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O Estado de São Paulo «A ficção biográfica de Lobo Antunes»

Autor considera ‘Não É Meia-Noite Quem Quer’ sua obra mais pessoal


Do outro lado da linha, a voz soa acabrunhada – um dos mais importantes autores da língua portuguesa, António Lobo Antunes parece reforçar sua fama de não gostar de dar entrevistas. “Sobre qual livro vamos mesmo conversar?”, questiona e, depois de ouvir o título Não É Meia-Noite Quem Quer, a 28.ª obra de uma carreira notável, é quase possível vê-lo dar de ombros, mesmo estando em Lisboa. “Não tenho o que falar. Jamais releio meus livros e, ao final, são todos iguais para mim.”

O que poderia ser desanimador é, na verdade, um estímulo – aos 73 anos, Lobo Antunes é uma celebridade em Portugal, reconhecido onde quer que vá. Vários motivos explicam. Primeiro, sua literatura – para ele, a perfeição está longe de ser alcançada, daí sua escrita estar sob constante evolução, notadamente subversiva e radicalmente original. Não é para ser degustada e, sim, devorada.

Em segundo lugar, sua simpatia. Sim, António Lobo Antunes transborda charme. Já se tornou célebre a participação de Lobo Antunes na Flip de 2009. É essa mesma candura que move agora a conversa com o Estado. Como de hábito, Lobo Antunes relembra a importância da literatura brasileira em sua formação. “Meu avô nasceu no Brasil e, em sua biblioteca, aprendi muito com Monteiro Lobato, Machado de Assis, Raul Pompeia.”

Em seguida, relembra sua admiração por Drummond (“versos perfeitos”), cobra mais atenção à obra de Paulo Mendes Campos (“cronista exemplar”), Jorge de Lima (“Invenção de Orfeu é notável”) e Mário Quintana (“poeta brilhante, mas pouco lido”). Pergunta sobre o amigo Rubem Fonseca (“continua a caminhar por Copacabana?”), relembra com saudade de Jorge Amado (“um dos homens mais gentis que conheci”) e venera João Cabral de Melo Meto (“um poeta que não tem antecessores – parece que nasceu do nada”).

edição Alfaguara Brasil
Já tomado pela nostalgia e por seu natural lirismo, Lobo Antunes começa a falar mais detalhadamente sobre Não É Meia-Noite Quem Quer. Publicado em 2012 em Portugal, o livro provocou-lhe lágrimas enquanto era escrito. “Não porque me comovesse a história, mas porque as palavras fluíam, as frases saíam perfeitas. Tinha a sensação de que o livro me era ditado e que a esferográfica não tinha a mesma velocidade da voz que dizia as sentenças.”

Apenas uma vez tal milagre acontecera – em 1980, quando viajava da cidade de Aveiro para Lisboa, chegou com o livro Explicação dos Pássaros praticamente pronto. Lobo Antunes relembra com imenso prazer a sensação: era como se o enredo enchesse todo seu corpo, com as palavras correndo nas veias como o sangue.

Habitualmente, o processo é mais demorado, doloroso, com muita reescrita e fracasso. “Escrever é um trabalho que se faz por paixão, com muito sacrifício, com muitas olheiras”, já disse, certa vez, Lobo Antunes, que emenda, agora, com uma frase de Cardoso Pires: “É preciso que a gente sofra para que o leitor tenha prazer”.

Não É Meia-Noite Quem Quer é a história de uma mulher, cujo nome não é revelado. Professora, separada, 52 anos, vítima do câncer de mama, ela decide, em um fim de semana, despedir-se da casa em Peniche, onde cresceu ao lado dos irmãos. Ao chegar, é tomada pelas memórias, relembrando desde impressões da infância como o suicídio do irmão mais velho. A acção se passa em três dias, divididos em dez capítulos em que Lobo Antunes se aproveita do irregular fluxo de memória da personagem para exercitar seu estilo precioso – sem qualquer preocupação com a evolução cronológica da história, apresentando os personagens à medida em que são evocados pela lembrança.

Lobo Antunes considera-o seu livro mais autobiográfico. “Minha impressão é a de que estive a falar o tempo todo de mim, do princípio ao fim. Fiquei com a sensação de que me conheço melhor”, comenta ele, que se confessa leitor compulsivo. “Os livros dizem muito sobre nós mesmos. Com o tempo, aprendi que os livros maus falam, os bons, ouvem.”

Apaixonado por seu ofício, Lobo Antunes jura ter muito respeito pelos artistas. Afinal, a herança de um povo é sua cultura. “Os heróis nacionais não são políticos ou economistas – são Shakespeare, Camões, Cervantes.”


31.10.2015
texto de Ubiratan Brasil

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