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Artur Guilherme Carvalho: opinião sobre Não É Meia Noite Quem Quer

Os livros do Mestre são bilhetes deixados na beira de um penhasco que nos convidam a saltar, não têm meio-termo. Ou vamos ou ficamos do lado de cá a ver o que poderia ter sido uma boa leitura. A opção do salto é uma vertigem, um bailado entre o medo e a ansiedade, uma entrada a pique num universo que nos é proposto, sem rede nem protecções. Sabemos como entramos naquele mar que nos convida com a certeza de que nunca sairemos dali da mesma maneira. Uma parte de nós fica para trás enquanto um outro tanto acaba por ser adquirido na viagem. Os livros do Mestre não são para ler, com a pontuação arrumada, as ideias lavadas e a narrativa alinhada por pesos e alturas. Os livros do Mestre são autênticas aventuras dos sentidos que nos atropelam em cada frase estilhaçada, em cada pensamento intermitente, em cada personagem que começa a falar e pára de repente para continuar mais adiante, indiferente ao tempo a que se refere e a quem lhe termine a frase. Mas no ambiente caótico deste mar de escrita, tal como no mar real, o truque é abandonarmo-nos às vagas, deixar que a corrente nos leve, apreciar essa vertigem de estar num mundo que não dominamos e fazer a viagem. Essencialmente “sentir”, permitir que as células do romance se confundam com as nossas, ver no silêncio o desenho do diálogo do leitor com os outros personagens.

Descendente do (para mim) melhor romance da obra do Mestre (“Explicação dos Pássaros”), este “Não É Meia-noite Quem Quer” apresenta-se num fim-de-semana de despedida de uma mulher que visita a casa de férias da sua infância antes de se suicidar. Em ambos os romances estamos perante a morte anunciada, suicida ou não, do personagem central. Se no primeiro caso se vai desenrolando a desarrumação total da vida presente do homem, neste é a recordação da vida que se arruma na cabeça de uma mulher com 50/60 anos. A memória de uma família em que todos sofrem para dentro, em que os gestos de carinho são intenções que ficam suspensas no ar, quatro filhos, um pai bêbado e uma mãe austera, um espaço familiar em que o pudor de demonstrar o afecto é tão grande que ninguém acaba por perceber bem, sequer, se alguém gosta de alguém. As memórias de uma mulher que carrega consigo a dor da morte do irmão que se recusou ir para a guerra e se atirou do penhasco, do outro que voltou da guerra e se afastou da família, do surdo, da mãe adultera e disciplinadora que a segurou ao colo uma vez, do pai que se escondia na dispensa no meio das garrafas, de um marido que foi mais acidental do que passional, das amigas com que partilhou afectos. E mais importante para quem recorda antes de morrer, não é saber se foi feliz, não é pescar remorsos, rancores, culpas, maravilhas por explorar. Apenas fazer correr o filme de uma vida, repetir cenas, frases e gestos e encontrar finalmente a estação da aceitação das coisas na sua realidade mais óbvia. Não se trata de perdoar nem muito menos aceitar o que quer que seja, mas fazer do registo um exercício de testemunho existencial. Esta foi a nossa vida, vamos morrer a seguir, uma coisa e de pois outra sem etiquetas nem grandes pensamentos para embrulho. Assim é a existência, esse fenómeno pouco seguro, pouco dado a certezas e justificações, essa simples vivência, objecto de registo e indiferença, de memória e tentativa de compreensão.

“Não É Meia-noite Quem Quer” é mais um momento de paixão e vertigem em que as páginas se percorrem sem cansaço num mar de memórias de uma mulher que tenta fazer as últimas arrumações do seu passado e, desse modo, o registo da sua existência. Ficamos amigos dela sem reservas a partir do momento em que a sua história se torna a nossa história, em que a sua respiração nos devolve o ar, em que o seu coração nos faz circular o sangue das nossas veias. Porque a Humanidade é apenas uma.

Obrigado Mestre. 

Artur Guilherme Carvalho
12.11.2012
As Partes do Todo

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