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Passatempo Não é meia-noite quem quer: os textos dos participantes

Conforme anunciado, e após o encerramento das participações, publicamos os textos cujos autores estão habilitados a um exemplar de Não É Meia Noite Quem Quer. Serão escolhidos três vencedores do prémio, que oportunamente divulgaremos. Seguem-se os textos, onde era solicitado que de forma criativa se dissertasse sobre um aspecto de António Lobo Antunes e a utilização aleatória das palavras não, é, meia-noite, quem e quer. Foram considerados válidos 16 textos num total de 20 participações.


As sombras de mim
Joana Martins, Póvoa de Varzim

Não, não é meia-noite, as tuas mãos dançam melhor sob a luz amarelada e ténue das velas antigas. 

Conheci o Inferno, vi o cu ao Judas e os pássaros loucos a esvoaçar no terreiro em bando, qual cenário do apocalipse, vi tudo fora do seu lugar. Quem e quer  de mim se foi, me levou inerte ao óbolo.

Não foi Caronte que duvidou, não foi o rio que não me levou, foste tu que permitiste que eu fosse ao fundo de mim, saltei para dentro de mim e engoli-me em gigante numa só golfada. Revisitei-me nos lugares em que habitámos, nas esquinas em que fumei um cigarro lânguido e sereno, nos mergulhos em mar revolto, nas ondas que me esbofetearam, nos momentos em que a brisa me cumprimentava o rosto e o cheiro a Verão se despedia melancolicamente.


Passeando pelos cantos da casa
Pedro Ribeiro Soares, Praia da Vitória

A despensa claustrofóbica trancou-se sozinha. Deambularam berros embriagados com aguardentes do passado. Enroscou-se em seus próprios braços e sentou o cu no chão frio que a empregada lavara de tarde. Balas e bombas rebentaram dos azulejos e no escritório amarrou-se um laço em volta do pescoço. Era doutor e os campos viviam cinzentos, com brancos e pretos, e as granadas substituíram os corações dos miúdos que ficaram esventrados ao Sol. Eram músculos que saltavam bem alto. Explodiam num tempo de valsa intermitente. Pum! E as luzes apagaram-se sozinhas. As paredes encolheram lentamente e o demónio por pouco não lhe fulminou os intestinos. Já se tinham absorvido tantas merdas e o relógio ainda não tinha batido na meia-noite. Quem é? Gritou ao eco da porta. Quem é? Não é ninguém, disse-lhe a mãe, baixinho. Somos só nós.

A despensa claustrofóbica trancou-se sozinha e a chave estava no sítio da granada. Quer queiramos, quer não, é sempre tempo de abrir a porta.


ainda o café
Larissa Marques, Brasília


acusa-me, amor! sim, admito, sou leviana, pueril e me prendo ao que seja leve e despretensioso. continuo cativando meus vícios por livros de António Lobo Antunes, por dormir depois da meia-noite e perambular pela casa enquanto todos dormem. posso me dar ao luxo de não ser convencional e me fazer de imbecil a maior parte do tempo. se uma xícara de chá esfria tão rápido e alguns depois de frios não conservam o sabor e a fragrância, posso ser assim. não pedirei desculpas por meus erros, ou pelo que me marca única, somos assim vãos. nada me vale mais que viver, o que me move é lembrar depois. serei uma velha chata e enquanto isso não acontece, tomo o café quente e amargo que me serviu a pouco. sua essência ainda permanecerá, pelo menos por algum tempo. e ser essência não é para quem quer.


Meia-noite (ser)
Carlos Sena, Parede

Só não quer ser meia-noite
Quem dia inteiro é.
Eu só quero, dia e noite,
Que o ALA não desista
De ser o escritor que é.

Quem quer meia-noite ser?
Eu não quero nada a meio
Quero a noite por inteiro
Com o dia todo de permeio
Para o ALA poder ler.

Não é meia-noite quem quer
Nem é meio-dia quem pode
Só o  tempo quer e pode
Mas fatiga-se 24 horas
Para dia inteiro ser.


O Meia-Noite
Paulo Leote e Brito, Albufeira

As calças presas por um baraço que lhe rodeava a cintura, umas sandálias de couro a proteger os pés nus. Na cabeça um chapéu de palha com uma fita preta a dizer Algarve, ao pescoço um babete com uma bolsa que nos dias bons abarrotava de beatas, por cima de uma t’shirt amarela onde nas costas se lia "Meia Maratona da Esperança 2004". Na frente, o símbolo da junta de freguesia do Cardoçal.

