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Caroline V. Becker: «A personagem na crónica»



As crónicas de António Lobo Antunes são híbridas: por vezes, aproximam-se da construção de um espaço biográfico, por meio do qual autor-cronista anuncia pensamentos, discorre sobre diferentes assuntos e, até mesmo, narra sua vida do passado e do presente; em outros casos (…), a crónica aproxima-se (e apropria-se) da narratividade e da ficcionalidade, por meio dos mundos possíveis ficcionais e, principalmente, por meio da figuração de personagens.

Como identificar qual dessas realizações está diante de nossos olhos? Simplesmente por meio da leitura. O primeiro pacto estabelecido refere-se à voz – que voz é essa presente na crónica? Trata-se da voz de António Lobo Antunes (ainda que como uma persona) ou trata-se da voz de uma personagem, um signo – para lembramos as palavras de Cristina da Costa Vieira –, inserido em um contexto específico, em uma diegese? Nesse pacto, desvendado apenas após a leitura da crónica na íntegra, verificamos se na materialidade textual há uma personagem ou há uma figuração do autor empírico António Lobo Antunes.
Quero ressaltar a deriva ficcional de tais personagens, construídas em um mundo possível; um recurso distinto daquele utilizado, por exemplo, por João do Rio, um dos cronistas brasileiros mais consagrados. Segundo Jorge de Sá, o cronista criou personagens que eram ficcionalizações de pessoas do mundo cultural carioca: “Com isso ele [João do Rio] também prenunciou que a crónica e o conto acabariam em fronteiras muito próximas. Sua linha divisória – às vezes muito ténue – é a densidade. Enquanto o contista mergulha de ponta-cabeça na construção do personagem, do tempo, do espaço e da atmosfera que darão força ao fato “exemplar”, o cronista age de maneira mais solta, dando a impressão de que pretende apenas ficar na superfície de seus próprios comentários, sem ter sequer a preocupação de colocar-se na pele de um narrador, que é, principalmente, personagem ficcional (como acontece nos contos, novelas e romances). Assim, quem narra uma crónica é o seu autor mesmo, e tudo o que ele diz parece ter acontecido de fato, como se nós, leitores, estivéssemos diante de uma reportagem” (A crónica. São Paulo: Ática, 2008, p. 9, grifo meu).

As crónicas antunianas não seguem o perfil descrito acima. António Lobo Antunes cria narradores, quase sempre personagens, o que exige uma análise mais densa das vozes enunciativas. No corpus em análise, a impressão “tudo parece ter acontecido” existe, mas refere-se às crónicas analisadas no capítulo anterior. Quando há figuração de personagem, há, também, construção de narrador e de ficcionalidade.

Caroline V. Becker, António Lobo Antunes. Entre escritas de si e figurações de personagem. Porto Alegre: PUCRS, 2012, pp. 85-86 [Dissertação de mestrado]

citado do blog 

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