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Mensagens

A mostrar mensagens de Agosto, 2009

Maria Celeste Pereira: sobre O Meu Nome É Legião

Há uns quantos livros mas, sobretudo, uns quantos autores que, na minha opinião têm de ser lidos com a disposição certa, no momento certo, com tempo para deles podermos tirar o máximo proveito.

Foi, para mim, o caso de “O meu nome é legião”. Há já muito que o tinha pronto para ler e a verdade é que tinha vontade de o fazer. Contudo, apenas há pouco tempo entendi que estava preparada para o usufruir.

Li-o e, de imediato, voltei a lê-lo. Não que o não tenha compreendido na primeira leitura, mas sim pelo enorme prazer que me deu fazê-lo e porque me custou deixá-lo. Não queria.

Essa dupla leitura permitiu-me também parar e absorver mais intensamente algumas partes de uma beleza única. Aquelas por onde se consegue pressentir a beleza, o sentimento, onde só parece existir fealdade, desencanto, desamor, negação, dor… (O sentir do autor?)


O livro é, desde o primeiro capítulo até ao último (foram, aliás, estes dois os meus preferidos), um verdadeiro tratado literário; um prazer de leitura só por s…

Assombrado pela literatura

publicada no site Bem Paraná Ubiratan Brasil / Agência Estado 17.08.2009

Escritor português António Lobo Antunes, que teve dois livros lançados no Brasil, conversa sobre literatura e vida

O escritor português António Lobo Antunes vive assombrado pela literatura. Em um de seus recentes pesadelos, se viu morto e cercado por homens que discutiam sobre sua obra com argumentos muito inteligentes. “Meu desespero estava na impossibilidade de me levantar e dizer: ‘Não é isso! Não quis dizer isso!”, contou, por telefone, desde Lisboa.

Como um dos principais autores em língua portuguesa da atualidade, a incompreensão não parece incomodar Lobo Antunes, uma vez que sua escrita literária está sob constante evolução, notadamente subversiva e radicalmente original. Aos 66 anos, Antunes leva ao extremo a quebra da estrutura narrativa. É o que o transformou em um dos principais convidados da mais recente edição da Festa Literária Internacional de Paraty, em julho. E o que torna ainda mais atraente o lançam…

Rafael Rodrigues: opinião sobre Ontem Não Te Vi Em Babilónia

“Ontem não te vi em Babilônia“, de António Lobo Antunes (por que comprei: eu já queria ler Lobo Antunes faz tempo, mas recentemente o jornalista e escritor mineiro Humberto Werneck, que mediou a conversa com Lobo Antunes na Flip, me recomendou veementemente a leitura de um dos livros do autor, só não lembro qual; como “Ontem não te vi em Babilônia” estava na promoção das Americanas, peguei ele)
Numa noite em claro, entre a meia-noite e as cinco da manhã, personagens diversas relatam tudo o que pensam, enquanto a insônia permite. Ouvem-se histórias de vidas sonhadas ou sonhos de vida, contos alegres, tristes, cruéis, com esperança ou desencanto, histórias de medo e de encantar. Ontem não te vi em Babilónia passa-se numa única noite, uma noite em que ninguém dorme, em que diversas vozes se entrelaçam.

Ana Emília não se esquece da morte da filha, um suicídio quando a menina tinha apenas 15 anos. Alice, ex-enfermeira de um hospital de província, casada com um homem calado e truculento, repa…

Cristina Robalo Cordeiro: Recensão crítica na Colóquio Letras nº 157/158 de Julho de 2000 – pp. 413 e 414

Desde Memória de Elefante que, ano após ano e de título em título, acolhemos os romances de Lobo Antunes com forte expectativa, esperando do seu mundo romanesco que nos surpreenda, nos abale e nos confirme no que parece ser o essencial das forças que o plasmam: polifonia, fractura, delírio, caos, dissecação de figuras e de ambientes fantasmagóricos, obstinação de memórias labirínticas, descida aos infernos de um quotidiano sempre transfigurado.
Na relação que estabelece com o leitor, não é nunca a cedência à lei da facilidade que impera. Não buscamos nos livros de Lobo Antunes serenidade e apaziguamento, nem acção, aventura, divertimento. Não o lemos em estado de repouso, mas de vigilância. Não o recebemos em sossego, tranquilamente, mas de forma tensa e enervada.
Não Entres tão depressa Nessa Noite Escura não nos desilude. Nele reconhecemos, na diferença de um novo cenário, a mesma virtude criadora, a mesma carga emocional, a constante tensão, nunca resolvida, que dialectiza texto e mu…