-“Meia-Noite” anda tomar os comprimidos!

-À meia-noite!
respondia invariavelmente àquela ou a qualquer outra pergunta que lhe fizessem.

À meia-noite não pode ser, já estás a dormir!
às vezes estava a dormir, quando tinha um isqueiro não estava, escrevia até o gás se acabar, enchia páginas e páginas de frases muito alinhadas numa caligrafia infantil  

-Quem é meia-noite não quer ser visto noutra hora.
respondia escapando-se para somente se deixar ver nas horas das refeições.

Um senhor tão calado quanto ele, vinha todas as terças-feiras falar com o Meia-Noite, envergava uma bata branca, no bolso um estetoscópio inútil,

Inútil, porque aquelas cabeças nunca obedeciam a ordens de estetoscópios.

duas canetas e alguns lápis dos quais o Meia Noite raramente desviava o olhar. Ficavam ali os dois silenciosos durante cinquenta minutos, um dia o senhor da bata branca deu-lhe um caderno, uma borracha e uma dúzia de viarcos nº2.

-Podes escrever o que te apetecer entre as meias-noites.

Continuou a apanhar beatas do chão e a guardá-las no bolso do babete, depois sentava-se a escrever onde ninguém o visse.

O sujeito da bata já sabia quando faltavam folhas ou lápis ao Meia-Noite, ele sentava-se na cadeira em frente da secretária e fixava o olhar no bolso onde se acomodavam as canetas os lápis e o estetoscópio inútil. Nos outros dias olhava para o chão, às vezes olhava para a porta, noutras tentava contar os cinquenta minutos no relógio do senhor da bata branca.

Numa terça-feira, o senhor da bata branca interrompeu o silêncio e perguntou-lhe

-Porque é que lhe batias, “Meia-Noite”?

pela primeira vez não respondeu de pronto,

(-À meia-noite!)

deixou passar uns segundos e devolveu outra pergunta

-Há quanto tempo ela não deixava cair uma lágrima?!

e acrescentou de imediato

-Quem é meia-noite não quer ser visto noutra hora!


O maior escritor do meu bairro
Miguel Marques, Lisboa

É meia-noite neste bairro triste, plantando de candeeiros, onde a luzes são tristes, as lâmpadas são tristes, os candeeiros são tristes. Onde o próprio escuro se põe triste. Até a água, caída das varandas e das caixas dos ares-condicionados cá para baixo, para a rua, dá a impressão de lágrimas vertidas pelas pálpebras dos algerozes, copiosos de tristeza. Abeiro-me da varanda, a minha varanda triste e chorosa, no fito de alumiar a noite de isqueiros e cigarros, e detenho-me nas esquinas dos travestis e das prostitutas que enfeitam a noite de uma tristeza diferente, feita de rímel e bofetadas. Aqui há dias, melhor, há noites atrás, ouvi uma, melhor, ouvi um, gritar alhos e bugalhos na direcção de um carro, um carro enorme, com umas colunas de som maiores do que ele, estacionado defronte da esplanada no café dos brasileiros. A mulher, creio que a mulher, no meio da estrada, mandava vir com alguém dentro do carro, alguém que não se via, enquanto gritava e chorava igual a uma marquise cujas goteiras inundassem em charco as pedras do passeio.

- Veadão, pô - disse ela. Julgo que ela. – Cê vai se ferrá, vai vê só. Vou contá pra todo o mundo. Esse negócio vai virá gerau, podicrê – continuou, e a panela de escape chispou uma ira de alta cilindrada.

