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Mário Santos - crítica a Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura

A água nas trevas


António Lobo Antunes tem toda a razão ao chamar "poema" a este romance. "Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura" não só é um poema, um longo, longuíssimo poema, como é um poema para ser lido em voz alta. Obra de um virtuoso, e dos mais extraordinários.

O mais difícil é começar. "Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura"[...] , começa assim: "O meu pai nunca me deixou entrar aqui. Devia sentar-se na cadeira de baloiço e olhar do postigo o jardim lá em baixo, o portão, a rua, eu pequena a brincar às fadas com a minha irmã no rebordo do lago" (p. 15). O mais difícil é acabar. Mais de 500 páginas depois, o 14º romance de António Lobo Antunes acaba assim: "Ir-me embora é como tapar os espelhos todos sobre mim. [...] À falta de melhor toco-me com o dedo no vidro." (pp. 550/551). 

À sombra, ou à luz, destas duas citações podia instalar-se  talvez, sem dúvida, má iluminada, precária, sombriamente redutora  uma leitura deste livro. Falar-se-ia então de todas aquelas imagens que o percorrem, remetendo para o campo metafórico do olhar, dos espelhos, dos reflexos: "lagoa de sombras" (p. 293), "ovo de penumbra" (p. 327), "a luz acesa no espelho antes de se acender na parede" (p. 400), " a chaminé não completa, quebrada como um lápis na água" (p. 428), "quando os reflexos na janela eram mais nítidos que nós" (p. 515), "os três espelhos do toucador perguntando ao mesmo tempo, uma mãe de frente, duas mães de perfil e nenhuma / que estranho / parecida com as restantes" (p. 532), "cada vez que um peixe à superfície mil pedaços de jardineiro numa tremura de água" (p. 533). O espelho em que a narradora protagonista deste livro, Maria Clara, tenta rever-se estilhaçou-se (como terá acontecido com todos nós). O que sobra é um "puzzle" de reflexos para sempre fragmentários, um labirinto de vozes que se disputam, sobrepõem e se calam. Para sempre. Mas é preciso, e é quase sempre vital, não acreditar nisso. À tentativa apaixonantemente pueril de harmonizar esses ruídos nocturnos costuma chamar-se vida. Ou ficção. Por isso, Maria Clara convoca o bafo de outras vozes, que vem embaciar o que ela vai escrevendo (talvez com o dedo sujo de investigar a vertigem da vida) na "tremura de água" da memória. Nas migalhas do espelho.

O método, cremos que se diz polifónico (sendo que neste livro a tonalidade é dada pela voz de Maria Clara), não é novo em Lobo Antunes. Não é novo, pura e simplesmente. Outra coisa é reconhecer que Lobo Antunes o executa com raríssima afinação, donde a alegada vaidade do autor, não sendo pecado algum, é ainda inteiramente justificada.Mas tudo isto, que daqui já nos parece muito, não chega para explicar por que é que este livro  esta escrita  é viciante, perigosamente viciante, fazendo de António Lobo Antunes um virtuoso, e dos mais extraordinários. Busquemos então outro sentido, que não ecoando com a mesma variedade metafórica, não é menos estruturante (perdão?) e decisivo: a audição. 

No mar oceano de palavras que é qualquer livro de António Lobo Antunes (que é sempre, mais do que um rio ou um lago, um mar, uma praia, onde morrem e renascem sucessivas ondas de palavras faiscando minúsculos relâmpagos na areia das páginas), nós somos peixes cativos daquela encantatória "vozinha em anzol" (p. 314) que nos pesca a atenção como se pingasse, profana litania, "uma torneira nas trevas" (p. 307). E é por isso, sonoramente por isso, que tem toda a razão o autor, ao chamar "poema" a este romance. "Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura" não só é um poema, um longo, longuíssimo poema, como é um poema para ser lido em voz alta. Ou melhor: a várias vozes altas. É um livro para ler com os ouvidos (arte em desuso), com orelhas que olham, com "olhos de quem escuta" (p. 342). Mais do que invenção ao nível das figuras de linguagem, trata-se de uma forte e belíssima (ou seja: eficaz) estrutura poética. Coisa desusada, portanto.

Maria Clara, um nome que é claramente obscuramente simbólico, revê o passado no Estoril. E o passado, já se sabe, tem muitos nomes presentes. Nomes que recordam nomes, ou pensam recordar, ou pensamos que recordam. Por vezes com uma nostalgia pungente, "como se tivesse saudades de haver sido árvore" (p. 437), tudo "tão frágil, tão de ossos tenros sob a pele" (p. 543). "Escrever frases umas sobre as outras na esperança que ninguém compreendesse o que sinto" (p. 442), diz a voz obscura de Maria Clara. E isto não é só um resumo da poética de António Lobo Antunes, mestre (citemos o dicionário: "o artífice que era dado como apto em algum ofício e só depois o podia exercer publicamente") na arte de "calibrar palavras"  "horas e horas de trabalho a calibrar palavras" (p. 297). É o resumo de uma ética. Que por vezes incomoda "como um cisco na pálpebra" (p. 305). Para que serve um romance? Para que serve perguntar? Para que serve uma mãe que "apenas nos retratos nos pegava ao colo" (p. 181)? Um romance é o único sítio onde podemos avistar um "pássaro de rio saltitando em seixos de palavras sem se molhar nunca" (p. 534).

Frases que se esfumam numa vírgula, ou nem isso. Ecos sem saída. Vozes como nuvens "sem contornos, mudando de forma" (p. 365). Mudando de voz na mesma frase, na mesma voz. Ou nem isso. E nenhuma capaz de "distrair a dor" (p. 411), esse "vazio de bolor com que as casas [...] lentamente, morrem" (p. 364). E nós lá dentro. Dentro do livro. Personagens "doentes / de desilusão" (p. 313), habitando "um passado defunto onde um piano desafinava episódios e vozes" (p. 407). Que guardamos como aquela roupa antiga que deixou de servir e não deitamos fora. A memória nunca deixa de servir, nunca deixa de se servir de nós. E atordoa. E confunde. Como aquele "caramanchão impresso ao contrário no lago atordoava os peixes" (p. 147). E eis outra figuração do espelho.

Entre a dor e o nada, os personagens de António Lobo Antunes escolhem o ardor sem remédio da infância, desse tempo em que se adivinhavam as tardes "pela cor do limoeiro" (p. 440). Sim, "embalem-me mais depressa para o caso de eu chorar" (p. 369). A vida uma doença que se não pode prevenir. "Rage, rage against the dying of the light", diz um verso de Dylan Thomas, de quem procede o título deste livro. Agora que "o coração do linho" já não afasta "os animais de sombra" da infância, e disso fala o poema de Eugénio de Andrade no limiar do poema (em prosa?) de António Lobo Antunes. A infância, os nomes da infância dos nomes. Sim, somos todos desde sempre suficientemente idosos para morrer. Sim, como aquela a quem António Lobo Antunes dedica "Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura", também o leitor "há-de encontrar maneira de ler este livro". Que a leitura não é tarefa que se possa delegar sem prejuízo próprio e vaidade alheia. Como o não é a morte. Nem a vida. O mais difícil não é acabar.


por Mário Santos
04.11.2000

[nota: as citações do livro são da sua primeira edição em 2000, sendo que as páginas referidas não estão de acordo com a (1º) edição ne varietur]

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