiro levou à ruína um povo que agonizou durante 14 anos debaixo da violência e do desperdício da guerra, que poderia ter renascido com a Revolução dos Cravos, mas que ainda luta para renascer. Aí entra o aspecto político da obra, a crítica aos ideais da revolução vistos por um anarquista convicto como Lobo, aliás o motivo que o afastou para sempre de seu conterrâneo e desafeto José Saramago, marxista de carteirinha, e, entre outros, um dos eixos do romance que não convence nem emociona o leitor.
  
Há momentos, porém, de extrema poesia na obra, sobretudo quando alguns personagens como o alferes e o soldado resolvem relembrar a fase antes e durante a guerra colonial. Enquanto se empanturram de sanduíches e azeitonas e se afogam em garrafas de uísque barato e do pior champagne da casa, mostram-se em muitos momentos como verdadeiros rebotalhos humanos, mas que embora embrutecidos pelo sangue e pelo nada da violência ainda conseguem contemplar suas próprias ilusões pelas janelas do bar sumindo no horizonte do Tejo como se fossem barquinhos de papel. ‘‘Não me apetece puto esta monótona existência de alforreca, o primeiro copo num bar, a seguir ao emprego, sentindo-me infeliz, sentindo-me culpado, sentindo-me sozinho (...), entre objetos de louça e postais dos anos vinte, o meu surdo, veemente desejo (...) de ganhar, meu capitão, a adolescência que não tive’’, urra o soldado bêbado de lembranças da mulher que o deixou e de uma cidade que cresceu e ficou feia, imunda e perigosa como a maioria das cidades do mundo.

Sim, a prosa de Lobo Antunes faz escorrer enxames de palavras que o escritor parece despejá-las não de um balde de sintonia com a criação, mas de uma torrente após uma tempestade de visões do presente e do passado. A feiúra dos personagens, a terra sempre em ruínas e sem a emoção de um cartão-postal do passado, o sangue e o vômito, um homicídio e a cumplicidade dos assassinos, a náusea do tenente-coronel em seus dias de escriturário, pós-revolução (Kafka?), o horror do alferes pelas putas de Lisboa, enfim tudo em Fado Alexandrino remete às cloacas da humanidade. Ninguém escapa da virulência, da morbidez e da poesia aterradora deste que, como Céline, mas diferente dele, tentou narrar o pavor da guerra empregando uma escrita aparentemente nova porque fora dos esquadros da gramática normativa e da sintaxe.
  
O próprio Lobo Antunes costuma dizer em entrevistas que não se preocupa com o fio da narrativa, mas cuida de erguer personagens. Aos 60 anos, sempre lembrado para o prêmio Nobel de Literatura, o psiquiatra António Lobo Antunes começou a se dedicar ao ofício da literatura a partir de 1985 e afastou-se da medicina. ‘‘Escrevo livros para corrigir os outros, e ainda tenho muitos para corrigir’’, afirmou a um jornal português. Lobo Antunes é autor de 15 romances, a maioria publicada no Brasil pela editora Rocco. Certa vez queimou a primeira versão deste Fado, mais de 700 páginas, e o que está publicado é um terço das primeiras versões.


autor desconhecido
artigo citado de Correio Braziliense
edição 07.07.2002

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...