O condutor, creio que o condutor, do carro limitou-se a aumentar o volume no auto-rádio, e uma música semelhante a um raide aéreo entristeceu de decibéis o pouco que restava do bairro. O bairro. O nosso bairro. O teu bairro. Moras no mesmo bairro que eu. Enquanto aqui morar, por tua causa, nunca poderei almejar sequer tornar-me no maior escritor do meu bairro. Enquanto aqui morar, serás sempre tu o maior escritor do meu bairro. Do nosso bairro. Quem quer que aqui venha, ignora que haja tamanha tristeza e solidão para lá dos estores que sobem e descem como olhos ensonados, antes de irem dormir. Eu não vou dormir. Não tenho sono. Nunca tenho sono. O relógio da sala manda-me ir deitar. Já passa da uma, diz ele, e depois vem um cuco cá fora, saído de uma porta secreta, uma porta que abre para a barriga do relógio e me faz sempre pensar em barrigas que dão horas. Nunca tenho sono. Não posso ter sono. Não me apetece ter sono só para poder escrever. Escrever melhor do que tu. É uma tristeza pensar nestes termos, bem sei, mas, mais uma menos uma, neste bairro, ninguém nota. A esta hora não estás a escrever, penso para mim. Aproveitas o dia e eu a noite, talvez por isso a tua escrita ilumine as ruas que existem em nós e os meus gatafunhos se limitem a busca-pólos procurando uma faísca de nada no escuro. E é tão difícil, iluminar o escuro. Pela janela, os berros dos polícias, das prostitutas, dos travestis, o relógio de cuco, o dono do café dos brasileiros.

- Vai embora logo, cara, deixa esse troço pra lá – diz alguém. Ia jurar que alguém.

- Ó pá, é preciso ir aí abaixo partir-te a tromba? – um vizinho. Talvez um vizinho.

- Vai dormi, pô. Larga esse treco, cê não vai ganhá nada, memo. Uma e meia daqui nada, mermão – o cuco. Sim, o cuco.

São duas horas. O cuco espreita, como que nascido das entranhas dos ponteiros das horas e dos minutos. Deixo-o passarinhar à vontade. Faz-me companhia, no fundo. A seguir, sem ele ver, escancaro a porta do relógio, de caneta na mão, e entro à pergunta de uma tomada eléctrica que me faça um bocadinho de luz.


António
Alexandra Malheiro, Porto

Meia-noite e eu a escrever sobre o António. Como se eu conhecesse o António, não conheço, ou como se escrever sobre o António – quem? – servisse de alguma coisa, não serve.
O António, o dos livros, o da mão que escreve sozinha, não o que escreve mas o que deixa a mão escrever, o que deixa que a mão escreva.
Não serve de nada tentar escrever sobre quem escreve, é como pensar sobre o pensamento ou tentar ser objectivo sobre coisas abstractas. 
Ainda assim, teimosa, eis-me aqui a escrever sobre o António.
- É doida você?
Uma pessoa não escreve só porque quer – que o diga o António – a gente pega na caneta e ela vai, ganha vida e vai.
- É doida você?
Eu podia muito bem estar a escrever sobre sombras ou aluviões e não o António e o que ele escreve. Que me interessa lá o António, a mim que nunca estive em África, não lhe conheci o pai a fumar cachimbo nos corredores do hospital, nem o vi a ele pelos corredores do hospital, a perder o olho torto no pé pendente do menino morto – diz que é para ele que escreve.
- É doida você?
Pode lá alguém escrever para um pé e de um menino já morto, disparate. Não me interesso por nada disso, não me diz respeito. Mas se nada disso me interessa porque me incomoda e me revolve por dentro o António, não o António mas o que ele escreve, ou talvez nem o António mas a mão que escreve ou a mão que o António deixa que escreva por ele.
Um dia destes deixo de escrever sobre o António e escrevo ao António. Escrevo-lhe “Doutor, deixe-me ser sua doente!”
- É doida você?


Da importância das toalhas brancas
Rui Sousa, Lisboa


Acordo. Tenho saudades dos dias em que te encontrava de manhã ao meu lado, antes de encarar o dia que me aguardava na rigidez das horas. Quem me roubou estes dias?

É desta forma que acordo após ter adormecido muito depois da meia-noite. 

Acordo. Não estás ao meu lado. Sinto o odor dos sonhos transpirados durante a noite, das ânsias sentidas antes de adormecer, enquanto me esforçava por “entrar” no último livro do António Lobo Antunes, publicitado como a “melhor obra do escritor até à data” (pergunto-me se algum autor quer ler isto sobre algum livro seu…). Sinto o cheiro dos lençóis de algodão aquecidos pela minha solidão. Sinto o hálito dos livros que também dormiram cansados de esperar por uma segunda leitura. 

