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Luís Osório: «Tudo arde desde o princípio» (opinião no Jornal SOL14.02.2011)

caricatura por Luis Levy Lima
Apaixona-se pelas suas personagens, desespera com o seu sofrimento, exalta-se com as suas conquistas.
É uma memória difícil.

Foram poucas as conversas, pelo menos não as suficientes para agora me custar a elas regressar. É curioso: ele dizia-me que há pessoas que nos tocam com um dedo e fica uma nódoa negra que não passa. E o António deixou-me uma nódoa negra que desvalorizei com zelo e constância.

De vez em quando falo sobre o assunto com Daniel Sampaio, seu amigo íntimo. Ainda na passada semana contava-me da sua felicidade ao ser reconhecido em Paris, mais uma vez, como um dos melhores escritores da história da literatura.

António Lobo Antunes. O que direi das suas palavras, ou do seu efeito em mim, é de pura memória. Tenho poucas certezas sobre a sua verdade, mas absoluta convicção de que se tornaram o espelho de si quando dele me recordo.

Tivemos um pequeno desentendimento e nunca nos encontrámos para o esclarecer. Isso tem hoje pouca importância. Acontece-nos muitas vezes, não é? Passamos pela vida, abrem-se e fecham-se portas, e vamos calando o que devíamos gritar e gritando o que calado deveria estar.

Ele não gosta de falar da guerra. Mas, do que me contou, recordo a lembrança de Ernesto Melo Antunes. As noitadas que passavam a discutir poesia ou em silêncio após os bombardeamentos. Os jogos de xadrez. E uma ou outra vez, no rescaldo dos confrontos, António via-o a passar nas trincheiras com uma lanterna na mão e a servir de alvo. Perguntou-lhe por que o fazia – e Melo Antunes ofereceu-lhe uma resposta que o marcou profundamente: «Sabes, António, é que às vezes me apetece tanto morrer».

As suas personagens estão vivas. Mesmo as dos livros mais antigos falam com ele quando tem o aparelho dos ouvidos desligado. Então, na escrita de um novo livro, o exercício transforma-se na própria vida. Apaixona-se por personagens, desespera com o seu sofrimento, exalta-se com as suas conquistas, torna-as vivas em si. Elas crescem e tornam-se a sua companhia, a sua obsessão.

Quando escreve desliga o aparelho e abandona-se a elas. E elas parecem gostar da exclusividade e detestam partilhar atenções. Há momentos em que desliga o aparelho mesmo quando sai do escritório onde escreve. E nos jantares incómodos utiliza o seu truque preferido: é um verdadeiro especialista naquilo que baptizou ser a técnica do ‘sorriso ausente’. Posso comprovar o quanto resulta… As pessoas a dizerem--lhe coisas – «Dr. António, como está hoje?, gosto muito de si, os seus livros isto e aquilo, vi-o na revista ou na televisão» – e ele a sorrir e a não fazer a mais pequena ideia do que lhe dizem.

Também por isso o intervalo dos livros costuma ser penoso. Não sabia o que fazer com o aparelho a funcionar, perdia-se nas ruas à procura de um sinal para um novo livro ou para, de uma vez por todas, deixar de escrever e poder ser como os outros.

É esse o seu grande paradoxo: deseja matar as personagens e libertar-se das páginas dos livros onde muitas vezes se sente aprisionado, mas não consegue viver fora deles. O que fazer? «Por vezes sinto-me a rapar o tacho, percebes? Os escritores apodrecem com o tempo e o melhor é parar porque o mais certo é destruírem tudo o que conquistaram antes. Mas como fazer isso? Sinto-me culpado e infiel quando não escrevo».

Compreendia-o. Como não? Um dia, um doente no Miguel Bombarda quis contar-lhe um segredo. E só o fez quando percebeu que estavam sós e não havia perigo. Com enorme solenidade, confessou-lhe que o mundo fora feito por trás, pediu-lhe para pensar no assunto, mas que não contasse o segredo a ninguém.

António não lhe ligou nenhuma. Só que o segredo ficou – e passou a ser uma tábua de sabedoria. A partir daquele momento percebeu que a sua escrita tinha de levar uma volta. Começou a escrever por trás para deixarem de estar visíveis os pregos e as costuras: a sua tentação de mostrar tudo pela frente, a tentação de mostrar o quanto era talentoso e genial passou a ser vista como uma ridicularia.

Falámos de loucura, claro. Que para ele se resume às nossas características, amplificadas por defeito ou por excesso. Mais uma vez as conversas comuns com o Daniel que nunca utiliza o termo ‘normalidade’ para definir o que quer que seja. Há remédios para rir e chorar, há médicos que colocam limites mais largos ou estreitos para definir a loucura, há médicos que se tornam psiquiatras para perceber as suas próprias fronteiras e fantasmas.

Há tudo e não há nada. António sabe--o e pressente-o nas entrelinhas.

Recordo o que dizia das suas filhas e da morte.

Das três filhas, confessou-me que desejava deixar-lhes um vinco na alma. Não uma nódoa negra. Isso aparece na pele mas não tem grandes consequências, por serem centenas e indiscriminadas. Um vinco na alma é diferente – é uma ligação inexplicável, é amor verdadeiro e mais forte do que os livros e a própria vida.

Da morte, houve várias que o transformaram (que nos transformaram) numa espécie de cemitério privativo aberto 24 horas por dia. Recordo-me de me ter falado da Margarida, a mãe da sua mãe, e do quanto se arrependeu de a ter visto morta no caixão. Arrependeu-se muito porque agora, quando fecha os olhos, é morta que a vê; e há dias em que lhe é impossível recordá-la viva. «Deitados e mortos parece que nada nos assenta bem, não achas?».

Acho que não, António. Nada nos assenta bem. Na escrita é, apesar de tudo, mais fácil. Tudo depende da habilidade com que falamos aos que fazemos nascer. Alexandre Herculano dizia de Almeida Garrett que este era capaz de todas as porcarias menos de uma frase mal escrita.

Lobo Antunes citava esta frase ao falar do amigo Reinaldo Arenas – grande escritor cubano que se suicidou depois de escrever o premiado Antes que Anoiteça. Falaram ao telefone nos dias que antecederam a sua partida – e Reinaldo, angustiado, contou-lhe o que ia fazer.

António não lhe ligou nenhuma. Julgou que Arenas estava numa fase de ‘fúria dramática’, uma fase que encontrava a muitos no hospital, na vida e nos romances. Mas enganou-se: Arenas, em Nova Iorque, partiu como prometera. António ficou sem palavras – sem palavras e sem uma palavra.

O que farei quando tudo arde? Pergunta que, estou certo, nunca terá feito. António Lobo Antunes sabe que tudo arde desde o princípio.


por Luís Osório
fonte: Jornal Sol
14.02.2011
[a caricatura de Luis Levy Lima não acompanha o texto na fonte citada]

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