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José Mário Silva: crítica a Sôbolos Rios Que Vão


Deste sonho imaginado

Para título do seu 22.º romance, António Lobo Antunes (ALA) escolheu o primeiro verso das Redondilhas de Babel e Sião, de Luís Vaz de Camões, poema extraordinário que fala dos «enganos» que o tempo faz às «esperanças» e do triste fim que aguarda quem «se fia da ventura». Além de anunciar desde logo a principal metáfora do livro, Sôbolos Rios que Vão revela-se um título particularmente feliz porque a proximidade temática entre a prosa de ALA e as 37 estrofes camonianas permite que algumas funcionem como sinopses perfeitas do romance. É o caso, por exemplo, da segunda redondilha:

«Ali, lembranças contentes
n’alma se representaram,
e minhas cousas ausentes
se fizeram tão presentes
como se nunca passaram.
Ali, depois de acordado,
co rosto banhado em água,
deste sonho imaginado,
vi que todo o bem passado
não é gosto, mas é mágoa.
»

Fechado num quarto de hospital, o protagonista tem «a morte a cercá-lo sob um céu de catástrofe». O cancro nos intestinos assume para ele a forma de um «ouriço de castanheiro» a dilatar-se dentro das tripas e não há galho onde o «pássaro do seu medo» consiga poisar. Durante duas semanas, ele atravessará cirurgias, recobros e monitorizações clínicas como se já não estivesse no «abismo da enfermaria» mas num outro espaço, uma espécie de limbo no «centro do que não sabemos», talvez o «sonho imaginado» de que fala Camões, povoado de memórias e das tais «cousas ausentes» que se tornam presentes «como se nunca passaram».

Quando olha pela janela, este homem, a quem por vezes chamam Sr. Antunes e outras Antoninho (alimentando a tensão autobiográfica do livro, escrito por alguém que esteve internado nas mesmas datas, 21 de Março a 4 de Abril de 2007, pelas mesmas razões), este corpo em suspenso só consegue ver o seu passado: a infância na vila perdida por entre as serras, com os comboios a passar, a casa da família, o poço dos suicidas, o pilar de granito em volta do qual fazia oitos com a bicicleta, o hotel dos ingleses do volfrâmio, e uma série de defuntos que talvez prossigam «numa existência paralela a esta», como o avô eternamente a ler o seu jornal, a dona Irene que tocava harpa, o pai que lhe mostrou a nascente do Mondego, etc.

Tudo isto lhe chega em «revoadas de imagens», com histórias atropelando-se umas às outras, vindas de épocas muito afastadas para o turbilhão de um «tempo contínuo» em que se fundem «o passado remoto, o presente alheio, o futuro inexistente». Unindo esta amálgama por vezes confusa, uma metáfora: a do rio Mondego, «fiozito entre penedos» quando nasce mas que depois engrossa e se alimenta de outros rios a caminho do mar, tal como o protagonista acaba sendo o leito onde confluem as desordenadas águas das vidas alheias, dando sentido à sua.

Tecnicamente, a escrita de Lobo Antunes é irrepreensível. A cada dia corresponde um capítulo. A cada capítulo, uma única frase. E ninguém domina como Lobo Antunes o ritmo, a fluidez e a respiração da frase, ninguém faz dela uma unidade narrativa tão bem articulada e tão eficaz. O problema é que o trabalho com a linguagem deixa por vezes contaminar-se pela natureza do que descreve. E quando o protagonista se afunda no seu delírio, entre «formas que iam, vinham e tornavam a ir, se sobrepunham e afastavam, rodavam lentamente ou elevavam-se e caíam depressa, pareciam definir-se e em lugar de se definirem dissolviam-se», é a própria escrita que se dissolve e deixa o leitor às escuras, avançando às apalpadelas, tão maravilhado quanto perdido.

À semelhança do que acontece ao corpo preso às máquinas, Sôbolos Rios que Vãodesmorona-se enquanto o lemos. É uma experiência dura, difícil, mas magnífica. E estranhamente recompensadora, talvez porque entre as ruínas desta aproximação à morte, contra todas as expectativas, pulsa a vida.


Avaliação: 8,5/10
texto publicado no suplemento Actual do Expresso

José Mário Silva
01.11.2010

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