Soergo-me à custa dos braços e não da vontade. Penso que podes surgir a qualquer momento após o banho matinal, com a habitual toalha branca enrolada. Sempre branca. Sempre confortável. E agora tão improvável.
Tão perto e tão longe
Maria Graça Gomes, Almada

O Verão entrou pelo Outono dentro sem pedir licença. As esplanadas em Lisboa eram lugares apetecíveis. Parei na primeira que encontrei, ali para os lados do Conde Redondo, no caminho que me iria levar ao encontro com a minha amiga. 

Sentei-me e pedi um café. Na mesa ao lado estavam três pessoas a almoçar:

– Dois homens e uma mulher. Um dos homens comia, ao mesmo tempo que ia alimentando a conversa do outro, que só falava e fumava, falava e fumava. A mulher acompanhava-o no fumo e dava-lhe toda a atenção do mundo. Lembro-me que havia uma sobremesa em cima da mesa, intacta, esquecida, à espera que a ilustre figura se dignasse saboreá-la.

Sim, ilustre figura! António Lobo Antunes em carne e osso, ali, tão perto de mim e ao mesmo tempo tão longe… Não sei se consegui camuflar a emoção que senti. A vontade de lhe falar era imensa… Era capaz de ficar ali com ele a ouvi-lo até à meia-noite … Mas a timidez… ganhou.

Lá diz o povo:

– “Quem quer vai, quem não quer manda”. Eu nem uma coisa nem outra. Fiquei paralisada. Consegui apenas, e não directamente, pedir lume – dava-me lume por favor?

Não fumei o cigarro até ao fim, faltou-me a descontracção necessária que o acto exige. Saí dali. Pelo caminho fui pensando em todas as palavras que lhe poderia ter dito e não tive coragem. 

– Como está, Sr. António Lobo Antunes! Sou apaixonada por si, pelo seu imenso talento, pela sua grandeza. O Senhor é maior do que o país que o viu nascer! É a luz que nos faz acreditar, que ainda é possível! Obrigado por ser Português, sinto um grande orgulho. 

Cuide de si.


Desistidos
Bruno Assunção, Recife

Estávamos a esperar o carro atravessados no interstício da meia-noite. Tiros e gritos. Guerra. Longe, mas como nos comoviam aqueles indícios de morte através da medula rumo aonde começa, talvez, a alma. “Faz frio” disse um de nós quando todos queríamos dizer “que porra estarmos metidos aqui, sem socorro como um bando de vira-latas a esperar afago de uma mão que não se delineou”. Adivinhávamos a solidão que a madrugada injecta nas veias quando o silêncio tem pulso na pele com a esperança de que a espera fosse um simples exercício de tensão. Podíamos estar em um livro, personagens de uma narrativa para a qual não nos tinham convidado. Talvez Lobo Antunes nos experimentasse com sua mão literária a criar vozes para concretizar o indiscernível. “Aonde é que nos levarão?” “Qualquer lugar. Quer ficar aqui?” O uivo de calafrios do vento a vazar por frestas de muros como uma sentença. Alguém devia ter desistido de nós, deixando-nos no cerne da noite em Lisboa, talvez Luanda. A guerra, uma criatura que nos farejava. “Onde estamos?”. A pergunta não podia ser essa. Ela não resumia o pavor de entranhas que nos corroía  Vozes abandonadas em suas existências nocturnas.

“Quem nos abandona neste deserto de desassossegos?”


Não me ignores madrugada
José Luís Atilano, Braga

Já não encontro o cheiro à chuva no relógio de gerações que o ontem de manhã arrastou numa guitazinha presa aos olhos, juntamente consigo. Desde que o senhor ou o doutor
(ou outra coisa desconhecida…
- Quem?)
abandonou o Miguel Bombarda, que me é difícil
(ou é-me impossível e isto não são palavras)
escrever sobre a cor da chuva que escoa em Agosto as correntes do estábulo
(às vezes lembro-me, num escurecer de lustre que a meia-noite banha…ora que estupidez, não me lembro coisa nenhuma, tenho antes a clara impressão de ver o consultório com um António lá dentro, preso nos ontens de um Antunes na parede branca ou do abrir da porta que dá mundos ao corredor dos passos, e o corredor ou os passos vazios de tudo, com um lobo a carpir
- Ele quer exortar fantasmas!)
- Tocaram à campainha
(nós que nem campainha…sem electricidade há meses)
A porta aberta ao limiar da charneira de si mesma e uma surdez de nada num cheiro a vinagre, saudade e água, com a minha avó lá fora a imolar galinhas num escambro de fim de tarde.


