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Irmãos Lobo Antunes no Festival Internacional de Cultura em Cascais

Manos Lobo Antunes cruzam vidas no Festival de Cascais




O auditório da Casa das Histórias de Paula Rego ficou sem lugares para assistir à conversa sobre livros entre os dois irmãos. Que decorreu ora num tom de brincadeira entre irmãos adolescentes ora no de divergência de opiniões entre adultos. No primeiro caso, a deixa de João Lobo Antunes sobre o atraso de António Lobo Antunes: "A noiva chega sempre tarde". No segundo caso, a opinião sobre o pai. Nada que não provocasse gargalhadas na plateia, diga-se.

Esclareça-se que o encontro entre os manos fora anunciado mas até António chegar a Cascais a organização nunca pôde dar como certo a sua realização. A contagem decrescente terminou à hora marcada para o início e a partir daí tornou-se crescente, acompanhado de um abano dos leques [que] era cada vez mais frenético. Contaram-se os 15 minutos sobre o atraso dos manos. Contaram-se os 25 minutos. Quando ambos surgiram no topo das escadas, a plateia já estava aquecida para o grande momento. João desceu à frente, já de microfone colocado; António ficou lá por cima, olhando espantado para a sala repleta, antes de iniciar uma caminhada em que distribuía beijinhos para os rostos seus conhecidos. Ia começar o "improviso espontâneo" que, segundo João, fora acertado num minuto em conversa telefónica: "Decidimos começar pela infância." Logo aí se percebeu que o anunciado "diálogo entre escritores" se tornara uma conversa entre o irmão mais velho, António, e o irmão mais novo, João. O que se seguiu foi aquilo que no fim João Lobo Antunes, ao evocar Simenon, dizia sobre a mulher do inspector Maigret quando este ficava calado: "Era preciso mobilar o silêncio."

06.07.2015
texto (excerto) de João Céu e Silva
foto de Carlos Manuel Martins

*

Mais de 200 pessoas assistem a conversa "inédita" entre irmãos Lobo Antunes


O diálogo entre os dois irmãos, incluído no Festival Internacional de Cultura, que se realiza pela primeira vez, foi apontado como um dos grandes momentos de todo o evento, que arrancou na sexta-feira e decorre ao longo de dez dias.

Eram 22:00 de sábado, 30 minutos depois da hora prevista no programa, quando João Lobo Antunes lançou a conversa e desculpou-se pelo "atraso da noiva", referindo-se ao irmão António, arrancando logo uma gargalhada do público, que viria a repetir-se ao longo da noite.

A infância, o pai, a mãe, a medicina, a morte, mas sobretudo os livros foram os temas abordados, num regresso às memórias dos dois irmãos que, sem nunca se atropelarem, apoderaram-se equilibradamente da palavra.

Sob o olhar atento de quem assistia, muitas das pessoas em pé, não se ouviu burburinho e a atenção estava toda centrada em João e António que, unidos pelos livros, como os próprios disseram, foram contando episódios de família e da austeridade dos pais, que, desde sempre, impuseram o hábito pela leitura.

"A mãe fazia duas coisas: ou lia, ou cozinhava", contou João.

"Às vezes também dizia: cala o bico", acrescentou António, que reconheceu também "a dívida para com o pai que é o amor pelas coisas belas".

Numa família de médicos, João era "o filho bom" e António "a nódoa", segundo o escritor que confessou nunca ter tido vocação para a medicina e que, aos nove anos, comunicou à família que queria ser escritor.

Num momento de troca de elogios, João disse que António "era um grande criador da Língua Portuguesa", mas o escritor reconheceu que "escrever é um tremendo sofrimento e o sucesso, quando se tem, é uma coisa tão passageira".

A conversa desviou-se ainda para a morte, tendo por base os livros que chegaram a motivar a discórdia entre os irmãos.

"Há uma diferença grande entre nós na apreciação de alguns escritores", disse João, enquanto António insistia: "se é uma porcaria, digo que é uma porcaria".

Ao fim de mais de uma hora e dois cigarros fumados por António, João Lobo Antunes deu a conversa por terminada, arrancando uma ovação do público.

A escritora Lídia Jorge, curadora do Festival Internacional de Cultura (FIC), tinha apelidado este como "um dos grandes momentos" do evento e, segundo contou à Lusa, isso "cumpriu-se".

"Foi um encontro muito especial. Este diálogo entre eles foi um momento único, foi uma conversa inédita", disse Lídia Jorge.

A curadora considerou que a "casa cheia" de [sábado] é um bom augúrio para todo o festival e sublinhou que o sucesso do evento irá determinar a periodicidade das próximas edições, garantindo que o "FIC é para ficar".


06.07.2015
texto Lusa

*

Pode ouvir a conversa entre os irmãos no programa da A Ronda da Noite, de Luís Caetano na Antena 2. Eis os links da RTP Play:

1ª parte - http://www.rtp.pt/play/p1299/e201660/a-ronda-da-noite (aos 7 minutos)
2ª parte - http://www.rtp.pt/play/p1299/e201809/a-ronda-da-noite (aos 11 minutos)

Comentários

  1. esperando ansiosamente pelo video da conversa

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  2. Também eu. Tenho pena de não ter assistido mas não deu... ;(

    ResponderEliminar
  3. Eu assisti e adorei! O nosso grande ALA, num registo diferente, mais descontraído, em perfeita parceria com o irmão mais novo. Fantástico!

    ResponderEliminar
  4. Editamos o post em 16/07 com os links para ouvir a conversa, disponibilizada pelã Antena 2 no programa A Ronda da Noite, de Luís Caetano (emissões de 14 e 15/07).

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