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Rafael do Carmo Ferreira: resenha de Os Cus de Judas

Há muito tinha vontade de ler algo do português António Lobo Antunes. A primeira pessoa que comentara sobre ele foi o meu grande amigo (e leitor) Miguel, a quem sempre me refiro como o meu irmão lisboeta. A despeito do título que pode assustar os mais pudicos, os Cus do Judas, segundo romance do autor, é uma narrativa extremamente forte e elegante sobre as memórias de um veterano da Guerra do Ultramar (Lobo Antunes é médico e serviu como tenente médico nos três últimos anos da Guerra em Angola).

O romance é todo construído sobre o fluxo de consciência do narrador, que “fala” como se estivesse conversando com uma mulher que acabara de conhecer em um bar. Essa conversa leva o narrador a passear pela sua infância, numa Lisboa oprimida e opressora, pelas memórias da guerra de Angola e pela sensação de profundo abandono e inadequação do veterano que não conseguiu efetivamente voltar à vida civil.

Se fosse apenas pelo ponto de vista puramente formal, o livro já seria uma excelente escolha de leitura. A forma como o autor constrói a sua narrativa e consegue criar no leitor a sensação constante de uma conversa, de uma “troca”, como se o livro fosse uma confidência de um bêbado triste e ligeiramente patético é algo extremamente interessante. Esse mesmo fluxo de consciência vai se tornando cada vez mais fluído e frenético com o avançar do livro, como o efeito do álcool afetando o narrador. Me lembrou um pouco o retrato que Goethe faz do desespero crescente do jovem Werther que li há tanto tempo. As soluções de Lobo Antunes para o avançar das horas e do embriagar-se do narrador foram excelentes.

Dito isso, o melhor do romance é mesmo o seu conteúdo... É muito impressionante o retrato que o autor constrói dos veteranos da guerra. O trauma constante da brutalidade e da estupidez do conflito, a memória que sempre volta aos horrores experimentados... Sou neto de um veterano da Segunda Guerra e a caracterização acaba me dizendo muito. Lendo o livro me lembrava do meu avô, no fim da vida, tendo pesadelos com navios afundando e crianças mortas em bombardeios a hospitais, revivendo os horrores pelos quais passara há mais de meio século. Mais ainda, é muito bem caracterizada a perene sensação dos veteranos de não pertencer a nenhum lugar, como num limbo eterno entre a paz e a guerra, desajustados de um mundo que não os entende e, em alguma medida, os repele por conta da memória de tristeza que eles trazem junto de si.

Também é excepcional a caracterização da mentalidade portuguesa. A sua constante melancolia, sua terrível seriedade, o orgulhoso isolamento do resto do mundo que foram a tônica do país na maior parte do século XX. Lobo Antunes descreve o Portugal da infância e da juventude do narrador como um país espremido entre a opressão do corpo e a opressão da alma, entre a mão de ferro do catolicismo ibérico, cheio de culpas e a mão de ferro do Estado Novo e a sua polícia política. É o Portugal em que “a família, a escola, a catequese e o Estado me haviam solenemente impingido para melhor me domarem, para extinguirem os meus desejos de revolta”. O autor fala também do Portugal do pós 25 de Abril, para onde o narrador, sem qualquer outra opção, volta “grave, sábio, social-democrata, sardónio, transportando na mala dos livros a esperteza fácil da última verdade de papel”. Esse país que sofre de uma crise de identidade, entre a velhíssima Europa e um novo mundo, entre a ditadura e a democracia é um espelho das perplexidades do narrador.

Muito interessante, ademais, ver a descrição do fim de um império colonial que é tão próximo e, ao mesmo tempo, tão estrangeiro a nós brasileiros. Ver a África pelo olhar português, a sua elite colonial que despreza os soldados metropolitanos que lá estão morrendo para manter seus privilégios (“o branco do Clube Ferroviário que recusava desdenhosamente a conversar com a tropa”), os africanos que sabiam que “não era a eles que tratava, mas à mão-de-obra barata dos fazendeiros, dezassete escudos por um dia de trabalho”, a tensão constante de um Império que se esfacela de dentro, podre no seu anacronismo. Esse olhar sobre a África acaba tendo um interesse maior para nós brasileiros, que, vez ou outra, pescamos nas descrições referências que nos levam diretamente à influência dos africanos na cultura brasileira.

Ler Lobo Antunes me transmitiu a clara sensação de que o mundo lusófono ainda precisa passar por um longo processo de reconciliação. Reconciliação entre metrópole e colônias por conta do passado colonial em África, (e, por que não, pelo passado colonial na América). Reconciliação na sociedade portuguesa entre os que defenderam e os que se opuseram ao regime salazarista.


por Rafael do Carmo Ferreira
06.10.2012

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