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Luis M. Alonso: opinião sobre Sôbolos Rios Que Vão

Palavras que fluem como a água

O curso do rio serve ao eterno aspirante do Nobel da Literatura António Lobo Antunes para contar a viagem fictícia da vida sujeita ao tempo e à organização da memória. Para tal utiliza desde o título do seu romance as resondilhas mais conhecidas de Camões: “Sôbolos rios que vão / Por Babilônia m’achei, / Onde sentado chorei / As lembranças de Sião, / E quanto nela passei”. A literatura flui como a água numa das suas obras mais belas, talvez a melhor de todas que escreveu na última década.

Sôbolos Rios Que Vão [...] explora as possibilidades da lírica sem deixar de lado uma trama discernível, algo que não é fácil encontrar no melhor escritor português vivo desde Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura, marca de um ponto de inflexão na leitura dos seus romances. Em qualquer caso, livre a escrita do atavismo que impõe a nudez da história, ao leitor calha converter-se em cúmplice das emoções das personagens e das palavras. O resultado é comovente e, como só pode acontecer com Lobo Antunes, o esforço que requer a leitura vê-se altamente recompensado pela desoladora beleza que transmitem as suas páginas.

Na cama de um hospital, só e com as recordações da dor, António invoca Antoninho e com ele o seu passado, enquanto que no seu corpo se vai alimentando um ouriço de castanheiro que come as suas entranhas, o mesmo com que o pai desgastava a saúde da mãe nos episódios de amor furtivo com a criada na despensa. “Não o contes a ela”.

Assim impedido, enquanto os médicos tentam adiar-lhe a morte, vê a vida passar através dos sonhos de então. A viagem à Serra da Estrela para contemplar a nascente do Mondego e os pequenos detalhes num mundo que se desmorona: a mancha na pia, a persistente gota de chuva no sapato, o cheiro da marmelada, os amores esquivos ou a lembrança do avô com a mão côncava sobre a orelha para escutar as conversas.

Trata-se de uma obra autobiográfica. Há alguns anos António Lobo Antunes foi internado devido a um cancro e nessa luta entre a vida e a morte, guiando-se pelo rio da sua infância, traçou o leito que vem desde o nascimento até afluir na actualidade. O sentimento de finitude está sempre presente no escritor, desde o momento em que deixou a sua existência cómoda e se viu dentro da guerra colonial. Angola, de quando o rebenta minas, que seguia à frente abrindo o caminho e detectando a morte, se apresentava a ele e lhe dizia: “Venho despedir-me de si, meu tentente. Amanhã vou embora...”. Esse sentimento de finitude levou-o em muitas ocasiões a obcecar-se com a ideia de que não iria ter tempo para escrever o que realmente queria escrever. Nas entrevistas, insiste em afirmar que sem a escrita nada faz sentido, ou tudo fica, no mínimo, mais reduzido.


por Luis M. Alonso
04.02.2014
[traduzido do castelhano por Joana de Paulo Diniz]

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