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Do blog Pedrices: a opinião de um quase leitor

Eu, sinceramente, não sei bem o que pensar de António Lobo Antunes (ALA). Ou melhor, sei o que penso mas não sei como expressá-lo em palavras. Talvez aqui encontre, precisamente, uma das coisas importantes que posso dizer sobre ele – é que ele, se fosse eu, conseguiria dizê-lo. Serve isto para dizer que ALA consegue pôr em palavras aquilo que apenas sentimos em pensamentos. Ele consegue escrever como se pensa. Assim como David Lynch consegue filmar como se sonha (para dar um exemplo “gráfico” mas que, ainda assim, fica aquém do que pretendo exprimir).

Já li umas boas páginas de livros de ALA. Li inúmeras crónicas, um dos prazeres da Visão. Quanto a essas, as crónicas, são pedaços de puro prazer, sem grandes complicações, sem que eu fique perplexo. Dir-se-ia até que elas servem de exercício para se ler os seus romances, como conjugar verbos serve de exercício para se aprender uma língua.

Por outro lado, acompanho as suas “intervenções” públicas, na forma de entrevistas que vai dando. Onde, se parece que está sempre a dizer o mesmo, também se encontra uma profundidade de pensamento, uma capacidade de rasgar o superficial e entrar no âmago das coisas, que são invulgares e parecem do domínio do génio.

Quanto aos livros, li muito cedo o Auto dos Danados. Diria mesmo que demasiado cedo. Não me lembro de nada de substancial, já. As minhas recordações são uma impressão de um livro que me impressionou, que tinha uma história de pessoas cheias de dramas e de interesse. Lembro-me da ideia de estar perante um escritor poderoso mas, também de uma obra difícil de ler e, de certa forma, extenuante.

Depois, envolvi-me com A Morte de Carlos Gardel. Não fui longe. Tentei novamente uns anos mais tarde e voltei a não passar de um início demasiado intrincado para o conseguir acompanhar. Lá está, na estante, troçando de mim, achando-se melhor do que eu, até ao dia…

O Manual dos Inquisidores foi a tentativa seguinte, ou o fracasso seguinte. Não fiquei pelo princípio, mas também não fui longe.

Desisti durante muito tempo.

Voltei a ALA com Que Farei Quando Tudo Arde. Fui, solenemente, comprá-lo. Fiz questão de gastar dinheiro nele para me sentir obrigado. Fez companhia ao Carlos Gardel e aos Inquisidores durante meses, até que o desafiei. Mergulhei nele, passei de metade e… não consegui mais. Estava demasiado perdido para continuar.

Mas o estranho em tudo isto é que em todas estas páginas e frustrações nunca consegui sentir um momento de desagrado. Ou seja, há uma certa raiva por não perceber, por não conseguir acompanhar. Porém, a experiência de ler ALA é de tal forma intensa que se consegue tirar dali, mesmo quando não se acompanha, a sensação de que se está a explorar um qualquer canto de uma construção genial. Muitas vezes parava de ler para acalmar a respiração que se acelerara com uma ou outra frase.

A propósito do Arquipélago da Insónia, e porque havia uns cartazes no metro, só com frases tiradas desse livro, pensei que a obra de ALA talvez devesse ser vista assim, como num museu, punham-se os cartazes só com as frases e as pessoas poderiam ir passando, lendo-as e maravilhando-se. Não é muito diferente do que acontece num museu com quadros. E, a mim, parece-me que valeria muito mais do que muitos quadros.

Veja-se isto:

«(...) a pensar na quantidade de defuntos que são necessários para compor uma vida (...)»

A quantidade e força de ideias expressas numa frase como esta não é do domínio da normalidade, está acima, muito acima, do que é normal encontrar na escrita.

Mas indo para uma frase mais simples, aparentemente, até corriqueira, a do início do Arquipélago:

«De onde me virá a impressão que, na casa, apesar de igual, quase tudo lhe falta?»

O que é que se pode esperar de uma frase assim? É quase arrepiante pensar no seguimento, nas histórias ou, no caso de ALA, recortes, que poderão nascer disto. Pode vir daí uma tragédia, a solidão, o imobilismo, a inveja, o engano, a frustração, a perplexidade, tanto mais. Isto é fazer, com apenas uma frase, literatura do mais alto nível. Parece que ALA persegue a ideia de colocar entre as capas de um livro a vida toda. Eu diria que ele já consegue, numa frase, colocar lá grande parte daquilo que interessa, com uma incomparável multiplicidade.

Mas tudo isto vem a propósito da minha última incursão no mundo de ALA, o Tratado das Paixões da Alma. Pois é, voltei a tentar. Desta vez, andei por aí a pesquisar, encontrei um texto que me deixou curioso, aconselhava começar por aqui, assim o estou a fazer. O livro está dividido em 6 partes, vou tentar lê-lo assim, uma parte de cada vez. Hoje, foi a primeira. Como sempre, estou dividido entre o deleite da escrita e a perplexidade da acção. Falta-me compreender muita coisa e já não tenho esperança de vir a perceber melhor com o avançar do livro (isso já aprendi com os outros). Só que o que li até agora é tão bom que já me fez rir, já me emocionou e já me tocou de tantas formas que acredito: desta vez vou chegar ao fim.

E pronto, já está! Muitos anos depois, não sei mesmo quantos, voltei a conseguir ler um livro de António Lobo Antunes até ao fim. Para quem eventualmente siga este blog, deverá já ter pensado que eu tinha desistido, depois do post que aqui deixei sobre o autor. Não desisti e consegui. 

Fica o registo, porque sobre o livro não há muito a dizer. Creio que escrevi tudo o que havia para eu dizer sobre ele no tal post anterior. Um pensamento que me ocorreu entretanto: daqui a muitos anos, se alguém quiser ler um autor genial, António Lobo Antunes poderá ser uma referência, uma escrita única, que leva um género, o seu, até às últimas consequências (e não tanto neste mas mais nos últimos, como ele diz, desde O Esplendor de Portugal). No entanto, se alguém perguntar, que livro dele devo eu ler? A resposta poderá ser: não interessa, qualquer um, e isto diz muito sobre um autor, especialmente um que tanto fala do medo de se tornar repetitivo. Não sei se se repete ou não, mas sei que a insistência no virtuosismo literário, em detrimento da substância daquilo que é dito, poderá levar a algo parecido com a repetição, o cansaço... do leitor.

Curiosamente, numa entrevista recente, a autor declarou que os livros mais antigos, por ele, podiam ir todos para o lixo. Ainda bem que, muitas vezes, os livros conseguem fugir dos seus escritores. Mas, neste caso, talvez então António Lobo Antunes devesse escolher apenas um, para ficar publicado, é que parece que neste, ou noutro qualquer, já está quase tudo o que o escritor tem para mostrar.


Novembro e Dezembro 2008

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