26/06/2016

Emanuel Moreira sobre Que Farei Quando Tude Arde? (em Goodreads)

Dezarrezoado amor, dentro em meu peito
tem guerra com a razão. Amor, que jaz
e já de muitos dias, manda e faz
tudo o que quer, a torto e a direito.

Não espera razões, tudo é despeito,
tudo soberba e força, faz, desfaz,
sem respeito nenhum; e quando em paz
cuidais que sois, então tudo é desfeito.

Doutra parte, a razão tempos espia,
espia ocasiões de tarde em tarde,
que ajunta o tempo; em fim vem o seu dia:

Então não tem lugar certo onde aguarde
Amor; trata traições, que não confia
nem dos seus. Que farei quando tudo arde?

Sá de Miranda

O soneto de Sá de Miranda resume bem a situação de Carlos quando confrontado com as questões "o que sou, quem é que sou". Até então se diria masculino mas na realidade pouco do que é se enquadra nesse padrão, descobre que[,] afinal, [é] Soraia. Este despertar ocorre talvez inevitavelmente tarde; Carlos já era casado com Judite, uma professora que posteriormente deixa de exercer a profissão e dedica-se ao alcool e à prostituição. E tarde também porque da relação já existe Paulo, filho do casal e a personagem central do livro.

Esta é a premissa de uma obra inspirada na vida de Ruth Bryden, aquela que foi uma das mais icónicas figuras do show travesti em Portugal. Ruth/Joaquim após o divórcio namorava com um rapaz quinze anos mais novo, Paulo (no livro Rui) que morre por overdose (suícidio) após a morte de Ruth (Soraia). Do casamento de Joaquim (Carlos) com Maria (Judite) há um filho, Rui (no livro Paulo).

A partir destas semelhanças a viagem vai muito além da realidade, levantando importantes questões sobre a identidade de género que[,] primariamente notórias em Carlos, são também vividas por Paulo. Quando Carlos já a entregar-se à Soraia a sua relação com a mulher muda, o tratamento, o respeito, finalmente começa a sentir na pele os avessos da condição feminina, num permanente faz, desfaz.

"uma filha não há-de passar o que passei, as mulheres são capazes do que eu não sou capaz, acostumam-se ao passado, vivem nele, respiram-no, distinguem-no, distinguem pela orientação do vento as sepulturas que habitam, uma filha não haveria de sentir o que sinto, estas mão que me puxam, me arrepelam, me prendem, as mulheres bebem o sofrimento como as plantas ou as éguas ou a terra ou as árvores, as mulheres são éguas e mantêm com a morte um diálogo secreto, conhecem as trevas do seu corpo onde me desloco às cegas e a direcção da paz, uma filha poderia fazer o que eu não"

Como se isto não fosse complicado o bastante Paulo e outras personagens consomem heroína, proporcionando momentos realmente complexos e obscuros. A partir do momento que o núcleo familiar se desintegra, Paulo não fica com nenhum dos pais. Assim seguimos os três percursos e de todas as novas personagens que fazem parte das suas vidas. Todos têm algo a dizer, modificar, deturpar, as pontas são lançadas e ficam soltas.

Ao longo do livro dei especial atenção às personagens enquanto crianças, nenhum daqueles adultos pediu para nascer e por inconsequências nasceram, e sofreram, nasceram como nascem os coelhos, são coelhos. A infância não é feliz, há antes uma sede de um ideal da infância, o que qualquer criança deveria ter, e estas não tiveram. 

O final é aberto, o leitor escolhe. Este livro devolve uma admirável dignidade à condição feminina, o também ser-se Soraia. Como um produto de tudo que ardeu, podem dois seres distintos ter a mesma identidade? 


por Emanuel Moreira
30.05.2016

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