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«Não desistas tão depressa desse livro», por Emanuel Amorim em Orgia Literária

livro ou crónica da visão?
também aconselhamos Emanuel Amorirm
para que não desista tão depressa...
Não desistas tão depressa desse livro

A primeira vez que li António Lobo Antunes foi no meu décimo ano. Uma professora levou uma crónica e leu para nós. Era uma professora preguiçosa, que encontrava todas as desculpas para não nos dar aula (até porque mal dominava a matéria). Maravilhas do ensino profissional.

Desde logo fiquei fascinado pelas palavras de Lobo Antunes. Hoje já não recordo de que falava a dita crónica, mas recordo-me que no dia seguinte comprei A Morte de Carlos Gardel. Comprei este livro por cinco euros, numa papelaria que apenas tinha dois ou três livros, restos de colecções de jornais, e onde eu comprava todas as semanas o Blitz e DN (saudades DNA).

Não sei o que me cativou em António Lobo Antunes, mas a paixão não encontrou eco na minha primeira tentativa de ler A Morte de Carlos Gardel. Voltei a tentar uns meses mais tarde, mas voltei a não conseguir passar da primeira dezena de páginas - foram as minhas primeiras tentativas frustradas de ler os seus romances.

Desisti do romance, mas continuei, sempre que possível, atento às suas crónicas, que raramente me desiludem. É aí que encontro o meu Lobo Antunes de estimação. Conciso, incisivo, capaz de iluminar um qualquer pormenor de pequenas vidas moldadas pela tristeza, solidão e abandono. Não as leio todas as semanas, mas, quando a elas regresso, sinto que faço mal, que devia comprar a Visão sempre que lá escreve Lobo Antunes.

Essa minha admiração levou-me também às entrevistas que sempre foram interessantes, em especial algumas que deu nos anos noventa e que estavam recolhidas num site dedicado ao escritor. Esse site, uma verdadeira mina de entrevistas, críticas e fotos, desapareceu do meu radar. Penso que morreu, provando que nem tudo é imortal no reino digital. Triste. [*]

Nas entrevistas interessava-me o homem, claro, cheio de contradições, fantasmas, medos e frustrações. Conversas com António Lobo Antunes, de María Luisa Blanco, é um livro interessante, que nos mostra o homem e as motivações da sua obra. Para além de Lobo Antunes, são entrevistadas pessoas próximas. Dessas pessoas, recordo-me da interessante entrevista ao pai do autor, a única, creio, que acedeu dar. É uma obra obrigatória para quem devora os seus romances e as suas crónicas, mas também para quem nunca leu uma linha de Lobo Antunes.

Naturalmente, voltei a tentar os romances. Depois A Morte de Carlos Gardel: Memória de Elefante, Eu Hei-de Amar uma Pedra, As Naus e O Manual dos Inquisidores. Em todos a frustração falou mais alto – abandonei-os antes de terminar a sua leitura, nunca conseguido passar das primeiras dezenas de páginas.

Acima de tudo, o que me desmotiva é a repetição exaustiva de um estilo que me agrada em crónica, mas que me cansa em logo trechos. António Lobo Antunes escreve muito bem, mas está refém desse estilo que não é estático e que evoluiu ao logo dos anos - há enormes diferenças entre Memória de Elefante e Manual dos Inquisidores. Quer fugir à narrativa tradicional, mas acaba por construir autênticas paredes de betão cheias de frases pomposas, observações pormenorizadas de pequenos aspectos do dia-a-dia, uma obsessão barroca pelo detalhe e uma excessiva adjectivação de tudo o que se cruze com o olhar das personagens.

Apesar dessa continua frustração, decidi voltei a dar-lhe mais uma oportunidade. Desta feita será Explicação dos Pássaros, romance que comprei na Feira de Algés. As primeiras vinte páginas foram lidas com deleite, mas logo o cansaço voltou. Escrevo esta crónica para me obrigar a não desistir já dele. Quero aguentar estoicamente, quero ser capaz de terminar um romance de António Lobo Antunes. Há tanta coisa na sua prosa que me agrada, nomeadamente a forma como descreve o país do final dos anos 70 (mas também o período do Estado Novo), sempre atento ao grotesco, como se Portugal fosse uma enorme e viva caricatura. Mas exagera, repete, detalha cada coisa, cada objecto, cada pessoa, cada rua. É cansativo, ainda que, no meio de inúmeras frases desnecessárias e acessórias, haja uma que me acerta em cheio, que me põe a pensar, que me transporta para aquele período e que faz querer ler mais, que me diz que não será em vão o tempo que a ele dedicar.

No fundo, os romances de António Lobo Antunes são imensas lixeiras onde reluzem alguns objectos brilhantes. Espero ser capaz de continuar a procurá-los e, quem sabe?, voltar a escrever sobre Explicação dos Pássaros, desta feita para falar muito bem, dizer-vos que vale a pena, que sobrevivi e estou cá para vos contar que António Lobo Antunes é tão bom romancista quanto cronista. Por enquanto estou longe disso e sinto uma enorme tentação de abandonar a sua leitura.


por Emanuel Amorim
05.03.2013

ilustração de José Alexandre Ramos
sublinhados nossos

[*] Continuamos cá, Emanuel Amorim!

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