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Le Temps (Suiça), crítica a Sôbolos Rios Que Vão - António Lobo Antunes no país da infância

António Lobo Antunes no país da infância


Au bord des fleuves qui vont, tradução
em francês de Sôbolos Rios Que Vão
(Christian Bourgois, 2015)
Após ter sido internado num hospital, o escritor português fez de Sôbolos Rios Que Vão um dos seus melhores romances

Em 2007, António Lobo Antunes, então com 67 anos, foi operado a um cancro no intestino num hospital de Lisboa. Como jovem médico, cumpriu a sua obrigação militar em Angola, durante a guerra colonial. Há pouco tempo teve de ser novamente operado, desta vez aos pulmões. Contudo, foi entre esses meses de Março a Abril de 2007 que tomou consciência da sua finitude, do pouco tempo que ainda tem. Em 2010 publicou o seu 22º romance, Sôbolos Rios Que Vão. O livro parece assumir a forma de um diário – desde 21 de Março a 4 de Abril de 2007. No hospital, o corpo é o palco de um coro de vozes que misturam o presente com um passado longínquo, através de uma polifonia que Lobo Antunes tem vindo a desenvolver ao longo de uma vintena de títulos, uma sinfonia que é sua marca indelével. Durante aquele tempo, entre o sono da anestesia e choque de uma doença grave, esta pauta de reminiscências produz um acorde mais ajustado, mais restrito e despojado das grandes arquitecturas de livros anteriores – Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar? ou O Arquipélago da Insónia

Trata-se de um romance autobiográfico? Não parece que existam muitas duvidas, porém os elementos estão recompostos, são e não são o que parecem,  transfigurados pela memória, pela dor e pelo trabalho da escrita: «[…] era o pássaro do seu medo sem galho onde poisar a tremer os lábios das asas, o ouriço de um castanheiro dantes à entrada do quintal e hoje no interior de si a que o médico chamava cancro aumentando em silêncio, assim que o médico lhe chamou cancro os sinos da igreja começaram o dobre […]». A igreja, as árvores, a casa da família em Nelas, no centro de Portugal, toda uma paisagem da infância vem em auxílio do homem velho, o Senhor Antunes, e o Antoninho de então que lhe faz companhia: «O passado nunca morreu. Nem nunca passou», disse Faulkner, com quem Lobo Antunes é muitas vezes comparado.

O título do romance vem dos versos de uma redondilha do poeta Luís de Camões: “Sôbolos rios que vão / em Babilónia me achei». Um exílio, portanto: de si mesmo, do corpo que o traiu em silêncio, da infância que não fora um verde paraíso, antes um território cercado de ameaças e medos, embora num tempo longe da finitude. Como dizia Fernando Pessoa, por quem Lobo Antunes não nutre grande afinidade, seria como “No tempo em que festejavam o dia dos meus anos / Eu era feliz e ninguém estava morto».

Sôbolos Rios Que Vão é um livro repleto de silêncios, desenhando uma “cartografia das emoções”, que reúne todos os sentidos: o ruído do vento sobre as árvores, o cheiro das compotas na despensa, a picada de um alfinete, o sabor do rato de chocolate, a lembrança de uma bochecha encostada à sua.  As imagens são recorrentes: a tia que tocava harpa, o pingo num sapato, os mineiros doentes, estes também, com os cheiros do volfrâmio, uma estrangeira loira, o ténis no hotel dos ingleses, o suicídio fracassado do tio. Tudo se torna profecia, oráculo:  «não se lembrar do nome da governanta do senhor vigário preocupou-o, lembrava-se do avental, dos chinelos, do riso, não se lembrava do nome e por não se lembrar do nome não iria curar-se […]».

Os corpos da mesma forma se definham: «De quem são estas mãos?», questiona o doente. Quando o avô guarda os óculos nos bolsos também deixa cair alguns dos seus dedos. E o pai, surpreendido em adúlteros actos amorosos – como quando com a criada: «Nunca mais acaba senhor?» - embaraçado a recompor-se, ridicularizado até mais não. O corpo do doente, ao cuidado dos seus médicos, alia-se ao da criança que o avô alimentava, dando de comer com uma colher, arredondando a boca ao mesmo tempo, como se faz com as crianças ainda hoje. O tempo é abolido: ora estamos em Março, com a chuva batendo nas vidraças, ora estamos em Agosto, sob um eterno verão.

A questão recorrente - «isto existe?» significando «o “eu” existe?» - não terá resposta. No último dia, «Agora sim finalmente», as dúzias de andorinhas  na janela do hospital, a dor desaparece, desligam-se os ecrãs dos aparelhos de suporte à vida, as personagens encontram-se ao redor da cama, para uma reconciliação ou um velório, não o sabemos: «à esquina de um freixo e a própria serra ausente, um pássaro no sentido da barragem quer-se dizer não um pássaro, a ideia de um pássaro, teria estado no hospital ou o hospital uma invenção como as outras […]».  No final, como num palco, «Exeunt omnes». Todos os actores saem de cena, a representação terminou. E assim termina um dos melhores livros de Lobo Antunes. Não é, porém, uma despedida: três outros romances foram publicados entretanto, depois de 2010.


por Isabelle Rüf
em Le Temps
28.02.2015
[traduzido do francês por Joana de Paulo Diniz]

[citações do romance no texto original em português: Sôbolos Rios Que Vão, Publicações Dom Quixote, 2010, 1ª edição ne varietur]

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