F(ALA)RIO
Georgina Noronha, Paço de Arcos

- Não entres tão depressa nessa noite escura, só encontrarás o Arquipélago da Insónia, onde navegam as naus que vão para os cus de Judas.
- O meu nome é Legião, e com o conhecimento do Inferno que adquiri, quem é para me dar conselhos?
- Foi porque ontem não te vi em Babilónia e porque, hoje e sempre, eu hei-de amar uma pedra, quer sejas tu, ou outra qualquer, que aqui estou.
- Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?
- Segundo a ordem natural das coisas, serão cavalos marinhos, mas  à meia-noite, de uma noite escura é certo e sabido, que não fazem sombra no mar.
- Que farei quando tudo arde?
- Já vi que engoliste o Manual dos Inquisidores, mas eu vou dar-te a explicação dos pássaros: voa, qual Fénix renascida, e depois diz bom dia ou boa tarde às coisas aqui em baixo, nunca boa noite.
- Isso até parece o Fado Alexandrino “disseste bom dia e era noite lá fora”, conheces? Do meu amigo Vitorino?
- Claro que sim, sei a letra toda, tenho uma memória de elefante, sabes? Do esplendor de Portugal, à morte de Carlos Gardel, passando pelo que comi hoje, tudo está em memória.
- Se fosse a si, escrevia livros … sermões. Sei de um que escreveu um sermão aos peixes, chamava-se António, parece que era Santo.
- E eu escrevo livros, também me chamo António, não sou santo, por enquanto, e escrevi  uma exortação aos crocodilos, voilà.
- Eu também escrevi, fui escriba … escrivão … de Autos, escrevi o Auto dos Danados, e fui acusado de perdas e danos e demitido. Houve  choro e ranger de dentes. 
À boa maneira lusa, tratei de criar logo uma comissão, a comissão das lágrimas. De nada serviu e, agora, aqui estou, quer dizer, sou, um verdadeiro tratado, um Tratado das paixões da alma.


A vingança da naus
Anabela Pereira, Vila Nova de Gaia

As naus grivam desfraldadas sôbolos rios que vão 
e o vento burila gelhas nos nervos da meia-noite. 

Para onde quer que olhe, ainda é cedo. Muito cedo 
para dizer boa tarde às coisas aqui em baixo e montar
que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar. Que 
besta do paraíso viveu a morte de Carlos Gardel
em troca da vida  de quem nos mata. Quem desceu na história 
do hidroavião para o conhecimento do inferno em que se tornou 
o esplendor de Portugal: triste arquipélago da insónia transportando 
sob um braço amputado de glória
o eterno manual dos inquisidores.

Desci à sua memória de elefante e nos seus cus de judas 
esquadrinhei, entre a ordem natural das coisas, o fado alexandrino 
que fala da saudade. Não tenho comigo o tempo do homem tratado 
das paixões da alma, da explicação dos pássaros, 
da exortação aos crocodilos. Não tenho quem chegue, 
não tenho quem parta. O seu nome é Legião e perdêmo-la
quando desenfreamos até ao alto dos danados. E procurámo-la, 
perdidos. Ontem não a vimos em Babilónia, e hoje 
mitigamos, com os dedos no rosto, a comichão das lágrimas. 

Que farei amanhã quando tudo arde e eu não entrar tão depressa 
nessa noite escura? Nessa lama cega, 
nesse odor de grito,
onde eu hei-de amar uma pedra 
em que me sentei a escrever d`este viver 
aqui,
neste papel descripto.



O António do Benfica
Simão Fonseca, Vila Nova de Famalicão


É um mimo ver o António a patinar pelas folhas de dezenas de romances, puxando do stick, não sem primeiro medir bem a intensidade e o efeito para atacar o próximo parágrafo e aí, sim, humedece a língua, coloca-la de fora, e a Bic desata a deslizar pelo ringue de páginas. Quer se queira, quer não, o outrora miúdo de olhos azuis e cabelo louro é o grande capitão das letras e o mais que digno escriba dos camões. Finta um, finta outro, segura a bola, pára, arranca rumo aos escaparates e golo pela certa: meia-noite e fazem fila para abraçarem o novo tomo.

