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Isabel Lucas: crítica a Caminho Como Uma Casa Em Chamas

Contra mim eu escrevo

Quatro andares, oito inquilinos mais um, num romance com os elementos de Lobo Antunes: o tempo, a velhice, a morte, um país às voltas com a sua identidade e o delírio de existir

António Lobo Antunes (Lisboa, 1942) contou numa crónica como lhe surgiu este romance: a desenhar uma casa na página que tinha em frente, incapaz de escrever uma frase. A casa ganhou pisos, que o escritor dividiu em esquerdo e direito, e tornou-se um prédio, um “edifício a um canto da cidade, longe do rio, com um salão de cabeleireiro à esquerda”. Depois foi arranjar inquilinos para esse prédio, dar-lhes um quotidiano e uma relação de vizinhança, paredes que deixam passar falas e com elas a hipótese, quase sempre fracassada, de adivinhar cada existência interpretando sinais. É uma tarefa semelhante à do leitor do romance, alguém que neste caso tem mais acesso a cada habitante do que a um seu vizinho, mas que nunca está na posse de todos os elementos para resolver o enigma de cada vida, apesar de ela lhe ir sendo narrada na primeira pessoa.

O “eu” de Lobo Antunes constrói-se do mesmo elemento de que é feita a memória, pouco cronológica, por vezes de uma precisão avassaladora, outras difusa, alterada por estados de alma, dispersa, múltipla. Entre o delírio e a visitação de outras vozes, todas as que compõem cada vida, num puzzle que cabe ao leitor ir montando com a sensação de que está a partilhar o ritmo e o fôlego do escritor, a seguir as pistas que este lhe vai dando, com a certeza (intuída) de que no fim vão faltar peças e o enigma há-de persistir.

Apesar de se tratar de um romance polifónico — uma característica dos livros de António Lobo Antunes (e mesmo das crónicas) —, da leitura subsiste a sensação de que podia ser apenas a uma voz, a história de gente que vive num prédio com quatro andares mais sótão numa rua de Lisboa contada por um habitante imaginário que tem acesso a quase tudo. Cada capítulo, um andar, direito e esquerdo, com quem o habita. O viúvo de uma mulher que nunca o amou e a quem o filho mais velho pede dinheiro; uma juíza solitária angustiada com o envelhecimento e as memórias; dois irmãos judeus fugidos do Holocausto; uma velha actriz ex-amante de Salazar; um bêbado sempre a gritar pela filha; o ex-combatente em Angola, racista, às voltas com o amor de uma mulata que lá deixou e com uma guerra que não o deixa; a gorda do primeiro direito que demorou anos a perceber que existiam “arrepios sem gripe”; o velho à espera de morrer, como afinal todos os outros.

Essa é a única certeza da existência humana, parece querer escrever o escritor, que tem sempre muito próxima (pelo lado essencial) a sabedoria popular como guia, do que resulta uma paródia de sentidos, uma lengalenga, uma cantilena tantas vezes alucinante. “Rei capitão soldado ladrão”, entoa uma personagem que diz ter “miolos de ferro velho”. Não se cala: “Dança o cão dança o gato dança o feijão carrapato.” O escritor pega em cada frase como numa ideia e desconstrói-a, seja mudando-lhe a perspectiva, alterando-lhe o contexto, ou repetindo-a até se tornar numa quase abstracção: o que é estar aqui e envelhecer até a morte chegar? No fundo tudo se resume a isto. Neste e em cada um dos 25 romances de António Lobo Antunes. Uma interrogação-síntese onde cabem um país e os seus fantasmas, uma memória recente doída, cada vez mais sentida do que a dor que a foi alimentando.

Mas nada é só passado. As percepções são presentes, só que quem é que as agarra? Caminhar como uma casa em chamas é andar nesse desequilíbrio existencial. Seja um indivíduo, um prédio ou um país. “Caminho como uma casa em chamas, reparem nas minhas empenas, nos meus algerozes e nas minhas paredes a arderem, somos todos irmãos”: é a voz da juíza com medo do fim aos 59 anos, a ouvir o bêbado gritar “Alexandra”, o nome da filha, “dobrando o cinto no pulso”, com medo de acordar sem companhia e também a caminhar como uma casa em chamas. Como todos. A frase repete-se como o coro numa tragédia. Um baralhar de sentidos sem sair do mesmo em que o escritor se tornou exímio — e a pergunta que se faz é: até que ponto, sem cansar, sem soar a já visto? No dosear está muita da sua arte de manipular emoções. Não revela cartas, mas sempre que elas vão a jogo são reconhecíveis como suas. Sempre a loucura de estar aqui num sem-sentido. Quem não se reconhece? É vertiginoso.

Já se percebeu que estamos perante todos os ingredientes de Lobo Antunes nesse tratar o delírio existencial que, mais uma vez, nos coloca perante a sua capacidade de trabalhar a língua, captando-lhe tiques, socorrendo-se de cada um dos seus utensílios, da fala de rua ou da erudição, para criar um universo onde a ironia entra em doses curtas mas letais e a angústia do fim surge no seu peso eterno. Onde vive isso neste prédio? Em cada um dos que o habitam, mas sobretudo no sótão, onde mora a “presença atenuada de uma autoridade extinta”, um Salazar tornado divindade, porque “infinito”, que décadas depois continua a achar que comanda o país.

E o país ainda a tentar perceber o que é depois dele, com ele “no sótão” — pese todo o facilitismo da expressão. Fascistas, comunistas e outra geração, a que nasceu depois da memória do fascismo, sem identidade. “O que é ser eu?”, interroga-se a sobrinha da actriz do terceiro direito, e a pergunta é um espelho para quem a lê. Para os vizinhos, ela é “a criada da maluca”, sem saberem que ela é também a que leva a “sopinha” ao sótão.

Ao [25].º romance, António Lobo Antunes toma um tema batido na literatura — um prédio e os seus habitantes — para mostrar o que se pode fazer com ele. E é muito bom. Mas António Lobo Antunes tem-se a si mesmo como termo de comparação. Caminho Como uma Casa em Chamas é um excelentíssimo livro, mas a memória traz outros onde foi capaz do tal arrebatamento, da surpresa maior. Estarão os grandes escritores sempre a escrever contra si mesmos?


por Isabel Lucas
31.10.2014

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