Avançar para o conteúdo principal

Ecos de silêncio numa casa em chamas - artigo de Agripina Vieira no Jornal de Letras

Que melhor maneira poderia um escritor ter de comemorar a atribuição de um doutoramento honoris causa (mais um), neste caso pela Universidade Babes-Bolyai de Cluj, na Roménia, e o Grande Prémio de Excelência do Salão do Livro da Transilvânia, de que oferecer aos seus leitores mais um dos seus admiráveis textos? Foi exactamente isso que António Lobo Antunes fez, dando-nos a oportunidade de mergulhar novamente no mundo ficcional, intenso e envolvente, por ele criado.

Com Caminho como uma Casa em Chamas, [...] o autor propõe-nos uma visita guiada aos diferentes apartamentos de um prédio com quatro andares e um sótão, levando-nos a descobrir a existência dos vários inquilinos (dois em cada piso), que em discurso na primeira pessoa desvendam não só as suas angústias, medos e emoções, mas igualmente a percepção que têm da vida dos seus vizinhos. Desta visita fica arredado o ocupante do sótão que, apesar de diversas vezes referido (a vizinha do primeiro direito diz ouvir passos mesmo não acreditando numa presença, o militar do terceiro esquerdo percebe uma tosse e um cochicho, enquanto o irmão da criada da actriz do terceiro direito fala em “sonzinhos mínimos”), só se faz ouvir no derradeiro capítulo.

Desta breve apresentação ressalta desde logo a presença de ecos inter-textuais com a obra excepcional de Georges Perec, La vie mode d’emploi, com a qual Caminho como uma Casa em Chamas tece indeléveis ligações, ao nível da arquitetura da diegese e também da construção das personagens.

A partir desses espaços fechados (o prédio; os apartamentos) e pelo poder da memória, a efabulação alarga-se a tempos anteriores e a espaços outros, convocando acontecimentos, objectos e indivíduos que marcaram decisivamente as existências dos habitantes do prédio. A importância da memória para a economia da narrativa está espelhada em inúmeros trechos, como na seguinte constatação do judeu do rés-do-chão direito: “Que curioso o tempo, volta e meia marcha ao contrário recuperando cenas perdidas”.

São, pois, essas cenas perdidas, que se apresentam como fragmentos de uma vida passada, peças de puzzle de um mosaico que na narrativa vai tomando forma, que as personagens vão recordando. Embora estejamos em presença de histórias individuais, a efabulação ganha um sentido mais preciso através do diálogo que entre si entretecem, já que a narrativa da história individual se completa e consolida através do olhar e da percepção que os outros dela têm.

A construção da diegese alicerça-se, assim, numa alternância de vozes que, sucessivamente, vão relatando os acontecimentos à luz das suas vivências, dando corpo a uma narração fragmentada e polifónica. Neste jogo de vozes e de olhares sobre o mundo, somos guiados de apartamento em apartamento, o mesmo é dizer de vida em vida, por uma entidade que apenas surge mencionada pontualmente pelo viés da referência à sua actividade, a de estar a registar as falas das personagens ou de pedir para que façam o seu registo, patente como nos seguintes excertos: “ponham anuir que impressiona”; “não escrevo que uma gargalhada, escrevo que divertido”; “não arranjei  maneira de escrever isto bem mas espero que entendam”; “ia escrever violência e acertou em cheio”; “não me obriguem a escrever isso”.

Lobo Antunes recupera deste modo a composição discursiva já utilizada em O Manual dos Inquisidores, que decorre de um processo de questionamento ou inquirição, o qual dá azo a que as diferentes narrativas apareçam como testemunhos ou respostas a uma voz que não se faz ouvir, mas cuja existência está implícita nas respostas obtidas pelas outras personagens, que deste modo revivem um passado, que muitas vezes prefeririam esquecer ou calar.

Cada um dos moradores dos oito apartamentos, a que se associa uma panóplia de personagens ímpares que com eles (con)vivem ou (con)viveram, traz para o presente da narração recordações obsidiantes, nas quais reencontramos os grandes temas que marcam o universo ficcional do escritor; a guerra colonial, o processo de descolonização, o governo do Estado Novo, a desagregação da família, a solidão. A estes junta-se uma temática menos presente no universo romanesco antuneano: a II Guerra Mundial e o seu cortejo de horrores e perseguições, que surge associada à história dos ocupantes do rés-do-chão direito.

Apesar de terem tido percursos de vida assaz diferenciados, o homem doente do segundo direito, a juíza do segundo esquerdo, o ex-militar do terceiro esquerdo, o bêbedo do primeiro esquerdo, os dois irmãos judeus do rés-do-chão direito, o comunista forçado a colaborar com a polícia do rés-do-chão esquerdo, a funcionária das finanças do primeiro direito, a velha actriz do terceiro direito e até “o eco atenuado de uma autoridade extinta, no caixote do sótão” (no qual reconhecemos a representação da figura de Salazar) partilham uma semelhante angústia e uma igual dor, a solidão, que leva o bêbado a afirmar: “caminha-se como uma casa em chamas, caminhamos todos como casa em chamas e o telhado do cérebro a arder”. 

