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Os três textos vencedores do passatempo Não É Meia Noite Quem Quer

Temos o prazer de anunciar os três textos vencedores do passatempo que decorreu em Setembro a propósito da publicação do novo livro de António Lobo Antunes, Não É Meia Noite Quem Quer

Os autores dos textos já nos confirmaram a sua participação por e-mail, dentro das 24 horas previstas. Cada uma receberá - oferta da LeYa - D. Quixote - um exemplar do novo livro a publicar dia 8 de Outubro.

Aos três os nossos parabéns.

O Meia-Noite
texto da autoria de Paulo Leote e Brito
Albufeira


As calças presas por um baraço que lhe rodeava a cintura, umas sandálias de couro a proteger os pés nus. Na cabeça um chapéu de palha com uma fita preta a dizer Algarve, ao pescoço um babete com uma bolsa que nos dias bons abarrotava de beatas, por cima de uma t’shirt amarela onde nas costas se lia "Meia Maratona da Esperança 2004". Na frente, o símbolo da junta de freguesia do Cardoçal. 

- “Meia-Noite” anda tomar os comprimidos! 

- À meia-noite! 

respondia invariavelmente àquela ou a qualquer outra pergunta que lhe fizessem. 

- À meia-noite não pode ser, já estás a dormir! 

às vezes estava a dormir, quando tinha um isqueiro não estava, escrevia até o gás se acabar, enchia páginas e páginas de frases muito alinhadas numa caligrafia infantil 

- Quem é meia-noite não quer ser visto noutra hora. 

respondia escapando-se para somente se deixar ver nas horas das refeições. 

Um senhor tão calado quanto ele, vinha todas as terças-feiras falar com o Meia-Noite, envergava uma bata branca, no bolso um estetoscópio inútil, 

Inútil, porque aquelas cabeças nunca obedeciam a ordens de estetoscópios. 

duas canetas e alguns lápis dos quais o Meia Noite raramente desviava o olhar. Ficavam ali os dois silenciosos durante cinquenta minutos, um dia o senhor da bata branca deu-lhe um caderno, uma borracha e uma dúzia de viarcos nº 2. 

- Podes escrever o que te apetecer entre as meias-noites. 

Continuou a apanhar beatas do chão e a guardá-las no bolso do babete, depois sentava-se a escrever onde ninguém o visse. 

O sujeito da bata já sabia quando faltavam folhas ou lápis ao Meia-Noite, ele sentava-se na cadeira em frente da secretária e fixava o olhar no bolso onde se acomodavam as canetas os lápis e o estetoscópio inútil. Nos outros dias olhava para o chão, às vezes olhava para a porta, noutras tentava contar os cinquenta minutos no relógio do senhor da bata branca. 

Numa terça-feira, o senhor da bata branca interrompeu o silêncio e perguntou-lhe 

- Porque é que lhe batias, “Meia-Noite”? 

pela primeira vez não respondeu de pronto, 

(- À meia-noite!) 

deixou passar uns segundos e devolveu outra pergunta 

- Há quanto tempo ela não deixava cair uma lágrima?! 

e acrescentou de imediato 

-Quem é meia-noite não quer ser visto noutra hora!



A vingança das naus
texto da autoria de Anabela Pereira
Vila Nova de Gaia

As naus grivam desfraldadas sôbolos rios que vão
e o vento burila gelhas nos nervos da meia-noite.

Para onde quer que olhe, ainda é cedo. Muito cedo
para dizer boa tarde às coisas aqui em baixo e montar
que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar. Que
besta do paraíso viveu a morte de Carlos Gardel
em troca da vida de quem nos mata. Quem desceu na história
do hidroavião para o conhecimento do inferno em que se tornou
o esplendor de Portugal: triste arquipélago da insónia transportando
sob um braço amputado de glória
o eterno manual dos inquisidores.

Desci à sua memória de elefante e nos seus cus de judas
esquadrinhei, entre a ordem natural das coisas, o fado alexandrino
que fala da saudade. Não tenho comigo o tempo do homem tratado
das paixões da alma, da explicação dos pássaros,
da exortação aos crocodilos. Não tenho quem chegue,
não tenho quem parta. O seu nome é Legião e perdêmo-la
quando desenfreamos até ao alto dos danados. E procurámo-la,
perdidos. Ontem não a vimos em Babilónia, e hoje
mitigamos, com os dedos no rosto, a comichão das lágrimas.

Que farei amanhã quando tudo arde e eu não entrar tão depressa
nessa noite escura? Nessa lama cega,
nesse odor de grito,
onde eu hei-de amar uma pedra
em que me sentei a escrever d'este viver
aqui, neste papel descripto.



António
texto da autoria de Alexandra Malheiro
Porto

Meia-noite e eu a escrever sobre o António. Como se eu conhecesse o António, não conheço, ou como se escrever sobre o António – quem? – servisse de alguma coisa, não serve. 

O António, o dos livros, o da mão que escreve sozinha, não o que escreve mas o que deixa a mão escrever, o que deixa que a mão escreva. 

Não serve de nada tentar escrever sobre quem escreve, é como pensar sobre o pensamento ou tentar ser objectivo sobre coisas abstractas. 

Ainda assim, teimosa, eis-me aqui a escrever sobre o António. 

- É doida você? 

Uma pessoa não escreve só porque quer – que o diga o António – a gente pega na caneta e ela vai, ganha vida e vai. 

- É doida você? 

Eu podia muito bem estar a escrever sobre sombras ou aluviões e não o António e o que ele escreve. Que me interessa lá o António, a mim que nunca estive em África, não lhe conheci o pai a fumar cachimbo nos corredores do hospital, nem o vi a ele pelos corredores do hospital, a perder o olho torto no pé pendente do menino morto – diz que é para ele que escreve. 

- É doida você? 

Pode lá alguém escrever para um pé e de um menino já morto, disparate. Não me interesso por nada disso, não me diz respeito. Mas se nada disso me interessa porque me incomoda e me revolve por dentro o António, não o António mas o que ele escreve, ou talvez nem o António mas a mão que escreve ou a mão que o António deixa que escreva por ele. 

Um dia destes deixo de escrever sobre o António e escrevo ao António. Escrevo-lhe “Doutor, deixe-me ser sua doente!” 

- É doida você?

*****

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