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Alice Ferney em Le Figaro - «Ser e ter sido» crítica a tradução francesa de Sôbolos Rios Que Vão

Ser e ter sido

António Lobo Antunes - O escritor conta a sua estadia no hospital durante o tratamento de um cancro. Desconcertante e sublime.

capa da tradução francesa (por Dominique
Nédellec), publicada pela editora
Christian Bourgois em 19.02.2015
As obras-primas, disse Proust, são escritas numa língua estrangeira. Falam a língua de uma forma como nunca se havia entendido. Constroem no centro da sintaxe contradições, combinações, silêncios, que despertam os nossos olhos para um nunca visto. Como Céline, a quem escrevera na sua juventude, o escritor português António Lobo Antunes pertence a essa espécie de criadores da escrita. Ninguém escreve como ele, e ele não escreve como ninguém.

Resumir este grande livro é quase um ultrage: Sôbolos Rios Que Vão [Au bord des fleuves qui vont] (os rios míticos, os rios de Portugal, as torrentes de emoções que em nós fluem, os rios da memória e do tempo) relata os quinze dias do Senhor Antunes num hospital de Lisboa, onde é operado a um cancro, «o ouriço». Sendo nada mais que isso, é contudo dentro de um oceano, de um abismo, de uma floresta densa ou, na realidade, dentro da mente de um homem onde o leitor se entranha.

Desde o início, a ubiquidade do doente, da qual permite o seu livre espírito de estar em todos os lugares ao mesmo tempo, é-nos anunciada: o Senhor Antunes não está na sua cama de doente, ele está na serra, onde em criança pode ver sua avó. O corredor do hospital é como na aldeia, o enfermeiro deita o olho ao quarto como outrora o fazia a mãe... Os momentos, os lugares, os rostos que se cruzaram na sua vida misturam-se num mesmo instante. A memória toma conta do tempo, anula-o, deixa de existir passado, presente e futuro, tudo está concentrado na alma do Senhor Antunes. E este romance da sua agonia acaba por ser o romance da própria vida. A aventura cirúrgica, a dor, a angústia, as palavras do médico, cortam o fio condutor destas recordações às portas da consciência. O diagnóstico sibilado por frases no meio de uma profusão de sons, de cheiros, de gestos, de fantasmas em torno do doente, somente observando. Ele delira, afirma o enfermeiro, e o leitor sorve esse delírio.

É preciso dar conta da nossa perturbação. Para além das suas deslumbrantes elegâncias, a escrita de Lobo Antunes torna real essa ideia de que somos a cada instante todos aqueles que já fomos. O Senhor Antunes é, ao mesmo tempo, o adulto doente, o filho e o neto, Antoninho. A vida que tivemos não se perde, permanece em nós até ao final. E nós somos espíritos eternos, dizem os últimos capítulos, em que a morte do doente, incerta, não suspende o fluxo das imagens. Seja claro que se trata de uma prosa desconcertante, literalmente: não existe fio narrativo, que se dispersa num labirinto de memórias. A oração, a lógica, a habitual lineariedade resultam fracassadas. Como nos sonhos, o espaço e o tempo já não se impõem. O discernimento impacienta-se: de que estamos a falar? O que o inquieta? Onde estamos agora?

Tudo se move. Da mesma forma excitante e desgastante como o Guignol's Band de Céline, Lobo Antunes se afirma. Ele é um artista, não um contador de histórias. A sua matéria de escrita não é uma ideia da vida, antes das suas sensações, percepções, terrores e apetites. Se a concentração do leitor se mantiver, libertando o raciocínio, e se deixar levar-se pelas palavras, então a emoção atingirá o seu auge.


por Alice Ferney
19.02.2015
[traduzido do francês por Joana de Paulo Diniz]

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