É porque “as vozes do silêncio [a] inquietam”, que a juíza se deixa explorar por um jovem funcionário do tribunal a troco de uma ilusão de sedução e carinho, depois de ter sido abandonada pelo marido e pelos filhos. Também o inquilino do rés-do-chão esquerdo, o comunista/colaborador, prefere “as censuras ao silêncio da ausência, ligo o aspirador, deixo-o trabalhar para me sentir acompanhado”. Se todos padecem de igual temor, é pela voz da velha e louca actriz que encontramos a mais pungente constatação do tormento que a solidão causa: “ - Só necessito de um bocadinho de companhia amigo / não palavras, não comida, não conforto, uma presença apenas, outros passos além dos seus no soalho e outra voz mesmo que eu não falasse consigo, um estar ali que parecendo que não tranquiliza”.

A clausura que determina e condiciona a existência destas personagens é tanto mais ampla quanto diferenciada, já que sendo antes de mais física (os moradores estão confinados ao espaço fechado do prédio) é também, e sobretudo, emocional. Cada um dos indivíduos que habita o prédio (“que prédio este caminhando como uma casa em chamas”) vive enclausurado na solidão, nos segredos e nas recordações que incessantemente presentificam um passado.

Particularmente expressiva é a “presença atenuada de uma autoridade extinta” que se adivinha no sótão do prédio. Apesar de encontrarmos referências subtis e dúbias a essa figura ao longo de toda a obra, a sua identidade apenas toma contornos mais definidos nos dois últimos capítulos do romance, revelando-nos um Salazar decrépito, pobre e só, que vive da benevolência da criada da actriz louca do terceiro direito que lhe leva todos os dias um prato de sopa. Na construção desta personagem perpassa uma trágica ironia, confinando a um espaço que é por excelência de clausura e de isolamento quem pautou as suas atitudes e decisões por ideários de conservadorismos e pequenez, condenando um país a um enclausuramento político, social e até cultural.

Com Caminho como uma Casa em Chamas, António Lobo Antunes propõe aos seus leitores mais uma viagem aos sótãos das (nossas) existências, oferecendo-nos um texto que se abre à complexidade identitária do indivíduo, numa efabulação que se constitui como uma interrogação da nossa vida, uma inquirição das nossas práticas enquanto indivíduos mas sobretudo enquanto sociedade.


por Agripina Vieira
15 a 28.10.2014

texto do artigo disponibilizado por cortesia do Jornal de Letras (na pessoa de Leonor Nunes) e de Agripina Vieira.

[revisão do texto por José Alaexandre Ramos]

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia
– Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar
mas muito pouco tempo antes de morrer veio ter comigo e passámos a tarde juntos, sentados lado a lado no sofá. Foi ele quem falou quase sempre, eu pouco abri a boca.
Mostrou-me os braços, o corpo
– Estou miserável
sabia que ia morrer dali a nada e comportou-se com a extraordinária coragem do costume. Coragem, dignidade e pudor. A certa altura
– Para onde queres ir quando morreres?
respondi
– Para os Jerónimos, naturalmente.
Ficou uns minutos calado e depois
– Tu acreditas na eternidade.
Disse-lhe
– Tu também.
Novo silêncio.
– Eu quero ser cremado e que ponham as cinzas na serra, voltado para a Praia das Maçãs.
Novo silêncio. A seguir
– Vou morrer primeiro que tu. Vou morrer agora.
Mais silêncio. Eu
– Ganhei-te outra vez.
ele
– É.
Ele
Ganhamos sempre os dois.
Eu
– Porque é que a gente gosta tanto um do outro?
Ele silêncio antes de
– Se me voltas a falar de amo…

«Até que as pedras se tornem mais leves que a água»

O meu trabalho é escrever até que as pedras se tornem mais leves que a água. Não são romances o que faço, não conto histórias, não pretendo entreter, nem ser divertido, nem ser interessante: só quero que as pedras se tornem mais leves que a água. Em pequeno, à noite, no verão, de luz apagada, ouvia o mar na cama: a mesma onda sempre, ainda hoje a mesma onda a trazer a praia e a levar a praia e, ao levar a praia, eu suspenso do nada sem tocar nos lençóis. A cómoda do quarto estalava de vez em quando, perto do vidro da janela um pinheiro sem fim. Durante o dia tornava-se outra árvore mas conhecia melhor a do escuro, que me interrogava, interrogava
– Tu
até a primeira nuvem cor de laranja do nascimento do dia lhe selar os lábios. Nenhum melro ainda, nem um passo lá fora, o mundo desabitado de gente, o primeiro cão daqui a nada, rente ao muro, a tossir, com um fio de saliva pendurado do queixo. Um desses pobres cães que comem restos de bichos mortos, coçam uma orelha com a pata, vão-se em…

Bia Couto sobre Da Natureza Dos Deuses

Da natureza humana e das suas misérias. Uma leitura das nossas vidas tão desencantada e triste que impressiona.
A vida dos ricos e a vida dos pobres. Em comum, as mesmas angústias e a falta de alegria. Tudo cru, com as cores que se vêem nos talhos. Ninguém é feliz.
No mundo dos ricos, que tudo podem comprar, incluindo homens e mulheres que os servem submissos ou com a astúcia de lhes sacar o máximo possível, falta-lhes ter paz. Não têm. Tentam ajustar contas com o passado mas nunca as acertam porque não dominam a ganância que sentem nem as memórias que lhes criaram essa dureza implacável.
Nos pobres, a mesma miséria. As mulheres novas, ambiciosas, a desperdiçarem a exuberância e a energia dos vinte anos com velhos com dinheiro, a troco de uns fios, sapatos, brincos, vestidos, jantares e carros que lhes podem ser retirados em qualquer altura, porque eles fazem questão de lhes mostrar quem é que manda. Tudo se passa com a bênção dos pais e restante família, aproveitando também eles alg…