Redigiu já quase trinta equipas, recebeu inúmeros galardões pelas suas vitórias e é candidato à Bola de Ouro Médicis. Enfim, o crónico candidato para vencer o Campeonato de Estocolmo. Quem é, quem? É o António do Benfica, pois claro.


Malmequer
Gracinda Menezes, Algés

António Lobo Antunes, além de ser fisicamente parecido com o meu primeiro e último (nem sempre sabemos o que é “o último“) amor, também me faz reviver, através de alguns dos seus livros, sentimentos, emoções, alegrias e tristezas, personagens de quem tenho saudades. Seria o meu amante perfeito, não fosse eu uma senhora de meia-idade e ele um senhor da minha ficção. “Eu hei-de amar uma pedra” foi um desses livros que devorei numa noite, em que  recordei uma história  em que a última pétala era a Bem me Quer.


Insónia
Nuno Camisa, Lisboa

É meia-noite e continuo acordado. Mais uma vez, a insónia ataca no domingo à noite. Não é a primeira vez, nem será a última. Na verdade, nenhum mal vem ao mundo por não conseguir dormir, se resolver ignorar que às seis da manhã tenho de estar a pé.
Na casa, reina o silêncio, levando a que cada acção seja praticada na mais profunda discrição. Faço mais um zapping à procura de algo, que não sei ao certo o quê. Publicidade, publicidade, novela, publicidade, telemarketing e mais publicidade. Por esta altura, sou já o menos exigente dos espectadores. Dêem-me uma série ou um filme, que para mim chega. Mais uma busca, o mesmo resultado.
Por fim, vislumbro uma cara conhecida, Anthony Bourdain e as suas aventuras gastronómicas. Problema resolvido, agora é só esperar que as imagens me levem para um qualquer local paradisíaco, enquanto o sono não me leva de vez. Mas, eu reconheço aquela ponte; e aquela rua também não me é estranha; não pode ser, eu já estive a beber copos naquele bar. Finalmente, as minhas dúvidas são respondidas, este episódio é sobre Lisboa.
Provavelmente, esta dissertação televisiva não me adiantará em nada. Devo conhecer quase todos os locais. Contudo, com o saudosismo próprio dos portugueses, sinto-me atraído por aquele retrato da minha cidade.
Já não apanhei o programa de início, mas àquela hora, até os cinco minutos finais seriam bem-vindos. Num sotaque nitidamente americano, o apresentador anuncia que vai a uma casa de fados no Bairro Alto, acompanhado por um autor português. É com algum espanto que recebo a notícia que o autor em causa se trata de António Lobo Antunes. Nunca li nada dele, e, de facto, nunca ouvi alguém falar positivamente da sua escrita. Outro episódio que me ficou marcado foi uma vez que o encontrei na feira do livro. Sentado a fumar, constantemente a revirar os olhos e com uma arrogância tal, que me deixou com náuseas. Pelo que, a minha opinião acerca dele, não era a melhor.
A princípio, fui ouvindo cada comentário seu, com a mesma impaciência de quem espera pelo metro. Contudo, houve algo que me chamou a atenção. A sua postura, naquele momento numa casa de fados, num programa reconhecido internacionalmente, era exactamente a mesma da feira do livro. A falar, pausadamente, ia dialogando com o americano ao ritmo que bem entendia. Fumando um cigarro e bebendo um copo de tinto. A realização fez questão de mostrar um sinal que dizia Proibido Fumar, mas as regras só têm o valor que lhes quisermos conferir.
Não sei bem em que momento foi, porém à medida que a cena foi decorrendo, a minha impressão acerca do autor foi mudando drasticamente. Talvez tenha sido a atitude Tou-me a lixar, ou as críticas, factuais, à ditadura do Estado Novo; contudo no fim daquele excerto fiquei boquiaberto. Pai, o que é a democracia? Cala-te e como a sopa.
No dia seguinte, peguei no livro Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar. Já tinha lido muitos autores diferentes, muitos estilos literários diferentes, contudo nenhum assim. A escrita densa e envolvente, a narrativa avançando aos solavancos, quase como o decorrer de pensamentos de cada uma das personagens, o ambiente negro e deprimente, a gramática simples e minimalista.
Não sei o que esperar do próximo livro, contudo é certo que manterá os padrões elevados do anterior. Far-me-á ficar agarrado da primeira à última página, quer queira quer não.



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